Entre A Razão E O Desejo - Em edição
24 Reencontro
Notas iniciais
Olá e sejam bem vindos de volta! Desculpe a demora para postar. Senti saudades de vocês e dessa fic que amo demais!
Escolham sua melhor trilha sonora para este capítulo e se possível leiam até o fim sem interrupção. Sei que são muitas palavras, desculpe novamente por isso, mas garanto que valerá muito à pena! Eu escrevi ao som de Mirai, tema de encerramento de Orange e de Pi no to ameri, o novo encerramento do Shippuuden. Essas músicas descrevem perfeitamente a intensidade deste capítulo. Espero que gostem de ler tanto quanto eu gostei de escrevê-lo.
Não vou falar muito porque quero que vocês leiam de uma vez, estou ansiosa para saber o que acharam!
OBS importante: tive que cortar algumas cenas desse capítulo porque o Nyah não permite mais capítulos que excedam 25 mil palavras. Caso queira ler o capítulo na íntegra, sugiro que vá até as notas finais e clique no link do outro local em que ele está postado.
Lembrete de que esta fic possui direitos autorais. Não a plagie, e de verdade? Seja sincero consigo mesmo! Não copie, crie!
Recados dados, boa leitura!
Durante o tempo em que esteve ali teve diversos lampejos de memória, coisas que, sozinhas, não faziam o menor sentido. Recordou-se de um garoto loiro com marquinhas de raposa nas bochechas olhando afobado para ele enquanto o carregava pelos corredores do que parecia um hospital. Lembrava de vê-lo se aproximar muito nervoso, fingindo beijá-lo quando dois homens vestidos como médicos passavam e os olhavam com repulsa.O tal garoto e ele... Mantinham algum tipo de relação? Recordou de alguém plantando uma rosa vermelha em um vaso, e de como afagou seus cabelos devagar quando ele parecia prestes a chorar. Nada fazia sentido. A lembrança mais vívida era algo que parecia ter ocorrido muitas vezes. A de acordar em agonia, engasgado, sem ar. A sensação de ânsia e o gosto enjoativo de remédio sentido nitidamente na boca, subindo pela garganta.Não se recordava, mas havia deixado tudo sobre a mesa quando deixou o prédio do banco, e o celular quebrou ao cair no chão quando recebeu a notícia que bagunçou sua mente e o fez esquecer-se de tudo.Despertou daqueles lampejos de lembranças ao perceber as luzes baixarem e uma mulher se aproximar, os passos ecoando na igreja vazia. — Me desculpe. Precisamos fechar os portões agora. Itachi volveu o olhar a ela e tencionou dizer o que estava acontecendo, mas nem sabia por onde começar, de modo que acabou desistindo.—... Claro — tentou parecer calmo, mas o desespero começou a tomar conta. Para onde iria? O que faria no meio do nada? Ainda que perguntasse que lugar era aquele, não saberia para onde seguir. A mulher preocupada e Itachi entendeu que devia estar fazendo uma expressão realmente perturbadora. —... Você está mesmo bem? Ele piscou, erguendo o corpo. —... Sim, estou. Obrigado. Tendo dito isso fez uma breve vênia e seguiu para fora dos portões. O vento frio atingiu seu rosto como facas e praguejou em resposta, olhando para os lados. A praça da cidade começava a ficar deserta, e surgiam moradores de rua em companhia de cães que se abrigavam enrolados em cobertores puídos, na tentativa de se esquentar. Itachi suspirou e de sua boca saiu uma densa fumaça branca. Fitou o relógio digital no alto de um poste. Passava de oito da noite. Fazia nove graus, mas a sensação térmica provocava muito mais frio. Decidiu que ficar parado não o ajudaria. Havia perguntado antes aonde ficava o posto policial, e não via outra escolha a não ser seguir até ele. Por estar desmemoriado essa parecia a coisa certa a fazer. Porém se estivesse em juízo perfeito saberia que era a pior opção possível, pois no instante em que pisasse no posto policial, as autoridades descobririam quem ele é, porque seu avô controlava tudo. Ele seria avisado em seguida. E não havia perigo maior do que ser encontrado por Madara estando sem memória, e não lembrando o homem terrível que ele era!Sem saber de nada disso, Itachi apressava o passo pela noite fria em direção ao posto policial. —- — Sasuke? – estranhou o moreno parado na entrada de sua casa àquela hora.— Boa noite, Sasori. Preciso falar com meu irmão.O ruivo fez sinal para ele entrar.— Desculpe, Itachi foi ao banco resolver algumas coisas e ainda não voltou. Ele havia me dito que era um processo chato e que talvez precisasse jantar com o advogado para continuar a conversa.— Ele foi ao banco sozinho??? — gritou e Sasori esboçou uma carranca cúmplice de desagrado. — Com o advogado, como eu disse. Não que isso me deixe feliz, acredite. Mas ele insistiu muito, até que perdi a paciência e o deixei ir. Disse que era algo que somente ele poderia resolver. Percebi que talvez devesse dar algum espaço a ele, afinal não posso vigiar cada passo que ele dá. Itachi teve uma melhora inacreditável, nem parece a pessoa em frangalhos que deixou o hospital. Sasuke ainda quis argumentar,mas não havia muito o que fazer num caso desses e acabou concordando com o raciocício do cunhado, porque se sentia da mesma forma.— Há quanto tempo ele saiu?— Há cerca de duas horas. Eu já ia ligar no celular dele quando você chegou — fez sinal ao mais novo para entrar e Sasuke o fez, limpando os sapatos no tapete antes de entrar na sala de estar.O ruivo retira o celular do bolso e aciona o número gravado na memória. Sasuke deu de ombros e seguiu à cozinha, abrindo a geladeira sem pedir licença e tirando uma lata de cerveja. Engraçado como já se sentia em casa estando com Sasori, jamais faria o mesmo em outro lugar e aguardaria que algo lhe fosse oferecido. Sentou no sofá bebendo tranquilamente enquanto esperava. Havia muito para conversar com seu irmão, estranhou não receber alguma mensagem ou ligação informando que o dinheiro havia enfim sido depositado à Naruto.
Confiava cegamente em Itachi, então imaginou que algo pudesse ter dado errado, era melhor checar.A ligação não completava e caía direto na caixa postal, coisa que enfezou o ruivo. — Não acredito que ele largou esse bendito celular na mesa. Eu disse para não desgrudar dele de jeito nenhum! — afirmou zangado, já localizando o número do homem que estava com seu marido, um advogado de confiança.A ligação foi atendida no terceiro toque. A voz afobada do homem fez um sentimento de angústia invadir o ruivo que apertou o celular entre as mãos.— Senhor, Sasori... — o homem tentava se explicar — Não sei como isso aconteceu, nós não tiramos os olhos dele um minuto sequer!Sasori respirou mais depressa, o medo crescendo consideralmente.Não de novo... — O que aconteceu com Itachi? — indagou exasperado e Sasuke ergueu a cabeça no mesmo instante, largando a lata de qualquer modo sobre um móvel e se levantando, indo para o lado do ruivo que parecia muito aflito. — O que aconteceu? — perguntou receoso, a respiração falhando. Pela palidez no rosto do cunhado temeu que algo tivesse acontecido a Itachi, mas ele se concentrava na ligação e não lhe dizia absolutamente nada.— Onde Itachi está? — Sasori insistiu.— Não sabemos... — o homem do outro lado da linha parecia muito perdido — Eu sinto muito, senhor Sasori, ele estava aqui comigo! De repente o celular dele tocou e saiu um momento para atender. Estranhamos a demora e fomos atrás dele, procuramos em todo o prédio, nos arredores e nada! Não sabemos para onde foi!Sasori volveu o olhar perdido ao cunhado, já sem ouvir a conversa ao celular.— O que foi? — um gosto amargo subia à boca de Sasuke — Diga alguma coisa!—... Itachi saiu do prédio e ninguém sabe onde ele está — respondeu receoso, ainda sem conseguir acreditar, como se anestesiado pelo torpor.Sasuke nem se preocupou em ser delicado e tomou o celular das mãos dele.— É Sasuke Uchiha quem fala, onde está o meu irmão? Qual o último local em que o viram?O relato que recebeu foi semelhante, e Sasuke passou a mão pelos cabelos levando-os para trás, respirando devagar e tentando não ficar aflito. Nervosismo não o ajudaria, precisava ficar calmo!Talvez Itachi estivesse voltando para casa sozinho? Era uma possibilidade.O mais provável era que um dos costumeiros surtos de perda de memória o tivesse acometido, o médico lhes infomara que poderia acontecer diante de estresse ou nervosismo.Mas, pensar que ele havia desaparecido após uma ligação era o que mais intrigava. Que ligação foi aquela? E o que causaria em Itachi trauma suficiente para que ele tivesse amnésia temporária?Desligou, irritado por não saber mais detalhes. Tentou ligar novamente no celular de Itachi mas permanecia mudo até cair na caixa postal.Respirou fundo e fitou o rosto pálido de Sasori, a maneira como ele respirava depressa o assustava. Segurou em seus ombros.— Escute: vai ficar tudo bem.Os olhos vermelhos tremeram.— Ele já deveria ter voltado para casa... Se não voltou é porque deve ter acontecido alguma coisa.— Pare de pensar no pior, vamos até onde ele estava e vamos procurá-lo — puxou-o para fora de casa, atravessando rapidamente o jardim, em direção ao próprio carro estacionado em frente ao portão de entrada. Embora fingisse estar calmo para não alarmar ainda mais Sasori, estava em pânico. Era óbvio que algo aconteceu a Itachi, ele não era do tipo que desaparecia sem avisar. Durante todo o trajeto procuraram pelas ruas atentamente, olhando as pessoas e os becos escuros. No prédio ninguém tinha informações precisas sobre Itachi, exceto seu registro de entrada com os advogados. Tudo após sua saída era um completo mistério.Vasculharam cada canto, os arredores, a praça e nada! Ele havia mesmo desaparecido.Sasori se deteve no meio do caminho, pondo a mão sobre o coração e exclamando de dor. Sasuke o acudiu, tendo medo ao percebê-lo pressionar o peito.— Se acalme e respire fundo. Está sentindo alguma coisa?Ele não respondeu, antes soluçou várias vezes, o rosto se contraindo. —... Ele não está em lugar algum... — fungou mais forte, grossas lágrimas escorrendo pelo rosto — E se estiver machucado? E se alguém lhe fez alguma coisa?— Itachi está bem, Sasori. Nós vamos encontrá-lo, eu prometo à você. O mais velho cobriu os olhos com os punhos fechados, envergonhado por não conseguir se controlar.Estava assustado e temia o pior. Apenas pensar em perder Itachi o paralisava! — Eu não consigo... Não posso perdê-lo de novo... – gemeu baixinho, a voz entrecortada — Não consigo vê-lo daquele jeito outra vez... Não quero ficar sozinho de novo, passar tudo aquilo de novo!Sasuke o observou por um instante. Sempre vira Sasori como um adulto a quem respeitava profundamente, um homem forte que não se deixava abalar por nada. Desejava ter metade da força e fibra que ele possuía. Entretanto naquele momento ao perceber o corpo pequeno tremer, os soluços dolorosos e o choro contrito, deu-se conta de que mesmo a pessoa mais forte tem seus momentos de fraqueza. Percebeu como era natural sentir medo e insegurança, chorar quando a dor parecia sufocar o peito.Por algum tempo não soube o que fazer, ou como consolá-lo. Sasori parecia extremamente ferido, sua voz era um sussurro de dor, e isso incomodou o Uchiha. Nunca sabia o que fazer ou como se expressar perto de Sasori. Sentia-se uma criança tola que nada podia fazer para ajudá-lo. Não possuía experiência ou convicção para consolá-lo, para dizer que tudo ficaria bem, para livrar-lhe um pouco que seja de tanta dor e sofrimento que ele já havia carregado completamente sozinho. Nem pensou direito quando se aproximou alguns passos. Passou as mãos por seu corpo e o puxou para junto de si, com um pouco mais de força do que gostaria, a mão posta sobre os cabelos ruivos. —... Você não está sozinho, Sasori. Tem a mim — abraçou-o mais forte, não sabendo se aquilo iria audar, mas era tudo que podia fazer no momento – Vamos encontrar Itachi, não estou mentindo à você. Mas preciso que se acalme, por favor. Sendo mais baixo, Sasori se viu imprensado, a cabeça buscando apoio sobre o ombro largo, muito surpreso com o gesto repentino. Sasuke não era do tipo que permitia contato facilmente. Fechou os olhos e o abraçou de volta, tentando recobrar a calma, se permitindo fraquejar um pouco que fosse, chorar como queria até molhar o ombro do cunhado.Estava tão cansado de tudo. Viver era um fardo difícil de carregar. Sentia que tudo seria mais simples se deixasse de existir, de sentir dor ou amargura, porque não suportava mais...Em partes estava surpreso. Nunca imaginaria que aquele adolescente rebelde, que foi radicalmente contra seu casamento, se converteria em um homem como aquele. Isso dava orgulho à Sasori.Quando lhe soltou, o Uchiha parecia meio sem graça, de modo que desviou o olhar. Sasori sentiu-se em paz com um abraço tão curto, mas envergonhou-se de dar trabalho, de perder a compostura. Era mais velho, e quem deveria se manter calmo.—... Desculpe, Sasuke. — Está tudo bem – disse sério, o rosto solícito. Deu uma palmada em seu ombro e então seguiu pelas ruas, olhando os rostos de quem perambulava, procurando entre os desconhecidos a face do irmão mais velho.Cada segundo contava se quisessem encontrar Itachi antes de Madara...—-Caminhava devagar, a cabeça latejando, mas recordando de coisas básicas.Lembrava de ser casado, a aliança em seu dedo era prova disso. Mas o rosto do seu cônjuge não lhe era nítido, tampouco o nome. Ainda não lembrava quem era ou onde morava, mas recordava-se de uma grande mansão escura.Revirou os bolsos novamente, na esperança de encontrar algo. Encontrou o que passara despercebido antes, por estar tão desesperado.Havia um pedaço de papel dobrado em seu bolso. Abriu devagar e o leu atentamente.Rabiscado em uma caligrafia cursiva bonita e limpa havia um número de telefone anotado. Pela quantidade de números provavelmente de alguém do exterior. Naruto Uzumaki... Quem era? Um conhecido, talvez?Não quis pensar muito e se apressou pelas ruas à procura de um telefone público para tirar a dúvida. A noite avançava, seria perigoso ficar sozinho sem saber para onde ir.Contornou a praça e encontrou um telefone, rabiscado e depredado, mas que por sorte estava funcionando. Discou a cobrar, uma vez que não tinha cartão. Não sabia se atenderiam uma ligação internacional a cobrar, mas era sua única chance.—-
Menma estranhou o celular de Naruto vibrar em seu bolso, ainda mais ao perceber o número desconhecido na tela. Atendeu, porém ao ouvir a mensagem de ligação a cobrar não quis esperar e desligou, não fazendo muita questão.Havia chegado no hotel há pouco, vindo do trabalho de meio período que arranjou para lavar pratos num restaurante local. Embora o trabalho fosse árduo, o salário era convidativo. Havia voltado ao hotel somente para trocar de roupas e sequer dormiria. A madrugada avançava, mas precisava trocar de turno com Tsunade na clínica em que Naruto seguia internado. Estava muito preocupado com ele, queria saber se estava bem e se a cirurgia havia sido um sucesso.Calçava o terceiro par de meias, na esperança que seus pés ficassem mais quentinhos, quando novamente o celular tocou e vibrou sobre o colchão. Ao fitar a tela percebeu que era o mesmo número, por sinal de uma ligação de seu país natal, Konoha.O raposo achou por bem terminar de vez com aquilo e atendeu.A voz do outro lado parecia confusa e arrastada.—... Naruto Uzumaki?— Não, ele não pode atender agora. Quem fala?Itachi pensou por um momento no que dizer, mas não sabia nem por onde começar, e acabou por ficar mudo. Menma já estava perdendo a paciência.— Se você não vai dizer nada então eu vou desligar — ameaçou, já conhecendo bem a família Uchiha e pensando se não seria algum tipo de trote. A voz do outro lado se exaltou.— Espere — pediu depressa -... Sei que vai parecer estranho, mas é a verdade e peço por favor que me escute até o fim. Não tenho a quem pedir ajuda.Menma não gostou nada daquela conversa, mas de certa forma lembrava daquela voz grossa abafada pelo som do telefone.Quem era mesmo...?— Preciso que me ajude. Eu... Não sei como cheguei aqui, nem sei de onde vim. Tudo desapareceu da minha cabeça, acho que tive perda de memória.— E como achou esse número? De onde conhece Naruto?— O telefone dele estava anotado em um papel que encontrei no meu bolso. Imaginei que o conhecesse e decidi pedir ajuda.— Qual o seu nome?—... Não me lembro.Os olhos azuis giraram impacientes.— Olha foi mal, mas essa sua conversa não me convence. Encontre outra pessoa para brincar.— Estou falando realmente sério, por favor não desligue! Eu só preciso saber se tenho para onde ir.O outro suspirou mais uma vez, irritado com o rumo daquela conversa estranha.Depois de balgum tempo com ele reconhecia nitidamente aquela voz.Era Itachi? Impossível, ele estava sempre sendo cuidado de perto por Sasuke e Sasori, que jamais permitiriam que saísse sozinho. E se aquele homem fosse mesmo Itachi porque estaria sem celular? Por que estaria perdido? Isso sem falar que ele era de certa forma famoso, qualquer um que olhasse seu rosto saberia de quem se tratava.Aquela conversa era muito suspeita. Deduziu que provavelmente se tratava de uma emboscada, um dos costumeiros golpes que os Uchiha armavam para cima de Naruto. Até quando os Uchiha pretendiam atormentá-lo? Já havia se separado de Sasuke, estava passando um momento terrível, não havia porque somar essa dor a ele!—... E por acaso você não se lembra de nada? Família, amigos? — testou.— Nada. Sei que sou casado porque tenho aliança, e de certo modo me lembro, mas não sei o nome dele.— O nome Sasori é familiar à você? Itachi parou, surpreso. Piscou algumas vezes.— Sasori... — franziu bem a testa, tentando a todo custo se lembrar — Não sei, eu realmente não me lembro.Isso pareceu definitivo ao raposo. Quando foi retirado do hospital, Itachi recordou-se de Sasori mesmo depois de acordar de um coma de três anos. Bastou um olhar para que soubesse quem era, para que o abraçasse e chamasse seu nome mesmo sem ninguém lhe dizer nada. Se realmente fosse Itachi a falar com ele naquela ligação, e se realmente tivesse perdido a memória, saberia quem era Sasori.— Eu não acredito nessa sua conversa, e se for um truque dos Uchiha peço que desistam e deixem Naruto em paz. Ele já se separou de Sasuke então não tem porque atormentá-lo com mais problemas. Está passando por uma fase muito difícil.— Mas já lhe disse que...— Ah claro, então você é Itachi Uchiha? Neto de Madara, irmão mais velho de Sasuke e é casado com Sasori, certo? — riu de desdém — Se está perdido como diz então deveria ir até a mansão Uchiha e contar essa história sem sentido ao próprio patriarca! Quem sabe ele não acha graça da situação e te convida para tomar um chá?Itachi parou por um momento, aqueles nomes todos formando um bolo em sua cabeça. Eram tantos, mas nenhum lhe fazia sentido.—... Quem é você?— Menma, e pode dizer isso ao seu querido patriarca quando retornar à mansão Uchiha: que deixe meu primo em paz e que pare de usar Itachi como pretexto! Sasori também já sofreu muito por conta da estupidez desse maldito clã!Não esperou resposta e desligou, irritado.Malditos Uchiha sempre causando problemas aos outros!No outro extremo, Itachi parecia mais confuso do que nunca. Pensou se deveria ligar de novo, mas a julgar pela reação era melhor não.Então seu nome era Itachi Uchiha? Saber isso não diminuía sua frustração, o nome não fazia muito sentido em sua cabeça.Ficou algum tempo pensativo sobre a conversa, e julgou que talvez fosse melhor voltar ao plano original e procurar o posto policial antes que fechasse.Caminhou por cerca de meia hora pelas ruas vazias e geladas, pedindo informações e perguntando o caminho nas poucas vezes que encontrou alguém em algum ponto de ônibus. Disseram-lhe que havia um pequeno posto policial do outro lado, próximo à uma escola de Ensino Médio que logo fecharia. Apressou o passo, seguindo por lugares que não sabia se já havia estado ou não. A sensação de solidão e impotência eram terríveis.Ao final da rua o fôlego já estava se esgotando, mas subiu a ladeira apressado, até encontrar a pequena base da polícia que, para seu completo desespero, estava vazia. Olhou para os lados, na esperança de encontrar algum policial. Nada, mas a cabine estava iluminada, então o mais prudente seria esperar. Foi o que fez. Permaneceu ali de pé, aguentando o vento frio que castigava sua pele, o corpo enrijecido. Uma garoa fina descia do céu cobrindo seus cabelos, deixando-o com o aspecto grisalho, molhando o tecido caro do terno. Itachi cruzou os braços, tentando não transparecer a aflição e o nervosismo que sentia.E se tudo que havia escutado fosse uma suposição, uma brincadeira? Talvez aquele homem ao telefone nem o conhecesse e todas as informações fossem um bando de besteiras! O que faria?Por hora tudo que conseguiu fazer foi se apegar desesperadamente ao que ouviu.Ele era Itachi Uchiha, neto de Madara, irmão de Sasuke, esposo de Sasori! Esse era quem era, essas as pessoas a quem deveria voltar o quanto antes. Descobriria mais de si mesmo, até porque imaginava se sua família estaria realmente preocupada, afinal ninguém o estava procurando.Tremeu de frio, os dentes quase batendo. Retesou mais o corpo, indo para debaixo de uma cobertura minúscula para fugir da garoa que engrossava e se tornava aos poucos em uma chuva gelada.Algum tempo depois, que pareceu uma eternidade, o som de um automóvel indicou o que já imaginava. Era a viatura da polícia que estacionou diante dele. De dentro dela dois policiais desceram, um homem e uma mulher.A princípio observaram cuidadosamente o semblante daquele estranho que parecia prestes a congelar.— Podemos ajudar? — desconfiado, o homem se aproxima, a mão sobre a arma presa à fivela do cinto.Itachi pareceu imensamente aliviado. Deixou o corpo ereto e manteve o olhar firme, embora tremesse de frio. A cor fugia de seu rosto completamente e parecia pálido como um fantasma, os pés e mãos estavam dormentes.—... Boa noite. Eu não sei explicar porque, mas... Por mais que eu tente não consigo me lembrar de nada sobre mim ou minha família, e preciso que me ajudem a voltar para algum lugar onde haja alguém que me conheça!O casal se entreolhou, pensativo.— Você andou bebendo?— Não, ao menos creio que não faço esse tipo de coisa. Eu não me lembro de nada. Não sei que lugar é esse ou porque eu estava andando por aqui.— E por que ninguém está te procurando? Já tentou olhar a lista de contatos de seu celular?— Eu não tenho nada comigo.— E não consegue lembrar porque saiu sozinho?— Não... Nem ao menos sei se tenho um lugar para onde voltar — parou um instante, recordando a conversa do rapaz ao telefone." Pode dizer isso ao seu querido patriarca quando retornar à mansão Uchiha"—... A mansão Uchiha... — repetiu para si mesmo, achando-se tolo por não perceber o óbvio. Ergueu o rosto aos dois — Eu preciso ir até a mansão Uchiha para ver meu avô!— Ok, nós vamos é te levar conosco pra delegacia — o homem interveio, mas a mulher segurou seu pulso, afastando-o um pouco e dizendo em tom baixo.—... Se o que ele diz for verdade não queira se meter com ele. É o neto justamente daquele homem — frisou bem.— Me parece estar drogado. Essa conversa estranha não me convence.— A fisionomia é idêntica, e não se recorda que ele esteve muito tempo hospitalizado? Não me admiraria se a mente dele entrasse em curto!— Então o que supostamente devemos fazer com ele? — ergueu a grossa sobrancelha, ajeitando o cinto entre a gordura da barriga.Ela volveu o olhar ao rapaz.— Vamos levar você conosco para a delegacia e entraremos em contato com Madara Uchiha. Se ele confirmar essa versão levaremos você até lá.Pela primeira vez desde que se percebeu sozinho no meio da praça o moreno suspirou de alívio.— Muito obrigado!Deram de ombros e o levaram à viatura, fazendo-o sentar no banco de trás. Itachi estava aliviado com a possibilidade de descobrir mais sobre si mesmo, mas mal sabia que estava sendo lançado de presente ao inimigo! Uma isca viva jogada numa jaula de serpentes.—-Olhava além da porta de emergência, nervoso e cansado.Fazia horas que ele havia entrado ali. Por que não havia voltado ainda? Por que ninguém apareceu para lhe dar explicações? E por que Tsunade ainda estava lá com a equipe médica?Menma achava que sua cabeça fosse explodir. Havia trabalhado o dia inteiro sem se concentrar, olhando o celular de minuto em minuto a ponto de levar bronca. Resmungou, coçando a cabeça, sozinho na sala de espera da clínica médica. As paredes brancas o sufocavam, a tv sem som mostrava um noticiário local, pilhas de revistas entediantes estavam dispostas num cesto. Nada servia como distração, de modo que retirou o celular do bolso e decidiu checar as redes sociais ou acabaria enlouquecendo com a falta de notícias sobre o primo. Foi a primeira vez desde que foi viajar que entrou em seu perfil e pareceu realmente surpreso com a quantidade de marcações que havia recebido em tão pouco tempo. Ao fitar sua linha do tempo percebeu diversas fotos em que aparecia junto aos antigos companheiros de trabalho. O rosto estúpido de Kiba, o sorriso tímido e lindo de Hinata, a arrogância contagiante de Ino. Em quase todas elas os colegas escreviam "saudades","força", "estamos esperando você voltar", e a que mais lhe fez rir estava ao lado de Naruto, ambos assentados em sua antiga mesa de trabalho, embaixo a frase "Verdadeiro Naruto e Naruto Negro!"Riu sozinho, se recostando no banco, a cabeça apoiada à parede.Eles não sabiam de nada, exceto que pediu demissão por um problema familiar. Sequer faziam ideia que Naruto estava a ponto de perder o bebê. Odiava admitir, mas sentia falta de todos eles, do trabalho, do ambiente descontraído. Sentia falta até mesmo do estúpido apelido que Kiba lhe dera! Já estava habituado a atender quando chamado de Naruto Negro!Seu olhar vagava nas fotografias, sempre batendo no ruivo antissocial que não sorria ou fitava as lentes da câmera.Gaara conseguiu destruir tudo antes mesmo de começar. Não dava mais para continuar trabalhando perto dele, era um sofrimento que Menma sabia não ser capaz de suportar, a razão maior de haver pedido demissão.A viagem difícil, a distância, acentuaram apenas uma coisa dentro dele: que amava Gaara de verdade e não havia muito a ser feito se o próprio ruivo havia desistido dos dois por um amor sem futuro com Matsuri.Fitou o teto branco, a conversa que teve com a jovem ecoando em sua cabeça.—-Passou as costas da mão junto ao nariz que escorria por conta do frio, tentando se concentrar noq ue ouvia.— Do que está falando? — ergueu a sobrancelha à jovem baixinha diante dele. O som alto das pessoas conversando na estação de metrô próxima à lanchonete tornava difícil entender o que ela dizia.— Eu creio que não amo mais o Gaara como o fiz um dia — admitiu, suspirando longamente.
Menma já não nutria uma boa imagem de Matsuri, e a situação pareceu piorar consideravelmente.— Então está apenas brincando com ele. — concluiu, sério e intimidador.— Claro que não! — disse com ênfase, o rosto indignado — É verdade que amei muito o Gaara, muito mesmo. Mas o sentimento mudou, ele fez mudar. Eu nunca fui correspondida como achei que seria.— Então, de uma hora para outra, você se convenceu que não gostava mais dele, certo? Chegava a sentir sono daquela conversa.Ela pareceu profundamente incomodada, fechando bem os pulsos pequenos sobre a mesa, olhando irritada para baixo.— Quando começamos a namorar eu estava muito feliz. Eu gostava muito dele, queria aproveitar o tempo a seu lado, fazê-lo rir, consolá-lo. Era o que eu mais desejava, mas... Fui percebendo que, embora permitisse que ele fizesse parte de minha vida, ele não fazia o mesmo comigo. Ajeitou o cabelo castanho detrás das orelhas, livrando-se os fios que faziam cócegas em seu rosto, da franja que teimava em cair diante dos olhos.— Ele começou a se sentir realmente confortável com a situação em que estávamos. Era como se pensasse que, já que estávamos namorando, não precisava fazer mais nada e que seríamos um casal para sempre. Não me telefonava, não me esperava na saída do trabalho, nunca tinha tempo para nós, dizia estar sempre ocupado. Não ouvia sobre meus problemas e não me permitia participar dos dele. Era como um completo estranho para mim.— Algum tempo de relacionamento esfria os ânimos — retrucou, recostando na cadeira e achando o argumento muito fraco — Isso é normal.— Foi o que pensei a princípio, mas não era exatamente assim. As mensagens apaixonadas, o simples fato de podermos passar algum tempo de qualidade juntos, ainda que para não fazer nada, tudo isso foi se tornando cada vez mais escasso. Gaara dizia gostar muito de mim, mas não parecia sentir isso de verdade. Era como se não sentisse minha falta do modo como eu sentia a dele.Menma estava obviamente incomodado com aquela conversa. Ouvir sobre os sentimentos de Gaara o deixava ainda mais nervoso.— Ele é um workaholic, caso não tenha percebido.— Sei plenamente disso — retrucou, zangada — Gaara não se preocupava mais com outra coisa que não o trabalho, e não percebeu que com isso estava frio e distante comigo. A princípio eu mesma telefonava, cheguei a visitá-lo uma vez, mas ele me dispensou dizendo que precisava trabalhar.— Você não disse a ele como se sentia?— Todos os dias, sem exceção. Até que percebi que não fazia diferença estar ali ou não, ele não estava preocupado — suspirou, tristemente — Dizia me amar tão intensamente, mas suas atitudes me mostravam exatamente o contrário. Comecei a pensar que talvez ele não soubesse de fato o que era estar apaixonado, e que estivesse apenas confundindo o que sentia por mim.Uma conversa antiga passou pela mente do raposo, em que Gaara lhe disse que tatuou o kanji de amor na testa porque não sabia amar, que estava sempre sozinho.Realmente era uma hipótese a ser levada em consideração. E isso o fez prestar mais atenção ao relato dela.—...Na época em que seria promovido a gerente, minha mãe ficou muito doente e precisei viajar às pressas para cuidar dela. Foi a primeira vez que Gaara pareceu olhar para mim de novo, mas me disse que não poderia me acompanhar. Eu compreendi isso, mesmo estando assustada em viajar sozinha, em passar por aquilo sozinha. Sabia que era um momento importante em sua carreira. Queria me convencer disso, mas nas noites que passei sozinha no hospital, com medo de perder minha mãe, caminhando completamente abalada e assustada pelos corredores sem saber o que aconteceria... Percebi que aquilo que tivemos nunca foi um namoro, e que Gaara realmente não sabia o que era amar de verdade. Eu queria que ele estivesse comigo, que me desse ao menos um pouco de força, que me dissesse que ia ficar tudo bem. Podia ter sido só um telefonema! Eu precisava dele!Menma engoliu em seco.— Foi nesse tempo que conheceu a garota com quem começou a namorar?Ela assentiu que sim.— Era como se eu já estivesse sozinha de qualquer forma. Sari fazia visitas no quarto ao lado, porque a irmã estava doente. Começamos a conversar. Ela não apenas me escutou, como também ficou a meu lado todo o tempo, me ofereceu ajuda. Antes que percebesse havia me afeiçoado muito à ela, e fiquei realmente feliz quando me disse que queria ficar comigo.— Entendo toda a sua história, que de certo modo tenta jogar toda a culpa sobre o Gaara embora ele tenha mesmo. Mas não muda o fato de que quando encontrei vocês estavam no meio de um beijo, certo? Se você gosta dessa garota como diz então por que voltou e tentou reatar com o Gaara? Por acaso nunca o esqueceu?Matsuri o encarou muito seriamente.— Esse é o ponto em que queria chegar, a razão de eu ter voltado — terminou de beber o que havia na xícara, fitando o fundo dela — Algum tempo depois, quando o cargo dele se estabilizou, recebi uma ligação de Gaara. Ele dizia estar com saudades e que precisava me ver. Agia como se tudo estivesse muito bem. Eu não podia mentir a ele, então lhe contei a verdade: que estava namorando com a Sari, expliquei meus motivos. Na cabeça de Gaara eu o traí, porque até então estava tudo bem.Menma se sentiu incomodado porque foi tratado pelo ruivo da mesma forma, ignorado igualmente. Ele que sempre correu atrás do ruivo até fazê-lo ceder, nunca o contrário.E começava a se perguntar se o interesse era mesmo mútuo.Ela prosseguiu.— Alguns dias depois de terminar tudo recebi um ligação de sua irmã, Temari. Ela parecia realmente preocupada com o estado de saúde dele e me perguntou se eu poderia repensar e reatar nosso namoro. Estava disposta a dizer que não até que ouvi algo que me deixou realmente preocupada.Menma mordia o canto interno do lábio, muito curioso como quem assiste um programa de suspense.— O que ela disse? — Que haviam encontrado Gaara desacordado em casa. Ao levá-lo ao médico... Descobriram que ele havia tomado uma quantidade imensa de remédios para dormir e antidepressivos, e isso quase custou sua vida. O moreno foi fisgado com isso.— Por causa do fim do namoro de vocês?Ela assentiu.— Ele parou de dormir até ficar com os olhos marcados com olheiras profundas, parou de comer direito, se fechou do mundo. Só então se deu conta do que significava ter um relacionamento, que precisava cuidar do que tinha e ao perceber que havia perdido, ele não soube lidar com isso. Cada vez que eu recebia uma ligação de Temari ou Kankurou sentia que era minha culpa, que precisava impedi-lo de fazer alguma besteira.— Mas você não o ama.—Sei disso, mas ele é importante para mim e não quero perdê-lo — apertou os pulsos sobre a mesa — Gaara me ajudou muito no trabalho, e apesar de tudo passamos bons momentos juntos. Para ser sincera eu sempre soube que o que ele sentia por mim não era amor, que estava confundindo as coisas. A única iludida fui eu desde o princípio. Eu só tentei me conformar com isso.— Foi por isso que você voltou e pediu para ele ficar com você? Para impedir que faça alguma besteira por sentir sua falta?— Quando digo que gosto dele não estou mentindo, apenas hoje já não é o tipo de amor romântico que existe entre um casal. Tenho muito carinho por ele, quero fazê-lo perceber que precisa seguir com a vida adiante, que precisa lutar um pouco mais. Se para isso eu precisar mentir, precisar me afastar da Sari, ainda que seja difícil eu farei isso. Porque quando recebi aquele telefonema e achei que ele fosse morrer por minha causa... Fiquei muito transtornada. Senti uma culpa esmagadora. Não sou capaz de viver com um arrependimento como esse.O sentimento de antipatia que o moreno até então nutria pela garota pequena diante de si pareceu evaporar ao descobrir mais sobre a situação deles.Matsuri teve seu amor esmagado pela indiferença de Gaara. E estava tentando salvá-lo sacrificando sua própria felicidade com a garota de quem realmente gostava, tudo para não carregar o fardo de ter sido aquela que o fez desistir de viver.Virou o rosto em direção à janela, fitando a chuva fina que começava a engrossar e formar poças no asfalto.E pensar que alguém tão rude e enérgico feito Gaara na realidade seria frágil o suficiente para tentar acabar com a própria vida por estar sofrendo. Isso apenas fazia Menma sentir que estava certo ao supor que ele era muito gentil, o que de fato era. Gaara parecia não saber lidar com os próprios sentimentos. Talvez por causa disso tenha tido tanto medo de avançar na relação deles, demorado a se entregar e dormir com ele. Talvez tivesse medo do que estava sentindo por não saber lidar com isso.—... Sei que sua intenção é muito boa, mas isso vai destruir vocês dois. Não pode fingir estar apaixonada apenas para protegê-lo. E Não pode cuidar dele para sempre.— Um minuto define se uma pessoa está viva a seu lado ou se está morta, Menma. Você pode perder alguém importante de repente, quando menos esperar. E não quero isso, quero que ele viva. Foi por isso que voltei disposta a fazer o que fosse preciso, mas então... Para minha completa surpresa ele ja estava com alguém! — volveu o olhar intenso ao moreno que virou o rosto, sem graça.— Desculpa aí te desapontar, mas eu fui chutado. Minha situação é ainda pior que a sua.— Pode até ser, mas fiquei surpresa com o modo como ele te olha, ou como parece se importar com você. Não achei que Gaara estivesse gostando de alguém.— Ele não gosta de mim, Matsuri. Acho que não gosta de ninguém além dele mesmo.— Mas você gosta dele, certo?O raposo virou o rosto.—... Isso não importa agora.— Importa se quiser ficar com ele — insistiu, os olhos castanhos brilhando — E quero que saiba que tudo que mais desejo é que Gaara seja feliz — sorriu de modo doce. Menma entendeu o que Gaara sempre falava sobre seu sorriso. Era mesmo uma garota meiga, mas ao mesmo tempo determinada.— Te agradeço por me dizer tudo isso, e por jogar limpo comigo. Mas Gaara sente sua falta, só fala de você, desistiu de tudo quando te viu outra vez. Não posso lutar por alguém que não me escolhe. Só estou me machucando com essa situação toda.Ela o observou em silêncio.— Sabe, não foi o que me pareceu quando o pressionei para escolher se queria ficar comigo ou com você. Ele pareceu confuso. Creio que vocês dois realmente tenham uma chance, e que talvez valha à pena arriscar. Sei que você gosta muito dele, e estou disposta a fazê-los ficar juntos. Em partes por egoísmo meu, para que possa voltar e dizer à Sari que preciso dela. Mas em partes também porque quero vê-lo feliz.Menma riu de lado.— Achei que garotas feito você apareciam do nada para estragar a relação entre dois caras, exatamente como nas novelas.Ela riu de volta.— Aposto que deu essa impressão.— No entanto eu tenho uma viagem importante a fazer. Preciso cuidar da minha família e preciso pensar. Gaara me machucou bastante e até que ele saiba o que quer, até que esteja pronto para se doar e fazer algo para que possamos dar certo, até lá não tem como ficar com ele.Ela assentiu. Abriu a bolsa minúscula e Menma se perguntou como cabia um bloco de anotações ali dentro, bolsa de mulher era um negócio fascinante! Rabiscou algo e arrancou a folha, colocando sobre a mesa.— É meu telefone, caso queira falar comigo. Desculpe o mal entendido e obrigada pelo café. Foi ótimo tomar algo quentinho depois de um dia de tanto frio — levantou, sorriu e acenou, seguindo para fora sem olhar para trás. Menma fitou o papel sobre a mesa, dobrando-o e colocando no bolso.E pensar que a figura auto suficiente e autoritária que Gaara demonstrava na empresa era apenas uma fachada. Percebeu partes disso quando recebeu aquela visita dele, após ser esfaqueado. O olhar de Gaara parecia desesperado, ele não parecia saber lidar com a dor ou com perda de alguém. Realmente queria saber que tipo de trauma ele teria passado para ser tão desconfiado, tão relutante em se aproximar das pessoas.—-Passos ecoavam no andar de baixo, cada vez mais rápidos.“ Não chegue perto, vá embora por favor!” – repetia mentalmente milhares de vezes. Tapava os ouvidos tão apertado quanto podia, ansiando que pudesse com isso abafar o som desagradável dos pratos se quebrando, de móveis arrastados, os gritos de sua irmã mais velha. "Ao menos aqui ninguém pode me encontrar!"Estava seguro por enquanto em sua fortaleza, seu lugar mais seguro desde sempre. O guarda roupas antigo que pertencia à sua mãe e que ainda continha algumas peças de roupa dela. De vez em quando, gostava de se esconder ali , para sentir o cheiro fraco de perfume que despendia das roupas. Nunca conheceu o rosto de sua mãe, então o cheiro era tudo que conhecia dela. O som ficou mais alto, gritos e xingamentos explodiram pela casa. O garoto se encolheu no canto escuro do guarda roupas, detrás de um casaco comprido que levantava poeira conforme era sacudido. Espirrou em resposta, mas não se incomodou, sentindo-se acolhido entre a lã quente. Logo tudo ficaria bem, ninguém nunca o encontrou ali antes. Logo ficaria tudo bem... Mas, dessa vez nada acabou bem. A porta do guarda roupas se abriu de uma única vez, assustando o garoto. Em seus cinco anos de idade não possuía maturidade suficiente para entender o ódio daquele olhar, e tudo que conseguia era sentir pânico ante àquele adulto tão mais alto que ele, e que parecia prestes a matá-lo!— Encontrei você! – esbravejou de novo – Pivete maldito! Eu vou acabar com você, Gaara! — cuspiu as palavras entre o rosnado provocado pela embriaguez. Enfiou a mão entre as roupas na tentativa de agarrar o menino e puxá-lo para fora.Bater nele não era suficiente, não aplacava sua fúria.Odiava aquele menino mais do que qualquer coisa! A forma como foi puxado pela perna enquanto tentava fugir, forçado a sair do local em que se sentia seguro, a forma brusca e dolorosa como seus cabelos foram puxados, tudo isso deixou Gaara paralisado. Mesmo sem ter feito nada de errado ele chorou e pediu desculpas inúmeras vezes àquele homem que tanto dizia odiá-lo.Rasa, seu próprio pai. Na primeira tentativa de desculpar-se levou um tapa na boca, que ardeu e latejou, e contribuiu para as lágrimas rolarem pelo rosto com maior força. — Pare de chorar feito uma menina! Você é mesmo um imprestável! Te odeio com todas as minhas forças! Gaara apenas se encolheu, tapas e socos foram desferidos sem piedade pelo corpo todo. Ele tentou cobrir o rosto com os braços pequenos, o cheiro desagradável de bebida e cigarro misturados, provenientes do homem que o agredia, o enojavam. — Não fuja porque você merece apanhar! Merece morrer, seu maldito! Você a levou de mim! Eu preferia mil vezes que você tivesse morrido no lugar dela! Gaara sabia, e se culpava todos os dias sem exceção. Foi o único responsável pela morte de sua mãe, tinha plena ciência disso. Karura morreu no parto por sua culpa. Ela se foi para que pudesse viver.Essa era uma verdade despejada contra ele todos os dias por seu pai. Se não fosse por ter nascido ela ainda estaria viva. Aquela mulher bonita que estava na foto de um quadro da parede da sala, com um lindo e radiante sorriso. A mulher que Gaara só conhecia pelo cheiro fraco de perfume misturado à poeira daquele guarda roupas que seu pai Rasa não permitia que ninguém mexesse.Porque ele dizia que tudo deveria ficar como sua amada esposa deixou. Ninguém tinha direito algum de mexer em nada porque Karura não escolheu aquele destino, ela queria viver, e se foi por culpa dele.Tudo era culpa de Gaara! Ele não merecia viver.— Desculpa! – pediu novamente , mas isso pareceu aumentar o ódio do homem que bateu seguidas vezes na cabeça ruiva, os tapas fazendo sua cabeça arder.Havia um modo de se desculpar? De fazer alguém perdoá-lo pelo que fez?Ele nunca quis matar a própria mãe... Se tivesse um jeito de consertar isso, se pudesse escolher certamente faria com que ela ficasse bem. Não desejava mesmo ter nascido se para isso precisou causar tanta dor em todos à sua volta.As pessoas perto dele somente se tornariam infelizes. Estava condenado a ficar sempre sozinho.A coxa adormeceu quando recebeu outro golpe, uma mancha arroxeada cobrindo a pele. Nem conseguia mais sentir dor. O olho direito foi socado tantas vezes que não se abria mais, latejava e a temperatura subia rapidamente. Sangue escorria do nariz, misturando-se à saliva e às lágrimas. Se encolheu e ficou muito quieto, na esperança que ele se acalmasse e cessasse os golpes.Porém isso causava um efeito contrário. Quanto menos Gaara revidava, mais o homem diante dele se irritava. Este cambaleou para o canto do quarto, zonzo pelo efeito do álcool.— Você vai morrer hoje, entendeu? – olhou-o por sobre o ombro, uma face assustadora – Você vai morrer! Vai para perto da sua mãe pedir desculpas por ter tirado a vida dela! O garoto tremeu, um pânico que não pensou ser capaz de sentir tomou conta.
Precisava correr! Sabia disso, mas seu corpo não se movia! Sentiu tanto medo que engasgou. Percebeu quando Rasa pegou a cadeira que ficava junto à escrivaninha, vindo em sua direção com o olhar vidrado, mirando no topo de sua cabeça.Depois disso, Gaara só se recordava da escuridão, da mistura de vozes e gritos. E uma dor horrenda que latejava na cabeça.A memória mais nítida era de estar sentado no sofá, zonzo e enjoado. Sentiu algo quente escorrendo do topo da cabeça e passou a mão devagar. Ao fitá-la, percebeu que escorria muito sangue. Sentiu uma faixa de gaze enrolada na cabeça parcialmente raspada.Fitou a frente, uma confusão de pessoas indo de um lado para outro. Policiais que foram chamados por um telefonema no mínimo estranho.Uma menina telefonou sôfrega e sem saber o que fazer, dizendo que o pai estava tentando matar seu irmão mais novo. Ao ouvir os gritos de fundo, os policiais souberam que não se tratava de um trote e se apressaram ao local. Ao chegar, se depararam com a garota e o irmão do meio em uma luta injusta.Kankurou, que na época tinha sete anos, teve o nariz quebrado e Temari, com recém completos nove anos, torceu o pé ao ser derrubada. Mas eles impediram Rasa de matar Gaara. Suportaram a surra no lugar dele, de maneira extremamente corajosa para crianças tão pequenas. Aguentaram a dor até que o som da sirene da viatura policial chamasse a atenção do homem. Policiais entraram depressa, aos gritos, arrombando portas, rendendo Rasa e salvando as crianças de tamanha atrocidade.As cenas pareciam um horrendo filme de terror na cabeça de Gaara. Olhava para os lados e não entendia coisa alguma. Via alguns vizinhos dizendo que era uma situação lamentável, via policias vasculhando a casa, até que por fim uma mulher baixou-se perto dele, com um olhar preocupado.— Você vai ficar bem agora — ela sorriu de maneira firme, porque o menino tremia — Pode mostrar onde está doendo?Gaara não respondeu porque pessoa alguma lhe passava confiança naquele momento. Tinha medo da proximidade, até mesmo da enfermeira que respirou fundo, fitando de relance um amigo de profissão. A mulher baixou então o olhar para as pernas arroxeadas, sabendo a dor que aqueles golpes haviam deixado. Percebeu que o short que ele vestia estava molhado.Teve uma profunda pena daquela criança. Que tipo de susto um menino tão pequeno havia passado a ponto de molhar as roupas, de tremer sem controle, de ter um ferimento enorme no alto da cabeça que pulsava em carne viva?E que tipo de pessoa teria coragem de cometer um ato bárbaro como aquele contra uma criança indefesa?Passou uma gaze embebida em antiséptico pelo rosto do menino devagar, para tirar o sangue que escorria. Um movimento vagaroso e premeditado.— Vamos levar você ao hospital agora.Ele se encolheu mais, negando-se a levantar.— Seus irmãos estão lá também, você não quer vê-los?Com isso os olhos verdes se voltaram à mulher. Ela alisou os cabelos ruivos nos poucos locais que não estavam tomados de sangue.— Vem comigo que te levo até eles, está bem? Pode confiar em mim porque vou garantir que ninguém mais te machuque.Demorou algum tempo em que ele apenas a encarou, como se pensasse se devia segui-la ou não, se ela lhe passava segurança. O olhar confiante de um adulto faz toda a diferença na cabeça de uma criança e por fim ele assentiu, levantando-se do sofá enquanto fungava, esfregando a mão contra o nariz. Sua mão livre foi segurada por ela e Gaara se deixou puxar, caminhando devagar. Lembrava de ser deitado numa maca, do chacoalhar da ambulância e da sirene ensurdecedora.Algumas horas no hospital e recebeu um curativo apropriado. Levou pontos na testa, e essa cicatriz permaneceria ali sem nunca desaparecer. Foi levado a um quarto e por fim encontrou seus irmãos. Sobre o leito do canto estava Kankurou, com um olho roxo e um grande curativo sobre o nariz quebrado. Seu rosto estava inchado e vermelho. Temari estava sentada sobre o leito ao lado, a perna esticada e enfaixada. Trocaram olhares entre si, cansados, abatidos e devastados. Nenhum deles disse absolutamente nada ou se moveu, cada um no seu mundo próprio.No fim da tarde a pessoa que veio lhes buscar foi um homem com uma semelhança incrível à figura estampada no quadro de sua casa. Gaara lembrava das palavras dele, do modo nervoso como falava e olhava o trio. Frases marcantes que ficaram gravadas na memória."Seu pai nunca permitiu que eu fosse visitar vocês""Desculpe não notar que ele os estava machucando! Nunca soube!""Vou cuidar de vocês de agora em diante. Sei que minha irmã ficaria orgulhosa do quão corajosos são".As lembranças seguintes eram dos dias que seguiram na residência de seu tio materno, Yashamaru. Sendo gêmeo, era natural que se parecesse tanto com Karura.Era um homem de poucas palavras, muito pacífico. Acolheu os três em sua casa, cuidou deles, garantiu que fossem à escola e tirassem boas notas, lhes deu comida e roupas novas, até mesmo alguns poucos brinquedos.Foi uma boa infância. Nada exorbitante, nada regado à risadas altas e diversões familiares, mas definitivamente uma casa extruturada com um adulto sensato que conseguiu sozinho cuidar dos três até a maioridade de Temari, quando descobriram que o pai havia se envolvido em uma briga e foi morto. A antiga casa lhes foi herdada, mas nenhum deles quis voltar àquele lugar. Venderam o imóvel e compraram uma nova residência, a mesma em que Gaara vive sozinho hoje. Ainda visitam Yashamaru nas datas importantes e mantém contato frequente. Cada um seguiu sua profissão, um caminho diferente.Temari e Kankurou viajaram ao exterior para trabalhar em um projeto que ganrante a ascensão de suas carreiras, enquanto que Gaara permaneceu na casa em que vive desde os quatrorze anos.Podiam não ser uma família repleta de abraços, confraternizações e conversas animadas, mas certamente formava uma família unida que se entendia, que conhecia a dor de cada um e tentava lidar com isso da melhor maneira.Desde aquele dia nunca mais tornaram a mencionar o pai, ou as acusações que ele fazia. Nada disso importava mais.—-O moreno abriu os olhos sonolentos, a espera o fez cair levemente no sono.Tsunade voltava de sua conversa com a equipe médica, parecendo séria e tensa. Toda a mente de Menma só conseguiu se focar em Naruto e nos gêmeos, o medo gritando dentro dele. Tinha até medo de perguntar.—... Como estão, vovó?Ela massageou os ombros cansados, uma expressão exausta e nervosa estampada no rosto bonito. Retirou a touca, soltando os cabelos loiros e abriu um pouco o jaleco, os seios anormalmente gigantes balançaram, confinados no tecido da blusa. Se fosse em outro momento, Menma não perderia a oportunidade de tirar uma com a cara dela, adorava fazer piada com aquelas coisas que pareciam ter vida própria, ainda que sempre apanhasse. No entanto não estava com a menor vontade de brincar.— Naruto teve uma complicação durante o procedimento e está com hemorragia — sentou-se ao lado do neto que pareceu assustado.— Isso é muito sério? Ele vai ficar bem?— Vamos torcer para que sim. É um processo muito delicado, ele não parece estar reagindo bem.— E quanto ao Daisuke?A mulher mordeu o canto do lábio, irritadiça por não poder fazer nada.—... Não reage de modo algum. É provável que vamos perdê-lo nas próximas horas.O coração do moreno ficou destruído com isso.—... Pobre Naru, ele estava tentando tanto!— Já sabíamos que isso poderia acontecer. O mais importante agora é salvar Naruto. Com um pouco de sorte traremos Aiko em segurança também.— A menina também? Mas ela estava ótima!— Se Naruto tem complicações então os três correm riscos, entende? Salvar o pai é a prioridade agora, foi o que eu disse à equipe médica durante a conversa que tivemos. Sei que é triste, mas Naruto poderá tentar engravidar novamente em alguns anos se não tiver sequelas. O importante é que ele esteja bem.O Uzumaki moreno não sabia o que pensar. Pediu licença para caminhar um pouco, arejar a mente e tentar assimilar.E pensar que Sasuke nem fazia ideia de tudo isso, do apuro que Naruto estava passando! Sentiu ódio dele, a vontade imensa de lhe dar um soco no meio da cara!De acordo com o fuso horário devia ser tarde da noite em Konoha, mas não se importou. Vasculhou o celular de Naruto, procurando o número privado de Sasuke. Sentiu-se mal ao ver a foto dos dois juntos, provavelmente o loiro não teve coragem de apagar a fotografia. Toda a história da separação repentina era difícil para ele.Ligou de seu próprio celular, para que Sasuke não pensasse ser Naruto e deixasse de atender. Tocou ao menos cinco vezes até que ouvisse uma voz cansada e rouca.— Quem é? — parecia aflito.Menma estranhou aquele tom. Sasuke costumava ser muito controlado, até mesmo apático e sem graça.— É Menma Uzumaki, creio que se lembre de mim. Preciso muito falar com você, é sobre o Naruto.— Ele está bem? — foi tudo que conseguiu perguntar. — Imagino que se você realmente quisesse saber teria ligado para ele, não?— Os médicos da clínica estão instruídos a ligar para mim quando o procedimento acabar, me informando o que aconteceu. E além disso, Menma, eu não consigo pensar direito, não com o que esta acontecendo.Um engasgo apertou na ganganta do Uzumaki ao se recordar da estranha ligação que havia atendido pouco antes.Seria possível que a tal ligação fosse verdade?—... Está falando de Itachi?— Como sabe? — questionou, confuso — Ele entrou em contato? Você sabe onde ele está? Ele está bem?Menma sentiu pena de Sasuke, ele parecia completamente desesperado.— Desculpa cara, eu achei que fosse um trote dos Uchiha. Ele ligou para o celular de Naruto dizendo que não sabia quem era, que perdeu a memória. Eu desconfiei e disse para ele que se era mesmo Itachi Uchiha, então que voltasse pra mansão Uchiha e mandasse o Madara se ferrar, ou algo assim.— Voce fez o quê????— Eu não sabia que era ele de verdade, foi mal!— Me passe o número de quem fez essa ligação, vou tentar localizá-lo!— Ok... Mas vem cá: como foi que deixaram o Itachi sair de casa nesse estado? Vocês não se preocupam com o que pode acontecer com ele não?— Foi um acidente! O que acha que somos??? — vociferou.— Tá bem, não fica nervoso — visualizou o número que efetuou a chamada e o repassou ao Uchiha — Desculpe mesmo, não sabia que era ele de verdade.— Não havia como saber. Te agradeço por pelo menos nos dar uma pista. Sasori está arrasado.Imediatamente o raposo lembrou do dia da fuga do hospital, o modo como Sasori irrompeu a sala da casa de Tsunade aos prantos em busca do marido. Teve pena dele, imaginava o tamanho de sua dor.—... Tem algo que eu possa fazer para ajudar?— Cuide do Naruto por mim, por favor. Sei que parece que não me importo, mas na verdade tudo o que mais quero é ficar com ele agora.— Então encontre seu irmão e venha para perto do Naruto de uma vez, Sasuke! Ele precisa de você e está sofrendo com essa idiotice toda que está fazendo com ele! Se o ama de verdade então não deixe ninguém se meter no caminho de vocês!Sasuke segurou a têmpora dolorida.—... Farei o que estiver ao meu alcance. Por favor me mantenha informado, Menma. E obrigado.O Uzumaki então desligou, não conseguindo dizer nada sobre o estado atual de Naruto, porque era óbvio que Sasuke não aguentaria lidar com uma notícia dessas. E nada estava definido, seguiria acreditando que os gêmeos tinham uma chance, ainda que muito pequena. —-O susto que passou foi tão grande, tão intenso, que estava sentada no chão completamente trêmula, as pernas bambas, suor molhava o corpo todo. Quando o homem diante de si retirou-lhe o capuz, a luz a cegou por um instante, mas se percebeu numa construção abandonada. Ruínas do que um dia foi um edifício, poeira e pedaços de tijolos cobriam o lugar. A luz entrava pelas frestas, mas ainda era um bocado escuro.Nem teve tempo de organizar seus pensamentos e uma arma foi apontada para sua cabeça. Ficou completamente imóvel, sabendo que era o fim, que sua hora havia chegado.O que as pessoas diziam acerca de passar um filme de toda a sua vida diante dos olhos não aconteceu, mas se manteve apegada à última vez que viu Itachi, ainda que entubado no hospital. E de Sasuke ainda bebê em seus braços.Estava preparada para morrer, era o preço que deveria pagar.Porém, algo diferente aconteceu. Shisui manteve a mira do revólver apontada para sua cabeça enquanto que com a mão livre segurava o celular. Fez uma breve ligação à Itachi. Contou-lhe a mentira de que a mulher diante de si já estava morta. Mikoto não entendeu bem o que ele pretendia, mas soube que a arma apontada para si era para que ficasse calada, e assim permaneceu até que ele tivesse desligado a ligação.Tentou respirar fundo, ainda muito confusa. Os longos cabelos negros embaraçados diante dos olhos.—... Shisui... — testou, descobrindo que estava sem voz e precisou pigarrear para que ela voltasse à garganta -... Por que está fazendo isso?Ele a fitou calado, por um bom tempo. Então sem explicar nada abaixa a arma, guardando-a na cintura da calça.—... Por que mentiu ao Itachi? O que pretende com isso? — tentou novamente.Shisui então lhe volveu um olhar bastante intimidador.—... Precisava impedí-lo de fazer alguma besteira ao voltar à casa sede para confrontar Madara. Uma tragédia certamente viria desse encontro e dificultaria as coisas, para todos nós.— Mas, se seu objetivo era apenas fazer com que Itachi desistisse... Então por que dizer a ele essa mentira sobre mim?— Porque você vai sumir definitivamente da vida dos dois, exatamente como se estivesse morta — disse com sua voz inacreditavelmente fria – Vai desaparecer sem retornar dessa vez. —... Não posso fazer isso – retrucou baixo, mesmo receosa em desafiá-lo – Enquanto estiver viva vou tentar encontrá-los de novo. — Então o que te acontecer já não será problema meu. Está assumindo o risco sozinha – deu-lhe as costas, fazendo menção de ir embora, mas a voz dela ecoou pela imensidão das ruínas.— Eu não te entendo! – exclamou em alto som – Suas ações são totalmente confusas, Shisui! O que afinal você quer? Ele volveu a cabeça por cima do ombro. — Se Itachi confrontar Madara agora estará tudo perdido. Não posso permitir que alguém machuque o patriarca, meu dever é protegê-lo. E conhecendo o diagnóstico de Itachi eu bem sei que um trauma é mais que suficiente para desestabilizá-lo e confundir sua mente. Era o modo perfeito de fazer com que desistisse de ir à casa sede. Mikoto ainda não compreendia coisa alguma. Não sabia dizer se Shisui era um aliado ou inimigo. Apenas sentia como se não o conhecesse mais.—... Você e eu estamos do mesmo lado? Ou de lados completamente opostos?— Isso vai depender do que pretende fazer daqui por diante. Ir atrás de Izuna, por exemplo, está fora de questão.— Você o tirou do porão Uchiha, não foi? O que quer com ele? Não acha que ele já sofreu demais?— Para o patriarca não há sofrimento que baste por tudo que Izuna lhe fez, por fechar os olhos ao que estava acontecendo. É certo que se não o tirasse daquele porão, Madara teria realmente o deixado morrer.— ... E o que pretende fazer a ele? — Não se meta no que não lhe diz respeito, Mikoto. Minha paciência não é longa. E tendo dito isso desaparece das vistas, deixando a mulher largada no meio do nada, completamente confusa. Não sabia o que pensar, ou o que Shisui tramava. No entanto suspirou muito aliviada e passou as mãos pelos braços frios, grata por estar viva, por ganhar uma nova chance! Mas também terrivelmente preocupada com o que Shisui dissera e desejando ardentemente que Itachi não sofresse com a notícia, e que estivesse bem.Não importava que sua vida estivesse em perigo, ou quanto tempo levaria, daria um jeito de rever seus filhos! Definitivamente os veria de novo!E pediria perdão pessoalmente, por tudo.—-O ar faltava nos pulmões do pobre homem cujo pescoço era apertado cada vez mais forte, a ponto dos olhos esbugalharem. Fitar o rosto assombroso de quem o enforcava apenas confirmava o desejo de nunca se meter com ele, e essa foi a última coisa que pensou antes de perder os sentidos pela asfixia.Madara fervia de ódio absoluto quando largou o homem desacordado no chão, diante da cela vazia em que deveria estar Izuna.Não era possível que alguém tivesse coragem de traí-lo! E não bastasse tirar Izuna do confinamento, Mikoto também havia desaparecido!Passos desesperados ecoavam no porão, erguendo terra conforme se aproximavam.— Senhor patriarca! — Obito exclamou em alto som, correndo até ele, guiado pela vermelhidão das íris em meio ao breu, que faziam Madara parecer um espectro em meio às trevas. Fitou o guarda desacordado no chão, as celas vazias, sem conseguir compreender o que estava acontecendo.Nem bem se aproximou dele foi segurado e rudemente jogado contra as grades, as costas batendo no ferro o fazendo exclamar de dor. Respirava depressa, sem saber como reagir ao olhar diante de si.— Senhor, o que está acontecendo?—... É o que gostaria de saber, Obito — sibilou, causando arrepio no corpo do mais jovem. O timbre era gelado e sem vida -... Como tirou os dois daqui sem que ninguém visse?— Mas de quem está falando? — indagou exasperado ante ao rosto enfurecido do patriarca, ar quente batia depressa em seu rosto, os dentes brancos afiados rangendo um contra o outro.—... Estou perguntando como os tirou daqui bem debaixo de meu nariz!— Não fui eu! — negou o que quer que fosse porque sentia um medo indescritível — Não fiz nada, eu jamais faria algo contra sua vontade! Precisa acreditar em mim!!!— Dê-me um bom motivo para não matá-lo agora mesmo, Obito. Não tenho piedade com traidores, já deveria saber disso.O homem engasgou, impotente, o ar machucando a garganta, o peito subindo e descendo loucamente.— Eu nunca faria nada contra sua vontade porque o amo mais do que qualquer pessoa será capaz de amar, senhor patriarca! É tudo para mim! Eu vivo unicamente para servi-lo!Madara pareceu desgostoso com a frase, quase enojado. Segurou bem forte o rosto de Obito, fitando-o muito de perto, as unhas longas afundadas na pele.—... Se o que diz é mesmo verdade, então vai mostrar sua lealdade à mim trazendo o maldito traidor que libertou Izuna e Mikoto. Eu o quero vivo, porque vou destroçá-lo! — um sorriso vagaroso e louco surgiu em seus lábios — ... Vou fazê-lo se arrepender amargamente a cada grito de dor, ao passo que o sangue jorra. Vou queimá-lo vivo, ou talvez fure seus olhos, corte-lhe a língua, arranque seus dedos um por um, o faça comer os próprios miolos... Ele vai ver o inferno antes de ser acolhido pela morte, para saber que ninguém pode me desafiar! Que ninguém sai impune ao cruzar o meu caminho!Obito assentiu que sim rapidamente.— Permita-me caçá-lo, senhor — subiu a mão devagar, receoso e trêmulo ao braço que segurava sua gola com tanta força que o impedia de respirar direito, cobrindo a mão dele com a sua — Eu farei qualquer coisa pelo senhor. Ainda que custe minha própria vida!Madara pareceu ver no fundo dos olhos daquele homem algo que o satisfez, a ponto de um sorriso desprovido de qualquer tipo de sentimento surgisse em seu rosto.As palavras de Obito eram verdadeiras, ele o amava! E isso era excelente. Pessoas apaixonadas são extremamente tolas, capazes de qualquer coisa para ter seu amor retribuído, reféns por completo do que sentem.Era perfeito, sabia que tal tolo sentimento levaria Obito ao fim do mundo para capturar o traidor maldito que libertou suas preciosas presas, motivo de diversão e distração.Madara sorriu mais, virando o rosto de lado, os cabelos negros deslizando pela face.— Me ama a ponto de fazer qualquer coisa por mim, Obito?— Qualquer coisa! — afirmou convicto, a respiração falha, os olhos brilhando na semi escuridão, o rosto fervendo.O mais velho gostou do que ouviu, aproximando o rosto do pescoço pálido para lamber devagar, fazendo Obito se retorcer.—... Vai me trazer Shisui vivo, não vai?— Vou! — gemeu mais forte, se segurando no corpo forte, apertando os músculos dos braços, gemendo de prazer ao ser beijado na pele sensível do pescoço — O que o senhor quiser! Apenas olhe para mim, toque-me, beije-me! É tudo que mais preciso.A fúria do patriarca foi substituída pela diversão. Bem, era questão de tempo até recuperar Mikoto, embora não fizesse muita diferença. Não dependia dela para fazer Itachi e Sasuke dançarem na palma de sua mão.E quanto à Izuna, ele estava tão debilitado que certamente estava morrendo em algum lugar, era um homem desenganado que já rendera uma boa dose de diversão. Assistir seu sofrimento enquanto definhava e implorava para morrer não apagava tudo que fez, mas certamente marcou-lhe a alma para sempre.Para saber que ninguém brinca com Madara Uchiha! Ninguém.Apertou o corpo no de Obito, percebendo que o mais novo fervia.—... Quer que eu toque você? Não acha muito pretensioso de sua parte? — segurou o queixo com o indicador e lambeu devagar os lábios gelados. Obito estremeceu e fechou os olhos, tremendo de prazer.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Só poderia esperar esse comportamento vulgar vindo de alguém como você, Sasori.O ruivo se deteve, fervilhando de ódio.— Nunca abandonaria Itachi aqui com um louco perturbado como você, Madara! Ao contrário de você, Itachi está rodeado de pessoas que o querem bem! Não saio daqui se não estiver com ele!Itachi pareceu surpreso com aquele baixinho tão feroz, tão determinado, e com o modo como encarava o patriarca como se quisesse trucidá-lo.Por sua vez, Madara fitou do alto aquele homem baixo e ordinário, com aquela cor degradante de cabelos, o rosto cheio de sardas com aspecto “enferrujado”. Era horrível. — Agradeço dia e noite que sua criança tenha morrido antes de nascer, Sasori. Seria uma ofensa ao clã sujar a herança com essa sua raça imunda. As narinas de Sasori dilataram de ódio absoluto. Madara podia ofendê-lo, mas jamais permitiria que falasse de Aiko! Isso nunca!Avançou ao patriarca querendo surrá-lo, mas Sasuke o segurou. — Não vale à pena, Sasori – impediu-o com um olhar sereno, deixando claro que compreendia o furor dele. Volveu então o olhar malicioso ao avô, um sorriso endiabrado brincando nos lábios -... Afinal, o patriarca terá o prazer de ser avô de dois Uchihas loiros! O cenho dele se fechou de imediato em resposta ao comentário.— Acho curioso que venha aqui me falar desses que julga ser sua "família", Sasuke. Não disse que os protegeria? Eu poderia ter matado Itachi aqui sem pestanejar. Sasuke estreitou os olhos, perigosamente. —... Não seria tolo o suficiente para colocar suas mãos imundas nele. — Acabo de colocar bem mais que as mãos sobre ele – riu sarcástico e Itachi corou de raiva. Uma pontada dolorosa se formou no âmago de Sasori, mas ele tentou bravamente ocultar. Ao fitar o esposo, Itachi baixou os olhos, irritado consigo mesmo.O ruivo não quis saber, fechou os olhos bem forte e respirou fundo. Independente do que Madara havia feito, se conseguiu tocar em Itachi ou não, tudo que o maldito patriarca queria era desestabilizá-los e não lhe daria esse gostinho!Estendeu a mão ao esposo.— Vamos para casa, Itachi — pediu, com toda a calma que usualmente possuía — Me desculpe por te deixar sozinho, meu amor. Eu realmente deveria ter ido com você. Nunca mais vou permitir que algo assim aconteça, vou cuidar de você.Itachi engoliu em seco. Havia muito o que se desculpar, sobretudo porque sempre fazia Sasori sofrer e...Espere, sempre o fazia sofrer? Por que estava pensando nisso agora? A frase de Madara, acerca da criança morta de Sasori, fez sentido afinal. Porque ele havia perdido Aiko! Só precisava se acalmar e as lembranças voltariam, estava certo disso.— Não vai levá-lo a lugar algum. Itachi é o herdeiro dos Uchiha, e está onde deve estar, na casa sede.O próprio voltou-lhe o olhar irritado.— A única maneira de impedir que eu volte com eles é se me matar, Madara — estreitou os olhos, um tom perigoso e calmo. O patriarca fitou o neto em silêncio por longos segundos, irritado com tanta audácia. A figura que os observava de longe até então sugiu ao lado do patriarca.— Basta me dar uma ordem e impeço-os de sair, senhor patriarca — Obito encarou-o com todo o seu fanatismo cego. Era uma boa oportunidade para se livrar de um incômodo. Madara no entanto percebeu suas intenções, e acabou por rir, debochado.— Já obtive diversão suficiente por uma noite ao ter o corpo de itachi sob o meu — disparou contra o ruivo — Se querem tanto bancar os heróis então levem sua princesa daqui. Não preciso mantê-lo preso, tenho o controle de suas vidas desde o instante em que nasceram. Vocês dois são completamente meus e posso fazer o que quiser. Quanto à Sasori, realmente não me importa o que acontece com ele.Tendo dito isso deu-lhes as costas e seguiu pelo corredor, sem se preocupar, sem olhar para trás. Sasori não esperou um segundo convite e correu até Itachi, que ainda olhava o caminho por onde o avô seguia. Ao ter a mão segurada volveu o olhar ao ruivo baixinho que parecia prestes a chorar.Piscou algumas vezes, aturdido. Fitou o rosto de Sasori parecendo surpreso com aqueles olhos vermelhos tão incomuns. Era como vê-lo pela primeira vez. — Vamos para casa, meu bem. Me desculpe!Inconscientemente segurou seu rosto, olhando-o afetuosamente.— Sasori... — repetia para firmar em sua cabeça que era ele mesmo. Fitou a mão direita do ruivo percebendo a aliança idêntica a sua — Estamos mesmo casados, não é? — Estamos — afirmou calmamente.— Eu realmente tenho sorte. Você é tão bonito — observava o rosto redondo que começava a corar — Olhe para você. Seus olhos são lindos.Sasori engasgou com a emoção que encheu seu peito. Sentiu uma mão em seu ombro e se virou para dar de cara com Sasuke, muito sério.— Precisamos ir, agora — apressou-os. O trio segue então entre os olhares atentos e as conversas dos empregados. Do alto da escadaria Obito fitava Sasori atentamente. Este chegou a lhe mostrar um olhar irritadiço, mas quando o homem sorriu de desdém virou-se, não valia mesmo à pena.Obito podia já ter lhe roubado Aiko, mas jamais lhe tiraria Itachi também! Saíram pelo portão principal, o breu da noite tornando aquele jardim uma cena macabra, os galhos secos balançando contra o vento gelado. Sasuke fez questão de colocar Itachi primeiro, sentado no banco de trás. Sasori entrou em seguida. Ainda deu uma olhada em redor para então sentar-se no banco do motorista, a chave na ignição e pressionou depressa o botão de partida do automóvel. Dirigiu o mais depressa que podia nas ruas vazias, um imenso alívio dentro do peito.Ao chegar em casa, Sasori tencionou segurou de leve as mãos geladas, guiando Itachi , endireitando o casaco nas costas largas ajudando-o a entrar no casarão. Estavam em casa, finalmente! Queria esquecer o quanto antes o horror de não saber onde ele estava.— Vamos colocar algo quente em você, meu amor — fechava o próprio casaco que vestiu nele, e que ficava um tanto pequeno em Itachi que era tão mais alto. Este, ao entrar no casarão, suspirou de alívio.Lembrava daquele lugar, sabia que era sua casa! Era ótimo ter para onde voltar, esteve desesperado ao se perceber sozinho no meio do nada.— Vou pedir algo para ele comer e solicitar um médico. Se precisar de alguma coisa me chame — Sasuke disse educadamente ao cunhado, acariciando devagar o ombro do irmão, e retirando-se em direção à sala. Estava imensamente aliviado que Itachi estivesse bem, a ideia de algo acontecer a ele era terrível.O ruivo assentiu e levou o esposo ao quarto que dividiam. Largou uma muda de roupas limpas sobre a cama e tencionou despi-lo. Quando o toráx branco e liso de Itachi ficou exposto este corou e virou o rosto, meio sem jeito. Sasori entendeu imediatamente e virou-se de costas.— Desculpe. Tem um banheiro logo ali. Pode tomar banho pelo tempo que quiser e depois se vestir. Vou estar aqui fora se precisar de algo.—... Obrigado — disse em tom baixo e então arrancou aquelas roupas, enojado por lembrar como foram tocadas por Madara.Sasori esperou que ele entrasse no banho e então procurou por Sasuke, que terminava de falar ao celular.— Chamei um médico, creio que logo ele esteja aqui.— Muito obrigado, Sasuke. Não o teríamos achado se não estivesse aqui para me ajudar.— O importante é que Itachi está bem. Pode providenciar algum tipo de documento? Imagino que ele tnha largado tudo no banco.— Claro — tendo dito isso segue para vasculhar algumas gavetas entre os pertences do esposo. Aproveitou para juntar também alguns exames recentes, tudo isso seria útil para cuidar melhor dele.Sasuke por sua vez segue ao quarto, ouvindo o barulho da ducha. Senta sobre a cama e suspira longamente, passando as mãos pelo rosto.Era difícil se manter forte e impassível diante de tudo o que andava acontecendo. As coisas pareciam se complicar cada vez mais. Não bastasse o nervosismo de ter Daisuke em estado grave, de Naruto estar longe e correndo perigo para salvá-lo, agora adicionava à sua dor o fato de Itachi estar desorientado e confuso.Fechou os olhos, murmurando de cansaço. A aflição anterior o fizera esquecer a cirurgia, mas agora não podia deixar de se preocupar com o que acontecia.— Naruto...—-Pela manhã, Sasuke foi o primeiro a despertar. Havia dormido sentado na sala, pensativo com tudo que estava acontecendo. A última coisa que se lembrava era de ter carregado Sasori para o quarto, ele acabou desabando de cansaço e adormecendo sentado no chão, a cabeça encostada à cama de solteiro do quarto de hóspedes em que Itachi passou a noite. Por estar confuso, Sasori tivera a delicadeza de o deixar dormir sozinho para não pressioná-lo, porém não conseguiu deixar de velar o sono dele, tinha medo que algo pudesse acontecer.E ao vê-lo adormecido de cansaço, Sasuke se compadeceu e carregou o ruivo ao quarto, tirou os sapatos e o colocou na cama. Ele merecia descansar.Endireitou o corpo, as costas doíam horrores por ter dormido sentado. Passou os dedos pelos cabelos negros levando-os para trás e amarrando em um rabo de cavalo curto. Saiu arrastando os chinelos pela casa imensa, bocejando à caminho do banheiro, lavando o rosto e a boca. Já estava até habituado àquela casa.No caminho que fez em direção à cozinha olhou de relance o quarto principal, percebendo que Sasori ainda dormia profundamente e pretendia deixá-lo assim. Seguiu até o quarto de hóspedes, onde estava seu irmão, para verificar que ele estava bem. Abriu a porta devagar, entrando com passos vagarosos e se aproximando da cama, sentando nela devagar para que o balançar do colchão não o acordasse.Itachi parecia bem, mas o sono leve o fez se mexer e murmurar. Abriu um pouco os olhos, muito sonolento.—... Itachi, está me ouvindo? — o mais novo quis saber, chegando um pouco mais perto.Os pensamentos de Itachi estavam enevoados e sem nexo. Sua vista embaçada tentava focalizar a pessoa diante dele. Piscou, tentando ver melhor, percebendo que o rapaz falava com ele.Sasuke já começava a se perguntar se deveria chamar o médico novamente quando Itachi segura em seu braço, puxando-o para mais perto.— Quer alguma coisa? — fitava-o em busca de respostas, mas o mais velho ainda parecia alienado e confuso.E então, para sua completa surpresa, Itachi passa a mão à nuca de Sasuke, o puxa para baixo e o beija devagar, o susto impedindo o menor de reagir.Os olhos de Sasuke arregalaram e ele ficou imóvel, sem conseguir escapar do beijo e sem coragem de empurrá-lo bruscamente. Alguns segundos depois Itachi abriu os olhos por completo e fitou o irmão, assustado. Separou seus lábios devagar, um som estalado quando se soltaram. Pareceu tão envergonhado que poderia sumir.—... Ah... Você é o Sasuke, não é?Ele fez que sim, meio desconcertado, mas tentando a todo custo se manter normal para não piorar a situação.—... Desculpe, eu... Pensei que você fosse Sasori.— Não tem problema — pigarreou, sem querer prolongar o assunto — Como se sente? Consegue lembrar de alguma coisa?Ele franze a testa e pensa por um tempo, muito concentrado.—... Eu não deveria ter ido ao banco? Para fazer um depósito para o tratamento de Naruto?Sasuke expirou de alívio.Que bom que ele se lembrava! Era como o médico dissera. Algum tempo de descanso e as memórias voltariam, ainda que confusas.— Você esteve no banco ontem, Itachi. Mas algo aconteceu. Disseram que você saiu para atender a uma ligação de celular e não voltou mais. Encontramos você completamente confuso e sem memória, consegue lembrar disso?— Em partes — passou a mão na frente do olho que doía.— O médico nos disse que algo deve ter causado um trauma muito grande em você, e que por causa disso perdeu a memória. Consegue se lembrar o que foi, Itachi? Sabe o que te disseram durante aquela ligação para deixá-lo atordoado a ponto de perder a memória temporariamente?Ficou algum tempo em silêncio, fitando os joelhos cobertos pelo edredon. Por fim ergueu o rosto ao mais novo.—... Não, eu não consigo lembrar de nada depois que saí daquela sala.Sasuke não retrucou.—... Madara fez algo à você?— Está preocupado comigo? — riu de lado, forçando Sasuke a mostrar sua cara fofa de emburrado.— O que esperava depois do susto que nos deu?— Desculpe, não vai acontecer novamente.Ele fez que sim, como se tentasse se convencer disso.— Vai ficar bem?— O bastante para não tentar te beijar de novo — riu, endireitando o corpo na cama. Sasuke riu, aquele riso aparentemente bravo e debochado.— Eu agradeço se não o fizer — deu algumas palmadas em sua perna — E agradeço também se parar de mentir para mim.O mais velho ia retrucar, mas Sasuke fez um movimento com a mão. — Sei quando mente para mim, Itachi. E sei também da irritante mania que tem de tentar me proteger de tudo. Fitou-o em silêncio por alguns intantes. Por fim expirou forte, massageando a cabeça dolorida.—... Eu não me recordo de tudo, nem de como começou, mas... A voz ao telefone, eu realmente acho que conheço o dono dela. — E o que ele disse?— Algo a respeito... De Mikoto estar morta.Sasuke tremeu e sua respiração fez barulho, os olhos pasmos. Antes de poder questionar o outro proseguiu.— Não acho que seja verdade. Nada disso faz sentido algum. Quer dizer, posso estar confuso com os detalhes, mas não acho que alguém ligaria apenas para me dizer que Mikoto morreu. Ninguém se importaria.Já mais calmo e um tanto aliviado com a análise inteligente do irmão, Sasuke segura o próprio queixo enquanto juntava alguns fatos. — Você havia dito que iria até a casa sede, lembra? — ao receber o aceno em negativa, prosseguiu — Para me impedir de renovar os votos com Karin, e para confrontar Madara, você iria até a casa sede, a mesma em que esteve ontem. O que me faz pensar que a pessoa que fez essa ligação não queria que você fosse até lá, talvez Obito ou algum subordinado do patriarca. De qualquer modo era alguém que sabia que um trauma poderia afetar sua mente, e fez isso de propósito.— Não consigo imaginar quem foi.— E nem precisa, não agora. Descanse, Itachi. Cuidaremos disso quando você estiver bem.Ele assentiu, o sono tornando a invadi-lo até que adormeceu facilmente. Quando despertou, mais tarde, ouvia o som rápido das teclas no notebook sendo pressionadas, um som tão familiar. Sorriu sozinho, calçando os chinelos e indo devagar até o banheiro, para lavar o rosto, pentear os longos cabelos que estavam eriçados e desgrenhados.Ficou satisfeito ao se fitar no espelho, já sentia-se bem melhor. Sabia onde ficava cada cômodo, embora não lembrasse com exatidão para que lado era a sala. Deixou-se guiar pelo som das teclas sendo pressionadas ferozmente.Encontrou seu ruivo lendo atentamente algo na tela do notebook, os dedos se movendo sem parar. Ao percebê-lo ali ele esboça uma expressão de alívio, esquecendo tudo que estava fazendo.—... Oi, meu amor — largou o que fazia e veio até ele, preocupado — Como está se sentindo? Lembra de alguma coisa?— Que você deve estar furioso porque eu deveria ter trazido o jantar ontem — riu. Sasori soltou um grande suspirou de alívio e o abraçou muito apertado.— Que bom... — fechou os olhos e alisou seus cabelos — Que bom que se lembra, tive medo que esquecesse de mim — penteou os cabelos negros com os dedos, alisou as sobrancelhas, tocou os lábios -... Tive medo de não te encontrar nunca mais.— A única pessoa que não some da minha cabeça quando tenho um surto é você — cruzou as mãos detrás das costas dele, colando o peito enquanto o balançava devagar de um lado para outro — Eu disse alguma estupidez? Algo que devo me preocupar?— Nada — riu baixo — Disse que tinha sorte por se casar comigo.— Então já estava em meu juízo perfeito — baixou um pouco, para lhe dar um beijo leve e estalado nos lábios — Sou um homem de muita sorte por ter perdido a memória tantas vezes.— Nem brinque com isso. Como pode considerar sorte ficar sem memória?— Pude me apaixonar por você de novo. É mais sorte do que eu poderia desejar.Sasori ficou mudo, a boca envergada e os olhos enchendo de lágrimas.— Tinha me esquecido dessas frases de bajulador! Acha que caio nessa?— Acha que não? — tornou a beijá-lo, dessa vez mais devagar, deliciado em sentir o sabor da boca dele, em tê-lo por completo nos braços, o modo como cabia perfeitamente. Separou-se para beijar seu rosto, suas mãos. O fitou intensamente, os olhos lindos e estreitos.— Obrigado por me procurar, por não desistir de mim.— Você me salvou primeiro, era eu quem devia.Assentiu, apertando o ruivo pequeno entre os braços, afundando o nariz nos cabelos espetados para gravar aquele perfume na mente.— Quero me casar com você...— Já somos casados, Itachi.— Não me lembro como fiz o pedido, então não conta — beijava-lhe os cabelos — Casa comigo, Sasori? Outra vez?— Caso — riu — Quantas vezes você quiser.Não importava quantas vezes perdesse a memória. Enquanto Sasori estivesse por perto tinha a certeza de que conseguiria se lembrar de tudo outra vez.—... Lamento destruir essa aura romântica, mas preciso ir à universidade hoje, ou perderei todas as aulas que atribuí.— Claro — separou-se dele, apertando suas bochechas — Suas aulas são importantes.— Chamei alguém para ficar com você — falava abafado, tendo as bochechas amassadas.— E quem seria?— Deidara. Quem mais?— Ai de mim! — riu.—-Nem bem o loiro chegou já foi largando a mochila num canto e chutando os sapatos de qualquer jeito no meio da sala. Balançava a cabeça em total reprovação.— Ita, meu querido, posso saber que droga pensa que está fazendo ao ancião do seu esposo? — Deidara apontou um Sasori que o fuzilou com o olhar.— Quem você está chamando de ancião???— Tem outro velho aqui além de você?— Sou só dois anos mais velho que Itachi e apenas um ano mais velho que você, praga! — devolveu irritado ao loiro que o ignorava.— Pode deixar que vou cuidar muito bem do Ita, trouxe um fardo de cerveja, vodka e energético! Ele vai ficar novo num instante!— Ele não pode beber! — retrucou no mesmo instante e Deidara só conseguia rir.— Eu sei, cara você anda muito estressado — volveu o olhar ao Uchiha — Ô Itachi, se importa se eu tirar esse estresse todo dele?— Me importo muito — riu de volta — Só se eu estiver junto.— Opa, ménage! Quem de nós fica no meio? Eu voto no danna que é o que mais precisa extravazar! Muito embora eu também vote em mim mesmo.— Quer parar com isso??? — o ruivo suspirou — Deidara, sei que vai cuidar bem do Itachi, mas me avise se ele precisar de qualquer coisa, qualquer uma mesmo. Pode prometer isso?— Prometer o que mesmo?— DEIDARA!— Ok, eu estava só brincando — bagunçou seus cabelos — Relaxa danna, eu fico de olho nele. Itachi parece ótimo, apenas relaxe e vá dar suas aulas tranquilo.Meio a contragosto o ruivo assente. Aproxima-se de Itachi, se esticando para cima por ser muito baixo. Segura seus ombros e lhe dá um beijo vagaroso.— Volto de noite. Pode me ligar a qualquer momento, estarei com o celular o tempo todo.— Eu sei. Vou ficar bem.Sasori engoliu forte, não queria ir embora. Tinha medo de deixá-lo, estava nervoso. Mordeu bem forte, tentando ficar calmo. Itachi pareceu perceber isso e afastou a franja vermelha, dedilhando seus cabelos.— São só algumas horas. E mesmo que eu queira o Deidara nunca vai me deixar sair sozinho daqui.— Ah, mas não vou mesmo! — o loiro retrucou, de braços cruzados — Vá de uma vez, Sasori. To sobrando muito aqui se ainda não percebeu. Esse negócio de ficar de vela não é pra mim.O ruivo riu, fechando os olhos, afagando os cabelos negros.— Volto logo. Amo você.— Amo você também — sorriu de volta, aquele maldito e arrasador sorriso gentil que destruía as defesas de Sasori. Precisou de toda a força de vontade que existia dentro dele para sair de casa, para tentar se concentrar, para deixar Itachi sozinho. Tudo que mais queria era ficar e cuidar dele, mas sabia que não poderia vigiá-lo para sempre. Era um voto de confiança muito importante.Deidara por sua vez sentou no sofá de frente para o Uchiha ao se verem sozinhos.— Olha, só pra você saber: não vou te dar banho nem comida na boca, hein? — Mas que pena, já estava contando com um banho seu — piscou, malicioso.— Só se for de gato! Um banho bem longo de língua! — riu de volta, ainda mais malicioso — Mas cara, na boa: que susto que me deu, achei que o Saso ia enfartar! O que aconteceu?— Uma ligação estranha que me deixou desestabilizado, a ponto de esquecer tudo. Na hora confesso que não consegui pensar direito, não estava passando bem. — Uma ligação de quem?— De Shisui.— Seu primo?Assentiu que sim.— Ele dizia que a minha mãe foi morta, que o sofrimento dela havia acabado.O loiro ficou sério e engoliu em seco.— Não contou isso ao Saso, certo?— Depois de todo o susto que o fiz passar achei melhor esperar. Sei que ele imagina que tenha algo errado, mas vou deixar para contar em outro momento. Não o quero preocupado comigo mais do que já está.— Você mesmo não parece muito preocupado com o que Shisui disse.— Depois que acordei minha cabeça estava uma bagunça, mas aos poucos tudo foi voltando ao lugar. Pude me lembrar de Shisui, e de certa forma pensei que algo não estava certo.— Olha, eu acho muito estranha essa conversa dele ligar só para te dizer que sua mãe foi morta. Mesmo que ele seja seguidor do pirado do seu avô.— Penso da mesma forma. Shisui tem agido estranho, mas não vejo motivos para fazer aquela ligação, a não ser o fato de querer impedir que eu fosse até a casa sede no intuito de confrontar Madara. Isso se evidenciou ontem quando estive na mansão Uchiha, nada me foi dito, nada me foi cobrado. E Madara parece muito seguro sobre seus planos de manter a mim e Sasuke em seu poder.Deidara coçou detrás da cabeça.— Acho que pensar muito nisso vai te deixar mais angustiado. Mas se quer saber eu duvido muito que sua mãe esteja morta. Ela é mais forte que qualquer um de nós. Eu esperaria até que ela aparecesse de novo pra mandar o Madara à merda!Assentiu, com um pequeno sorriso.Sentia-se exatamente assim. E podia sentir que cedo ou tarde veria sua mãe de novo.—-Sasuke prendeu o ar, a dor se alastrando em cada canto dele. Havia pedido aos médicos da clínica que informassem sobre o estado de saúde de Naruto e dos gêmeos, e no momento que foi informado da ligação por sua secretária correu à sua sala da presidência, trancando-se para poder perguntar o que estava afinal acontecendo.— Como ele está?Ouviu uma risadinha desagradável.— Kukuku, é bom falar com você de novo, Sasuke.— Como ele está??? — insistiu, nervoso.— O seu querido Naruto teve uma hemorragia no meio do procedimento. Tivemos certeza que ele morreria ali mesmo.O coração do moreno quase parou.— Naruto está bem, não é? — Foi preciso muito esforço da equipe médica, mas sim. Seu namorado está vivo.Sasuke largou-se na cadeira, fechando os olhos e suspirando de alívio, a ponto de esquecer que queria matar aquele maldito médico excêntrico!— Meus bebês, como estão? Ele sofreram com isso?— Ah obviamente que sofreram, uma intervenção no pai mexe neles também. Já havia dado Daisuke como morto, até avisei sua família, porque ele não queria reagir. Fizemos seu coração pulsar artificialmente, na esperança que ele pudesse voltar.O nervosismo voltou com força, escurecendo as vistas do moreno que cobriu os olhos com a mão, temendo perguntar.—... Ele conseguiu?Uma nova risadinha soou ao telefone.— Teimosia é o nome do meio dos Uchiha e dos Uzumaki. Daisuke passou maus bocados, tivemos que fazer uma intervenção para introduzir cateteres com balões nas extremidades, e assim tentar desentupir as válvulas do coração dele. O procedimento não serve para curar a cardiopatia, apenas asseguraria que ele sobrevivesse até o parto, para então realizar o tratamento mais adequado. Foi tudo que conseguimos fazer naquele momento, porque se o sangue não fluísse, ele morreria certamente. O procedimento todo foi muito longo, nenhum de nós da equipe médica achou que ele fosse mesmo conseguir.— Ele está vivo ou não? — insistiu — Diga de uma vez!— Você é um homem de sorte, Sasuke. Terá seu par de gêmeos e poderá falar com Naruto o quanto quiser quando ele acordar.Sasuke segurou a blusa sobre o coração, à beira de um ataque.Mas estava muito feliz, muito mesmo! Seus temores desapareceram por completo. Nada mais era importante. Apertou os olhos que ardiam.Naruto, Daisuke e Aiko estavam vivos! Estavam bem! — Obrigado... Muito obrigado, Orochimaru.— Kukuku, contudo há algo importante que precisa saber, Sasuke. O menino teve problemas de desenvolvimento. O braço esquerdo não se formou por completo, então ele contará apenas com o braço direito.O mundo desabou na cabeça do moreno e quase não ouviu o que o médico terminava de lhe dizer. A culpa o esmagou, causando tamanha dor como não achou que sentiria. As lágrimas de felicidade de outrora se transformaram em pesar e rolaram pelo rosto pálido.Daisuke não teria o braço esquerdo... E por sua culpa! Olhou aturdido para o chão, as pernas perdendo as forças, se não estivesse sentado cederia facilmente. Orochimaru riu debochado.— Aposto que está se martirizando por ser sua culpa, não é? —... E de quem mais seria? Eu expus Naruto a todo esse estresse!— Em todos os meus anos de medicina nunca ouvi falar que estresse cause má formação — debochou. — Mas ele teve todas essas complicações porque o fiz se preocupar demais! — Pode até ter feito mesmo, e garanto que fez. Mas o motivo da complicação de Naruto é o fato dele ser compatível e estar esperando gêmeos. Já era de se esperar que algo acontecesse em uma gravidez tão complicada. Não é tudo sua inteira culpa. —... Isso não diminui o que eu fiz. — Então vá e se resolva com ele, simples assim. Deve agradecer que ele ainda está vivo ou teria perdido sua chance. — Nada é tão simples assim. Eu só estava... Tentando proteger o Naruto.— Vejo que fracassou miseravelmente. Não conseguiu protegê-lo e ainda somou uma dor muito grande, ele perguntou de você várias vezes. Era óbvio que queria que estivesse lá com ele.O moreno engoliu em seco.—... Agradeço por seus serviços, mas o perigo ao qual Naruto se expõe ficando comigo é muito grande. Vou arcar com as despesas, mas não posso encontrá-lo agora.— O que posso lhe dizer com certeza é que estou adaptado a ver familiares chorando a perda de alguém importante. Geralmente estavam brigados, tinham muitas coisas a dizer e quando essa pessoa morre, não há mais nada a se fazer. Naruto está vivo por ter sido tratado por uma equipe experiente, mas tinha todas as chances de estar morto agora, assim como os bebês que estão dentro dele. Você o visitaria no necrotério do hospital, estirado numa tábua de mármore, sem nunca ver os rostos dos seus filhos. Alisaria uma barriga gelada, todas as coisas que pretendia dizer, todas as desculpas, ficariam perdidas porque Naruto não seria mais capaz de ouvir. A última coisa que se lembraria é da briga estúpida de vocês. Consegue imaginar o tamanho do remorso e arrependimento que te perseguiriam por toda a vida? O Uchiha fungou, secando o rosto, sem conseguir responder.— Consegue imaginar o que seria vê-lo morto, grávido, levando seus filhos consigo? Ou imagina o que significaria enterrá-lo sendo tão jovem? Afinal ele é seu grande amor, não?—... Claro que imagino. E é terrivel apenas pensar nisso. Mas o modo como me sinto com relação ao Naruto não importa mais.— Não acha melhor largar esse orgulho estúpido e vir dizer à ele o que realmente é importante? Se nem a morte os separou, duvido muito que algo mais o faça. Você ganhou uma chance realmente valiosa, Sasuke. Imagino que não tenha outra igual e aquele menino é bastante bonito, eu mesmo poderia roubá-lo para mim. Fique aí como um tolo e alguém vai arrancar Naruto de você.Irritou-se com o comentário, mas secou o rosto e respirou fundo, porque era difícil tornar a pensar corretamente. Quando os abriu parecia mais calmo, mais determinado.Madara tirou muita coisa dele, o fez sofrer de muitas maneiras, estava na hora de dar um basta nisso. Estava cansado de sofrer e de ver as pessoas que amava sofrendo igualmente.Era hora de avançar, de seguir em frente, de dar um passo rumo ao futuro, esquecer o que já se passou.De confiar em si mesmo e em seu julgamento.—... Caso Naruto acorde ainda hoje, por favor diga que espere por mim. Vou pegar o primeiro avião que sair rumo à Otogakure ainda hoje!O mais velho debochou.— Como quiser, Sasuke!—-Ouvia o som de risadas ecoando pela casa. Mãozinhas pequenas e gosmentas passavam por seu rosto, lambuzadas de açúcar e o que parecia chocolate. Ouvia as risadas, mas não enxergava bem.Onde estava? Quem eram?Fitou aturdido aqueles rostinhos lindos, um amor sem igual ardendo em seu peito. Não pareceu entender nada, e ainda olhou ao redor para tentar se situar.Aquela era sua casa? Mas estava diferente, parecia mais ampla. Novos risos chamaram sua atenção e volveu o olhar aos donos deles.— Papai, não é assim que se faz brigadeiro! — riu de novo, adorável com sua voz de menina ainda muito pequena.— Isso nem gostoso está — a voz de um menino ecoou, ainda fina por ser muito novo — E é duro feito pedra, não dá pra enrolar!Piscou algumas vezes, para só então perceber com clareza as duas crianças pequenas sobre a bancada de uma mesa de cozinha. Sabendo quem eram, chamou-as por instinto.—... D... Daisuke? Aiko?Ambos viraram-lhe o rosto sujo de chocolate, rindo sem parar.
— Papai, esse é o pior brigadeiro que já vi! — Daisuke ria a ponto de engasgar. Aiko parecia seguí-lo nas risadas, tentando cavar o fundo da panela com uma colher, levando à boca em seguida.— Talvez dê para tirar da panela se jogar um pouco de água morna — ouvia uma terceira voz familiar, de deboche e sarcasmo.Surpreendeu-se com a voz grave e virou o rosto, para perceber a figura de Sasuke, com os cabelos um tantinho mais compridos, lindo como de costume, sorrindo de lado.— E vem me dizer que veio de uma família de cozinheiros — agulhou enquanto o fitava, e em seguida segurou as mãozinhas sujas dos gêmeos — Se limparem essa sujeira podemos sair e comprar doces que sejam possíveis de comer.Os gêmeos exclamaram eufóricos, correndo para o banheiro.Ainda estático, como se assistisse tudo sem participar, Naruto percebe Sasuke virar para ele e sorrir.— Por que está parado aí? — percebeu-o se aproximar e lhe beijar rapidamente, dando um irritante peteleco em sua testa em seguida — Se eles voltarem e não te virem pronto para sair se prepare. Essas coisinhas parecem você quando está nervoso — riu sincero, virando-lhe as costas.Percebeu-o se afastar, a imagem dos gêmeos sorridentes cada vez mais distante. Sasuke parecia sereno e feliz tendo os dois agarrados em suas pernas. Eles pareciam se afastar cada vez mais, ainda tentou esticar a mão, correr para detê-los. Tentou chamá-los, mas a voz desapareceu da garganta.—... Sasuke — chamou de novo, mas ao piscar gemeu de dor, o rosto do Uchiha substituído por uma feição familiar.Menma o fitava, muito sério.Assustado e desnorteado, Naruto pisca algumas vezes, a lateral da cabeça doendo horrores.—... Onde...? — tentou se situar, procurando com os olhos — Onde estão os gêmeos?— Ahn... Dentro de você? — testou, rindo — A médica disse que acordaria meio grogue, Naru. Seja lá o que viu foi só um sonho.Oh sim, era somente um sonho . Isso explicava muita coisa. Respirou fundo, cansado e extremamente dolorido. Até falar era um esforço grande.—... Eu vi os dois no meu sonho. Aiko e Daisuke.— Sério? E como eles eram? Com quem pareciam?Naruto fitou um ponto qualquer, pensativo.— Não me lembro...— Ah, mas que desperdício! Mas enfim... Você ta bem?— Acho que sim — tentou se endireitar mas sentiu uma dor horrivel e Menma o segurou.— Não pode levantar a cabeça ainda, você tomou uma anestesia raquidiana, precisa descansar.— Daisuke... Ele está bem?O sorriso do raposo iluminou a sala, e lhe encheu de esperança.— O coraçãozinho dele está batendo mais forte. Isso não é ótimo? — apertou os olhos bem firme. —... Ele não corre mais perigo?— Não está curado ainda, e riscos não estão descartados, mas só de saber que ele está vivo, que teve uma pequena melhora, não faz a gente ter esperança?Naruto então sorriu e suspirou, largando-se no colchão. Cobriu os olhos cansados, o coração batendo feliz e aliviado.— Com toda certeza que faz! — passou devagar a mão pela barrigona, fechando os olhos. A sensação de ver o rosto dos gêmeos lambuzados, o som dos risos ainda ecoava nele — Eu passaria tudo isso mais dez vezes por eles! Certamente.—-A tarde se encerrava, trazendo a queda da temperatura consigo. Pequenos flocos brancos de neve começavam a cair do lado de fora da janela fechada, cobrindo devagar as árvores secas com uma fina camada branca.Naruto fitava distraidamente, acompanhando com os olhos o movimento da neve, sozinho no quarto do hotel em que estava pela última noite, uma vez que recebeu alta da clínica por estar bem o suficiente para voltar para casa. Pela primeira vez sabendo que os gêmeos estavam bem, permitiu pensar em si próprio, porque até então nada mais lhe era tão importante quanto salvar Daisuke, ou saber que a gravidez não teria problemas.Agora que a situação parecia se estabilizar, a primeira coisa que surgiu em sua mente foi Sasuke. A forma como ele não ligou uma vez sequer, nem mesmo para saber dos gêmeos, magoava muito o loiro.Enquanto arrumava suas malas para voltar para casa, um sentimento estranho se formou nele.Voltar significava enfrentar seus problemas de frente. Significava receber notícias de que Sasuke estava com Karin, e que logo lhe daria um filho para herdar o nome e legado dos Uchiha. Significava também vê-lo nas revistas, ouvir falar dele por onde quer que fosse.Significava ser colocado diante de um sentimento que não estava pronto para esquecer, de algo que não seria capaz de enfrentar.Esteve tentando a todo custo se controlar, porque sua situação pedia isso. Tentou esquecer, tentou ignorar, mas a única verdade era que ainda amava Sasuke com todas as forças que possuía dentro de si. O que sentia estava longe de ser uma simples paixão, era algo tão forte e intenso que chegava a lhe admirar! Algo que povoava seus pensamentos, que evidenciava o que havia de melhor em si próprio. Sentou sobre a cama e apoiou a cabeça entre as mãos, grato por estar sozinho porque estava farto de fingir estar bem, fingir que não estava sofrendo, para não preocupar os outros.Nada estava bem! Queria ver Sasuke de novo, queria espancá-lo por ser tão covarde, por não ter a coragem de lutar por eles dois!Como esquecer se aquele maldito sentimento se recusava a deixá-lo? E ainda latejava seu peito, ainda o fazia desejar revê-lo, lutar por ele!Expirou bem forte, se odiando por tornar a pensar e sofrer por ele. Sasuke não merecia nada disso!Ao ouvir a campainha teve vergonha de si mesmo. Menma havia ido buscar o jantar, disse que não demoraria. Não teria coragem de encarar o primo com aquela horrível cara de choro!— Um minuto! — pediu em alto som, se apressando ao banheiro, os movimentos mais lentos por conta da barriga enorme. Lavou e secou o rosto para tentar parecer bem, embora os olhos ainda estivessem vermelhos, bem como seu rosto.A campainha soou novamente.— Já disse que estou indo, Menma! — falou mais alto, já impaciente pela insistência do primo. Se apressou o quanto conseguia, segurando a parte de baixo da barriga, o mero movimento já o fazendo ofegar. Girou o trinco da porta, olhando para baixo.— Custava esperar um pouco? Sabe o quão difícil é me mover rápido com essa barriga deste tamanho? — resmungou, respirando depressa e então ergueu o rosto.E levou tamanho susto que achou que seu coração pararia de bater!Sasuke estava parado do outro lado da porta, parecendo tão ou mais confuso que ele próprio. O casaco longo e negro, assim como seus cabelos, estavam cobertos de neve e o rosto estava queimado de frio, um vermelho vívido em meio à palidez. Ele ofegava depressa.Naruto não sabia o que dizer e ficou parado, sem saber o que fazer. O primeiro a despertar foi Sasuke que baixou o olhar à barriga grande do loiro, para observá-la muito bem. Naruto pareceu despertar em seguida.—...O que faz aqui, Sasuke?— Posso entrar? — pediu sério, os olhos postos nos azuis — Não vou demorar, nem incomodar você. Um minuto é mais que suficiente.O loiro o fitou em silêncio e então fez sinal, permitindo que entrasse,— O que você quer?Sasuke por algum tempo permaneceu calado, fitando o rosto emburrado daquele homem lindo, estabanado, desajeitado e um tanto estúpido.Caminhou alguns passos, diminuindo a distância, sem deixar de encará-lo. Ao ficar exatamente de frente ergueu a mão, sentindo a maciez da pele morna. Naruto não se moveu.— Imagino que seja algo realmente grave para te fazer deixar sua amada esposa e vir até aqui — desdenhou.— Pode não acreditar no que digo, mas você é sempre minha prioridade.O outro girou os olhos.— Não é o que faz parecer.— É o que pretendo mudar. Não vou mais mentir para você, nem para mim mesmo — disse sério, os dedos se afastando a contra gosto da pele macia daquele rosto redondo — Quero apenas que saiba a verdade que, por egoísmo, escondi de você.O loiro arqueou a sobrancelha.— Óbvio que há muitas coisas que anda escondendo de mim, Sasuke. E isso é o que mais me machuca. Por que não pode confiar em mim? Por que não consegue enfrentar seu avô e acabar com essa estupidez toda de clã perfeito?Começou a ficar realmente nervoso, a voz subindo e a vontade de socá-lo aumentando.— Eu não entendo você, Sasuke! Diz que ainda me ama, que quer ficar comigo, mas quando Madara estala os dedos você desiste de nós dois, esquece tudo que me prometeu e corre para junto de Karin novamente! Eu não posso suportar isso! Pare de brincar desse jeito comigo!Sasuke ouviu tudo em silêncio, até que ele houvesse terminado.— Não tiro sua razão em nada do que diz. Eu sei o quanto machuquei você, Naruto. Sei que te deixei sozinho em um momento crucial, mesmo depois de dizer que nunca mais faria isso. Não confiei em você plenamente, não o tratei com o respeito que merecia, como o companheiro que escolhi para estar ao meu lado. E peço perdão por isso.— Era isso o que você queria? — olhou para baixo, ofendido — Veio até aqui para se livrar da culpa e obter meu perdão? Se é por causa disso então já pode ir embora. Você não significa mais nada na minha vida!O moreno respirou fundo.— Neste caso acabo de encontrar um motivo ainda maior para ter vindo te ver. O de fazer com que volte a me amar, Naruto. Porque nunca esqueci de você nem mesmo um dia desde que nos separamos. Minha vida perdeu completamente o rumo e o sentido, nem sei pelo que estou lutando. Nada parece certo se você não está comigo.Os olhos azuis faíscaram de ódio.— Então por quê? Por que me disse todas aquelas coisas? Está se divertindo dando-me esperanças e arrancando-as em seguida? Eu preciso esquecer você e seguir com minha vida! Pare de me fazer sofrer desse jeito!Sem dizer nada o moreno diminui a pouca distância que restava, assustando o loiro que tentou recuar, mas que foi pego pela cintura, as mãos grandes de Sasuke o segurando firme junto a si, olhos nos olhos.— Escute bem, porque vou lhe dizer isso apenas uma vez — os olhos negros brilhavam no rosto irritantemente belo, ele o fitava de modo calmo e amoroso — O motivo de vir até aqui é para que saiba que errei muito com você. Por estar amedrontado quase o perdi, e nunca me perdoarei por isso.Um espasmo passou pelo lábio do loiro, mas logo ignorou, colocando as mãos no peito do Uchiha para se afastar do abraço, mas ele não deixou.— Não me importa! Eu ainda odeio você pelo que me fez e nada do que faça agora vai me fazer mudar de ideia!— Apenas me deixe terminar.— Vá se ferrar! — gritou irritado, os olhos ardendo, mas não tentou mais se soltar -... Pare de fazer isso comigo!— Não tive escolha senão mentir à você — apertou os dedos nas costas, com cuidado para não imprensá-lo demais — Fiquei tão apavorado com as ameaças que recebi que perdi o rumo. Achei que a única forma de te proteger seria ferindo seus sentimentos, fazendo você me odiar exatamente como agora. O outro piscou, era lerdo para entender.— Do que está falando? Mais uma mentira descabida? O que tenho eu a ver com sua atitude?— Madara ameaçou você, Naruto.O loiro voltou-lhe um olhar surpreso, percebendo-o cansado.—... Ele ameaçou torturar você e os gêmeos caso eu não me afastasse definitivamente. A princípio apenas me irritei, não estava disposto a deixá-lo se intrometer em minha vida, porque já me decidi em ficar com você há muito tempo. Achei que pudesse te proteger, mas a verdade é que tive medo. Eu não suportaria se algo de ruim te acontecesse.As mãos sobre o peito do moreno afrouxaram um pouco.— E por que não me contou nada disso?— Eu estava tentando te proteger. Madara destruiu tudo à minha volta, jamais permitiria que colocasse as mãos em você.— Isso não justifica aparecer na minha porta dizendo que queria terminar tudo comigo para se casar com Karin!O olhar do moreno desviou.— Isso foi por você, por Aiko e Daisuke, mas também outra pessoa que corria risco iminente de vida, e que estava sofrendo muito por minha causa.Percebeu que o Uzumaki não entendia, e não o culpava por isso, pelo contrário. Toda aquela história injusta era confusa e sem sentido algum.— Creio que sabe que minha mãe Mikoto estava desaparecida, não é? Fez que sim, ainda sem entender.— Acontece que ela voltou ao país quando soube que Itachi estava em estado vegetativo irreversível. Ela quis se despedir, mesmo arriscando a própria vida, sabendo que se voltasse seria encontrada por Madara. E foi o que aconteceu.— Mas... Você me disse que ela era uma criminosa, que não se importava com o que acontecia com vocês.— Foi o que acreditei por todos esses anos. Mas a realidade... É que ela nunca fez nada disso. Mentiram para mim, para que eu não mantivesse contato, nem a procurasse mais. Minha mãe aceitou esse título e sofreu sozinha, exilada do clã, tudo por minha culpa.A raiva do Uzumaki pareceu baixar. Ele agora fitava os olhos cansados e tristes do antigo namorado num misto de curiosidade e incerteza.— E por que queriam te afastar de sua própria mãe, Sasuke?— É uma longa história. De toda forma fui uma criança indesejada, e Mikoto quis levar isso adiante, lutou contra o clã para que eu pudesse nascer, recebendo a fúria Uchiha em troca. Teve que fugir se quisesse viver. Quando descobri tudo isso... Não consegui ficar indiferente, não sabendo que Madara estava com ela, que a estava torturando. Ela esteve sofrendo todos esses anos por minha causa.Aquela conversa era inacreditável! E pela primeira vez as coisas pareceram fazer sentido.— Sou um completo covarde. Para tentar proteger as pessoas que amo tudo que consegui foi fugir e ceder aos caprichos dele. Tive medo que machucasse vocês, e isso me fez tomar as decisões que tomei. Afastei você para que ficasse seguro, para que tivesse uma gravidez tranquila e não fosse novamente importunado por minha família. Mas a verdade... É que essa coisa toda tem me destruído, Naruto. Tudo que eu mais queria era estar perto, dizer a você que aquilo tudo é mentira, ter seu estúpido sorriso de volta para mim.Uma a uma as lágrimas de dor rolaram pelo rosto contrito. Naruto as assistiu cair, ainda incrédulo, ainda entorpecido por aquelas palavras.—... Eu não posso seguir com isso. Não sei quanto tempo posso suportar antes de enlouquecer — confessou, fungando alto, olhando para baixo porque sabia que não conseguiria segurar o choro que insistia em sair dele -... E para piorar tive um problema imenso com Itachi, ele se perdeu de nós, estava sozinho e sem memória.—... Menma me contou — foi tudo que conseguiu responder.— Quando ele voltou à si me disse que o motivo da perda de memória foi uma ligação estranha, dizendo que nossa mãe estava morta.Naruto não suportou aquela conversa, ou o sofrimento dele. Ia dizer algo, mas o moreno o impediu.— A conversa toda não se encaixa, tenho certeza de que minha mãe não está morta, ela está viva por aí, em algum lugar — as lágrimas pingavam da ponta do nariz arrebitado, a voz parecia embargada — Quase perdê-la me fez pensar que não consigo perder mais ninguém. Eu tive medo de não chegar à tempo para lhe dizer que sinto muito, que nada do que eu disser vai apagar o que te fiz, a dor que te causei. Mas que vou passar a vida toda se preciso tentando me redimir, tentando fazer você olhar de novo para mim como antes. Quero que saiba que você é, e sempre será aquele a quem amo com toda a força que há em mim, Naruto. E não sei mais viver sem você.Foi a vez do loiro fungar, a boca envergada tentando sem sucesso segurar o choro.—... Estava guardando tudo isso para si e nem ao menos pensou em me contar? Então o que você me disse sobre a Karin...? Sobre seu casamento?— Uma vez que Madara não pode me manipular usando minha mãe como desculpa, e uma vez que percebi que não posso viver com medo do que ele pode fazer com você, nada mais me impede de ficar com quem é realmente importante para mim.Naruto fungou e esfregou os olhos.— Você é um grande idiota! — esbravejou e o moreno segurou sua cabeça, abracando-o junto ao corpo, apertando bem os olhos com o gesto simples que desestabilizou seu corpo por inteiro.Como sentiu saudade de abraçá-lo! Como sentiu falta do cheiro, do calor, da maciez! Apertou-o junto a si, expirando bem forte.— Eu sei. Me desculpe, Naruto.— Eu realmente quero quebrar sua cara! Você acha que pode vir aqui e simplesmente dizer que quer reatar comigo? E tudo vai ser como antes?Sasuke separou-se devagar.— Nada mais será como antes entre nós. Quando decidi vir até aqui e te contar toda a verdade, dividir algo tão importante, dei-me conta de quem você é em minha vida. Eu confiaria qualquer coisa a você, te contaria todos os meus segredos, exporia minhas falhas sem receio algum.Segurou-lhe a palma direita, beijando-a devagar.— Enquanto vinha para cá decidi que quero você em minha vida, em todos os momentos dela. Quero enfrentar os problemas ao seu lado, ajudá-lo a solucionar os seus. Quero te fazer sorrir quando estiver triste, e te dar forças quando pensar em desistir. Quero ajudá-lo a realizar seus sonhos, a lutar pelo que acredita, sonhar junto com você. Quero ver seu rosto quando acordar e ouvir sua risada que enche meu dia de alegria. Quero brigar com você quando fizer alguma besteira, te importunar quando estiver de mau humor. Quero envelhecer ao seu lado, passando por cada pequeno instante da minha vida sabendo que fiz a escolha certa em ficar ao seu lado, se você assim permitir.Há essa altura Naruto estava torpe, o peito tão cheio de diferentes sensações que respirar havia se tornado difícil. Sentia o corpo quente como há muito não sentia, uma felicidade misteriosa gritando e sacudindo seu corpo.—... Se for me dizer essas coisas para desistir em seguida peço que nem continue.— Eu lhe disse que estou sério quanto à tudo, sobre nós dois.O loiro expirou e dedilhou o rosto macio, colocando a franja negra para trás da orelha.— O que não quero é acreditar em suas palavras, me iludir e acabar destroçado de novo. Sua família nunca vai desistir de nos separar, e se você ceder cada vez que isso acontecer não poderemos seguir adiante.— Ainda sente algo por mim? Ainda posso ter alguma esperança?— Chega a soar estúpido — ficou muito sério e ressentido — Acha que meu amor por você é do tipo que desaparece tão depressa? Não é óbvio que mesmo depois de tudo que me fez ainda te amo e quero estar com você, que ainda desejo que escolha ficar comigo?O moreno chegou a suspirar de contentamento e alívio. Fechou os olhos, um sorriso surgiu no rosto vermelho e molhado.— É tudo que eu precisava saber.—... Não é tão simples assim. Nossos laços não parecem existir mais. A corrente que trocamos se perdeu. Eu nem tenho mais a aliança que me deu quando comerçamos a namorar.— Não importa. Porque de toda forma pretendia substituí-la.O loiro não entendeu quando ele se afastou e sorriu, um sorriso diferente. Teve a mão esquerda segurada por um Sasuke que parecia nervoso, como não pensou que o veria.— Eu realmente havia planejado de outra maneira, da forma especial como merece. Mas se decidi seguir em frente com você, é algo que realmente preciso fazer, ainda que signifique ouvir algo diferente do que espero.Deixou o Uzumaki ainda mais confuso com a frase. Mas então, para sua completa surpresa , Sasuke dobrou uma das pernas e ajoelhou-se diante dele.O susto foi tamanho que Naruto engasgou, ainda incrédulo do que estava acontecendo. O moreno então lhe ergueu o olhar, nervoso e ansioso, as mãos vasculhando um dos bolsos de maneira quase aflita. Retirou uma pequena caixa de joalheria, de cor alaranjada como ele tanto gostava. Naruto ficou paralisado de surpresa, sem desgrudar os olhos dele.—... Você é o meu laço mais importante, e todas as vezes que tentei me opor a isso, eu sempre perdi. Quero ter um lar, formar nossa família, dividir meu nome e tudo que tenho e sou com você. Gostaria de continuar ao seu lado, pedir que seja meu companheiro, meu amor e confidente. Dividir minha vida com você, se puder aceitar alguém como eu ao seu lado. Respirou fundo, muito nervoso e abriu a caixinha, revelando um par de alianças douradas. Naruto expirou com a surpresa, incapaz de raciocinar direito, o peito estufado e os olhos marejados. Nem sabia que tipo de expressão estaria fazendo, porque perdeu a noção de tudo.Teve medo e incerteza, pelo clã Uchiha, por tudo que aconteceu. O modo como Sasuke parecia sério, como o fitava sem esquivas, tudo era tão intenso! Até pouco tempo estavam brigados, separados!— Mas... Mas Sasuke, eu...— Naruto...?— O quê...? — — perguntava por não aguentar o nervosismo que crescia em seu peito a ponto de sufocá-lo — O que, Sasuke???Embora soubesse do que se tratasse, embora tivesse medo e receio, ao ter seu nome chamado, ao olhar nos olhos dele, tudo pareceu pequeno demais. Um obstáculo que poderia transpor facilmente. Encarar Sasuke o fazia lembrar que o amava de verdade, que estava ligado à ele desde o instante em que o conheceu. E que queria continuar assim pelo tempo que lhe fosse concedido.Recebeu um sorriso verdadeiro em troca.— Naruto... — sorria verdadeiro, com toda convicção que havia dentro de si — Quer se casar comigo?O loiro piscou depressa porque a emoção dentro dele explodiu, congelando suas ações. Ficou imóvel, achando ter ouvido errado.—... Pode repetir isso? — foi só o que conseguiu dizer, os olhos fechados e a mão sobre a boca — Eu só preciso ouvir de novo!— Quantas vezes quiser... — riu pelo nariz, sabendo que o loiro era um tanto lerdo. Não se importou por ainda estar ajoelhado, por ainda não ter resposta, somente o fitou e tornou a pedir -... Casa comigo, Naruto? Fitar o homem que amava ajoelhado diante dele a lhe fazer um pedido como aquele, depois de tudo que passaram, de todo o sofrimento que tentou separá-los... Era algo difícil de descrever, e por conta disso ficou aturdido. O choro voltou, forte e intenso.Há poucas horas estava sofrendo a dor de perder Sasuke, e agora recebia um pedido de casamento dele?O moreno por sua vez estava muito nervoso, como não pensou que estaria. Seu maxilar estava contraído e endurecido, e por um momento o medo de ser rejeitado se instalou nele, seguido de uma ansiedade esmagadora.Naruto secou o rosto depressa, um riso lindo se formando por detrás das lágrimas, algo que fez o coração do Uchiha acelerar de esperança. Ele o encarou com os olhos marejados.—... É claro que eu quero! — disse por fim, o peso desaparecendo dos ombros cansados — Óbvio que quero me casar com você, seu completo idiota!!!Sasuke ficou surpreso por um momento, mas riu em seguida, um riso nervoso e desajustado. Quase não acreditava no que havia acabado de ouvir e precisou de alguns segundos para assimilar. Cobriu a boca e entre o riso que não parava, tornou a chorar. Dessa vez de alegria, de alívio e contentamento.Porque por um momento achou que havia perdido Naruto para sempre.Este baixou-se no chão, desajeitado por conta do barrigão e abraçou o moreno o mais forte que conseguiu, a mão circundando sua cabeça.— Não sabe como estou feliz, seu imbecil! Seu estúpido! — chorou alto, apertando-o contra si — Que raiva de mim por amar alguém tão idiota!O outro riu e o abraçou de volta, o riso engasgado pelas lágrimas de felicidade, o rosto franzido entre o sorriso. Segurou-lhe o rosto e o beijou várias vezes, estalando os lábios nos dele, até que por fim mergulhasse num beijo profundo, que traduzia com perfeição a intensidade do que sentiam um pelo outro, aquilo que realmente eram.Duas almas destinadas a ficar juntas desde o instante em que se conheceram. E cuja história estava apenas começando.Continua.
Notas finais
Só tenho uma coisa a dizer à vocês. Algo muito importante...
Aaaaaaaaaaaaaawwwwwwwwwwwww!!!!!!!! Kyaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, ai que coisa mais linda do mundooooooooooooooo!!!!!!
Dividam minha felicidade! Meus babys vão se casar! Eu estou rolando de um lado para outro pelo colchão de tanta alegria! Meu OTP lindo! Depois de todos os desafios que já enfrentaram, de tudo que já passaram!
Sério, como se volta a respirar decentemente? Perdi o foco, kkkkkkkkk. Mas quem se importa? Awwww, que lindos! Sasukito, você arrasou meu querido!
Ainda não tenho condições de argumentar kkkkkkk Espera, eu preciso respirar!
(*Inspira, expira.....*)
Ok, acho que estou mais calma, mas nem por isso estou menos feliz! Onde eu estava? Ah sim, vamos às considerações:
* A estátua descrita no início do capítulo se chama: O êxtase de Santa Teresa, do escultor Gian Lorenzo Bernini, e uma de minhas obras de arte favoritas! Eu a acho muito bonita, embora cruel, então achei perfeita para o momento de aflição que o Itachi estava vivendo.
O passado cruel do Gaara se evidencia, e isso apenas mostra o motivo de tamanha insegurança sobre ficar com o Menma. Será que nosso Naruto Negro vai se render e ponderar o que ouviu da atual "namorada" do ruivo?
E quem diria: a Matsuri só estava preocupada com o bem estar dele! Rs Eu a adoro, acho nobre o que está fazendo, embora ela sofra de síndrome de Deidara! Precisa parar de se preocupar com os outros e buscar a própria felicidade.
Mikoto está vivíssima! Essa mulher é lacradora!!!
Sakura por outro lado armando um plano medíocre para ficar com o Sasuke!
Pirem comigo no breve momento ItaSasu... Foi mega fofo o beijo ao acaso, mas o Itachi deve ter morrido de vergonha kkkk
E que apuro ele passou nas mãos do Madara!
Mas agora está bem, de volta ao lar e nos braços do Sasori. Tem casal mais amorzinho que eles?
Nhom, Sasukito consolando o Sasori... Muita fofice!
Daisuke vai viveeeeeer!!!! Uhuuuuuuu!
É muita notícia boa para um capítulo só!
Sei que muitos de vocês querem me matar porque ele não terá o braço esquerdo, mas creio que o fato dele precisar se superar a cada dia, em cada pequena vitória, apenas afirma os sacrifícios que os pais sempre fizeram por ele. Daisuke é um Uzumaki, superação está em seu sangue. O mais importante é que ele viva! Que tenha chance de fazer suas escolhas. Eu não suportaria escrever a morte dele, nem pensar em como isso refletiria no Naruto (vejo pelo Sasori com relação à Aiko). Creio que a sequela é parte importante para lembrar Sasuke e Naruto que quase perderam tudo por conta do ódio, e que juntos podem ultrapassar qualquer coisa, e para fazer o Daisuke se orgulhar se haver sobrevivido, de fazê-lo desejar viver intensamente.
Muito obrigada de coração por todo o apoio que me deram, por cada palavra de incentivo, pelo amor que demonstram a essa fic! Espero que cada um de vocês, que sofreram junto dos personagens da fic, se sinta abraçado e recompensado. Muita coisa ainda vai acontecer, muitas intrigas e eu nem faço ideia do tamanho que esta fic terá rs Espero contar com o apoio de cada um de vocês.
Mandem comentários! Hoje é um dia para comemorar! Digam o que estão sentindo. Comentem, favoritem, se possível recomendem a fic, isso me ajuda muito.
Para quem quiser ler o capítulo na íntegra, fica o link"
https://spiritfanfics.com/historia/entre-a-razao-e-o-desejo-2744348/capitulo24
Beijo, meus amores, e nos vemos no próximo capítulo!
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