Entre A Razão E O Desejo - Em edição
5 Matrimônio
Notas iniciais
Sentia que apenas seu corpo estava ali presente, porque seu coração estava longe. A mente vagava entre lembranças e era forçada a voltar à realidade terrível que o esperava.
Naruto terminava de se vestir em sua casa, sozinho. Precisava ficar só ou seria sufocado pelo peso da própria decisão. Dispensou gentilmente a ajuda dos padrinhos e amigos de longa data que insistiam em ajudá-lo. Haviam oferecido até mesmo uma despedida de solteiro, quem sabe beber e comemorar um pouco. Todos queriam compartilhar sua alegria, ajudá-lo com os últimos preparativos referentes ao casamento, mas ele não queria ver ninguém.
Não importava o quanto estivesse sofrendo, não voltaria atrás em sua palavra, com o compromisso que fez com Sakura.
Estava parado diante do espelho, mas evitava se olhar diretamente. Estava muito confuso, muito perturbado. E claro, mergulhado em tristeza. Enrolava a gravata prateada de um lado para outro habilmente, dando um nó, quase de maneira mecânica.
Embora não quisesse olhar a própria imagem refletida no espelho, ele estava divino! O fraque que vestia o deixava maravilhoso, capaz de arrancar suspiros de quem quer que o visse. O paletó de tecido cinza escuro possuía cauda longa que desenhava seu corpo, evidenciando a cintura deixando-o mais alto e esguio. A calça era de um tom cinza grafite em risca de giz, delineando as pernas longas. Por baixo do fraque vestia uma camisa branca com colete cinza claro. Os sapatos sociais estavam ao lado da cama, aguardando o momento de serem usados pela primeira vez.
Seus cabelos sempre rebeldes estavam escovados para trás de maneira impecável, dando a ele aparência de um homem mais velho e mais sério. Os olhos muito azuis se destacavam sem a franja costumeira para tapar-lhe o rosto.
Estava tão bonito que possivelmente roubaria toda a atenção para si durante a cerimônia.
Mas, mesmo estando tão bem vestido, a alguns minutos de entrar na igreja, não estava feliz. Ao contrário, uma angústia longa o envolvia. Não importava o que tentasse fazer para esquecer a dor, esta não o abandonava. Apenas uma coisa passava por sua cabeça.
Sasuke estava zangado com ele, e com toda a razão. Naruto fugiu de sua casa na noite anterior sem ouvir o que ele tinha a dizer. O baque foi tão grande que chegou até mesmo a passar mal no meio da rua e precisou apanhar um táxi para voltar para casa. Afinal estava tão abalado que mal conseguia andar. O valor elevado da viagem de táxi era quase uma ofensa ao saldo negativo, causado pelos gastos do casamento, mas era a sua menor preocupação no momento.
As palavras que ouviu na noite anterior ecoavam em sua cabeça sem cessar.
“E se eu tiver me apaixonado por você nesse pouco tempo que passamos juntos, Naruto? Se eu disser que quero que desista do seu estúpido casamento para ficar comigo? Isso muda as coisas?”
Seria mesmo possível que Sasuke estivesse gostando dele? Aquele moreno metido que não gostava de ninguém exceto ele mesmo?
Seria tão fofo caso fosse verdade. Naruto não precisaria temer o sentimento abrigado dentro de si. Um sentimento quente, reconfortante, que somente o fazia pensar no Uchiha e na falta que ele lhe fazia.
Emburrado, sentou-se sobre a cama por cima das sacolas que acomodavam seu traje de luxo. Visualizou tristemente a caixinha prateada da joalheria ao seu lado. Tomou-a entre as mãos e a abriu.
Duas alianças douradas estavam encaixadas perfeitamente, as mesmas que foram trocadas no dia do noivado, porém agora estavam devidamente polidas. A gravação já havia sido feita com os nomes dos noivos e a data do casamento.
Naruto olhava distraidamente os anéis redondos, para então fitar a própria mão direita onde havia uma marca circular, fruto do uso contínuo da aliança. Em poucas horas seria um homem casado.
Deitou-se de costas suspirando longa e dolorosamente. O braço direito repousava sobre os olhos fechados.
O celular vibrou perto dele, sinal que uma mensagem havia chegado. Abriu os olhos devagar, pensando se deveria ler ou não.
Provavelmente mais algum detalhe do casamento a resolver, estivera o dia inteiro atendendo ligações e respondendo mensagens desse tipo. Estava exausto.
Esticou a mão até o celular, erguendo-o acima do rosto e deslizando o dedo pela tela para desbloquear. Seu coração disparou ao reconhecer o número. Sentou-se para poder ler direito.
Era dele!
Sua mão tremia enquanto tentava pressionar o ícone de mensagem, que se abriu na tela revelando apenas duas frases.
“Ainda tem tempo de desistir, se o fizer estarei aqui te esperando”
Naruto apertou o celular contra o peito.
O perderia para sempre se deixasse as coisas como estavam. A ideia de não ver mais Sasuke o deixava muito perturbado.
Releu a mensagem inúmeras vezes, pensativo. Por fim tocou o espaço para responder, digitando apenas duas palavras.
“Me desculpe”
Virou-se de lado na cama sem se incomodar em amassar o tecido grosso do paletó. Suspirou ao lembrar-se do rosto pálido e bonito do rapaz, do cheiro gostoso, do toque macio.
Quase conseguia imaginar as mãos quentes passeando pelo corpo e fechou os olhos, maravilhado com a lembrança. Seu corpo inteiro arrepiou ao lembrar-se de Sasuke do modo como faziam amor apaixonadamente. Ficou ereto em um instante enquanto imaginava. Suas mãos tatearam o próprio corpo, alcançando a pele por debaixo da veste, brincando com os mamilos empinados, descendo por sua virilha para encontrar a ereção que levantava o tecido da calça. Abriu o zíper e retirou sua ereção, masturbando-a lentamente ante a lembrança do moreno, o prazer vinha acompanhado da amargura por saber que tudo que lhe restara eram lembranças dos toques. Achou que uma última noite seria suficiente para esquecer, para se conformar, mas não bastava. Ele o queria! A cada segundo o queria mais!
Sussurrou o nome do dono daqueles pensamentos, diversas vezes, em meio a escuridão do quarto vazio.
Nem soube dizer quanto tempo ficara ali, fantasiando estar com aquele que povoava seus pensamentos. Horas ou minutos, tanto faz.
Ouviu a campainha tocar. Olhou assustado para o relógio constatando como o tempo havia passado depressa. Faltava cerca de uma hora para seu casamento.
Os toques de campainha ficaram mais insistentes e ele resmungou algo, aos tropeços atendendo a porta.
Sua mãe esperava do outro lado, um sorriso imenso estampado na face. Atrás dela, Minato lhe acenou gentilmente.
— Conseguimos chegar no horário, isso deve ser bom sinal! – ela brincou. Trajava um vestido longo de cor azul, simples e muito bonito. Havia prendido seus cabelos no alto da cabeça e eles desciam encaracolados pelos ombros. Pouca maquiagem, mas definitivamente tudo combinava com harmonia perfeita.
Seu pai vestia um terno liso, era naturalmente um homem tão bonito que qualquer coisa que vestisse o deixava muito bem, embora não percebesse.
— Está pronto, filho? Temos que chegar a igreja com meia hora de antecedência.
— Quase pronto pai. E mãe, você está linda.
Mas o elogio passou despercebido. Ela franziu a testa, olhando de cima a baixo, ajeitando as vestes desalinhadas do filho.
— Você está todo amarrotado, querido! O que estava fazendo?
Ele tentou esconder o embaraço. Estava naquele estado deplorável porque havia fantasiado estar com Sasuke e rolado pelos lençóis até gozar ao menos umas três vezes.
— Eu... Acabei amassando quando o trazia da loja de aluguel... – desconversou, dando algumas batidinhas no tecido para tentar alinhá-lo melhor. Deu espaço para a mãe entrar.
— Sejam rápidos, estou esperando dentro do carro – Minato adiantou porque bem conhecia aqueles dois. Quando o assunto era se arrumar para algum evento importante Naruto demorava tanto quanto sua mãe.
A mulher apenas olhava-o atentamente enquanto ele terminava de conferir alguns pertences. Parecia sério, distraído. Muito diferente do habitual.
—... E quanto a Sakura, já falou com ela hoje?
— Ainda não, ela está fazendo milhares de coisas desde cedo. Parecia muito empolgada – respondeu seco, enquanto procurava a caixa com as alianças que deixou em cima da cama, mas que parecia ter caído. Encontrou-a debaixo da cômoda e a colocou no bolso do fraque.
Conferiu alguns papéis e os colocou na mala que levaria em sua viagem de lua de mel para o exterior. As passagens já estavam separadas na mala de mão, bem como o dinheiro da viagem, as reservas do hotel e os documentos.
Ele olhou tudo uma última vez e fechou os olhos, suspirando longamente.
Kushina apenas observava o modo como o filho se movia, quase mecanicamente. Seu coração de mãe doeu. Percebeu os lábios rosados tremerem de leve, o azul vívido das íris se tornar acinzentado.
— E quanto a você, Naruto? Você está realmente feliz?
Ele abriu os olhos lentamente.
—... Como não estaria feliz no dia do meu próprio casamento? – fechou a mala e apagou as luzes, carregando-a para a sala em direção a saída.
A mulher não precisava de uma única palavra para entender. Segurou com força o braço do filho e este se deteve, virando para encará-la, sem entender.
— Naruto, ninguém pode te obrigar a fazer algo que não queira, nem mesmo um salão cheio de convidados!
— Mas eu não estou...
— Não minta para mim. Pode mentir para todos que quiser, mas eu sou sua mãe. Sei que não está feliz, e não quero que se machuque.
Ele respirou fundo para controlar as lágrimas. Andava muito sentimental, mas não sabia ao certo o porquê.
— Eu estou bem. De verdade. Tomei essa decisão conscientemente. Não voltarei atrás
— Se não for sincero consigo mesmo nunca será capaz de ser feliz, nem de fazer a Sakura feliz.
— Por que está me dizendo essas coisas agora mãe?
— Porque ainda tem tempo de mudar de ideia. Se não tiver certeza sobre seus sentimentos não se case. Procure a pessoa por quem seu coração bate mais forte, aquela com quem tem certeza que deseja ficar, antes que a perca para sempre e nunca se perdoe por isso. A sua felicidade depende apenas de você mesmo, Naruto.
Ele piscou algumas vezes, fascinado que ela o houvesse lido tão facilmente. Sequer tentou disfarçar ou desmentir. Encarou-a seriamente. Seus olhos se encheram de água e ele os baixou para que a mãe não percebesse. Piscou bem depressa e mordeu bem forte.
—... E se essa pessoa já não puder ser alcançada?
—... Você nunca vai saber se não tentar- sorriu de volta – Nós vamos entender seja qual for a sua decisão, querido.
Minato então apareceu na porta, apressado e nervoso.
— Vocês dois vêm de uma vez ou vou ter que arrastá-los para dentro do carro? Estamos atrasados!
—-
O líquido desceu queimando sua garganta, mas o álcool não fazia mais efeito.
Verificava no notebook a lista de presentes de casamento conferindo os itens que ainda restavam. Nenhum deles lhe interessava, eram simples demais. Um sorriso maligno estampou seu rosto quando algo passou por sua mente. Digitou na barra de navegação o endereço de um site onde certamente encontraria o “presente” de casamento perfeito. Comprou-o online e adicionou algum dinheiro apenas para que fosse entregue pessoalmente com um cartão seu.
Fechou o note e levantou-se da poltrona dando uma última olhada de relance no espelho. O terno sob medida que havia encomendado no alfaiate, especialmente para aquela ocasião, lhe caía perfeitamente bem.
Apanhou as chaves do carro e seguiu em direção a porta, porém uma figura pequena se colocou em seu caminho. Ela o mirava com olhos iracundos por cima das lentes dos óculos.
Karin encostou-se junto à porta de saída e abriu bem os braços, criando sua própria barreira defensiva e deixando claro que não o deixaria dar um passo sequer para fora do apartamento.
— Você não vai sair daqui! – olhava-o determinada. Sasuke mantinha uma expressão de profundo tédio.
— Suma da minha frente, Karin. Não me faça perder a paciência.
— Vai fazer o que se eu não sair? Experimente encostar um só dedo em mim! Eu não vou deixar você estragar tudo que construímos com tanto esforço! Você é meu marido! Nunca vou permitir que saia desse apartamento para procurar aquele maldito loiro!
Sasuke suspirou devagar, impaciente. Karin sabia mesmo como irritá-lo. Caminhou até ela, sem mudar de expressão e a ruiva se encolheu quando ele ficou a milímetros de distância. Podia sentir seu calor e seu cheiro. Olhou para o alto, vendo o rosto que tanto venerava tão próximo do seu.
E pensar que as poucas vezes que conseguira beijá-lo foram quando estava dormindo! Tê-lo tão perto era como seus sonhos mais íntimos.
—... Se fizer alguma coisa eu vou gritar! Nem tente me deter! Eu não vou deixar você sair desse apartamento!
Ele a encarou em silêncio, as íris negras exalando desprezo e frieza. Com um movimento ágil e sem prévio aviso, Sasuke segura em sua cintura e a levanta. A ruiva soltou um gritinho quando foi colocada em seus ombros, carregada através da sala. Ela se debatia, estapeando as costas largas, suas pernas se agitando no ar.
— Me solta! Me põe no chão, Sasuke!
Ele a carregou até o quarto, abrindo a porta com um chute. Arremessou a ruiva sobre a cama macia sem pensar duas vezes. Karin caiu desconjuntada sobre o colchão, agitando os cabelos que caíam em seu rosto, assustada pela forma como fora tratada pelo marido.
Sasuke a encarou uma última vez antes de lhe dar as costas e fechar a porta. Ela ouviu o som da chave girando na fechadura e correu desesperada. Girou a maçaneta diversas vezes, mas constatou que a porta foi mesmo trancada.
— Sasuke! Abra essa maldita porta! – bateu com força na madeira. — Não pode me manter aqui para sempre! Eu vou ligar para a segurança e alguém virá logo me tirar daqui! Você está me ouvindo???
Sasuke sabia de tudo isso, então não fez questão alguma de ouvir o que ela dizia, deixando o apartamento.
—-
Observava a cidade pelos vidros embaçados do carro enquanto era levado no carro de seus pais até a igreja. Estavam quietos, não havia a costumeira conversa descontraída. Pareciam perceber o pesar do filho.
A cidade estava mergulhada em uma chuva fina e gelada. Começava a escurecer e as luzes noturnas de sábado se acendiam, convidando as pessoas a sair para passear, mas o frio as fazia relutar e as ruas estavam vazias, o trânsito livre os permitia se locomover sem problemas.
O local escolhido pela noiva para a cerimônia de casamento foi a catedral localizada no centro da cidade, uma igreja imensa, herdada do saudoso período da arte sacra. A fachada era repleta de detalhes, espirais, com duas grandes torres que se erguiam imponentes em direção aos céus. Uma grande abóbada podia ser vista no centro. Em seu interior o teto era completamente desenhado como uma alusão ao paraíso, onde anjos bailavam ao som de música de harpas. As paredes brancas, ricamente decoradas com milhares de detalhes em tom dourado e granito escuro, davam majestade ao lugar, como os antigos salões de festa imperiais. Uma fusão de bom gosto e extravagância barroca.
Logo que percebeu a catedral ao longe, Naruto mordeu o lábio inferior. Seu coração começou a bater tão rápido que ficou sem ar. Podia ver as grandes torres e a abóbada se tornando cada vez maiores conforme se aproximavam. As ruas próximas estavam cheias devido ao fluxo de carros se dirigindo todos ao mesmo local.
O carro seguiu até o estacionamento da igreja e Naruto apenas se sentiu mais e mais nervoso ao perceber a quantidade surreal de pessoas transitando pelo estacionamento rumo ao interior da igreja, correndo para se abrigar da garoa em seus trajes finos e elegantes. A multidão nunca lhe pareceu um problema tão grave antes.
Teve medo de descer. As escadarias luxuosas se erguiam até os imensos portões. Olhando-a de fora aquela igreja mais parecia um antigo palácio. Era compreensível que o valor do casório fosse tão elevado!
Minato virou-se para o filho no banco de trás e o percebeu imóvel, olhando a igreja como se tivesse vontade de correr para longe. Volveu então o olhar à sua mulher sem dizer nada, parecendo receoso. Sempre foi mais sensível aos problemas do filho, sabia que ele podia ser muito teimoso quando queria. Kushina por sua vez já estava ficando impaciente.
— Naruto, não temos a noite inteira. Ou você desiste agora e fugimos daqui ou desce do carro de uma vez! – encarou o filho por cima do banco.
Ele pareceu despertar com a bronca e assentiu.
— Ah sim, me desculpe. Vamos – abriu a porta e desceu do carro popular, que parecia sumir em meio aos modelos luxuosos. Os carrões no estacionamento indicavam bem o tipo de convidados de sua noiva.
Naruto abriu um guarda chuva e curvou o braço para sua mãe segurar-se nele. Andavam depressa para escapar da garoa forte e gelada. Minato apenas correu para esperá-los na entrada. Subiram as escadarias e passaram pelos grandes portões.
A luz intensa imediatamente os cegou.
Havia tantas luzes espalhadas pela igreja que era quase insuportável ficar de olhos abertos. Fitas imensas pendiam do teto, fazendo voltas nas colunas até a porta da frente. Flores variadas em tons de rosa e branco adornavam as vigas em direção ao altar. Entre cada um dos bancos por onde a noiva passaria havia tecidos brancos finos e delicados e seda rosada por cima deles. Um tapete felpudo vermelho se estendia desde a entrada.
O altar então estava tão adornado que era difícil encontrar o local para se ajoelhar. Sobre ele estavam as atas a serem assinadas e penas para escrever. Segundo sua noiva o casamento com efeito civil era o mais indicado, pois unia a cerimônia do religioso com a documentação civil, evitando o transtorno de ter de realizar também o casamento em cartório.
Naruto estava abobalhado e não sabia o que olhar primeiro.
A seu ver a igreja já era linda por si só, não havia a menor necessidade de contratar serviços de decoração. Estava tudo muito carregado, muito exagerado!
Os bancos reservados ao casório estavam praticamente todos ocupados, o que contava com cerca de 500 convidados ali presentes. Todos se viraram quase ao mesmo tempo e trocaram sorrisos e conversas animadas ao verem o noivo, lindo em seu traje, parado junto aos portões de entrada com seus pais.
Minato pousou a mão sobre seu ombro.
— Ainda tem alguns minutos até o horário marcado. Quer dar uma volta? Você parece muito nervoso – sorriu gentil, mas estava preocupado. Naruto era doce demais para pensar em si mesmo, ainda que sua felicidade dependesse disso.
O filho negou rapidamente com a cabeça.
Se saísse agora era capaz de não voltar mais.
Caminhou pelo tapete vermelho entre os imensos bancos de madeira em que os convidados estavam sentados. Sorria gentilmente acenando para ambos os lados, vez ou outra agradecendo alguém pela visita, mas não conhecia a grande maioria das pessoas. Eram todos convidados de sua noiva. Bem próximo ao altar encontrou seus convidados enfim, eles ocupavam apenas duas fileiras de bancos.
Sorriu amplamente e acenou feliz por vê-los.
Estavam presentes alguns amigos de trabalho e poucos amigos de infância. Todos bem trajados acenavam e o cumprimentavam conforme passava. Pouquíssimos parentes também, que jamais teria convidado por não fazerem parte ativa de sua vida. Convidou-os unicamente por insistência de sua noiva, para os assentos reservados ao noivo não ficarem vazios.
Quando a cerimônia acabasse e todos se dirigissem ao palacete onde a festa aconteceria, Naruto os cumprimentaria devidamente. Estava feliz por terem comparecido. Convidou poucas pessoas, apenas as que lhe eram mais importantes e especiais.
De pé frente ao altar estavam seus padrinhos. Ao vê-lo chegar apressaram-se em abraçá-lo.
Jiraya e Tsunade eram amigos antigos que ajudaram cuidar de Naruto quando era menino. Eram seus vizinhos e várias vezes o menino ficava em sua casa para os pais poderem trabalhar. Ao revê-los ali, soube que não poderia escolher ninguém melhor para serem seus padrinhos.
Acabou lembrando de quando comunicou à noiva que os queria como seus padrinhos ela armou um escândalo, afirmando que gente velha não saía bem nas fotos, mas conseguiu com muito custo fazê-la mudar de ideia. Naruto tinha um carinho especial e único pelos dois. Os considerava como seus avôs.
Abraçou-os apertado.
— Obrigado por virem, fico muito feliz, de verdade.
— Não perderia a chance de ver você ser enlaçado! – O homem brincou. – Espero que tenha aproveitado bem antes.
— Pare de dizer besteiras para ele! – Tsunade bateu com força na cabeça de cabelos brancos. Em seguida apertou o rapaz entre seus seios enormes num abraço sufocante. Ele precisou prender a respiração por alguns segundos ou morreria sufocado na pele macia. Mesmo com pouco decote o volume ainda era inacreditável!
Ele sorria, mas estava nervoso. Do lado direito do altar estava a senhora Haruno, uma mulher baixa e robusta, com cabelos grisalhos em tom rosa desbotado. Era viúva há muitos anos, de modo que ao lado dela estava um primo de Sakura que a entregaria formalmente no altar. Naruto já ouvira falar acerca dos padrinhos da noiva, os conheceu brevemente no dia da festa de noivado. A mulher tinha cabelos escuros e trajava um vestido verde exagerado, cheio de detalhes, fitas, brilho e paetês por toda parte. Mais parecia um bolo do que uma pessoa. Seu marido trajava algo definitivamente caro, mas de péssimo mau gosto.
Havia som de murmúrios de conversa em toda a igreja, todos esperando a noiva chegar para dar início ao casamento. A orquestra disposta no altar afinava seus instrumentos. Tocadores seguravam trompetes com longas bandeiras vermelhas presas. O padre conversava com a equipe responsável pela cerimônia. Na hora que iniciassem, todos fariam suas entradas definitivas e seriam colocados no local exato, que foi ensaiado exaustivamente.
Naruto olhava de um lado para outro, zonzo, sem ar, mirando os convidados quase com desespero. Interpretaram isso como nervosismo e todos acharam gracioso. Num impulso ele caminhou para fora da igreja por uma das portas laterais, sem falar com ninguém, movido por algo inexplicável. Se pudesse simplesmente correria para longe de tudo, para nunca mais ser encontrado! Jamais imaginou que ficaria tão nervoso.
O ar frio e úmido bateu em seu rosto, trazido pelo vento, e ele deu graças por isso. Ajudava a esfriar a cabeça. Precisava respirar e se acalmar ou acabaria enlouquecendo.
Entretanto, havia escolhido a hora errada para sair.
Do lado de fora acabava de estacionar na vaga coberta um carro grande e escuro, alugado exclusivamente para aquela noite. O motorista desceu e caminhou até a porta traseira, abrindo-a com um gesto firme.
Primeiro surgiram pés pequenos calçados em sapatos brancos de salto muito alto e em seguida uma infinidade de tecido muito branco surgiu de dentro do veículo de luxo. A garota segurou a mão do chofer e desceu graciosamente do veículo, segurando as barras do vestido com a outra mão. Ele a conduziu até o pátio coberto antes de retornar para veículo. Naruto a seguiu rapidamente, sem pensar, porque precisava muito falar com ela.
A garota ouviu seu nome sendo chamado no pátio vazio que dava acesso ao interior da igreja e se virou delicadamente. Naruto vinha até ela, esbaforido.
Quando se deu conta de quem a chamava caminhou a passadas largas e lhe deu um soco no meio da cabeça, fazendo-o quase cair ao chão.
— Seu burro, estúpido! – estapeou impiedosamente – Você não pode me ver ainda! Não sabe que dá azar o noivo ver a noiva antes do casamento?
— Desculpe, desculpe! – tentava se apartar dos golpes dela — Eu só precisava...
Não conseguiu terminar a frase ao visualizá-la por inteiro. A voz desapareceu da garganta.
Sakura estava linda em seu vestido de noiva.
O vestido era sim exagerado, mas lhe caiu muito bem. O corpete branco era completamente coberto por cristais em torno da cintura muito fina, seguido de uma longa saia rodada com milhares de arabescos rendados rosa claro como seus cabelos. As flores rosadas lhe davam um aspecto doce, exatamente como a imagem que tinha dela.
Seus cabelos estavam presos, mas uma franja longa descia pelo rosto, e do coque descia o véu que se arrastava até se fundir com a cauda gigantesca do vestido, que devia medir no mínimo três metros de comprimento. Segurava em uma das mãos um buquê grande de rosas e folhagens naturais, envolto em tecido e laços.
Ele piscou algumas vezes e só então percebeu que as lágrimas rolavam pelo rosto, sem controle.
— Ah... Eu... – secou rapidamente o rosto, mas novas lágrimas o cobriam e ele franziu a testa, fungando algumas vezes, cada vez mais rápido. Antes que percebesse havia se tornado um choro compulsivo e Naruto puxou a noiva para si em um abraço apertado.
Não podia fazer isso, simplesmente não podia.
Somente no momento em que postou os olhos nela compreendeu o óbvio. Que não seria capaz de amá-la porque não era esse o sentimento que nutria por ela. Já estava interessado em outra pessoa.
—... Naruto? – a jovem estava quase sufocada dentro do abraço, sem entender — Não precisa chorar. Sei que está emocionado, mas por favor não chore assim na cerimônia porque câmeras estão filmando de todos os ângulos!
— Sim, eu sei... Escute-me, por favor. Sakura, eu preciso te dizer uma coisa muito importante, mas não sei bem como...
— Estamos prontos! – uma jovenzinha da equipe de casamento saiu pela porta lateral da igreja indo em direção aos noivos. Pegou gentilmente a mão de Sakura levando-a de encontro ao portão principal – Você vem comigo, noiva. Você, noivo, vá até a porta principal porque o casamento já vai começar.
Ele assentiu enquanto caminhava para a entrada da igreja.
Perdera a chance de dizer.
—-
Estava de pé diante do altar, ao seu lado os padrinhos e os pais dos noivos. Todos sem exceção assistiam aos tocadores de trompete anunciarem em alto e bom som a marcha nupcial, como se um membro da realeza estivesse prestes a pisar naquele solo. Os portões outrora fechados se abriram e por eles veio a noiva, graciosamente. O rosto coberto pelo véu branco, os passos calculados para não pisar nas barras daquele vestido enorme. Parava vez ou outra no meio do trajeto para posar para algum dos muitos fotógrafos.
Ela caminhava a passos lentos, sem acompanhar o ritmo da marcha que soava com estrondo. Os convidados estavam de pé, assistindo a entrada que ela julgava triunfal. Algumas mulheres choravam, comovidas com toda aquela tradição exagerada. Outras pessoas se apoiavam nos bancos, mas sem deixar de ver Sakura caminhando lentamente.
Quanto mais ela se aproximava mais e mais nervoso Naruto ficava.
Quase ao fim da primeira música ela chegou ao altar onde seu primo a recebeu, tirou seu véu e lhe deu um beijo na testa, dando-lhe o braço para levá-la até Naruto que estava pálido, imóvel no mesmo lugar.
O noivo lhe tomou a mão e ambos subiram sozinhos até o altar, diante do padre. As pernas dele tremiam tanto que não sabia quanto tempo se aguentaria de pé. Não sabia sequer se sua voz sairia.
O padre saudou a todos e a música enfim cessou, dando lugar a uma melodia baixa e mais agradável.
— Meus amigos, é com muita alegria que recebemos hoje esse belo e jovem casal que deseja se unir nos laços do sagrado matrimônio.
O loiro não ouvia nada, não prestava atenção, só conseguia olhar a frente, um ponto qualquer na pintura angelical da parede. Estava à beira de um ataque de nervoso.
Não ouviu as leituras bíblicas, não prestou atenção quando lhe deram a bênção, não ouviu nem mesmo quando o padre fizera uma gracinha acerca dele estar muito nervoso e toda a igreja riu. Sentia a mão pequena de Sakura junto a sua, sabendo que o suor contínuo a deveria incomodar muito.
Como poderia viver o resto de sua vida com ela sem amá-la? Como poderia ignorar a dor em seu coração por perder Sasuke de vez? Onde diabos estava com a cabeça quando aceitou se casar?
E pensar que fora avisado tantas vezes. A culpa o corroía.
Para seu extremo horror seu padrinho trouxe as alianças até o altar. Naruto olhou aterrorizado os pequenos anéis dourados dispostos sobre um cesto de palha, coberto por cetim branco.
O padre os colocou um diante do outro, indicando que cada um tomasse para si uma das alianças. Eles assim obedeceram.
Conforme orientado, Naruto tomou a mão esquerda delicadamente e colocou a aliança no dedo anelar, beijando-a em seguida, como mandam os costumes. Sakura fez o mesmo, tomou a mão do noivo, virando em seu melhor ângulo para os fotógrafos, enfim colocando a aliança no dedo da mão pequena e bonita do noivo, dando um beijo também.
— Vou dizer a vocês os votos, e somente repitam comigo – o padre colocou o microfone diante da boca do rapaz – Primeiro você, noivo.
Ele assentiu nervosamente, entreabrindo a boca, gaguejando as primeiras palavras.
— E... Eu, N... Naruto Uzumaki recebo você, Sakura Haruno como minha legítima esposa, prometendo te amar e te respeitar todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe.
Ouvia-se o som copioso do choro dos que assistiam, estavam muito emocionados.
Sakura repetiu os mesmos votos, olhando para as câmeras que a filmavam, sem fitar o noivo diretamente uma única vez.
Era o seu dia e ela precisava brilhar mais do que todos que estavam ali.
Com as alianças postas, de mãos dadas, um de frente para o outro, o padre prosseguiu.
— E se porventura há alguém dentre os presentes que tem alguma razão para que esse casamento não aconteça, que fale agora, ou se cale para sempre.
Naruto desviou o olhar para os convidados, como se implorasse, mas havia gente demais. Seu coração batia depressa, vasculhava entre os rostos à procura de uma feição familiar. Encheu-se de pesar ao constatar o óbvio.
Ele não havia ido. Sasuke não apareceu em seu casamento.
Mas o que esperava? Que ele aparecesse pedindo para ficarem juntos depois de tudo o que havia dito? Várias foram as vezes que o dispensou e trocou pela mulher que estava diante de si naquele momento.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto.
O havia perdido para sempre. Uma pessoa tão preciosa e por sua própria culpa!.A dor era tão intensa que parecia esmagá-lo e consumi-lo.
Alheio a seu sofrimento o padre prosseguiu.
— Bem, já que ninguém é contra a união deste feliz casal, prosseguiremos com o casamento. Naruto Uzumaki, é de livre e espontânea vontade que você aceita Sakura Haruno como sua legítima esposa?
Ele fitou o padre horrorizado e piscou algumas vezes. Em sua cabeça a resposta racional lhe vinha à mente, mas seu coração se negava a responder. Abriu a boca trêmula, respirando pesadamente. As palavras sumiram de sua boca.
Não, ele não queria. E não sabia o que fazer. Sentia o rosto quente de vergonha ao ser alvo de todos os olhares do salão, a câmera diante dele sem o deixar respirar.
“Alguém por favor me tire daqui!” – pensava, os olhos marejados, a respiração falha. “Eu não aguento isso, eu preciso sair daqui!”
Sakura o olhava irritada e fazia sinais com a cabeça como quem diz “responda de uma vez!”. O padre estava confuso ao notar que o rapaz não respondia e parecia não estar muito bem. Toda a cor do rosto sumiu tornando-o pálido como um fantasma! Suava e tremia muito, a mão que segurava a da noiva não parecia ter controle. Era como se fosse ter um ataque de pânico a qualquer momento.
— Meu jovem, você está bem? – o padre olhou-o de perto, preocupado — Quer que paremos um pouco a cerimônia para você tomar um pouco de água?
— Não, senhor padre, ele está muito bem! – a noiva o cortou rispidamente – Ele já vai responder e continuaremos o casamento!
— Bem, se você diz... Meu jovem qual é a sua resposta? Você aceita Sakura Haruno como sua legítima esposa?
Naruto respirava depressa, atordoado. O ar saía de sua boca como se tivesse corrido uma maratona. Sua vista perdia o foco.
“Não!” – pensava, desesperado. Focalizou o rosto de Sakura. A garota parecia furiosa com ele, além de muito envergonhada e não parava de olhar para os lados. Ele cerrou os olhos, engoliu forte e por fim sua voz saiu como um sussurro incompreensível. Cada fibra de seu corpo relutando em responder uma única palavra.
—... S... Sim – respondeu baixinho. Sakura suspirou aliviada, mas o padre pareceu não entender. Aliás, ninguém mais ouviu a resposta.
O vigário se curvou mais para perto.
— Como disse, meu jovem?
— Ele disse que sim, você não ouviu? – Sakura quase cuspiu, irritada, e recebeu uma bronca de sua mãe.
— Sakura! Não seja malcriada, estamos na igreja!
Mas o velho senhor não pareceu se importar. Ainda olhava atentamente ao jovem de cabelos loiros. Sabia que algo estava errado e não continuaria a cerimônia até ter ouvido claramente.
— Poderia repetir mais alto para que todos possam ouvir, Naruto?
Sakura ia intervir novamente, mas o vigário a impediu com um movimento de mão, desejando ouvir a resposta diretamente do rapaz. Naruto assentiu, abrindo a boca trêmula, segurando a têmpora com uma das mãos, a outra apoiando no altar.
— Eu... – seu queixo tremia, a imagem perdia o foco – Eu... Eu... Aceit...
— Naruto!!!
Uma voz forte e grave ressoou pelo saguão assustando o loiro que ergueu rosto como se despertasse de um pesadelo súbito. Todos no saguão viraram para trás em busca do dono daquela voz. Sakura mordeu tão forte que os dentes rangeram ao perceber a figura parada na entrada da igreja.
Quase não podia acreditar. Seu coração disparou tanto no peito que precisou se apoiar ou teria caído. Um misto inexplicável de sentimentos o invadiu depressa.
Sasuke estava parado sobre o tapete vermelho no meio do caminho da noiva, ofegante. Seu rosto estava corado, parecia ter corrido muito até ali. Vestia terno, camisa e gravata em tom negro. No folclore popular uma pessoa trajada completamente de preto no altar significa alguém radicalmente contra uma união.
Naruto olhava aturdido para o rapaz que invadiu seus pensamentos incessantemente durante as últimas semanas e uma vontade incontrolável de fugir tomou conta de si. Seus temores, suas dúvidas, tudo desapareceu quando postou os olhos nos dele e um calor indescritível aqueceu seu peito.
Mirou a noiva de soslaio. Sakura o encarava como se duvidasse que aquilo estivesse mesmo acontecendo, ainda mais porque as câmeras agora estavam todas voltadas ao homem de pé no meio da igreja.
— Rapaz, você não pode interromper a cerimônia dessa maneira! Já passamos do momento em que você poderia se pronunciar!
Sasuke ignorou os comentários do padre, ignorou os olhares de desaprovação sobre si e caminhou a passos largos em direção do altar, tendo como único alvo o rapaz que o olhava aturdido.
Uma balbúrdia se formou entre os presentes e todos miravam o belo desconhecido com curiosidade. Algumas pessoas tiravam os celulares para registrar a cena, sabiam que renderia muitas visualizações em sites de vídeos.
Ficou diante dele, porém sem subir ao altar. Encarou-o firmemente, desagradado que aquele loiro estúpido tivesse seguido até tão longe por mera teimosia. Era fácil perceber apenas de olhar para ele que estava em frangalhos. Havia chegado momentos antes e percebeu a hesitação em dizer sim, e isso lhe bastava. Se precisasse salvar aquele idiota era isso o que faria.
Estendeu a mão no ar como um convite, os olhos negros fixos nos olhos azuis. O tom soava como uma ordem e não como um pedido.
— Vem!
O som trespassou o corpo do outro como uma flecha.
Foi o mesmo que lhe disse no dia em que o conheceu em sua festa de noivado. Aquela mesma palavra que o fez desistir e fugir para se amarem pela primeira vez. O efeito de uma palavra tão simples e tão pequena mexia tanto consigo que sentiu as pernas tremendo. Seus pés inconscientemente sendo puxados para onde Sasuke estava, atraídos pela presença forte. Porém a força para movê-los se esvaiu.
Queria muito, mais do que qualquer coisa na vida, mas como fugiria estando no meio da cerimônia de casamento? O que diria? Como se explicava um absurdo daqueles?
E Sakura? Jamais conseguiria magoá-la de tal maneira! Ela nunca lhe fez nada de mal.
Sua visão começou a ficar escura, a mente rodando, os gritos de ódio de Sakura ecoando em seu ouvido.
Estava zonzo, enjoado, suava frio e não conseguia se manter de pé. Precisava se apoiar em alguma coisa porque não estava se sentindo nada bem.
— Não é hora para brincadeiras, Naruto! Se recomponha e mande o Sasuke embora daqui! Pare de estragar meu casamento!
Estava tão tomado de sensações diferentes que não conseguia pensar direito. Ouvia tantas vozes ao mesmo tempo que sua cabeça não respondia a nenhuma delas. A balbúrdia na igreja só aumentava.
Estendeu a mão para a noiva procurando algum apoio, apertando seu braço com força porque não sentia mais suas pernas e sua cabeça doía. Sakura percebeu que ele estava frio e trêmulo, mas nem assim se convenceu.
— Sakura... Eu preciso me sentar...
— Depois, ok? Agora você não pode! Diga sim de uma vez! Responda ao padre para terminarmos o casamento!
Tentando com todas as forças ele assentiu, passando as mãos pelo rosto, tentando se recompor, sem sucesso.
— Deixe de frescuras ou eu nunca vou perdoar você, Naruto! Nós pagamos o Buffet por hora, não podemos nos atrasar!
Tudo subiu à cabeça rapidamente. Os gritos da noiva, o rapaz parado diante dele, o murmúrio dos convidados, os músicos discutindo confusos, o cheiro enjoativo das flores. Sua face ardeu febrilmente e os olhos giraram nas órbitas quando tudo se apagou e seus sentidos falharam. Caiu desacordado ao chão com um baque surdo.
Houve gritaria geral. Os convidados se alvoroçaram e se levantaram para ver o que estava acontecendo.
— Naruto! – Sasuke irrompeu até ele, se abaixando e o tomando nos braços – Está me ouvindo? – agitava o corpo mole entre seus braços, sem resposta. Baixou o ouvido até o nariz para perceber aliviado que ele ainda respirava.
Sakura estava desconsolada.
— Isso não pode estar acontecendo! Não pode! Onde fui arranjar um noivo tão molenga? Padre, por favor nos dê alguns minutos. Ele logo vai acordar e continuamos com o casamento,
O padre não sabia o que dizer, estava muito confuso. A banda parou de tocar e por um momento ninguém sabia o que fazer.
Kushina tirou os sapatos de salto dos pés e correu até o filho.
— Ele precisa de ar! Levem ele para fora! – pediu, mas Sakura foi mais além. Baixou-se ao lado de Sasuke que amparava Naruto nos braços. Foi difícil se acocorar com aquelas barras de vestido esvoaçante para todo lado, mas ela o fez e com força demasiada estapeou rudemente a face desacordada do noivo provocando um ruído seco que cortou o ar.
— Acorde agora mesmo, Naruto!!! – gritou ao seu ouvido, já levantando a mão para um novo golpe.
Mas sua mão foi segurada com força por Sasuke que a encarava como se a achasse louca.
— Pare com isso! – vociferou.
— Você é quem deve parar! Se não fosse por sua causa eu estaria casada agora! Mas você estragou tudo! Isso é tudo sua culpa!!! – gritava histérica, fora de controle — Alguém tire esse homem daqui agora!
Sasuke não se preocupava com ela. Antes mirava o rapaz desacordado que respirava com dificuldade em seus braços. Minato cobriu a testa dele com sua mão constatando que estava quente.
— Já pedi para chamarem uma ambulância. Por hora vamos tirá-lo daqui e levá-lo para um lugar ventilado.
Sasuke assentiu, erguendo o corpo inerte de Naruto com um movimento ágil, ficando de pé enquanto o carregava. Sakura se colocou em seu caminho.
— Esperem, por favor. Um pouco de álcool pode fazê-lo acordar!
— Você está cega? — Sasuke parecia incrédulo do que estava ouvindo — Olhe para ele!
— Ele está nervoso, isso é normal! Vamos esperar ele acordar!
Os olhos de Sasuke brilharam com tanta frieza e ira que a garota se encolheu.
— O que é mais importante para você? Sua maldita festa ou a vida do seu noivo?
— Não se meta no que não te interess...
— Sakura, já chega! – eles se calaram quando Kushina se pôs em meio aos dois. Fitou longamente o rapaz moreno, no profundo dos olhos e suspirou, cansada – Venha comigo.
Sasuke concordou e a seguiu, carregando Naruto para uma sala localizada atrás do altar. Sakura por sua vez ficou parada, estática, achando que tudo que não passava de um pesadelo.
Tão logo saíram com seu noivo todos os olhares se voltaram para ela ao mesmo tempo e um murmúrio desagradável encheu o recinto. A falta de solidariedade e sensibilidade para com o noivo era visível e os convidados se escandalizaram com tal ato.
Ino, na cadeira da frente soltou uma risadinha fatal.
— Nossa, que triste ser dispensada na última hora, hein testuda? Acho que vai ter que encontrar outro noivo já que está tão desesperada.
— Cale essa maldita boca, sua porca! – irrompeu em lágrimas, segurou a barra do vestido e correu para fora da igreja. Sua mãe chamou-a e correu em sua direção, mas ela não se deteve até ter deixado o recinto.
Aquela era uma vergonha que jamais esqueceria na vida e Naruto lhe pagaria caro pelo que a fez passar!
Continua.
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