Entre A Razão E O Desejo - Em edição
10 Sinal
Notas iniciais
Estava paralisado, quase sem respirar devido ao susto. A notícia o pegou completamente desprevenido.
—... O que disse?
Naruto sentou-se com as pernas cruzadas sobre o lençol, apertando os próprios tornozelos com força, tendo uma desculpa para não encarar os olhos negros que pareciam imersos em pânico.
—... Eu disse que sou compatível, Sasuke. Claro que não fazia ideia antes de começar a passar mal e fazer os exames. Se eu soubesse... Jamais faria nada sem me proteger. Precisa acreditar em mim.
As mãos do mais velho apertaram seus ombros com força. Precisava ter certeza de que não ouvira errado.
— Eu ouvi direito? Naruto, você está grávido?
O outro fez que sim, com os olhos bem fechados, temeroso, sem conseguir encará-lo. Apertava tanto a pele do tornozelo que a cor sumia sob a pele.
— E por que não me disse nada antes?
— Porque sou muito egoísta, Sasuke... Sei que você não quer um filho, mas mesmo assim não quero que você me deixe... Quero tê-lo ao meu lado.
Sasuke franziu a testa até formar linhas de expressão.
— Há quanto tempo sabe que está grávido?
— Um mês... Quando descobri já estava com quatro semanas de gestação.
— Então está grávido de dois meses e sequer pensou em me contar?
—... Como acha que eu faria isso? Não planejamos nada, não temos uma relação sólida, estamos em um momento complicado, muita gente está tentando nos separar. São tantos motivos que nem sei dizer como tive coragem de te contar agora. Só achei que você deveria saber a verdade, independente da decisão que tomar. Apenas... Não sugira algo como interromper a gravidez porque não quero isso! Quero ter essa criança!
O Uchiha respirou bem fundo, de olhos fechados, para soltar o ar preso pela boca com um suspiro longo, livrando-se um pouco da tensão. Passou devagar a mão pelos fios negros.
—... Sem dúvidas, às vezes você age como um completo idiota.
Naruto se enfezou com o comentário. Ergueu o rosto pronto para revidar e iniciar uma das costumeiras discussões acaloradas, mas acabou desistindo e se calou ao fitá-lo nos olhos. Sentiu-se mal ante ao olhar que recebeu. Era diferente do costumeiro olhar severo, muitas vezes inexpressivo. Esse era ultrajado, ressentido, ferido.
—... Você realmente não confia em mim.
— De onde tirou um absurdo desses?
— Estou enganado por acaso? O que achou que eu faria quando descobrisse? Seja o que for pareceu ruim o bastante para você decidir não me dizer nada. Não confia nem um pouco em mim.
— Não se faça de vítima e nem me jogue a culpa, Sasuke. Você mesmo me disse que jamais seria um bom pai por não ter recebido afeto, por não saber como se portar, que uma criança agora só arruinaria sua vida!
—... E acha que se eu soubesse que é você quem está esperando um filho meu eu diria essas coisas, Naruto? – a voz se erguia aos poucos – Você não me perguntou nada diretamente! Usou como pretexto algo que eu disse com base em minha vivência terrível com aquela mulher perturbada!
— E tem alguma diferença se o filho for meu ou de Karin? – indagou, igualmente nervoso.
Mas se arrependeu por perguntar. O outro pareceu furioso ao ouvir isso.
— Não ouse se colocar no mesmo nível que Karin! – a voz grave do moreno ecoou pelo quarto, tão ríspida que estremeceu em resposta e se calou. Seu rosto foi segurado e forçado a olhar diretamente os olhos negros, os dedos finos apertavam suas bochechas.
— Agora me escute, seu completo idiota: eu não quero um filho gerado por Karin! Não depois de tudo que ela já fez a mim ou a Itachi. Foi o que lhe disse desde o princípio. Em momento algum me referi a você, até porque jamais imaginei que pudesse engravidar. Se eu soubesse disso jamais teria dito nada que pudesse magoar ou ferir você!
Uma pontada súbita de culpa trespassou o peito do rapaz. Sasuke parecia verdadeiramente desapontado.
—... Por que não consegue me entender? Estou casado por obrigação, preso a um maldito contrato que me encurrala, vivendo com uma mulher que não amo. Tudo isso para proteger Itachi, como ele sempre me protegeu. Meu irmão é minha única família no mundo e está sofrendo nas mãos do clã sem que eu possa fazer nada para impedir! – havia um brilho feroz em seu rosto, estava rubro e ofegante. Segurava o queixo do outro com força, impedindo-o de se virar ou se esquivar.
— Me solte – empurrou-o para que soltasse seu rosto, mas Sasuke o deitou de volta na cama, segurando em seus ombros, fitando-o diretamente.
— Karin me pede uma criança como quem pede uma muda de roupa nova, não parece falar de um ser humano e nem pensa nele como tal. Ela não se importa com o quanto essa criança sofreria, não pensa no que significaria crescer sob as regras rígidas e privativas do clã Uchiha, sem amor ou atenção, exatamente como foi comigo. Ela apenas acredita que se me der um filho eu ficaria com ela para sempre, está usando essa criança como pretexto para ficar ao meu lado. É natural que eu nunca desejasse ser pai, Naruto!
— Não tiro sua razão – virou os olhos, tristemente — Posso entender porque não quer ter um filho com ela, Sasuke. Mas isso somente me faz pensar que essa é sua opinião formada, e que você não quer um filho com ninguém!
— Nem com ela, ou com qualquer outra pessoa a quem eu não ame de verdade, foi uma decisão que tomei há muito tempo – soltou o peso do corpo sentando-se sobre as pernas dele –... Quando percebi estar apaixonado por você dei-me conta que seríamos um par para sempre, já que somos ambos homens. Imaginava que, somente quando amasse alguém de verdade desejaria um filho com essa pessoa, mas no nosso caso era impossível. Conformei-me com isso, não parecia um preço tão alto a ser pago, desde que pudesse ter você ao meu lado.
Havia uma surpresa nítida no rosto de Naruto. Foi desarmado pelas palavras dele. De certa forma compreendia melhor seus motivos, era capaz de sentir um pouco de toda a dor que ele parecia carregar, mas não amenizava o fato de estar grávido, de desejar ardentemente que ainda pudessem se tornar uma família feliz.
—... Sasuke, eu...
— Contrariando toda a lógica você aparece em minha vida, sendo um homem compatível, me dando novamente a possibilidade de criar uma família, longe dos muros do clã Uchiha, sem regras ou exigências, apenas nós três vivendo da forma como acharmos correto. É muito mais do que eu poderia pedir.
Naruto segurou o ar para evitar que seus olhos embaçassem, ainda mais diante do sorriso que recebia. Ergueu o tronco, apoiando-se com os cotovelos até conseguir se sentar, suas pernas entrelaçadas às dele. Seus rostos diante um do outro, os olhares fixos. Estava tão tenso, tão nervoso, tão aflito, milhares de coisas passando depressa por sua cabeça.
—... Não está desapontado comigo? Eu sou homem, será um escândalo quando todos souberem, ainda mais sua família.
— Não tenho que pedir permissão a ninguém para amar você, Naruto. É a pessoa que escolhi para ficar ao meu lado, independe se é um homem ou uma mulher. E se você nasceu com a habilidade de gerar uma criança, essa é uma dádiva que nós dois não vamos recusar.
A visão do rosto perfeito do Uchiha se borrou por completo quando os olhos azuis encheram-se de água.
— Então nós... Ainda podemos ficar juntos, Sasuke? Você não me odeia? Não rejeita meu o filho?
Sasuke segurou seu rosto, trazendo-o para perto até selar seus lábios em um selinho simples.
— Essa criança é resultado do que temos juntos, uma das formas de expressão do amor que sentimos – sorriu amavelmente – Não é somente o seu filho, mas meu também.
Naruto esfregava os olhos, muito emocionado. Não conseguia evitar chorar ruidosamente, soluçando sem controle, o rosto lavado, o nariz escorrendo. Era uma visão e tanto um rapaz crescido desabar como uma criança.
Sasuke riu de lado.
— Você é mesmo muito chorão – puxou-o até seu peito, sentindo a camisa ficar molhada de tanto que ele chorava.
— É culpa dos hormônios! – escondeu o rosto no peito absorvendo seu cheiro, apertando-o contra si, sentindo o peito vibrar conforme o coração batia. Sasuke apenas riu, deitando a cabeça sobre a dele, a bochecha em contato com os fios loiros espetados, balançando o corpo pequeno levemente junto a si.
Quando foi que começou a amar tanto aquele imbecil?
— Quando tiver um problema quero que possa contar comigo. Não estou com você apenas para os bons momentos, mas para ajudá-lo também. Sei que tenho culpa por não perceber antes, acabei te deixando sozinho em um momento muito importante, não te protegi quando mais precisou de mim e não posso me perdoar por isso. Mas quero que saiba que pode me dizer qualquer coisa sem medo. Eu te ouvirei, e daremos um jeito na situação juntos.
Naruto esfregou bem os olhos, secando-os, um sorriso imenso estampado na face.
Estava tão aliviado! Teria seu filho e iniciariam uma vida só deles. Era tudo que poderia querer.
— Está bem. Não vou mais esconder coisa alguma de você, Sasuke.
Sasuke o afastou um pouco.
— Isso é bom, porque quero que seja muito sincero comigo. Quem te atacou foi a Karin, não é?
Ele baixou os olhos e fez que sim com a cabeça, triste ao se lembrar tudo que aconteceu.
—... Ela estava me esperando em frente ao meu apartamento quando voltei do trabalho.
— E você a deixou entrar? Será que perdeu o juízo?
— Em partes eu queria ouvir o que ela me diria, ela é sua esposa afinal. Acabei deixando a sala por um momento, exatamente como ela queria. E aproveitando disso um remédio foi despejado no meu café. Era incolor e inodoro, eu não percebi nada ao beber. Alguns minutos depois senti uma dor terrível, passei a sangrar muito e caí no chão. Não conseguia respirar direito e nem me mexer.
Sasuke estava obviamente furioso, mas tentava manter a voz calma para não alarmá-lo ainda mais.
— Ela te viu nesse estado e não fez nada para ajudar?
— Não. Ficou parada esperando outra pessoa entrar. Quando ergui o rosto vi que era Sakura. Nem acreditei que a mulher com quem quase me casei havia armado algo tão horrível. Pedi ajuda a ela, mas Sakura virou as costas e fechou a porta. Fiquei sozinho tentando me arrastar até meu celular. Por sorte, Sasori chegou e chamou meus pais, eles me trouxeram imediatamente para o hospital e graças a isso meu bebê e eu conseguimos sobreviver.
— De onde conhece o Sasori, Naruto?
— Ah isso... Eu o conheci quando fui visitar Itachi um dia. Desculpe por não dizer nada, eu havia acabado de descobri minha gravidez, não queria te encontrar ainda. Sasori me ajudou quando passei mal e me fez prometer que se alguém de sua família me visitasse eu lhe mandaria uma mensagem de celular imediatamente. Por sorte fiz exatamente o que ele pediu.
— Sasori é esse tipo de pessoa.
— Ele por acaso... É namorado de seu irmão, não é?
— Mais que isso. Eles são casados.
Os olhos azuis se arregalaram de surpresa.
— É mesmo? Itachi tem sorte, Sasori parece uma excelente pessoa.
— Realmente é. Agora, quanto ao que aconteceu fique sossegado, não deixarei as coisas assim, não vou permitir que machuquem você ou meu filho novamente.
Naruto bem conhecia Sasuke e sua incansável sede por vingança contra quem lhe fazia mal. Achou por bem intervir antes que ele fizesse alguma besteira.
— Eu não quero causar problemas a você, Sasuke.
— Não está me causando problema algum. Quando eu estava correndo para cá milhares de coisas passaram pela minha cabeça. Imaginei o que eu faria se por acaso te perdesse. E não pude sequer cogitar tal hipótese, era doloroso demais imaginar que não poderia mais estar ao seu lado. Você me faz um bem que não sou capaz de descrever, Naruto. Quero proteger você.
— Apenas pense bem antes de fazer alguma besteira que comprometa sua vida ou a de Itachi. Sei que está nervoso, eu também estou, mas revidar agora é justamente o que sua família, Karin e Sakura mais desejam. Todos querem apenas nos separar, nos ver infelizes. Estarmos bem um com o outro é a melhor forma de revidar, de mostrar que nada do que fizerem vai conseguir nos separar. De resto, quero que deixe que seus advogados se entendam com eles.
Sasuke ainda ia argumentar, mas nesse momento a porta do quarto foi aberta e por ela entrou um enfermeiro jovem e tímido. Era dono de grandes olhos negros arredondados, cabelos lisos em formato de tigela e imensas sobrancelhas escuras.
Assim que postou os olhos sobre o Uchiha corou violentamente. Sasuke lembrava vagamente dele, era o mesmo rapaz em quem esbarrara quando chegou ao hospital, perguntando desesperado sobre a localização de Naruto. Era possível ler seu nome bordado no avental de enfermeiro: Lee.
— Desculpe incomodar, mas preciso examinar seu marido – sorriu gentil para o rapaz moreno e Naruto ficou escarlate de vergonha.
— Ele não é meu marido!
— Ah desculpe, seu namorado então – caminhou até Naruto, erguendo a blusa de hospital que ele vestia. Sasuke arregalou os olhos ao ver manchas arroxeadas espalhadas pela pele em toda a barriga.
— Mas o que é isso???
— Os locais em que aplicamos injeções de emergência costumam arroxear, mas vão desaparecer em alguns dias. Ficará um pouco dolorido nesse meio tempo.
Sasuke sentiu um nó na garganta ao ver as marcas, ao perceber o outro respirar com dificuldade conforme o enfermeiro apertava alguns pontos de sua barriga. Ele parecia sentir dor e muito incômodo.
Sabia que gravidez de compatíveis era dolorosa, difícil, com sintomas acentuados. Ele precisava de ajuda e apoio.
— Parece tudo normal. O diâmetro de sua barriga está coerente e não houve mais sangramento. Logo poderá ir para casa.
Os pais entreolharam-se de uma maneira intensa, sem saber o que dizer um ao outro. Milhares de sentimentos diferentes sendo expressados por um simples olhar.
— Querem ouvir o coração do bebê? – riu, percebendo o sentimento forte entre eles. Era bonito ver um casal tão apaixonado.
Sasuke foi o primeiro a voltar-lhe o olhar intrigado, muito curioso e um tanto espantado.
— O coração já bate aos dois meses de vida?
— Na verdade vinte e dois dias após sua concepção, ou seja, por volta da quinta semana de gestação. Embora ainda não tenha formado o sistema nervoso, claro. Seu namorado está na oitava semana, indo para nona – riu com a reação surpresa do pai, os olhos negros brilhando de antecipação.
— Quero. Se é mesmo possível eu quero muito ouvir.
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Andava de um lado para outro, a ansiedade não permitindo pensar com clareza.
Sasuke não voltou para casa, ninguém o viu desde então. Onde ele estava? O que estava fazendo?
Àquela altura já teria conhecimento que o bebê estava morto?
Karin andava de um lado para outro na sala de estar do apartamento, roendo as unhas. Não conseguiu pregar os olhos a noite inteira esperando a volta do marido para confortar-lhe em sua dor.
“Eu vi o moleque em processo abortivo, é impossível que a criança sobreviva” – pensava apreensiva. Fizera tudo com cuidado, foi perfeita em seu plano.
Mas, se Sasuke já sabia da morte da criança por que ainda não havia voltado? Por que ainda não deu notícias?
Naturalmente, Sasuke sofreria ao saber que a criança que o amante esperava estava morta. Karin planejava acolhê-lo em seus braços para consolá-lo, fazendo-o perceber que valia muito mais a pena ter um filho com ela, que o ama mais que qualquer outra pessoa no mundo. Além disso, é uma mulher, e não uma aberração da natureza. Nada mais justo do que uma mulher de verdade dar a Sasuke seu filho herdeiro, uma criança para suceder os Uchiha com dignidade.
Ele cederia, cedo ou tarde. Aquele filho bastardo o estava cegando, mas tão logo percebesse a sorte que teve ao perdê-lo despertaria para a realidade e se daria conta da grande besteira que estava fazendo.
Era o plano original, mas Sasuke não voltava para casa. Não atendia o celular, ninguém sabia dele na Uchiha Co, seu pai estava furioso com seu sumiço.
Onde, por Deus, ele estava?
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A sala era apropriada para ultrassonografia, contendo uma cama grande ao lado dos aparelhos. Uma médica passava lubrificante gelado na barriga e Naruto resmungou de frio. Sasuke estava sentado ao seu lado, ainda meio aéreo, mas segurava sua mão. Achava que ao menos devia passar-lhe alguma segurança.
Tudo ainda parecia meio irreal. Era difícil de digerir.
— Vou fazer uma ultrassonografia abdominal para ver se está tudo bem. Pode ser que não consigam visualizar o embrião na tela. Nessa fase da gestação ele é muito pequeno e está começando a se desenvolver – a jovem médica exibiu um sorriso.
Naruto apertou a mão de Sasuke entre a sua, olhando a tela nervosamente, uma emoção inexplicável enchendo seu peito conforme o conector deslizava sobre sua barriga, exibindo o que havia dentro dela.
Era estranho, indecifrável. A imagem que surgia no monitor mostrava o interior de seu útero, um monte de carne clara se mexendo. Ele não conseguia distinguir coisa alguma.
Mas então um som surgiu, assustando ambos os pais. A médica riu com a reação deles, pareciam estupefatos.
O som alto e forte encheu a sala, batidas muito rápidas, tanto que parecia estranho até se acostumarem.
— Esse som é...? – Naruto virou-se para ela, incrédulo.
— É o coração do seu bebê batendo.
O som reverbera pelo ambiente, atingindo o peito do Uzumaki. Seu corpo inteiro era chacoalhado pelas batidas intensas.
— E este é o seu bebê começando a se formar – ela mostrou na tela, embora eles não conseguissem entender muito bem a imagem disforme e amarelada.
Os olhos de Naruto encheram-se d'água e ele desabou a chorar, sem conseguir desprender os olhos da tela.
Havia passado por tanta coisa... Sentiu tanto medo, tanta angústia, mas tudo desapareceu ao ouvir aquele palpitar. Era o som mais lindo que já ouviu em toda sua vida! Era a prova que seu bebê estava vivo, estava saudável, e que cresceria a salvo dentro dele. Era uma emoção ímpar, pela primeira vez sentiu-se realmente pai, compreendeu com totalidade o que era gerar uma vida dentro de si.
Quando conseguiu se recuperar virou os olhos para o Uchiha, disfarçadamente.
Ficou chocado ao olhar a face dele.
Sasuke mantinha os olhos pasmos sobre a tela, rastros imensos de lágrimas escorrendo deles pelo rosto branco. O som alto do coração do bebê chocava contra seu corpo, como se o invadisse e lhe colocasse diante da verdade.
Pela primeira vez desde que recebeu a notícia compreendeu o que significava ser pai, até então somente associava a situação de maneira calculista e prática, de modo que seus sentimentos ainda não haviam despertado por completo.
Mas quando ouviu aquele som, ao bater os olhos na tela... Compreendeu que estava mesmo gerando uma vida com Naruto, uma pequena vida que precisava dele, que vinha dele.
Naruto segurou de leve em sua mão e ele pasmou, virando-lhe os olhos úmidos. Fitaram-se em silêncio por longos minutos, nenhum dos dois conseguindo dizer coisa alguma, mas quando Naruto lhe sorriu fracamente, entre lágrimas, ele não conseguiu fazer outra coisa que não sorrir de volta.
A médica quase teve uma crise de choro emocionado ao olhar para eles. Em sua rotina no consultório médico era raro ver um casal amoroso e realmente feliz. O que mais via em sua rotina eram casais sem estrutura ou falta total de planejamento familiar.
“Lindos!” – pensava, invejando-os secretamente.
Ao fim do exame Naruto secava o rosto, tentando controlar as lágrimas. Estava acabado! Sasuke já parecia mais calmo, com a feição costumeira.
— Um médico virá lhe examinar uma última vez ao fim da tarde e se tudo correr bem você já poderá ir para casa – sorriu-lhes – Papai, o seu tempo para ficar com ele já acabou, mas vou lhe dar mais quinze minutos para se despedir, só não conte a ninguém – piscou travessa ao Uchiha.
— Obrigado – assentiu.
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— O quê? Aqui? – desviou a atenção do livro que lia para encarar a esposa.
A ruiva sorria, tentando convencê-lo. Esgueirou-se na cama até poder deitar no peito nu do marido. Já estava casada há tantos anos, mas ainda achava Minato muito atraente. Roçou a bochecha na pele quente, lisa e macia dos músculos do abdômen.
— Pense em como seria bom para o Naruto se pudéssemos viver nessa cidade, querido. Ele vai precisar de nós, essa é uma fase muito complicada. Além disso somos avós agora, sei que vai querer ficar perto do seu neto.
Minato passou um dos braços sobre os ombros pequenos dela, pensativo.
— Mesmo que diga isso temos a vida toda feita em outra cidade, Kushina. Abandonar tudo e recomeçar do zero não é tão simples.
— Não seria difícil abrir uma filial aqui. Já havíamos conversado sobre como este lugar tem mais oportunidade para os negócios. E agora que nossa família está crescendo vamos precisar de um dinheiro extra – passava a mão distraidamente sobre o peito do marido – Pense, querido: podemos comprar uma casa aqui e nos estabelecer. Eu sei que você sente falta do Naruto também.
Ele suspirou e coçou atrás da cabeça.
A ideia não era de todo ruim. Passar mais tempo como uma família, ficar próximo do filho, ver seu neto crescer. Definitivamente soava bem.
— Preciso de tempo para pensar nisso com cautela. É um grande passo.
A ruiva sorriu, vitoriosa.
Adorava exercer seu poder feminino para obrigar o marido a fazer tudo que quisesse!
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Os cômodos estavam revirados, gavetas abertas, portas do closet escancaradas. Roupas espalhadas, assim como papéis, pastas e malotes. A impressão era de uma casa assaltada.
— Meu querido... O que está fazendo? – Karin olhava aturdida para a mala aberta sobre a cama. Alguns poucos pertences dentro dela. Sasuke não guardava muita coisa naquele apartamento, apenas coisas relacionadas ao trabalho. Estava reunindo tudo rapidamente.
Quando postou os olhos nela sentiu-se enojado. Era difícil acreditar em tudo que ela havia feito, em como destruiu sua felicidade ao longo dos meses em que estavam casados.
E claro, em como fora capaz de brincar com a vida de Itachi, de quase matar seu filho e expor Naruto a um perigo mortal
—... Não me pergunte algo tão óbvio – respondeu sem emoção alguma.
— Você está indo embora? – temia perguntar, temia ainda mais a resposta.
Ele não respondeu, ao invés, juntou o que podia de qualquer modo, atirando tudo na mala apressadamente.
Ela pareceu desesperada, segurou em seu braço, apertando-o contra si.
— Não pode ir embora! Não pode me deixar, Sasuke!
Ele a afastou com um gesto firme, encarando-a com a face fria como gelo. O olhar gélido fez o corpo inteiro da jovem se arrepiar.
— Eu sei o que você fez ao Naruto e ao meu filho, e não posso ficar sob o mesmo teto de alguém sem escrúpulos como você.
— Mas eu... Não sei do que está falando! Com certeza deve se tratar de alguma provocação daquele garoto querendo me acusar injustamente! Ele está tentando nos separar, meu amor. Sabe que somos um casal estável e quer destruir isso, usufruir do seu dinheiro e do status de sua posição. Ele não te ama de verdade! A única pessoa que realmente te ama nesse mundo sou eu e ninguém mais!
Ele imprensou com força seu corpo contra a parede. Karin respirava assustada, tinha medo quando ele a olhava daquele jeito.
— Agora me escute bem, Karin: sua tentativa falhou! Meu filho está vivo, está saudável e vou protegê-lo de você e de quem mais tentar se meter em meu caminho. Se tentar encostar nele ou no Naruto outra vez vai se arrepender.
Ela se mantinha imóvel, o peito magro subindo e descendo rapidamente.
Viva? Aquela maldita criança ainda estava viva?
Desvencilhou-se do toque com um empurrão, seus óculos caíram e bateram no piso, as lentes trincando. Rapidamente apanhou-os e colocou de volta no rosto. Enxergava muito mal sem eles, de maneira que o rosto perfeito do amado se tornou um borrão diante dela.
—... Nós dois estamos casados! Você não pode me deixar!!!
— Releia o contrato quantas vezes quiser, mas não há uma única cláusula que me obrigue a dividir o mesmo teto que você, mesmo estando casados.
— Mas você é meu marido! Eu te amo! E você não está cumprindo parte alguma do nosso acordo! Eu quero o meu filho, Sasuke! Você tem de dar o meu filho!
— O único filho que eu preciso é o que está na barriga de Naruto, a pessoa a quem eu realmente amo! Estou farto desse jogo, farto de aturar você! Eu não te amo, sequer te suporto! Quero me livrar de você de uma vez por todas, Karin! – vociferou, explodindo em ira.
Ela arregalou os olhos e caiu sentada, sem suportar o peso do próprio corpo, trespassada pelas palavras dele como se estas fossem flechas.
Não... Isso não podia estar acontecendo. Não era para ele ir embora... Não foi para isso que ela tentou matar o bebê que o tal amante esperava. Era para fazer Sasuke desistir de ficar com ele! Para fazê-lo refletir, voltar para ela e lhe dar o filho que tanto queria!
Irrompeu em um choro fino, sofrido e irritantemente alto.
— Você não pode ir embora Sasuke! – soluçava copiosamente abraçada a si mesma — Eu não vou te entregar para mais ninguém! Se sair por aquela porta eu vou morrer de tanto desgosto! Sua saída desta casa vai me fazer morrer!
— Isso não é problema meu – deu-lhe as costas sem olhar para trás, largando-a aos prantos, abandonada no chão exatamente como ela fizera com Naruto. Karin gemeu de dor e frustração ao perceber entre o olhar embaçado seu grande e único amor de toda a vida deixar o apartamento.
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O sol batia forte em seu rosto, de maneira que resmungou com a claridade. Remexeu-se, preguiçosamente e soltou um grande bocejo. Havia muito tempo que não dormia tão bem. Abriu os braços e esbarrou em alguma coisa, ouviu um murmúrio em seguida.
Virou o rosto assustado e deu de cara com o rosto adormecido de Sasuke.
Oh sim, havia esquecido, estava no apartamento dele. Haviam concordado em morar juntos depois de tudo o que aconteceu. Era uma forma de se protegerem do furor do clã e de qualquer outra pessoa que pudesse lhes fazer mal.
Naruto remexeu o pé e percebeu que debaixo de sua perna estava a dele. Riu, meio sem jeito. Não estava acostumado a dormir em cama de casal. Sabia que se remexia e muito quando dormia. O que provavelmente indicava que acertou Sasuke várias vezes durante a noite.
Ficou a observar o rosto inacreditavelmente bonito.
Era ainda mais lindo quando dormia. Os longos cílios vez ou outra se moviam e as pálpebras tremiam de leve, sinal que ela estava sonhando com alguma coisa. Seus cabelos muito lisos se espalhavam pela fronha de seda, desordenados em todas as direções, a bochecha imprensada contra o travesseiro. Estava de bruços, parte dos ombros nus e das pernas fortes exposta sob o lençol branco, assim como o bumbum empinado vestindo apenas uma cueca escura. Mantinha os lábios fechados. Um som gostoso de sua respiração calma ecoava pelo quarto. Naruto sorriu bobamente, tolo e apaixonado enquanto olhava para ele. Sasuke era perfeito, e estava muito feliz que estivessem juntos. Em partes, torcia para o bebê puxar toda a beleza e majestade do pai.
Levantou-se com cuidado para não acordá-lo, sabia que estava exausto. Passou a noite toda no hospital com ele.
Espreguiçou-se ao lado da cama, procurando os chinelos. Talvez fosse melhor não sair andando só de cueca branca pela casa, mas acabou desistindo de procurar seu short e saiu assim mesmo, arrastando os chinelos conforme bocejava.
Era estranho estar na casa de outra pessoa, nada ali parecia no lugar certo, nada parecia seu. Foi até o banheiro procurando nas gavetas por uma escova de dentes nova. Encontrou embalagens fechadas de todos os utensílios de higiene, preservativos, lubrificante íntimo, roupa de baixo... Definitivamente Sasuke era um pervertido!
Lavou o rosto, escovou os dentes e rumou até a cozinha, percebendo tudo limpo e organizado. Revirou os armários procurando ingredientes para fazer o café da manhã. Na dispensa e geladeira somente conseguia encontrar frutas, pães integrais, cereais e claro: tomates! Monte deles! Sasuke era muito natureba. Naruto precisava de altas doses de carboidrato pela manhã ou não suportava os ataques histéricos do chefe Gaara!
Pouco tempo depois juntou o necessário para fazer panquecas. Cozinhava cantarolando baixinho. Era engraçado, sentia-se como recém casado. A sensação de estar com Sasuke era ótima, muito diferente de estar com Sakura. Agradecia muito por não ter se casado com ela. E se pensasse no futuro, por mais que isso o fizesse corar, a ideia de se casar com Sasuke ganhava forma em sua mente. Ele poderia facilmente se imaginar envelhecendo ao lado dele, criando seu filho, seus netos...
Abriu um pote de tempero à procura de canela em pó para salpicar pela panqueca doce. O rótulo estava escrito em alguma língua estrangeira indecifrável. Aspirou para saber de que se tratava.
Arrependeu-se. Era cominho, o cheiro forte revirou seu estômago na mesma hora. Tapou a boca com a mão e correu até o banheiro, erguendo a tampa do vaso com pressa, vomitando em seguida. O organismo limpo somente o fazia cuspir e tossir.
Tremeu, gemendo enquanto segurava sua barriga.
—... Não faz isso com o papai, meu bem – se apoiou no vaso, tentando se levantar.
Sentiu quando mãos o ergueram do chão e foi levado até o lavabo, sua cabeça sendo empurrada contra a pia, a água fria molhando sua testa, rosto, lavando sua boca. Não argumentou contra, apenas deixou ele fazer como queria. Em seguida, Sasuke secou seu rosto e sentou-se na borda na banheira, colocando o rapaz no colo.
— Tudo bem?
Ele assentiu, ainda meio mareado.
— Foi o cheiro de tempero que me embrulhou o estômago.
— Você não precisa cozinhar, a empregada vem aqui todos os dias para fazer as tarefas domésticas.
O rapaz loiro fez bico.
— Eu gosto de cozinhar, lembra? Não tenho problemas com isso.
— Você agora precisa descansar.
— Não vou passar o dia inteiro na cama, eu não estou doente, Sasuke! Estou grávido. Meu bebê precisa entrar no meu ritmo. Só terei de me manter longe de cominho – riu.
Sasukeo riu de volta, beijando sua testa.
— Tem certeza de que se sente bem para ir trabalhar?
— Claro, eu preciso cumprir algum tempo antes de pegar licença. E tenho uma campanha importante para terminar.
— Se algo acontecer, ou se passar mal você deve me ligar imediatamente. Preciso saber que você e a Aiko estão bem ou não serei capaz de relaxar.
Naruto piscou incrédulo, pedindo tempo com as mãos.
— Espera, pára tudo! Aiko? Você... Já deu nome ao nosso filho sem nem ao menos me consultar?
O Uchiha pôs as mãos nas cadeiras, decidido.
— É um nome lindo, e caso não saiba é usado por meninas. Significa “criança amada”, é como me sinto com ela. E é a maneira de me retratar por ter feito vocês dois passarem momentos difíceis sozinhos.
Naruto estava mais emocionado do que nervoso. A forma como Sasuke falava da suposta filha o desarmava. Ele parecia convicto, mas também muito satisfeito.
— É sim um nome bonito, mas já parou para pensar que pode ser um menino e ele não vai querer se chamar Aiko?
— Tenho certeza que será uma menina.
Uma veia enorme saltou na cabeça do Uzumaki.
— Só nos seus sonhos! Eu quero que seja menino!
— Meus genes são predominantes, e há um índice imenso de mulheres no clã Uchiha. Além disso, eu quero menina, então será menina – finalizou, teimoso. Naruto suspirou longamente.
— Detesto te desapontar, mas eu quero que seja menino. E quem está grávido, inchado, com enjôos e dores sou eu e tenho o direito de decidir! Será um menino e será loiro!
Sasuke riu a ponto de gargalhar.
— Um Uchiha loiro? Isso mataria aquele velhote senil do coração! A última coisa que meu avô quer é que “maculem” sua estimada raça – riu a ponto de pequenas lágrimas se formarem no canto dos olhos.
— Pois é melhor ele se conformar, porque terá um neto loiro! E meu garoto vai se chamar Daisuke – inflou o peito e exibiu um imenso sorriso, convicto.
O outro pareceu interessado.
— Daisuke?
— É, porque esse nome lembra o seu, tem o mesmo sufixo. Todas as vezes em que olhar para o meu filho lembrarei de você e do quanto te amo. E quero que ele seja forte, protetor, independente, que ajude os outros, assim como você. Por isso escolhi esse nome.
Sasuke sentiu-se apunhalado pelas palavras dele. Eram adoráveis.
—... Obrigado – sorriu de lado, segurando a cintura esguia para trazê-lo para perto de si e beijar-lhe rapidamente – Mas será Aiko.
Naruto bufou de raiva e afastou-o, se levantando.
— Daisuke, não ligue para as bobagens que seu pai diz – falou com a própria barriga – Ele vai entender de vez quando vir o ultrassom que confirma o sexo.
Mas o Uchiha só lhe fitou com aquele olhar de “eu sei que estou certo” e ergueu o corpo, rumando ao chuveiro.
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A correria, o estresse, os ataques de Gaara só o faziam pensar em uma coisa.
— Quero café!!! – resmungava no corredor.
— Tem uma máquina bem ali – Ino fez sinal para ele, indicando a máquina de expresso para uso dos funcionários.
— Não esse tipo de café! Um daquele frappuccinos imensos, cheios de chantilly e pedaços de chocolate que vendem nas cafeterias! – sua boca salivava só de pensar e ele fechou os olhos, imaginando o cheiro adocicado.
— Não é bom passar vontade estando grávido – Hinata pareceu preocupada – Dizem que isso faz mal ao bebê.
— É uma crendice! Apenas para permitir que o grávido coma o monte de besteiras que quiser! – Ino ralhou de volta, agitando os cabelos para trás – Tem que cuidar da aparência, meu bem. Sasuke não vai querer um marido gordo, ainda mais sendo lindo como é e tendo qualquer um aos seus pés!
— Eu sei, é só um café, Ino! — fez bico – Vou pedir a ele para comprarmos um hoje a caminho de casa.
O trio caminhava conversando pelo setor de criação, aproveitando a pausa no trabalho, quando Gaara os avistou e encarou intensamente o rapaz.
— Parece estar ganhando peso, Uzumaki – estranhou, observando bem as roupas mais apertadas de Naruto, a camisa azul ganhando um volume grande no abdômen.
Os três se entreolharam nervosamente. Gaara era muito preocupado com prazos e vivia unicamente para o trabalho. Se desconfiasse da gravidez do rapaz antes de arranjar um substituto com certeza enfartaria!
Naruto riu nervosamente em resposta.
— Ando bebendo refrigerante demais! – riu alto – Preciso parar com isso, dizem que é ótimo para criar barriga!
O chefe demorou-se observando a barriga redonda, erguendo o rosto algum tempo depois.
— Já terminou a proposta que pedi essa manhã?
— Está em sua mesa, senhor.
— Ótimo – deu as costas e tornou para sua sala. Naruto suspirou de alívio.
Numa mesa próxima, Kiba ergueu a cabeça sobre a divisória.
— Não sei não, hein? Isso me parece barriga de gravidez! – disse em tom debochado, apenas para provocá-lo.
— Mesmo? E quem seria o pai? Você? – Naruto entrou na brincadeira apenas para disfarçar.
Kiba deu de ombros.
— Eu ando tão ferrado de trabalho e tão bêbado que posso ter te comido sem nem notar!
Risadas explodiram pelo setor inteiro. As garotas giraram os olhos e deixaram os homens em seus comentários pervertidos para lá.
Naruto ria, mas no fundo estava temeroso.
Não conseguiria esconder por muito tempo. Logo todos descobririam a verdade, que estava mesmo grávido, e de Sasuke Uchiha! Não sabia dizer quantas pessoas entenderiam, quantas achariam estranho e quantas o repudiariam. Pensar nisso apenas o deixava ainda mais nervoso, de maneira que achou melhor voltar à sua mesa e se concentrar no trabalho.
No horário da saída despediu-se e caminhou até a rua de trás do prédio, como sempre fazia em seu trajeto para casa. O carro de Sasuke estava estacionado e ele o esperava, encostado no capô do veículo. Claro que àquela altura já havia chamado a atenção de todas as pessoas que transitavam pela rua.
Naruto suspirou, cansado. Era como namorar uma celebridade!
Ao se aproximar, Sasuke descruzou os braços e sorriu de lado, indo até ele e puxando-o pelas cadeiras para lhe dar um beijo de cumprimento. Naruto faltou socá-lo de raiva.
— Não faça isso no meio da rua!!! Estão todos olhando!
— E daí? Você é meu namorado, ninguém tem nada a ver com nossa vida.
— Não estou vendo nenhum anel no meu dedo que me diga que somos namorados – deu a volta, entrando no carro. Sasuke riu.
— Então você quer um anel? Isso é fácil de resolver.
— Não foi o que eu quis dizer – colocava o cinto de segurança, envergonhado – Só não quero que as pessoas do trabalho saibam ainda. Quero fazer as coisas com cautela.
— Como quiser. Vou te deixar em casa e preciso voltar para a empresa, tenho uma reunião importante. Ficará bem sozinho?
— Ah sim, mas antes eu quero um café! Um daqueles cafés absurdamente grandes e cheios de chocolate!!!
Sasuke riu de lado, desviando do caminho enquanto dirigia. Era estranho conhecer uma pessoa que se satisfazia com algo simples como um mero café. As mulheres com quem estivera outrora não lhe dariam o mesmo sorriso a menos que aparecesse com um diamante maior que o das amigas ou sapatos de edição limitada.
Parou diante de uma cafeteria e verificou o relógio. Tinha algum tempo antes da reunião. Desceram do carro e seguiram pela porta de entrada, diretamente ao balcão. Todo o cardápio parecia tentador e convidativo. Em poucos segundos o cheiro gostoso subiu pelo ar e foi entregue ao rapaz o maior copo possível de café gelado e cremoso.
Ao deixarem o estabelecimento, Naruto sorvia o líquido grosso pelo canudo largo, saboreando seu café como se fosse a coisa mais saborosa do universo inteiro. Estava tão distraído que não percebeu a pessoa que saía logo atrás deles. Por mera coincidência virou o rosto, entretido em uma conversa.
O sorriso esmoreceu imediatamente.
Não queria encontrá-la, não ainda! Nem sua mente, nem seu coração estavam prontos para isso.
Naruto apertou com força o braço do rapaz a seu lado tão logo a viu.
Sasuke sentiu o aperto em seu braço e virou o rosto na direção que o namorado olhava. Imediatamente fez cara de ódio.
Sakura estava parada na saída da cafeteria guardando a carteira na bolsa com uma mão, a outra segurando um copo pequeno de café quente. O celular estava apoiado no ombro, junto à boca, e ela falava apressada.
O olhar da garota então se chocou com o do casal e ela pasmou, parando de falar ao telefone, aparentemente estava em uma conversa com um rapaz que acabara de conhecer em seu novo emprego. Ele insistia em querer sair com ela naquela mesma noite.
Sakura franziu a testa ao perceber as mãos dadas dos dois, o ventre arredondado do ex-noivo.
Eles eram tão repugnantes! Brincando de casal sem perceber o quão descarado isso soava! Eram repulsivos, sem vergonha alguma!
Incomodou-se com o homem que falava sem parar ao celular, perguntando por que ela não respondia e se poderiam ou não sair aquela noite. Desligou a ligação sem responder coisa alguma, mirando aquele casal que tanto odiava.
Sasuke fez menção de caminhar até ela, mas Naruto o impediu com o braço, olhando decididamente à frente onde a garota estava, caminhando até ela sem se desviar, sem hesitar.
Sakura não queria saber, nem tampouco ouvir.
— Sakura... – iniciou, olhando o fundo dos olhos verdes, decidido. Seu corpo estava tenso, retesado, quente. Uma mistura de ódio, desapontamento, ressentimento, tristeza, tudo junto e misturado.
— Acho que não temos mais nada para conversar – ela mirou-o, friamente.
Porém ele a encarava firme. Qualquer traço de empatia, carinho ou consideração de outrora haviam desaparecido por completo. Era como encará-la pela primeira vez, conhecer a verdadeira Sakura depois de tantos anos.
— Eu sei o que você fez. Eu a vi claramente.
— Tem alguma prova disso? – questionou, sem o menor ressentimento – Eu nem sei que tipo de idiotice você está falando agora, Naruto. Estou farta das suas besteiras.
— Quero que saiba que seu plano não apenas fracassou, como serviu para me juntar ainda mais ao Sasuke – percebeu que ao dizer isso um espasmo surgiu debaixo de um dos olhos dela – Graças a essa atrocidade que me fez pude compreender finalmente o tipo de pessoa você que você é, Sakura. Nunca imaginei que armaria algo assim, que se vingaria dessa maneira, não depois de tudo que partilhamos juntos – era muito doloroso se lembrar – Quando começamos a namorar, eu realmente te amava. Queria muito te fazer feliz.
— Não conseguiu – olhou-o de cima, arrogante.
— Eu já devia ter percebido tudo no dia do nosso casamento, quando precisei de você e fui largado sem a menor consideração – suspirou, tristemente.
— Faça o favor de não me lembrar desse dia detestável.
— Tem razão. Por sorte as coisas acabaram bem, e nunca nos casamos. Agradeço aos céus por não permitirem que me casasse com alguém como você.
A garota estreitou os olhos.
— Quem teve sorte fui eu de me livrar de um pobretão feito você!
— Posso não ter o dinheiro que você julga necessário para um homem te satisfazer, mas tenho caráter, coisa que te falta. Não sou um criminoso que invade a casa dos outros para se vingar por ter sido chutado, simplesmente porque não sei lidar com isso.
— Escute aqui, Naruto...
— Escute você, Sakura. Não me importa o que sente pelo Sasuke, ele é meu agora. Estamos juntos, felizes e iniciaremos uma família juntos. E não vou permitir que você nem ninguém atrapalhe. Você é uma pessoa baixa e vulgar que não sabe amar de verdade, por isso está sempre sozinha. E vai continuar assim até que aprenda a se dar o mínimo de respeito!
— Quem é você para me falar de respeito, Naruto? Foi Você quem me traiu!
— Quando eu traí você já estava farto desse joguinho, farto de ser esnobado, de ser ignorado! O sentimento que tive outrora, bem como o respeito e o carinho foi você mesma que matou. Nunca enxergou como eu a queria bem, nunca se esforçou para que nossa relação desse certo, estava sempre pedindo muito mais do que eu poderia te dar, preocupada com as aparências! Deveria ter me dito desde o princípio que queria o Sasuke e não a mim!
— A culpa é sua por não perceber, por não ser um noivo apropriado para mim! Se está pensando que Sasuke está apaixonado por você está muito enganado! Eu já vi esse filme milhares de vezes, ele está apenas se divertindo com você como sempre fez! Sabe com quantas pessoas ele já saiu? Eu mesma encobria as saídas dele para a esposa, eu sei que você é o tipo preferido dele para algumas aventuras e prazer momentâneo. Mas nada disso dura! Deveria arranjar outro jeito de segurá-lo, porque só barriga não vai amarrá-lo a você!
— Não preciso usar gravidez como desculpa para segurar ninguém! E não vou permitir que insulte a mim ou ao Sasuke!
Ela soltou um riso pelo nariz, sem dar a mínima importância ao que ele dizia.
— E eu deveria me assustar porque agora você decidiu mostrar as garras e me enfrentar?
Ele avançou mais alguns passos, olhando-a diretamente nos olhos.
— Não, deveria tomar cuidado porque se tentar fazer alguma coisa comigo ou com quem eu amo novamente vai se arrepender.
— Desista de vez e pare de sonhar, essa criança não vai nascer – desdenhou, rindo – Você é muito inocente.
— Ela vai nascer sim, porque é amada. Corroa-se o quanto quiser porque roubei o Sasuke de você, mas ele agora está comigo, Sakura. E nos amamos de verdade!
A jovem estreitou os olhos e franziu a testa imensa. Volveu o olhar para Sasuke, um olhar ultrajado.
— Sasuke Uchiha amando alguém? Chega a ser cômico! – riu com vontade, um riso escandaloso e exagerado.
Naruto ainda a encarava, realmente nervoso. Quem ela pensava ser para falar assim? Abriu a boca para iniciar uma discussão, mas percebeu um braço ser posto diante dele. Os olhos verdes da garota bateram em Sasuke, e ele não parecia nada amigável.
Riu malicioso quando puxou o corpo de Naruto para se juntar ao seu. Então lhe segurou o queixo e o beijou, diante dela, entreabrindo os lábios e deslizando a língua para dentro da boca do outro, para beijá-lo como queria.
Naruto intentou afastá-lo, mas ele o segurou com mais força, enfiando a perna entre as do rapaz, roçando sua língua à dele numa dança lenta e sensual. Em pouco tempo o menor cedeu em seus braços, beijando-o apaixonadamente.
O Uchiha então abriu os olhos, ainda beijando-o e encarou Sakura diretamente, sem parar o que fazia. Oferecendo-lhe seu melhor olhar de frieza ao deslizar sensualmente os lábios úmidos nos do namorado.
Sakura tornou-se rubra. De vergonha, de raiva, de humilhação... Até quando pretendiam tirar-lhe a paz e torturá-la, brincar com seus sentimentos sinceros? Assistia os dois diante de si sem conseguir se mover, sem conseguir desviar os olhos daquela cena horrenda e asquerosa.
Aqueles lábios eram dela... Aquele abraço, aquele olhar apaixonado... Sasuke lhe pertencia porque ela o vira primeiro! E não bastasse isso, a pessoa que o levou tinha de ser justamente seu antigo noivo?
Uma dor latente imensa encheu todo o seu peito, sufocando-a. Os olhos encheram-se a ponto de transbordar e ela não suportou mais olhar os dois, correndo para longe.
Ao ouvir os passos se distanciarem Sasuke enfim se afastou de Naruto. Eles se soltaram, vermelhos, e perceberam que metade da rua parou apenas para olhar para eles. Algumas pessoas no interior da cafeteria também. Todos os tipos de olhares desde curiosidade, reprovação, repulsa...
Naruto corou.
Nem se dera conta do que estava fazendo! Que vergonha.
— Vamos, acho que já demos um show e tanto – puxava-lhe pela mão e o Uchiha ria, achando tudo muito divertido.
— Acho que ela entendeu dessa vez – se deixou ser puxado por aquele rapaz magricela que estava corado até as orelhas – Estou orgulhoso de você, Naruto.
— Hein? – virou-se para ele, sem entender- De quê?
— Do modo como enfrentou Sakura e de como falou com ela. Quando te conheci, tudo o que você sabia fazer é ficar calado e se deixar ser ofendido por ela.
— Mas ela agrediu meu bebê! E falou coisas horríveis a seu respeito!
Sasuke sorriu e o puxou, beijando-lhe o topo da cabeça antes de entrarem no carro.
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Os dias corriam sem pressa, mas havia algo importante que precisava fazer.
Entrou no quarto escuro, acendendo as luzes. A persiana das janelas estava fechada, mas o ar estava fresco no interior do quarto.
Suspirou, era difícil entrar ali tantas vezes, depositar suas esperanças e depois tornar sem nada.
Sentou devagar ao lado do leito, passando as mãos pálidas pelo rosto adormecido, percebendo-o quente, um tanto mais corado que o normal.
Sem falsas esperanças, já estava farto disso!
Deitou a cabeça no peito do irmão adormecido e suspirou longamente, muito cansado. Sua bochecha sentia o palpitar compassado do coração dele, assim como o subir e descer leve da respiração.
Como sentia saudades dos abraços, das broncas, dos petelecos irritantes na testa.
—... Itachi... – sua voz era quase um sussurro –... Sinto sua falta.
Passava distraidamente os dedos pelas unhas esbranquiçadas dele, lembrando-se que, quando desperto, sempre as pintava de preto.
— Você precisa acordar de uma vez, eu estou encurralado, confesso que não sei o que fazer – afundou o rosto do peito, no tecido da blusa de hospital – Naruto vai ter um bebê meu, não posso mais ficar com Karin, ela tentou matá-lo. No entanto, eu sei que se me divorciar ela tentará algo contra você. Sinto que por mais que esteja sempre te vigiando ainda não posso te proteger como deveria, Itachi. Sempre haverá alguém que possa lhe fazer mal quando eu não estiver por perto. Por isso mesmo preciso que você acorde.
Itachi apenas respirava pausadamente, a face adormecida serena, o corpo imóvel.
Era terrível vê-lo em tal estado, e era ainda mais terrível não poder fazer nada para reverter aquela situação.
— Minha felicidade nunca será completa se não estiver ao meu lado, como costumava ser. Eu te amo, Itachi. Você precisa acordar!
Nenhum sinal, por menor que fosse.
Os olhos do mais novo marejaram e ele tornou a deitar a cabeça.
—... Você me disse que só na sua frente eu poderia chorar o quanto quisesse. Essa coisa toda está acabando comigo. Qualquer sinal está bom, desde que me faça crer que você vai ficar bem, Itachi – apertou-o contra si, sorvendo seu calor – Por favor...
Ignorando seu anseio, nada aconteceu. Mordeu o lábio inferior com força.
Já devia estar preparado. Os médicos lhe disseram que ele não respondia a estímulos externos, que não possuía mais consciência. Que seu estado regredia na escala que mede o coma, quase chegando à marcação de coma profundo.
Era muito tolo por achar que um simples pedido seu mudaria tudo. Suspirou, cansado. Pousou a mão sobre o peito magro, erguendo a cabeça para secar os olhos.
Sentiu então a respiração fraca acelerar pouco, quase imperceptivelmente. Achou se tratar de uma peça de sua mente. Estava tão desesperado que mentalmente implorava por qualquer sinal que fosse.
Olhou-o bem de perto e arregalou os olhos ao perceber o peito ossudo subir e descer mais depressa que o normal. Uma respiração acelerada.
Sentiu pânico imediato, ele estaria tendo algum tipo de colapso?
— Itachi? Está me ouvindo? – segurava seus ombros, chacoalhando devagar.
Quase entrou em choque a seguir. O corpo magro tremeu e seus lábios se apertaram, como se ele quisesse vomitar.
Impossível! Ele era alimentado por sonda e não recebia nenhum tipo de remédio!
Sasuke estava desesperado, era como assistir a um filme de terror!
E então um líquido esbranquiçado começou a escorrer pelo canto da boca do irmão, ainda adormecido. Algo leitoso, com forte cheiro de remédio.
Sasuke estava tão pasmo que se levantou e imediatamente pensou em chamar por ajuda.
Mas se deteve, pensando rápida e friamente.
Talvez não fosse boa ideia. Se havia algo errado era sua chance de descobrir.
Virou a cabeça de Itachi de lado para impedí-lo de engasgar. Baixou o rosto até ficar muito próximo, seus narizes se tocando. Fechou os olhos e aspirou profundamente, sentindo cheiro forte de remédio. Passou a mão pelo filete branco que escorria pela boca de Itachi.
“Todos os tipos de medicação foram interrompidos tão logo ele entrou nesse estado. Os médicos mesmos me alertaram quanto a isso” – pensava, confuso. “Por que então o medicaram? E por que não avisaram nada?”
Devagar e com cuidado abriu a boca do irmão, pasmo com a quantidade de remédio esbranquiçado que volvia da garganta.
O corpo dele parecia estar rejeitando aquela substância desconhecida. Sasuke concluiu que precisava descobrir o que era, e qual o efeito que aquela medicação exercia sobre o corpo de Itachi.
Seu coração batia depressa, cheio de esperança.
Mas que diabos significava tudo aquilo?
Continua.
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