Notas iniciais
Olá pessoa lindas, eu nem demorei dessa vez não é? Esse ano parece ter uma aura boa consigo, sinto que será um ano excelente! Não sei ainda o que pensar sobre esse capítulo, foi um dos mais difíceis que já escrevi até agora! Peço que leiam as notas finais, ok? Obrigada a todos que comentam e me ajudam sempre, me procurando quando estou sumida. E o número de fantasminhas que aparecem no face para dizer olá está aumentando rs Fico feliz que a fic esteja crescendo. Respirem fundo e preparem os corações, algumas partes são difíceis, mas é tudo pelo bem da história. Boa leitura amores! Plágio é crime! Não copie essa fanfic.

– Que tipo de presente? — Menma arqueou a sobrancelha.

– Eu não sei, por isso estou pedindo sua ajuda!

– Tem vários tipos de presente Naru, mas que eu saiba, o Natal e ano novo já passaram.

– Sei disso, e esse é o motivo. Eu não dei nada de presente ao Sasuke. Estávamos ocupados comemorando... Eu só queria dizer obrigado, sabe? Algo que demonstrasse a gratidão que tenho por ele, afinal por causa do Sasuke tive um bom ano, muitas coisas aconteceram.

– Tente descobrir alguma coisa que ele gosta então.

Naruto torceu o bico.

Quando pensou em qual seria o presente ideal para Sasuke percebeu que não sabia muito sobre ele. Na realidade quanto mais pensava, mais se dava conta de que ele ainda soava como um mistério, coisas como gostos e preferências ficavam incógnitas. Não conhecia as bandas favoritas dele, que tipo de perfume usava ou as marcas de roupas que escolhia.

Achou que algum tempo de convivência ensinaria o bastante sobre Sasuke, mas estava muito enganado.

Andavam os dois pela calçada de um centro comercial. A pior parte era ser constantemente seguido, de longe, por aquele estranho homem de cabelos platinados. Era irritante, bastava olhar para trás e ali estaria ele, em algum lugar entre a multidão, os olhos sempre muito atentos, o rosto escondido detrás da máscara.

Que tipo de pessoa seria? Gostaria muito de saber. Nunca conversara com o tal Kakashi, ele não permitia qualquer tipo de aproximação ou conversa. Naruto até mesmo achava que fosse por ser um homem compenetrado com o trabalho, mas mudou de ideia ao vê-lo caminhando normalmente entre a multidão enquanto lia um livro pornográfico.

Deteve-se diante de uma joalheria e suspirou de leve ao fitar as alianças douradas, obviamente de casamento.

Jamais teria coragem de comprar uma daquelas, e não devido ao preço. Mesmo que ensaiasse por dias seguidos estava fora de cogitação ajoelhar-se ante a Sasuke e o pedir em casamento. Não tinha coragem suficiente para tal feito.

Quando o fizera para Sakura não havia envolvimento amoroso algum, mas no caso do Uchiha sabia o quão sistemático ele poderia ser, e que jamais diria o esperado "sim" a menos que tivesse cada passo previamente planejado.

E isso o fazia estremecer ante a ideia de receber um "não" como resposta.

Moveu a boca num muxoxo desagradado enquanto fitava uma aliança linda, que adoraria que estivesse em seu dedo.

Sasuke manteria aquele joguinho para sempre? Será mesmo que falara sério sobre se casarem um dia? Talvez estivesse somente postergando para enrolá-lo.

Não, ele não parecia esse tipo de pessoa. Ainda mais depois de tudo que já haviam passado ao longo daqueles meses juntos.

Alisou devagar a barriga que crescia, afinal havia chegado ao quinto mês de gestação.

Talvez Sasuke estivesse esperando um pedido vindo dele? Não fazia muito seu tipo já que ele gostava de tomar a iniciativa sempre. Havia, é claro, o empecilho de não conseguir o divórcio de Karin mas... Ao menos poderiam ficar noivos, não é?

Menma riu das caras feias que o primo fazia parado diante da joalheria.

– Se ficar pressionando-o ele não vai fazer o pedido, Naru. Aposto como quer fazer isso quando você menos esperar — adivinhou o pensamento facilmente.

– Pois nesse ritmo meus filhos nascem e eu não me caso — suspirou — Se já vamos morar juntos, custaria muito ele se tornar meu noivo?

– Por que essa neura logo agora? Ele não consegue se divorciar da ruiva doida, não é?

– Nem me fale dela! — rolou os olhos — Mas isso não é motivo para me deixar nessa angústia toda!

O mais novo não quis argumentar. Naruto estava pronto a ir embora mas então postou os olhos em algo especial, que roubou totalmente sua atenção. Sem pensar duas vezes ele entra na joalheria, procurando um rapaz que prontamente o atendeu.

– Quero aquele que está na vitrine, por favor — apontou e o rapaz logo entendeu. Menma cutucou o primo.

– Tem certeza? Parece um pouco caro...

– Tenho algum dinheiro guardado — riu travesso — Acho que é um dinheiro bem gasto, é um presente perfeito!

–-

Naquela noite havia ido jantar na casa de Naruto, eram os últimos dias antes do apartamento deles ficar pronto, finalmente.

Estranhou o loirinho empolgado que o enlaçou pelo pescoço aplicando-lhe um grande beijo que quase o levou ao chão.

– O que você tem hoje? — tentou se recuperar e adentrar a sala tendo o Uzumaki praticamente pendurado no pescoço.

– Não posso ficar feliz em te ver?

– Isso tem cara de chantagem — riu — O que você quer?

– Que absurdo! — fingiu-se ressentido — Eu só queria criar um clima especial já que meus pais estão fora hoje!

O sorriso do Uchiha aumentou.

– Então estamos sozinhos? — afrouxou um pouco a gravata e um calafrio percorreu a espinha do loiro.

– Sim mas espera que tem algo que eu preciso te falar antes.

– Aposto que pode me contar detalhadamente depois — levou a mão fria à nuca. O hálito quente bateu no pescoço, arrepiando-o e o forçando a fechar os olhos por um instante.

– Sasuke... Estou falando sério... — passou a respirar mais depressa quando teve a gola da camiseta abaixada aos poucos, a boca hábil beijando todo o pescoço, descendo pelo ombro, os dentes roçando na pele.

– Você parecia tão eufórico em me ver... — sussurrou divertido, a mão descendo pelo dorso, para apertar o volume entre as pernas do loiro. Este engasgou um gemido, sem conseguir pensar com aquela mão atrevida que baixava pelo cós. Teve os testículos manipulados, os dedos rápidos divertindo-se com a maciez. Foi se sentindo mais e mais quente, incendiado pelo contato, a ereção tomando todo o espaço e saltando no short.

– E então...? — Sasuke contornou-lhe o corpo com o seu, o peito colando nas costas mirradas, ainda beijando e lambendo devagar seu pescoço, fazendo o menor sofrer com o arrepio — O que queria tanto me dizer?

A cabeça dele rolava de um lado para outro, os olhos fechados. Desceu a mão à do namorado, obrigando-o a apertar sua ereção. Sasuke o obedeceu prontamente, deslizando os dedos enquanto o sentia enrijecer ainda mais com o contato. Manipulava devagar, apertava para senti-lo pulsar. Lambeu os lábios ao perceber o tecido fino do short de pano escuro molhar, no local exato em que comprimia a ponta da ereção de Naruto.

–... Está gotejando, você parece estar se divertindo — falava de encontro ao ouvido, soprando ar quente, mordiscando o lóbulo porque adorava fazê-lo se contorcer em seus braços. Escorregou a mão para dentro do elástico do short, passando pelo cós da cueca, sentindo a pele macia até o calor da ereção. Fechou os dedos em torno dela.

Naruto chamou seu nome baixinho e rouco, levando a mão aos cabelos negros puxando-os para um beijo.

–...Sasuke...

– Hum? — lambia os lábios dele devagar.

Um calor imenso e insuportável tomou conta do Uzumaki, esqueceu por completo o que queria dizer. O ar quente da respiração de Sasuke batia em seu rosto, e por um momento só conseguiu se concentrar nos lábios rosados próximos de si.

Sasuke esfregava o quadril fazendo o outro o sentir com perfeição. O movimento o fazia enrijecer e se tornar cada vez maior.

Sem controle de si mesmo Naruto abaixa lentamente o short, olhando para trás até que seus olhares se cruzassem, exibindo um brilho intenso nos orbes azuis, uma excitação sem par, uma ordem silenciosa. O tecido deslizou pelas pernas e levou consigo filetes imensos transparentes, fruto da lubrificação intensa que escorria. Em resposta a isso o Uchiha riu de deleite, esfregando o polegar na fenda.

Naruto entreabriu os lábios com a sensação forte que se apoderou dele. Apoiou os braços na parede, empinando o traseiro. Sentiu quando a ponta do polegar entrou devagar, sem a menor dificuldade, deslizando inteiro. Um arrepio o fez tremer.

O dedo que brincava em seu interior deu lugar a outros dois que deslizaram. Naruto arranhou a parede, rebolando conforme sentia o deslizar dentro dele. Enlanguesceu rapidamente, no limite de excitação.

Sasuke parecia em seu próprio limite também, e talvez por tal motivo tenha aberto somente o botão e o zíper da calça, tirando a ereção do confinamento da cueca.

Naruto lambeu os lábios, surpreso.

Era muito sexy vê-lo daquele jeito...

O outro fez menção de tirar a camisa, mas foi impedido.

– Fica assim... — pediu num sussurro. O Uchiha riu sacana.

– Isso te excita?

– Droga, sim! Estou a ponto de subir pelas paredes! — resmungou, muito vermelho.

–... Bem sei que você gosta... — empurrava o corpo para frente, a cabeça da ereção forçando até se enfiar toda de uma vez no canal quente -... Aah, sei que gosta de toda... Essa preparação...

Naruto girou os olhos para trás, a primeira estocada sempre roubava o pouco juízo que restava na mente, o deixava sem ar e ação. Não conseguiu dizer nada até que toda a extensão do membro de Sasuke escorregado para dentro, alargando-o. Era uma mescla de desconforto e um prazer arrebatador.

Tomou ar porque sentia-se cheio, empalado.

–... Mova-se devagar — pediu, não porque sentisse dor ou desconforto, e sim porque sabia que não duraria muito tempo.

Obediente, Sasuke segurou nas coxas grossas do loiro, forçando-se a sair um pouquinho, vendo a pele ao redor de seu membro repuxar conforme saía. O gemido gostoso de Naruto o fazia querer enfiar-se até fazê-lo engasgar de tanto gemer, mas se o fizesse, terminariam em questão de segundos e queria aproveitar um pouco mais. Respirou fundo, segurando a base do pênis para fazer a ponta deslizar até quase sair, e então tornar a enfiar até o fim, aumentando só um pouco a velocidade, arremetendo para dentro, tomando espaço para sair um pouco.

Naruto tapou a boca mordendo o braço, porque senão acabaria fazendo mais alarde do que deveria. O tronco quente de Sasuke debruçou em suas costas, o tecido roçando na pele conforme o penetrava. Beijava-lhe os ombros, achando-os lindos, contornava as espáduas sob o tecido da camiseta, a mão livre segurando firme na coxa para ter apoio enquanto investia contra ele, batendo seus corpos.

Naruto arqueava as costas, deleitado com as investidas curtas, que roçavam tudo dentre dele, mais um deslizar do que estocadas fundas, e era deveras prazeroso. Ronronou, girando os quadris, se forçando-o mais para dentro dele. Começou então a bater o próprio traseiro contra a ereção de Sasuke, auxiliando as investidas. Desceu uma das mãos ao membro que implorava ser tocado.

Sasuke virou seu rosto, obrigando-o a fita-lo e enfiou a língua em sua boca. Produziam um som molhado misturado aos gemidos, olhando-se lascivos enquanto deslizavam a boca uma na outra.

–... Eu já estou... Quase lá...

– -... Falta pouco pra mim também... — sussurrou-lhe junto à orelha e prosseguiu naquele movimento curto, que estava enlouquecendo os dois. Naruto passou a bombear bem depressa, a mão fechada bem forte em torno da glande, no mesmo ritmo em que o sentia o entrando. Arfou e em seguida se contorceu, sem poder esperar um segundo mais. Os lábios abertos, a respiração falha. Fechou os olhos, a expressão aliviada e o movimento em torno da glande diminuindo conforme respingava o chão da sala, entoando um gemido arrastado e provocante.

Várias contrações esmagavam o membro de Sasuke que adorava aquela sensação e aguardava ansioso por ela, para se deixar esvaziar bem lá no fundo, como tanto gostava, deslizando em meio ao próprio gozo até que tivesse jorrado tudo, os olhos fechados, a voz empastada.

Deitou a testa nos ombros dele, ambos respirando afoitos, as pernas tremendo e se recusando a ficar de pé. Ficaram assim por algum tempo, entorpecidos pela intensidade do orgasmo. Quando o ar pareceu tornar aos pulmões, Sasuke forçou-se para fora dele, do buraquinho escorria o leite esbranquiçado.

Percebeu Naruto respirando afoito, apoiado na parede, e perguntava-se se havia pegado pesado demais com ele.

–...Tudo bem? — tocou-lhe o ombro e o menor virou-se devagar.

– Mais do que bem — sorriu cansado — Wow, o que você tem hoje?

– Eu que pergunto — ajudou a recolher a roupa que largou no chão, limpando com ela os respingos dos dois — Você me aparece todo empolgado, sabe que é difícil me controlar.

– Estava só lembrando de quando nos conhecemos — tentou não ir direto ao assunto — Parece que faz muito tempo, não?

– Acha? — embolava a roupa suja seguindo o caminho da lavanderia — Sempre acho que o tempo parece curto para tudo o que já vivenciamos juntos.

– É só que, bem, parece que foi ontem que eu estava para me casar — apanhava uma caixa de sabão em pó, erguendo bem o braço, a camiseta subindo e deixando o bumbum branco à mostra. O olhar do moreno desceu instintivamente, mas aquela conversa o desagradava.

– Não quero lembrar de algo tão detestável quanto o seu casamento com aquela mulher!

– Isso é só porque eu estava me casando com a pessoa errada — acabou jogando um pouco mais de sabão do que queria na máquina, fechando a tampa e colocando para trabalhar em seguida, sem encarar o namorado — Tudo seria diferente se fosse um casamento com alguém... Que eu gosto muito.

O Uchiha continuava sem entender aquela conversa estranha logo depois de partilharem momentos tão agradáveis há pouco.

– E era esse o assunto importante que queria me dizer?

O Uzumaki suspirou.

Para alguém tão inteligente ele estava saindo um tanto lerdo!

– Não, eu só estava pensando umas coisas — seguiu ao banheiro, sob o olhar curioso do outro.

– E por que está chateado agora?

– Claro que não estou, idiota! — deu-lhe um tapa sem força contra a nuca — Tem uma coisa sobre a mesa para você. Eu vou tomar um banho.

Sasuke ainda não compreendia o mau humor súbito do loiro. Endireitou as vestes e seguiu até a mesa da cozinha, encontrando sobre ela uma sacola de papel branca com o nome de uma famosa marca. Arqueou uma das sobrancelhas.

Havia uma etiqueta com seu nome no embrulho. Abriu curioso e descobriu se tratar de uma caixinha pequena de joalheria. Piscou algumas vezes, meio incrédulo, um sentimento incomum ardendo no peito.

Enquanto isso, Naruto ensaboava o corpo, um tanto decepcionado que a conversa não tivesse feito Sasuke entender o que tanto queria lhe dizer. Ouviu a maçaneta da porta girando e o Uchiha entrou por ela, dirigindo-se ao box. Encaram-se por alguns segundos.

–... Naruto, isto é para mim? — estendeu entre as mãos dois colares. Em um deles, de ouro, havia um pingente em forma de círculo vazado, uma palavra entalhada em sua extensão.

"Laços"

No centro do círculo havia um pequeno símbolo, muito bem esculpido. O já conhecido brasão da família Uzumaki, acrescido de pequenas pedras que brilhavam à luz.

O segundo colar era de prata, com pequenas pedras de ônix, da mesma cor dos olhos de Sasuke. No centro, o símbolo do clã Uchiha.

Entalhada em torno do círculo vazado estava a palavra "Eternos". Se unisse os dois colares pela pequena fenda que havia propositalmente entre eles era possível obter a frase "Laços eternos" vinda de ambos os colares.

O loiro ainda esfregava sabão no corpo, disfarçando o rubor que tomava conta do rosto.

– Não conheço outro Sasuke e nem amo outra pessoa — ralhou emburrado — Lógico que é pra você.

Sasuke ainda estava meio torpe, observando cada pequeno detalhe dos colares em sua mão.

–... Isto é um presente para mim?

– Óbvio — puxou-o ao box, para que se juntasse ao banho — Qualé Sasuke! Vai me dizer que nunca ganhou um presente antes? — riu, tirando de sua mão o colar de prata com o símbolo Uchiha.

O moreno não respondia, a água escorrendo pelos fios negros, o olhar focado na corrente que tinha entre os dedos. Despiu então a camisa e o que restava das roupas, jogando-as num canto até estar nu. Em seguida coloca o colar dourado, correspondente ao clã Uzumaki, no pescoço, virando de costas e indicando o fecho ao loiro, pedindo que o fechasse. Ele assim o fez, lavando as mão sujas de espuma e fechando devagar o fecho do colar, beijando o pescoço. Sem que pedisse o moreno o virou, fechando o colar em seu pescoço do mesmo modo. Abraçou-o em seguida, deixando a água quente escorrer , os olhos fechados.

–... Obrigado.

– Não precisa agradecer,você faz muito por mim.

– Sei que deve ter sido caro. Não precisava gastar seu dinheiro comigo.

– Não se trata de gastar dinheiro, mas de lhe dar lembranças importantes. Elas valem muito mais que dinheiro.

O Uchiha se virou, fitando-o seriamente.

– Se me perguntar diretamente, direi que já recebi os presentes mais caros que o dinheiro pode comprar.

O Uzumaki sabia disso, o que o fez desviar o olhar. Sentiu as mãos dele segurarem seu rosto e forçá-lo a encara-lhe.

–... E de todos os presentes que já recebi na vida nenhum tem tanto significado, ou me fez mais feliz do que este, Naruto — sorriu, apertando as bochechas até que o loiro fizesse bico. Ele riu com isso.

– Pois é bom gostar mesmo! Jóias são caras pra caramba! Acho que mais cara que isso só mesmo se for aquelas alianças de casament...

Calou-se, ruborizando. Do modo como falava era óbvio que andara pesquisando sobre o assunto.

Tinha que abrir a boca!

O vapor quente subia enchendo o box enquanto se fitavam, seriamente.

–... Sasuke, tem uma coisa... Muito importante que eu preciso mesmo te perguntar...

– Não agora — cortou-o — Sei que está ansioso, que pensa que não falei sério, mas minha situação ainda é muito complicada. Quero fazer as coisas certas, não estou brincando com você, pelo contrário. Não há nada que eu queira mais, no entanto preciso resolver tudo antes. Pode esperar por mim?

O peito do Uzumaki inflou de emoção e ele soltou um riso pelo nariz, fitando a água que escorria entre os pés.

–... Vou esperar por você pela minha vida inteira, Sasuke. Você é meu único amor — admitiu, os olhos cerrados, a água quente escorrendo, porque não conseguiria encará-lo. Sentiu quando os braços fortes o envolveram.

–... E você é o meu, Naruto — apertou-o junto a si — A pessoa que sempre esperei para estar a meu lado.

O loirinho sorriu emocionado, fechando os olhos e colando a bochecha no peito liso. Se deixou ficar assim por algum tempo.

–-

–... Um passeio? — torceu o lábio, cansado só de pensar. E piorava ante ao olhar esperançoso e entusiasta do moreno.

Haviam decidido se dar uma chance como casal, e isso significava se ver mais vezes, mais conversas, passeios... Ainda que tudo soasse novo e exaustivo ao Sabaaku, achou que ao menos poderia tentar se relacionar novamente, se envolver mais com Menma. Talvez fosse divertido, como a noite que tivera na boate. O outro insistia, parecendo empolgado.

– É Gaara, um passeio como casal! — sorria entusiasmado — Você sabe, algo para espairecer um pouco do trabalho. Eu gosto de passar meu tempo livre com você.

O ruivo nada disse, embora partilhasse do mesmo sentimento. De certa forma gostava da companhia de Menma, do modo como aquele idiota parecia sempre muito feliz, como se nada o abalasse.

Mas ainda sentia receio que as pessoas descobrissem que estavam saindo. Ao menos por enquanto era melhor fazer as coisas com calma, quem sabe escolher um lugar mais reservado.

–... Dependendo do lugar... — titubeou.

– Você escolhe dessa vez! — Menma parecia reluzente, sentado na cadeira de escritório, a cabeça apoiada no encosto, sorrindo bobamente.

– Não há um lugar em especial que eu queira visitar...

– Ah vamos, pense direito! Tem de haver algo que queira ver ou algum lugar que queira ir.

Pensou por alguns segundos, franzindo a testa, cruzando os braços.

Um lugar que pudesse desfrutar da companhia de Menma sem precisar dar milhares de explicações caso alguém os visse, e que proporcionasse algum tempo de qualidade juntos, com alguma distração. Um estalo cruzou sua mente ao ter uma ideia que parecia boa o bastante.

–... Um de meus livros favoritos foi adaptado para longa metragem e vai estrear no cinema. Creio que seria divertido vê-lo.

Os olhos do moreno brilharam e uma expressão muda de surpresa se estampou no rosto.

Que romântico! Um encontro no escuro do cinema era perfeito! Podiam se dar as mãos, se abraçar, beijar à vontade sem ninguém para atrapalhar... Definitivamente ele adoraria!

– Então vamos ver!!! Qual é o filme? Quero comprar os ingressos adiantado.

– Ah não precisa — ruborizou um pouco — Posso pagar minha entrada, não seria justo com você, se o estou chamando para ir comigo.

– Mas assim não tem graça! — fez birra — E onde fica meu galanteio de te levar para sair?

– Vai me fazer companhia, não me bancar! — retrucou irritado.

– Chato... — fez um enorme bico, mas logo esqueceu por estar muito feliz. Ainda não acreditava que estava mesmo saindo com Gaara! Todos os dias precisava se convencer de que não era um sonho. Ao chegar à empresa se cumprimentavam cordialmente mas ao longo do dia o Uzumaki sempre arranjava algo para fazer na sala do chefe, para lhe dar um beijo de cumprimento. Tudo era tão novo e agradável.

– E então: que filme é esse que vamos ver?

O Sabaaku se dirigiu à estante repleta de livros retirando um imenso de capa dura, uma edição de colecionador. Ao colocá-lo sobre a mesa o moreno torceu o nariz levemente.

Parecia um tédio.

– É uma história fascinante! Sempre que preciso tomar uma decisão difícil imagino o que estas pessoas fariam em meu lugar. A luta deles é tão verdadeira, tão dolorosa, que me inspira.

Os olhos verdes brilharam de entusiasmo enquanto explicava e Menma esqueceu que o filme provavelmente seria longo e cansativo porque era muito agradável ver Gaara tão absorto. Ele parecia realmente empolgado, como o vira poucas vezes antes. Sendo tão culto era claro que gostaria de tal tipo de chatice. Ao contrário, Menma provavelmente escolheria uma comédia ou até mesmo uma animação, mas para manter aquele sorriso tímido no rosto do ruivo faria qualquer coisa!

–-

–... Estou lhe dizendo que estou bem, mãe — tentava manter a voz firme ao celular, para não transparecer algo errado.

– Você está estranha há dias, Sakura! — sua mãe ralhava ao telefone — E que coisa toda de casamento é essa? Se está com um ricaço e morando em uma mansão eu quero visitá-la e ver com meus próprios olhos!

– Ainda tem bagunça da mudança por todos os lados — riu de leve, a mão livre sobre o lado direito do rosto — Prometo que a tratei aqui para conversar com meu marido. As coisas estão indo bem agora.

A senhora Haruno não acreditou, mas percebeu que seria inútil insistir, mesmo que tentasse puxar algum assunto. Sakura ainda sorria quando desligou a ligação.

Seus olhos verdes focalizaram no espelho à sua frente. Deixou o celular cair sobre a cama, perto de onde estava sentada.

A pessoa refletida no espelho... Era mesmo ela?

Segurava seu rosto no local exato em que recebeu um soco, a bochecha inchada exibia uma coloração arroxeada desagradável. O couro cabeludo ainda doía no local em que fora puxado. Havia tantas marcas no corpo que seria difícil esconder.

Isso porque Hikaku não sabia tocá-la como uma pessoa normal. Quanto mais a jovem relutava em fugir dele, mais isso o excitava, e mais o fazia ser grosso com ela. Durante poucos dias de casada foi violentada tantas vezes que era difícil contar.

Uma mensagem de texto apitou em seu celular e devagar ela aproximou a mão, pegando de volta o celular. Leu o conteúdo com cuidado, atenta.

Seu interior se remexeu de satisfação. Aquela tola felicidade de seu antigo noivo e seu objeto de desejo estava à um passo de acabar.

Nada mais justo que isso, estavam recebendo o que mereceram. Simples assim.

Soubera de tudo que aconteceu no hospital, sobre Itachi e sobre a fuga desesperada. Não conhecia o irmão de Sasuke suficientemente bem e o que acontecia a ele ou ao seu detestável marido não lhe interessava. Mas Menma, o estúpido primo do loiro, significaria um problema futuro. Ele era capaz de qualquer coisa, atrapalharia seus planos.

Se bem que do modo como as coisas estavam indo ele mesmo se enterraria. Soube de Madara que ele estava saindo com Gaara, e teve de rir ante à isso. Óbvio que tal romance jamais daria certo. Sakura ouvira por muito tempo Naruto relatando a forma como o chefe jamais esqueceu a antiga namorada. Era óbvio que estava somente brincando com Menma. Tão logo o Uzumaki se desse conta disso se afogaria na própria tristeza e não teria tempo de se meter na vida dela.

Excelente.

–-

Seus olhos faiscavam de fúria, sem querer ceder. O pânico tomava cada fibra de si, e era natural. Quem não teria medo diante de uma ameaça de morte? Mas ao invés de demonstrar abertamente o que sentia, tentava se manter firme o máximo que conseguia.

Madara torceu os lábios em reprovação absoluta ao gesto, julgando uma completa afronta o modo como ela o encarava, como se não temesse o próprio destino. Baixou-se perto da mulher e com a ponta do dedo indicador ergue o queixo fino de Mikoto.

Esta o encarou sem se intimidar, os olhos faiscando. Era nítido seu desagrado e o quanto estava acuada, mas não desistiria. De joelhos no chão daquele maldito porão da casa Uchiha, o mesmo que já havia visitado tantas vezes, tentava ignorar a dor das amarras que prendiam seus pulsos detrás das costas. Seu rosto estava machucado e ferido, os cabelos embaraçados e sujos embolavam perto do rosto.

– Acho bom abrir essa boca e começar a falar Mikoto, estou perdendo a paciência.

– A idade te deixou senil, Madara? — desdenhou, com um sorriso arrogante — Vá em frente e me mate, não vai arrancar informação alguma de mim.

– É um tanto óbvio que Itachi despertou, mas pergunto-me se a mente dele está funcionando devidamente. E bem sei que alguma coisa te forçou a voltar. Não se exporia a tamanho risco sem motivos, e quero saber quais são.

– Ainda que eu soubesse de algo jamais diria nada à você!

O Uchiha não gostou nem um pouco da arrogância dela.

– De fato eu havia me esquecido de sua personalidade forte, Mikoto. Estou até mesmo impressionando que uma mulher como você tenha aguentado um interrogatório de Obito e ainda esteja consciente.

– A questão aqui não é eu ser uma mulher ou não. Trata-se de não me curvar à você, um homem covarde que não consegue lidar com os próprios problemas e desconta a raiva em pessoas mais fracas — estreitou os olhos — Sabe do que estou falando, não é mesmo patriarca? Será que esse seu título não é apenas uma fachada conveniente para que todos acreditem que você é intocável, quando na realidade está dilacerado por causa de seus traumas e dores do passado?

Soube que o atingiu em cheio quando percebeu a altivez costumeira ser substituída por uma expressão de desagrado.

– Não sabe nada sobre mim ou sobre a realidade do clã, Mikoto. Sua opinião é irrelevante.

– Mas sei o que realmente aconteceu à você, Madara! — insistiu, sem se intimidar- Estou ciente de tudo, incluso os motivos que o levaram a ser como é agora!

Os olhos negros dele faiscaram.

–... Acho melhor medir muito bem suas palavras antes que eu perca a paciência.

– Por quê? Não aguenta mencionar seu passado enterrado, patriarca? Não consegue lidar com seus próprios medos?

– Não tenho esses "medos" de que tanto fala. E eu a aconselho calar essa boca imunda. Não é mais uma Uchiha para falar do que não sabe.

– Sei o suficiente: tudo que Izuna fez à você, e isso é o bastante para te destruir se eu quiser!

Ao som de uma frase tão pequena os olhos negros pareceram incendiar, tornando-se rubros com a ira que transbordou deles. Madara estufou o peito, cheio de ódio.

– Cale-se! Não faz ideia de coisa alguma!

– Está enganado porque eu sei de tudo! E não vou permitir que desconte seu ódio nos meus filhos por conta do que seu irmão o fez passar...

Teve que se calar em seguida.

Um ódio descomunal cresceu a tal ponto dentro de Madara que o cegou. Avançou sobre Mikoto, as mãos imensas apertando o pescoço fino com tanta força que a fez engasgar. Sentia os nervos rangerem entre os dedos , almejando sufocá-la, estrangulá-la, fazer aquela maldita boca se calar de uma vez por todas!

Mikoto tossiu, estava zonza, não conseguia respirar. O ar faltou nos pulmões e arfou, buscando desesperadamente recuperar o fôlego. Agitou o corpo, arranhando as mãos que apertavam seu pescoço, mas isso o fazia pressionar ainda mais. Bateu os olhos naquelas medonhas íris vermelhas e teve medo, como até então não se lembrava já ter sentido antes.

Naquele ritmo ele realmente a estrangularia, era tudo que Madara mais almejava.

Ninguém tinha direito de dizer nada! Ninguém sabia o que realmente havia acontecido!

Percebeu as mãos dela se deterem de lutar, os olhos quase rolando para trás e a boca aberta salivar mais que o normal. O rosto passava para um vermelho mais forte ao passo que os sentidos estavam prontos a desligarem de uma vez.

Nesse instante foi impedido por Obito que o segurou por trás, afastando-o da mulher que largou-se no chão. Mikoto tossiu alto, prestes a vomitar, passando as mãos pela garganta que latejava e respirando forte para tentar levar o ar de volta aos pulmões.

Com um esforço que exigia quase tudo de si Obito arrastou o Uchiha furioso para longe dela.

– Acalme-se senhor patriarca! Não é prudente matá-la ainda!

– Solte-me ou será um homem morto, Obito! E serei eu mesmo a arrancar sua cabeça! — rosnou, empurrando-o com a força que brotava dentro de si.

Apenas mencionar Izuna fazia seu sangue ferver!

– Ela o está provocando! Se deixar a ira subir à cabeça entrará no jogo sujo dessa mulher!

Madara livrou-se dele com um safanão brusco, qualquer contato não autorizado o fazia sentir repulsa imediata. Endireitou o corpo e jogou para trás os cabelos negros, respirando fundo, aos poucos conseguindo pensar mais calmamente.

Obito tinha razão, não era de seu feitio perder a calma desse modo. O simples mencionar de Izuna é que o deixava fora de si. Mesmo após tanto tempo o ódio ainda fervia nas veias.

–... Dê a essa mulher maldita o devido tratamento por se rebelar contra o patriarca dos Uchiha! — cuspiu as palavras.

Mikoto estremeceu, mas não o encarou. Em seu íntimo sabia o quão arriscado era provocar aquele homem. Mas se quisesse salvar Itachi e Sasuke sua única escolha seria fazê-lo canalizar a raiva que sentia sobre ela. Talvez assim eles tivessem uma chance, ainda que pequena.

Era tudo que podia fazer por eles, depois do que os fizera passar, largando-os sozinhos sob tutela daquele maldito clã. Seu único arrependimento seria não poder revê-los, sobretudo para pedir perdão.

Um som alto e seco irrompeu, chamando atenção de todos. Sinal que os portões haviam sido abertos. Algum tempo depois passos ecoaram pelas escadarias, a silhueta se tornando identificável conforme se aproximava.

Mikoto aos poucos vai ficando mais e mais surpresa, percebendo quem era a pessoa que se aproximava. Não conseguiu formular frase alguma ao fitar o rosto de Shisui que a encarava com descaso. Este desvia o olhar ao patriarca, ajoelhando-se diante dele como de costume sempre que voltava de alguma missão.

– Senhor patriarca, a informação que lhe passo é verídica. Itachi realmente despertou, não apresentando graves problemas motores ou mentais. A saúde parece estar se restabelecendo rapidamente. Não há sequelas graves, no máximo a locomoção está mais vagarosa que de costume, a resistência também. Algum tempo de repouso deve ser suficiente. A única coisa que talvez possa representar um problema é a falha de memória.

Os olhos do patriarca estreitaram.

– Ele perdeu a memória?

– Tem apenas alguns picos de esquecimento, detalhes que desapareceram da mente, mas nada alarmante.

Madara sorriu satisfeito, um sorriso frio e cruel.

Quem diria que Itachi despertaria com a saúde perfeita após passar tantos anos submetido à medicações tão fortes? Sem dúvidas os genes puros eram inigualáveis.

–... Excelente — o sorriso só aumentava.

Deitada no solo, Mikoto não sabia direito o que pensar. Estava em partes feliz que Itachi houvesse mesmo despertado, que estava bem, mas temia por sua segurança.

– Todavia essa não é a única informação que venho lhe passar — Shisui aguardou que a atenção do patriarca estivesse totalmente concentrada nele antes de prosseguir — Os resultados da ultrassonografia revelaram o sexo da criança que Naruto Uzumaki espera de Sasuke.

Madara encrespou os lábios de nojo e desprezo. Naruto era uma das coisas que mais detestava, uma das que mais almejava destruir.

No chão, Mikoto não piscava, incrédula.

Naruto era o nome do rapaz que vira em um vídeo na internet, aquele que Sasuke impediu de se casar com uma moça de cabelos rosados.

Um sorriso encheu seus lábios.

Naruto era compatível! Ele daria um filho à Sasuke, era maravilhoso!

–... E o que é? — Madara inquiriu.

– Um problema duplo, visto que há não uma, mas duas crianças no ventre de Naruto. Ele espera gêmeos, um menino e uma menina.

Obito deu um passo para trás e Mikoto encolheu-se de leve ante ao olhar que recebeu. Estremeceu da cabeça aos pés.

Madara parecia possuído pela fúria!

Seu estúpido neto insistia em tentar lhe irritar, mas desta vez passou de todos os limites!

Sasuke acreditava mesmo que era livre para fazer o que quisesse? Que teria duas crianças imundas com aquele loiro desprezível?

Já estava cansado das brincadeiras inconsequentes dele. Sasuke precisava compreender seu lugar no clã, de uma vez por todas!

E Naruto Uzumaki tinha de desaparecer de suas vidas! Aquelas crianças logo nasceriam, era melhor que Sasuke estivesse distante o bastante delas. Ainda que sua vontade fosse a de matar o neto rebelde precisava dele, e muito. Já Naruto que não fazia outra coisa a não ser atrapalhar provaria do ódio dos Uchiha, tanto ele quanto aquelas duas infelizes crianças em seu ventre.

–... Eu a adverti sobre isso, não foi Mikoto? Se tivesse obedecido desde o princípio agora não precisaria assistir a destruição dos laços que seus filhos formaram.

– Se fizer alguma coisa ao Itachi, ou ao Sasuke, tenha certeza de que vai pagar caro por isso Madara! Faça o que quiser comigo, mas deixe meus filhos em paz!

– Seus filhos são minha propriedade Mikoto. Sabe disso melhor do que ninguém. Sobretudo Itachi, ele é meu herdeiro, e eu o quero de volta.

Alheio à discussão Obito estreitou o olhar, muito irritado.

Aquela obsessão toda do patriarca por Itachi era muito estranha. Seria apenas o desejo de reassumir o controle do clã?

Talvez, mas ele não podia negar que parecia algo maior que isso, mais profundo... E que o incomodava demais. Sabia que não teria força suficiente para lutar contra Itachi e tudo que ele representava ao clã Uchiha. Era uma luta cujo vencedor se evidenciava desde o princípio.

Mikoto por sua vez buscou os olhos de Shisui, como se pedisse por ajuda, para que ele despertasse do surto de loucura em que havia mergulhado. Não parecia o mesmo homem que conheceu no passado, ele sequer a mirava nos olhos. Seu olhar era todo de Madara, seguindo cada pequeno gesto dele.

– Deixe Itachi fora de sua loucura, Madara! Para de fazê-lo sofrer! Continue essa maldita farsa de clã perfeito sem envolver meus filhos nisso!

Este sorriu deliciando.

– Fora de questão. E você também é parte importante de meu jogo, Mikoto. Eu a farei pagar por tentar macular meu clã, vai sentir na pele a força do ódio Uchiha recair sobre você e seus preciosos filhos.

–-

Seguiram direto ao painel do cinema, o cartaz do filme que o ruivo tanto falara estava estampado em bom tamanho, o que fez os olhos verdes brilharem de antecipação. Menma abriu a carteira, se aproximando do guichê e foi impedido pelo chefe.

– Já lhe disse que eu convidei, logo eu pago por isso.

– E eu lhe disse que não quero! É nosso encontro, lembra?

– E o que isso importa? Não vou deixar que pague nada pra mim!

– Nem eu! Não sou o tipo de cara que deixaria você me pagar a entrada do cinema.

– Isso é falta de sensatez. Sou seu chefe, ganho mais que você.

– Oh, está querendo dizer que sou pobre e por isso precisa pagar minha entrada?

– Já disse que é porque eu o convidei!

– E já lhe disse que não quero isso!

Discutiram por cerca de dez minutos sem a menor trégua e no fim cada um pagou a sua. Achavam justo, uma vez que ninguém daria o braço a torcer e provavelmente perderiam o horário da sessão se continuassem discutindo. Gaara dispensara seriamente comprar qualquer tipo de comida. Para ele assistir um filme era uma experiência que exigia toda sua atenção. Escolheram lugares ao fundo, com visão para o centro da tela.

O escuro o deixou um tanto nervoso, ainda mais ao ser rodeado de casais.

Era estranho. Não imaginou que se permitiria fazer tais tipos de coisas com Menma, eles realmente pareciam um casal agora. Sentiu o braço do estúpido moreno passar por seus ombros e virou-se irritado para retrucar, o volume alto dos trailers abafando suas vozes, a escuridão comodamente encobrindo-os das demais pessoas.

Palavra alguma saiu de sua boca quando bateu os olhos nele.

Sério, Menma parecia mais maduro do que realmente era. O olhar fixo tirava qualquer resistência que Gaara pudesse armar. Arrepiou-se ao sentir a mão dele passar por sua nuca. Um misto de vergonha, raiva e vontade de prosseguir, tudo misturado, deixando-o confuso.

–... Queria fazer isso desde que nos encontramos hoje — aproximou-se devagar, os olhos fixos na boca de Gaara que parecia imóvel, mesmo quando o percebeu se aproximar.

Porque queria aquele beijo.

Fechou os olhos bem forte, o coração batendo feito louco no peito e o ar faltando drasticamente. Estava nervoso, não sabia como corresponder devidamente então se deixou levar.

Em questão de segundos esqueceu onde estava, o som alto do cinema, as pessoas à sua volta. Seus braços passaram ao redor do pescoço do moreno enquanto o beijava sem se preocupar com mais nada. O cheiro gostoso do perfume dele alcançou suas narinas, as mãos passaram pelos cabelos negros ainda úmidos, as gotículas gelando as pontas dos dedos. Movia os lábios contra os dele, acompanhando o bailar perfeito de sua língua, suspirando de prazer.

Um som de explosão o assustou, vindo de um trailer de um filme de ficção científica. Separaram-se e ele fitou o subordinado, só então percebendo que o beijara sem reserva alguma. Baixou o olhar envergonhado.

Menma riu com isso. Ele ainda sentia vergonha? Endireitou o corpo, trazendo-o para junto de si, num semi abraço. Quando o Sabaaku sentiu a cabeça pousar no ombro ossudo fechou os olhos por um segundo, sabendo que ele não veria, e se permitiu sorrir, só um pouco.

Aquela estranha felicidade de gostar de alguém que te olha de jeito diferente, como se fosse único no mundo, era realmente boa... Virou o rosto à tela, sem fazer menção de tirar a cabeça do ombro do Uzumaki. Não ligou quando ele segurou sua mão ou quando beijou seus cabelos.

Se aquela era a sensação de gostar de alguém então poderia se acostumar facilmente.

–-

Duas horas de filme que foram um martírio ao moreno. Era filosófico e sério demais, uma verdadeira chatice! Dormiu ao menos três vezes. Gaara por sua vez assistiu tudo com a paixão de um fã assíduo. A única coisa que acordou o moreno foi o acender das luzes ao fim do filme. Disfarçou um bocejo.

– Foi perfeito — o sorriso simples do chefe o desarmou — Viu aquela parte que eles ficaram encurralados no mar?

Menma coçou detrás da cabeça, nem fazia ideia do que ele estava falando.

– Ah claro... Foi demais — desviou o olhar, rindo nervoso. Era péssimo com mentiras.

Gaara não pareceu notar, ainda estava extasiado.

– Estou feliz de ter vindo — olhava sorridente o folheto nas mãos, e o gesto fofo fez o outro rir pelo nariz.

Sentaram-se em um boulevard do interior do shopping e conversavam tranquilamente sobre assuntos triviais. Queriam apenas saber mais um sobre o outro, nem viam o tempo passar.

– Então você mora com sua mãe? — agitava o canudo no copo, olhando distraidamente o liquido, como desculpa perfeita para não precisar fitá-lo nos olhos.
– Na verdade ela está em outra cidade agora, desde que eu voltei ao país estou cuidando da casa e ela não tem pressa de voltar — riu, apertando os olhos de raposo.

– Esteve fora do país? Por quê?

– Universidade, cara. Não foi fácil, e olha que minha mãe me ajudava a pagar umas contas pra eu não morrer de fome por lá!
– E quanto ao seu pai?
– Morreu quando eu era pequeno — deu de ombros.

– Foi o mesmo comigo — completou, volvendo um olhar solícito a ele.
– Mas você tem irmãos né? Como eles são? Parecem com você? — apoiou o rosto entre as mãos para fitá-lo melhor, muito interessado.

Queria saber tudo sobre ele. E se os irmãos fossem lindos assim, aquela família seria fora do normal!
Gaara olhou pra cima como se pensasse seriamente no que dizer.
– "Como"...? Bem, Temari é a mais velha de nós. É muito responsável e sempre se preocupa demais. Já Kankurou é meu irmão do meio, desligado e um tanto preguiçoso. Precisávamos lembrá-lo sobre tudo — riu de leve, como se as memórias o divertissem.

– E por que eles viajaram ao exterior?
– Questões de trabalho. Era uma excelente oportunidade para a área de atuação, impossível recusar.
– E você não se sente sozinho sem eles por perto?

O ruivo se calou um instante, desviando o olhar.
– Claro que não — deu um longo gole em sua bebida — Não é como se precisasse de companhia constante. E se fosse pensar desse modo diria que estou sempre sozinho desde que terminei tudo com a Matsu...
Parou, surpreso consigo mesmo por começar a falar dela sem nem perceber.

Era tão automático que não percebia, algo que fazia parte dele.

Matsuri era como um divisor em sua vida, indicando o antes e depois. E o resultado eram dois dele completamente diferentes.
Menma apenas o observava seriamente.
–... Você me disse para entender, respeitar seu espaço, que ainda sente algo por ela. Mas a verdade é que não sei nada sobre o que aconteceu. Não sei quem é essa oponente que não se apresenta pra mim. Queria que me contasse mais, quero saber de tudo que a liga à você.
Havia tanta determinação nos orbes azuis que Gaara ruborizou e sentiu aperto no peito.
–... Não precisamos falar sobre a Matsuri. Ela não tem nada a ver com isso.
– Se eu quiser te entender melhor então preciso saber quem ela é, e o que significou na sua vida Gaara. Pode me contar, eu vou te ouvir.
Ele olhou pra baixo, para suas mãos sobre a mesa. Sua mente pareceu vagar para um passado distante e doloroso, e isso era visível em seus olhos. Só o seu corpo parecia estar ali, a alma viajou para longe.
– ... Matsuri foi meu primeiro grande amor.
Menma engoliu em seco, tentando a todo custo se manter calmo para incentivá-lo a prosseguir.
– Como se conheceram?

– Compartilhamos a mesma área profissional. Eu era novato neste ramo quando um cliente a enviou para ajudar a desenvolver uma campanha importante. Eu não sabia quase nada sobre marketing e ela era fantástica! Ensinou-me muito, era calma, divertida e paciente. Sempre me presenteava com um sorriso — os olhos verdes baixaram, pesarosos. Era possível perceber que ele viajava nas lembranças, completamente alheio.

Isso doeu no coração do Uzumaki.

–... E quando percebeu que gostava dela?

– Não sei explicar o momento exato, nem de que forma aconteceu. Quando dei por mim já gostava muito dela, o tipo de amor profundo que as pessoas sempre falavam, mas que nunca senti por ninguém. Confesso que achei que não teria a menor chance, e também estava confuso sobre o que sentia. Matsuri era tão bonita e meiga... Que me fazia pensar que ela jamais iria querer algo com alguém como eu.

O mais novo tentava esconder o desconforto que aquela conversa causava.

–... Você disse a ela como se sentia?

– No último dia do projeto entreguei uma carta contando-lhe sobre meus sentimentos. Ela voltaria a trabalhar para o cliente original, não nos veríamos mais e eu não seria capaz de conviver com aquele sentimento preso dentro de mim. Para minha completa surpresa, naquela noite ela me ligou, dizendo que sentia-se da mesma forma — um sorriso pequeno e sincero se estampava nos lábios dele -... Começamos a namorar em seguida.

–... Se gostava tanto dela, por que terminou tudo?

– Na realidade... Ela terminou comigo — respirou fundo, endireitando o corpo, passando a mão sobre os fios rubros — Durante um tempo ela precisou sair da cidade, para cuidar da mãe que estava doente. Tentamos manter um relacionamento à distância, mas sentia que ela se afastava cada vez mais de mim... Quando retornou para ficar definitivamente na cidade ela já estava... Com outra garota, namorando há tempos, sem nem ao menos ter me dito nada.

Ao terminar seu relato ele fitava um ponto qualquer da mesa, o olhar muito baixo, os fios rubros caindo teimosamente sobre a tatuagem na testa. Ele parecia desolado.
– ... E você tem sofrido desde então? Quanto tempo faz isso?
– Cerca de um ano.
– É muito tempo para alimentar uma paixão não resolvida, Gaara. Precisa seguir em frente.
– Se eu pudesse... Já teria feito isso há muito tempo. Eu não consigo esquecê-la. Passamos muitos momentos bons juntos.
– Você dormiu com ela?
Corou violentamente ante ao questionamento.
–I...Isso lá é pergunta que se faça???
– Ela não quis, certo? — arriscou, sabendo estar certo.
O modo como ele se calou revelou tudo.
– Não, ela não quis, e antes dela eu nunca havia... Dormido com ninguém. É como eu já lhe disse antes: você foi meu primeiro! — confessou, envergonhadíssimo.
Um sorriso safado estampou os lábios do raposo. Não se deixaria abater pelo fantasma daquela mulher. Faria com que parasse de assombrar seu ruivo. Daria a ele motivos para não pensar mais nela.

– Essa é toda a sua história trágica?

– Acha pouco por acaso? — rolou os orbes verdes ameaçadoramente à ele.
– Acho que a solução ao seu problema é relativamente simples: vou fazer você se esquecer dela.
– Se fosse tão fácil...
– Mas é! Precisa se dar outra chance, Gaara! Eu gosto muito de você, não vou desistir, ainda mais agora que nos deu uma chance! Vou fazer essa dor acabar de vez, só terá olhos para mim — piscou.

Deu de ombros, como se duvidasse. Em partes ter contado todo o ocorrido, algo que ele jamais contou a ninguém antes, o fez sentir muito bem. Era como colocar algo terrível para fora de seu coração. Talvez assim conseguisse superar aos poucos.

Jamais contaria à Menma a razão de ter escolhido aquele filme em questão, pois se tratava de algo especial.

Era o favorito de Matsuri, e sabia que ela não perderia a estréia. A jovem era uma dessas fãs apaixonadas, e internamente Gaara desejava vê-la, para entender tudo o que sentia, para saber se estava pronto a seguir em frente com Menma.

Pediu educadamente licença para ir ao banheiro porque precisava esfriar um pouco a cabeça. Saiu apressado da mesa que dividiam. Lavou o rosto repetidas vezes, suspirando em seguida, sem se olhar no reflexo do espelho.

Até que foi mais tranquilo do que pensou, e isso era bom sinal. Não se afetar tanto falando de Matsuri era sinal que Menma estava mesmo ocupando espaço em sua vida.

Quando saiu, abanava as mãos que não secaram completamente no jato de ar quente do banheiro, olhando casualmente a multidão, à procura de Menma. Do lugar em que estava percebeu a mesa vazia, talvez o moreno idiota tivesse ido comprar alguma coisa. Resolveu se sentar em um dos bancos do lado de fora, respirar um pouco de ar fresco e acalmar a mente e coração.

Não fazia isso há tempos.

–-

Revirou suas coisas e resmungou irritado quando encontrou o que tanto procurava.

Por que guardou aquela droga por tanto tempo? Nem ele mesmo era capaz de dizer. Já deveria ter jogado a maldita foto no lixo!

Deidara pareceu extremamente irritadiço ao fitar a foto dos tempos de colégio. Olhava desgostoso o moleque magrelo, de joelhos tortos, aparelho nos dentes, cabelo desgrenhado e óculos enormes no rosto.

Ver a si próprio em uma foto tão antiga era um pesadelo! Se pudesse voltar no tempo daria uma surra no seu "eu" do passado e o obrigaria a se vestir melhor, a se portar melhor.

Não havia muito o que fazer, o passado é parte importante de quem ele se tornou, o ensinou muitas coisas.

Um suspiro desconsolado saiu de seus lábios, e inconscientemente levou a mão livre ao olho esquerdo, coberto pela longa franja. Uma sombra de pesar o encobriu.

Na época do colégio ainda não usava a franja comprida, não escondia a heterocromia. Nos dias atuais, a mera possibilidade de alguém ver seus olhos bicolores o apavorava! Por vezes baixava o rosto ao caminhar, quando sentia um vento mais forte, para ter certeza de que ninguém veria.

Um trauma de tantos anos e que somente piorava com o tempo. Toda a segurança e soberba do loiro evaporava quando alguém o fiava nos olhos. Tinha muita vergonha deles.

A seu lado na fotografia, completamente alheio, estava aquele maldito miserável! O culpado pelo dissabor que o fez mudar radicalmente de atitude e personalidade.

O infeliz que brincou com seus sentimentos!

Nagato era razão de Deidara desacreditar no amor. O único culpado por odiar mais que tudo ter nascido com olhos tão estranhos!

O maldito era também a razão de suspiros da maioria das garotas nos tempos de escola. Lá estava ele, lindo aos 14 anos, sorrindo para a foto. Aquele jeito sério e maduro, irritantemente perfeito.

Deidara praguejou, querendo botar fogo na foto. Até acendeu o isqueiro para isso.

Mas mudou de ideia rapidinho guardando a foto com cuidado.

Se parasse para pensar, a única vez em que seu coração bateu forte de verdade por alguém, foi por Nagato. Um amor tolo, doce e infantil. Suspirava ao vê-lo passar pelos corredores. Percorria o pátio inteiro na hora do intervalo à procura de seu amor, perdia noites de sono escrevendo poemas tolos e ouvindo canções de amor. Quando o via se aproximar tremia dos pés à cabeça e suava como nunca!

Até o momento em que o sentimento cresceu demais para caber no peito, e tolamente decidiu se declarar, sem sequer ter falado uma vez sequer com Nagato antes. Deixou um bilhete anônimo debaixo da carteira do ruivo, quando não havia ninguém na sala, pedindo que o encontrasse na quadra na hora da saída.

Esperou pelo que pareceu uma eternidade até que ele finalmente veio! Uma esperança esmagadora invadia o pequeno loiro, olhava-o com adoração, os olhos bicolores brilhavam e tremiam de antecipação. Aproximou-se um pouco, não sabendo de onde tirava tanta coragem.

–... Eu sempre te admirei... — engasgou com o início da frase — E tudo que escrevi naquela carta foi verdadeiro. Eu realmente gosto de você.

Nagato ainda mantinha as mãos nos bolsos, e não mudou de expressão. Se aproximou bem do rosto dele, curioso, quase matando o loiro de vergonha.

Porque um dia Deidara já foi extremamente tímido. Ainda que seja muito difícil de acreditar!

– Vem cá, isso aí é lente? — apontou o olho esquerdo de Deidara que piscou, sem entender.

– Como...? — não entendia nada, até porque estava nervoso demais.

– Esses seus olhos. Você usa lente de contato além dos óculos?

– Não é isso... É que tenho heterocromia.

– "Hete" o quê?

– Nasci com olhos de cores diferentes.

A expressão do ruivo se tornou um misto de estranheza e asco.

– É a coisa mais bizarra que já vi. Você devia esconder isso!

O mundo inocente e lindo do loiro parou de girar no instante que ouviu essa frase.

Achava que ter olhos de cores diferentes era uma espécie de charme... Estava enganado?

Pensou em mil coisas para dizer, mas ouviu o barulho de conversa e logo dois amigos de Nagato surgiram, conversando e o chamando para se juntar a eles e ir logo embora. O ruivo assim o fez, sem olhar para trás ou se despedir.

Deixando um Deidara completamente destroçado para trás.

A dor da rejeição latejava nele. O que faria normalmente seria chorar, lamentar sua aparência, odiar o mundo e desejar nunca mais sair do quarto.

Ergueu os olhos de cores diferentes com uma expressão de ódio absoluto no rosto.

O caramba que faria alguma dessas coisas!

Naquele dia a dor da rejeição criou um novo Deidara, completamente diferente! Ele roubou o cartão de crédito da mãe e passou a tarde inteira entre compras e salão de beleza. Cortou os cabelos, tendo o cuidado de deixar a franja longa. A deixaria crescer para não mais mostrar seus olhos à qualquer um.

Quem os visse teria que merecer!

Comprou roupas novas com base no que viu em anúncios, trocou os óculos por um modelo que combinava com o rosto. Deixou de se sentir pequeno, pobre e miserável.

Seu amor próprio triplicou e o "monstro" Deidara tomou conta, todo seguro de si, egocêntrico. Na manhã seguinte ao chegar à escola deixou todos boquiabertos com a mudança radical! Passou pelos corredores de queixo erguido, diferente do garoto franzino que gaguejava e balbuciava pelos cantos. Ao passar por Nagato sequer o encarou de frente, fingiu nem tê-lo visto.

Era um novo garoto e dali por diante jamais deixaria que alguém pisasse nele de novo! Conquistou olhares e em pouco tempo tornara-se muito popular, com seu próprio esforço.

Porque quando uma pessoa está bem consigo mesma e é segura de si se torna extremamente atraente!

Depois disso nunca mais falou com Nagato, ele chegou a mudar de colégio algum tempo depois e perderam por completo o contato.

Anos mais tarde se reencontraram por acaso, morando no mesmo bairro. Sendo adultos já não se deixavam abater pelas coisas dos tempos de escola. Se cumprimentavam normalmente, por educação.

O loiro acordou de suas lembranças chutando as latas vazias de cerveja que estavam pelo chão da sala.

– Ao menos devo agradecer ao cretino bastardo por me fazer ser a maravilha que sou hoje! — sorriu convencido.

Lembrou-se do encontro inusitado da noite passada e do conteúdo da sacola preta. Praguejou alto.

– Dane-se! Se ele não me quis, não falta quem queira! — disse a si mesmo inflando o peito — Eu que não vou cair na besteira de perder meu tempo pensando nele! Nunca mais vou sequer chegar perto daquele cretino! Vou esquecer que o vi! O encontro de ontem nem está mais na minha cabeça!

E repetia constantemente para si mesmo, porque continuava a pensar no encontro inesperado da noite passada, mesmo tentando a todo custo esquecer.

–-

Não encontrava o bendito em lugar algum do shopping. Provavelmente Menma se distraiu com alguma coisa, era típico dele.

Caminhava devagar, avistando ao longe um banco disponível. Aproximou-se dele no intuito de se sentar.

Mas seu braço foi segurado no meio do caminho. Ele suspirou impaciente, se virando para dar uma bronca naquele Uzumaki tolo.

O susto o impediu de pensar ou revidar. A cor fugiu de seu rosto, a mente ficou vazia, branca como uma nuvem. Os olhos verdes se abriram tanto que chegaram a arder.

Ele tremeu, a voz ficou presa na garganta, uma vontade insuportável de ceder às lágrimas.

Nem conseguia acreditar...

O mesmo sorriso inocente e divertido estampava o rosto da garota pequena que segurava-lhe o braço. Ela parecia um tantinho mais madura, seus cabelos castanhos cresceram um pouco, até os ombros. Os olhos negros brilhantes o encaravam cheios de surpresa. Trajava um shortinho de tecido leve, deixando as pernas não muito grossas à mostra, e uma blusinha que deixava um dos ombros descoberto. Sapatos com salto baixo nos pés minúsculos.

–... Gaara? – aproximou-se alguns passos apenas para constatar que não havia se enganado – Gaara!!! É mesmo você! – sem cerimônias largou-se nos braços dele, enlaçando-o pelo pescoço em um abraço furtivo, apertando-o, cheia de felicidade — Nem acredito que esteja aqui!

O coração do ruivo despedaçou por completo com tal gesto. Só o que pôde fazer foi retribuir o abraço, passando os braços ao redor dela, sentindo como o corpo era pequeno e frágil.

Exatamente como se lembrava.

–... Matsuri... – sua voz saiu carregada de saudade. Aspirou o perfume dos cabelos macios, o mesmo que há muito não sentia. As lembranças o invadiram como que por mágica, derramando do interior do peito através dos olhos verdes.

Como sentira falta dela... Tanta que não conseguia explicar, estava entorpecido. Esfregou rapidamente os olhos para que ela não o visse chorar.

A garota se afastou um pouco, sorrindo gentil e sincera como sempre fez.

– Você parece bem. Está mais bonito que a última vez que o vi! — piscou travessa.

–... Coisa de sua cabeça! – virou o olhar para o lado. Odiou a face quente de vergonha e o modo como parecia desarmado perto dela.

– Eu estou falando sério, você mudou bastante! Tanto que quase não te reconheci de longe. Como você está?

– Bem... — lhe sorriu de volta — Trabalhando muito.

– Isso é bom! Nesse ponto vejo que não mudou nada — riu divertida e ele a achou ainda mais bonita — Mas então, o que faz aqui?

– Passando o tempo. Tive um dia cheio — mentiu abertamente.

– E veio sozinho?

– Ah... Não, eu estou com um... Amigo – remoeu-se cheio de pesar e culpa porque até então havia se esquecido completamente de Menma.

Ela pareceu animada, batendo as mãos diante do rosto como se tivesse uma grande ideia.

– É mesmo? Pode se juntar a nós então!

– Nós?

– Vim com uma amiga também.

– Pensei que tivesse vindo... Com aquela que estava namorando...

– A Sari? Não deu certo entre nós.

Os olhos dele brilharam de esperança e prendeu o ar por um instante.

–... Então você?

– Acabei terminando tudo. Em partes me senti uma tonta por ter te largado, percebi que durante esse tempo todo não conseguia me envolver com mais ninguém. Talvez você vá rir de mim, mas... Eu sinto muito a sua falta – volveu-lhe um olhar meigo e gentil, de certa forma travesso, mas muito verdadeiro.

Não havia fingimento ou falsidade, estava sendo muito sincera.

O coração dele bateu desesperado e seu peito tornou-se pequeno para conter a emoção tão forte que o invadiu.

Ela se sentia do mesmo modo? Teve a mesma saudade esmagadora, o mesmo sofrimento que se aprofundava com o passar do tempo?

Então o que os dois estavam fazendo? Por que permitiram que tudo terminasse se apenas desejavam ficar juntos?

Por que ela o tirou de sua vida?

Os lábios tremeram, assim como as íris verdes.

–... Eu também sinto muito a sua falta... Tanta que nem sei explicar, Matsuri... – sem se dar conta de suas ações, ou de qualquer coisa ao redor, Gaara segura o rosto pequeno, frágil e lindo da jovem aproximando-se sem pensar duas vezes. Encarava-a seriamente

Não percebeu resistência alguma e isso o encorajou. Aproximou o rosto devagar, a ansiedade a ponto de matá-lo! Fechou os olhos, já sentindo a respiração bater em seu rosto, inebriado que ela houvesse cerrado os olhos também.

Ao fim do que pareceu uma eternidade seu rosto encontrou-se ao dela e prensou de leve os lábios, suspirando ao senti-la depois de tanto tempo.

Foi o que desejou durante todo o terrível período de saudade, o inferno em que vivia dia e noite desde que a deixara sair de sua vida.

Os braços pequenos da jovem circundaram seu corpo, trazendo-o para mais perto. Gaara esqueceu-se de qualquer coisa, o coração batendo muito depressa.

Próximo dali, Menma vasculhava entre a multidão que começava a lotar o shopping, em busca de seu ruivo que não estava mais no local em que o deixara. Ele certamente chamava muita atenção com toda aquela beleza exótica então era melhor não deixá-lo sozinho por muito tempo.

Provavelmente estaria sentado com uma carranca enorme em algum canto. Riu ao pensar na cena, e achou melhor comprar um copo grande de chá gelado para despistar o mau humor dele. Sabia que o ruivo gostava bastante de chá.

Não o encontrando em lugar algum do shopping o raposo segue ao espaço de fora, ainda vasculhando entre a multidão, indagando aonde aquele ruivo fujão tinha ido.

Não foi preciso procurar muito e logo encontrou ao longe uma cabeleira ruiva bastante familiar, de costas. Riu e caminhou entre as pessoas aglomeradas, pedindo licença, já bem próximo dele. Percebeu que havia mais alguém, e que estavam um tanto próximos...

Parou, no local em que estava.

Demorou alguns segundos até que sua mente pudesse processar, porque até então imaginou que fosse fruto de uma peça de sua mente. O susto o fez soltar o copo que trazia nas mãos, a bebida se espalhando por todos os lados incomodando as pessoas próximas. Abriu a boca para dizer algo, mas som algum saía. Os olhos embaçaram, a face esquentou de pura raiva.

Sua mente embaralhou ao fitar a cena diante de si. Piscou para tentar fazer a imagem sumir mas ela permanecia teimosamente, para arrasá-lo ainda mais. As lágrimas brotaram sozinhas, pingando uma após outra, deslizando pela face quente.

Gaara estava mesmo... Beijando aquela mulher?

E para piorar: ele se lembrava perfeitamente daquele rosto! Era o mesmo que vira na fotografia que estava na casa do ruivo, a que ele guardava com tanto cuidado.

Era Matsuri.

Não quis acreditar no que os seus olhos viam, parecia um pesadelo! Seu coração doeu tanto que quase o sufocou, o ódio embaçando seus olhos.

"Mas que droga é essa....???" — pensava muito depressa, completamente aturdido, seus pés tomando controle, agindo praticamente sozinhos, atraídos ao casal com o único desejo de quebrar aquele contato.

"Isso não pode estar acontecendo... Não agora! Não quando finalmente estamos indo tão bem" — pensou desesperado, o choro de raiva e angústia descendo livre pelo rosto ao passo que alcançou os dois, segurando os ombros do ruivo com tanta força que ao empurrá-lo para longe o fez cair ao chão.

Matsuri assustou-se, dando um passo para trás, confusa. No chão, Gaara tentava se recompor, irritado com o ocorrido.

– Qual o seu problem...? — calou-se ao perceber de quem se tratava. Uma expressão de pânico, de pesar e culpa se misturou no rosto. Ele fez que não com a cabeça, ainda incrédulo.

"Menma..." — tentou em vão pronunciar, mas a voz morreu na garganta. Ficou preso às íris molhadas do moreno, este o fitando decepcionado, a raiva nítida no rosto vermelho.

Respirou depressa, várias golfadas, acompanhando as lágrimas que escorriam do rosto de Menma. Sua cabeça e seu peito doeram mais do que era capaz de suportar, sobretudo quando o moreno desviou o olhar e lhe deu as costas, seguindo pela multidão.

– MENMA!!! — a voz que até então estava presa explodiu na garganta. Tropeçou ao tentar se levantar. A esta altura as pessoas em redor olhavam para eles.

Procurou com os olhos entre a multidão, mas não encontrou o moreno em lugar algum. Seguiu apressado ao interior do shopping, pedindo licença enquanto passava apressado, os olhos verdes desesperados tentando achá-lo.

Nada! Menma desapareceu em um instante deixando-o para trás, sozinho e confuso.

E com a única certeza de que havia estragado tudo.

–-

Os portões da casa sede rangeram bem no instante em que Madara ergueu o corpo majestoso de sobre a sua diversão daquela noite.

Obito ofegava enquanto o encarava, os olhos foscos pelo prazer que quase o levou à loucura total. Não tinha forças sequer para se mover, e mesmo se quisesse fazê-lo ainda sentia as pernas formigarem pela rudeza com que foram seguradas, o corpo dolorido pelos orgasmos seguidos. Seu peito subia e descia muito depressa, cheio de marcas de açoites, estampando a violência a que fora exposto. Sêmen se misturava às feridas, fazendo-as arder de leve.

Para Madara dor e prazer andavam lado a lado, como irmãos, como amantes que não podem viver um sem o outro. Caminhou pelo chão do quarto, sobre as roupas largadas de qualquer jeito. Obito o seguia com os olhos, fascinado com aquele corpo maravilhoso. Lamentou quando a seda escura do kimono cobriu a pele e suspirou ao vê-lo jogar os cabelos para trás.

Madara era perfeito. Sua mais sublime fonte de desejo e obsessão. Queria-o inteiro só para si, por todas as noites e mesmo durante o dia. Aqueles magníficos olhos negros deviam olhar somente para si.

– Preciso recepcionar meu ilustre convidado, Obito — lhe dirigiu um olhar por sobre ombro e o outro entendeu de imediato o que quisera dizer.

Que era conveniente que o seguisse. Assistiu-o caminhar elegantemente para fora, a revolta crescendo sem controle.

O que precisava fazer para ter a atenção do patriarca só para si? Trazer Itachi de volta?

Pois muito bem. Se tal era o preço Obito o pagaria de bom grado, mesmo que tivesse que destruir Itachi para fazê-lo tornar à casa sede!

–-

Como esperado, seu pequeno cordeirinho regressou de livre vontade ao seio Uchiha. Era adorável.

Cruzou as pernas ao sentar-se , o tecido fino do kimono deslizando pelas coxas lisas.

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Sasuke não se moveu, oferecendo um olhar de ódio absoluto, retesado na cadeira ante a seu avô, ao lado dele como de costume Obito, impassível.

O cômodo estava tão silencioso que podiam ouvir suas respirações subirem ao ar.

– É raro receber visitas suas nesta casa, Sasuke. A que se deve tanta honra? — riu sarcástico.

– Sabe muito bem o motivo de minha vinda — não desviou o olhar — É o fim para você.

– Perdão?

– O poder que achava que exercia sobre mim acabou Madara! Vim justamente para lhe deixar bem claro que não tenho medo de suas ameaças — estreitou os olhos, desafiadoramente.

O mais velho sustentou o sorriso.

– Gostaria que fosse mais específico. Creio que ainda não compreendo o motivo de sua visita.

– Meu contrato de casamento diz claramente que eu deveria me manter casado com Karin apenas pelo bem estar de Itachi, mas isso não é mais necessário.

Um leve espasmo passou por um dos olhos do mais velho.

– Vejo que me traz boas notícias. Com isso quer dizer que Itachi despertou, não é?

– Como se você não soubesse — ralhou de volta — Aposto que não contava com essa reviravolta. Jamais imaginou que alguém tiraria Itachi do hospital bem debaixo de seu nariz! Se achou mesmo que poderia mantê-lo sedado enganou-se terrivelmente, Madara! Itachi está em perfeita saúde. E nada mais me une à Karin. Vou me divorciar dela e me casar com Naruto, você querendo ou não!

O sorriso se tornou extremamente cruel. Por já estar acostumado, Sasuke não se intimidou, mas qualquer pessoa normal teria sentido um calafrio na espinha ao fitar aquela face sombria.

–... Só para constar: eu sempre prevejo ao menos quatro passos à frente, Sasuke. Essa é uma estratégia básica de liderança, uma tática que os antigos espadachins usavam para preservar suas vidas durante uma luta. Prever cada possível ataque inimigo é o que distingue vida e morte no campo de batalha.

– E quer me fazer crer que previu que tirariam Itachi do hospital? Não me faça rir — desdenhou friamente, um sorriso de desafio no rosto.

A risada seca do patriarca ecoou pela sala inteira.

– De fato você continua muito inocente, Sasuke. Esse é um ponto em seu favor, o que o diferencia de Itachi e o torna mais gracioso que ele.

Em resposta a isso o mais novo enruga a testa e estreita o olhar.

– O quer dizer?

– Que eu não seria tolo o suficiente para depender de um único trunfo. Itachi jamais foi minha cartada final, muito pelo contrário.

– Não importa o que diga, não cairei em nenhum truque sujo seu. Minha decisão já está tomada: estou me divorciando de Karin para casar-me com Naruto!

Foi a vez de Madara o intimidar com o olhar. O sorriso ainda estava lá, cínico e cruel, mas era nítida a ira que crescia nele ao ouvir falar do garoto loiro.

– Você não vai se separar de Karin, Sasuke.

– Não tenho mais porque seguir suas ordens Madara. Se o fiz antes foi unicamente para salvar Itachi — ergueu o rosto, arrogante — Já lhe disse que nada mais me obriga a ficar com aquela mulher!

– Não preciso obrigá-lo. Você mesmo tomará conscientemente a decisão de continuar casado com ela.

– Pois não conte com isso! Não sou mais um garoto, nem cairei mais em seus truques!

– Creio que sua opinião possa mudar drasticamente — endireitou as costas, para que assim seu rosto ficasse altivo como tanto gostava -... Afinal sua recusa pode significar a morte lenta e dolorosa de uma pessoa muito próxima à você.

– Naruto, Itachi e Sasori estão muito bem protegidos, assim como todas as pessoas ligadas à eles. Não sou tolo o suficiente para deixar minha família desprotegida!

– Agora essas pessoas viraram sua "família"? — desdenhou — Você realmente me diverte, Sasuke. Acho que está esquecendo quem é sua família de verdade.

– Não posso considerar ninguém desse clã infernal como minha família, exceto Itachi!

– É mesmo? — cruzou as mãos, apoiando o rosto sobre elas, os cotovelos sobre os joelhos.

Seu olhar era sagaz como o de um felino sobre uma presa pequena e indefesa.

–... E quanto à Mikoto? Ela também não pode ser considerada como parte de sua "família"?

O sangue do Uchiha mais novo ferveu nas veias.

– Não fale o nome dessa mulher na minha frente!

– Querendo ou não ela é sua mãe.

– Aquela mulher não é nada minha! Ela traiu a todos, abandonou Itachi e a mim à própria sorte ainda crianças no meio desse covil de serpentes! Nunca considerarei como minha mãe uma mulher covarde que foge para se salvar largando duas crianças inocentes completamente sozinhas! Seus próprios filhos!!!

Os olhos negros dele tornaram-se rubros como sangue, parecia possesso.

Apenas lembrar os dias do passado era como cutucar uma ferida aberta e fazê-la tornar a sangrar. As noites chorando sem parar, quando foi separado de Itachi. O modo frio como foi tratado pelos cuidadores, tanto tempo sozinho enclausurado, um medo difícil para uma criança tão nova suportar.

Nunca a perdoaria pelo que fez... Jamais! Mikoto não era sua mãe, não tinha direito algum de ser chamada assim!

Madara sorria divertido com o desespero dele. Era delicioso assistir seu conflito emocional.

–... Naturalmente essa é a versão que você conhece. Mas não significa que seja a versão real dos fatos, Sasuke.

– Poupe-me de suas mentiras.

– Não preciso mentir. Sei que você mesmo já se perguntou o que Mikoto fez de tão grave assim para ser exilada.

– Isso não me importa!

– E se eu disser... Que o motivo da expulsão dela foi porque deu à luz a você, Sasuke?

O rapaz ficou confuso, pego de surpresa pelas palavras dele.

–... De que diabos está falando?

– Da verdade que você desconhece — balançava devagar a fita que amarrava o kimono na cintura, de um lado para o outro, provocando um chiado no ar — A de seu nascimento não desejado por nenhum de nós, Uchihas. Desde o princípio você nos era completamente desnecessário, um completo estorvo. Itachi é o herdeiro que esperávamos, de modo que Mikoto já havia cumprido seu papel, não havia necessidade alguma de nos dar mais uma criança.

Sasuke franziu bem a testa, compreendendo a razão de tal conversa.

– Quer tentar me jogar em uma armadilha psicológica porque não fui uma criança desejada? Não é surpresa alguma para mim tendo pais como os meus.

– É nesse ponto que você se engana — o sorriso aumentava, ele chegou a estremecer de deleite ao fitar os olhos confusos do neto.

Tão inocentemente lindo... Dava vontade de dilacerá-lo pedacinho por pedacinho...

– Tínhamos Itachi, e ele nos bastava. Era o primogênito, o herdeiro da maestria Uchiha. Entretanto, conforme crescia, comecei a perceber claramente a herança genética defeituosa que Mikoto passou à ele.

– Defeituosa? — não conseguia entender, Itachi sempre foi brilhante, bonito, inteligente. Não havia nada errado com ele, ao contrário. Sasuke sempre quis ser como Itachi.

– Seu irmão desde muito pequeno apresentava uma clara... Inclinação e atração por pessoas de mesmo sexo que ele. Essa inclinação se tornou evidente ainda criança. Consegue perceber o escândalo que se formou quando o clã percebeu que o herdeiro, o destinado a continuar com o legado dos Uchiha, futuramente poderia desejar se unir a outro homem?

Um nó de desgosto, raiva e frustração se formou na garganta de Sasuke. Eram tantas informações absurdas que ele não sabia direito o que pensar. Ignorando sua batalha interior o mais velho prossegue.

– Eu não permitiria que Mikoto tivesse uma nova criança com Fugaku, justamente para não me expor ao risco de ter outro herdeiro que carregasse os genes defeituosos dela. A proibi terminantemente de ter mais filhos e exigi que se separasse de Fugaku e desse Itachi a mim. Ele me pertence desde o princípio.

–... Isso não faz o menor sentido!

– Ah, se engana Sasuke. Faz todo o sentido! Mikoto me desobedeceu e se deixou cair num descuido, que resultou em você. Eu faria de tudo para te destruir, ainda dentro dela, antes que sequer começasse a se formar. Mas Mikoto se rebelou contra mim e todo o clã ao se descobrir grávida. Com isso foi deserdada por meu filho Fugaku, que queria veementemente o aborto, assim como todos do clã. Ela enfrentou todo o fardo sozinha durante toda a gestação, apenas para que você vivesse, Sasuke.

Ele não piscava, não respirava direito.

Era montes de mentiras sem sentido algum. Sua mãe nunca foi esse tipo de pessoa. Sempre escutou as histórias dela, desde menino! Uma mulher fútil, desagradável, sem responsabilidade ou respeito por nada ou ninguém.

Era tudo que sabia sobre ela, tudo que lhe disseram.

– Mikoto contaminou vocês. Tanto Itachi quanto você possuem essa desprezível vontade de ficar com pessoas do mesmo sexo, algo completamente fora dos padrões de qualquer homem de bem. Algo inaceitável para um neto meu.

– Cale essa boca! O que faço de minha vida não tem nada a ver com genes, e sim em ficar ao lado de uma pessoa que me é realmente importante! Não faz diferença se Naruto é um garoto, eu o amaria mesmo se fosse uma garota! Amo a alma dele, e a alma não tem sexo! — vociferou, rubro de raiva.

– É um tanto meigo e idealista, mas não se aplica à realidade. Homens não podem gerar famílias, Sasuke.

– Óbvio que podem! Naruto é compatível!

– Não me lembre desse detalhe tão desagradável — levou uma das mãos à têmpora — Compatibilidade é mais um dos odiosos problemas genéticos que desejo manter o mais distante possível do clã Uchiha. Por isso minha preocupação exacerbada em manter nossos genes intocados, para que essa praga não infeste nossa raça.

Sasuke sabia dessa parte da história como ninguém.

– Então acredita que se mantiver os genes o mais puros o possível vai impedir que um Uchiha nasça compatível?

– Você é perspicaz como seu irmão — riu — Nunca aconteceu ao longo da história de um Uchiha nascer compatível, é completamente impossível dado o fato de ser hereditário e não haver um único de nós que possua essa anomalia. Quero conservar a realidade dessa forma, preservar a pureza da raça. Homens não devem engravidar, isso é tarefa de mulheres.

– Então é por isso que proíbe homens de ficarem com outros homens?

– Naturalmente.

– É tão descabido que chega a soar infantil! Não se pode vetar a vontade das pessoas. E não consigo compreender o que toda essa história absurda tem a ver comigo, ou com a mulher que se diz minha mãe.

– Tem uma ligação crucial, Sasuke. Porque ela é o tipo de pessoa que mais detesto, ela pensa como você. Quis proteger as duas crianças impuras que gerou, negando-se a entregá-las à mim para que eu pudesse educá-los e colocá-los no caminho correto. Travou uma batalha silenciosa contra o clã, quis me fazer crer que vocês eram livres para fazer o que quisessem. Ela era um perigo para todos, e naturalmente tivemos que afastá-la de vocês.

Sasuke engasgava com a própria respiração, tão confuso e assustado que sua cabeça doía horrivelmente.

– Afastá-la? Esse é o motivo de ter sido exilada?

– Que outra medida eu poderia adotar? Mikoto representava um risco, é uma dessas pessoas revolucionárias que soam perigosas. No instante em que prosseguiu em sua gravidez ela já havia assinado a própria sentença. Eu não a aceitaria mais como uma Uchiha, mesmo ela sendo filha de meu irmão, Izuna.

–... Mas... Me disseram que ela havia cometido um crime grave... Que foi julgada culpada, e que por isso fugiu, porque se ficasse seria morta.

– Quer crime mais grave do que este? A deixei ciente de que se voltasse a ficar perto de vocês eu a mataria sem hesitar. E tal foi o motivo de seu sumiço súbito do clã, abandonando as duas crianças que tanto queria proteger.

Sasuke prendeu o ar por um instante.

Não podia ser.

–... Você... Está mentindo...

– Pense o que quiser — riu de lado — Mas não muda o fato de que tudo em que acreditou até hoje era uma completa mentira. Sua mãe nunca largou você ou Itachi, ela teve de fazer isso ou seria morta. Não teve tempo de elaborar uma fuga, viveu com medo e se instalou em outro país, sob a identidade de um homem. Trabalhou forçosamente, teve uma vida miserável. Nunca foi a criminosa que todos pensaram. Ela estava apenas tentando proteger vocês dois. Percebe? Desde o princípio você causou apenas dor e sofrimento à sua mãe — sorria cínico.

–... Se é assim então por que está me contando isso tudo agora? Por que esse interesse todo em me fazer descobrir toda a verdade?

– Porque me pergunto: o que você faria diante da possibilidade de sua mãe inocente ser morta por sua causa? Ainda mais sabendo que tudo que ela fez foi unicamente para proteger você?

Sasuke rangeu os dentes de puro ódio.

–... Quer usá-la como desculpa para me manter atado à Karin?

– Você entende rápido.

– Pois não conte com isso, Madara! Eu não confio em nada que me diga!

– Confiando ou não, quem pagará por isso é unicamente a sua mãe, Sasuke.

– Ela nunca mais deu notícias! Ninguém sabe onde ela está!

– Essa foi a realidade durante muito tempo. Mas Mikoto voltou quando descobriu que Itachi estava em estado vegetativo. Diferente de meu filho Fugaku ela se deixa levar facilmente pelas emoções. Queria vê-lo de novo, mesmo eu tendo proibido. E assim que pôs os pés nessa cidade nós a localizamos. Na realidade nesse exato momento ela está em meu poder, e pode nos ouvir desde que iniciamos essa conversa.

Os olhos negros se abriram de surpresa e espanto.

Sua mãe podia ouvi-lo...? Depois de todas as coisas horríveis que dissera a seu respeito?

– Mas por outro lado você ainda tem chance de salvá-la, Sasuke. E de uma forma muito simples: não se divorcie, e dê à Karin o filho que ela deseja. Se fizer isso manterei minha palavra e sua mãe continuará viva. Terá chance de se reencontrar com ela para fazer todas as perguntas que quiser, imagino que você tenha muitas e queira confirmar dela toda a verdade.

Engasgou, o ar machucava sua garganta. A mente rodava depressa demais.

Olhou por todo canto daquela sala, procurando os pontos de câmeras, ou de som, algo que o aproximasse dela.

Porque de repente não compreendia mais coisa alguma. Sentiu-se perdido.

– Quer dizer algo à Mikoto? — ironizou — Fique à vontade, o som vai diretamente à cela em que está presa. Pode aumentar-lhe o sofrimento dizendo que ainda quer insistir na bobagem de se divorciar para ficar com o garoto loiro. Mas nem imagino como uma pessoa que será morta em breve reagiria à essa notícia.

– Seu...!!! — avançou para lhe dar um soco, possesso de tanto furor, mas foi impedido por um homem rápido como uma flecha que surgiu de detrás da porta, segurando-lhe e o lançando ao chão antes de ter tempo de revidar. Praguejou ante à dor do braço torcido para trás, percebendo que se tentasse se mover este seria quebrado. Olhou para cima, percebendo confuso que era Shisui quem o segurava.

Não compreendia mais nada! Shisui era seu primo, o melhor amigo de Itachi! Por que se uniu à Madara???

– Shisui! Que droga pensa que está fazendo??? — gritava com ele, a bochecha prensada no chão.

O homem sobre seu corpo não respondeu, o rosto impassível. Ao ter certeza que era seguro o soltou. Sasuke correu ao canto da sala, irritado, sabendo ser um alvo fácil. A porta de saída foi bloqueada por Obito, que parecia disposto a impedir qualquer movimento.

Estava encurralado!

Madara divertia-se tanto que a excitação crescia nele, fazendo-o ofegar. Várias fotos foram atiradas no chão, perto de Sasuke. Precisou se esforçar para vê-las.

E paralisou em seguida.

– Vejo que se reconhece nesses retratos, Sasuke. Indubitavelmente este é você em suas costumeiras saídas noturnas.

–... Onde... Diabos conseguiu isso? — olhava aturdido sua própria imagem em um tempo que gostaria de esquecer.

Eram fotos tiradas logo que se casou com Karin. Retratos de suas saídas, das pessoas com quem a traiu.

– Tenho inúmeras provas acerca de sua traição à Karin. Provas que podem facilmente explicar os motivos que a levaram a enlouquecer. Qualquer mulher que fosse tratada como ela foi por um ano inteiro apresentaria tais sintomas.

– Karin ajudou a deixar meu irmão em coma induzido!!! Ela é uma perturbada!!! — vociferou em resposta, tentando se soltar.

– E como você vai provar que ela não ficou assim por sua causa, por tê-la traído tantas vezes?

– Isso não tem nada a ver com o que ela fez ao Itachi! Eu tenho provas!

– Que seriam?

– O médico responsável pela medicação de Itachi! Ele mesmo pode dizer como foi obrigado a mantê-lo em coma!

– Seria uma excelente testemunha. Mas lamento informar que esse homem de quem fala está morto agora.

O coração do jovem Uchiha batia desesperado dentro do peito.

Morto? A principal testemunha do caso de Itachi estava morta?

Não precisava pensar muito para descobrir a verdade, não pelo modo como Madara sorria. Ele o matara, para que não houvessem testemunhas! Os outros funcionários do hospital com toda certeza se calariam ante a isso, com medo de ter o mesmo fim que ele. Não haveria ninguém para depor em seu favor, para dizer que Itachi nunca esteve doente e sim que o hospital o mantinha naquele estado.

E se tentasse incriminar Karin usando seu estado de loucura como prova a defenderiam alegando que Sasuke a levou a tal estado, por havê-la traído por tanto tempo.

Era brilhante. Maldição!

–... A escolha é sua Sasuke, e deve me agradecer por dar-lhe a opção de escolher seu futuro. Naturalmente que Naruto Uzumaki não deve saber de nada do que está acontecendo, ou não teremos um acordo.

– Não envolva Naruto nisso!

– Ele se envolveu de livre vontade ao ficar com você. E me preocupa ainda mais o fato de que esteja esperando duas odiosas crianças suas.

Inferno! A informação corria rápido demais. Não imaginou que Madara já soubesse sobre os gêmeos.

– Embora me desagrade muito você é meu herdeiro também, Sasuke. E preciso de você. Sendo assim estou lhe dando a chance de firmar um acordo comigo.

A essa altura tudo que o mais novo conseguia fazer era escutar.

– Se recusar esteja certo de que não importa onde se escondam, vou matar Naruto sem pestanejar, assim como as crianças que estão dentro dele.

– Eu nunca vou permitir que machuque Naruto ou meus filhos, nem que isso custe minha própria vida!

– Sei disso, que é um homem impulsivo. E não é conveniente a mim que faça alguma besteira. Como lhe disse antes: eu preciso de você. Então posso garantir que Naruto viva, bem como seus gêmeos detestáveis, desde que ele se mantenha suficientemente longe de você. Ninguém deve saber que essas crianças são fruto da mácula do gene Uchiha. Elas poderão viver desde que ninguém saiba que são filhos seus, e desde que fiquem afastados definitivamente. Se por acaso você teimar em me desobedecer esteja certo que não hesitarei em matar os três.

Sasuke rangeu os dentes, totalmente encurralado. Estava nas mãos de Madara, não conseguia encontrar uma saída.

– Imagino que esteja pensando em diversas saídas agora, para resolver seu problema. Se quiser envolver seus advogados, fique à vontade. Mas sua mãe será morta mais depressa e nem imagino como pode ser perturbador um rapaz grávido passar por uma tortura longa que o faça abortar, até que ele mesmo morra lentamente.

Os olhos de Sasuke tremeram por um instante ante à frase e Madara soube que seu trabalho estava feito.

– Espero que me traga boas novas na próxima vez que nos encontrarmos, Sasuke. Se não o fizer, creio que saiba exatamente as consequências de seus atos — fez sinal à Obito para que liberasse a passagem. Sasuke ofegava, tomado de raiva, os punhos tão apertados que as unhas machucavam as palmas.

–... Não vou permitir que machuque mais ninguém. Ainda não venceu, Madara.

– Está enganado — desdenhou, triunfante — Eu venci no instante em que aquele garoto se tornou sua fraqueza, Sasuke — pela primeira vez assumiu a face que costumava ter, a que poucos conheciam de fato. Uma face extremamente cruel e sanguinária — Ninguém me desafia sem pagar muito caro por isso, Sasuke. Ninguém.

–-

Estava ensopado. A chuva muito forte não parecia dar tréguas, gelada, açoitando seu corpo. Os passos que dava pareciam pesar cem vezes mais que o normal. Os pés encharcavam as escadas e o piso central.

Deteve-se diante da porta do apartamento dele, os cabelos pingando, o rosto lavado, os olhos foscos e sem vida.

Não soube dizer quanto tempo ficou ali, pensando no que dizer, no que fazer. Sua mão ergueu-se no ar diversas vezes, para bater à porta ou tocar a campainha, mas tornava a baixar.

Ouviu um ruído vindo de dentro do apartamento e seu coração acelerou. Rastros quentes desciam pelo rosto molhado e gelado quando ele surgiu diante de si, os lindos e sinceros olhos azuis tomados de espanto. Teve vontade de segurá-lo e fugir para longe quando aquela mão pequena e quente tocou seu rosto, enquanto ele o olhava preocupado.

–... Sasuke? — Naruto parecia perplexo ao fitar o namorado, preocupado com o estado em que se encontrava. Ensopado dos pés à cabeça, os olhos inchados de tanto chorar, rastros imensos descendo pelo rosto pálido em meio à água da chuva.

– Sasuke! — balançou seus ombros, porque as íris dele pareciam desfocadas -...Meu amor, tá tudo bem? O que aconteceu?

Nunca o vira assim antes, Sasuke era sempre tão concentrado e altruísta.

–... Naruto... — respirou fundo, tentando controlar o ardor em seus olhos e o nó na garganta.

Era provavelmente a coisa mais dolorosa que já fizera na vida. Naquele momento, Sasuke quis voltar no tempo, para o dia da festa de noivado. Desejou secretamente nunca ter ido àquela festa, nunca ter conhecido Naruto, jamais ter se envolvido com ele...

Mas, percebeu então que os dias que se seguiram foram os mais intensos e maravilhosos que já tivera. Depois de conhecê-lo, pela primeira vez sentiu-se completo, encontrou o que tanto buscava, o que tanto lhe fazia falta.

Encontrou o grande amor de sua vida, a pessoa a quem desejava proteger ainda que lhe custasse tudo, aquele com quem desejava viver até o dia de sua morte. Seu bem mais precioso.

A pessoa que o ensinou a viver.

Desceu o olhar ao ventre arredondado, piscando pesarosamente. Soltou o ar preso bem devagar, porque o peso do que sentia esmagava seus ombros cansados. Ergueu o olhar de volta a um Naruto completamente aturdido e confuso.

Era para o bem dele, e de seus filhos a quem já amava com toda a força que tinha dentro de si. Para que aquelas crianças pudessem crescer livres e felizes, ao contrário de si próprio.

–... Quero que você saiba, antes de qualquer coisa... Que meu amor por você é imenso. Maior até mesmo do que o apego que tenho por minha própria vida — piscou devagar, sem tirar os olhos dos dele — Eu te amo da forma mais pura que alguém pode amar, Naruto. Você é tudo pra mim.

O loiro tremeu com aquelas palavras.

–... Está me assustando, Sasuke.

–... Eu só quero que saiba isso... Porque... — as forças sumiam de dentro dele — Porque infelizmente... Eu não posso mais ficar com você.

O loiro paralisou no local em que estava, a face estática. Aquela frase ecoava em sua cabeça, mas o sentido se perdia.

Respirou bem fundo, tentando se acalmar. balançou a cabeça e fechou os olhos bem forte, como se tentasse limpar a mente para assimilar melhor

– O que disse?

– Não posso mais viver com você, Naruto — frisou da maneira mais enfática que conseguiu, sem conseguir se mover, mas encarando-o dessa vez.

– Como assim não pode...? O que está acontecendo, Sasuke?

Ele virou o olhar para o lado.

– Não tenho como explicar porquê...

– Está falando de nosso apartamento? Aconteceu algum imprevisto? Se for isso eu posso esperar!

– É sobre nós dois — insistiu — Não posso mais ficar com você, temos de nos separar.

– Madara está fazendo alguma coisa, não é? Me diga o que é dessa vez Sasuke! — segurou em seus braços, olhando-o com determinação — Você não está sozinho! Precisa confiar em mim!

– Não se envolva mais em minha vida, nem com os meus problemas, por favor. Para o seu bem... E o de Aiko e Daisuke...

– Nossos filhos precisam de você, Sasuke. Eu preciso de você! — ergueu um pouco a voz, já muito alarmado.

– Naruto... — teve vontade de tocar-lhe o rosto, mas a mão se deteve no ar, trêmula — Acredite, estou fazendo o melhor para todos nós.

O loiro mordeu o lábio inferior e franziu a testa, soluçando quando as lágrimas transbordaram.

– O melhor para mim é ficar com você, Sasuke! Precisa me explicar o que está acontecendo!

– Não há o que explicar. É exatamente como eu lhe disse.

– Não pode fazer isso comigo!!! — bateu os punhos no peito molhado dele, para apoiar a cabeça em seguida, cedendo à raiva das lágrimas que não paravam de cair -... Não pode fazer isso conosco... Eu amo você, Sasuke...

O Uchiha fechou os olhos por um instante. Quando os reabriu havia uma frieza imensa neles. Segurou os ombros mirrados, afastando-o de si com um gesto firme. Engoliu em seco ao encará-lo, tomando toda coragem que precisava.

– Se deseja tanto assim uma explicação eu posso dá-la à você, Naruto. Eu pensei melhor... E creio que me equivoquei em minhas decisões.

–... Suas decisões?

– Acerca de meu futuro. Eu não o imagino com você a meu lado. Vou desistir do divórcio, e darei à Karin o filho que ela tanto quer.

A surpresa tomou conta dos olhos azuis, incrédulos demais.

–... O q...? — a voz morreu na garganta, porque não sabia verbalizar o que estava sentindo.

– Karin tem genes submissos aos meus, pode me dar uma criança que herde todos os traços indispensáveis aos Uchiha. Uma criança aceita pelo clã, minha herdeira legítima.

Os olhos azuis não conseguiam sequer piscar. Havia uma incredulidade nítida nele, assim como desapontamento, tristeza e pesar.

Aquelas palavras doeram mais nele do que qualquer outra coisa. Estava destroçado.

–... Me diz que está mentindo, Sasuke...

– Não estou. É minha decisão final.

Havia tanta mágoa no olhar do loiro que o Uchiha não conseguiu sustentá-lo.

– Você vai continuar ao lado daquela mulher... Depois de tudo que ela fez ao Itachi... Aos nossos filhos... Como pode dizer uma coisa dessas?! — a voz se erguia no ar, indignada — Você enlouqueceu, Sasuke???

– Não se meta em minhas escolhas! Você não sabe de nada! — ergueu igualmente a voz — Estou fazendo o que acho correto, Naruto! Já lhe disse para ficar fora de minha vida e dos meus assuntos! Você nunca será capaz de entender como me sinto! Este é um problema somente meu!!!

– Não tem que dar à ela um filho! Você já é pai! Seus filhos estão dentro de mim agora!

– Mas não são crianças com o sangue puro que o clã espera de mim! Eu não poderia me apresentar diante de Madara com Aiko e Daisuke porque não são nem metade do que o clã espera deles!

Um estalo cortou o ar. Sasuke parecia surpreso ao ter a face estapeada pelo loiro. Este o fitava com um misto de ódio e ressentimento, respirando pesado.

As palavras duras que ouvira de Sasuke o machucaram, naturalmente. Mas jamais permitira que dissesse algo sobre seus filhos.

Isso jamais!

–... Nunca mais se refira aos meus filhos dessa maneira.

– Você não está querendo entender...

–... Se é assim que você pensa... Se acha que pode me dizer um absurdo como esse sem que eu possa opinar, ou saber o que está acontecendo... Então pode ir embora Sasuke.

O moreno engoliu em seco.

–... Não precisa saber de nada além do que lhe disse.

– Só o que sei agora é que me enganei a seu respeito. Eu achei que o conhecesse.

– É melhor assim, para todo mundo... Precisa acreditar em mim, Naruto.

– Nunca vou entender essa estupidez — tirou a aliança do dedo anelar direito, jogando-a aos pés do Uchiha que a seguiu com o olhar. Repetiu o gesto com o colar que comprara com intuito de representar os laços inquebráveis que partilhavam.

Que estupidez!

Limpou o rosto, magoado e ressentido, para encará-lo de frente. O colar que trazia no pescoço, o mesmo que o

–... Acabou, Sasuke.

Deu-lhe as costas, sem esperar por qualquer outra resposta, e fechou a porta detrás de si. Sasuke ainda se sentiu tentado a pará-lo, a impedir aquela porta de se fechar, de não deixar que ele saísse de sua vida.

Mas nada fez até que a porta se fechasse. Encostou a testa nela, acabado. Envergou a boca e permitiu que as lágrimas contidas escapassem de uma só vez.

Doía mais do que era capaz de suportar. Chorou em silêncio, sozinho, sem conseguir acreditar no que estava acontecendo.

No lado de dentro do apartamento Naruto cambaleava em direção ao quarto, alheio à tudo, até mesmo ao chamado de seu pai. Quando a mão de Minato segurou seu braço ele se virou, confuso, vermelho e soluçando em um choro muito sofrido.

Minato ficou sem entender.

–... O que você tem filho? O que aconteceu?

–... Ah pai... — sem reservas passou os braços ao redor do corpo dele, escondendo o rosto no peito largo, desabando a chorar, esvaziando a dor horrível que sentia em seu peito — Acabou, pai... Tudo acabou...

Minato o abraçou de volta, sem entender.

– Tente se acalmar, isso não faz bem aos bebês.

– Eu não posso acreditar que ele esteja fazendo isso comigo... Depois de tudo que aconteceu!

– Do que está falando? Quem estava na porta, Naruto? E o que essa pessoa fez para você ficar desse jeito?

– Sasuke veio até aqui para terminar comigo... — fungava, tremendo enquanto secava o rosto — Ele vai continuar casado com aquela mulher...

Minato pareceu estupefato.

– Sasuke disso isso? Mas por quê?

–... Ele não me explicou nada... Só veio dizer que não podia mais ficar comigo — fungou mais alto, franzindo a testa com a dor que não demorou a vir. Segurou com força a barriga, sentindo a alma ser feita em milhares de estilhaços — Ele vai dar um filho à ela, pai... Vai dar um filho à Karin!

O ódio fervilhou nas veias de Minato. O semblante sempre calmo e comedido se transformou de um instante a outro. Teve vontade de alcançar Sasuke onde quer que estivesse e esmurrá-lo até que lhe contasse o que estava acontecendo!

O que o impediu foi somente o filho desolado, que parecia sofrer com as dores horríveis que sentia.

– Você precisa se acalmar, pelo bem das crianças — ajudou-o a caminhar em direção ao quarto, fazendo-o sentar sobre a cama — Tenho certeza de que tudo isso é apenas um mal entendido, e que vocês dois vão conseguir resolver se conversarem com calma.

– O olhar dele não era o de um simples mal entendido!

Minato sentiu-se mal por ele. Buscou na cozinha um comprimido e um copo de água, obrigando o filho a tomar. Em alguns segundos os olhos azuis se tornaram pesados, quase se fechando, vencidos pelo cansaço. Não demorou muito e o corpo exausto de Naruto cedeu ao calmante, caindo em um sono muito profundo. O rosto molhado descansava no travesseiro.

Minato o observou por um instante em silêncio. Cobriu-lhe o corpo com uma manta e apagou as luzes, deixando o quarto em seguida.

O que estava acontecendo? Por que Sasuke estava agindo dessa maneira? Ele devia saber que uma notícia como essa abalaria Naruto, que o faria sofrer e colocava em risco os bebês.

Enlouquecera? Por que queria voltar com Karin? Era óbvio que amava Naruto!

Seja lá qual fosse o motivo jamais permitiria que machucasse seu filho, que o fizesse sofrer assim. Havia dito isso no dia em que conversou com o Uchiha no hospital, quando Naruto lutava para não perder as crianças que esperava por conta do abortivo que Karin lhe dera.

Que se alguma vez Sasuke o fizesse chorar, pagaria muito caro por isso...

–-

O sol raiou em seu quarto, os olhos pesarosos doíam com a luz.

Passado o efeito do calmante Naruto não conseguira mais dormir, não com tanta coisa passando por sua cabeça.

Não chegou tão longe para deixar as coisas terminarem daquela forma. Exigiria uma explicação convincente, saber o que realmente estava acontecendo.

E traria Sasuke de volta, ainda que tivesse que lutar com todas as forças para isso!

Continua.

Notas finais
Sim, sei que querem me matar e já estou esperando por isso rs Me preparei psicologicamente para este momento. Quero deixar bem claro que as tempestades servem para amadurecimento! Eles precisam passar por esse momento. O colar que Sasuke e Naruto trocam nesse capítulo é oficial e é possível comprá-lo. É da coleção Naruto Shippuden x The Kiss, de uma marca conhecida por fazer jóias de shipps de animes para casais de namorados ou noivos no Japão . Preparem suas armas e mandem comentários rs Estou esperando ansiosa por eles! Só nada de xingar hein? Vamos conversar civilizadamente. Expressem o que estão sentindo porque quero muito saber! E claro: vamos torcer muito pelos nossos casais! Beijos meus amores!