Entre A Razão E O Desejo - Em edição
19 Laços
Notas iniciais
Fechou os olhos e soltou o ar lentamente, tentando acalmar a ira que crescia dentro de si.
Karin estava sentada na beirada da cama. Não saíra do apartamento um momento sequer desde o incidente no hospital. A raiva a fez roer as unhas até machucar as pontas dos dedos, deixando-os em carne viva. Sua pele parecia sofrer com a falta do sol. Ela parecia apática e doente.
Mas, ao perceber o esposo parado junto à porta seu mundo se iluminou. Ele estava ali com ela, não precisava de mais nada para ser feliz! Fitava-o com adoração, como se estivesse vendo o próprio Deus encarnado.
Sasuke por sua vez a encarava muito sério, os dentes pressionados um no outro. Era difícil descrever o que estava sentindo.
Por culpa da mulher diante de si, a que se dizia sua esposa, sofreu um inferno tão grande que era difícil descrever. Karin foi a principal responsável por manter Itachi em coma, preso no hospital. Não teve a menor compaixão ao vê-lo padecer a cada dia, usou-o como pretexto para manter aquela farsa que chamava de casamento.
Tentou se manter calmo, por mais que o ódio fervilhasse em suas veias. Não pela mulher desprezível que estava diante de si, mas por ele mesmo.
–... Vou dizer isso apenas uma vez, Karin – iniciou uma conversa calma, respirando pausadamente – Vou me divorciar de você, e nada do que fizer vai me impedir. O processo já está em andamento.
Ela mal se mexeu, ainda hipnotizada, os olhos inchados e vermelhos. Ultimamente tudo que sabia fazer era chorar e sofrer o dia inteiro.
–... Nunca assinarei coisa alguma que me faça separar de você, Sasuke.
– Independe de você querer assinar ou não – o tom era vazio, completamente desprovido de emoção — Eu não posso te perdoar pelo que fez ao Itachi. O crime que cometeu é sua sentença para anular o contrato que me une a você. Vamos nos separar você querendo ou não.
– Eu não posso perder a única pessoa que já amei durante toda a minha vida!
– Você nunca me amou, Karin. Se houvesse verdade no que me diz jamais teria me feito sofrer durante três anos! Estava me vendo despedaçado, definhando de tristeza, e insistiu em machucar meu irmão, só para me atingir.
– Porque esse era o único jeito de te manter casado comigo! Se eu não usasse Itachi como pretexto você jamais teria aceitado!
O moreno sentiu tamanha repulsa que até mesmo respirar o mesmo ar que ela era insuportável.
– Eu não vim argumentar com você ou ouvir seus motivos, já sei o quão torpes eles são. Vim apenas lhe avisar que meu advogado vai procurar o seu. Deixarei avisado a ambas as famílias para revogar os termos do casamento. Não há porque continuarmos casados, você não tem opção. O que fez é um crime hediondo e esteja certa que nem mesmo os advogados de meu avô irão livrá-la dessa vez. Se não assinar o divórcio por livre vontade pedirei anulação do casamento baseado em seu estado mental. Em seu lugar eu simplesmente assinaria.
– Sasuke, por favor... – cambaleou até ele, os olhos vidrados. O moreno torceu os lábios sentindo a ira lhe subir à cabeça ao vê-la se aproximar, dando um passo para trás.
Ela estava mesmo transtornada. Não possuía mais um olhar normal.
– Eu amo tudo em você, Sasuke! É o homem ideal para mim, nós dois nascemos para ficar juntos! Por favor... Por favor, fique comigo! Eu faço qualquer coisa! Basta me ordenar o que quer e eu o farei!
– Pare de se humilhar e se dê o mínimo de valor como mulher, Karin! Olhe para você mesma! Não se respeita a tal ponto de implorar ficar comigo?
– Eu não me importo em me humilhar se para isso tiver você ao meu lado, Sasuke! Quero ficar com você, dormir com você e ter um filho seu!
Era inútil argumentar, inútil tentar se manter inerte.
– Você está doente!
– E o culpado disso é você!
– A única culpada é você mesma.
– Não pode me deixar Sasuke! Não pode me trocar por aquele moleque loiro! Eu passei toda a minha vida me preparando para ser sua esposa! Não sei viver para outro propósito! — ela respirava muito depressa, como se estivesse prestes a ter um ataque.
Deu um novo passo para trás. Aquela mulher estava realmente enlouquecendo. Pensando nisso digita uma mensagem rápida de celular ao seu advogado, para que mandasse um médico que lhe fizesse companhia. Se a deixasse sozinha era capaz dela cometer alguma loucura, e provavelmente a família Uchiha usaria isso como desculpa para incriminá-lo.
Karin caiu sentada ao lado da cama, em uma mistura de choro e falta de ar.
– Não me deixe... Por favor não me deixe!
– Se está sofrendo agora porque diz que sou importante para você, como acha que meu irmão se sentiu? Você o privou de estar com quem ele mais amava, o privou de ver sua família. O que a vida está fazendo é te dar o troco, Karin.
Ela apenas gemeu em resposta. Sasuke não disse mais nada, girando nos calcanhares, pronto a deixar o recinto, rumando para a porta de saída do apartamento.
A curta vida de casados que tiveram resumia-se a ignorar a presença dela, discutir, descontar sua raiva e frustração. Isso não era um casamento, era um pesadelo!
E por sorte estava prestes a se livrar de tudo isso. Recostou o corpo contra o vidro do elevador enquanto descia os andares. Era uma questão de tempo até estar em companhia absoluta de seu loiro, finalmente casado com alguém que ama de verdade. Fechou os olhos apenas por imaginar. Um riso malicioso passou por seu rosto ao rever a cena do casamento de Naruto com Sakura, ao recordar de como invadiu sem pensar a cerimônia para arrastá-lo de lá.
Foi provavelmente a coisa mais louca e mais acertada que já fez na vida.
E pensar que se apaixonaria tanto por aquele loiro estúpido, que se tornaria pai. Se soubesse que Naruto estava grávido naquele momento jamais o teria deixado passar por tudo aquilo, teria roubado-o muito antes da cerimônia.
Queria recomeçar tudo, ter um casamento de verdade. Nunca esqueceria o pesadelo que viveu no dia em que assinou os documentos que o uniram a Karin. Estava tão transtornado pelo que acontecera com Itachi, ao saber que ele corria risco de vida, que nem se deu conta do que fazia. Quando percebeu o tipo de mulher que estava a seu lado seu mundo desabou. Dias infindáveis de tristeza e sofrimento.
Mas, aquele tolo e inocente Uzumaki tostado de sol havia mudado toda a perspectiva de sua vida em um piscar de olhos! A energia e vitalidade, o sorriso aberto e espontâneo, o desejo de ajudar os outros... Naruto era o tipo de pessoa que mudava todos à sua volta.
Com um pouco de sorte o destino os ajudaria daquela vez, para que logo se tornassem esposos um do outro.
No interior do apartamento Karin ergueu o corpo fraco, revirando as gavetas do criado mudo à procura de um pote de vidro contendo alguns comprimidos. Abriu-o com dificuldade, e ao invés de tomar apenas um como o descrito pelo médico virou o pote, vários comprimidos brancos enchendo sua boca, alguns caindo e ricocheteando no chão. Soluçou em meio ao choro, passando a mão por detrás dos óculos, engolindo em seco os comprimidos.
Não, Sasuke não podia lhe deixar! Não importava se ele estivesse infeliz, se gritasse com ela, até mesmo se ele a espancasse seria capaz de suportar... Por amor! Pelo amor insano que nutria por ele. Um amor muito maior que ela mesma!
Madara lhe prometeu... Ele mesmo dissera que ainda havia uma chance, que tão logo colocasse seu plano em prática Sasuke não seria capaz de se opor.
Era tudo o que poderia desejar naquele momento, sua única chance de ser feliz.
–-
"Eu estava louco quando aceitei, só pode!" — foi o que pensou pela milésima vez desde que montara naquela maldita moto!
Menma dirigia como um completo maníaco, rasgando o asfalto, avançando em alta velocidade. Toda vez que fazia uma curva e baixava perigosamente a moto o ruivo sentia que seu coração ia parar de bater. Segurava-se com tanta força no aro detrás do assento que as mãos doíam. Era assustador!
Tiveram que parar ante ao farol vermelho em um cruzamento de uma grande avenida. Menma virou o rosto divertido ao rapaz detrás de si, apenas os olhos visíveis que pareciam lhe sorrir. Gaara estava branco como papel e ele logo percebeu isso. Quando o farol abriu o moreno guiou a moto em direção à calçada, apoiando as pernas no chão. Gaara respirou aliviado.
O moreno tirou o capacete.
– Quão teimoso você pode ser? Eu lhe disse que pode se segurar em mim se tivesse medo de cair.
– Nem em sonhos que vou andar nessa coisa abraçado a você! E se alguém nos vir?
– Se vir, qual o problema? Não devemos nada a ninguém. Não quero que se machuque, nem que fique com medo.
– Então não devia me obrigar a andar nessa coisa!!!
– Vamos, não seja chato — riu, de olhos fechados. Quando os abriu recolocou o capacete, obrigando o outro a fazer o mesmo e segurou-lhe ambas as mãos passando-as ao redor de sua cintura.
– Apenas segure bem firme porque vamos correr bastante.
– Já lhe disse que não quero!!! — mesmo gritando e resmungando manteve as mãos trespassadas na cintura larga do moreno. Um sentimento gostoso apertou seu peito. Quando Menma pisou no pedal e o barulho do motor estalou no ar, inconscientemente apertou as mãos, abraçando-o com medo de cair.
Internamente Menma riu com isso e fechou os olhos por um segundo, aproveitando a sensação de ter o corpo do ruivo colado ao seu, apertando-o contra si. Podia sentir o calor do peito dele contra suas costas. Em seguida volta os olhos em direção ao caminho, dirigindo como uma flecha em disparada.
Era uma noite morna e agradável. A cidade durante a noite parecia convidativa, as luzes se acendiam no grande centro, o cheiro gostoso de comida estava por toda parte, assim como a música vinda dos restaurantes, bares e casas de shows que se misturava, criando uma sinfonia disforme.
Gaara virou o rosto às lojas bonitas e térreas do centro comercial, vendo as pessoas passeando e conversando animosamente.
Parecia divertido...
Não tinha costume algum de sair à noite, estava sempre em casa trabalhando. O clima de sexta era convidativo.
Suas mãos afrouxaram um pouco, sentindo mais confiança e firmeza e descansaram cruzadas no colo do moreno, seu peito estava colado às costas largas, de forma que podia sentir com perfeição os contornos. O perfume dele subia pelo ar, trazido pelo vento, instigando seus sentidos.
Ninguém prestava atenção a eles. Gaara sentiu-se tolo ao perceber a quantidade de rapazes que andavam juntos, que namoravam pelas ruas. Ninguém prestaria atenção ao fato de estar abraçado a Menma, ainda mais em cima de uma moto.
Mirou as costas diante de si, um desejo súbito surgindo em sua mente. O coração disparou e dessa vez não pelo medo da moto, mas pela presença forte de Menma junto a si. Sentiu-se bem abraçado a ele. Cada vez que ele movia o corpo ou os braços enquanto dirigia, sentia uma vontade estranha de falar algo, apenas para ouvir sua voz. Mas o barulho alto, o vento forte o fazia mudar de ideia. Fechou então os olhos verdes, irritado consigo mesmo por se sentir tão bem ao lado dele.
"Será mesmo possível que eu esteja me esquecendo de Matsuri... Por causa desse moleque?" — pensou infeliz e desgostoso. Uma das mãos subiu ao peito largo, espalmada, ao passo que deitava a cabeça de leve em suas costas, aproveitando o semi abraço.
Menma retesou o corpo de uma vez ao sentir a cabeça do outro deitar em suas costas enquanto o abraçava. Mesmo que o capacete atrapalhasse, a sensação era maravilhosa! Sorriu consigo mesmo, abobado, quase esquecendo de dirigir corretamente ante a felicidade que o invadiu.
Seria possível que estivesse avançando, mesmo que só um pouquinho? Estava se esforçando há tanto tempo, não sabia mais o que fazer para convencer Gaara que estava falando sério, que realmente gostava dele. O medo de não ser correspondido o assombrou por muito tempo, e ainda perdurava.
–-
Havia som de música extremamente alta, fumaça colorida, vozes estridentes, risadas, cheiro de álcool subindo pelo ar.
Gaara esqueceu toda a alegria quando adentrou aquele lugar, uma espécie de casa noturna onde uma balada fervilhava. Diversas pessoas falavam muito alto, tentando sobressair ao som. Algumas dançavam no centro, outras apenas mexiam o corpo no ritmo da música. Se olhasse adiante seguindo o caminho de luzes baixas era possível encontrar o bar à frente, uma longa bancada que quase contornava o salão.
O pobre ruivo sequer sabia o que fazer ou para onde ir, nunca estivera numa balada na vida! Para ele aquilo mais parecia um antro, ou pior! Como alguém se divertia ali no meio?
Menma segurou sua mão, o sorriso sumindo em meio às luzes.
– Não me solta ou vai se perder por aí! — disse próximo ao rosto do ruivo, o mais alto que conseguiu, fazendo-o corar. Saiu puxando-o pelo salão adentro. Era escuro, mas as luzes piscavam sem parar deixando o Sabaaku confuso e zonzo.
Seguiram até os fundos, havia mesinhas, sofás e algumas poltronas. Os mais variados tipos de pessoas estavam ali.
Menma então o sentou em uma poltrona muito macia e Gaara sentiu-se afundar. Havia espaço para duas pessoas nela, e uma mesinha à frente. Aproximou o rosto de seu ouvido.
– O que quer beber?
O ruivo corou.
Nunca foi fã de bebida alcoólica. Detestava o gosto do álcool, de maneira que não possuía um tipo favorito de bebida, mas teve vergonha de admitir. Já bastava ser taxado de virgem pelo moreno, não lhe daria esse gostinho!
Olhou depressa para as mesas ao redor, batendo os olhos em uma garrafa de líquido dourado sobre uma delas. Apertou os olhos para tentar ler o nome na etiqueta vermelha, sem sucesso.
–... Qualquer whisky está bom — resmungou, impaciente. Menma pareceu surpreso.
– Mesmo? Achei que fosse pedir limonada — brincou — Espera aqui que eu já volto — encarou-o nos olhos, passando a mão pelo rosto, deixando o outro quente com um toque tão simples.
Gaara deu de ombros, observando-o se afastar. Percebeu diversos olhares dirigidos ao Uzumaki enquanto passava. Homens, mulheres, trans... Não havia quem tirasse os olhos daquele moreno maravilhoso que desfilava pelo salão, e claro que o alvo maior dos olhares era o traseiro redondo e marcado no jeans escuro.
Franziu a testa, irritado.
Menma era mesmo um exibido chamando tanta atenção daquele jeito!
Não que estivesse com ciúmes dele, claro que não!!! É só que... Se saiu com ele então deveria ficar quieto ao seu lado e não chamar atenção da balada inteira! Se queria chamar atenção então só a sua seria suficiente...
"Que tipo de droga estou pensando? Não é como se eu me importasse dele ser admirado por outras pessoas"
Cruzou os braços, sentado de pernas bem abertas, largado no sofazinho. O barulho o incomodava, era tão alto que as batidas da música pareciam reverberar em todo o seu corpo, estalando em seu peito.
Na mesa à frente um grupo de rapazes olhava para ele sem parar, incomodando-o.
Não gostava de ser alvo dos olhares de outros homens, embora sequer tivesse ciência do quão gostoso estava naquela roupa. Seus olhos contornados de negro brilhavam em meio às luzes neon. Os cabelos cor de fogo lhe davam ar de rebelde, o deixavam muito atraente. Gaara era lindo, exótico, instigava o desejo de qualquer um. Ele combinava com o cenário, com toda aquela pose revoltada.
Qualquer um diria que pertencia àquele universo, que era uma criatura noturna, mas a aparência enganava terrivelmente! Gaara podia ser muito experiente em se tratando de trabalho, mas não sabia quase nada sobre a vida, sobre ele mesmo. Se estivesse em casa naquele momento certamente estaria deitado em sua cama, só de cueca, com o notebook no colo, comendo cookies e trabalhando. Era tudo que sabia fazer, tudo que conhecia. Não tinha muitos amigos, talvez por causa do gênio difícil, e só namorou sério uma vez na vida...
Se concentrou em outra coisa, forçando-se a esquecer.
Nada de pensar nela! Estava tentando seguir em frente, mudar sua perspectiva. Era melhor tentar se divertir.
Percebeu um rapaz estranho se aproximar. Era forte, de corpo bem malhado e musculoso, cabelos curtos castanhos. Muito bonito.
– Será que eu posso me sentar? — embora tenha pedido acabou sentando de uma vez ao lado do ruivo que o encarou feio.
– Esse lugar já está ocupado — devolveu, mau humorado pela proximidade.
– Mas ele te largou aqui sozinho, só vou te fazer companhia até ele voltar. Ou quer ir para um lugar com menos barulho? Podemos conversar mais se você quiser.
– Foi mal mas ele já está acompanhado — a voz alta e irritada de Menma soou às costas de ambos que se viraram. O Uzumaki segurava as bebidas nas mãos e parecia muito irritado, os olhos azuis faiscando.
O rapaz entendeu na hora, se levantando, mas não sem antes sussurrar.
– Se cansar dele pode me procurar.
Gaara deu graças quando se viu longe do cheiro horrível de cigarro e bebida barata que desprendia daquele homem.
– Difícil te deixar sozinho hein? — riu malicioso ao sentar ao seu lado, propositalmente bem junto ao corpo dele — Eu o largo aqui por dez minutos e alguém já vem dar em cima de você.
– Ninguém estava dando em cima de mim seu estúpido — pega o copo das mãos do moreno virando o conteúdo na boca. Tosse em seguida.
– Ei devagar — riu de leve — Não está acostumado a beber, não é? Estranhei quando me pediu algo tão forte.
–... Cale a boca!
– Foi por isso que te trouxe uma mais leve — ofereceu-lhe uma taça, largando a bebida forte sobre a mesinha. Gaara pareceu surpreso, a bebida era muito rosada, com uma camada do que parecia espuma branca em cima. Para decorar havia um palito com três framboesas trespassadas. O cheiro aguçou seus sentidos e provou brevemente, encantado com o sabor.
Era doce e delicado, o toque de álcool sutil.
– O que é isso?
– Pink clover club, achei que gostaria de provar.
– É saboroso... — permitiu-se suavizar a expressão pela primeira vez naquela noite, mirando o outro com curiosidade enquanto bebia mais — Do que é feito?
– Bem, basicamente: Gin, limão, grenadine... — riu largamente — E clara de ovo.
O ruivo pasmou, incrédulo e com as bochechas cheias, sem coragem de engolir. Cuspir seria pior então forçou-se a deglutir aquela coisa, querendo matar o Uzumaki diante dele.
– CLARA DE OVO??? — estremeceu de nojo.
– Mas é gostoso, não é? Eu mesmo adoro — ria descontraído — Você tem que provar coisas diferentes, é muito retraído Gaara! — ria alto entre a batida da música.
O ruivo teria tido um ataque de nervos ao ser forçado a tomar aquela coisa, mas em partes entendia o que Menma tentava fazer.
Talvez devesse mesmo se soltar um pouco. Isso não o mataria, ao contrário.
Para surpresa do Uzumaki ele vira o conteúdo da taça, esvaziando-a, forçando a não pensar do que era feito o drinque e apenas saboreando o gosto incomum. O sabor do álcool era acentuado, misturado ao doce e cítrico efeito do grenadine.
Não era de todo ruim. Talvez melhor que a bebida em si fosse o fato de estar em um lugar diferente, fazendo algo fora do habitual. Somente isso já proporcionava uma sensação gostosa de quebra de rotina. Sorriu internamente, ainda que a expressão azeda não houvesse mudado.
Menma, no entanto, captou no mesmo instante.
– É bom não é?
– Fique quieto e me peça outro.
– Mesmo? Olha que você nunca ficou bêbado, hein? Pode acabar perdendo o controle e se confessando pra mim sem querer — piscou malicioso. Ganhou apenas um olhar de reprovação em troca. Desviando um pouco o olhar era possível ver resquícios dos curativos nos ombros do moreno. Uma sensação desagradável atravessou o mais velho. As cicatrizes estavam por todo o corpo, incluso no rosto. Um vergão que trespassava as graciosas marquinhas de bigodes de raposo na bochecha esquerda. Estava fechado, mas ainda vermelho, sinal que não cicatrizara devidamente.
Aquilo devia doer. Não queria nem imaginar a dor no ombro então...
Foi irresponsabilidade deixá-lo sair de casa em tal condição, deveria ter recusado.
Como que adivinhando os pensamentos do outro, Menma seguiu seu olhar ao próprio ombro, entendendo tudo.
– Oh está preocupado com isso? — apontou a faixa — Relaxa Gaara, não está doendo mais.
– Não deveria fazer esforço.
– O médico me liberou, ta tranquilo. Acha que eu o traria aqui se isso te pusesse em risco? Eu jamais faria isso — dedilhou devagar o queixo fino, um olhar carinhoso, descendo à boca rosada — Não me importo em me machucar, mas se for com você até um mero arranhão me deixaria maluco. Não consigo nem imaginar.
Os olhos verdes se arregalaram naturalmente, surpresos com aquela frase. Gaara sentiu as bochechas esquentarem, seu olhar hesitou um instante, mas não fugiu. Ficou algum tempo apenas retribuindo o olhar, observando os traços do homem diante de si, percebendo os fios rebeldes ao redor do rosto, negros e espetados.
Por que as pessoas faziam isso? Ficar observando tolamente as outras?
E pior que isso: por que a sensação era tão boa? Mesmo sem saber explicar ele não conseguia desviar a atenção daquele sorriso, das pálpebras que piscavam ocasionalmente, do nariz arrebitado. Redesenhou com os olhos o rosto banhado pelas luzes, fascinado com as nuances de cores que acentuavam o que havia de mais bonito nele.
Meio hesitante ergue a mão, sem saber se prosseguia ou não. O olhar do outro lhe dizia que podia ir em frente e isso encorajou o Sabaaku. Devagar, com o máximo esforço de si, levou a mão ao rosto, passando devagar o polegar ao redor do corte.
O rosto dele era tão macio... Sentiu-se bem quando o percebeu fechar os olhos, aparentemente deliciado com o carinho. Seu coração acelerou, era uma sensação tão agradável que não conseguia evitar. Passou as costas da mão na bochecha macia, encantado com a textura e o calor dele. As pálpebras cerradas se abriram de uma vez pegando-o de surpresa. Foi capturado pelo azul cerúleo daqueles orbes e engoliu forte, tomado de algo que não sabia o que era.
Ou talvez soubesse, mas tinha medo de admitir.
Cessou o contato e desviou o olhar, afastando-se dele, tão nervoso que mordia o lábio inferior. Uma expressão alternada entre raiva e vergonha, extremamente fofa.
–... Ahn... — pensava em algo para dizer porque ficou muito desconcertado -... Você não vai beber nada?
– Estou dirigindo, lembra? — largou-se no sofá — E a noite é sua então beba o que quiser.
Como que obedecendo, a aproveitando-se disso para disfarçar a vergonha extrema o ruivo mandou aos ares as preocupações e pediu uma série de bebidas, shots, batidas, drinques variados. O que aparecia em sua frente ele tomava, a empolgação aumentando cada vez mais, acompanhada de um formigamento e euforia. Logo não sentia mais as pernas devidamente e uma alegria imensa se apossou dele. Olhava para os lados vendo as pessoas dançar, conversar, se beijar fervorosamente. A impressão era mesmo de que estavam todos se divertindo.
Aceitou provar batidas mais fortes, ignorando quando o moreno lhe pedia para pegar leve por não estar acostumado. A até então pequena porcentagem de álcool começou a subir consideravelmente, passando a agir em seu corpo não acostumado a beber, e de repente ele ficou muito mais falante, muito mais solto e desinibido.
– Gaara, não acha que está bebendo demais? — o moreno riu ao ver os pés do chefe largados na mesinha e o modo como ele se abanava com a própria camiseta, deixando boa parte do abdômen à mostra com o movimento. A cabeça pendia, meio grogue. Bateu o dedo algumas vezes no nariz do mais novo.
–... Fique quieto e não me encha! — fez bico, como se estivesse irritado, mas soluçou brevemente — Uzumaki idiota!
Menma não precisou de muito para entender que ele estava bêbado, a voz parecia empastada.
– Ok, chega de beber — afastou o copo das mãos do ruivo que, contrariado, tentou pegar de novo. Sem sucesso porque seu rosto caiu no colo do moreno. Menma suspirou, não era hora de pensar besteira. Deu alguns tapinhas na cabeça ruiva, para que saísse de sua virilha antes que deixasse de responder por si mesmo.
– Gaara, erga-se daí antes que alguma coisa a mais se erga — forçou-o a erguer o rosto. Ele parecia sonolento e avoado.
Tão malditamente fofo!!!
– Vou te levar pra casa.
–... Só depois de devolver minha bebida — retrucou, com a voz empastada.
– Você está bêbado. Vai acordar com uma baita dor de cabeça.
Ao invés de responder o ruivo apertou bem as pálpebras, como se quisesse ver melhor o rosto do Uzumaki. Se aproximou tanto que o assustou. Ficou um bom tempo olhando-o sem dizer nada.
– Você é realmente bonito sabia? — disparou, sem a menor cerimônia.
– Obrigado — tentou se controlar para não rir. Aquele homem enfartaria ao descobrir as coisas que estava fazendo e dizendo por estar bêbado.
– Você gosta de mim não é? — soluçou de novo.
– Gosto, muito.
– Então porque não me procurou mais depois que a gente transou??? — indagou um pouco mais alto que o desejado. Com isso, mesmo no meio do som alto, as pessoas da mesa próxima viraram a cabeça a eles, meio estarrecidas. Menma as olhou feio, não tinha que dar satisfação de nada, mas era melhor levar aquele ruivo chapado para fora, para pegar um pouco de ar.
– Vem, vamos conversar o quanto quiser mas lá fora — foi puxando o chefe que tropeçava nos próprios pés, tudo girando horrivelmente. Havia avisado para não beber tanto, olha só o estado em que se encontrava!
– Você devia me beijar e não ficar dizendo esse monte de merda! — segurou com força a gola do moreno, parando entre as pessoas que dançavam entre as luzes de neon e trouxe-o para mais perto. Sem delongas, beijou-o com toda a vontade que tinha dentro dele. Um beijo extremamente atrevido! A língua vasculhava os cantos da boca quente. Rebolava a virilha na do moreno, arrancando dele uma quase imediata ereção.
O som pesado da música encobria seus gemidos. Gaara afastou os lábios e um fio de saliva se esticou entre eles, rompendo-se no ar. Os olhos verdes estavam lascivos e convidativos, brilhando em vários tons. Era um olhar selvagem, o mais íntimo daquele fogo arrebatador. Menma engoliu em seco.
Não dava para resistir.
Puxou-o de volta e o beijou com maior fervor, abraçando-o bem apertado. Os braços do mais velho enlaçaram seu pescoço. Beijavam-se sem reservas, ignorando as pessoas que esbarravam neles no meio de sua dança, as que pediam licença. No mundo particular deles não havia barulho, não havia multidão, o tempo parou naquele beijo e só conseguiam se concentrar na boca um do outro.
Uma batida forte e sexy aos poucos embalou os ouvidos atordoados do ruivo e ele separou os lábios bem devagar, mordiscando o lábio do moreno. Há esta altura Menma já estava perdendo o pouco controle restante.
A situação piorou drasticamente quando o chefe riu malicioso e começou a gingar os quadris ao ritmo da música, a mão subindo de leve um pedaço da camiseta, mostrando o abdômen esguio e perfeito.
Aquele homem queria levá-lo á loucura ali mesmo!
Aos poucos com o álcool agindo, a animação descontrolada e o ruivo se soltou por completo, passando a agitar o corpo, os braços sobre a cabeça, os olhos vez ou outra se fechando. Gingava os quadris, os pés se movendo agilmente. Menma o acompanhava, divertido e deliciado. Dançavam sensualmente, um de frente ao outro, os olhos fixos.
O calor da excitação já estava levando-os ao limite. Colaram os corpos, sem parar de dançar, num ritmo enlouquecedor. Roçavam as pernas, esfregavam as virilhas, o peito colado enquanto dançavam, sem se importar com mais nada. Roçavam suas ereções uma na outra, quentes de excitação. O ruivo entreabriu os lábios num urro de prazer que desapareceu em meio ao som alto.
Estava completamente tomado, de maneira que agarrou os ombros do moreno, apertando os dedos nos músculos enquanto o encarava, lambendo os lábios, deixando claro o que queria. Menma não esperou outro convite e puxou-lhe pelos cabelos de fogo, enfiando a língua dentro daquela boca quente, o gosto de bebida se misturando à saliva. Beijaram-se sem o menor pudor, sem parar aquela dança erótica e provocante, as batidas altas da música forçando o ritmo. Mesmo de olhos fechados podiam perceber as luzes que piscavam, as pessoas que esbarravam neles, mas estavam ocupados demais entretidos um com o outro.
O beijo foi se tornando cada vez mais impaciente, mais afoito e desesperado. Gaara afundou as mãos nos cabelos negros, forçando-o a olhar em seus olhos.
–... Me leva pra qualquer lugar longe daqui, agora! — pediu, os olhos verdes brilhando de desejo.
Menma engoliu em seco.
–... Se eu o tirar daqui não vou conseguir me controlar.
– Não me importa, eu só preciso de sexo e preciso agora!
Ao som da frase o moreno pareceu sério. Respirou fundo e puxou o chefe pela mão, arrastando-o em direção à saída. Mesmo estando meio grogue o ruivo percebeu que havia algo errado.
Cruzaram a saída e o vento gelado bateu no rosto do ruivo, infelizmente veio acompanhado da fumaça detestável de cigarro que mais parecia uma cortina . Tossiu, andando depressa para acompanhar os passos largos do moreno. Quando chegaram ao estacionamento um capacete lhe foi atirado.
– Vou levá-lo para casa, é óbvio que não está em seu juízo perfeito — Menma parecia irritado e não o olhava diretamente.
Gaara piscou algumas vezes, incrédulo.
– Como é que é?
– Suba! — ordenou nervoso.
– Por que ficou assim de repente?
– Não é óbvio? — volveu um olhar tão raivoso que o outro se encolheu temeroso.
– C...Claro que não! Qual o seu problema?
– Não quero me aproveitar de você, Gaara! Quero fazer amor e não apenas sexo com você! — cuspiu as palavras, o ódio fervendo nos olhos — Não consegue entender que está me machucando?
Engoliu em seco, não habituado a ter pessoas erguendo a voz ou brigando com ele. Era provavelmente a primeira vez que levava uma bronca de alguém que não fosse seus irmãos mais velhos. Sempre foi o chefe que ordenou, nunca ficou em outro extremo.
E pensar que permitia que seu subordinado o tratasse de tal maneira.
– N...Não estou te machucando coisa alguma! Eu lhe disse desde o princípio que gostava de outra pessoa e que não a tinha esquecido!
– E se entrega para mim, retribui meus olhares, meus toques, meu beijo, me liga preocupado, vem correndo até onde estou quando descobre que estou machucado... — respirava depressa, irritadíssimo — Isso tudo me faz criar esperanças, Gaara!
– É muito mais fácil se não nos envolvermos, Menma! Desse modo ninguém sai machucado!
– Mas não é isso que eu quero! — seus olhos faiscaram de ódio — Mais do que desejo seu corpo eu desejo que sinta por mim o mesmo que sinto por você, Gaara! Apenas uma noite de sexo não é o bastante para mim! Quero abraçar você, cuidar de você, te proteger e poder dizer claramente o quanto eu te...
Calou-se, envergonhado de si mesmo, aparentemente irritado. Suas orelhas estavam vermelhas, o corpo retesado.
Teve ódio mortal de si mesmo por falar mais que a boca. Com certeza o chefe o achava um completo idiota agora! No fim era um moleque mesmo, um tolo e imaturo que não conseguia distinguir entre uma noite de sexo casual e um envolvimento amoroso.
Que se dane, não era esse tipo de pessoa! Não seria sincero consigo mesmo se apenas levasse Gaara pra cama e no dia seguinte tudo continuasse igual entre eles.
Enquanto travava sua guerra interna o mais velho apenas conseguia respirar mais rápido do que gostaria. Ver aquele garoto envergonhado, corado, com os olhos marejados mexeu mais consigo do que era capaz de descrever. Aquele mesmo moleque debochado, que não levava as coisas a sério estava diante dele extremamente magoado, a ponto de fazer qualquer ser vivo desejar consolá-lo.
Maldito poder de persuasão que emanava daquele Uzumaki! Gaara estava anestesiado, e dessa vez não pelo álcool. Em verdade nem estava tão alto assim, apenas eufórico pela bebedeira. Estava lúcido o bastante para entender bem o que o outro dissera.
E para assimilar que a frase mexeu com ele, que não permitira ir embora e deixar Menma magoado consigo. Que queria abraçá-lo e dizer que estava tudo bem.
Para sua total surpresa o corpo forte do moreno tremeu e sentiu-se o pior ser humano da face da Terra quando percebeu as lágrimas grossas que rolaram pelo rosto, entre as marquinhas de raposo.
Ah não...
Soube que estava realmente encrencado quando seu corpo se moveu completamente sozinho e aproximou-se do moreno, passando a mão pela nuca, trazendo-o para abraçá-lo apertado junto a si. Teve certeza de que estava preso numa armadilha sem possibilidade de fuga quando as lágrimas quentes dele molharam seu ombro e subiu a mão aos cabelos negros, acariciando-os gentilmente, tentando acalmá-lo por não suportar fazê-lo chorar. Compreendeu que seu caminho não teria mais volta quando sentiu o bater do coração dele contra seu peito, enquanto seu próprio coração batia depressa, contra o peito dele.
Odiava mais do que tudo admitir, mas tudo que Menma fazia e dizia mexia muito consigo, a ponto de mudar sua vida inteira.
Droga, droga, droga!!!! Seus olhos arderam de emoção e o ar faltou deixando-o fraco e zonzo. Ao mesmo tempo a culpa por machucá-lo acabava consigo.
Ficou aliviado quando ele se acalmou, as mãos largas passando ao redor de seu tronco, retribuindo o abraço. Percebeu com perfeição como Menma era mais alto, e mais forte, mesmo sendo três anos mais novo. Perto dele Gaara se sentia tão indefeso quanto uma criança.
Estava entorpecido pelas palavras dele, estas ressoando em seus ouvidos.
" Quero abraçar você, cuidar de você, te proteger e poder dizer claramente o quanto eu te..."
O que Menma diria a seguir? Seria mesmo o que estava pensando? A simples menção disso fez uma satisfação sem igual explodir dentro dele. Ansiava mais que qualquer coisa ouvir a continuação daquela frase! Mas em partes estava apavorado. Não queria se apaixonar de novo porque sofreu muito.
Todas as vezes em que fechava os olhos se pegaria pensando no funcionário imbecil que sempre o tirava do sério. Menma era o único que o divertia, que o intrigava, que o fazia se preocupar. Era também o único que povoava seus pensamentos, o único a quem desejava entregar seu corpo...
Ergueu a cabeça e percebeu o outro fazer o mesmo. Estava vulnerável, frágil, confuso. Mas no momento em que postou os olhos no oceano revolto que eram as íris de Menma compreendeu tudo, ainda que negasse a acreditar, ainda que não quisesse. Estava sofrendo demais por não ser sincero consigo mesmo, por insistir em negar o que sentia.
Era um sentimento grande demais para ser contido. Hora de dar um basta.
Fechou os olhos e soltou o ar preso pelas narinas, admitindo a derrota.
–... Eu desisto.
Os olhos azuis piscaram algumas vezes.
– Como é?
– Desisto de fugir de você e de mim mesmo — quando o encarou já parecia mais conformado -... Se puder me garantir que vai respeitar meu espaço, meu ritmo... Que vai entender que ainda não me sinto preparado para embarcar em um novo relacionamento... Se puder me garantir que será muito paciente... Acho que podemos ao menos tentar.
Foi a vez do coração do moreno disparar no peito, ele pareceu emocionado.
– Tentar... Você quer dizer?
– Mas não vou te enganar nem te iludir. Eu ainda sinto algo muito forte pela Matsuri e não seria justo se não dissesse isso claramente.
O moreno apenas assentiu, muito sério.
– Eu não consigo esquecê-la, por mais que tente. É uma presença encravada em mim, uma dor que não consigo superar. E nada garante que eu vá me apaixonar por você, até porque não sei explicar o que sinto...
– Mas já sente alguma coisa, não é? — sorriu -... Para mim já é mais que o suficiente! Deixe o resto comigo. Não faz a menor ideia de como ansiei ouvir essas palavras, Gaara. Estou tão feliz que poderia morrer.
Riu divertido, esfregando os olhos. Não sabia se ria ou chorava. Gaara nem quis relutar quando sentiu algo se remexer dentro dele.
Era sempre assim quando estava com Menma.
– Pois não morra seu idiota, não agora que estou dizendo que podemos tentar ficar juntos — deu-lhe um tapa na testa.
– Ok... — deu-lhe um pequeno selinho, sorrindo em seguida — Vou fazer você pensar somente em mim Gaara, a ponto de esquecer todo o resto.
– Convencido como de costume — virou o rosto de lado. Menma se atentou à repartição da franja, o local em que estava a tatuagem na testa. Observou-a por longos instantes.
– Por que tatuou "amor" na testa, Gaara?
– Porque é um sentimento que não se aplica a mim — respondeu prontamente algo que era real em sua existência — Outras pessoas nascem para ser amadas, não eu. Sempre senti que nasci para ficar sozinho.
– Pois trate de mudar essa explicação torta. Você nasceu para ser amado por mim!
Diante disso ele ficou tão vermelho que sentiu raiva de si mesmo.
– I...Idiota!!!
Menma só riu, puxando-o pela mão.
– Vou te levar para casa, você dorme cedo não é? Quero que descanse bem porque amanhã vou te ver de novo. Vamos sair para algum lugar tranquilo, só nos dois. Quero conversar e ouvir mais sobre você, ou responder o que quiser saber sobre mim.
– Isso soa bem.
– Não é? — riu apertado como uma raposa — E de noite talvez a gente possa ficar juntinho.
Como de costume recebeu um olhar raivoso.
Mas prendeu o ar em seguida, tão tomado de sensações que jamais seria capaz de explicar.
Gaara lhe sorriu de leve, sem a carranca costumeira, sem a testa muito franzida. Era um sorriso tão brando, tão inocente e bonito que Menma ficou mudo e sem ação.
– Posso pensar no seu caso — o pequeno riso do ruivo o trouxe de volta à realidade. Uma nova chuva de flechas do cupido o atingiram todas ao mesmo tempo, suficientes para matá-lo de paixão, se é que isso era possível.
– Ah cara eu realmente gosto de você!!! — agarrou o chefe — Você é muito lindo e perfeito!
– Me solte, idiota! E me leve logo pra casa! — apanhou o capacete, colocando-o para fugir do olhar do outro. Quando Menma se sentou à sua frente se permitiu sentar bem colado ao corpo dele, abraçá-lo com mais ternura que o normal. Sentiu-se realmente feliz quando o moreno brincou com seus dedos e beijou-lhe a mão antes de dar a partida.
Pela primeira vez em muito tempo sentiu-se realmente bem, como se tudo estivesse certo, em seu devido lugar. Suspirou, debruçado no corpo forte que o fazia sentir tão bem.
Aproveitaria bem aquela pequena felicidade, porque bem sabia que a vida era cruel consigo. Da mesma maneira que levou Matsuri, tinha medo que pudesse levar Menma também...
–--
Ultimamente ficava cada vez mais difícil se despedir.
Já fazia cerca de meia hora desde o primeiro "até amanhã" dado pelo moreno. Estava à porta do apartamento dos Uzumaki, abraçado ao namorado, fitando um ponto qualquer enquanto balançava o corpo pequeno em seus braços, muito de leve, para um lado e para outro. Uma das mãos num carinho preguiçoso em suas costas, a outra no pescoço. O queixo apoiado no topo dos cabelos dourados. As mãos dele em suas costas não afrouxaram o abraço desde que se juntaram.
Nenhum dos dois fazia o menor movimento para se afastar, e isso apenas prolongava os minutos de despedida.
Era tão difícil deixar o outro.
Sasuke então suspira, beijando os cabelos loiros. Ergue-lhe o rosto, beijando sua testa e as bochechas.
– Eu volto amanhã — tentou se despedir pela milésima vez naquela noite. Naruto riu com isso.
– Eu sei disso.
– Então me deixe ir embora, por favor — suspirou — Me mande daqui ou bata a porta na minha cara.
– Desculpe, é que não quero que você vá.
– Sabe que eu adoraria ficar, mas preciso acordar muito cedo amanhã. Atrapalharia você e não quero incomodar seus pais. Não posso ficar aqui todas as noites.
O loiro já sabia de tudo isso, sabia que Sasuke estava dormindo num flat alugado. Mas não mudava o fato de seu egoísmo não querer deixá-lo partir.
–... Está bem — concordou enfim. Ergueu o rosto esperando que o outro o beijasse. Sasuke o fez prontamente, um selinho longo e vagaroso.
– Se cuide. Se passar mal ou precisar de qualquer coisa me ligue.
–... Ok. Amo você.
– Eu também — dedilhou o rosto uma última vez antes de lhe dar as costas e seguir enfim seu caminho. Naruto suspirou ao vê-lo se afastar. Passou a mão pela barriga avantajada.
Na manhã seguinte descobriria enfim o sexo de seu bebê. Estava ansioso!
O moreno por sua vez murmurava uma canção boba de amor enquanto descias as escadas, as mãos enfiadas nos bolsos. Precisava dormir para não perder o horário de seu importante compromisso.
Antes ele não se importava com o lugar em que voltaria para passar a noite, mas no pouco tempo de convivência acostumou a sentir o rolar desajeitado do loiro pela cama. Cada vez que esbarrava nele, Sasuke sabia que não estava sozinho, e isso o fazia dormir tranquilo.
Estando esses dias longe a insônia voltou a atormentá-lo. Queria de volta os golpes noturnos, os chutes, ouvir o loiro falando enquanto dormia. Era muito melhor que tatear a cama e perceber o outro lado frio e vazio.
–-
Tentava se manter calmo, mas era muito difícil. Sabia estar sendo seguido desde o momento em que saiu de casa, completamente sozinho, para buscar numa farmácia próxima as medicações de Itachi. Ele andava sentindo dor e não o deixaria sofrer, mesmo que estivesse apavorado de andar sozinho pelas ruas.
Sasori atentava ao som de seus próprios pés batendo no asfalto, acompanhado do farfalhar da sacola plástica em que estavam os medicamentos. Sabia ter sido seguido em todo o trajeto, mas precisava ficar calmo e fingir que não notara absolutamente nada.
Com toda certeza era Obito quem o seguia. Mesmo depois de tanto tempo a presença daquele homem ainda mexia consigo, apenas o fato de estar perto dele o apavorava!
Ainda que se passassem décadas jamais esqueceria aquela noite do acidente, o que o Uchiha fizera.
Respirou mais depressa, tentando disfarçar. Seguia pela rua vazia de bairro residencial, avistando ao longe seu portão fechado. Tinha medo de ser abordado no momento em que parasse para abri-lo. Se encarasse Obito não saberia dizer qual sua reação.
O moreno por sua vez seguia deliciado os passos desavisados de sua vítima, saboreando a ingenuidade daquele rapaz idiota.
Sasori era louco de sair sozinho? Ou talvez a necessidade o houvesse obrigado? Nesse caso era fácil entender que Itachi estava com complicações e a julgar pelo tipo de medicação que o ruivo comprara era quase certo que o herdeiro havia mesmo despertado. Era um privilégio levar essa informação diretamente ao patriarca, com certeza seria grandemente recompensado... Um arrepio longo de prazer passou seu corpo ao imaginar Madara sobre si, sufocando-o num prazer imerso em dor. Sempre que era tomado saía cheio de marcas, e em sua concepção era o que tornava a relação muito mais prazerosa. Madara sabia muito bem como dominar seus amantes, como levá-los ao auge!
Seguia admirando o corpo muito esguio de Sasori, lambendo devagar os lábios. Dessa vez não deixaria o lindo rostinho do ruivo intacto, queria marcá-lo apenas para ver que tipo de expressão faria.
Será que ele fingiria aguentar a dor? Se manteria impassível? Ou talvez chorasse e implorasse? A última opção o excitou, era provável que seu instinto o fizesse avançar se isso acontecesse. Mesmo observando de costas podia notar que aquele homem era bem bonito.
Queria se enterrar nele até fazê-lo gritar, ver suas lágrimas de dor enquanto era violado. A ideia o deixava tão excitado que começava a ficar duro, os olhos fixos no traseiro redondo.
Sasori por sua vez estremeceu, cedendo às lágrimas, não podia suportar mais de maneira que acionou o pequeno comunicador preso em sua roupa.
– Ajude-me, por favor! — implorou baixinho, ou sua sanidade o abandonaria.
Não conseguia ficar perto do homem que matou sua filha! Era pedir demais!
Não foi preciso mais que alguns segundos e, antes que as mãos grandes de Obito o houvessem tocado, um homem surgiu por trás do Uchiha, fazendo menção de lhe dar um golpe. Obito pressentiu isso e saltou habilmente para o lado, em tempo de escapar do que seria um soco certeiro.
Assustado e fragilizado Sasori volve o rosto para trás e dá de cara com aquele homem estranho de cabelos platinados, o mesmo que lhe foi apresentado há alguns dias como responsável pela segurança de Itachi.
Kakashi lhe sorriu por baixo da máscara ninja.
– Pode ir e obrigado pela ajuda.
Sasori assentiu, correndo ao interior da casa sem se deter, trancando desajeitado a porta detrás de si.
– Maldito seja! — rosnou irritado, ameaçando um chute sem acertar o outro — Maldito seja, Kakashi Hatake!!!
O homem de cabelos platinados respirava depressa sob a máscara ninja. Seus olhos se estreitavam, perigosamente. Encarou o fundo dos olhos negros que conhecia tão bem.
Com um movimento ágil e rápido apertou o corpo forte do Uchiha contra a parede, segurando bem seu pescoço. Obito tossiu, imobilizado. Quando ergueu o olhar para postá-lo no mais velho estremeceu de leve.
–... Fique fora dos meus negócios e não se meta em minha investigação, Obito.
– Vá se ferrar, Kakashi! — devolveu as palavras cuspidas grosseiramente — Não tenho medo de você!!!
– Pois devia ter — o tom era frio — Porque se insistir em se meter em meu caminho vou te eliminar sem pestanejar.
O outro sorriu, entrando naquele jogo, mesmo que a frase lhe desse calafrios.
– E porque não tenta? Experimente se quiser saber do que sou capaz.
Encararam-se firmemente, o ódio fervilhando entre eles.
Tinham assuntos pendentes, assuntos de um passado distante, algo que envolvia outra pessoa. Mas naquele momento a rixa se tornou pessoal.
Obito tinha como objetivo se tornar o pilar absoluto de Madara e faria o que fosse necessário para isso. Já Kakashi era o responsável pela segurança de Itachi e as pessoas que o rodeavam. Não o entregaria aos Uchiha mesmo que isso lhe custasse a vida.
–... Madara quer Itachi. É só uma questão de tempo até por as mãos nele!
– Pois diga ao seu dono que arranje outro passatempo — ironizou — Itachi não será capturado enquanto eu estiver no controle, e bem sabe do que sou capaz.
– Ele acordou não é? Itachi enfim saiu do coma! Sem a medicação que aplicavam não tem como ele ficar naquele estado de morto-vivo! Sei que ele está lúcido, e isso me faz desejar ainda mais por as mãos nele!
Kakashi estreitou o olhar.
De fato aqueles Uchiha eram arrogantes e prepotentes para admitir o plano sórdido de manter Itachi descordado sem o menor medo de sofrer qualquer punição por causa disso. Obito estava calmamente admitindo que Itachi foi medicado para se manter em coma, bem diante de um policial!
– Guarde bem minhas palavras, Obito: nunca vai colocar essas mãos imundas no Itachi, ou nas pessoas em redor dele. Antes disso esteja certo de que mato você.
Obito ficou muito sério, a total falta do sorriso doentio em seu rosto. Afastou-se em um gesto brusco, saltando por sobre o muro vizinho, volvendo um olhar de desafio e em seguida fugindo para longe. Ainda estático no mesmo lugar Kakashi apenas observava calmamente.
Se foi designado a defender Itachi e Sasori então faria isso sem pestanejar. Todos os seus esforços se concentrariam no êxito dessa missão.
Um sorriso maroto e cruel estampou os lábios ao pensar que aquele idiota não havia mudado nada desde que se conheceram. Travavam essa batalha de rivalidade há muito tempo, eram inimigos declarados que no fundo respeitavam a habilidade um do outro.
"... Você já é meu, Obito" — fechou os olhos e quando os abriu a expressão costumeira de tédio havia retornado. Tirou um daqueles romances eróticos que adorava do bolso da calça e saiu caminhando enquanto lia distraidamente, como se nada houvesse acontecido.
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Fugiu tão depressa que somente se sentiu seguro quando bateu a porta detrás de si. Tropeçou na entrada e caiu ao chão, batendo o nariz com a violência da queda. Resmungou de dor, massageando-o, as lágrimas escorrendo enquanto fungava.
Estava muito assustado com encontro com Obito. Quando Kakashi lhe pediu para sair pelas ruas, completamente sozinho, teve tanto medo que nem era capaz de descrever, mesmo que fosse parte de um plano para atrair o Uchiha, mesmo sabendo que foi escoltado desde o instante em que saiu de casa. Rever aquele homem que no passado lhe fizera tanto mal era terrível. Já havia se passado três anos, a morte de Aiko fora de algum modo superada, mas não podia negar que era difícil rever o mesmo homem que machucara Itachi, que quase o matou e que levou seu bebê...
Massageou o nariz dolorido e deixou um gemido escapar, se acalmando. Nada de chorar, não podia se dar ao luxo de acordar Itachi. Ele já havia sofrido muito quando descobriu sobre Aiko, não era conveniente à sua melhora que soubesse que Sasori havia aceitado servir de "isca" para atrair seu perseguidor. Obito era astuto, mas não resistiria à tentação de atacá-lo sozinho. Queria a vida do ruivo pelo simples fato dele significar um problema estando casado com Itachi, por quase ter dado ao clã uma criança "impura" fruto de mistura não permitida pelos Uchiha. E por esse motivo devia ser capturado.
Todo o clã estava em polvorosa por causa do possível despertar de Itachi. Madara não daria tréguas, não enquanto não soubesse o que havia acontecido com seu neto primogênito. Se estava vivo ou não e se voltaria para assumir os negócios de família. Madara não se importava de verdade com o fim que Itachi levaria, apenas queria de qualquer jeito que ele voltasse para reassumir seu lugar na hierarquia. Talvez por causa desse ardor em saber respostas que o próprio patriarca tivesse ordenado a Obito que ficasse de guarda dia e noite na casa de Sasori, para ter certeza do melhor momento em que pudesse tê-lo de volta.
Passos suaves surgiram e Itachi surgiu escorado nas paredes, aproximando-se preocupado.
– Sasori, ouvi um barulho... — ao percebê-lo no chão esboça uma expressão preocupada — O que você tem?
O ruivo foi pego de surpresa e mordeu bem forte, rapidamente esfregando os olhos, tentando secá-los e sorriu forçadamente levantando em seguida.
– Oi amor... É que eu tropecei e caí quando entrei, às vezes sou tão desastrado — forçou um sorriso que saiu muito mais brando e fraco que o normal.
Itachi ficou sério. Soltou a soleira da porta, equilibrando-se como podia, caminhando devagar enquanto apoiava vez ou outra em algum móvel pelo caminho. Já conseguia caminhar muito melhor, quase não precisava mais usar a cadeira de rodas ou o andador, já possuía mais firmeza nas pernas.
Caminhou devagar e com algum esforço, sem querer cair, estendeu-lhe a mão para que o esposo a segurasse e se erguesse. Sasori obedeceu de pronto, mas dispensou a mão erguida ao ar, sabia que Itachi não teria força para puxá-lo. Tão logo se levantou foi abraçado e apoiado na parede, entre o peito largo do Uchiha que o fitava intensamente com uma expressão de desdém no rosto lindo e anormalmente magro.
– O que te faz crer que pode mentir pra mim, Sasori?
– Não estou...
– Sua voz treme e seus olhos desviam dos meus quando está mentindo — riu de lado ao ver o ruivo se retesar, sabendo ter sido pego — Me diz o que te aconteceu.
Suspirou, pego na armadilha. Devagar ergue o olhar ao esposo, impedido de negar qualquer coisa àquele maravilhoso Uchiha a quem tanto amava. O peso de seus medos e dúvidas evaporaram.
Itachi tinha a magnífica habilidade de acalmá-lo de qualquer temor. Entre aqueles braços sentia-se no lugar mais seguro do mundo. Passou as mãos distraidamente no peito magro, afastando as longas madeixas negras, percebendo-o respirar depressa pelo esforço de estar ali de pé, querendo saber o que estava acontecendo.
Era tão fofo. Itachi era completamente zeloso e atencioso.
–... Eu o vi, agora há pouco.
– Obito? — o sorriso morreu na face, dando lugar ao olhar frio que o ruivo tanto detestava — O que ele te fez? O que disse a você?
– Nada. Kakashi estava me escoltando.
– E posso saber por que saiu de casa sem me avisar?
– Você estava sentindo dor enquanto dormia. Eu quis ir buscar seus remédios e Kakashi me disse que seria uma boa oportunidade para forçar Obito a sair da tocaia. Ele não resistiria a me ver andando sozinho.
Em resposta Itachi lhe encarou em reprovação total, parecendo extremamente contrariado. Sasori mordeu o canto do lábio, como um criança repreendida.
– Sei que lá vem um dos seus sermões, mas pode ao menos escutar meus motivos antes?
– Obito é um homem perigoso, não há motivo algum que te force a sair de casa para te seguir! E me sinto mil vezes pior ao saber que saiu por minha causa.
– Não quero te ver sofrendo, Itachi.
– Poderia ter mandado outra pessoa — as mãos nos ombros finos se apertaram — Pode imaginar o que eu sentiria se tivesse te acontecido alguma coisa? Não precisa se forçar a passar por isso. Eu sei o que significa pra você rever esse homem — o tom era calmo, mas obviamente contrariado e reprovador.
Suspirou de novo, impotente.
– Ok, me desculpe — murmurou.
– Talvez eu desculpe se fizer o que eu lhe pedir.
– Muito bem, peça — assentiu, arrependido.
Porém o arrependimento foi aos ares quando sentiu uma mão atrevida subindo sua blusa e deslizando pela cintura quente.
– Posso saber o que está fazendo?
– Tem certeza que não sabe? — volveu o olhar ao dele de uma vez só, aqueles olhos felinos irresistíveis, um sorriso sedutor estampado na face. Deslizou a mão debaixo da blusa e o ruivo se contorceu.
– Sou o único que te conhece por completo e já devia saber disso — as mãos alcançaram o peito estreito, deslizando pelas pontas dos mamilos que enrijeciam com o contato. Sasori fechou os olhos e abriu a boca.
– Itachi...
Riu com maldade em resposta, o rosto próximo ao pescoço pálido. Beijou-o e subiu até a orelha, lambendo devagar. O ruivo se contorceu de agonia e prazer.
– Itachi ... Por favor... Você ainda não pode...
– O quê? Não posso te fazer meu? — estreitou os olhos cheios de malícia.
O ruivo estava quente, sabia que era apenas provocação, Itachi era teimoso o suficiente para "se vingar" pelo que o outro havia feito. Mas não negava o fato de que o queria... E muito!
Quem em sã consciência nega Itachi Uchiha???
– ... Não me provoque... Se não vai tomar responsabilidade depois. Você me conhece — volveu o olhar direto, as íris muito rubras faiscando de desejo, o rosto ardendo. Era como assistir outra personalidade tomar conta do ruivo, como se o desejo o possuísse e assumisse o controle absoluto.
Itachi riu de lado, sentira falta daquele olhar, daquela pose arrogante. Quem olhasse aquele rostinho angelical, a voz doce e controlada jamais seria capaz de compreender o que significava fazer sexo com aquele homem e quão descontrolado ele podia ser.
– Eu não o provocaria se não estivesse disposta a arcar com as consequências — girou os polegares nos mamilos enrijecidos, a língua em riste subindo pelo pescoço pálido. Sasori gemeu e se contorceu, olhando distraído para as janelas, verificando que estavam sim fechadas.
– Então pare de me torturar desse jeito... Porque já estou no meu limite!
O sorriso do outro aumentou. Puxou-o para juntar bem o corpo ao seu. Sasori se odiou ao perceber os braços dele tremerem em volta de sua cintura. Era óbvio que ainda não tinha a firmeza necessária para fazer aquele tipo de coisa.
Mas não podia evitar, seu corpo agia sozinho. Foi calado por um beijo intenso e molhado. Itachi o conduzia tão bem dentro dele que se indagou se aquele homem havia mesmo acabado de sair do coma. As mãos dele percorreram suas costas, arrepiando-o. Sasori se contorceu, girando o rosto enquanto apertava a boca à do outro, sugando os lábios quentes e macios, girando a língua à dele, provando o sabor viciante. O mero beijo já o deixara no auge da excitação, sentia falta demais daquele corpo! Agarrou os cabelos longos sem piedade alguma, enroscando-os nos dedos.
Itachi o soltou quando o sentiu ofegar, quase sem ar. Os lábios do esposo estavam vermelhos e úmidos pelo beijo intenso que trocaram. Fitou-o possessivo enquanto descia os beijos ao longo do corpo pálido, livrando-se da incômoda camisa que ele vestia. O ruivo tapou a boca com as costas da mão, impedindo-se de gritar. Seu membro duro latejava na calça.
Estava enlouquecendo, aquela sensação o faria derreter.
Quanta saudade! Desejou ardentemente tornar a ter Itachi entre seus braços desde o momento do acidente, nem sabia explicar como suportou ficar tanto tempo longe dele.
Fitou-o lânguido, tomado e quase desfaleceu ao vê-lo olhando-o de volta, o desejo estampado em sua face linda e perfeita, aquele olhar que era capaz de rasgar sua alma em milhares de pedaços.
– Espera... Aqui não...
– Não quero esperar — apertou o bumbum macio entre os dedos, arrancando um gemido descontrolado quando a ereção de Itachi se esfregou à sua. Ergueu os olhos e caiu nos orbes negros. Eram intensos, cheios de lascívia. Alguns fios negros caiam sobre eles. Uma visão divina...
As mãos procuraram apressadas o cós da calça de tecido, percebendo com prazer o volume arqueado. Baixou num movimento rude, sem parar de beijá-lo. Logo tateou aquele imenso volume de carne tesa que pulsava em sua mão e estremeceu.
Foi empurrado e colocado contra a cômoda.
– Sobe...- ordenou e o ruivo obedeceu de pronto, sentando sobre o móvel de madeira. A altura era perfeita, de modo que sentado ficava na altura da cintura de Itachi..
Teve as calças arrancadas e o moreno riu ao perceber a roupa de baixo dele completamente encharcada.
– Ficou molhado assim só com um beijo?
– Cale essa boca... — apertou os lados do móvel quando os dedos dele massagearam sua ereção molhada. Largou a cabeça para trás — Aaaah itachi!
Este por sua vez pôs um braço de cada lado do corpo do ruivo, deixando à mostra o corpo outrora musculoso e forte, que estava mais magro e esguio, mas de forma alguma menos sedutor. Somente a presença forte e o cheiro gostoso dele faria qualquer um delirar.
Era visível que ofegava. Claro, suas forças não haviam retornado ao corpo, nem deveria fazer tal soma de esforço. Por conta disso estava apoiado nos cotovelos para suportar. Devia isso à Sasori, era pouco pelo que o deixara passar sozinho, mas tudo que poderia fazer no momento.
Segurou a base de sua própria ereção deslizando entre o buraquinho molhado do esposo. Este se remexeu, arfando bem rapidamente.
– Coloca todo de uma vez! Agora!
–... Sabe que não me dá ordens.
– Por favor!- implorou irresistivelmente fofo.
Itachi riu com isso, forçando a cabeça. Apoiou os braços dobrados no móvel, de modo que deitou o peito no dele, diminuindo a pressão nas pernas e forçou o quadril para frente.
Um grito longo tomou os lábios do ruivo quando foi penetrado de uma única vez, como tanto queria, invadido sem piedade. Cruzou os pés ao redor do tronco esguio do esposo, as costas arqueando e um arrepio gostoso o fazendo tremer.
Precisou deslizar rapidamente a mão entre seus corpos e apertar a cabeça de seu membro ou teria gozado ali mesmo, apenas por ter sido invadido.
Esperou tanto por isso que seu corpo nem tinha forças para prolongar a sensação.
Itachi começa a mover o quadril, forçando o membro a entrar e sair, tomando espaço na cavidade apertada. Estremeceram juntos, tomados de desejo. O ruivo entreabriu os olhos, encarando-o diretamente.
– Sabe como eu quero... — mordeu o lábio inferior, rebolando enquanto era violado.
A resposta veio num movimento fundo e forte, exatamente como sabia que ele gostava. Sasori cerrou os olhos, a mescla de dor e prazer era absoluta. Abriu um pouco as pernas para se deliciar melhor com a sensação, os olhos giraram nas órbitas, esqueceu de qualquer outra coisa a cada vez que seu corpo era chacoalhado com uma nova estocada funda. Itachi o atingia exatamente num ponto que o fazia perder o controle, completamente imerso em prazer. Estava tão molhado que sentia o deslizar sem o menor problema, tornando-se largo ao redor do membro muito duro que se enfiava nele, esbarrando em todo canto no seu interior. Rangeu os dentes, gritou e gemeu sem cerimônias. Esperou muito por isso!
Agarrou-se às costas largas, movendo inconscientemente os quadris no mesmo ritmo em que era penetrado, impondo um ritmo forte, balançando o corpo conforme era penetrado.
Sentiu o suor bater em seu pescoço e ergueu o rosto. Era visível no rosto do moreno o sacrifício que o ato exigia dele, aliado à sensação arrebatadora que o sexo propiciava.
Bem no âmago Sasori sentiu culpado mas tudo foi pelo ares quando suas pernas foram seguradas, quando Itachi riu de lado e beijou-lhe os tornozelos sensualmente. Lambeu os próprios lábios enquanto forçava-se para dentro dele, já sentindo o orgasmo se aproximar.
Era tão quente dentro dele!
Sasori teve a ereção segurada com força, a mão larga movendo-se ritmada para cima e baixo, apertando sua glande.
Nem que quisesse seria capaz de resistir, gemeu várias vezes quando se viu livre do líquido quente e branco que jorrava pela barriga toda sujando-o por completo. Não conseguiu pronunciar nada e apenas um longo gemido escapou de seus lábios, os olhos fechados e uma expressão abandonada enquanto seu corpo era tomado pelos segundos arrebatadores que o orgasmo proporcionava. Muito mais intenso do que se lembrava em anos, tão longo que não sabia quando pararia de jorrar. Passou os dedos pela barriga, espalhando o próprio sêmen, assistindo a mão larga do esposo o manipular até ter terminado de ejacular.
Itachi pareceu desabar de cansaço, mesmo que não houvesse atingido o orgasmo. Seu corpo pedia por descanso, a ponto de nem se preocupar consigo mesmo. O importante era dar a Sasori o que queria.
O ruivo compreendeu e ergueu a cabeça deitada em seu ombro. Itachi o fitou sem entender, ofegante e cansado, mas sem prévio aviso o ruivo ajoelha sobre o móvel, graciosamente, deixando o bumbum empinado enquanto se abaixa em direção à virilha do Uchiha, ao membro que quase perdeu o entusiasmo devido ao cansaço. Deslizou-o para dentro da garganta, engolindo todo, erguendo os lascivos olhos vermelhos para provocá-lo enquanto o chupava até a base. Ficou satisfeito ao senti-lo enrijecer rapidamente dentro de sua boca.
– Esp... — a voz morreu na garganta do Uchiha.
O mais velho o fitava-o sem o menor pudor quando começou a chupar, provocando ruídos altos, esfregando-o no próprio rosto, lambendo a cabeça rosada, brincando com o buraquinho. Um riso safado brincava nos lábios.
Sasori sabia como fazer aquilo, e como sabia! Enquanto movia a cabeça para cima e para baixo, engolindo-o, sua língua girava ao redor, fazia o que bem entendesse com ele dentro de sua boca. Manteve o bumbum empinado, as costas arqueadas, uma das mãos apoiada no móvel, a outra apertando a anca até marcar a pele alva do Uchiha.
Itachi arfava, zonzo e cansado. A visão daquele corpo lindo, os movimentos, a voz abafada pela felação ininterrupta, o ruído molhado ecoando pelo ar, o olhar atrevido e indecente... Segurou os fios vermelhos, cerrando apenas um dos olhos pois queria observar a beldade em forma de gente que era Sasori e sem poder segurar mais goza com força dentro de sua garganta. Imensos e longos jatos ininterruptos que fizeram o ruivo tossir, uma quantidade maior que o normal, afinal ele não fazia tal tipo de coisa há três anos!
A intensidade do gozo forçou-se para fora e deslizou pelos cantos da boca pequena, escorrendo pelos lábios rosados e caindo no móvel de madeira. Sasori riu travesso, afastando a boca e mostrando-a aberta, o líquido branco tomando cada parte dela, pare então engolir ruidosamente, lambendo os lábios, limpando com as pontas dos dedos o que escorrera, tornando a saborear.
Itachi ainda respirava depressa, o corpo dormente pelo orgasmo intenso. Sasori por sua fez gingou os quadris no alto, com cara de pedinte.
–... Eu ainda estou duro — confessou, fazendo beicinho.
– Tem noção do quanto estou cansado? — riu. Bem sabia quem era aquele ruivo.
– Problema seu por me provocar, sabe que uma vez só não me satisfaz — os orbes vermelhos brilhavam de luxúria pura. Ele desceu do móvel com um movimento ágil e bonito, ficando diante do outro. Por ser mais baixo enlaçou o moreno pelo pescoço e o forçou um pouco para baixo para beijar-lhe como queria.
Riu alto dentro do beijo ao sentir que ele não perdeu a empolgação mesmo estando cansado. Segurou a mão grande e larga do Uchiha e o guiou pela casa, os pés graciosos e descalços quase flutuando pelo chão, o bumbum grande e macio rebolando enquanto caminhava. Abriu a porta do quarto com um gesto firme da mão. Virou-se para dizer algo mas foi empurrado na cama espaçosa, rindo travesso em resposta.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Por um momento o sorriso morreu no rosto e suspirou ao ver por inteiro aquele corpo maravilhoso que tanto amava. Não ousou se mover, admirando as formas, pronto a recebê-lo. Devagar o moreno deitou sobre seu corpo, aproveitando as pernas abertas que pareciam lhe recepcionar perfeitamente.
– Isso tem cara da nossa lua de mel — abraçava o corpo pequeno do mais velho — Teve algum lugar daquele hotel em que não fizemos?
– E quem se importa? — esfregava o pau duro na barriga do outro — Só me lembro de você, o lugar era o de menos.
– Voltamos detonados para casa — beijava seus lábios sensualmente — Eu só consegui lembrar direito disso enquanto estava entrando em você agora há pouco.
– Pode tentar se lembrar de como me fez gritar e do modo como a camareira olhava envergonhada para a gente quando deixamos o hotel — riu longamente, esfregando o corpo no dele — Agora pode deixar de conversa, por favor? Tem outras coisas que quero ouvir de você.
– Como quiser... — procurou uma posição confortável, encaixando-se no corpo quente. Um único movimento foi o bastante para entrar no buraquinho já largo e molhado. Gemeram em uníssono
–... Se estiver pesado me avise.
– Aaaah cale a boca e se mova! — abraçou-o bem forte — Depressa!
Obedecendo, começou a empurrar o quadril. Era deveras mais confortável, muito mais simples que de pé.
Bem, eram acostumados a levar horas fazendo sexo, mas seu corpo recém desperto não acompanhava os movimentos do modo como queria. Suava e cansava com maior facilidade.
Adivinhando isso Sasori o vira de costas na cama, subindo em seu corpo e sentando na virilha esguia. Fitou sem reservas o marido e amante, segurou a base do membro dele com a mão e levou a ponta de encontro à entrada, deixando-se enterrar. Gemeu de deleite, a excitação voltando e o consumindo. Itachi cerrou os olhos, respirando em golfadas de ar, se deixando levar pela sensação que voltava com força. Ver aquele ruivo safado cavalgando seu colo era uma visão maravilhosa.
–...Dessa vez... Eu quero bem lá dentro... Quero que me dê tudo, Itachi...
O moreno segurou-lhe as ancas seguindo o movimento delicioso, assentindo, tomado pela sensação de ser engolido pela entrada quente e apertada, a lubrificação escorrendo da entradinha, molhando sua barriga conforme os movimentos ganhavam força e velocidade. O membro muito duro do ruivo batia na barriga do esposo, acompanhando o ritmo.
Sasori passava as mãos pelos próprios cabelos, lambia os dedos, sorria despudorado. Era um verdadeiro perito em provocar, em elevar o desejo de qualquer um, sobretudo de Itachi. Sabia enlouquecê-lo como ninguém mais. Quicava em seu colo, se deixando penetrar até o fundo, entorpecido.
– S... Sasori.... — engolia com dificuldade, cego de desejo, observando deleitado seu membro sumir dentro do buraco rosado que o apertava e engolia.
Em resposta a isso o ruivo aumentou o ritmo, usando os calcanhares como alavanca para subir e descer, impulsionando o corpo com cada vez mais vontade, numa dança maravilhosa que os estava levando à loucura. Começou a se masturbar, no ritmo em que o cavalgava, a voz escapando como uma canção enquanto chamava pelo nome de Itachi.
Este cerra os dentes e urra forte, segurando-lhe o quadril e afundando o pênis dentro dele para gozar pela segunda vez, dessa vez certificando-se que todo o líquido quente fosse jorrado bem lá dentro, no local exato que os compatíveis possuíam, o canal que levava o esperma até o invólucro. O ruivo tremeu, mais ainda ao perceber a intenção dele e gozou em seguida, molhando as mãos, espirrando o corpo majestoso do esposo. Por ser a segunda vez a quantidade era bem menor, mas ainda suficiente para encher seu canal. Ainda respirando depressa, seca o suor do rosto, fitando o moreno de maneira vulnerável.
– Obrigado... — remexia-se, sem querer tirá-lo de dentro de si.
Porque desejava que mesmo um único daqueles milhões de espermatozóides liberados dentro dele pudesse nadar por seu canal, um pequeno ligamento que chegava até o invólucro, e fecundasse-lhe o óvulo. Desejava que o ato pudesse mesmo o engravidar de novo, ainda que achasse impossível.
A mão larga do Uchiha deslizou por seu rosto, chamando-lhe a atenção.
– Você vai começar a fazer tratamento, lembra? É questão de tempo até engravidar de novo.
Sasori assentiu, a força parecendo tornar para dentro de si apenas com as palavras do esposo. Ergueu o quadril, deixando-o sair de dentro de si e se deitou rapidamente, para que pudesse absorver o máximo possível, pois normalmente escorria tudo para fora. Pousou a cabeça sobre o peito suado, o coração dele batendo em sua bochecha. Foi abraçado e fechou os olhos, saboreando a presença forte que Itachi emanava e a paz e tranquilidade de estar com quem amava de verdade. Fitou o cabelo longo e sedoso do moreno, que escorria pela cama. Riu e chamou sua atenção.
–... Seu cabelo cresceu bastante – passa o pé de leve nas coxas dele, a mão contornando o umbigo – Seria uma pena cortá-lo, está tão bonito.
Itachi riu de volta, roçando o próprio pé no dele, causando cócegas no ruivo.
– Será que é porque não o cortei por três anos? – riu de lado — Você também parece diferente. Parece mais maduro, ainda mais bonito.
– Essa história de mais maduro me faz parecer velho — fez bico.
– Você é mais velho que eu, esqueceu?
– E ninguém precisa saber disso! — retrucou — Já basta meus alunos me tirando do sério porque sou baixo.
Itachi piscou algumas vezes, surpreso.
–... Alunos?
– É, os da universidade — respondeu casualmente, mas percebeu que ele parecia confuso, desviando o olhar, franzindo a testa pensativo. As íris pareceram desfocar de repente.
– Sou professor de Literatura, lembra?
– Ah sim... — fingiu um sorriso, mas o outro o conhecia muito bem e percebeu imediatamente que estava mentindo para não preocupá-lo.
–... Marquei alguns exames em um médico especializado Itachi. Você passou por muita coisa, é normal que sua mente esteja confusa.
– Eu estou bem. Não tem que se preocupar comigo.
– Vou antecipar minhas férias para ficar com você. Deidara tem me ajudado bastante com as aulas extras — riu de lado — Ele está louco de vontade de te ver, sabia?
O Uchiha ficou um longo tempo mudo, formulando uma frase.
–... Quem é Deidara?
O ruivo suspirou.
– Meu melhor amigo desde criança. O mesmo que nos ajudou a ficar juntos — explicou calmamente, dedilhando as mechas negras.
Teria toda a paciência necessária, pelo tempo que fosse preciso. Não se deixaria abater pela situação, nem tampouco pelas perdas de memória de Itachi. O importante era estarem juntos, todo o resto seria superado com o tempo.
Ele logo se recuperaria, tinha fé nisso.
– Como ele é? Eu não me lembro... — franziu bem a testa.
– Está tudo bem. De qualquer forma é uma pessoa barulhenta e espalhafatosa — girou os orbes só em pensar no loiro escandaloso.
– Pode chamá-lo aqui? Essa pessoa de nome Deidara?
– Claro. Precisa dizer algo a ele?
– Se é seu amigo então é importante para você. Quero me lembrar de tudo que lhe seja importante.
O ruivo sorriu com isso.
– Galanteador como de costume — riu de lado — Bem, foi isso que fez eu me apaixonar por você.
–-
– Deite-se e erga um pouco a sua blusa, senhor Uzumaki — a médica responsável pela ultrassonografia o orientou calmamente, porque era óbvio que o loiro estava muito nervoso!
Ele obedeceu, agindo de forma automática. Acomodou-se no leito ao lado do painel cheio de botões, o monitor ainda estava desligado. O quarto era claro e agradável, muito bonito. Sasuke fizera questão de escolher uma das melhores clínicas para o ultrassom, era um momento ímpar para eles e queria desfrutar de cada segundo. Ser pai mexia com ele de uma maneira inesperada, provavelmente seria hiper protetor com sua criança.
Mas isso trazia reconforto ao Uzumaki, ter Sasuke a seu lado lhe dava forças. Respirou fundo, olhando cúmplice ao namorado que se sentava na cadeira ao lado. Como que entendendo todo o seu desespero o Uchiha toma a mão pequena entre a sua e lhe sorri de lado.
Naruto expira, tentando se livrar de toda a tensão e ansiedade. Puxa a blusa que vestia até a altura do peito, exibindo o ventre muito alto e arredondado. Sua barriga estava mesmo bem grande para o pouco tempo de gestação. A pele repuxava, mas a visão o enchia de satisfação, de modo que passou de leve a mão pelo barrigão saltado. Sasuke mirou disfarçadamente o rosto dele, mais redondo que o normal, as bochechas bem coradas como sinal de saúde. Ele parecia lindo, resplandecente. A gravidez lhe acentuou os traços, tornando-o ainda mais atraente.
Sem perceber o olhar do moreno sobre si resmungou um pouco quando o gel gelado foi despejado e espalhado pela superfície da pele. Como na vez anterior a mulher pegou um aparelho pequeno e pressionou de leve na barriga do loiro.
Os dois pais voltaram o rosto para a tela que se acendeu. Estavam muito ansiosos!
Uma imagem amarelada surgiu na tela, revelando o interior do útero do loiro, carne densa em movimento conforme o conector passava sobre a barriga. A imagem em 3D permitia uma gama de detalhes que passaram despercebidos na vez anterior.
Os olhos do Uzumaki se abriram de surpresa, brilhantes e imensos. Ele conseguia distinguir nitidamente uma coisinha se remexendo entre as imagens. Dessa vez era diferente de seu primeiro ultrassom, de maneira que, quando percebeu o formato perfeito das costas, os membros já formados e o rosto de seu bebê soluçou sem poder se conter. Apertou mais forte a mão de Sasuke entre a sua enquanto chorava emocionado.
Era completamente visível dessa vez. Podia ver os bracinhos pequenos, as mãos próximas ao rosto, os pezinhos se agitando. Naruto chorou de alegria pura, sem conseguir desprender o olhar da tela.
Seu corajoso bebê que já havia passado por tanta coisa estava crescendo e se desenvolvendo à salvo em seu ventre.
Volveu o rosto para Sasuke percebendo o moreno sorrir bobamente, girando os brilhantes olhos negros pela tela, atento aos movimentos do bebê. Ao se notar encarado desviou o olhar ao loiro, sorrindo afetuosamente. O já conhecido som alto e acelerado do coração do bebê ecoava pela sala, embalando-os.
A médica se mantinha atenta à imagem. Do ângulo em que analisava não era possível aos pais verem com nitidez o rostinho da criança, pois ela estava de costas. Na cabeça dos dois, leigos no assunto, era difícil entender onde estava sua criança no meio daquela carne se movendo, entre as imagens amareladas.
O balbuciar da médica fez o loirinho voltar o olhar à ela. Parecia concentrada, até mesmo intrigada. Vez ou outra aproximando a imagem, o aparelhinho comprimido com um pouco mais de força pelo seu ventre.
Isso o deixou inquieto.
–... Está tudo bem? — sentiu um pouco de apreensão, ela se mostrava muito séria.
– Seu invólucro está com as paredes bem finas, e isso não é normal.
– Isso representa problemas ao bebê? — Sasuke logo quis saber.
– Representará se continuar descumprindo a orientação e fazendo esforço físico extremo ou passando nervoso, senhor Uzumaki — volveu o olhar sério ao loiro — Já vi rapazes mais jovens abortarem por menos que isso. Seu estado é bastante delicado, está pondo em risco sua gestação.
Naruto engoliu forte, muito alarmado.
Não era sua culpa, ele seguia sim a recomendação, queria o melhor ao seu bebê, mas aconteceu tanta coisa! Precisou salvar Itachi, fugir do hospital enquanto o carregava... Não tivera escolha alguma.
– E claro, essa não é a única coisa com se preocupar agora — a mulher tornou a ajustar os óculos.
O loirinho apertou tanto a mão do namorado entre a sua que os nós dos dedos dele ficaram brancos.
– Por quê? — volveu o olhar em pânico à tela, já sentindo o coração disparar de angústia — O que aconteceu? O que tem de errado com meu bebê???
– Se acalme, não pode passar nervoso. Ficará tudo bem desde que respeite as orientações e não se esforce demais. Vou lhe afastar do trabalho, e vamos traçar algumas metas de alimentação e medicação para fortalecer seu organismo, senhor Uzumaki. Se fizer isso não terá problemas.
O casal se entreolhou, passando um ao outro milhares de coisas através do olhar. Por um momento ficaram tão nervosos que nem pensavam direito! A simples ideia de haver algo de errado com seu filho os desnorteou por completo. Era um alívio imenso saber que tudo estava bem.
– A criança está saudável, doutora? — o moreno pousou a mão sobre a do loiro, no canto da barriga. Sentia-se muito culpado, afinal o namorado estava sofrendo com problemas que não lhe cabiam. Era óbvio que tivera complicações devido ao esforço e susto que passou no dia da fuga do hospital.
– Tudo está bem. A formação, o tamanho, os batimentos, está tudo dentro da normalidade — ela sorriu pela primeira vez — Alguns pais preferem que seja surpresa até o momento do parto, mas há algumas coisas que preciso alertar sobre a gravidez, independente de quererem saber ou não o sexo de seu bebê.
Piscaram juntos e só então lembraram as discussões tolas e a euforia para descobrir o sexo do bebê. Havia ficado em segundo plano diante da possibilidade de haver algo errado com ele, o senso protetor de pais agindo em primeiro plano. Tudo que desejavam era que fosse uma criança saudável, o sexo realmente não importava. Era seu filho, e queriam o melhor para ele.
Mas nenhum dos dois admitiria que na verdade se divertiam naquelas brigas bobas, e lamentavam que acabassem.
Encararam-se e o loiro assentiu, rindo travesso. Sasuke devolveu o riso, malicioso.
– Já sei que é menina, doutora — afirmou e levou um tapa leve do mais novo.
– Ignore-o, sim? Pode prosseguir com seu trabalho e informar o senhor Uchiha que é um menino, por favor — Naruto deu de ombros.
A mulher riu.
– Então cada um quer uma coisa? — não os encarava, atenta à imagem do monitor enquanto deslizava o aparelho — Se preferirem posso deixar em segredo.
– Não!!! — exclamaram ao mesmo tempo, com os olhos brilhantes como crianças. A mulher teve que rir, era adorável.
– Acho que um de vocês vai ficar realmente feliz.
– Qual de nós??? — Naruto se esticava, virando a cabeça à imagem, a curiosidade o enlouquecendo — Oh diga que fui eu, por favor! Esse homem não vai me deixar em paz se estiver certo, ele é extremamente arrogante!
– Deixe-a fazer seu trabalho, Naruto — ralhou irritado — Eu estou certo, não é? — movimentava a perna rapidamente, um óbvio sinal que estava nervoso — Preciso sair daqui e telefonar para Itachi dizendo que terei uma menina! — sonhava acordado.
– Ela nem disse nada ainda!!! — o loiro parecia incrédulo — Está me escutando seu Uchiha estúpido?!
– Eu te amo por me fazer pai dela, Naruto.
– Escute o que a médica diz primeiro, caramba!!!
– Será que eu posso falar? — ela intrigou maliciosa, mas não se importaria em deixá-los discutindo um pouco mais. Eles pareciam ser um casal estável, feliz com a gravidez, então era agradável fazer um pouco de suspense. Isso sem falar que não era tão comum ter compatíveis no consultório e todo o prédio estava alvoroçado querendo saber o sexo daquela criança. Já haviam até mesmo pedido para filmar a fotografar alguns momentos dos pais, para guardar nos arquivos da clínica. O loirinho ficou meio sem graça, mas permitiu sem problemas.
Os dois pais se voltaram atentos à médica, empolgados, os imensos olhos brilhantes de antecipação.
– E então??? Menino ou menina??? — Naruto poderia explodir de ansiedade! Saber enfim possibilitaria chamá-lo pelo nome, escolher os móveis, as roupas... A ideia criava forma e seu coração transbordou ao se imaginar com aquela criança nos braços.
A mulher riu baixinho.
– É exatamente como achou que fosse, e imagino que vai ficar realmente feliz ao saber que esteve certo... Senhor Uchiha.
As palavras ecoaram no moreno feito uma melodia. Ficou parado, imóvel, sem reação. Cada fibra de seu corpo absorvendo a informação que havia acabado de receber. Piscou algumas vezes, incrédulo.
– Isso quer dizer...?
– Consegue ver aqui? — ela aproximou a imagem, indicando com a mão — É uma menina.
A surpresa anestesiou sua mente sempre tão calculista. Sentiu-se perdido. Seu peito se tornou pequeno para a gama de emoções que aflorou nele. Os lindos olhos negros piscaram, cada vez mais rápido. Sua mente assimilava aos poucos e ele riu, mas seus olhos se encheram de lágrimas em seguida e precisou cobri-los com a mão, fungando e soluçando quando o choro explodiu na garganta. Apertou os olhos com a mão, tentando parar de tremer, voltar a pensar corretamente, rangeu os dentes e a voz escapou esganiçada da garganta.
Ansiou isso por muito tempo. Nem acreditava que seria pai de uma menina! A princesinha que sempre sonhou! Era mesmo sua pequena garotinha que estava ali no ventre do loiro irritante com quem pretendia se casar e passar o resto de sua vida.
Não havia nada que desejasse tanto! Em seu íntimo sempre souber ser destinado a ter uma menina. A vontade apenas cresceu mais no peito depois do horrível acidente que mudou a vida de seu irmão e de Sasori.
Apertou a mão do loiro junto à sua, trazendo-a para junto do peito.
Estava tão feliz! Daria todo o amor que nunca tivera dentro dos portões do clã Uchiha, protegeria sua menina da ira dos Uchiha, zelaria por sua felicidade. Ainda que não pudesse abrigá-la em uma redoma que a isolasse da crueldade do mundo faria tudo que estivesse ao seu alcance para torná-la feliz.
Inclinou o corpo para ver melhor a criança que se mexia de leve exibida na tela.
–... Aiko — sorria bobamente, a mão livre passando pelo ventre do loiro, nos locais distantes do gel — Olá meu bem.
Naruto apenas conseguia observar o rosto lindo e molhado do namorado, fascinado com aquela reação. Queria se sentir bravo por haver "perdido" a disputa, mas se emocionou com a notícia de estar esperando uma menina. Seu instinto de pai falou mais alto e inevitavelmente se pegou pensando em todo o desespero que havia sido o início de sua gestação. Tivera tanto medo, achou que seria rejeitado por Sasuke, que ele repudiaria seu bebê. Mas olhe só para ele! Amava aquela criança, era nítido em seu olhar e isso mexeu com o Uzumaki, saber que sua criança era querida significava muito.
Claro que estava um pouco desapontado por ter se enganado. Em seu íntimo sempre esteve convicto de que esperava um menino, a ideia de gerar Daisuke já era vívida em sua mente e coração. Era difícil abandonar tudo agora, mesmo que estivesse feliz por gerar Aiko. Teria de lidar com o fato de que seria pai de uma menina, e que não se sentia pronto para isso.
–... Então a intuição dos Uchiha realmente funciona, não é? Estou impressionado de ter errado. Eu podia jurar que estava grávido de um menino — suspirou. Ao abrir os olhos volveu carinhosamente o olhar à tela do monitor — Bem vinda, Aiko. Papai vai cuidar muito bem de você, esteja certa de que é muito amada por nós dois, por isso te demos esse nome.
A mera conversa com sua criança a fez se remexer e ele estranhou. A médica riu.
– Ela já consegue ouvir sua voz, e é muito sensível a ela — revelou.
Os dois pareceram incrédulos.
– Ela pode me ouvir? — O loirinho pareceu maravilhado.
– Sua voz é o som que naturalmente a conforta, senhor Uzumaki, seguido da voz do outro pai. É bom falar, cantar, ler histórias. Isso tudo ajuda muito no vínculo. Ela consegue ouvir até mesmo o seu coração bater.
Naruto ria abobado.
– Eu não sabia...
Sasuke acariciou sua bochecha.
– Podemos tentar um menino daqui um ano. Daisuke virá fazer companhia a ela, esteja certo disso. E já sabe que não me engano.
– Não sei se terei pique para engravidar de novo tão cedo — riu — Daisuke terá que esperar um pouco.
– Na verdade... — a médica chamou atenção dos dois de volta para si — Acho que seu desejo ainda pode se concretizar, senhor Uzumaki.
– Doutora, não sei se consigo passar tudo isso de novo! Ainda mais com todo o trabalho que terei depois que minha menina nascer — gargalhou, o som macio ecoando pela sala.
– Eu não colocaria dessa forma — ajeitou os óculos e os dois a fitaram com expressão curiosa.
– Como assim? — o cérebro lento do loiro demorava a assimilar. A doutora apenas deslizou o aparelho para um ângulo mais abaixo, o que dava uma visão diferente do interior do ventre do loiro. Da forma em que a imagem se dispunha era possível ver Aiko de perfil.
E foi então que o loiro esqueceu como respirar. Os olhos azuis se arregalaram de surpresa e soltou uma exclamação ininteligível.
–...Isso... — piscou algumas vezes, achando estar enganado. Um riso baixo escapou de seus lábios, aumentando ao passo que recomeçava a chorar descontrolado, cobrindo os olhos com as mãos.
Da visão anterior era impossível perceber porque Aiko encobria e impossibilitava perceber de pronto, mas daquele ângulo era inegável.
– Não é tão incomum assim passar despercebido, há casos comprovados em que mesmo fazendo o ultrassom não é possível identificar até o momento do parto! Mas no seu caso demos sorte e pude localizar imediatamente — divertia-se com a confusão e perplexibilidade dos pais.
Sasuke estava mais branco que de costume, se é que isso era possível. Mal conseguia se mexer ao fitar a mancha que ganhava forma no monitor. Encarou a médica implorando por respostas.
–...Pode explicar o que está acontecendo? — ele tremia, a ponto de perder os sentidos. A mulher assentiu, divertindo-se com o suspense.
– Já que estavam discutindo pelo sexo do bebê preferi lhes dar a notícia aos poucos, para absorverem melhor.
Naruto esfregou rapidamente os olhos, sorrindo em meio às lágrimas, encarando a mulher apenas para ouvir o que já sabia, o que sempre soube.
– Há um segundo bebê no seu ventre, senhor Uzumaki. Vocês serão pais de gêmeos.
O loiro achou que explodiria! Gargalhou de contentamento, soluçando de tanto chorar.
Jamais imaginou que pudesse engravidar, nem sabia ser compatível até poucos meses atrás e a vida lhe presenteava com dois bebês de uma vez só! Era muito mais do que poderia pedir!
Claro que sentia medo e ficava apavorado ao pensar na hora do parto já que sua gestação era arriscada, mas nada disso importava! Ele seria pai duas vezes! Teria duas crianças, era maravilhoso! Sempre desejou uma casa alegre e cheia, era sua concepção de família perfeita. E adorava crianças!
– É menino? Ou outra menina? — há essa altura o loiro nem se importava mais, estava tomado de euforia, quase não conseguia acreditar. A imagem focalizou entre as perninhas cruzadas.
– Eu lhe disse que ainda poderia realizar seu desejo — ela riu abafado pelo nariz — É um menino.
Naruto gargalhou e bateu os pés sobre a cama.
– Eu sabia! Eu sabia!!! Nós dois acertamos, Sasuke! Somos pais de um menino e uma menina! Eu não posso acreditar!!! — Naruto passou a mão pela barriga, por cima do novo bebê — Daisuke, eu sabia que você estava aí, tinha certeza disso! Agora você e Aiko vão poder brincar juntos!
O moreno por sua vez ergueu o corpo, quase desacreditado, ficando diante do monitor como se precisasse ver que aquilo era real. Ao ver o outro bebê se mexendo gemeu e levou a mão à testa, quase apagando.
– Eu preciso me sentar...
Imediatamente a médica lhe ofereceu assento, era comum pais que desmaiavam com uma notícia dessas.
–... O menino... É saudável? — foi tudo que o Uchiha conseguiu balbuciar, muito nervoso, aos poucos tornando a si.
Proteger uma criança da fúria do clã já seria difícil, quem dirá dois deles. E aquele loiro desmiolado só conseguia sorrir?
Os temores eram tantos que era difícil colocar em palavras, mas isso durou somente até a imagem focalizar bem.
Um silêncio gostoso tomou a sala. Sasuke não piscou, antes suspirou soltando um riso baixinho de contentamento quando a imagem focalizou em seus dois bebês juntos. Fitou o loiro e eles desabaram. Choraram a ponto de quase passar mal. Abraçaram-se, completamente comovidos. Não trocaram uma única palavra porque compreendiam tudo dentro daquele abraço.
Há essa altura já haviam chamado a atenção dos profissionais de quase todo o prédio. Fotos foram tiradas, a própria médica filmou pelo celular porque ficou muito comovida com a reação deles.
Eram simplesmente lindos juntos.
Fez questão de mostrar o máximo que pôde as duas crianças aos novos papais. Aiko aparecia nitidamente na tela, os olhos fechados, os punhos próximos ao rosto. As mãozinhas eram perfeitas.
Naruto exclamou extasiado, passando o braço pelos olhos para secá-los, estava lavado de tanto chorar.
– Sasuke, olha de perto. O nariz dela parece o seu! — ria alto, deliciado — Olha!
Era inegável que aquela criança tinha traços muito parecidos com o Uchiha.
–... Deixa o papai te ver, meu bem — Sasuke pousou a mão amorosamente no ventre do loiro, próximo ao local onde ela estava, mas só o que conseguiu foi que ela escondesse ainda mais o rostinho detrás dos punhos fechados.
– Teimosa igual ao pai, tinha de ser uma Uchiha! — o loiro alfinetou, ganhando uma carranca em resposta.
– Não sou teimoso.
– Oh claro que não. Está teimando comigo que não é teimoso — riu.
Em seguida foi a vez do rostinho de Daisuke. Ele parecia se mover mais, era mais agitado. A cada vez que Naruto passava a mão sobre ele na barriga o pequeno se remexia.
Um único olhar e Sasuke apaixonou-se por ele, como aconteceu ao ver Naruto pela primeira vez. Sorriu encantado, soltando um grande suspiro, orgulhoso como qualquer pai de primeira viagem.
– Daisuke tem a boca como a sua, Naruto.
O loiro corou com a frase, mas era verdade. Daisuke lembrava o loiro em muitos aspectos. Talvez ainda mudasse muito, afinal estava se desenvolvendo. Em partes talvez estivessem apenas fantasiando sobre o quão parecidos eram, mas não negava o fato de que eram duas crianças lindas.
E quem diria que suas brigas desde o princípio tivessem fundamento e ambos houvessem acertado? aquelas crianças eram parte dos laços que mantinham um com o outro.
– Desculpe o papai, Daisuke. Não sabia que também estava aí — Sasuke beijou a barriga grande para em seguida fitar o namorado — Viu? Eu lhe disse que estava certo.
– Quem realmente acertou foi Itachi porque sabia que eram gêmeos! Nunca mais vou duvidar do que um Uchiha disser! Nunquinha mesmo!
–-
Fitou-o de cima, enojado e desgostoso. O pobre homem ainda se mantinha naquele quarto quente, com pouca ventilação. Estava sobre uma cama velha, coberto apenas por um lençol. Parecia muito doente, terrivelmente debilitado.
Seus cabelos foram segurados com rudeza até que tivesse virado o rosto para lhe encarar.
Madara exibia uma feição de falsa pena, um sorriso diabólico zombando seus lábios.
–... Como vai, irmãozinho?
Izuna gemeu e tossiu, a face agoniada pela dor.
– Madara, por... Favor...
– Oh, você está me implorando? Achei que não soubesse fazer isso.
– Madara...
O sorriso falso esmoreceu, dando lugar a um ressentimento sem igual. Largou-lhe os fios de cabelo, limpando a mão nas vestes. Izuna não se mexeu, da maneira que foi largado permaneceu, não tinha forças sequer para revidar.
– Até olhar para você me enoja Izuna.
– Madara... Já lhe disse... Que me arrependo muito — tomou uma grande golfada de ar — Por tudo que te fiz...
– Arrepender-se é um começo, mas está longe de ser o suficiente.
– Você... Está descontrolado.
– E quem foi que me deixou neste estado? — desdenhou — Você é o responsável direto, Izuna. Não deve esquecer o que provocou tudo isso.
– Deixe Mikoto em paz... — implorou, com o resto de força que possuía — Por favor...
– Não está em posição de me dizer o que fazer. Na verdade acredito que neste exato momento há alguém cuidando disso para mim. Tudo está caminhando a meu favor, irmãozinho. Itachi será obrigado a voltar para a casa sede. Sasuke terá de me obedecer querendo ou não.
Tudo seguia muito melhor que o planejado. Era a vantagem de pensar sempre alguns passos a frente, de precaver-se. Desse modo mesmo que as coisas não saíssem como o planejado não se via sem saída, muito pelo contrário.
–-
O clima era muito diferente do local em que viveu nos últimos anos. O calor do sol invadia cada fibra de seu corpo desde que havia retornado, há poucos meses. Adoraria sentir a brisa quente nos cabelos longos, deixar o sol beijar-lhe a face, mas sabia ser impossível. Discrição era um cuidado constante. Um único erro poria sua vida em risco.
Por ser uma pessoa caçada viveu os últimos meses em total clausura, saindo poucas vezes, usando sempre de um conveniente disfarce. Caso alguém descobrisse que voltara ao país correria sério perigo, assim como as pessoas a quem desejava proteger.
Eles eram sua única razão de continuar vivendo. Por eles faria qualquer coisa, seria capaz de qualquer sacrifício.
Por eles esteve vivendo um inferno difícil de descrever, fugindo de um lugar para outro, assumindo falsas identidades, trabalhando no que fosse necessário. Não importava, era pouco perto do sofrimento a que os expusera.
Lembrar o choro alto no dia em que os abandonara lhe partia o coração...
Ouviu um ruído próximo à janela da casa minúscula em que vivia, no subúrbio da cidade. Era um local apertado, quente em demasia, cheirando a cigarro dos vizinhos. Por hora era o esconderijo perfeito. Passaria mais algum tempo ali, até que fosse prudente trocar outra vez de casa. Fazia muito isso, era uma forma de se aproximar aos poucos.
O ruído em sua janela foi ouvido mais alto, era um sinal há muito conhecido, indiferente à qualquer outra pessoa, mas óbvio para si. Abriu apenas uma fresta pequena da janela para ter certeza, logo avistando o homem que pedia para entrar com um gesto silencioso. A passagem lhe foi concedida e abriu a janela com um movimento firme, tão ágil que não foi percebido no quintal, os vizinhos envolvidos em discussões e bebedeiras.
Encarou a figura desleixada diante de si. Não importava como olhasse parecia um rapaz largado e franzino, mas o rosto era excepcionalmente bonito. Os olhos negros como ébano, muito vívidos. Este por precaução sacou uma arma que estava escondida na cintura, sempre andava com uma, e a apontou ao visitante no momento em que ele fez a mesma coisa.
Os dois encararam-se sem quase respirar, apontando as armas um para o outro, prontos a dar um disparo se fosse necessário. Para total surpresa do residente aquele jovem que saltara de sua janela baixou a máscara ninja, revelando o rosto como há muito não fazia. Era um velho conhecido, alguém que não imaginou rever, ainda mais sob tal circunstância.
– O que faz aqui, Shisui? — a voz baixa e suave saiu como um sussurro, mas a arma não se moveu um centímetro sequer, apontada ao peito do outro.
O Uchiha fitou de alto a baixo, começando pela calça folgada e surrada, a camiseta larga, o rosto magro e ressecado, o boné cobrindo parte do rosto.
– Não me admira que não te encontrei antes. Está muito diferente da última vez em que te vi — baixou a arma lentamente, fazendo sinal para que a pessoa diante de si fizesse o mesmo — Abaixe isso, sabe que não vou machucar você.
– Você é o braço direito do patriarca, só saber disso me faz ter cuidado redobrado com você Shisui — insistiu. Embora fina, aquela voz era determinada.
– Foi o único modo que encontrei de me manter perto o bastante — piscou os belos olhos puxados, lentamente colocando a arma no chão — E se fosse verdade que estou do lado de Madara eu mesmo teria matado Itachi quando o vi sair do hospital com Naruto. Eles estavam sozinhos, indefesos. Um golpe rápido e teria acabado com tudo.
Ao som da frase a mão que segurava a arma diante de si fraquejou um instante. Os olhos negros da figura enigmática fitaram o Uchiha por um bom tempo, até que enfim desistiu e guardou a arma novamente no cós da calça, debaixo da camiseta exageradamente larga.
– Se Madara não sabe que está aqui então por que veio? — ergueu o rosto para encará-lo, em desafio.
Por algum tempo Shisui apenas observou o rosto lindo detrás da sombra, os traços meigos e delicados.
Era exatamente como fitar o rosto de Sasuke, não havia a menor diferença entre os dois.
– Agradeça por eu ter te encontrado aqui antes deles. Estão procurando você em toda parte.
Piscou em resposta. Fez sinal ao outro para se sentar sobre a cama. O cômodo era tão pequeno que não havia separação entre o que era quarto ou cozinha. Shisui obedeceu prontamente, vendo a figura magricela e pálida retirar o boné devagar, e uma vasta cabeleira negra descer sobre seus ombros como um tecido negro, liso e maleável. Com os cabelos soltos era ainda mais semelhante à Sasuke, mas os traços de Itachi também estavam ali, inegavelmente.
– Você está correndo sério risco de vida — postou os olhos firmemente naquelas íris negras, herdadas dos gene Uchiha — Eu aconselharia a fugir para longe daqui.
– E abandonar meus filhos em um momento crítico como esse? Certamente perdeu seu tempo — cortou-o rispidamente.
– Você é o instrumento perfeito para manipular Sasuke e Itachi — estreitou as sobrancelhas — Sabe que Madara está encurralado e não vai hesitar em usar seu maior trunfo. Você é a mãe deles, Mikoto!
A mulher o encarou de volta, sem parecer se intimidar com as palavras. Colocou as mãos nos bolsos da calça larga e sorriu de lado, maliciosa.
Era exatamente como ver Sasuke em sua arrogância costumeira.
– Acha que eu os abandonaria de novo? Da primeira vez não tive escolha, ou fugia ou teria sido morta. Não pretendo fazer o mesmo outra vez.
– Confesso que por anos achei que você estivesse mesmo morta. Não tivemos contato algum. Por que voltar logo agora? Percebe o perigo a que está se expondo?
Ela desviou o olhar para a mesa pequena, apoiando-se nela. Arrancava devagar as pétalas de uma flor solitária dentro de um copo com água.
– Itachi provavelmente imagina o que aconteceu, mas Sasuke não sabe os reais motivos de eu tê-los largado sozinhos no clã. O mínimo que poderia fazer era cuidar deles de longe. Mas ouvi dizer que a situação de Itachi era crítica, que estava seguindo a um estado irreversível... Eu não pude aguentar e voltei ao país, às escondidas. Precisava vê-lo.
O outro Uchiha assentiu.
– Então já deve saber o que realmente aconteceu.
– O que se espera de alguém como o patriarca. Mas no fundo me deixa feliz saber que meu filho está bem — riu sincera — Mesmo que tenha sofrido esses três anos ele acordou agora, e pode se defender. Não me arrependo de ter voltado se com isso pude saber que ele está bem.
– E pretende fugir de novo? Não seria mais prudente encontrá-los?
– Sasuke me odeia — admitiu com a face impassível, mas seus olhos estavam cinzentos e opacos — Meu pequeno cresceu alimentado com as mentiras que circulam no clã, ele não entenderia. E talvez seja melhor assim.
Shisui não se sentiu no direito de dizer nada, não se achou digno de tal coisa.
A mulher diante de si teve até aquele momento uma vida miserável em nome do amor que sentia pelas duas crianças que largou aos prantos, sozinhas num clã cruel como o Uchiha. Viveu sob a identidade de um homem, abriu mão da feminilidade e da paz, refugiando-se em outro país, usando todo meio ilícito para se comunicar, só para saber que seus filhos estavam bem.
Jamais poderia condená-la a voltar por descobrir que Itachi estava em estado terminal. Isso apenas provava que era uma mãe exemplar e que o amor falava mais alto que sua própria segurança. Mikoto bem sabia que voltar ao país era arriscado demais, mas não pensou duas vezes. Precisava rever Itachi e lhe pedir perdão por tudo que aconteceu. E ansiava rever Sasuke, seu pequeno, birrento e amoroso filho caçula.
– De qualquer modo eu a levarei a um lugar seguro amanhã — ele se levantou — Não saia de casa sob nenhuma hipótese. Madara com certeza já sabe que você está na cidade, mas vou distraí-lo. É o mínimo que posso fazer por você, pelo que fez por mim.
Ela sorriu ternamente.
– Obrigada, Shisui.
– Me agradeça quando estiver longe daqui e segura — abriu uma fresta da janela, os olhos de rapina observando minuciosamente os arredores, para saber se era seguro.
Nenhum sinal anormal foi detectado. Antes que pudesse sair a mão pequena dela cobriu a sua.
– Quer que eu diga algo a eles? — tentou adivinhar o gesto. Mikoto baixou os olhos, um sorriso triste no rosto.
– Apenas continue zelando por eles depois que eu partir. É o bastante para mim.
O outro assentiu, desaparecendo na noite escura, tão ágil que seus passos sequer foram ouvidos.
Ela suspirou e rapidamente fechou a janela. Apenas falar nos filhos fazia a saudade reverberar pelo corpo todo. Adoraria abraçá-los uma vez mais, ouvir suas vozes, conhecer as pessoas que faziam parte de suas vidas. Itachi já estava casado! Adoraria ver as fotos, saber mais sobre o tal rapaz que vivia com ele.
E Sasuke havia crescido tanto! Da última vez que o vira era um bebê ainda. Ele havia se transformado em um homem lindo. Já Itachi herdara a majestade dos Uchiha. Era mais másculo, de maneira que lamentou vê-lo tão apático em uma rápida e perigosa visita ao hospital. Daria qualquer coisa para vê-lo desperto, olhar em seus olhos. Itachi era muito parecido com Fugaku, o homem a quem tanto amou...
Tanto que nunca imaginou que o amor de sua vida pudesse lhe machucar de tal maneira, ou colocar a vida de seus filhos em perigo por uma devoção descabida ao patriarca dos Uchiha.
Não nutria ódio ou rancor de Fugaku, ao contrário. Ele lhe dera Itachi e Sasuke, seus maiores e mais preciosos motivos para viver, a razão para se levantar a cada manhã, mesmo quando a vida parecia sombria e sem perspectiva. Receber uma foto, um vídeo rápido que fosse já a reconfortava. Nunca esqueceria a emoção que sentiu ao assistir pela internet o vídeo de seu caçula impedindo aquele rapazinho loiro de se casar.
Naruto. O nome era tudo que sabia sobre ele. Não podia dizer que tipo de garoto era, ou se estavam juntos ainda. Mas desejava que sim. Quando fitou os olhos preocupados de Sasuke naquele casamento entendeu que ele realmente amava aquele garoto, e secretamente desejou que Naruto o retribuísse de igual ou maior maneira, ainda que tenha se surpreendido pelo filho gostar de garotos. No fundo esse havia sido o motivo de ter sido expulsa do clã. Os "genes defeituosos" que deram ao clã um herdeiro primogênito que obviamente sentia atração pelo mesmo sexo, algo já visível desde menino. Por conta das escolhas de seu filho havia sido banida. Se conformaria em tê-los visto uma última vez antes de tornar a fugir, era mais que suficiente. Se ficasse mais tempo seria usada para controlá-los, não queria fazê-los sofrer mais.
O sinal já conhecido de Shisui novamente soou junto à janela, tirando-a de seus pensamentos. Ele provavelmente voltou porque não era seguro, os homens de Madara estavam fazendo rondas constantes. Preocupada ela abre a janela de uma vez para salvar o jovem moreno, temendo que ele fosse capturado por sua culpa.
Mas seus olhos se arregalaram de espanto ao perceber vários rostos de Uchihas conhecidos de longa data. Nem teve tempo de reagir quando foi apanhada dentro do minúsculo cômodo, a boca tapada, um golpe doloroso que roubou-lhe os sentidos.
Do lado de fora, um pouco distante, Shisui permanecia imóvel no interior do carro, observando a rua através dos vidros escuros, sem esboçar a mínima expressão. No assento à sua frente o Uchiha mais velho lhe sorria.
– Não esperaria menos de você, Shisui. É realmente confiável. Não pensei que a entregaria para mim, não depois do que ela já fez por você.
O mais novo não esboçou a menor reação.
– Se é uma ordem sua não posso recusar senhor patriarca, acima de qualquer coisa. Eu vivo unicamente para servi-lo.
– Será muito bem recompensado por isso — sorriu malicioso — Pergunto-me o que Sasuke fará ao descobrir a verdade sobre sua mãe, ou se terá coragem de me contrariar colocando a vida dela em risco. Se aquele jovem tolo acha que pode me contrariar e divorciar-se de Karin está redondamente enganado.
Continua.
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