Entre A Razão E O Desejo - Em edição
9 Confissão
Notas iniciais
Sakura percebeu quando a cabeça do rapaz tombou, sem conseguir se manter erguida. Ele produzia um som horrível e arrastado enquanto respirava, pausadamente.
Ela virou o rosto para Karin e assistiu a ruiva sorrir, quase extasiada ante ao sofrimento dele.
—... Você disse que ele iria apenas perder o bebê! – fez cara de asco vendo aquela cena nojenta. Se o idiota morresse arruinaria tudo. A quem ela queria mesmo matar era a criança dentro dele.
— O que você esperava? — Karin pareceu ofendida — O corpo dele vai ter de expelir de alguma forma. Ele não vai morrer por causa disso.
— E se ele nos denunciar?
— Minha menor preocupação é Sasuke descobrir. Quero que a criança morra, só isso. E ninguém vai acreditar que o obrigaram a tomar um abortivo na própria casa, ele sequer tem provas.
Sakura assentiu, mais aliviada, dando uma última olhada por cima do ombro para o ex-noivo caído no chão.
— Será ruim se nos encontrarem aqui, Sakura. Melhor sairmos antes que alguém venha.
— Tem razão – assentiu e apressou-se para fora do apartamento sem olhar para trás, ignorando por completo as súplicas de quem um dia lhe prometeu casamento. Saíram rumo às escadas cautelosamente, calmas como se nada houvesse acontecido.
Naruto se viu completamente sozinho na sala de estar.
E estava tão exausto...
Era muito tolo por ter confiado em Sakura, por ter permitido que Karin entrasse em seu apartamento!
Mas jamais imaginou que elas pudessem fazer algo tão hediondo!
Estava cansado, dolorido, tentava se arrastar, mas a dor o dilacerava. Seus olhos teimavam em fechar e os sentidos falhavam.
Tossiu, o gosto de sangue nítido em sua boca. Não podia desistir, tinha de ser rápido se quisesse salvar a vida de seu filho. Mas contrário à sua vontade suas forças desapareciam de dentro dele. Arfava, vomitava, sentia o ventre arder como se estivesse em chamas.
A dor o impedia de pensar, era tão forte que não conseguiria suportar mais.
A estante parecia muito longe de onde estava. Tinha de chegar até ela, pegar seu celular e pedir ajuda. Era sua única chance!
Ouviu então, ao longe, um som que se assemelhava a batidas. Intentou gritar por ajuda, mas até respirar doía.
A porta se abriu, mas ele não conseguia ver quem era. Estremeceu de pânico, não conseguiria se defender se fosse atacado novamente.
Mas sentiu braços fortes o segurarem com cuidado e virarem seu corpo. Gemeu alto de dor.
“... Quem?” — indagou, procurando um rosto familiar em meio às imagens embaçadas. Sentiu-se levantado e carregado com cuidado, distinguia somente algumas palavras que não faziam muito sentido em sua cabeça.
—... Fique calmo, vou te levar ao hospital e avisarei seus pais. Respire fundo! – Naruto não sabia o que pensar nos braços daquele estranho, dono de uma voz extremamente calma e gentil.
Com a pouca força que possuía segurou a blusa do rapaz, chamando-lhe a atenção.
—... Sa... Sori...
O ruivo virou o olhar assustado para ele, estava em uma situação deplorável. Localizou seu celular sobre o móvel, enfiou-o no bolso do casaco e acomodou melhor o corpo pequeno e franzino nos braços, deixando o apartamento em seguida, carregando-o com cuidado, mas tão depressa quanto podia.
Sabia que alguém tentaria algo contra ele, sua intuição nunca falhava. Em se tratando dos Uchiha fariam o que fosse necessário para se livrar do incômodo bebê.
Tudo que aconteceu em seguida era uma grande confusão na cabeça de Naruto. Estava tão torpe que não se lembrava com clareza, não ouvia ninguém, não enxergava coisa alguma. Várias vozes afobadas e muita correria.
Sentiu ser deitado e chacoalhado. Estava em um carro? Algo quente gotejava seu rosto, como uma chuva morna.
Lágrimas.
Longos fios de cabelo enroscavam por seu rosto e pescoço. Cabelo vermelho e muito comprido.
—... Mãe... – sussurrou, sem forças.
Kushina arregalou os olhos úmidos, estava tão preocupada! Segurava a cabeça do filho em seu colo enquanto Minato cortava as ruas, dirigindo desesperado.
— Ele voltou a si? – o pai do rapaz olhava nervoso pelo retrovisor, à beira de um ataque de nervos, mas se mantendo atento o suficiente para dirigir. Certamente a corrida lhe renderia alguma multa de trânsito, mas nada disso importava naquele momento. Precisava salvar Naruto. Não sabia ao certo o que estava acontecendo com ele, mas seja lá o que fosse o apoiaria, Naruto era o filho mais maravilhoso que um pai poderia querer.
— Ele está bem? O que está acontecendo, Kushina?
— Só continue dirigindo e não se distraia. Ele vai ficar bem! – dizia como se tentasse se dar forças enquanto mirava o filho – Você vai ficar bem, querido. Aguente um pouco mais.
—-
Minato estacionou de qualquer jeito em frente ao hospital e deu a volta, tomando o filho no colo e correndo com ele através da entrada de emergência, deixando um rastro de sangue por onde passava.
— Um médico! – gritava na entrada da emergência – Por favor!
Alguns enfermeiros vieram até ele sem a menor pressa, parecendo calmos e cheios de descaso, como se estivessem habituados a lidar com aquele tipo de situação todos os dias.
— O que aconteceu? – uma mulher velha e roliça perguntou calmamente.
— Ele está abortando! – Kushina interveio e Minato soltou uma exclamação de puro espanto.
— O quê???
— Depois te explico, querido – sorriu-lhe para em seguida fitar a enfermeira como se quisesse matá-la – Meu filho está perdendo seu bebê então se apressem e cuidem dele! Se não o atenderem neste exato instante eu trarei seu namorado, Sasuke Uchiha, em pessoa aqui para se entender com vocês!
A equipe médica se entreolhou nervosamente ao som do nome Uchiha e imediatamente trouxeram uma maca onde deitaram o rapaz. Este se remexeu, procurando com a mão no ar por alguém, qualquer pessoa. Não queria ficar sozinho! Estava com tanto medo!
Chamou por Sasuke porque queria vê-lo, saber que não havia sido abandonado em um momento tão difícil, que desejava que aquela criança sobrevivesse tanto quanto ele próprio.
Queria que estivesse ali para dizer-lhe que ficaria tudo bem, que não precisava mais sentir medo.
Kushina segurou sua mão com força.
— Não posso entrar com você, meu bem, mas trarei Sasuke aqui. Seja forte e não desista! – disse alto enquanto o levavam para o interior das salas de emergência, a maca deslizando rapidamente enquanto os médicos falavam entre si, começando a prestar o devido atendimento até que as portas da emergência houvessem se fechado e o silêncio tornasse a reinar na sala de espera.
Kushina e Minato se viram sozinhos, respirando depressa. Parados no meio do corredor fitando a porta por onde o filho fora levado, suas roupas tingidas de sangue. As pessoas que estavam por ali olhavam e cochichavam sem parar.
Imensas lágrimas escorriam pelo rosto de Minato que estremeceu. A ruiva pousou delicadamente a mão em suas costas, fazendo um carinho longo para acalmá-lo.
— Ele vai ficar bem, querido. Não se preocupe – tranquilizou, embora ela mesma estivesse apavorada. Mas precisava ser forte naquele momento, sabia que o marido era muito sensível e desabava por qualquer machucadinho que o filho fizesse, quanto mais algo tão sério!
Ele esfregou com força os olhos, secando-os.
—... Grávido? E ainda por cima de Sasuke Uchiha? Quando foi que isso aconteceu?
— Eu soube há pouco também, mas já meio que imaginava.
— Aquele rapaz não é casado? O que há entre eles? Primeiro ele impede o Naruto de se casar e agora não quer assumir a responsabilidade pelo filho?
— Eu não sei, parece que Naruto não quer que ele saiba sobre a gravidez ainda. É compreensível já que ninguém fazia ideia de que ele fosse compatível – ela o olhou de canto – E você, porque nunca me disse que é compatível também? Isso é hereditário!
— Eu nunca soube, é sério! – exasperou-se – E eu nunca estive com outro homem antes então como iria adivinhar?
— Bem, isso não importa agora... Vou tentar ligar para a Uchiha Co para trazer Sasuke até aqui. Vocês dois precisam ter uma conversa de homens!
—-
Sasuke discutia com um de seus advogados, que também era um grande amigo apesar de ser um homem arrogante, presunçoso e irritante ao seu ver, era muito bom no que fazia.
O homem se abanava copiosamente, suando mesmo no interior de uma sala com o ar condicionado marcando 22°. Passava as mãos pelos cabelos brancos, tentando livrar-se do suor. Vinha de terras muito geladas e por isso era nada resistente às altas temperaturas. Bebia algum tipo de isotônico enquanto mostrava uma série de papéis ao Uchiha.
— Você precisa comparecer à audiência, não quero saber se quer ou não, você vai e ponto! Sua família fez uma droga de processo burocrático para atrapalhar, não será fácil ficar com a responsabilidade de internação do Itachi. E com isso seu avô pode facilmente pedir transferência para um hospital mais barato ou mudança de quarto. Isso poderia ser fatal ao seu irmão.
— Eu sei disso, Suigetsu. Faça alguma coisa para impedir!
— É o que estou tentando fazer, não? Você é um cliente muito difícil – resmungou. Conhecia Sasuke há muito tempo, e logo que se formou tornou-se um de seus advogados por conta da confiança. Os dois mantinham uma boa relação, eram capazes de se ofender, gritar um com o outro e no fim do dia saírem para beber como se nada houvesse acontecido. Convivência, talvez.
— Apenas dê um jeito de apressar as coisas. Não posso perder tanto tempo, Itachi está completamente nas mãos de meu pai e meu avô!
O telefone tocou e Sasuke praguejou alto. Suigetsu aproveitou a pausa para encher sua garrafa vazia no filtro de água gelada.
— O que é? Eu lhe disse que estava ocupado e que não ligassem para minha sala! – esbravejou irritado junto ao telefone. A pobre secretária, sendo novata se encolheu até quase sumir em sua mesa.
—... Desculpe-me, senhor Uchiha... Mas há uma mulher na linha que insiste em falar com o senhor...
— Qual parte do “estou ocupado” você não entendeu?
— Eu sei disso, mas ela me disse que se o senhor não atender poderá se arrepender, que alguém muito importante para o senhor está em sérios apuros e correndo risco de vida...
Sasuke franziu a testa.
— E quem é essa mulher?
— Kushina Uzumaki, senhor.
O rapaz se espantou ao ouvir aquele nome.
A mãe de Naruto?
—... Pode colocá-la na linha e desligue em seguida.
— Sim senhor – obedeceu prontamente.
Sasuke apertou o botão de espera e virou para o advogado.
— Suigetsu, se importa em me esperar na sala de reunião?
— Não, se lá estiver mais frio do que aqui eu até agradeço! – gemia de desgosto, largado na cadeira enquanto se abanava com as folhas do processo jurídico.
— Ligue o ar no máximo, já irei até lá.
— Como quiser – pegou seus papéis e deixou a sala em seguida.
Sasuke atendeu imediatamente, muito curioso.
— Boa tarde, senhora Uzumaki.
— Olá, Sasuke. Fico feliz que finalmente decidiu me atender.
— Desculpe-me, não imaginei se tratar de uma ligação sua. Em que posso ajudá-la?
— É o Naruto a quem você precisa ajudar. Ele está sozinho, está assustado e precisa de você agora mesmo. Venha até o hospital principal, no centro da cidade.
O coração de Sasuke falhou uma batida e ele segurou com força o telefone com ambas as mãos.
— De que está falando? O que aconteceu com o Naruto? – começou a ficar realmente nervoso.
— Não sabemos ao certo o que aconteceu, parece que foi envenenado em seu próprio apartamento, está bastante debilitado e estão cuidando dele agora. Ele chamou por você quando o trouxemos, então venha para cá. Naruto precisa de você agora mais do que nunca.
O coração do Uchiha disparou apertado dentro do peito.
— Estarei aí em alguns minutos, por favor me mantenha informado – desligou imediatamente a ligação, apanhando as chaves do carro dentro da gaveta da mesa de trabalho. Jogou o paletó sobre os ombros e saiu apressado de sua sala, abandonando todo o trabalho que ainda precisava ser feito, esquecendo-se da reunião com Suigetsu, de seu jantar de negócios. No momento a única coisa que conseguia pensar era que Naruto precisava de sua ajuda.
Parou diante dos elevadores apertando o botão para descer. A luz no painel se movia vagarosamente, indicando que faltavam ao menos sete andares até chegar onde estava.
— Vamos! – esmurrou com força o botão para descer, irritado com a demora. Resolveu descer pelas escadas, não aguentaria ficar parado esperando.
Pulava os degraus enquanto descia desesperado, quase atropelando as pessoas que ocasionalmente encontrava no caminho, o coração batendo louco, quase abrindo um rombo em seu peito e saltando para fora.
Tudo que queria era vê-lo e saber que estava tudo bem!
—-
Correu pelos corredores do hospital, sem saber em qual local procurar primeiro. Viu um enfermeiro passando por ali e segurou com força em seus ombros.
— Onde está o rapaz loiro que trouxeram para cá? O de nome Naruto Uzumaki? – quase gritou, apertando os ombros da pobre criatura. O jovem rapaz corou ao ser apertado por aquele homem tão másculo e bonito.
—... Se está falando do rapaz com hemorragia ele está na emergência. Desça as escadas, no fim do corredor à esquerda.
— Obrigado! – largou-o, correndo para as escadarias. O jovem suspirou e pousou a mão na própria bochecha, encantado.
—... Que homem! – piscou algumas vezes.
— Lee, venha já aqui! – o enfermeiro chefe chamou-o, irritado.
— Ah, sim! – pareceu despertar e seguiu para a ala médica.
Sasuke correu sem se deter até avistar uma cabeleira vermelha familiar. Kushina percebeu o homem que corria ruidosamente, quebrando o silêncio do hospital. Os olhos dele pareciam com os de uma criança completamente desamparada.
— Senhora Uzumaki! – parou, recuperando o fôlego, suado e respirando tão depressa que engolia as palavras – N... Naruto! Onde ele está?
— Ele está internado agora.
— O quê? Por que o internaram? O que está acontecendo?
— Se acalme – Minato volveu o olhar para aquele jovem sem controle – Não sabemos ao certo o que aconteceu, mas cremos que Naruto ingeriu um medicamento... Nocivo. Nós o encontramos desmaiado em seu apartamento.
O queixo do moreno tremeu de total espanto.
— Senhor, ele está bem? Ele... Vai ficar bem?
— Vamos torcer para que sim – pousou uma das mãos no ombro de Sasuke, tentando lhe passar alguma força.
O rapaz mirou o chão, confuso, transtornado.
— Venha comigo, você vai tomar alguma coisa e se acalmar enquanto lhe explico tudo.
— Não vou sair daqui! E se alguém da ala médica aparecer?
— Vão demorar ainda, Sasuke – Kushina interveio – Faça como Minato lhe disse. Prometo que se alguém chamar eu irei até vocês.
Sem muita escolha ou opção ele acabou assentindo. Deixou ser guiado pela mão em seu ombro que o impulsionava para frente.
Minato o sentou em um banco próximo da entrada, onde o vento batia mais forte, para ele tentar respirar um pouco. Foi até a máquina de café e trouxe-lhe um chá sem açúcar.
— Tome, você precisa se acalmar.
Sasuke apanhou o copo a contragosto, não queria se sentar, queria respostas! Bebeu o chá depressa, e Minato percebeu que ele tremia tanto que mal conseguia impedir o líquido de respingar.
Alguns goles depois a calma voltava aos poucos e a afobação diminuiu. Era capaz de pensar com mais clareza.
—... Como isso aconteceu?
— Kushina disse que sentiu um tipo de angústia, como se Naruto precisasse de ajuda. Em seguida seu cunhado telefonou para nós, parece que recebeu uma mensagem de Naruto dizendo ter uma estranha visita em seu apartamento.
Sasuke estranhou.
— Uma visita? – ficou ainda mais confuso – Espere, meu cunhado? Naruto conhece Sasori?
— É o que parece. Esse rapaz de nome Sasori nos pediu que corrêssemos ao apartamento de Naruto e quando chegamos, bem... Foi terrível. Sasori estava chamando a ambulância para Naruto. Ele estava desacordado, coberto de sangue. Estava tão fraco que mal conseguiu distinguir nós dois. O trouxemos imediatamente para cá e estão cuidando dele.
— E por que ele estava sangrando? O enfermeiro a caminho daqui disse que estava com hemorragia!
Minato não queria ser o primeiro a dar aquela notícia. Sentia que os problemas do filho se iniciaram justamente por ele se negar a dizer toda a verdade.
—... Aparentemente ele foi intoxicado com algum tipo de droga, e seu corpo começou a expelir essa substância – o que disse não era mentira total.
Sasuke apertou o copo vazio entre as mãos até torná-lo um monte de plástico esmagado.
Estava furioso.
— Quem poderia ter feito algo assim?
— Esperávamos que pudesse nos ajudar a descobrir.
Sasuke bem sabia. Conhecia sua família e a mulher com quem estava casado muito bem.
E não os deixaria impunes. Tão logo as coisas se acertassem com Naruto resolveria de vez aquela situação!
— Assim que Naruto se recuperar tomarei as devidas providências. Não vou permitir que uma coisa dessas fique impune!
Minato o encarou, e pela primeira vez não havia a calma costumeira em seu semblante. Ele parecia muito sério.
— Eu não sei que tipo de relacionamento você tem com meu filho, Sasuke. Mas acho melhor não brincar com ele – advertiu-o com um tom duro e severo — Você o impediu de se casar porque queria ficar com ele, não é? Então espero que esteja disposto a cuidar do Naruto, do contrário se afaste dele – encarou-o nos olhos, seriamente, um enfrentamento entre homens.
Sasuke surpreendeu-se com a intensidade das palavras.
Retribuiu o olhar, tornando-o firme.
— Eu jamais brincaria com o Naruto. Sei que minha situação é complicada, que estou envolvendo-o nos meus problemas familiares, mas meu desejo de ficar com ele é verdadeiro. Quero proteger o Naruto, e não vou poupar esforços para descobrir o que realmente aconteceu.
— É o que espero. É perceptível que ele gosta muito de você, mas não perdoarei se o fizer sofrer ou colocá-lo em uma situação de perigo – o tom era ameaçador.
Sasuke assentiu, polidamente.
— Minhas intenções são muito sérias, senhor. Meu desejo é desfazer meu casamento, que não passa de um acordo familiar, e iniciar uma vida com Naruto – o rosto tornou-se fortemente rosado — O que sinto por ele é algo que nunca senti antes, e está longe de ser uma aventura passageira. Quero fazê-lo feliz, quero ficar ao lado dele. Naruto é único para mim.
Minato pareceu mais tranquilo com isso. Tinha dúvidas acerca das verdadeiras intenções do Uchiha, mas olhando em seus olhos era claro que não estava mentindo, que realmente sentia algo muito forte por seu filho.
Então provavelmente ele não sabia nada sobre a gravidez. Perguntava-se por que Naruto não havia contado nada, o rapaz parecia genuinamente apaixonado.
Sorriu e assentiu, recebendo o sorriso do Uchiha de volta.
— Então precisa dizer isso a ele – ergueu-se, fazendo menção de tornar à sala de espera. Sasuke acenou positivamente com a cabeça e caminhou junto a ele.
As horas passavam e não havia notícia alguma, sinal que ainda estavam tratando Naruto. Minato resolvia as pendências com a papelada e entrada no hospital.
Kushina estava sentada em um dos bancos gelados da sala de espera, segurando a mão de Sasuke, que retribuiu apertando a sua. Ambos em silêncio, fitando um ponto qualquer, sabendo estar dando força um ao outro.
—-
O teto branco e o cheiro forte de álcool foram as primeiras coisas que pode perceber tão logo despertou.
Estava deitado, fitando o teto, desolado. Havia acordado há alguns minutos, o sedativo enfim teve o efeito anulado. Estava sozinho no quarto do hospital, mas podia ouvir as conversas e passos no corredor.
Passava as mãos pela barriga ainda sentindo-a inchada. Aguardava impaciente que alguém entrasse para lhe dizer o que havia acontecido.
Ele realmente queria seu bebê, queria vê-lo nascer saudável, queria ensinar um monte de coisas novas a ele.
Ouviu o ruído da maçaneta e a porta do quarto foi enfim aberta. Um médico alto e mais velho adentrou, pronto a examiná-lo, mas Naruto só conseguia questionar.
— Meu filho está bem?
— Fique calmo ou pode acabar passando mal. Você ainda está grávido – tornou a deitá-lo.
O rapaz relutou em se deitar, sendo empurrado contra a cama.
— Aconteceu alguma coisa com ele?
— Não, o abortivo não teve tempo de fazer o efeito total – levantou-lhe a blusa até o peito pálido estar visível. Pressionou de leve em alguns pontos, checando a posição do útero. Recostou o estetoscópio gelado sobre a barriga inchada e a examinou, seriamente.
— Esse tipo de medicamento nem sempre é eficaz, e nem sempre tem o efeito desejado – olhou-o de soslaio, de maneira acusadora.
Naruto se enfezou.
— Eu não tentei tirar o meu filho! Me fizeram tomar aquela coisa!
— Claro – ele parecia descrente –... De qualquer forma você teve sorte de seu organismo expelir o medicamento do corpo antes de ser levado até o invólucro. Caso tivesse demorado um pouco mais poderia ser fatal para o feto e até mesmo para você. Esse tipo de procedimento deve ser feito em um hospital, com acompanhamento. É muito arriscado tomar esses remédios sozinho.
Naruto não quis retrucar, só queria que ele respondesse.
— Então meu bebê está bem? Ele não terá nenhuma sequela?
— Não, está tudo bem. Examinamos, fizemos os testes, tudo está normal.
O rapaz recostou-se sobre os travesseiros, suspirando muito aliviado. A angústia desapareceu do peito e ele caiu num choro de alegria e alívio, acariciando gentilmente seu ventre.
Ainda estava grávido, seu bebê ainda estava vivo e saudável. Era tudo que precisava saber.
— Vai precisar passar a noite aqui em observação. Sugiro que tente dormir um pouco, descanso agora é fundamental.
Só então Naruto percebeu o quanto estava exausto, o quanto precisava dormir. Ao menos o pior já havia passado.
Podia enfim relaxar.
—-
Dormia profundamente. A medicação forte o fazia ter todo tipo de sonho e alucinação estranha. Sentia calor, outrora frio. Caía no meio do nada, era estranho e perturbador.
Dentre todas as imagens bizarras que lhe vieram à mente durante o sono nenhuma lhe reconforta mais do que visualizar o rosto tranquilo de Sasuke. Em meio às imagens o foco se fechou inteiramente nele, em seu semblante sereno, a pele pálida, o rosto bonito que o olhava com atenção.
Mesmo em seus sonhos, Sasuke era lindo como uma pintura, e a maneira doce como o encarava só fazia Naruto se dar conta de seus sentimentos trancafiados, só o fazia perceber cada vez mais o quanto o queria, o quanto precisava dele, o quanto o amava.
“Eu te amo, Sasuke...” – repetia várias vezes, a princípio com a voz baixa, mas conseguiu subir o timbre aos poucos, sem parar de encará-lo, a imagem estranhamente ganhando mais foco aos poucos, o rosto do Uchiha parecendo cada vez mais surpreso.
—... Te amo, Sasuke.
— Eu também.
A voz em seu sonho era tão real que o surpreendeu por um momento e Naruto arregalou os olhos, confuso. Demorou um pouco para sua vista embaçada voltar ao normal. Conseguiu focar direito e percebeu um olhar lânguido sobre ele.
Paralisou.
Não estava sonhando!
Sasuke estava sentado ao seu lado no colchão, seu rosto baixo, próximo ao dele, olhando-o fixamente. O rosto rubro, as íris tremiam de leve.
-... O quê? – o rapaz loiro estava confuso, olhou em volta e se percebeu ainda no quarto do hospital.
— Então você estava mesmo desperto. Dessa vez não tem como me dar nenhuma desculpa.
— Desculpa? Do que está falando?
— Você sabe do que estou falando – baixou mais perto, até seus narizes quase se encostarem – Acabou de me dizer “eu te amo”.
Um disparo atingiu o coração de Naruto, que batia tão alto que achou que o som ecoava pelo quarto.
Mesmo que só estivesse repetindo, era magnífico ouvir tais palavras vindas dele. Naruto as ansiava por tanto tempo.
—... E... Eu disse isso? – tentou se esquivar. Achava que estava sonhando, não tinha consciência que dissera em voz alta.
Então a resposta que ouvira... Também não foi um sonho?
Os olhos negros ainda estavam postos sobre si, deixando claro que não se moveriam até ter uma resposta. Naruto estava nervoso e acuado, não havia como negar, nem como fingir.
Mas ele não desejava mais fugir... Estava cansado de esconder seus sentimentos.
— E então? Estou esperando você me dizer claramente, sem rodeios e sem fugir como usualmente faz — insistiu.
Naruto desviou o olhar. Oh, droga, não conseguia se concentrar com ele tão perto!
Sasuke endireitou o corpo e cruzou os braços, irritado. Parecia irredutível.
— Estou esperando.
Naruto sabia que não havia mais como negar. Mesmo que pretendesse dizer o contrário jamais conseguiria. Sua razão, seu corpo, sua mente, tudo nele gritava em afirmativa.
—... Acho que a resposta é um tanto óbvia, não? – fitou-o diretamente.
— Não para mim. Você é um mistério, muda de ideia a todo minuto. Se não me disser claramente eu não tenho como ter certeza de nada. Quero que me diga diretamente o que sente por mim, Naruto.
Suas palavras faziam sentido. O loiro respirou bem fundo, tomando o máximo de ar e coragem quanto possíveis antes de poder encará-lo. Sabia que estava vermelho, que seus olhos tremiam, que estava estampado em seu rosto toda a verdade, que transparecia em cada pedaço de seu corpo a falta que sentia dele.
Enfrentou muitos problemas por não conseguir ser sincero com seu coração. Era hora de mudar as coisas, de avançar um passo, de aceitar os riscos.
—... Só o que consigo pensar é que você apareceu do nada, mudou minha vida, invadiu meu espaço, me faz enxergar coisas que antes eu não conseguia ver, me faz acreditar em uma parte de mim que eu desconhecia... Você bagunçou minha rotina, sequer pediu licença antes de reivindicar meu corpo e meus sentimentos. Antes que eu percebesse já estava completamente ligado a você. Tudo que eu conseguia fazer era pensar em você, se estava tudo bem, se poderia te ver de novo, sentir seu cheiro e seu calor. Todas as vezes em que você tinha de dormir no apartamento que divide com Karin... Isso me apavorava... – mordeu com força o lábio inferior, sem parar de falar ou achava que perderia a coragem.
Sasuke o assistia atentamente, sem interromper.
— Eu não desejava que ninguém mais tocasse em você, que ninguém mais tivesse sua atenção. Eu te quero tanto... – pingos quentes caíam de seus olhos sobre as mãos que seguravam os lençóis firmemente -... Tanto que dói! Não apenas o seu corpo, mas seu coração, sua mente, seus sentimentos, tudo em você, eu te quero por inteiro! – o negro ébano se chocava com o azul vívido como oceano de seus olhos marejados -... Eu te amo, Sasuke – admitiu, finalmente – Amo como jamais achei que seria possível. Quero ficar com você, quero cuidar de você, quero proteger você e te fazer feliz.
O Uchiha ficou algum tempo parado, observando-o cuidadosamente, sem esboçar reação alguma, exceto engolir forte.
Sentia o coração batendo muito rápido, sua respiração forçada não conseguia acompanhar o ritmo. Um sentimento quente encheu seu peito, uma satisfação diferente de qualquer outra que já havia experimentado. Incrível como aquele idiota magricela despertava nele sensações tão diferentes, tão intensas, como jamais provou em toda sua vida, mesmo já tendo estado nos braços de tantas pessoas.
Era diferente quando se tratava de Naruto, tudo parecia certo quando estava com ele, quando o tocava, quando o via sorrir ou escutava sua voz. Sentia-se completo e satisfeito ao seu lado. Sentia que jamais seria feliz se não estivessem juntos.
Naruto sustentou o olhar, muito nervoso e ansioso. Procurava com receio algum traço, alguma reação, algo que afirmasse que ele correspondia.
Mas o outro continuava calado, olhando-o atentamente.
Isso era mais do que suficiente para entender. Se ele não respondia, era sinal óbvio que não correspondia seus sentimentos.
—... Eu imaginei que quando soubesse a verdade você se assustaria... Não imagino que queira um compromisso, não é? Não quando nos conhecemos há pouco tempo – indagou tristemente.
— Está fazendo isso outra vez, antecipando minha reação e tirando suas próprias conclusões — interrompeu-o, de forma carrancuda — Nunca perguntou como me sentia a respeito, você apenas concluiu que não poderíamos ficar juntos, e parece não ter acreditado quando eu disse que eu quero ficar com você.
—... Às vezes penso que você só veio até mim porque queria se divertir.
— A princípio sim, porque esse sempre fui eu. Sempre tive relações de uma única noite e isso me bastava. Quando o vi parado melancólico, fitando o céu noturno em sua festa de noivado como se implorasse que alguém o tirasse de lá eu me senti atraído. Você não só me parecia lindo como também muito sedutor e interessante.
Naruto já sabia... Era o que imaginava que ouviria.
Mas sentiu a mão larga dele cobrir a sua. Quando ergueu os olhos percebeu que Sasuke o encarava firme, algo diferente estampado em seu rosto, algo que fez seu coração disparar.
— Porém, depois de ter você por uma noite eu não consegui esquecer como sempre fiz, não pude deixar para lá, precisava de você e esse sentimento apenas cresceu. Eu não permitiria que se casasse, que fosse de outra pessoa que não meu. Quanto mais eu tentava esquecer, mais eu pensava em você, e mais falta me fazia até que me dei conta do óbvio. Que estava sentindo algo muito forte por você, algo intenso, incontrolável. Algo que eu jamais senti por ninguém, e da qual não sabia como lidar, mas que estava destruindo-me por dentro.
Naruto quase não respirava, surpreso, assustado, ansioso.
O Uchiha riu de lado.
— É assustador, não? Perceber que se ama tanto alguém a ponto de não poder mais viver sem ele. O mais correto nesses casos é aceitar de vez, foi o que fiz. Aceitei que me apaixonei por você, que em meio a meu próprio jogo aprendi a amar você tão intensamente que não consigo imaginar uma versão da minha vida em que não esteja nela comigo.
—... Você... Você está mesmo falando sério? – alguns soluços entrecortam sua voz, estava incrédulo, sem acreditar na confissão que recebera.
— Acha que eu brincaria com uma coisa dessas?
— Não, eu só... Eu não sei o que pensar, eu estou tão feliz – apertou o tecido sobre o peito com força e fechou os olhos bem forte, com medo de acordar de um sonho tão maravilhoso. Sasuke entrelaçou suas mãos e quando abriu os olhos seus rostos estavam a milímetros de distância. Ele entreabriu os lábios devagar para roubá-los em um beijo furtivo. Trouxe o corpo dele para junto do seu, trespassando os braços fortes e quentes por suas costas, embalando-o em um beijo longo e caloroso.
Naruto poderia derreter-se por inteiro naquele abraço! Podia se afogar dentro do beijo sem a menor culpa. Estava torpe de euforia, algo percorria seu corpo causando-lhe uma sensação muito intensa, algo que sentia toda vez que pensava nele, mas agora muito mais forte. Segurou a nuca aprofundando o beijo. Sasuke o deitou de volta, curvando o corpo sobre o dele, beijando-o com paixão e ardor, o coração batendo como louco.
A sensação de amar e ser correspondido à altura era algo inexplicável, algo que abalava as estruturas sempre intactas de Sasuke. Beijava o outro como se pudesse absorver seu sabor para continuar a sobreviver. Naruto apenas conseguia se agarrar às costas largas, suspirando de prazer em meio ao beijo, desejando que aquele momento nunca acabasse, que o tempo parasse para os dois.
Separaram-se ofegantes, corados, tateando o rosto um do outro.
—... Eu te amo, Sasuke... De verdade – dedilhou a pele de porcelana, percebendo o outro fechar os olhos ao sentir suas mãos em seu rosto.
— Eu também – beijou sua testa – Também amo você, Naruto.
Selou seus lábios com alguns estalos, para então sorrir e deitar a testa sobre a do rapaz. Naruto quase podia relaxar, quase podia esquecer-se de tudo e aproveitar a felicidade que de repente bateu em sua porta.
No entanto, sabia que ainda não havia resolvido as coisas mais importantes. De maneira que ergueu o corpo, sentando-se, ainda tenso.
— Sasuke... Ainda tem algo... Muito importante que preciso te contar. Não posso adiar mais.
Ele o trouxe para se sentar em seu colo, recostando a cabeça loira no pescoço, esta comprimindo de leve seu pomo de adão. Aspirou com prazer o cheiro costumeiro do shampoo de Naruto, abraçando-o.
— Diga.
—... É algo muito complicado de explicar. Não sei o que você vai dizer quando descobrir, mas acho que pode te chocar um pouco.
— É grave assim? – brincava distraidamente com as mechas loiras, admirando o tom dourado único e sedoso enquanto enroscava os fios em seu dedo – Você por acaso assassinou alguém?
— Claro que não! – exasperou-se.
— É um criminoso procurado, comercializa órgãos no mercado negro, sacrifica criancinhas ou vende seu corpo para algum velho tarado?
— Lógico que não, seu idiota! Por que eu faria algo assim?
O outro riu, debochado, apertando-o contra si.
— Então não é algo tão grave. Você pode me contar.
Naruto segurou a mão que trespassava sua cintura, pousado-a no próprio ventre inchado. Sasuke não entendia aonde ele queria chegar.
—... Você por acaso já ouviu falar em... Compatibilidade? – sua voz oscilava, estava tão nervoso!
Sasuke franziu a testa, sentindo a barriga inchada sob sua mão, e o arco que iniciava debaixo do peito, circulando até o baixo ventre.
— Já ouvi algo a respeito. É a habilidade de um homem engravidar, não? Que eu saiba é muito raro.
Naruto segurou a mão pálida com mais força, apertando os dedos entre os abertos de Sasuke que começava a se sentir tenso. O rapaz então se virou de frente a ele, ainda sentado em seu colo, de maneira que pudesse encará-lo e absorver com perfeição sua reação. Sasuke parecia confuso, cético.
Tudo começou a se encaixar e fazer sentido na cabeça do Uchiha e este fez cara de espanto.
— Não pode ser...
— Eu... Comecei a me sentir mal de repente... E fiz todos os exames de que precisava, apenas para ter certeza que não estava enganado. O resultado dos exames foram positivos. Eu perdi o chão, fiquei nervoso e assustado. Mas pensei seriamente em tudo que sentia, e quero levar isso adiante.
— Naruto, você está...?
— Eu sou compatível, Sasuke, e estou grávido. Você e eu... Vamos ter um filho juntos.
Continua.
Fale com o autor