Notas iniciais
Olá meus queridos, como estão? Eu demorei bastante, estive em dúvida sobre o que deveria fazer, principalmente com o Daisuke. Quero agradecer de antemão todos os comentários, as mensagens de apoio e incentivo, vocês são incríveis! Espero ter tomado as decisões certas e que gostem desse capítulo. Ele é menos denso que os dois últimos, e tem mais revelações importantes. Adoraria ver as caretas de susto de vocês enquanto estão lendo rss. Quero avisar também que digitei esse capítulo em um aplicativo porque meu note está de birra comigo. Não usei nenhum tipo de corretor de texto então fatalmente esse capítulo terá montes de erros ortográficos e peço a compreensão de todos. Não sei dizer qual o resultado desse capítulo porque ainda me sinto farta, exausta e desmotivada. A ideia de desistir e abandonar a fic não parece distante, pelo contrário. Enquanto tiver energia continuo escrevendo. No momento em que não conseguir mais, eu realmente penso que do modo como as coisas estão agora fica difícil me concentrar. Quero agradecer ao lindo Alan Enid por recomendar esta fic. Obrigada, querido! Espero que goste desse capítulo também. Não copie fanfics! Pense em todo o trabalho que um autor tem para finalizar um texto. Você gostaria que alguém roubasse suas ideias? Certamente não. Então pare de copiar o texto dos outros. Não adianta receber elogios por algo que você não fez, não ganha nada fingindo, os elogios não são para você e sabe disso. Não copie, crie fanfics. Crie algo que pode chamar de seu, receba reconhecimento por seu próprio trabalho. Recados dados, aproveitem o capítulo. Ficou grande, mas já estão acostumados, certo? Boa leitura!

Sasuke balbuciou algo, mas estava embasbacado. Sua cabeça doeu tanto que o cegou um instante. Virou o rosto a Naruto, atordoado, com dificuldade em absorver a informação.
Não podia ser. Ansiava ter ouvido errado, embora soubesse estar certo.
—... Como isso aconteceu? O que o Daisuke tem?
— Um problema grave de circulação, má formação no coração e diversos outros problemas. É tão grave que chega a ser difícil explicar tudo — passou incosncientemente a mão pela barriga avantajada.
— Tentaram algum tipo de medicação? Alguma intervenção de emergência???
— Eu não posso tomar mais nada por conta da Aiko. Ela está sofrendo o efeito das medicações. Me pediram para escolher entre prosseguir tomando ou não. Em partes, pensei muito no Daisuke, mas sabia que pelo bem da Aiko, o mais prudente seria parar de tomá-los.
— Te pediram para decidir algo assim?! Óbvio que quer que os dois vivam!
O rosto angustiado do loiro era vazio e desolado, tomado de pesar e tristeza. Um rosto esgotado de tudo.
— Aiko é forte e saudável, e pode ficar doente se submetida à uma medicação tão forte. É por estar preocupado com ela que não posso fazer isso, não posso mais continuar tomando nada — fechou o punho bem forte, até as unhas machucarem a palma — Mas não quero perder o Daisuke — admitiu arrasado, erguendo os olhos marejados ao antigo namorado-... Se ele não conseguir, se por acaso ele não sobreviver... Eu vou precisar carregá-lo no ventre até a Aiko nascer, não vou poder tirá-lo mesmo se ele... Eu não sou capaz de suportar isso, Sasuke. Não posso nem imaginar!
— Ah, Naruto...- sem pedir licença ou sem perguntar coisa alguma Sasuke diminui a distância com passos rápidos e abraça o loiro, o mais apertado que conseguiu, uma das mãos em seus cabelos, a outra em suas costas.
Naruto respirou fundo para não ceder ao engasgo que estava preso em sua garganta, ainda mais ao sentir o Uchiha suspirar e apertá- lo bem forte. Seu corpo agiu sozinho quando as mãos subiram aos ombros, apertando-o de volta, sentindo o consolo da dor esmagadora que lhe roubava o sono, o apetite e a paz nos últimos dias.
Tão somente ter Sasuke por perto o fazia sentir um imenso alívio, mas também o fazia praguejar mentalmente pela atitude detestável do moreno.
Ele estragara tudo, e por quê? Para quê?
O abraço afrouxou um pouco, porque até então só o que eles conseguiam fazer era esconder o rosto no ombro um do outro, sentir o cheiro e calor que tanta fizera naqueles dias infernais de distância e solidão, sentir o compasso do batimento se tornar um.
A saudade era tanta que os consumia, como perfurar uma ferida aberta e fazê-la tornar a sangrar. Não bastasse a dor da saudade, estavam unidos pela agonia de saber que Daisuke estava sucumbindo lentamente, sem que pudessem fazer nada para impedir isso. Naruto quis afastá-lo e dizer que não fazia diferença tê-lo por perto, mas não pôde.
Sabia que não devia, que Sai os estava observando bem à frente, e que depois de tudo que Sasuke fizera não devia se aproximar. Mas seu corpo agia sozinho. Quando Sasuke se afastou e o encarou as forças sumiram de dentro de Naruto, não o permitindo desviar o olhar, retribuindo igualmente e percebendo apenas do olhar daquele estúpido Uchiha a soma inacreditável de sentimentos que os unia.
Ah, droga... Ainda o amava, mesmo querendo odiá-lo por tudo! Sasuke ainda povoava seus pensamentos, ainda fazia seu coração disparar.
As mãos frias subiram a seu rosto, sobre as marcas nas bochechas, acariciando-as devagar.
—... Eu sinto tanto por tudo isso... — seu olhar tremeu, carinhoso e arrependido — É tudo minha culpa.
Naruto pareceu tornar a si com o mencionar da frase, e enfim o afastou, devagar, olhando em seus olhos.
— Nada disso importa agora.
— Não deveria nem estar aqui de pé, Naruto. Você tem que descansar. Está pálido e seus olhos estão fundos.
Era irritante perceber como ele o conhecia bem, como sabia que não andava dormindo direito.
— Agradeço sua preocupação, mas quero que a destine somente aos gêmeos. Não existe mais nada entre nós.
O Uchiha engoliu em seco.
— Naruto, eu realmente preciso te explicar o que está acontecendo. Embora eu não consiga pensar numa forma segura de fazê-lo...
— Eu já lhe disse que não posso ouvir nada agora. Tudo que vem de você mexe muito comigo.
— Tenho motivos fortes o suficiente, por favor acredite em mim. Estou tentando proteger vocês.
— Não preciso de sua proteção – afirmou com firmeza e então volveu o olhar a Sai, que assistia tudo calado e impassível – Podemos ir?
Sai assentiu com a cabeça, se aproximando devagar e passando o braço sobre o ombro do loiro, encarando profundamente Sasuke. Em réplica o Uchiha lhe destinou um olhar frio e cortante.
Naruto já estava disposto a seguir sem olhar para trás, mas teve a mão segurada pelo Uchiha. A mesma em que um dia estivera sua aliança de compromisso.
— Precisa me dar uma chance de me explicar!
— Você teve sua chance, esqueceu? — continuou de costas, sem se virar — Quando me deixou plantado naquele restaurante.
Isso o calou completamente.
Como dizer toda a verdade à Naruto sem prejudicá-lo ou colocá-lo em perigo? Sem expor o que Madara pretendia fazer à Mikoto, aos gêmeos?
Teve raiva de si mesmo quando recebeu um olhar frio por cima dos ombros. Naruto não quis saber, soltou o braço chacoalhando-o e seguiu seu caminho, sendo acompanhado por Sai. Tudo que Sasuke pôde fazer foi assistir suas costas enquanto se afastava.
A sombra de fragilidade que outrora se estampava no loiro desapareceu por completo. Naruto parecia muito mais maduro, mais velho do que realmente era. Pôde perceber no brilho azul vívido de seus olhos a certeza de um homem adulto, e isso o fez lembrar porque se apaixonou por ele.
Naruto era forte e destemido, nunca desistia e lutava até as últimas consequencias pelo que achava importante. Por mais difícil que fosse, nada o fazia desistir.
Enquanto se afastavam, Sai percebeu o corpo menor junto ao seu enrijecido, o olhar ferido de Naruto lhe dizia muita coisa.
Era odioso perceber como ele ainda amava Sasuke e como todo o seu corpo transmitia isso.
—-
Kushina sentiu um pesar indiscritível ao passar diante do quarto do filho e perceber uma luz acesa. Passava das três da manhã e a julgar pelo rosto sério iluminado pela tela do notebook, as olheiras grandes e acentuadas, Naruto não dormira ainda. Seu coração de mãe doeu, porque imaginava o tamanho do sofrimento dele. Isso a fez seguir até a cozinha e ferver água para fazer café, àquela hora da noite.
Quando a luz do quarto se acendeu Naruto estranhou a mãe lhe estender uma xícara cheia de café com leite.
— Mãe, já devia estar dormindo. Está tarde.
— Devo dizer o mesmo — bebeu um gole de sua própria xícara, berrante com estampa de páscoa e fez um lembrete mental para comprar um novo jogo de xícaras assim que tivesse tempo.
Deu alguns tapinhas na perna do filho que lhe cedeu espaço para sentar na cama.
— O que faz acordado a essa hora?
— Eu perdi o sono totalmente — retrucou, soprando o líquido quente, fechando os olhos quando o vapor subiu agradavelmente ao rosto, dissipando um pouco o cansaço.
A ruiva volveu o olhar à tela acesa do notebook. Diversas abas abertas com títulos sobre saúde na gravidez, compatíveis, complicações gestacionais.
—... Ficar sem dormir não fará bem nem a você e nem aos bebês — advertiu.
Naruto baixou o olhar, apoiando a xícara entre as mãos. A volumosa barriga se estendia redonda, descansando entre seus pés.
— Eu não consigo parar de pensar nisso. Por mais que eu pense, não consigo achar uma solução.
— Sabia que tive complicações quando esperava você? — apoiou o braço atrás das costas, tomando mais café, ignorando o olhar surpreso dele — Você me chutava até me fazer chorar de dor e um belo dia se enfiou debaixo das minhas costelas. Quase morri sem ar e Minato me levou às pressas ao hospital. Quando cheguei lá fizeram milhões de exames, me assustaram de todas as maneiras, dizendo que algo de errado havia acontecido a você.
Volveu então o olhar ao rosto bonito e sério do filho, sorrindo.
— Mas nada aconteceu. Você nasceu sem problemas e hoje é esse moço bonito e saudável que parece muito comigo — brincou, fazendo-o sorrir um pouco, o rosto parecendo mais jovem ao fazer isso.
—... No seu caso não era uma gravidez de risco, e eu não havia parado de me mexer na sua barriga.
— O que quero dizer é que as coisas nem sempre são como dizem. Você está passando toda essa preocupação e cansaço ao Daisuke agora — pousou a mão na barriga enorme, alisando devagar — Precisa comer bem, dormir e descansar.
Ele cobriu a mão pequena com a sua, fazendo pressão num ponto em especial. Ao sentir o chute, Kushina logo soube.
Era Aiko.
— Vê? Ela está nervosa porque quer dormir e você não deixa.
— Adoraria que Daisuke se mexesse assim. Eu seria capaz de relaxar e dormir um pouco.
— O fato dele estar fraco não nos faz desistir, Naruto. Nenhum de nós desistiu dele ainda.
— Tenho medo dele não conseguir. Eu não sei se vou aguentar seguir adiante se ele...
Seu rosto foi erguido por ela.
— Você vai conseguir — disse com o máximo de certeza que tinha dentro dela — Daisuke vai viver, não me importa o que dizem, nós não vamos nos render. E pare de fazer tantas pesquisas, já cuidamos de tudo para você.
Ele pareceu confuso.
— Esperava te contar pela manhã — pousou a xícara quase vazia sobre o móvel ao lado da cama, obrigando-o a fazer o mesmo — Falei com sua avó postiça, afinal ela tem bons contatos. Expliquei o que está acontecendo e ela decidiu levar você para fazer um tratamento específico, em uma clínica longe daqui.
Os olhos azuis piscaram surpresos.
—... Um tratamento? — questionou. Estava cansado, e não apenas fisicamente. Seu psicológico andava destruído há dias, desde que parou de tomar a medicação que poderia salvar a vida de Daisuke. Se permitir ter esperanças era exaustivo.
Kushina assentiu que sim, devagar.
— Seu pai e eu estivemos pesquisando tudo. Você agora precisa de tratamento especializado, para tentar salvar o Dai. Encontramos uma clínica que nos parece segura, especializada em gravidez de compatíveis.
— E aonde fica isso? — o loiro endireitou-se um pouco na cama, completamente interessado.
— Em outro país — iniciou com tom calmo, porque percebeu o loiro engolir forte — Sei que representa um risco bastante elevado, que significa largar sua vida aqui. Mas, desde que possa salvar seu bebê, acho que pode pensar seriamente nisso, querido.
— Como ficou sabendo de uma clínica tão distante? Ainda mais uma especializada?
— Tsunade não nos deu paz o dia todo — rolou os olhos — Ela entrou em contato com todos os colegas de trabalho que conseguiu, garantiu que viajará com você para te auxiliar.
Uma esperança cega crescia no interior do peito do loiro, aquecendo-o. A mera probabilidade mexia com ele, fazia-o pensar que valia à pena tentar.
— Eu posso viajar estando grávido?
— No seu caso, por ser uma gravidez de risco, poderá se estiver acompanhado de um médico. Tsunade é perfeita para isso, ela pode cuidar de você caso alguma coisa aconteça.
— E nesse lugar eles podem curar o Daisuke? Ele tem alguma chance??? — ofegou de antecipação e ela o fez endireitar o corpo.
— É uma chance pequena, Naruto. Mas é tudo que temos agora. Você precisa se preparar seja qual for o resultado disso. O importante agora é ter a certeza de que fez tudo que podia, tudo que estava a seu alcance, para não ter arrependimentos — sustentou um olhar muito firme e seguro. Ele assentiu em resposta.
Ela então pediu algum tempo e deixou o quarto. Quando voltou desdobrava um papel entre as mãos, mostrando-o ao filho.
— Fizemos um orçamento, tendo em vista todo o tratamento que é o mais importante agora.
Tomou o papel entre as mãos, lendo atentamente. Era um panfleto escrito em outro idioma, que dominava muito bem. Conforme percebia as anotações de valores monetários feitos à caneta a mão do loiro cobriu a boca e ele empalideceu ao fitar o valor total. Respirou fundo e passou a mão pelo rosto e cabelos.
Era muito dinheiro. Uma quantia difícil de sequer imaginar. E isso sem contar a hospedagem, as medicações, alimentação, passagens... Era uma quantia que Naruto não dispunha, sequer sabia se algum dia teria em mãos tanto dinheiro.
A angústia se tornou nítida no rosto.
—...Não me importaria em gastar até meu último centavo para tentar salvar o Daisuke, mas não tenho dinheiro suficiente — teve raiva de si mesmo e apertou os tornozelos, totalmente devastado-... Deve haver alguma coisa que eu possa fazer para conseguir algum dinheiro! Algum tipo de trabalho manual que eu possa fazer em casa!
— Você não está em condições sequer de se movimentar sozinho. Não pode descuidar, ainda mais agora. O menor esforço colocará vocês três em perigo.
— É da vida do meu filho que estamos falando! — fitou a mãe intensamente — Eu vou salvá-lo de qualquer jeito!
Ela fez que sim e estendeu um envelope fechado, rechonchudo. Naruto volveu-lhe um olhar confuso.
—... O que é isso? — perguntou receoso, já sabendo do que se tratava.
— Simplesmente aceite — tirou a mão de sobre o envelope, colocando a do filho sobre ele — Esse dinheiro estava no banco, é uma quantia que seu pai e eu juntamos ao longo dos anos para abrir um restaurante, uma tentativa frustrada de começar um negócio de família — sorriu verdadeira — Mas acho que não somos tão bons assim para cozinhar.
Uma lágrima desceu pelo rosto do loiro, seguida de muitas outras conforme os olhos azuis pareciam mais e mais surpresos.
Abrir um restaurante era o sonho de seus pais desde sempre, ouvia-os falar disso desde menino. Eles trabalhavam muito duro para tornar isso realidade. Começaram com uma franquia pequena de comida caseira no interior, mudaram-se para a capital quando souberam da gravidez do filho... O sonho de ter algo próprio, de poder construir algo juntos era o que os movia.
E agora o esforço e sonhos de seus pais estava depositado naquele envelope. Naruto não conseguiu aceitar.
— Eu não posso fazer isso, mãe — negou e fez menção de devolver o envelope, mas Kushina apertou-lhe a mão grande, um brilho lindo nos olhos verdes.
— Este dinheiro foi guardado para nos ajudar a realizar um sonho, Naruto — devagar soltou-lhe a mão, o olhar firme e sem hesitação alguma — Nosso maior sonho agora é ver você se tornar pai, segurar nos braços duas crianças saudáveis, ver você feliz — sorriu como uma raposa — Não consigo pensar em um uso melhor para este dinheiro!
Naruto cobriu os olhos azuis com o braço, seu corpo todo sendo sacudido pelos soluços, as lágrimas rolando e pingando no colchão. Quando ela tocou seu braço ele diminuiu a distância e a abraçou junto a si, o mais forte que a barriga grande e saltada permitiu. Kushina fechou os olhos e o abraçou de volta, sorrindo satisfeita enquanto acariciava as costas para fazê-lo parar de chorar.
—... Vai dar tudo certo, querido — subiu a mão aos cabelos loiros e espetados — Nós estamos aqui com você.
Ele fungou e respirou fundo, desvencilhando o rosto dos fios rubros, tentando se concentrar.
—... Obrigado... — fungou mais forte, passando as mãos pelo rosto para secá-lo — Obrigado, mãe.
Ouviram um som de fungar mais alto e ao virar o rosto em direção à porta perceberam Minato de pé, vestindo só a calça do pijama, segurando sem sucesso o choro.
Naruto lhe sorriu de volta.
—...Obrigado, pai.
O loiro mais velho assentiu, fungando ruidosamente para tentar se controlar.
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Ouviu atentamente todas as explicações e quando finalmente terminou assentiu, olhando distraidamente pela janela.
— Então você vai viajar para outro país?
— Vou tentar um tratamento alternativo, algo que pode salvar a vida do meu bebê — endireitou o corpo dolorido, recostando melhor no travesseiro.
— E pretende abandonar de vez seu trabalho?
— Não tenho outra escolha, Menma. Por isso quero lhe dizer que se esforce, que tente ser contratado em meu lugar. O senhor Sabaaku parece gostar de seu trabalho e você merece por ter trabalhado arduamente.
O moreno ficou sério.
— Agradeço de verdade, mas eu não penso em seguir adiante naquela empresa, Naru.
— E por que não? Meu cargo ficará vago, com algum tempo e esforço você poderá ocupá-lo sem problemas.
— Gaara e eu... — tentou achar as palavras certas -... Nós dois achamos melhor dar um tempo.
O loiro se calou um pouco.
— Sinto muito.
— Parece que as coisas não andam bem pra nós dois — riu sarcástico, como só ele sabia fazer. Não era do tipo que consolava, isso não combinava com ele em absoluto — Tem falado com Sasuke? Ele sabe que você vai viajar?
— Vai saber quando Itachi lhe contar. Creio que o clã Uchiha já saiba que nos separamos. Era o que eles mais queriam.
— Bom, o Sasuke é rico. Pode custear sua viagem facilmente.
— Não quero nada vindo dele — encerrou, sério — Se viajar puder me dar uma chance de salvar o Daisuke, ainda que muito pequena, então eu farei isso. Faço qualquer coisa.
Menma volveu o olhar ao ventre do loiro.
— Você não pode viajar sozinho. Pode desmaiar a qualquer minuto, ter dores ou antecipar o parto.
— Vovó Tsunade vai viajar comigo — alisou o ventre, carinhosamente — Além disso sou fluente, estarei em uma clínica de tratamento específico para compatíveis, vou conseguir me virar.
— Viajar não é tão simples, Naru. E você não estará a passeio, é algo importante que vai fazer no exterior. A comida é diferente, o clima, o fuso horário, a cultura. Até o ar parece outro! Não vai ser fácil — dizia com a experiência de quem viajou para estudar em uma república, falando quase nada no idioma local, se virando para arranjar emprego, para compreender as matérias da universidade.
Se havia alguém que tinha propriedade para falar era Menma.
— Sei de tudo isso, mas estou certo que darei um jeito — sorriu confiante.
Menma fitou aquele sorriso resplandecente, que acendia o sol num dia escuro e chuvoso e sorriu em resposta, quase automático. Era impossível não se contagiar.
— Pode até fazer ideia de como seja, mas sou eu que vou mostrar tudo na íntegra pra você — piscou um olho, sapeca.
— Não — negou imediatamente — Este é um problema que devo resolver sozinho. Não vou pedir que me acompanhe.
— E nem precisa, porque estou dizendo que vou com você e nada do que disser me fará mudar de ideia – riu com a cabeça pendida para o lado — Ninguém é tão bom em sobreviver lá fora quanto eu. Estará nas mãos de um expert!
— Não pode largar tudo aqui para viajar comigo.
— Eu não tenho nada que me segure neste lugar, Naruto — disse muito sério, porém sereno — Para mim família é o que existe de mais importante na vida. Sempre pude contar com você, ou com os tios quando estive encrencado — referia-se aos zelosos pais do loiro — Tenho a chance de agradecer agora, de fazer alguma coisa para ser um bom tio. Acho justo. Além disso eu morei anos no exterior, me formei lá. Nada impede de arranjar uma boa oportunidade de emprego. Na época eu voltei porque estava preocupado com minha mãe, com o fato dela se sentir sozinha, mas a criatura só vive passeando! — riu alto. O loiro por sua vez não pareceu muito convencido.
— Mas...
— Preciso ficar longe, tentar esquecer o que Gaara está fazendo comigo, me trocando pela ex que nem o ama de verdade. Sei que consigo um trampo com facilidade, é perfeito pra juntar uma grana. Se der certo fico por lá, e se não der ao menos volto com um pé de meia – sorriu abertamente, o sorriso costumeiro de raposa.
— Eu nem sei o que dizer, Menma.
— Que tal: sua presença é boa demais para ser verdade, estou lisonjeado que vá comigo! Você é o melhor, Menma! – sorriu sacana.
— Acho que não chega a tanto – riu também – Mas é algo assim. Muito obrigado, Menma.
—-
Ficou um tempo parado e com uma expressão abobada no rosto, porque a surpresa roubou uma reação decente.
Esperava revê-lo, mas não em uma situação como aquela.
—... O que disse? — Gaara questionou, mesmo que tivesse medo de ouvir novamente aquela frase.
À sua frente, Menma não hesitava sequer uma vez. Os ombros rígidos, o olhar intimidador. Ele parecia realmente bonito com aqueles cabelos rebeldes se misturando ao cachecol azul, quase da cor de seus olhos, repousando sobre o pulôver preto. Roupas escuras o deixavam mais alto e esguio, lhe caíam maravilhosamente bem na visão do ruivo.
Não que ficasse reparando no que Menma vestia, que absurdo! Era apenas senso de moda, nada demais.
No entanto aquela não era uma conversa comum, e nem havia o sorriso de raposo sapecando nos lábios. Menma estava muito sério, muito rude e formal. Irreconhecível.
Ele tornou a dizer em alto e bom som.
— Estou pedindo demissão – frisou bem.
A ideia pareceu horrível pela segunda vez. Gaara fingiu afastar as folhas de cima de sua mesa de trabalho para esconder que estava tremendo de nervoso. Sentou sobre o móvel, os olhos verdes rolando para fitar os azuis, a testa muito franzida até sua tatuagem ficar disforme.
Estava visivelmente angustiado.
— Mas... Não há razão para você se desligar da empresa.
— Tenho uma excelente razão — cruzou os braços e Gaara acompanhou o movimento do tecido macio deslizar pelos braços. Recordou-se de como eram fortes, e do quão bom era ser apertado dentro deles...
Tentou se concentrar, mas ao voltar os olhos ao moreno sua boca tremelicou aberta, sem nada inteligente lhe vir à cabeça para dizer. Sentiu o rosto arder enquanto o fitava como um completo idiota, totalmente absorto.
Menma era provavelmente a única pessoa no mundo que lhe roubava uma reação assim, que tirava seu raciocínio rápido e o impedia de seguir sua razão completamente.
Se pudesse implorar para que ele voltasse a lhe sorrir como antes provavelmente o faria. Era o fim do poço...
—... E posso saber que motivo tão importante é esse? — beliscava a madeira lascada no canto da mesa, como desculpa para não encará-lo, porque não estava conseguindo se controlar.
O Uzumaki por sua vez não podia deixar de notar aqueles olhos verde tão claros embaçarem. A maneira melancólica como fitava a mesa, ou como seus pés balançavam no ar o faziam parecer uma pintura em uma tela. Gaara era todo como uma pintura inacabada, ao qual se poderia tingir e manchar com as cores que quisesse.
Desviou o olhar, não era o momento de fraquejar. Prosseguiu em sua pose inabalável.
— Preciso resolver algumas questões pessoais e familiares.
— Então não precisa pedir demissão por isso, pode pegar alguns dias de folga — começou a se sentir desesperado.
"Por favor não vá embora..."- repetia mentalmente diversas vezes, bem depressa.
Menma continuava a encará-lo, muito sério.
— Não, eu estou decidido. Quero me mudar e recomeçar tudo do zero, e esta parece ser a oportunidade perfeita. Vou para outro país.
O coração do Sabaaku falhou e precisou segurar o paletó sobre ele porque uma fisgada o fez gemer de dor. Estava tão surpreso, tão chocado, que não conseguiu argumentar por um longo tempo.
—...Outro país??? – indagou confuso – Mas, por quê?
— Não tenho de lhe dar explicações.
— Mas, Menma..
— Nada mais me mantém preso a este lugar, Gaara. Por isso vou embora.
— Não pode ir embora! – engasgou, a tristeza a ponto de dilacerá-lo – Não pode ir embora logo agora, Menma!
— E por que não? – sua expressão ainda estava fechada e irritada, mas seus olhos brilharam e o coração batia esperançoso, ainda que se negasse a demonstrar isso.
Queria ouvir a resposta dele, era o que definiria sua decisão. Claro que estava seguro sobre viajar com Naruto, ele precisava mais do que tudo de ajuda. Mas, sobre voltar ou não, tudo dependia unicamente da resposta daquele ruivo estúpido e imbecil.
Porque mesmo irritado, mesmo magoado e ferido, Menma não conseguia ficar indiferente ao olhar de súplica dele. Ainda tinha vontade de apertá-lo nos braços até o fazer sentir que ficaria tudo bem.
— Não pode ir porque... Eu preciso de você – baixou o olhar, muito envergonhado.
— Precisa de mim? – arqueou a sobrancelha – Você não precisa de ninguém. Só sabe viver para você mesmo, Gaara.
— Não é verdade! Quero estar com você!
— Ah, jura? – desdenhou irritado – Se queria tanto assim ficar comigo então porque escolheu a Matsuri em meu lugar? Não será com ela que quer realmente ficar?
— Não tem nada a ver com ela! Com você é diferente!
— Por que dormimos juntos? Isso torna tudo diferente?
— Não, mas que droga, Menma! Estou tentando lhe dizer que quero ficar com você!
— Eu te dei uma chance, te abri espaço no meu coração para entrar e ficar se quisesse, e você mesmo destruiu tudo.
— Eu não queria... Eu só me sinto confuso.
— Eu nunca estive confuso sobre amar você, Gaara — admitiu com a voz muito calma e suave.
Gaara abriu tantos os olhos que eles arderam ao sentir o ar secá-los. Seu corpo inteiro arrepiou e não parecia o suficiente para conter a emoção que se instalou nele.
Nunca achou que algum dia alguém pudesse vir a amá-lo. Nem mesmo estando com Matsuri, porque sentia que a jovem não o amava da mesma forma. Pareciam formas distintas de amar. Sempre esteve convicto de que o amor não chegaria para ele, que jamais bateria à sua porta, que um romance feliz não lhe apetecia, chegando a causar ódio ver os casais felizes à sua volta.
E ouvir isso de Menma... Seus olhos chegaram a brilhar.
Ele o amava... Era muito mais do que poderia desejar!
O Uzumaki não desviou o olhar, e isso esquentou ainda mais o rosto já muito vermelho do Sabaaku.
— ... Mesmo agora... — parou um pouco, tentando achar as palavras certas -... Mesmo agora o sentimento ainda é o mesmo? Você... Ainda consegue me amar?
— Eu lhe disse que nunca estive confuso. Sei que ainda te amo, Gaara — tornou a afirmar, sem hesitação. Sua sinceridade e segurança eram absolutas.
—... Não sei o que pensar... Isso me deixa tão feliz — soltou o ar pela boca — Eu realmente poderia me acostumar com isso, poderia aprender a conviver com esse sentimento.
— Desculpe, mas não tenho tanto tempo livre assim para esperar você tomar uma decisão — cortou-o.
Era muito tolo por achar que ganharia uma resposta à altura do que esperava. Gaara não amava ninguém, só a si próprio. Largou seu pedido de demissão por escrito sobre a mesa e deu-lhe as costas.
Estava cansado de sofrer por quem não o merecia, que brincava com seus sentimentos.
Gaara sentiu o desespero tomar conta.
Estava perdendo-o! Ele iria embora para outro país! Talvez nunca mais se vissem.
E isso o enchia de medo e pesar, de uma angústia tão grande que era difícil até mesmo pensar!
— Eu... – gaguejou, o rosto quente, as pernas moles . Segurou a barra do pulôver, recebendo um olhar frio em resposta- Eu ...
Menma delicadamente soltou as mãos que seguravam sua blusa, parecendo realmente entristecido.
— Não quero saber como se sente, Gaara. Não mais.
Foi um golpe doloroso no ruivo, tanto que nem soube o que fazer. A dor explodiu no peito em forma de longos rastros que escorreram pelo rosto.
—... Menma... Por favor.. – nunca achou que imploraria a quem quer que fosse – Por favor, não me deixe...
O Uzumaki engoliu forte, franzindo bem a testa, tentando manter a pose austera. Teve raiva de si mesmo quando ergueu as mãos e devagar passou os polegares pelas pálpebras fechadas dele, para limpar as lágrimas que escorriam.
— Sabe que não gosto de te ver chorar – o calor da pele o fez estremecer por um momento. Apenas um contato tão pequeno como aquele já mexia muito consigo.
Gaara o olhou desesperado, segurando a mão em seu rosto, o coração disparado, os olhos postos nele.
Uma leva de sentimentos inexplicáveis explodiu, deixando-o zonzo.
— Você me diz essas coisas, mas fez sua escolha, não é? Você escolheu a Matsuri.
— Eu não sei o que devo fazer. Estou com ela, mas só penso em você! Não consigo sequer me aproximar dela sem lembrar de você, do seu cheiro, do seu calor. Eu não te tiro da cabeça, Menma! E isso me enche de medo e angústia! Quero beijá-lo, abraçá-lo, quero que sorria de novo para mim porque não sei ser feliz com você me odiando assim...
— Isso não muda o fato de ter me traído e brincado com meus sentimentos, Gaara.
— Eu sei! E sinto muito!
— Já chega para mim – deu as costas definitivamente – Fique com seu joguinho de quem gosta mais. Eu vou seguir minha vida, e você já não faz parte dela.
Com o coração feito em pedaços o Sabaaku assistiu-o se afastar, sem poder impedi-lo de nenhuma maneira.
—-
Itachi fitou o irmão com um misto de desânimo e raiva. Quando queria, Sasuke podia ser tão teimoso que beirava o absurdo.
Este por sua vez definitivamente não esperava o irmão ali, batendo à porta de seu apartamento. Não era comum de Itachi, então soube que ele estava realmente preocupado.
E não seria diferente, não depois de receber um comunicado da família Uchiha. Sasuke sabia que era só questão de tempo até ele o procurar. Para ser franco a ideia de enfrentá-lo era desgastante. Nunca foi capaz de mentir à Itachi, fingir ou enrolá-lo.
E não seria agora que aprenderia a fazê-lo.
—... Karin está em casa. Não é prudente conversamos aqui – tentou a todo custo não prolongar aquele assunto.
Itachi por sua vez cruzou os braços, irredutível. O olhar severo no rosto adulto e bonito desarmava Sasuke.
— Não me importo com o que ela pensa. Quero saber o que está acontecendo com você, e que história sem nexo é essa de renovar seu contrato de casamento.
— Itachi, por favor...
— Da primeira vez eu não pude impedir. Estava desacordado, sei que fez isso por mim. Porém tudo é diferente agora, Sasuke. Não vou permitir que continue sofrendo ao lado de alguém como Karin. Você já ama alguém, e sabe disso melhor que eu.
O mais novo pareceu realmente esgotado ao suspirar. Percebeu que não seria capaz de postergar a discussão. Olhou atentamente o interior do apartamento antes de fechar a porta, para ter certeza de que Karin não ouviria nada. Pediu que o seguisse até a área comum do prédio, perto da varanda, onde poderiam conversar melhor.
—... Não posso explicar nada agora – iniciou com um tom calmo e cansado.
— E posso saber por que não?
— Você sequer deveria estar aqui. Sabe que não pode perambular sozinho.
— Sasori está me esperando no térreo. Não pude esperar até nos encontrarmos, não depois de receber uma carta do clã dizendo que você quer renovar o contrato de casamento com Karin.
— Por favor Itachi, volte para casa, depois lidamos com essa situação. Eu não posso arriscar que Karin ouça nada agora.
— Onde está o Naruto?
Virou o olhar.
—... Não sei.
— Como não sabe?
— Nós dois... Terminamos. Ele não quer mais ficar comigo.
Itachi não pareceu surpreso, antes fitou intensamente o rosto desolado do irmão caçula.
— É óbvio que Madara está te manipulando. Só gostaria de saber com quais artifícios.
— Ninguém está me manipulando.
— E decidiu voltar a viver com Karin de livre vontade?
Desviou o olhar.
Não havia o que explicar. Não quando havia voltado a morar com a mulher que quase matou o homem diante de si, que tentou fazer Naruto abortar. Karin havia deixado um rastro de destruição na vida de Sasuke e das pessoas que o rodeavam. Foi egoísta o bastante para causar um imenso sofrimento em todos, sem nem ao menos se importar.
—... É uma situação da qual não posso escapar.
— E pretende passar por isso sozinho? Desde quando deixou de confiar em mim?
— Nunca vou deixar de confiar em você, Itachi – soou completamente sincero, os olhos fixos – Eu só estou tentando te proteger.
— Mentindo para mim do mesmo modo que está fazendo com Naruto? Essa é sua ideia de proteção?
Itachi sabia tudo sobre ele. Era impossível mentir ou ocultar fatos, ele o lia e traduzia por inteiro. Mesmo o menor gesto era perceptível.
Sabia que não poderia enganá-lo. Apenas não queria causar uma preocupação tão grande no irmão recém desperto do coma.
— Pode me contar qualquer coisa. Sabe disso.
A raiva era nítida no rosto do menor. Raiva por não poder fazer nada para mudar a situação terrível em que se encontrava. Por não poder ajudar Naruto e os gêmeos, por expor o irmão ainda não recuperado a tal preocupação.
Suspirou, derrotado.
—... É Mikoto – admitiu finalmente — Ela é a razão de eu ter tomado todas essas decisões.
Por um instante Itachi ficou parado, surpreso, mas sem se abalar e tentando entender com calma.
— O que ela tem a ver com tudo isso? Nem sabemos onde está.
— Ela voltou ao país recentemente, e foi encontrada por Madara — recostou de leve a cabeça na parede. Seus olhos encararam os do mais velho com uma sombra de rancor.
— Você sabia da verdade, não é? Que nossa mã... – corrigiu, rapidamente -... Que Mikoto não é a criminosa que todos pensam. E que fugiu por minha culpa, para salvar minha vida.
Foi a vez de Itachi suspirar.
— Soube quando fiquei mais velho. Minha memória ainda é vaga, então não sei em qual momento descobri toda a verdade, nem por que escondi isso de você. Imagino que para não te machucar.
— Seja como for Mikoto está sofrendo nas mãos de Madara agora. Ele ameaçou matá-la se eu não me afastasse de Naruto. Não tive escolha senão magoá-lo para se distanciar de mim. Nem posso imaginar que alguma coisa possa acontecer a eles.
— E por que não contou toda a verdade?
— Naruto está em momento complicado. Ele se preocuparia demais. Já o vi sofrer nas mãos do clã uma vez, não podia o expor novamente ao perigo, nem expor os gêmeos. Daisuke já está passando por um momento difícil o bastante estando tão doente.
O coração de Itachi doeu com isso
— Doente?
—Acho que não é o termo correto, é muito mais grave que isso — respirava mais depressa — Daisuke foi desenganado pelos médicos – passou a mão pela franja, erguendo-a de nervoso – Creio que por reflexo de minha estupidez.
— E como Naruto está?
— Não falei mais com ele.
O sangue do mais velho ferveu nas veias.
— Não pode deixar as coisas assim, ele precisa saber o que está acontecendo!
Sasuke negou com a cabeça.
— Não posso preocupá-lo, não agora. Preciso que ele fique calmo, para tentar salvar Daisuke enquanto eu tento resolver meus problemas e salvar Mikoto. Por favor, Itachi... Cuide de Naruto, sei que ele se afeiçoou à Sasori e à você. Preciso que cuidem dele e dos gêmeos, porque não posso fazer isso agora.
O mais velho assentiu, compreendendo seus motivos.
— E o que pretende fazer, Sasuke? Karin vai pressioná-lo até esgotar suas forças.
—... Se dar um filho a ela puder salvar os gêmeos, Naruto e minha mãe, eu farei isso. Independente de como me sinto.
— Isso vai colocá-lo num problema ainda maior. Entendo que esteja preocupado com o estado de Naruto, mas não pode ocultar dele a verdade. Tenho certeza que ele está sofrendo muito com tudo isso.
— Naruto já sofreu demais por causa dos Uchiha. Ele merece ser feliz, é uma pessoa incrível. Admiro sua força e vitalidade. Não sei lidar tão bem com meus problemas como ele. Tudo que quero é que ele esteja bem, mesmo que não seja comigo.
Um aperto se formou no peito de Itachi ao fitar o rosto pálido e desesperançado do irmão menor. Se lhe contassem há alguns anos atrás que ele amaria tanto alguém, riria e duvidaria certamente. Sasuke nunca se apegava a ninguém, não se envolvia, não fazia gentilezas e detestava qualquer tipo de romance.
Nunca esqueceria a primeira vez que o viu olhar para Naruto. Os olhos negros sempre opacos e sem vida pareciam brilhar cheios de vida. Ele parecia sereno e zeloso, calmo, satisfeito. Nunca imaginou que veria nele tal tipo de expressão.
Naruto despertava o que havia de melhor em Sasuke, dissipava o ódio e rancor que se alojou nele por conta do clã Uchiha. Era algo tão intenso que secretamente agradeceu ao loiro com bigodes de raposa que salvou seu irmão da escuridão de seu próprio coração, da solidão em que mergulhou, e da qual não conseguia escapar.
— Sasuke... — baixou o tom ao timbre usual — Você ama o Naruto de verdade. Não o imagino sendo feliz ao lado de outra pessoa.
— Está certo — pareceu muito sério — Eu realmente o amo, e por isso mesmo não suporto a ideia de vê-lo sofrer.
— E quanto a perdê-lo, Sasuke? Não acha que essa é uma dor grande demais para carregar?
—... Já estava disposto a assumir as consequências, desde o princípio.
— Não faça nada impensado. Você não pode obedecer Madara para sempre, nem viver da maneira que ele ordena. E mais importante: você não ama Karin. Dar-lhe um filho será uma estupidez sem precedentes.
— Sei de tudo isso, Itachi. Mas, do modo como tudo está acontecendo eu não tenho muitas opções.
— Não está sozinho. Pode contar comigo.
Assentiu que sim. Itachi então segurou-lhe a nuca e colou a testa à dele, encarando-o com toda a firmeza e segurança que podia passar. Sasuke normalmente não se movia ou respondia, mas apertou as mãos nos braços dele, para deslizá-las para as costas, o rosto se escondendo na curva de seu pescoço, para que não o visse fraquejar. Fechou os olhos bem forte, sobretudo ao se sentir apertado, a mão grande passando pelas costas. Itachi tinha a capacidade de acalmá-lo de qualquer coisa.
— Vamos dar um jeito nisso, fique tranquilo.
— Eu não sei mais o que deveria fazer, Itachi. Estou tentando fazer o que acho certo, mas minhas decisões só estão trazendo dor e sofrimento aos que estão à minha volta, e à mim mesmo — admitiu.
Itachi ergueu um pouco o rosto e beijou o topo da cabeça do irmão caçula, bem no meio onde os fios começavam a espetar para trás. Sasuke ainda parecia a criança risonha que carregava nos braços pela mansão Uchiha, a que vinha correndo e chorando quando se machucava, que pedia colo quando se sentia sozinho. Ainda era imaturo, dependente, amava demais e por conta disso sofria intensamente.
Sorriu e ergueu-lhe o rosto, colocando a franja negra detrás da orelha com os dedos, os fios teimosos escorregando e voltando para a frente das bochechas.
— Sabe que pode me procurar sempre que precisar, Sasuke. Não tem que passar por isso sozinho, esse sofrimento todo vai te enlouquecer. Deixe que cuidemos de Naruto, e vamos pensar num modo de resgatar nossa mãe — sorriu, era estranho referir a ela assim. Durante anos a chamaram pelo nome, não havia vínculo algum.
—... Não posso perder mais ninguém, eu não suportaria. Já me bastou o que te aconteceu, Itachi. Eu achei que nunca fosse acordar.
— Estou bem agora, não é? — deu-lhe um peteleco no meio da testa, o costumeiro sorriso maroto nos lábios – Creio que o que o patriarca quer é nos manter num impasse. Garanto que conseguiremos resgatar nossa mãe daquele lugar. E sei que poderá se entender com Naruto muito em breve.
Sasuke cobriu o local do peteleco com uma das mãos, fitando o chão.
—... Acredito em você, Itachi. Obrigado.
— Há apenas uma coisa que não se encaixa em toda a descrição. Se Mikoto sabia que estava sendo procurada, que seu destino era a morte caso retornasse algum dia, então por que ela voltou ao país depois de tantos anos desaparecida? O que a fez mudar de ideia e se expor ao perigo?
Sasuke expirou bem forte e pensou muito bem antes de responder.
—... Ela achou que você estivesse em estado de coma irreversível. Todos nós achávamos que voce fosse nos deixar. E ela quis se despedir antes disso acontecer.
Ao encará-lo, teve vontade de o acolher nos braços e consolá-lo como ele fizera antes.
Porque Itachi pareceu destruído com isso.
—-
Aguardava em frente ao prédio de trabalho. Chocvia intensamente, um gotejar rápido e gelado.
Nagato aguardava , sendo que normalmente não era muito paciente e não gostava de esperar. Mas também não gostava de se mostrar irritadiço. Era tão calmo como um monge, pouquíssimas coisas o tiravam do sério ou mudavam a usual inexpressão facial.
Como desculpa, decidiu esperar do lado de fora, vigiando o caminho da estação. Talvez assim o visse passar por ali. Era uma grande probabilidade, nem fazia ideia de que o local de seu novo emprego fosse próximo ao local de trabalho do loiro.
Desde o seu reencontro com Deidara não o tirava da cabeça. Sentia como se tivesse voltado aos tempos de moleque, suspirando de amores por alguém.
Estava novamente apaixonado por ele. Bem, a verdade é nunca o havia esquecido. Os anos de distância somente serviram para aumentar o sentimento que tinha por ele. Talvez por conta disso, Nagato nunca se casou, nunca conseguiu se envolver num relacionamento sério. Dentro dele latejava uma incerteza, a dúvida do motivo que levou Deidara a se afastar e odiá-lo, a incerteza de saber o que teria acontecido se eles tivessem se juntado, se tivessem namorado, se passassem a morar juntos... A dúvida lhe perseguiu ao longo da vida, estampando-se nos relacionamentos fracassados.
Nagato amava Deidara desde sempre, e achava que não amaria outra pessoa além dele. Achava que talvez morreria sozinho por não conseguir gostar de mais ninguém. Achou que jamais o veria de novo.
Mas, a vida lhe presenteou com uma nova chance. Não apenas reencontrou o loiro, mas percebeu que, de certa forma, podia ter esperanças. Deidara não lhe odiava tanto quanto suas palavras diziam. No fundo, dentro daqueles maravilhosos olhos de cores diferentes, soube que tinha uma chance, e que valeria à pena lutar por isso.
Aproximava-se do horário de saída dos professores da universidade estadual, próxima dali. Soube porque os alunos enchiam as ruas, conversando alto na volta para casa.
Ansiava olhar aqueles olhos de novo, ouvir a voz grave e cheia de si. Deidara era egocêntrico, cheio de vitalidade e fúria. Uma pessoa fascinante.
Enquanto aguardava a pessoa com quem devia se encontrar, Nagato colocou as mãos nos bolsos, o vento gelado agitando os cabelos rubros pelos ombros, os olhos purpúreos e de íris espiraladas fitavam com interesse as pessoas que transitavam pelas ruas, na esperança de encontrá-lo.
Próximo dali, certo loiro resmungou e praguejou, levando as mãos às orelhas.
— Minhas orelhas estão queimando! — virou o rosto ao amigo de infância — Alguém está falando mal de mim!
— Isso é bobagem. Deve ser por conta de todo esse frio – Sasori o cortou de imediato, resmungando com um imenso mau-humor. Detestava o frio que o obrigava a vestir muitas blusas, um grande casaco, botas e continuava com frio! Teve que ouvir de seus alunos que estava uma gracinha, tão pequeno e cheio de roupas de frio que parecia um estudante ginasial.
Que ódio. Quanta desvantagem em ser baixo.
Fitou irritado o amigo loiro, longilíneo e elegante e este piscou depressa, sem entender.
— Que foi?
— Que raiva de você, Deidara — torceu o bico observando o casaco cheio de estilo, em cinza grafite que se estendia até os joelhos, as calças escuras, as botas , o longo cachecol e a touca que contrastava tão malditamente perfeita com os fios dourados que balançavam pelo ar.
Ele estava lindo, que droga! Uma criatura feita para o frio do inverno!
Sasori ao contrário parecia um bolo de cobertas, cheio de blusas e ainda sentindo um frio imenso, o nariz vermelho e com coriza.
— O que eu fiz, Danna??? — perguntou desesperado — Eu nem lembro de ter te irritado dessa vez.
— Não está com frio?
— Que nada. Eu a-do-ro o frio! As pessoas ficam mais elegantes, perfumadas, tem toda essa aura romântica!
— Sorte sua... Porque eu detesto — espirrou alto, assoando o nariz em um lenço de papel e descartando-o na lixeira mais próxima, fazendo o loiro rir e dar tapinhas em sua cabeça, aumentando ameaçadoramente a raiva do ruivo.
— Agora voltando ao meu assunto... Estão falando mal de mim! Estou certo disso! — suspirou longamente — É nisso que dá ser essa beldade em forma de gente! Ficam falando de mim sem parar.
Sasori nem retrucou porque sabia ser inútil. Subiu mais o cachecol até que somente seus olhos ficaram visíveis para fora da lã. Andavam lado a lado, o ruído dos pingos batendo na cobertura das lojas, o som não lhe permitindo ouvir direito a conversa do amigo, o que em partes era um alívio porque o loiro falava demais!
Ao se aproximarem de determinado prédio o loiro se calou, porque as lembranças o invadiram.
Foi para aquele lugar que correu da chuva, ao lado de Nagato.
A lembrança o envolveu como se um calor imenso saltasse de seu peito e fluísse pelo corpo inteiro. Só o fato de se lembrar de como ficou próximo do ruivo, de como o rosto dele estava sério, só isso fazia seu corpo eriçar desejoso, o coração bater muito rápido.
Aquele bastardo era tão lindo, que injustiça. Sentiu o rosto esquentar, e sentiu muita raiva disso.
Quase cedeu, quase o beijou... E tinha certeza de que se fizesse isso seria o fim, não se contentaria. Sempre imaginou o que teria acontecido se Nagato não houvesse ferido seu coração de adolescente tolo, como teria sido se tivessem ficado juntos.
Balançou a cabeça. Que besteira! Eram adultos agora. Era provável que Nagato já tivesse até mesmo se casado, afinal um homem de 33 anos solteiro é muito improvável.
E somente pensar nisso fez um aperto tão grande machucar seu coração que prendeu o ar, com verdadeira vontade de chorar.
Distraidamente volveu o olhar ao melhor amigo, aquele bolo de blusas de frio.
Riu de lado. Sasori sim tivera a maior sorte do mundo, vivia um amor intenso, que mesmo com a grande soma de problemas sobrevivia muito bem.
Devia ser realmente bom ser correspondido... Imaginava se algum dia encontraria alguém que gostasse dele pelo que verdadeiramente é, alguém para fazer coisas bobas como passear, assistir filme num dia frio, trocar presentes... Seus relacionamentos até então foram um fracasso total!
Disposto a não pensar mais nisso para não estragar os ânimos, virou o olhar casualmente ao portão de entrada, já diante do prédio em que sabia que Nagato trabalhava...
E então seu corpo foi acometido por um calafrio, não provocado por causa do tempo gelado.
Sasori percebeu o loiro enrijecer o corpo e arregalar os olhos imensos bicolores, nitidamente muito nervoso.
— Que foi? Por que ficou assim de repent...?- não concluiu, porque percebeu de quem se tratava e foi tomado de igual surpresa ao fitar Nagato parado debaixo do toldo.
Claro que lembrava dele, era impossível esquecer. Tremeu mais forte e apertou a mão no braço do loiro, fazendo Deidara despertar e imediatamente olhar para ele.
Era um sinal antigo, Sasori não era bom em lidar com seus traumas, se fechava neles e ficava completamente sem reação.
Sasori tinha receio que o irmão de Nagato estivesse por perto, não queria vê-lo! Não queria lembrar que quase cedeu ao impulso de seu corpo por conta da saudade que sentia de Itachi, que quase se deitou com ele, mesmo tendo sido traído no passado.
—... Deidara...
O loiro entendeu de imediato e o puxou, fazendo menção de desviar do caminho ou se apressar para que não tivessem que cumprimentar o ruivo.
Mas, Nagato os encarou fixamente e saiu debaixo do toldo do portão de entrada, desviando das pessoas que seguiam apressadas, desviando dos guarda chuvas de algumas delas, sem se incomodar com a garoa forte que caía sem parar. Não se deteve até que estivesse diante dos dois.
Fitou o baixinho ruivo e imediatamente lembrou dele, afinal foi namorado de seu irmão por um bom tempo. Este imediatamente desviou o olhar parecendo completamente desconcertado e envergonhado.
— Olá, Sasori. Há anos que não te vejo. Como tem passado? – pareceu simpático, um sorriso calmo no rosto.
—... Bem – respondeu em tom baixo.
Em seguida o olhar se voltou inteiramente ao loiro surpreso diante de si.
—... É bom te ver de novo, Deidara.
Ele quis retrucar, até fez cara de raiva, virando o rosto por impulso para que a franja camuflasse seus olhos, e também o rosto muito vermelho.
— Sei... — resmungou, sem saber direito o que fazer ou pensar. Estava tão nervoso!
— Quer carona até em casa?
— Não — respondeu ríspido e achou por bem levar Sasori dali antes que o irmão idiota de Nagato decidisse aparecer e causar ainda mais problemas...
Tarde demais! A voz grave soou detrás deles, vinda da direção do portão principal. Pain veio caminhando em meio à chuva, os coturnos batendo no chão e respingando água para os lados. O rosto baixo para fugir da garoa o impedia ver com quem seu irmão mais velho conversava.
— Merda, Nagato! Falei para me esperar debaixo da cobertura! – resmungou se abrigando debaixo da cobertura e só então levantou o rosto, dando de cara com o irmão. Ao lado deste estava aquele loiro escandaloso e maldito que lhe dera um soco.
E claro, a pessoa que roubou toda a sua atenção.
Sasori.
Ao ter os olhos vidrados de Pain sobre si, Sasori sentiu-se a pior pessoa do mundo inteiro. A culpa o envolveu desde o âmago e sentiu como se um dia tivesse de fato traído Itachi.
Seu marido era a pessoa mais doce e maravilhosa do mundo inteiro. Nada justificativa o que quase fizera com Pain. Nem mesmo o fato de Itachi haver sido desenganado lhe livrava do remorso de ter desejado o ex, de quase ter se deitado com ele. Sentiu-se sujo só de pensar nisso, só de lembrar que o beijou.
Sentiu vergonha de si mesmo e culpa pelo que aconteceu. Achou até mesmo que era sua a culpa por quase ter sido violentado por Pain. Sentiu que tudo era por sua causa, por não ter resistido, por não ter recusado antes, pela maneira como se vestia.
O pesar era tanto que o sufocava, cegando-o. Esqueceu por completo que, ainda que houvesse demonstrado interesse, nada dava direito a Pain de forçar nada, de usar de força bruta para conseguir o que queria.
Nada dá a ninguém o direito de violentar outra pessoa. Roupas não são um convite, sorrisos não são brechas.
Sasori sentiu os olhos arderem de raiva e vergonha, a violência das mãos nojentas de Pain percorrendo seu corpo revivida na mente, deixando-o imóvel.
Pain por sua vez estava ocupado demais em seu fascínio doentio, desejando cada pedaço do corpo que conhecia tão bem e que se escondia debaixo daquelas roupas de frio. Só o fato de ver Sasori já o deixava quente de excitação.
— Não esperava te rever tão cedo — aproximou-se e esticou a mão para tocar o rosto do ruivo. Deidara já ia intervir, mas para sua surpresa Sasori socou a mão que vinha em sua direção, rude e com força. Suas íris ferviam de raiva.
— Não toque em mim!
Pain riu, sacudindo a mão porque o golpe doera.
— Que tipo de recepção é essa? Não é assim que costumava aparecer diante de mim.
— Não pretendo cometer o mesmo erro de novo – estreitou os olhos.
— Mesmo? Pois pode vir matar a saudade que sente do seu marido moribundo nos meus braços quando quiser — esticou bem os braços, simulando a recepção de um abraço. Sasori não se moveu, a raiva borbulhando dentro de si.
— Você não é nem metade do homem que Itachi é – ralhou de volta – E não preciso de um consolo medíocre feito você. Itachi está comigo, despertou do coma, contrariando todas as besteiras que você lançou sobre mim.
Pain ficou mudo, surpreso.
Antes que pudesse retrucar Sasori deu-lhes as costas e seguiu em seu caminho, sem se despedir ou dizer nada a mais. Não valia à pena.
Deidara ainda deu uma olhada de relance à Nagato, que parecia reprovar completamente o comportamento do irmão. Encararam-se por alguns segundos, emudecidos, e entao desviaram o olhar.
Suas vidas estavam unidas por um incidente delicado. Quando passou por Pain, Deidara o fuzilou com o olhar, intimidando-o completamente.
Se aquele desgraçado continuasse falando, se ofendesse ou sequer tocassem em Sasori, era certo que o socaria de novo. E dessa vez com a certeza de deixá-lo inconsciente.
Alcançou o ruivo irritadiço que soltava fogo pelas ventas, a passos muito apressados.
— Me espere, Danna.
— Que raiva me encontrar justo com ele! – bufou — Foi pra isso que decidi não voltar de carro hoje? Para passar tanto nervoso?
— Você não tinha como advinhar.
— Eu devia estar louco quando deixei ele se aproximar de mim! E sinto mais raiva ainda porque você tentou me avisar a verdade e fui tolo o suficiente para me deixar envolver por aquele desgraçado!
— O Ita estava desacordado há muito tempo, você se sentia sozinho. Foi só um momento de fraqueza. Não deve se culpar tanto.
— Itachi não pode nem sonhar que quase dormi com Pain! – disse um pouco mais alto do que deveria e achou melhor se acalmar, volvendo o olhar ao loiro – Não posso sonhar em dar a ele esse tipo de desgosto.
— Acho que é mais sensato você explicar como as coisas aconteceram. Porque conhecendo aquele miserável do Pain, não duvido dele tentar envenenar o Ita contra você.
— Não posso contar algo assim a ele, eu nunca me perdoaria se Itachi se decepcionasse comigo — expirou bem forte, fechando os olhos. Ao reabri-los, encarou diretamente o loiro — Deidara, você por acaso anda se encontrando com Nagato?
— O quê? Não! – mentiu com um pouco de ênfase demais.
— Ele disse "é bom te ver de novo". Achei que tivessem se tornado próximos.
— Ah, claro que não. Ele... Só me encontrou no caminho de casa esses dias... Nada demais! — desviou do assunto, sem olhá-lo fixamente.
— Por que não me disse nada?- perguntou em tom calmo, já voltando ao estado normal. O vento gelado se encarregava de lhe esfriar a cabeça.
— Não quis te chatear com isso — soou sincero. Era a mais pura verdade.
Não quis dizer a Sasori que reencontrou seu primeiro amor, e que provavelmente estava sentindo algo que não devia, que andava sonhando em estar com ele.
O irmão do homem que traiu seu melhor amigo, que o machucou de inúmeras formas, que quase o violentou.
Sasori era como a família que Deidara não teve, era seu irmão sem vínculo de sangue. Alguém tão importante que pensaria sempre nele em primeiro lugar.
Este por sua vez encarou um bom tempo o rosto do loiro, o único que conseguia fitar os olhos bicolores sem fazê-los desviar.
— Lembro que na época do colégio você gostava de verdade dele, Deidara. E que ficou muito mal quando foi rejeitado. Achei que um reencontro tantos anos depois soasse como uma oportunidade.
— Sem chance! Não sinto mais nada por ele.
O menor assentiu, em partes aliviado.
Se Deidara quisesse mesmo ficar com Nagato isso o tornaria muito próximo de Pain. Significava que sempre correria o risco de vê-lo. Era a última coisa que desejava.
E exatamente por saber disso o loiro tentava a todo custo matar o sentimento que se revirava dentro dele.
Definitivamente esqueceria Nagato. Como já havia feito uma vez.
E sofreria por isso calado, exatamente como foi no passado.
—-
Assentiu, mas estava triste e sem vontade de nada. Apenas seu corpo estava ali, porque a mente e o coração estavam à milhas de distância.
Menma já teria feito as malas? Já teria ido viajar, sem nem ao menos avisar ou se despedir? Ainda tinha tantas coisas que gostaria de dizer...
— Gaara, está me ouvindo?
Ele pareceu despertar com isso e fitou o rosto emburrado de Matsuri.
— Desculpe, acho que estou um pouco distraído — alisou gentilmente seu lindo e macio cabelo castanho — O que dizia?
— Você está mesmo bem? Tem estado estranho desde hoje cedo.
Ele fingiu um sorriso, sem nenhum sucesso. Estava remoído de tristeza por dentro desde a conversa com Menma, desde que descobriu que ele iria viajar.
Olhar o rosto pequeno e bonito de Matsuri o enchia de pesar. Ela não tinha culpa de nada.
O que estava fazendo com ela? Consigo mesmo?
—... Não é nada importante. Sério.
A jovem franziu a testa, parando à sua frente.
— Se é assim, então tenho um pedido.
— Faça — sorriu sem reservas.
— Quero que me dê um beijo — teimou com algo estupidamente simples.
Ele não hesitou. Segurou em seus ombros mirrados e baixou-se devagar, aproximando o rosto.
Quando seus lábios tocaram os dela sentiu algo estranho. Aliás, não sentiu o que esperava. Movia-se ritimado, sem interesse ou paixão.
O gosto, a forma, o cheiro... Nada parecia certo. Não era como se lembrava, o sentimento arrebatador não estava mais lá. Tornou- se frio e sem vida.
Em seu íntimo ainda sentia algo forte por ela, mas parecia haver mudado algo dentro dele. De maneira que interrompeu o beijo, encarando-a confuso. Matsuri entendeu tudo só de olhar para ele.
Sorriu amargamente, convencida de que já era muito tarde.
—... Quer dar uma volta e comer alguma coisa? Acho que ainda gosta de cookies, não é?
— Bastante – sorriu sincero pela primeira vez desde que pisara para fora de casa.
— Melhor não demorarmos a voltar, a noite será realmente fria. E lembro que você se resfria com facilidade.
Ele ficou sério. Era uma das coisas que mais gostava nela: o modo como nada passava despercebido, como ela o lia com facilidade. Era um jeito zeloso, amigo. Matsuri o compreendia por inteiro, lia seus movimentos.
Tal capacidade podia ser traduzida como amor? Ele não sabia dizer.
Só o que sabia era que a companhia dela o fazia sentir tão bem que era impossível não sorrir a seu lado, sentia que podia ser ele mesmo, dizer o que quisesse, fazer o que bem entendesse. Ela o conhecia como ninguém mais.
Naquela mesma tarde, Matsuri voltava para casa intrigada. Descartou a carona de Gaara porque precisava ficar sozinha e pensar um pouco. O vento frio lhe fazia bem. Caminhava depressa, as botas fazendo barulho ao bater no asfalto molhado, as luvas esfregando o nariz gelado. Apressava-se entre a multidão, tudo que queria era chegar logo em casa e tomar um banho quente.
Para tentar afastar seus pensamentos que lhe assombravam.
Gaara não era mais o mesmo, estava diferente.
E para ser bem sincera ela também estava.
O celular vibrou no bolso do casaco e a morena rolou os olhos. Não aguentava mais.
Com toda certeza era Sari mais uma vez, se lamentando e pedindo para reatarem.
Nunca cometeria tal erro de novo. Conseguiu enfim ser sincera com ela. Nao a amava, e não tinha direito de brincar assim com seus sentimentos.
Já havia feito muita besteira em sua vida amorosa, estava farta.
Incomodada ela deixa o celular tocando e apressa o passo em direção à estação de metrô. A fila estava imensa por ser horário de pico, bem no dia em que seu bilhete precisava de recarga.
Que total falta de sorte.
Caminhou em direção ao fim da fila e ocasionalmente seus olhos bateram nos de um rapaz que vinha na direção oposta. Algo lhe dizia que já o havia visto, embora não lembrasse muito bem onde...
Engoliu bem forte, assustada. Quando os olhos azuis se ergueram e bateram nos dela o rapaz pareceu estupefato. Uma mistura de surpresa e rancor. Ele demorou alguns segundos até se recompor e exibir uma expressão irritada.
Matsuri reconheceu aquele rosto, era o rapaz que a surpreendeu com Gaara, o tal de Menma. Ele seguia reto em sua direção e a jovem estremeceu de leve, por um momento sem saber quais as intenções dele, e temendo por isso. Mas não se intimidou e sustentou o olhar o mais firme que conseguiu, até que ele chegasse à sua frente.
Por longos segundos Menma apenas a fitou, sem dizer nada. A pequena garota se manteve ereta e tensa, o maxilar contraído, nervosa ao extremo, mas sem demonstrar o mínimo que fosse.
Menma então solta o ar, impaciente. Faz um gesto com o polegar.
— Vem comigo. A gente precisa conversar.
Ela engoliu em seco e fechou o semblante, atrevida e arrogante.
Nem morta que iria a qualquer lugar com um estranho! Menma pareceu entender isso porque apontou uma pequena lanchonete diante da estação.
— É só uma conversa rápida, tem barulho demais aqui. Creio que se sinta mais à vontade num lugar fechado e com pessoas à volta, não é?
Ela continuou séria, tentando entender o que ele poderia querer com ela.
Havia movimento na rua e o estabelecimento parecia cheio, o que a fez concluir que era seguro. Uma pontada de curiosidade a fez imaginar o que ele queria e por fim assentiu, seguindo-o e atravessando a rua.
Assentaram-se em uma mesa pequena e estreita, um diante do outro, os pés chegando a se encostar.
— O que quer beber?- indagou com toda a educação que sempre teve, sobretudo ao lidar com garotas.
— Nada, obrigada – continuava a encará-lo sem espaço para esquiva. Ele pareceu impaciente com isso.
— Eu a chamei para tomar alguma coisa, não é?
— Me chamou para conversar. E não quero nada!
Menma coçou detrás da cabeça.
Um dos motivos de não gostar de mulheres era que às vezes elas conseguiam ser muito complicadas!
O garçon veio até eles e Menma se adiantou.
— Chocolate quente para mim e capuccino para a moça.
Matsuri o fuzilou com olhar, mas ele a cortou tão logo foram deixados sozinhos.
— Não vai morrer se tomar um café, não seja chata.
— Não sabe nada sobre mim para dizer como sou. Diga logo o que quer e me deixe ir embora!
— Não faz mesmo a menor ideia do que tenho para lhe dizer?
Ela estreitou mais as sobrancelhas.
— Se é sobre Gaara então já vou lhe avisando que...
— É exatamente sobre ele – baixou o olhar e deixou o ar sair pelas narinas, com força. Apoiou o queixo na palma da mão, as iris rolando distraidamente `as pessoas que fugiam da chuva.
—... Quero apenas lhe dizer que você venceu. Eu não posso competir com você – admitiu com o máximo de sinceridade que conseguiu.
Isso pegou a morena de surpresa por completo, roubando uma reação imediata.
—... O quê?
— Eu perdi, e tenho consciência plena disso, Matsuri – volveu o rosto devagar, sério e bonito.
— E era isso o que queria me dizer? Que está desistindo?
— Estou jogando limpo com você, porque sei que não sou a pessoa que pode fazer Gaara feliz- admitiu amargamente, franzindo a testa de raiva de si mesmo — Sei que ele só pensa em você , e que nunca será capaz de seguir em frente se não estiverem juntos. Então quero pedir que você cuide dele, que o proteja, que o faça feliz.
O rosto ardia de raiva porque sentia a vontade de explodir num choro aberto. Nunca pensou que faria algo assim, que admitiria a derrota. Acabou perdendo toda a vontade de lutar pelo amor de Gaara, não via a menor possibilidade de ser correspondido. Não mais.
A morena permaneceu em silêncio por algum tempo.
—... Esse é todo o amor que sente por Gaara? Tão superficial que o faz desistir e jogar tudo nas minhas costas?
— Sei desistir quando não há mais nada a fazer. Gaara não me ama, ele só tem olhos pra você, e não consigo lidar com isso, está me destruindo lentamente. Se ele se importa tanto assim com você... Então faça-o feliz, cuide dele, não o faça sofrer de novo. Porque eu não consigo mais ficar perto dele, não com tudo isso.
Ficou muda, assistindo o rapaz que admitia-lhe a derrota parecendo completamente destruído com isso. O garçom se aproximou com uma bandeja, trazendo o pedido de ambos e se afastando em seguida.
O raposo sorriu tristemente.
— Tome seu café, aposto que está gostoso – deixou uma nota sobre a mesa e se levantou sem ao menos tocar no chocolate espumoso e de ótimo aroma que foi posto sobre a mesa. Matsuri se adiantou e se levantou, impedindo-o.
— Espere!
— Eu realmente não tenho ânimo para continuar essa conversa.
— Você não pode simplesmente abandoná-lo. Gaara se importa muito com você!
— Ah, claro... – desdenhou – Não há um segundo que ele esteja comigo e não fique falando de você.
— E não há um único momento que eu esteja com ele e não o veja melancólico por sentir sua falta!
Menma estreitou os olhos, sem entender nada.
— De que droga você está falando?
—... O que faria se eu lhe dissesse que não consigo corresponder à altura tudo que Gaara sente por mim? — estreitou mais o olhar firme -... E se eu disser que estou com ele apenas por sentir pena?
Menma ficou vermelho de raiva.
— Eu a acharia a pior pessoa do universo.
— Então sente-se, tome seu chocolate e escute minha história. Tenho certeza que mudará de ideia!
Meio a contragosto o moreno fez exatamente como ela disse, tornando a sentar e sorvendo um gole do chocolate maravilhosamente espumoso e quente, curioso sobre oq ue ouviria dela.
—-
Cruzou os braços completamente contrariado e se recostou no batente da porta do quarto.
— Posso saber aonde você pensa que vai? — o tom era alto e ameaçador, o que fez Itachi rir. Sasori quando nervoso era a pior pessoa do universo inteiro.
— Ao banco – respondeu enquanto terminava de dar nó na gravata.
— E posso saber para quê? Você está todo enigmático desde que voltou de sua conversa com Sasuke. Eu tenho o direito de saber o que está acontecendo, sabia?
Concordou com um movimento de cabeça. Sentou no colchão e bateu na própria coxa, convidando o ruivo a se sentar. Sasori fez bico, ainda contrariado, mas assentou-se, volvendo o rosto já não muito irritado ao marido. Não conseguia ficar bravo por muito tempo.
— Sasuke está passando por um momento muito difícil. Mas, quem mais precisa de cuidados agora é o Naruto.
— Como assim? Ele está bem? Algo aconteceu aos gêmeos?
Itachi já esperava aquela reação, por isso o mandou sentar. Segurou-o pela cintura.
— Naruto teve uma complicação séria em sua gravidez. Ao que parece Aiko está bem, mas o Daisuke pode não sobreviver.
O ruivo esboçou uma expressão de partir o coração.
—... Ah, pobre Naruto.
Itachi sabia que parte da reação era por conta do que ele mesmo sentia, por já ter passado por isso antes. O trauma por perder Aiko, por não realizar um sonho, se encravava nele fazendo -o se compadecer de quem passava por uma situação semelhante.
— Sasuke nos pediu para ajudar Naruto. Ele precisa de todo apoio possível agora.
— Mas é claro, não precisa nem pedir uma coisa dessas, ele deve estar arrasado! — já fez menção de levantar e buscar o celular para conversar com o loiro, mas foi novamente impedido e forçado a tornar a se sentar no colo de Itachi.
— Escute até o fim.
— E tem mais? Estou surpreso que Naruto não tenha me dito nada! Achei que ele confiasse em mim. Acha que fiz algo errado? Talvez Sasuke ainda não confie em mim como eu pensava...
— Sasuke e Naruto tiveram uma briga e romperam o relacionamento.
O rosto embasbacado do ruivo chegava a ser engraçado.
— MAS COMO ASSIM BRIGARAM???
— Vai me deixar contar?
— Óbvio – retrucou, irritadiço, mas balançava as pernas de nervoso.
— Vou te contar por saber que posso confiar plenamente em você, meu bem. Não é uma coisa simples.
O ruivo juntou as mãos no colo, se concentrando para ficar quieto e não resmungar a cada frase, porque sabia que quando o timbre de Itachi ficava mais grave era um assunto realmente sério. E a julgar pela feição dele algo realmente grande estava acontecendo.
—... Acho que já te falei sobre minha mãe antes, não é?
Fez que sim com a cabeça, meio confuso.
— Até onde sei ela fugiu para salvar Sasuke, e nunca mais foi vista.
— Acontece que ela voltou ao país — ignorou a surpresa nítida no rosto do marido — Ao que parece ela ouviu falar de meu estado grave de saúde enquanto estive internado, quando Karin aumentou a quantidade de medicação e me deixou em coma tido como irreversível.
Sasori franziu a testa. Odiava lembrar daquela fase, aqueles dias infernais.
— E o que aconteceu com ela?
— Foi capturada por Madara. Era algo que ela sabia que aconteceria, que seria morta se voltasse. Mesmo assim quis se despedir de mim, e se colocou em perigo por conta disso.
— Sua mãe é uma mulher muito forte, Itachi. Não é qualquer pessoa que aguentaria metade do que ela passou. Mas me preocupo que esteja nas mãos de Madara. Ele pode fazer qualquer coisa com ela.
— É exatamente este o grande problema — afrouxou as mãos na cintura de Sasori — Madara viu uma oportunidade perfeita para manipular Sasuke. O fez concordar com toda essa estupidez de renovar votos, de retornar à casa sede. Isso se quiser manter Mikoto viva e à salvo.
— E imagino que ele tenha incluído Naruto nesses termos, não é?
Itachi fez que sim.
— Sasuke está arrasado, mas acha que a melhor opção agora é fazer o que Madara diz. Colocar Naruto em risco nesse momento é muito perigoso por conta de Daisuke. Explicar-lhe tudo que está acontecendo é pedir para ele se alarmar. Acho que seríamos imprudentes se o fizéssemos.
—... Lógico que seríamos — retrucou emburrado e cabisbaixo -... Perdi meu bebê por passar um susto muito grande. É certo que Naruto pode perder até os dois ao mesmo tempo se souber o que Madara está fazendo.
O mais novo passou a mão pelos cabelos de fogo, devagar.
— Naruto vai fazer uma viagem ao exterior para se tratar, junto de Menma e de Tsunade.
Sasori assentiu. Conhecendo os dois, sabia que o loiro estaria em boas mãos.
— Vai depositar dinheiro na conta de Naruto a pedido de Sasuke, não é?
— De acordo com Suigetsu esta é a melhor solução. Se meu irmão o fizer diretamente, Naruto vai negar por não entender o que está acontecendo. Mas, ele não pode dizer não pra nós — riu de lado.
— Lógico, vamos obrigá-lo a aceitar se preciso! Ele só tem que viajar e trazer meus dois loirinhos sãos e salvos! — levantou num impulso, pegando um pedaço de papel na cômoda e anotando com sua caligrafia linda e limpa o nome e número de celular de Naruto, colocando no bolso interno do paletó do marido. Apenas para o caso de precisar falar com ele.
Naquele momento, Sasori não fazia a menor ideia de como o seu bom senso ao fazer isso o ajudaria, e impediria uma tragédia.
—... E quanto à sua mãe, meu amor? Não podemos deixá-la sozinha naquele lugar horrível.
— Se Madara quisesse mesmo matá-la já o teria feito. Ele a está usando como isca para obrigar Sasuke a fazer o que quer, não vai querer perder seu trunfo agora. Isso me dá a tranquilidade de saber que ela não será morta como ele diz, nem será torturada. Vou pensar num modo de tira-la de lá. Mesmo que eu ainda não saiba exatamente como.
Fez que sim, entendendo tudo.
— Posso entender tudo isso, mas não quero que saia sozinho.
— Meu bem, nada vai acontecer. Eu já estou perfeitamente bem.
— Então vou com você.
— Agradeço sua preocupação, mas você tem aulas à tarde. Além disso vou com meu advogado. Ele vai me levar e me trazer de volta para casa. Que mal poderia haver nisso?
O ruivo ainda relutou e torceu o nariz. A ideia não o agradava em absolutamente nada.
—... Tenho medo de alguma coisa te acontecer.
— Se não superarmos o que aconteceu não poderemos seguir em frente, não é?
Teve de concordar, mesmo relutando. Ficou de pé e se baixou para ajeitar o nó da gravata. Itachi ficava maravilhoso de terno.
— E posso saber para que essa produção toda?
— Estou prestes a repassar uma grande quantia em dinheiro para o nome de Naruto. Acho melhor causar uma boa impressão, não?
— De fato – ajeitou o nó e deu algumas palmadinhas no peito dele, os dedos passando pelo tecido da camisa branca. O corpo dele já recuperava a massa corpórea normal, diferente da silhueta ossuda e magrela de quando despertou.
— Se algo acontecer, ou se você não se sentir bem, promete que vai me ligar?
Ele sorriu e fez que sim com a cabeça.
— Ok.
— Vou te mandar mensagem para saber se está tudo bem. Não desgrude desse celular, entendeu?
— Sim, senhor. Mais alguma coisa?
— Você faz o jantar hoje.
— Mas hoje é o seu dia — frisou bem.
— É seu agora, por me preocupar desnecessariamente. Considere como um castigo!
O Uchiha riu e aceitou, era um preço justo.
— Conta se eu trouxer um assado?
— Traga uma lasanha e podemos conversar — riu de volta.
Itachi o puxou e o beijou. Com um pouco de sorte escaparia de lavar a louça também. Detestava!
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Os minutos não pareciam passar, então a noção de tempo se desfazia. Pelos cálculos que tinha de quando chegara, havia se passado uma semana? Talvez mais?
Mikoto não sabia dizer, estava confusa. Seu confinamento naquele quarto a estava deixando fraca e zonza. A comida que lhe forneciam era desagradável, de aparência repugnante. O chão de terra batida incomodava seu nariz. Para dormir tinha apenas um colchão, um banheiro simples. As grades de cela lhe faziam sentir exatamente como a prisioneira que era. Sabia que tal era o preço a ser pago se voltasse, estava pronta a pagar por ele. Madara nunca a perdoaria por desafiá-lo.
E não se arrependia.
Riu sozinha, coçando o nariz com as mãos atadas por uma corda grossa que marcava e feria seus pulsos.
Sasuke valia à pena, por tudo. E por ele passaria tudo outra vez. Era um rapaz lindo! De uma altivez diferente de Itachi. Amoroso, teimoso, um tantinho revoltado, mas definitivamente encantador. E isso porque somente o ouvira a conversar com Madara uma vez, desafiando-o sem medo.
Riu sozinha. Era muito parecida com ele.
Queria tanto rever Itachi, falar com ele. Mas sabia que seu tempo estava acabando. De certa forma se sentia grata por ainda estar viva, mesmo tendo passado os últimos dias em tais condições. Era muito mais do que esperava. Achou que seria morta tão logo se deparasse com Madara. Ainda tivera tempo de pensar, de refletir sobre muitas coisas, de ouvir a voz de seu caçula.
Tivera uma boa vida afinal.
O som dos portões ecoou e rompeu o silêncio do porão Uchiha. Em meio ao breu, o nervosismo só aumentava. O medo natural e humano, por saber que Madara cumpriria sua palavra e a mataria eriçou seu corpo, a adrenalina correndo desenfreada. Teve vontade de correr, sentiu medo, vazio e solidão, mas manteve-se imóvel, ouvindo os passos que ecoavam nas escadas velhas em direção ao antigo confinamento em que estava, o mesmo que no passado foi usado para abrigar os empregados dos Uchiha que por algum motivo deviam ser punidos.
Mikoto engoliu bem forte e o instinto a fez correr quando o estranho se aproximou na escuridão, segurou seus braços e colocou um capuz em sua cabeça.
Chorou de medo por não saber o que estava acontecendo, por se sentir sendo levada a algum lugar desconhecido, por não saber como seria morta, se sentiria muita dor ou sofrimento. Milhares de coisas horríveis passaram por sua mente.
Asfixia, afogamento, incendiada, espancada... Tudo parecia horrível!
O pânico era tão grande que não a permitia pensar direito. Mesmo tendo se preparado, mesmo sem se arrepender de nada, tinha medo de morrer! Qualquer pessoa tinha! Queria implorar e gritar.
"Por favor não me mate! Me dê uma chance de ver Sasuke e Itachi de novo! Eu não quero morrer! Não quero morrer ainda!!!"
Era empurrada para que andasse mais depressa, tropeçando no caminho por não conseguir enxergar nada, batendo os pés descalços nos degraus, machucando os dedos, o ar rarefeito dentro do capuz por resfolegar depressa demais e não conseguir puxar o ar, o longo cabelo emaranhava pelo rosto.
Seu tormento durou muito tempo, e quando achou que tudo terminaria foi jogada num espaço apertado. Chorou mais alto, ofegando ruidosamente. Estava tão sem ar que achou que sufocaria.
O capuz foi retirado grosseiramente de sua cabeça e a luz a cegou, sem dar tempo de acostumar as íris que passaram tanto tempo na escuridão. Não conseguia ver quem a segurava e se sentiu impotente quando os cabelos foram puxados, uma venda posta nos olhos úmidos, mas não implorou, nem fraquejou. Fita adesiva foi colada sobre os lábios. Sentiu-se na escuridão sufocante quando se entendeu dentro de um porta malas, a porta se fechando. O veículo saiu apressado, chacoalhando seu corpo.
Para um local desconhecido, longe de tudo e de todos.
O local de sua morte.
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Eventos sociais serviam para encenar, e era exatamente o que estava fazendo. A maquiagem muito forte no rosto lhe garantia uma aparência saudável e bonita, muito contrária ao estado real. Observava os convidados se movimentarem pela casa. Mulheres muito bem arrumadas, do tipo que jamais imaginou que conviveria, olhavam com desdém cada pedaço de sua casa, procurando os defeitos, os objetos de menor valor, reclamando da qualidade da comida e bebida.
Porque era isso que faziam. Não se tratava de uma festa de amigos, era uma festa para medir sua capacidade de adaptação em um mundo ao qual não pertencia. Eram todos Uchihas, descendentes diretos e pessoas que, como ela, tiveram a sorte de se relacionar com alguém desse clã tão poderoso.
A classe mais baixa de Uchihas, a quinta geração. E nem por isso menos importantes, pessoas comuns não poderiam competir com eles.
Sakura permanecia sentada em sua pose discreta, afinal Hikaku odiava mulheres que falavan alto ou se expunham demais. Aprendeu a ficar calada, ou certamente seria "educada" mais tarde. A maquiagem escondia com facilidade o que ela desejava esconder.
As odiosas marcas de agressão constante que sofria, todos os dias.
Segurava uma taça nas mãos, sentada quase imóvel ao lado esquerdo do marido. Sua mãe estava ao lado direito dele, encantada, sem parar de olhar cada centímetro da casa luxuosa da filha. Como nunca foi rica ou teve grandes posses, tudo era novo e sofisticado a seus olhos.
A rosada piscava devagar, esgotada. Esperava que seu pedido de socorro fosse prontamente ouvido, que fosse lido nas entrelinhas.
Insistiu em convidar sua mãe para a festa de sociabilização dos Uchihas porque ansiava que ela percebesse, que a ajudasse o mínimo que fosse.
Um arrependimento sem igual bateu à porta quando percebeu o tamanho de seu erro ao se casar com Hikaku, que era dono de uma simpatia exemplar mas somente de aparências. Como homem, como esposo, era cruel e desumano. Tratava Sakura como um objeto sem valor que apenas servia para satisfazer seus desejos bizarros. Ele a humilhava e desprezava, sempre colocando em cheque os motivos que a levaram a se casar com ele.
Ele era um homem forte, arrogante e estúpido. Dono de um machismo insuportável, de pensamentos ultrapassados. A humilhava, a destruía espiritualmente, a fazia se sentir fraca, incapaz e inferior.
Esgotou as energias tentando reagir, tentando evitar a violência que sofria, e percebeu que o melhor jeito de fugir era se fazer indiferente. Vivia um casamento terrível, sem que ninguém fizesse ideia de que o homem de aparência tão digna era na realidade um covarde. Ninguém acreditaria nela, nem se tentasse explicar.
A senhora Haruno parecia maravilhada com a mansão luxuosa em que a filha estava vivendo, e ainda mais com o marido gentil e atencioso que arranjou.
— Agora sei de onde Sakura puxou tamanha beleza. É uma mulher muito bonita, senhora Haruno.
A mulher riu entusiasmada. No sofá, Sakura nem conseguia se mexer.
Esperava que sua mãe percebesse, que a salvasse. Tinha medo de Hikaku, nojo e repulsa quando ele puxava seus cabelos e arrancava suas roupas, violando-a não se importando com nada.
Mas ela não percebeu o mínimo que fosse. Ou talvez não quisesse perceber.
Foi o que passou pela mente de Sakura ao se dar conta de como a mãe ignorava seus olhares, como sorria abertamente ao novo genro, parecia satisfeita ao extremo.
Quando conseguiu uma oportunidade de se distanciar, aproveitando que Hikaku falava com outros homens, Sakura puxou a mãe pelo braço, em direção ao interior da casa. Trancou-se no quarto.
— Mamãe, preciso que me escute...
— Você tirou a sorte grande, Sakura! – os olhos brilharam — Olhe só está casa! É um luxo!
— Hikaku não é a pessoa que parece. Na realidade ele..
— Você não seja ingrata – cortou – Se não fosse por ele nós ainda estariamos cheias de dívidas não pagas, você estaria trabalhando naquela lanchonete de quinta categoria!
— Ele está me agredindo, e ninguém acredita em mim quando tento expor a verdade – esfregou o rosto até que a base e corretivo facial saíssem, revelando uma mancha arroxeada. A mulher engoliu em seco.
— Não posso continuar com isso, ele vai acabar me matando alguma hora dessas e estarei sozinha aqui, sem ter a quem pedir ajuda.
— Se ele te bate então é porque você lhe dá motivos. Sempre foi muito temperamental e estourada, Sakura. Isso com certeza enfurece seu marido. Precisa aprender a ser mais delicada, mais feminina, nem sempre é possível ter tudo que se quer na vida.
Sakura piscou, exausta
—... Não é minha culpa, estou dando o meu melhor.
— Pois tente ainda mais. Não desperdice sua chance, Sakura. Outra como essa não vai aparecer tão cedo.
Ela ainda quis retrucar, mas acabou se calando e assentindo. Viu sua mãe sair do quarto e se juntar às senhoras Uchiha em uma conversa animosa e escandalosa.
Sentou sobre a cama quando se viu sozinha, olhando distraidamente pela janela.
Ser parte dos Uchiha a permitiria mesmo estar mais perto de Sasuke? Porque até então esteve confinada dentro de casa, sem chances de ir à casa sede para conversar com Madara, para se encontrar com ele.
O patriarca lhe prometeu que separaria Naruto de Sasuke. Teria obtido êxito? Até então tudo que a rosada ouviu falar foi a respeito do casamento de Sasuke ser renovado com Karin.
Isso era um bom sinal em partes, indicava que eles estavam separados. Definitivamente Madara estava tramando algo, e adoraria saber o que é.
Respirou fundo para juntar a coragem necesária de sair daquele quarto.
Desistir de seus planos era burrice, já havia suportado muita coisa para desistir agora. Seu primeiro passo seria se livrar do estúpido marido de algum jeito.
Em seguida procuraria Sasuke. Era ele a quem queria desde sempre e jamais desistiria dele, não importava o que dissesse ou fizesse. Teria Sasuke só para ela, de qualquer jeito.
—
Era tarde demais para fingir que não estava em casa? Porque não estava pronto para tal tipo de despedida.
Sai o encarava recostado à porta. O olhar sereno costumeiro, a paz inabalável. Mas era óbvio que esperava uma resposta do loiro, e este não sabia ao certo oq ue lhe dizer.
Não era bom com as palavras, e detestava dar um fora em alguém.
—... Quero que saiba que agradeço muito o que está fazendo por mim, Sai — transpareceu o máximo de sinceridade que conseguiu — No entanto... Eu não tenho cabeça para pensar em nada agora que não seja o meu filho.
O moreno pareceu entender.
— Não tiro sua razão. Em seu lugar eu faria o mesmo.
— Fiquei muito feliz em te ver de novo, muito mesmo — sorriu — Mas eu não consigo corresponder à altura o que você sente por mim, Sai.
O outro não respondeu imediatamente, porque observou por um longo tempo o rosto arredondado e corado, as marcas de bigodes de raposo, fascinado com o modo que a gravidez acentuava a beleza dele.
Era desconcertante ser admirado daquela forma, o que fez o loiro baixar o olhar, muito sem graça.
— Isso não é um problema, eu vou te esperar. Até que tudo esteja bem com Daisuke, até que seja capaz de esquecer Sasuke. Até o momento que estiver pronto para abrir seu coração à outra pessoa. Eu estarei bem aqui, Naruto. Sempre vou esperar você.
— Não quero lhe dar falsas esperanças. Você é um cara incrível, merece alguém que possa fazê-lo feliz.
— Esse alguém é você, Naruto — aproximou-se um passo, fitando intensamente o rosto do Uzumaki de tal forma que o fez corar — Ninguém é tão especial para mim quanto você. E talvez por isso eu nunca tenha te esquecido.
Naruto ficou sério, sem encontrar escapatórias.
—... Eu realmente me odeio por não me apaixonar por alguém como você — suspirou desolado, fechando os olhos.
Sai riu com isso e segurou o queixo do loiro. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa sentiu a proximidade do rosto, abrindo os olhos e se deparando com o olhar intenso do moreno sobre si, os olhos muito negros lhe causando uma nostalgia desagradável. Ficou preso naquelas íris, sentiu o hálito quente bater em seu rosto e o percebeu fechar os olhos, por fim fazendo o mesmo quando os lábios de Sai beijaram os seus devagar.
Não o afastou, se deixando envolver. Fechou os olhos, sentindo o calor dele, o beijo vagaroso e calmo, sem nenhum fervor. Porém, quando os lábios do moreno se moveram tencionando abrir, Naruto se afastou devagar, empurrando-lhe os ombros. Desviou dos olhos negros, do rosto pálido.
Eram tão parecidos que lhe causava calafrios. Sai se passaria facilmente por um Uchiha, difícil de acreditar que não havia parentesco algum.
Talvez esse fosse o motivo de estar tão cativado? Porque ele lembrava Sasuke?
Não se sentia pronto para isso, esquecer tudo e embarcar em um novo relacionamento. Até porque ainda sentia falta do que perdera, queria os dias felizes de volta, que a dor o abandonasse de vez.
Sai pareceu entender isso perfeitamente.
— Cuide-se bem enquanto estiver fora — acariciou a bochecha do raposo, sorrindo carinhosamente — Estarei aqui se precisar de qualquer coisa. Quero que volte bem, que traga os gêmeos em segurança.
A forma zelosa de falar fazia o coração do Uzumaki bater mais depressa no peito. Sorriu.
—... Pode deixar.
Ainda lhe deu um selinho lento e estalado antes de sorrir encantado, bem junto ao rosto dele.
— Até mais — acenou, virando de costas e seguindo o caminho para as escadas. Naruto o observou partir em silêncio, sem muita vontade de voltar ao interior do apartamento dos pais e organizar suas malas, os detalhes da viagem.
Por que a vida não podia ser mais simples? Por que simplesmente não se apaixonou por Sai, que parecia lhe entender perfeitamente? Seu coração teimava em lembrar que sentia falta de Sasuke, que precisava e dependia dele. E isso o estava martirizando!
Suspirou e voltou ao interior do apartamento, grato que ninguém tivesse ouvido sua conversa.
Os dias que se seguiram foram uma loucura total. Tirar passaporte, garantir o visto de viagem, agendar consultas, reservar um hotel, trocar dinheiro em casa de câmbio... Naruto já estava exausto e nem havia viajado ainda. O sono o abandonou e precisava se esforçar muito, pelo bem dos gêmeos, para que pudesse dormir um pouco.
Ainda nutria esperanças de voltar da viagem com êxito no tratamento de Daisuke. Mesmo que naquele momento sua vida parecesse toda errada, sem nexo e sem a menor perspectiva de melhorar, ainda assim não desistiria. Continuaria seguindo em frente sem hesitar.
O que mais desejava era encarar logo o médico, passar pelo procedimento necessário e descobrir que havia algum jeito seguro de salvar seu bebê.
As consultas que antecederam a viagem foram exaustivas, diversos exames e recomendações. Ao que parece a viagem não seria fácil, causava sintomas desagradáveis e seu estado era tão delicado que o menor esforço físico poderia prejudicar drasticamente sua saúde.
No dia da véspera da viagem estava exausto, literalmente, a ponto de não perceber os olhares que recebia enquanto caminhava ao lado do pai, em direção ao estacionamento.
Inconscientemente acariciou o ventre arredondado, havia se tornado um hábito passar a mão na barriga, algo que o acalmava e consolava. Sentia alguns movimentos e sabia ser Aiko, uma vez que Daisuke ainda estava fraco demais. Agradecia que ainda estivesse vivo, que lhe desse a chance de tentar salvá-lo. Faria tudo por ele.
Conforme andava em direção ao estacionamento não percebia a forma como chamava atenção, não apenas por ser compatível, algo ainda incomum e que causava muita curiosidade, mas também porque conforme a gravidez avançava ele ficava muito mais bonito. Os hormônios pareciam se estabilizar dando-lhe aparência mais madura, uma pele radiante. Os cabelos espetados mais compridos que de costume, os ombros mais largos, o pescoço longo, os braços mais fortes. Seu corpo de homem acentuava uma masculinidade que até então parecia oculta. Naruto ganhava mais olhares que nunca.
Algum tempo depois ao chegar em casa e fitar as malas prontas em um canto, os documentos sobre a mesa, sentiu um aperto terrível no peito. Era o pior momento possível para uma viagem, seu psicológico estava acabado, mas sabia que precisava fazer isso.
—-
— Você está um bocado pálido — Menma parecia preocupado ao colocar a mala de mão no compartimento acima do banco do avião.
Naruto não conseguiu responder porque abriu um saco de papel e vomitou ruidosamente. Quando ergueu o rosto estava suado e zonzo.
A preocupação em excesso, falta de sono e toda a exaustiva movimentação estavam acabando com ele. O avião nem havia decolado ainda e sentia-se péssimo, seu corpo doía, estava enjoado e tudo que mais queria era se deitar e descansar. Tsunade a seu lado percebeu isso imediatamente.
— Tente endireitar as costas — o fez sentar ereto junto à poltrona. Parecia tão branco quanto uma folha de papel, os olhos muito cansados.
Na poltrona detrás o raposo moreno espiava por cima do banco, aproveitando que a pessoa que viajaria ao seu lado ainda não chegara.
— Vovó, acha que ele aguenta viajar?
— Demora um pouco para o remédio fazer efeito, mas os enjôos são normais — respondeu ainda olhando o loiro que respirava depressa, recostado no banco, parecendo péssimo.
Os passageiros foram chegando aos poucos e cada um tomou assento. Ao lado de Menma uma mulher se sentou sem se preocupar com nada que acontecia ao redor, silenciosa e tranquila.
O remédio pareceu fazer efeito porque o enjôo do loiro passou, mas ele sentia o mal estar causado por uma febre alta e desagradável que fervia seu corpo. Desde o momento em que pisou fora de casa carregando as malas, quando se despediu dos pais, já começou a se sentir mal. Provavelmenye reflexo do nervosismo extremo. Se pudesse escolher adoraria ficar quieto em seu quarto até que as dores usuais cessassem.
No entanto era o momento de se mover, de tentar algo novo.
Tudo o que sentia eram reações já esperadas, a movimentação fazia isso. Em seu estado deveria ficar o mais parado o possível, em repouso quase absoluto. Todo o estresse da viagem surtia efeito imediato no corpo.
Menma ainda fitava o primo largado no assento, sem se dar conta de que deveria sentar e colocar o cinto para que o avião decolasse. Estava preocupado com o estado nada animador do loiro. Tirou a blusa de frio e o cobriu até o pescoço. Naruto fez um aceno em agradecimento, fraco demais para lhe dirigir o olhar ou responder qualquer coisa.
Sentiu o movimento, o chacoalhar do avião percorrendo a pista de decolagem. Quase não ouvia as recomendações de segurança, as falas dos comissários de bordo. Seu rosto ardia a ponto dos olhos desfocarem, os músculos cansados como se tivesse feito muito exercício.
Esticou as pernas aproveitando-se do assento espaçoso que lhe custou um valor bem maior que um assento comum. Vestia roupas leves, meias de compressão para ajudar na circulação sanguinea. Uma funcionária o viu coberto com a blusa de frio e gentilmente lhe ofereceu um travesseiro, um cobertor e uma toalha quente. Naruto aceitou sem pestanejar, o calor do cobertor pareceu muito bem vindo, a toalha relaxando seu rosto cansado.
Quando o avião decolou ele sentiu o enjôo voltar com força e fechou os olhos, o corpo todo parecendo mole e sem força, os lábios perdendo a coloração de maneira assustadora.
Por sorte Tsunade exerceu profissão de médica por muito tempo e sabia ler seu corpo e cada sintoma prontamente, muitos já antecipados e esperados. Não se tratava de uma viagem fácil.
Pediu que lhe trouxessem água. Já era de conhecimento que o rapaz loiro estava grávido, então os comissários pareciam atentos e solícitos.
Uma mulher trouxe uma garrafa de água gelada e olhou de relance o rosto pálido do rapaz, percebendo sob o cobertor o volume da barriga achando estranho, afinal não se via um homem grávido com facilidade.
Tsunade não teve paciência de a deixar admirando o loiro e tirou a garrafinha de suas mãos, abrindo-a e oferecendo ao neto. Com isso a mulher ficou sem graça e seguiu à parte dianteira do avião. Ao olhar pela janela pôde ver o céu muito azul, as nuvens brancas como pedaços grandes de algodão, espalhadas como fumaça.
Era bem bonito de se ver.
— Como se sente? — a loira indagou.
Ele piscou fracamente, erguendo a mão trêmula para apanhar a garrafa e levá-la aos lábios. Engoliu um pouco da água fria que lhe fazia maravilhosmente bem, entregando-a de volta, tornando a afundar no banco. A mão da avó tocou sua testa, sentindo o calor forte da febre.
— Quer comer alguma coisa?
—... Nem pensar- respondeu com a voz empastada — Meu estômago está todo revirado.
— Dentro de algumas horas você vai precisar se alimentar, para não correr o risco de uma hipoglicemia. Será bom levantar um pouco também, para não prejudicar a circulação.
Ele assentiu e em seguida fechou os olhos, se sentindo muito enjoado.
— Tente dormir um pouco, você parece exausto.
Assentiu, concordando com ela. Andava tão preocupado com a viagem que seu sono se perdia, e estava exausto! Fechou os olhos que ardiam por causa da febre, a respiração quente batendo no cobertor e voltando ao rosto. Adoraria deitar em uma cama macia e esticar o corpo. O sono o acometeu em questão de segundos e adormeceu finalmente, para alívio de Tsunade.
Ela bem sabia que o motivo principal do mal estar era a preocupação excessiva, era bom vê-lo dormir um pouco e descansar. Tinha uma viagem de oito horas pela frente. Por sorte, sem escalas.
—-
Estava tão ansiosa que poderia morrer de felicidade. Tal era o sentimento de Karin naquela manhã. Cada lágrima de descontentamento foi recompensada, toda a espera. Seu maior sonho estava para se tornar realidade, finalmente!
Olhou-se no espelho, a visão distorcida não lhe permitindo perceber como estava apática, magra e com aspecto doente. Os cabelos muito compridos e sem corte estavam soltos e escorridos. Escolhera um vestido branco, fino e leve. O rosto estava maquiado, coisa que não fazia há tempos.
Sorriu e colocou as mãos sobre o ventre, fechando os olhos enquanto suspirava deliciada. Por fim deixou o quarto, dirigindo-se à sala de estar onde o amor de sua vida lhe esperava.
Sasuke não partilhava de toda aquela empolgação, pelo contrário. Olhava distraidamente os peixes nadando no aquário da sala, assentado em uma poltrona. Trajava jeans, uma camisa polo branca, sapatênis. Os cabelos estavam um tanto embaraçados, nenhuma produção especial.
Apenas uma coisa se evidenciava nele: a forma como havia perdido peso rapidamente. Sasuke parecia cansado, os olhos muito fundos com imensas olheiras. A pele do rosto, sempre tão macia, estava ressecada e mal cuidada. A barba rala e por fazer, mas não se daria ao trabalho.
Virou os olhos por acaso à esposa que surgiu diante da porta. Karin lhe sorria tanto que nem parecia a pessoa doente que normalmente rastejava pelos cantos. Estava tão magra que era possível ver os ossos pontudos dos braços, a pele amarela e sem saúde. Ela respirava devagar e ruidosa, o corpo trêmulo e cansado.
Sasuke sentiu algo estranho dentro dele, que não imaginou sentir em tamanha magnitude, não por ela.
Karin lhe dava pena... Muita mesmo. A forma como se anulava em nome do amor que dizia sentir por ele era alarmante. Isso fez o moreno erguer o corpo do sofá e caminhar até ela, ficando de frente.
Observou-a por um tempo, como se nunca a tivesse visto e de fato essa era a impressão que tinha. Evitou aquela mulher por tanto tempo, mesmo depois de casados a proximidade era nula. Encarou os olhos esperançosos dela, um nó formando na garganta.
Como nunca percebeu o estado em que ela se encontrava?
Engoliu e a encarou seriamente, sem o rancor usual que estampava seu rosto.
—... Me desculpe, Karin — inciou em tom calmo, porque sabia que ela não suportaria -... Eu deveria ter percebido há muito tempo, deveria ter sugerido que tratassem você — fitava desgostoso os joelhos ossudos nas pernas magras em demasia — Devia ter te parado antes que chegasse a esse estado, porque é óbvio que você não consegue sozinha, que precisa de ajuda. E estou disposto a isso.
Ela piscava sem entender, ainda fascinada que ele houvesse conversado tanto, era a primeira vez desde que se casaram.
— Do que está falando, meu amor?
— Você está doente, Karin. Está tão obcecada pelo amor que sente por mim que está esquecendo de cuidar de você.
— Tudo que preciso é estar com você, Sasuke — sorriu alienada, e era nítido que não estava em seu juízo perfeito, nem seus olhos tinham foco. Ele apenas negou com a cabeça.
— Isso tudo foi um erro desde o princípio.
— Não seja bobo, meu amor. Estarmos juntos e termos um filho é a coisa mais acertada a se fazer. É o que um casal apaixonado deve fazer!
— Não somos um casal apaixonado, sequer somos um casal. Não podemos prosseguir com isso.
Ela abriu bem os olhos, sem querer acreditar.
— Não pode desistir agora... Prometeu que iríamos à clínica hoje... Eu quero o meu filho, Sasuke! Você tem que me dar o meu filho!
— Não vai ser um filho que vai mudar nada entre nós. Vou continuar amando Naruto, sendo pai de Aiko e Daisuke a quem amo mesmo sem ter visto seus rostos ainda. Vou continuar te vendo apenas como uma pessoa que passou por minha vida, sem nada especial. Eu nunca vou poder sentir por você o tipo de amor que deseja, e precisa se conformar com isso, seguir com sua vida.
— Eu não posso viver sem você, Sasuke! Não faça isso comigo!!! — franziu o rosto e caiu num choro sofrido — Nós vamos à clínica! Vamos hoje mesmo!
Ele respirou fundo, tentando se dar paciência.
— Não posso fazer isso comigo, com você, nem com uma criança inocente. Não posso continuar fingindo para todos. Não vamos ter esse filho, Karin.
Ela apertou o próprio corpo, abraçando a si mesma enquanto via novamente seu sonho ruir. Ao erguer-lhe o rosto parecia completamente fora de si.
— Madara me prometeu! Ele me disse que faria você continuar casado comigo, que te obrigaria a me dar um filho!
O Uchiha estreiou as sobrancelhas, completamente irritado.
— E tem noção de a qual preço, Karin? Minha mãe está confinada num lugar detestável apenas para que você viva nessa farsa e fique feliz. Você está destruindo a vida de todos só para fingir que é feliz comigo. Está destruindo a sua e a minha vida!
— Só estou tentando salvar nosso casamento!
— Estou cansado disso, de tudo isso! De ser manipulado como se não tivesse vontade própria. Tem ideia de como me sinto? Tem noção do quão infernais tem sido esses últimos dias? — a voz começou a se erguer e seus olhos tornaram-se vermelhos como sangue, assustando-a.
Aqueles horríveis olhos da família Uchiha, que mudavam de cor conforme e fúria os consumia. Olhos de um clã movido pelo amor, que não sabe lidar com a dor que ele provoca, que se perde nos sentimentos e inexperiência. Uma dor tão grande que sangra seus olhos, que lhes consome a alma.
Ela fez menção de dizer algo, mas ele a cortou, com uma face assustadora.
— Eu não consigo lidar com isso, Karin! — vociferou, alto o suficiente para os vizinhos ouvirem — Não consigo mais!!!
Respirou fundo, porque no estado em que se encontrava era capaz de fazer alguma besteira, passou as mãos pelo rosto, irritadiço. Caiu sentado de volta na poltrona, os cotolevos apoiados nos joelhos, os pulsos fechados sobre os olhos.
Como sua vida se tornou aquele pesadelo sem escapatória? Pelo que estava lutando tanto?
Karin estava tão surpresa que não sabia o que fazer, mas sentiu pela dele. O que a fez se aproximar devagar.
—... É fácil acabar com esse sofrimento, meu querido — passou as mãos pelos cabelos negros e macios — Vamos à clínica, me dê o meu filho. Isso vai salvar sua mãe, seus gêmeos detestáveis, e aquele loiro estúpido — sorria, sem se importar com a grosseria.
Sasuke se acalmou, passando as mãos pelo rosto. Quando o ergueu à Karin os olhos haviam voltado à cor normal. Ela lhe sorria inocentemente, alheia a tudo.
Percebeu que era inútil. Karin estava cega, não era capaz de sentir nada por ninguém. Sua obsessão era maior que tudo.
Assentiu, vencido.
— Muito bem — ergueu o corpo — Se minha única escolha para salvar as pessoas que amo for lhe dar esse filho, então assim será.
Ela sorriu deliciada, contudo ele prosseguiu.
— Vá sozinha à clínica, faça seus exames e decida as datas, ou o que bem quiser. Quando minha presença for indispensável então eu irei com você.
— Mas quero que vá comigo agora! Isso é importante para mim.
O moreno olhou-a por cima do ombro e lhe disse com o usual tom frio.
— Exato, isso só é importante para você.
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Colocou as malas no chão, obsevando o que seria seu novo quarto. Um ambiente apertado, uma janela grande dando vista à avenida lá embaixo, duas beliches espremidas no cômodo, o chão de madeira gasta.
Era pequeno, mas de certa forma confortável.
Duvidava que passasse muito tempo ali. Era um quarto destinado ao primo e a avó durante os dias de estadia. Provavelmente ficaria internado na clínica de tratamento sem poder sair para nada.
Era um preço justo a se pagar, se com isso pudesse salvar seu bebê.
Menma logo se apropriou da cama ao lado da janela.
— Você fica com a cama perto do banheiro. Soube que grávidos vão ao banheiro mil vezes durante a noite.
— Pois ouviu certo — devagar Naruto caminha até a cama, sempre segurando a parte baixa da barriga, descendo devagar para se sentar. Estava exausto. O longo casaco negro até os pés o deixava muito elegante, a barrigona saltada para frente, muito redonda. Um cachecol longo e quentinho se enrolava no pescoço. Livrou-se das roupas ao passo que o aquecedor salvava-lhe do frio muito intenso.
Nem bem sentou e franziu a testa, a dor voltando com força.
Adoraria visitar a cidade, conhecer gente nova e provar a comida local. Queria estar naquele país apenas a passeio, poder se divertir. A incerteza o estava martirizando e saber que só visitaria o médico na manhã seguinte era desolador.
— Tente se deitar e relaxar um pouco, Naru. Vamos ajeitar tudo pra você — Menma lhe deu um dos travesseiros que estava em sua cama.
— Desculpe por isso – Naruto chutou para longe as botas e largou-se de barriga para cima na cama. Cobriu os olhos com o braço, uma vertigem desagradável na garganta. Sentiu quando uma coberta foi posta sobre seu corpo e riu ao primo.
— Obrigado. Você é muito atencioso, deve ser um ótimo namorado — esticou a coberta e fez o moreno rir em resposta.
— Isso é uma indireta? Valeu Naru, mas você não faz o meu tipo, mesmo sendo muito gato.
— Oh, claro que sou muito gato só porque somos idênticos!
— Já imaginou um filho nosso? Seria um terceiro Naruto!
— Me dá aflição só de pensar. Não venha para perto de mim se não estiver usando preservativo!
— Acho justo — riu safado e ajoelhou sobre as pernas do loiro que riu ao ter os braços segurados dos lados da cabeça.
— E se eu quiser ficar por baixo? Olha que não sou compatível e não teria riscos.
— Posso gostar da ideia. Olhe para mim com esse barrigão enorme, não pareço sexy? — piscou um olho e o moreno entrou na onda.
— Muito! Me possua, Naru!
— Quando eu acabar você vai implorar por mais!
— Aaaaah, Naruto! — fingia cavalgar seu corpo — Mais forte!
— Oooooh, Menma! — segurava-lhe a cintura — Estou quase lá!
Tsunade entrava no cômodo trazendo sua mala quando se depara com Menma ajoelhado sobre o corpo do loiro, tapando a boca dele e beijando as costas de sua própria mão, fingindo lhe dar um beijão enorme, os dois gargalhando. Bateu na porta chamando atenção dos dois.
— Espero não estar interrompendo — revirou os olhos, colocando a mala num canto, ignorando por completo os dois idiotas — Estão se consolando dos corações partidos, é?
— Algo assim — Menma destapou a boca do loiro que ria esganiçado. Era bom vê-lo rir um pouco e parecer mais animado. Sentou atrás do corpo rechonchudo, reivindicando espaço na cama pequena.
— Pois não façam isso na minha frente, por favor — nem fez caso, eles eram assim desde sempre.
— Está tudo certo para amanhã de manhã? — o rosto do loiro tornou a ficar sério e internamente Tsunade desejou que ele voltasse a fazer graça com o primo estúpido. A preocupação que rondava aquela viagem pressionava os três.
— Provavelmente você ficará internado para fazer os exames. Precisa tentar relaxar até lá.
— Como se eu pudesse — esticou as pernas sobre os joelhos de Menma, este dando algumas palmadas sobre elas.
— Vai dar tudo certo se você ficar calmo. Ficar preocupado agora só vai piorar tudo, Naru. Viemos para cá justamente por acreditar que o Dai vai conseguir, certo?
Naruto sentiu um calor gostoso por dentro, pelo fato de estar ali com pessoas que o apoiavam e torciam por ele, que largaram tudo para ajudá-lo. Sentiu-se querido de verdade, e para agradecer não poderia deixá-los preocupados, não era justo. Sorriu.
— Sei que ele vai conseguir. E já que estão falando em relaxar, será que podemos pedir uma pizza? Fugir do jejum não parece tão ruim.
Eles dois riram entre si.
— Nem pensar!
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Itachi resmungou ao advogado.
Desde que iniciou aquela conversa ainda não havia lembrado de nenhuma informação importante, pelo contrário.
Sasori havia pedido que levasse algo para casa... O que era mesmo? O jantar? Ou seria alguma compra... Até mesmo uma informação simples daquela sumia de sua mente, quem dirá dados bancários, datas importantes. A conversa parecia um dialeto num idioma incompreensível!
O advogado lhe falava com entusiasmo, mas as palavras se perdiam em algum lugar de sua mente. A cabeça lhe doeu, uma pontada forte no topo que o fez respirar forte.
Precisava se concentrar, por Naruto. Afinal Sasuke não podia fazer nada para ajudar e confiou-lhe essa missão. E Sasori lhe dera um voto de confiança ao deixá-lo sair sozinho pela primeira vez desde o acidente.
Não os decepcionaria jamais.
Observou a sala enquanto os quatro homens diante de si conversavam. O diretor de seu banco, ao lado de um investidor, um advogado de confiança de Itachi e seu economista. Aquele era um assunto delicado, afinal sem nem perceber Naruto receberia uma imensa soma em dinheiro após a quantia solicitada por Itachi ser transferida para sua conta. Era um processo burocrático, mas que ajudaria o loirinho a se tratar no exterior.
Percebeu que ficaram em silêncio e volveu-lhes o olhar, percebendo que todos olhavam para ele. Praguejou mentalmente, não conseguia se concentrar mesmo que quisesse, sua mente parecia dispersa. Aquele homens conheciam um Itachi completamente diferente, um que sempre foi tido como gênio, de pensamento rápido, atitudes brilhantes. Um exímio líder.
Entretanto, após despertar do coma, mesmo que sua melhora tenha sido bastante significativa o Uchiha ainda não conseguira recuperar a rapidez e fluidez dos pensamentos. Precisava de mais tempo, de mais exercício, mais consultas no especialista.
Não tinha tempo para nada disso. O tempo de Daisuke estava se esgotando rapidamente.
Pigarreou e apoiou as mãos entrelaçadas sobre a perna, ligeiramente dobrada sobre a outra.
— Quero saber se é um procedimento seguro — desconversou e eles morderam a isca, porque começaram outro longo texto sobre a solidez das relações entre clientes importantes ao banco. Afinal Itachi era o herdeiro direto dos Uchiha, um dos clientes mais importantes do banco.
Uma vertigem se formou devido à dor de cabeça forte e ele fechou os olhos por um momento.
Odiava admitir, mas não conseguiria concluir aquele assunto sozinho. Pediria a Sasuke que o acompanhasse para concluirem as ações. Era uma forma de garantir que não faria algo impensado, pois não estava em condições de retomar a vida assim tão depressa.
Três longos anos de medicações fortes deixaram uma marca significativa em sua vida.
Fitou seus pertences sobre a mesa. A carteira, alguns documentos e cartões, uma grande papelada. Perguntava-se se conseguiria tornar à vida de executivo. Manter-se preso naquela sala o fazia sentir sem ar. Os poucos dias que passou ao lado de Sasori, em contato com o jardim, ouvindo o canto dos pássaros, o som da chuva, o ressabiar do vento nas folhas... As coisas simples da vida que nunca tivera tempo de observar. Não sabia dizer se conseguiria retornar à presidência.
Cada dia se entusiamava com as memórias que voltavam a ele. Sequer lembrava que o esposo tinha o costume de colocar a franja detrás da orelha quando estava empolgado, ou que desviava o rosto, corado e sem graça ao ser encarado por um longo tempo.
Riu só de lembrar. Sasori era adorável, lindo e forte. E a única certeza que tinha era de que, independente do emprego que escolhesse dali pela frente, desejava passar mais tempo com ele. Poder jantar juntos, ouvi-lo rir, levar as broncas típicas de um escorpiano possessivo.
Sentiu falta dele naquel exato momento, percebendo pela enésima vez que os homens o encaravam esperando dele uma resposta.
Suspirou e abriu a boca para se desculpar e sugerir marcar um novo encontro mais tarde, com a presença de Sasuke, mas o celular vibrou sobre a mesa chamando-lhe a atenção. Estranhou o número desconhecido.
—... Podem me dar um momento? — indagou, ao que foi prontamente respondido com afirmativas. Levantou-se, gracioso e majestoso, para então seguir em direção ao longo corredor do prédio bancário, buscando o lugar mais reservado entre a grande quantidade de pessoas que perambulavam ali.
Ao atender, a voz do outro lado pareceu-lhe bastante familiar, e um sentimento desagradável cruzou seu corpo.
Conhecia aquela voz, muito bem, embora ainda estivesse incerto de quem seria.
—... Quem é? — indagou confuso e muito angustiado, um mal presságio invadindo o peito.
A voz soou novamente, impassível.
—... É uma pena que o tempo tenha se esgotado, não é Itachi?
O moreno se sentiu desconfortável e não quis prolongar o assunto, saindo a passadas duras em direção à porta de entrada, pedindo licença, misturando-se às pessoas.
Teve certeza de quem era a pessoa com quem falava.
—... Shisui? — embora indagasse estava certo de ser ele. Reconheceu a voz de seu melhor amigo, alguém de sua inteira confiança. Só não conseguiu entender o motivo daquele tom enigmático, frio e distante. Não parecia o Shisui que conhecia.
O que estava havendo?
— Shisui! — insistiu, caminhando pela frente do prédio, o coração alarmado.
— Não houve uma oportunidade para salvar quem você tanto queria, Itachi. E essa pessoa está morta agora.
Itachi sentiu o estômago embrulhar como se quisesse vomitar. Teve medo de perguntar, de descobrir o óbvio que tanto temia.
— De quem está...? — a mente girava e desejou se sentar, começando a lamentar estar sozinho.
— Não acha melhor assim? Estando morta, parte dos problemas dos Uchiha se resolvem. Não há mais o que você possa fazer, e pode ficar despreocupado. Ela se foi com um golpe rápido, nem teve tempo de sentir dor.
O gosto amargo subiu aos lábios do Uchiha, que suou frio.
Não podia ser.
— Onde minha mãe está...? O que aconteceu com ela?
Uma respiração abafada soou.
— Ainda não entendeu o que estou tentando te dizer? — pausou, sem a menor emoção na voz, como se dissesse algo completamente normal -...Mikoto já está morta, Itachi. Não há mais o que você possa fazer.
Itachi deixou o celular cair, porque sentiu tanta dor que a cabeça parecia prestes a explodir!
Precisou envergar o corpo em direção à guia da rua e vomitou o pouco que conseguiu comer pela manhã, sem perceber quando começou a chorar, sem entender os sentimentos conflitantes dentro dele.
As lembranças de sua mãe se confundiam tão depressa na consciência que era difícil advinhar o que vivenciou ou o que era fruto de sua imaginação. O sorriso gentil ainda estava lá, bem como a mão que acariciava suas costas, que deitava a cabeça de menino no colo, que cantava para fazê-lo dormir.
Arregalou os olhos pasmos e molhados , parando de respirar por um momento.
Uma lembrança que até então nunca havia aparecido em sua cabeça se misturava às imagens.
Estava no hospital... Ainda entubado, buscando desesperadamente por ar. Lembrava de tossir, de achar que engasgaria com o remédio que voltava pela garganta. Mas alguém tirou o tubo de sua boca, virou sua cabeça e bateu nas costas, para desengasgá-lo.
Lembrava de conseguir enxergar por poucos segundos, embora os olhos estivessem abertos a visão se dissipava por causa da medicaçao forte.
Era Sasuke? A figura do irmão mais novo surgiu diante dele, muito embora com cabelos bem mais compridos que o normal. Ele parecia preocupado.
"Itachi!" — chamava, mas sua visão tornou a apagar, os olhos se fechando.
Aquela voz... Era parecida com algo distante em sua mente.
Era sua mãe.
Lembrou de sentir um toque quente em sua mão, a frase completa se misturava, apenas alguns trechos nítidos na lembrança.
"Me desculpe", "Queria muito te ver de novo", "Sempre vou te amar"
Não suportou as lembranças voltando todas de uma vez e caiu de joelhos, tornando a vomitar junto à guia, chamando atenção de quem passava pela rua. Um homem tão bonito, de boa aparência passando tão mal àquela hora da tarde.
Tentou abrir os olhos, segurando a cabeça dolorida, a vista escureceu, quase fazendo-o perder os sentidos.
"Não desista de sua vida, Itachi", "Sasuke precisa de você", "Eu preciso de você!"
Lembrou de tudo. O momento em que Mikoto entrou sorrateira no hospital, vestindo o traje de um enfermeiro. Ela o salvou de asfixiar, contou-lhe que fugiu do país para não ser morta, que voltou unicamente para vê-lo. Disse-lhe o que verdadeiramente acontecia no clã Uchiha, o motivo de ser exilada.
De seu martírio para que pudesse dar à luz Sasuke, porque nunca conseguiu desistir dele.
Ouviu toda a verdade de sua mãe, sem poder se mexer, as palavras ficando presas na semi consciência.
Tossiu, respirando tão depressa que estava a ponto de hiperventilar.
Um rapaz que passava por ali percebeu como aquele rapaz bonito passava mal e se compadeceu, baixando-se perto dele.
— Está tudo bem?
Itachi lhe ergueu os olhos, o foco voltando aos poucos. O borrão tomou forma e conseguiu perceber o homem diante de si.
Piscou algumas vezes, sem responder.
— Quer que eu chame alguém?
Itachi fez que não, olhando em volta e percebendo que uma pequena multidão se formava para ver o que estava acontecendo. Ao negar com a cabeça e se levantar devagar o interesse das pessoas pareceu se esvair, e cada um seguiu seu caminho.
Olhou de um lado para o outro, não dando atenção ao celular largado no chão, percebendo bem o local à volta.
Um frio na barriga o acometeu e ele piscou, desesperado. De repente nada fez sentido, nada pareceu certo, e não soube o que pensar.
Onde ... Estava? Que lugar era aquele?
E mais importante: quem ele era e o que fazia naquele lugar? Seu próprio nome, idade, identidade, tudo sumiu de dentro da mente, deixando-o num vazio de medo e solidão. Observava as pessoas ao redor, completamente confuso e desnorteado.
Para onde deveria ir? O que deveria fazer?
Não sabia. E isso o apavorava.
—-
Muitos exames feitos e o loiro percebeu que dominar um idioma era realmente difícil. Era complicado acompanhar o ritmo acelerado de fala de um nativo, muitas coisas ele ainda não compreendia com exatidão.
Foi submetido a diversos exames médicos exaustivos. Para seu alívio, Daisuke ainda lutava bravamente para sobreviver. Ao fim da tarde, depois do que pareceram horas infindáveis, o médico veio ao quarto lhe explicar a real situação e o diagnóstico final.
Naruto piscou diversas vezes ao encarar aquele homem. Era provavelmente uma das pessoas mais estranhas que já viu na vida! Um cabelo longo e escorrido preso num rabo de cavalo frouxo, uma maquiagem exagerada, íris finas que lembravam uma serpente. Até mesmo sua voz lembrava um sibilo de uma cobra venenosa.
— É um prazer conhecê-lo, Naruto — esticou a mão para um cumprimento. O loiro assentiu e retribuiu o gesto.
— O prazer é meu... — estreitou os olhos para ler o nome do médico bordado no jaleco branco — Orochimaru, não é?
— Exato — sibilou novamente, com aquela voz rouca — Não sei se consegue me entender — falou mais pausadamente.
Observava o corpo do loiro com fascínio. A medicina era sua paixão, mais ainda os casos tidos como impossíveis. Que besteira! Se havia alguém que tentava a todo custo driblar a morte, esse alguém era Orochimaru. O corpo lindo daquele jovem loiro o entusiasmava!
— Eu o compreendo perfeitamente, doutor — adiantou, dialogando no idioma local — Qual o diagnóstico do Daisuke? Ele será uma criança normal?
—“Se” ele sobreviver, é certo que terá algum tipo de dano – adiantou, olhando atentamente os resultados impressos dos exames recentes.
— De que tipo?
— Tudo depende de regularizar o funcionamento do coração para que ele possa se desenvolver sem mais sequelas.
Naruto arregalou os olhos, imóvel.
— Sem mais sequelas...? Então ele... Já apresentou algum problema?
— De todos os problemas que essa criança tem, acho que esse é o menor deles — sorria como se falasse de algo simples.
— O que o Daisuke tem? Como ele está? — foi ficando mais nervoso e o homem o fez endireitar o corpo.
— Paciência, sim? Ficar tendo chiliques vai agravar seu estado. Como eu dizia, nessa fase da gestação do compatível é normal que a criança apresente algum tipo de má formação. Foi o que aconteceu a ele.
— E que má formação é essa??? — chegava a engasgar, o aparelho que media seu batimento cardíaco apitando alto.
— Deveria ficar aliviado, porque se esse menino sobreviver , a sequela será o menor dos problemas. Ele não desenvolveu o braço esquerdo do cotovelo para baixo, o que significa que nascerá com apenas o braço direito. Isso acontece quando a circulação está de algum modo comprometida.
Naruto pareceu perdido, fitando desolado a própria barriga.
—... E você me diz que não há com o que me preocupar? Está me dizendo que meu filho nascerá sem um dos braços e me diz que é algo normal?
— Para uma criança desenganada, cujo destino é a morte certa, ter a oportunidade de nascer é um privilégio — o sorriso ainda estava lá, um tanto debochado — O que prefere? O garoto sem um dos braços, mas podendo levar uma vida normal, ou ele nascer com ambos os braços e morto?
A raiva ferveu o sangue do loiro e seus olhos faíscaram.
— Fui um idiota pedindo ajuda à alguém como você! Não existe sensibilidade médica em você!
— A questão aqui... — sequer se abalou pelo ataque dele — É que você é pai, Naruto. E como tal quer que seus filhos nasçam "perfeitos". Eu lhe digo que Daisuke é perfeito, porque está lutando para sobreviver quando todos já desistiram dele. De certa forma, ao me dizer que não aceita o fato dele não ter o braço, você está desistindo dele também.
O loiro pareceu atônito.
— Claro que não! Eu o quero mais que qualquer coisa! Eu o amo tanto que não posso explicar e vou amá-lo não importa se tenha um braço ou os dois. Para mim tudo que mais importa é que ele viva!
— Então pode concordar comigo que isso não é nada, apenas um detalhe. O importante agora é assegurarmos que ele nasça bem.
Naruto entendeu pela primeira vez o que ele queria dizer e o viu de outra maneira.
De fato, estava assustado com a possibilidade de Daisuke ter algum problema de saúde. Colocar isso em pauta lhe causava calafrios. Apenas saber que ele teria algo que dificultaria sua vida dali por diante o apavorava. Queria o melhor para ele.
—... Ele pode ter algum tipo de deficiência?
— É cedo para dizer. Se o cérebro sofrer com falta de oxigenação pode apresentar alguma deficiência intelectual, ou pode comprometer sentidos como visão. Ele pode não enxergar, não ouvir ou não conseguir falar.
Naruto engasgou.
Era pai, e como qualquer um queria uma criança saudável. A mera menção de poder chegar a ter uma criança especial o enchia de pavor.
Expirou com força, piscando algumas vezes, e então ergue o olhar ao médico.
—Vou amá-lo não importa o que aconteça, doutor. Vou cuidar dele, quero que ele viva! Tem milhares de coisas que ele precisa ver, provar e aprender! Quero mostrar tudo a ele, quero ensiná-lo.
Orochimaru pareceu ouvir a resposta que tanto ansiava. Não trabalhava com pessoas que já desistiram antes mesmo de tentar.
— Então vamos cuidar do que realmente representa um problema aqui — a tela da imensa tv presa à parede acendeu conforme pressionou um botão no controle remoto. Uma animação em 3D surgiu, indicando passo a passo o procedimento que seria feito.
A pele do loiro eriçou por completo.
— O que seu bebê apresenta é um tipo severo de Estenose Aórtica, uma má formação que compromete o funcionamento do coração. Para tratá-lo corretamente precisaremos fazer um procedimento intra-uterino invasivo.
Naruto empalideceu apenas de pensar ao que Daisuke seria exposto.
— Isso antecipa o parto?
— Não, como eu disse é um procedimento intra-uterino, ou seja, faremos ìntervenções ainda durante a gestação. Voce será anestesiado como ocorre no momento do parto, assim como os gêmeos.
— Aiko também terá de ser anestesiada?
— Caso ela se mexa pode comprometer o desenvolvimento da intervenção, uma vez que teremos de inserir uma agulha de cerca de 15 cm em sua barriga em direção à cavidade do invólucro, para então seguir ao torax até atingir o coração do bebê.
Parecia horrivel só de pensar.
— Terá de ficar internado conosco por uma semana para garantirmos que não há riscos. O procedimento leva em média dois dias. Trataremos do coração do feto em intervenção realizada no interior do centro cirúrgico, com auxílio de uma equipe multidisciplinar. Tudo será monitorado pelo ultrassom do coração.
— Desde que eles fiquem bem pode fazer o que for preciso.
— É importante frisar que esse método não vai curá-lo. Apenas melhoraremos o fluxo sanguineo e isso refeltirá na vida dele tanto no útero, quanto após o nascimento. Em seguida faremos novos exames para verificar o andamento da intervenção. Tudo depende do modo como ele vai reagir agora, Naruto. Se o feto, Daisuke como você o chama, reagir ao procedimento e seu coração normalizar os batimentos, as chances dele sobreviver aumentarão muito.
Os olhos azuis brilharam de esperança.
— Esse procedimento está incluído no valor que foi pago anteriormente por minha família?
— Na verdade — riu deliciado — Estou surpreso por tratar um paciente que paga os procedimentos à vista. Esses Uchiha são uma família fascinante!
O loiro pareceu surpreso.
— Uchihas...? O que eles tem a ver com tudo isso?
— A pessoa que solicitou seu tratamento e o pagou à vista, incluindo todo o pós operatório foi... — vasculhou alguns documentos — Sasuke Uchiha. Imagino que seja o pai das crianças, não?
— Sasuke pagou meu tratamento? Mas como?
— Quando seus pais entraram em contato para efetuar o pagamento já estava tudo acertado por esse tal Uchiha — sorriu — Ao que parece também estão efetuando a transferência de um valor significativo à sua conta bancária.
— Isso é um absurdo! Eu não quero nada dele! Não quero que nada seja pago pelos Uchiha!
— Em seu lugar eu simplesmente aceitaria — deu de ombros — Já aviso de antemão que está aos cuidados dos melhores profissionais que pode desejar, e nosso custo não é barato. Não importa quanto dinheiro tenha, certamente não é suficiente. Engula seu orgulho e se concentre apenas em cuidar do seu filho. Ao que pude perceber, o tal Uchiha gosta mesmo de você, ele parecia muito preocupado quando entrou em contato com a equipe.
Naruto ficou confuso, sem palavras que pudessem explicar o que sentiu.
Sasuke evitava contato, mas pagara seu procedimento? Com que intuito? Não conseguia imaginar os motivos que o levaram a tal atitude, ele não estava convicto de dar um filho à Karin?
Baixou o rosto, muito desolado, divertindo o médico.
— Imaginei que estivessem brigados porque ele não quis vir também. Apenas nos pediu que informássemos tudo que está acontecendo a você.
—... Sasuke é uma pessoa muito complicada — foi tudo que conseguiu dizer, mas ignorou a atitude dele.
No momento só conseguia se concentrar em Daisuke, depois se entenderia com o Uchiha.
— Se estiver tudo certo podemos iniciar imediatamente as intervenções. Está em jejum há doze horas, de bexiga vazia. Sua avó e seu primo escandaloso trouxeram sua mala, não vejo porque não iniciarmos o quanto antes. Cada segundo conta muito.
Assentiu que sim, concordando com tudo.
Foi encaminhado a um local de desinfecção, vestiu um traje operatório, uma touca posta nos cabelos, e em seguida foi levado em uma maca à sala de cirurgia.
Estava muito nervoso! Assistia acima de sua cabeça uma equipe médica trajada com roupas azuis, máscaras e toucas nas cabeças. A equipe era formada por Orochimaru, especialista em medicina fetal, um intervencionista e uma anestesista. Outros ajudantes de juntavam a eles.
Olhava aturdido a sala ao redor, o pânico crescendo consideravelmente no interior do loiro, ainda mais ao fitar os instrumentos dispostos ao lado da mesa de cirurgia em que estava. A anestesista lhe sorriu sob a máscara branca.
— Tente ficar calmo e relaxar, senhor. Deixe tudo em nossas mãos — deitou-o de lado e lhe deu uma injeção anestésica local, entre as vértebras das costas. A picada incômoda fez o loiro franzir a testa e respirar fundo devido à pressão.
Sentia-se horrivelmente sozinho. Gostaria que Menma ou Tsunade pudessem estar ali com ele.
Conforme o anestésico local se espalhava e adormecia a região da aplicação recebeu a anestesia propriamente dita. Tentou se manter calmo, imóvel e respirar pausadamente para facilitar o procedimento. Ouvia a anestesista lhe dizer os sintomas que seguiriam, e sabia que permaneceria dormindo durante o procedimento. Suas pernas começaram a ficar dormentes e o sono veio rápido, profundo, apagando sua mente e seu último desejo latente antes de desacordar por completo.
Tudo que mais queria era que Daisuke se salvasse. Ele precisava sobreviver.
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O médico franziu a testa pela milésima vez, deixando a ruiva agitada e nervosa. Sentada sozinha na sala de consulta da clínica de fertilização diante do médico que avaliava seu perfil e saúde.
— A senhora me disse que é casada? Onde está seu marido?
Karin agitou as mãos no colo.
— Ele é presidente de uma companhia importante, a Uchiha Co. Como hoje vim apenas fazer os exames e tirar dúvidas ele não veio comigo.
O homem a fitou por cima dos óculos por um momento, para em seguida baixar o olhar aos exames.
— Há quanto tempo não faz exames de rotina?
— Me sinto ótima, doutor. Não há porque fazer exames se estou bem.
Ele discordou completamente.
— A senhora sabia ter problemas hormonais? Não reparou a perda constante de peso?
— Nada disso importa, doutor! Eu só quero ter o meu filho!
— Seu estado hormonal é alarmante. Mesmo que engravidasse agora correria sério risco de aborto espontâneo, de gerar uma criança deficiente, tememos até mesmo que não sobreviva a uma gravidez — ajeitou so óculos na ponta do nariz.
Karin se sentiu confusa e perdida.
— Mas... Isso pode ser revertido, não é?
— Ainda que ignorássemos seu estado de saúde, mesmo fazendo o procedimento de inseminação, não resultaria em nada. Seu corpo nesse momento não apresenta a menor condição de gerar uma criança saudável.
O mundo da ruiva parecia ruir com isso.
— Mas eu quero ter o meu filho! Eu preciso dele, doutor!
— O exame não apresenta falhas ou erros, senhora Uchiha.
Karin pareceu tao perplexa quanto uma estátua, as lágrimas de raiva escorrendo sem controle pelo rosto.
—... Entao está me dizendo...?
— A senhora não pode ter filhos. E duvidamos que seja capaz de engravidar algum dia. Eu sinto muito.

Continua.

Notas finais
Sei que vocês estão felizes da vida com essa notícia, kkk. Muitas coisas estão acontecendo: Daisuke ganhou uma oportunidade de se salvar, embora já esteja certo que ele não tem o braço esquerdo (semelhante ao que aconteceu com o Sasuke no final do mangá). Itachi perdeu a memória e está sozinho, sem saber para onde ir. Mikoto estará morta? E quem diria: Karin não pode ter filhos! O que vai acontecer daqui por diante? Quero saber o que estão achando. Ultimamente são os comentários de vocês que me movem e motivam. Obrigada a quem sempre comenta, manda mensagem, amo cada um de vocês. Agradeço também pelos fantasminhas que saem do anonimato e vem conversar comigo, adoro conhecer vocês. Aproveita que terminou de ler e deixe um comentário dizendo o que quer que aconteça de agora em diante. A quem lê Oblívio ela será atualizada por esses dias. Beijo grande e boa semana, pudins! ;)