Entre A Razão E O Desejo - Em edição
28 Marcas
Notas iniciais
A primeira coisa que fez naquela noite foi sentir raiva, uma bem profunda.
— Que diabos você faz aqui? — Gaara entorta o bico ao ver Menma parado no outro extremo de um boulevard onde alguns músicos tocavam animados. O local dispunha de cantinas rústicas para jantar. A luz era baixa, romântica e muito agradável.
— Eu que lhe faço essa pergunta! — Menma retrucou de volta sem deixar de admirar a beleza de Gaara em roupas informais. Secretamente estava bem feliz por encontrá-lo ali por acaso — Matsuri me pediu para encontrá-la aqui.
— Pois ela me pediu a mesma coisa!
Gaara sentiu a raiva ferver dentro de si.
— Aquela…! — praguejou mandando uma mensagem malcriada para a bendita mulher que armou para eles. Em segundos ela mandou de volta um emoji de carinha feliz com a língua para fora e um “divirtam-se”, ficando off line.
O mais velho suspirou, encarando o raposo que parecia confuso.
— Ela tapeou nós dois.
— Quê? Foi um golpe para ficarmos a sós? Eu amo essa mulher!
Em resposta o chefe lhe deu um golpe na cabeça.
— Vou pra casa. E você trate de fazer o mesmo.
— Hein??? Mas acabamos de chegar! E esse lugar é lindo!
— Pois pode apreciá-lo o quanto quiser. Sozinho.
Menma franziu a testa e mordeu o canto do lábio.
— Sabaaku no Gaara, você vai acabar solteiro qualquer dia desses!
— Hã? Que droga está falando?
— Você tem vergonha de mim, não tem? É por isso que não gosta de ser visto comigo!
— É a coisa mais estúpida que já ouvi! — retrucou, mas ficou ligeiramente vermelho.
O raposo não engoliu a desculpa, cruzando os braços.
— Se é assim então me beije. Aqui e agora.
A cara de desconcerto do Sabaaku chegava a ser fofa.
— FICOU MALUCO???
— Faça isso ou terminamos! Eu não vou namorar um cara que tem vergonha de mim.
— Eu não tenho vergonha de você! De onde tirou isso?
— Você quase me expulsou da sua sala quando aquele diretor de merda apareceu! Me enxotou feito um cachorro! Eu não quero ser maltratado porque eu sei o meu valor! Isso está me magoando pra caramba!
O outro ficou sério, ouvindo atentamente a reclamação. Deu um passo à frente, mas ele não o encarou de volta.
— É por isso que tem estado agressivo comigo?
— Lógico — resmungou irritado, já com uma imensa vontade de gritar e chorar, e por isso não ergueu o rosto.
Sério, como as pessoas conseguiam discutir sem chorar? Uma coisa daqueles e já queria se debulhar em lágrimas!
Em resposta Gaara passa a mão pelos cabelos negros.
— Olha pra mim.
— Não quero. Odeio o que você faz comigo.
— Eu não tenho vergonha de você, Menma. Às vezes você pensa cada idiotice.
— Agora está me chamando de idiota… — murmurou inconformado.
Pedindo calma e paciência aos céus, Gaara baixa o rosto, dando um selinho rápido nos lábios dele.
— Tem a menor ideia do perigo a que nos expomos andando por aí como um casal? Tem pessoas que saem armadas, prontas para matar casais como nós.
Ainda surpreso pelo beijo, Menma o encarou já bem menos zangado.
— E vai deixar essas pessoas controlarem sua vida e sua felicidade?
— Claro que não, até porque não preciso provar nada para ninguém. Não preciso sair hasteando uma bandeira de causa gay. Você é meu namorado e estamos juntos. Gosto de você mais do que já pensei que gostaria de alguém. Olhar no seu rosto já me faz querer suspirar. Você saber disso é suficiente para mim — acariciou as marcas de bigodes nas bochechas — Na empresa eu tenho uma posição para manter, liderados que precisam de ordem. Não me peça para gritar que estamos juntos, porque não farei isso. Tenho meu próprio espaço.
Menma estava de certa forma comovido, tanto que nem ouviu a última parte.
— Diz isso de novo! A parte sobre gostar de mim!
— Lá vem você! — corou e desviou o olhar, furioso.
— Não, sério! Repete. Foi lindo! Eu quero gravar isso na minha cabeça para aguentar a sua chatice e grosseria costumeiras!
— Eu não sou grosso — desviou o olhar, retrucando mais para si mesmo do que para o outro.
— Dorme na minha casa então?
— Como exatamente uma coisa tem a ver com a outra?
— Não tem… Ah cara, eu quero ficar mais tempo com você, bem juntinho sabe? Até não saber onde começa você e onde eu termino. Quero dormir sentindo seu cheiro e acordar vendo sua cara amassada, descobrir se você ronca ou fala enquanto dorme. Isso é algo que pessoas apaixonadas fazem, Gaara! Eu sinto sua falta o tempo inteiro e ultimamente só nos vemos de vez em quando!
Parte dele sentiu vergonha, desconcerto e raiva. A outra sentia-se do mesmo modo que aquele raposo estúpido, e foi essa que se sobressaiu. Segurou-lhe a mão.
— Vem para a minha casa então. Na verdade… Eu já queria te chamar antes.
Menma ainda estava impactado demais para falar qualquer coisa e só assentiu, mais feliz do que nunca.
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— Licença! — disse alto e barulhento, tirando os sapatos. Gaara não pode deixar de notar como os pés dele eram fofos e pequenos, as meias muito brancas e limpas o surpreenderam. Certamente eram novas. Menma não parecia o tipo que lavava bem as roupas, e sim o tipo que misturaria coloridas e brancas até manchar tudo.
— Quer beber alguma coisa? Ou está com fome?
— Não, a gente pede pizza mais tarde. Eu quero um filme, sofá e você — sorriu escancarado, aquele sorriso debochado de raposa.
Gaara suspirou fazendo sinal para ele segui-lo até a sala.
— Me pergunto porque isso é tão divertido para você — mal acabou de ligar a tv foi puxado, caindo sentado no sofá, entre as pernas do outro. Estava pronto a xingá-lo, mas teve a boca calada por um beijo.
A posição era incômoda, seu pescoço doía por estar virado num ângulo estranho e precisava puxar o ar com maior dificuldade.
Mas era bom. Menma tinha a estranha habilidade de fazê-lo sentir seguro e em paz, só de abraçá-lo. Queria saber como exatamente ele conseguia fazer isso.
Precisou endireitar o pescoço para respirar e engolir ou passaria dessa para melhor. Separou a boca da dele, puxando o ar e o encarando de volta. O rosto fofo de Menma encostou no seu, bochecha na bochecha, amassando a sua igual um gato. O mau humor de Gaara voltou e poderia retrucar umas verdades, mas pensou no que ele lhe disse antes.
De fato, talvez estivesse sendo um tantinho chato e resistente. Isso porque Menma tinha uma visão simplista da vida, nunca passou por grandes apuros ou grandes problemas. Não possuía traumas e tristezas grandiosas, provavelmente nunca enterrou ninguém importante…
Encolheu-se no colo, cruzando os braços para segurar nos dele. Os dedos tateavam o contorno dos músculos. Ele era bem forte.
— Menma?
— Hm? — esfregava o queixo no topo nos cabelos espetados.
— Você se sente sozinho durante a noite?
O Uzumaki não entendeu muito bem a frase, mas estava grato que ele iniciasse um diálogo por si mesmo, então só o abraçou mais forte.
— Minha mãe não pára em casa, é muito jovem e bonita e fica arrumando pra minha cabeça — riu — Acho que ela está certa, já cuidou de mim e tem mais que passear mesmo. Então eu meio que gosto de ter a casa só para mim.
Gaara entendeu, mas não partilhava do mesmo sentimento. Olhou distraidamente para um programa qualquer na tv, baixo demais para entenderem de que se tratava.
— Eu sinto falta dos meus irmãos. Também sinto do tio que me criou. Quando a tarde vai caindo eu costumo arrumar mais trabalho a fazer, para não precisar voltar para casa. O silêncio desse lugar me incomoda.
— Faz tempo que você mora sozinho?
— Pode se dizer que sim, mas eu nunca me acostumo. Pergunto-me se o problema sou eu.
O raposo separava os cabelos ruivos espetados percebendo que, mesmo que tentasse colocá-los em outra posição, eles voltavam teimosamente. Entendeu porque pareciam sempre tão despenteados e rebeldes.
— É por isso que você não consegue dormir? Porque se sente sozinho?
— Como sabe que eu não consigo dormir? — indagou com um explícito mau humor na voz.
— Olhe para seu próprio rosto, coração. Tem olheiras como as manchas de um urso panda!
Ele praguejou em resposta.
— Pois me desculpe por ter insônia e parecer um panda!
— Beber menos café ajuda. Evitar preocupações antes de deitar também. Ficar pensando demais não te deixa relaxar.
— Fácil pra você falar.
— E… — moveu o rosto dele para olhar nos olhos verdes — Se está se sentindo sozinho então não tem porque ficar aqui enfrentando isso. Venha para minha casa. Eu sempre vou te acolher não importa a hora que você chegar.
Ficou um tempo olhando o fundos dos olhos azuis, acompanhando-o piscar.
— Não vou morar com você, Menma. Tem essa mania irritante de atropelar as coisas.
— Eu NÃO estou falando pra vir morar comigo, caramba! Estou dizendo que você pode vir dormir em minha casa quando estiver se sentindo sozinho, ou se simplesmente quiser companhia. Sabe, estamos juntos para isso, para ajudar um ao outro.
A frase mexeu bastante com o rapaz de cabelos vermelhos. Estava acostumado a fazer tudo sozinho, a nunca depender de ninguém e tampouco fraquejar. Ter alguém que estende a mão sem pedir nada em troca era algo fora de lógica.
Mas também algo que certamente faria por ele, então conseguia compreender o que estava fazendo.
Ficou um tempo olhando para aquele rosto, perguntando como alguém podia lhe fazer tão feliz. Desde que o conheceu havia se tornado uma pessoa melhor em absolutamente tudo. Menma tinha a habilidade quase mágica de afastar seus medos, diminuir as preocupações, dar forças para resolver os problemas.
—... Não sei em que eu poderia ajudar você. Me ajuda tanto que nem deve fazer ideia.
— Estando comigo já me faz muito feliz, coração.
A vontade de esbravejar de raiva voltou, mas Gaara bravamente respirou fundo, muito mesmo, e contou mentalmente até dez.
— É a segunda vez que você me chama de “coração”.
— Não é lindo??? — apertou-o mais no abraço — É porque combina com você e todo o amorzinho que sinto!
“Ok, não o mate, não bata nele. Só respire e se acalme, respire e se acalme!!!!”- pensou de novo e então abriu os olhos, verdadeiramente já mais calmo.
— Não pode me chamar de outra coisa?
— Que tal momozinho?
— Ok, coração está ótimo — fez um sinal de rendição.
— Vai me dar um apelido fofo também? — beijava demoradamente seu rosto.
— Não sou bom com essas coisas, sabe disso.
— Ah pelo menos tenta, vai! Em que você pensa quando olha pra mim?
Ele achou muito prudente não responder a primeira coisa que veio à cabeça.
Observou calmamente o rosto dele, um rosto estúpido e idiota que o fazia sentir tão bem. O que sentia quando olhava para Menma? Uma soma de amor que nem achou ser capaz de sentir por alguém. Quando estava com ele desejava viver, se apegar à vida…
Abriu bem os olhos verdes, surpreso consigo mesmo.
—... Minha vida… — respondeu mais para si mesmo do que para ele, dando-se conta pela primeira vez.
Quando desistiu de querer viver quem lhe trouxe o sentimento de volta foi ele. Menma lhe devolveu o desejo de continuar.
Era o mesmo que dizer que ele havia devolvido a própria vida.
Gaara sentiu-se muito satisfeito com isso. Era tudo que mais precisava naquele momento.
Volveu o rosto para cima mas sentiu Menma apertá-lo forte. Suspirou, acariciando os cabelos negros.
— Isso te deixou bem feliz, não é?
— Nem sabe o quanto!!!
— E por acaso ainda tinha dúvidas do quanto gosto de você, Menma?
— Não, eu sempre soube. Mas te ouvir dizer e me deixar ficar por perto é outra coisa. Faz tudo valer à pena.
Ele pensou nisso por alguns segundos.
— Então… Nos dias em que eu vier para casa cedo… Pode vir para cá. Isso se quiser, é claro — corou mais e escondeu o rosto no braço dele, fechando os olhos quando sentiu o perfume impregnado na pele — Eu vou fazer uma cópia da chave amanhã. Não precisa chamar, nem bater. Pode simplesmente entrar.
O silêncio repentino pareceu estranho. Gaara esperava que ele surtasse de alegria como usualmente fazia. Ao erguer novamente o rosto foi surpreendido por algo que caiu diretamente dentro do olho. Lágrimas que não lhe pertenciam.
Suspirou e endireitou o corpo, ficando de joelhos, de frente para aquele raposo chorão.
— Por que está chorando agora? — embora sua voz fosse impaciente Gaara secava seu rosto com a manga da blusa.
— E você ainda me pergunta? Eu não sei explicar como estou feliz! — fungou forte e acabou com o nariz vermelho por causa disso, coisa que fez o Sabaaku rir.
— Devo ter recebido um presente. É muita sorte ter alguém chorando de alegria só porque disse que pode vir me visitar.
— Isso significa muito para mim! Muito mesmo! Abrir sua casa para mim desse jeito significa que confia em mim!!!!
Gaara ficou sério e subitamente nervoso. Segurou as mãos dele entre as suas, geladas e úmidas porque secava o rosto segundos atrás. Olhava as unhas curtas, passando o dedo entre as que pareciam quebradas. Um desejo súbito de lixá-las para deixar certinhas.
—... Óbvio que confio em você — puxou uma pelinha irritante do canto da unha dele — Nunca conheci alguém disposto a tanto por mim. Nunca soube dar ou receber amor de ninguém porque não sei bem o que é ter uma família.
— Acho que recebeu amor de sobra dos seus irmãos, pela forma como fala deles. Sei que recebeu de sua mãe também.
Ele expirou bem forte, virando o rosto para o lado.
— Até conhecer você eu nunca havia conseguido falar sobre a minha mãe, ou lembrar do dia em que meu pai tentou me matar. Isso parecia engasgado dentro de mim. Agora que penso com calma não encontro a culpa que achava sentir. É como se um alívio súbito tivesse tirado todo o peso das minhas costas.
— Isso porque você não fez nada de errado — espalmou a mão na bochecha macia. Gaara ergueu o olhar em resposta.
— Tenho medo de ficar dependente desse sentimento, Menma. De me acostumar a me sentir bem quando você está por perto e não saber lidar quando você for embora.
O raposo riu, soltando o ar pelo nariz. Apertou aquele ruivo resmungão entre os braços até quase esmagá-lo.
— Vamos trabalhar isso. Você deve ser sua melhor companhia. Quando entender isso, ficará bem mesmo sem mim. E quando me quiser por perto eu estarei aqui. Não precisa ter medo de me perder.
A frase pareceu exatamente o que ele precisava escutar. Para uma pessoa ansiosa, cheia de medos inexplicáveis, sentir segurança é tudo que mais se preza.
Os olhos de Gaara tremeram e ele fitou o rosto do namorado com uma ternura que não achava ser capaz de sentir.
— Eu nunca poderia te explicar os medos bobos que eu tenho, o horror de ver o dia amanhecer sem ter dormido um segundo sequer, o medo do futuro que me deixa paralisado e sem vontade de fazer nada, nem mesmo levantar da cama… — passou o dedo pelo queixo dele, sentindo o osso sob a pele, a barba nascendo. Menma era lindo, muito mesmo. E não dizia só na aparência física. Ele era uma pessoa linda, por dentro. Cheio de uma jovialidade e confiança invejáveis — Estou feliz por ter me apaixonado por você. É uma pessoa incrível, sabia?
— Claro que eu sabia, você é um cara de sorte — riu mostrando bem aqueles dentes perfeitos — Não acho que seus medos sejam sem sentido. Eles são seus, só você sabe pelo que passa. Mas joga metade disso pra cima de mim, beleza? É bem mais fácil lidar com problemas quando você os divide. Vamos cuidar de você para conseguir dormir, para lidar com o estresse e ansiedade que tão sufocando você. A começar… — cutucou o espaço entre as inexistentes sobrancelhas — Pare de franzir a testa e relaxe. Quando ficar irritado tente não explodir.
Normalmente retrucava em resposta. Dessa vez ele somente concordou, porque estava de fato cansado.
— Ok… — murmurou de volta e então sorriu — Obrigado, “minha vida” — ironizou.
— Ao seu dispor, coração — beijou demoradamente o topo da cabeça.
— Se importaria em ficar aqui comigo esta noite?
— Não me importaria de ficar nem se fosse para sempre — gargalhou.
— Estou falando sério — apertou o nariz dele com um pouco mais de força do que deveria — E sinto te desapontar, eu só quero dormir hoje. Não quero fazer nada demais.
— Eu não penso em sexo o tempo toda, tá bom? Confesso que olhar você me deixa quente porque tu é um baita homão e não sei se sabe que fica lindo com essas blusas escuras e essa sua cara de rebelde sem causa, e só de te olhar eu já tenho vontade de te morder inteiro, contudo… — respirou antes de continuar e sorriu — Eu te amo, Gaara. Não amo só seu corpo, entende a diferença? Ficar junto, conversar, te fazer bem, isso tudo é um complemento.
Ele compreendia perfeitamente. E não só isso, também se sentia dessa forma.
Naquela noite, ao dividir o espaço de sua cama, de sua privacidade, Gaara se sentiu plenamente feliz. E satisfeito. Menma somente o abraçou por trás, ficou acordado o máximo que conseguiu até capotar de sono, coisa que fez o Sabaaku rir.
Sentir que não estava sozinho, que poderia demonstrar fraqueza sem ser tido como incapaz, isso tudo o permitiu relaxar um pouco. Fechou os olhos e aspirou o cheiro forte e gostoso do raposo, ouviu sua respiração calma e pausada, segurou a mão dele que estava sobre sua barriga.
E pela primeira vez em muito tempo consegue dormir algumas horas. Ainda acordava de tempos em tempos, mas conseguia pegar no sono outra vez. Ao menos quando acordou, não sentiu a dor e desolação que o fazia querer ficar na cama, ou findar a própria vida. Sentiu que queria viver, para descobrir o que o dia seguinte reservava para ele.
Para eles dois.
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Deidara estava saindo do prédio da universidade, conversando com alguns de seus alunos, aquela mesma conversa chata de “professor preciso de ponto! Me passa um trabalho!”. Torceu o bico e já ia mandar eles voltarem para casa para estudar.
Mas, ao fitar a saída do campus achou algo estranho, no mínimo incomum. Terminou a conversa rapidamente e até cedeu passar um trabalho extra valendo um ponto, nada mais, e não ficou lá para ouvir os resmungos porque começou a ficar preocupado. Seguiu casualmente pela entrada da universidade ao perceber dois carros escuros parados na saída. Perto deles, homens em roupas formais, pareciam seguranças.
E o que mais o irritava: eram homens de pele muito clara e cabelos negros e lisos.
—... Uchihas… — murmurou entredentes.
Talvez fosse coincidência, mas achou seriamente que não. Seu sexto sentido nunca falhava para essas coisas.
Imediatamente ele voltou para o interior do prédio, atento às pessoas que saíam. Sabia muito bem que era o fim de período de Sasori e por esse motivo, correu em direção à sala de aula dele.
Ficou aliviado ao vê-lo preso na sala, conversando com um grupo de alunos que rodeavam sua mesa, aparentemente tirando dúvidas. Nunca ficou tão grato na vida por alunos fazendo perguntas após o fim da aula.
Ao vê-lo ali parado, Sasori faz sinal para ele entrar.
— Eu espero aqui. Terminem logo porque eu preciso roubá-lo só para mim — riu e brincou, dando uma piscadinha. As meninas riram imediatamente.
— Ai professor, por favor. Ele é casado.
— Que bobagem, temos um caso extraconjugal a três — Deidara continuava destilando veneno e uma cara profunda de desgosto se estampou na face de Sasori.
— É o que me faltava nessa altura da minha vida ter um caso logo com você! Eu devo estar criando muito mau gosto mesmo.
— Olha, isso me ofendeu profundamente e vou ali chorar no cantinho enquanto vocês terminam. Dá para ser breve, por favor? Estão estragando nossa noite romântica, meninos! Eu comprei um fio dental só pra isso.
— Deidara!!!
As risadas subiram altas no ar, já estavam acostumados com o modo que Deidara adorava irritar e fazer Sasori passar vergonha. Quem tinha aulas com um deles até esperava por isso, era parte da diversão.
Passados alguns minutos os alunos deixaram a sala de aula despedindo-se de Deidara e seguindo pelo corredor. O rapaz esperou Sasori arrumar suas coisas e trancar a sala.
— Sei que não veio aqui só me fazer passar vergonha.
— Hoje não. E te informo que vai ficar aqui até mais tarde me fazendo companhia.
— Sinto muito, eu não posso. Preciso voltar para casa.
— Não foi um pedido — olhou seriamente e isso fez Sasori prestar mais atenção na conversa. Vê-lo sério era sempre preocupante.
— O que aconteceu?
— Tem Uchihas parados na porta de saída da universidade — explicou sem fazer rodeios e percebeu quando o maxilar dele se contraiu — Queria saber se tem ideia do motivo.
— Tem certeza que eram Uchihas?
— Não quis pagar pra ver, mas pensa: quem mais colocaria seguranças de maneira tão extravagante parados ali em plena luz do dia? Ninguém além daquela vadia também conhecida como patriarca.
Sasori imediatamente ficou nervoso, seguindo até uma das janelas. Estava longe demais para ver com clareza os rostos das pessoas, mas aqueles carros escuros e o modo como estavam parados o deixava nervoso. Percebeu quando Deidara caminhou até ficar a seu lado.
— Tem alguma razão em especial para Madara estar de olho em você? Algo que não me contou?
Imediatamente Sasori se voltou a ele, ligeiramente nervoso.
— Vem tomar um café comigo? É muita coisa para contar de uma vez só.
Deidara enfiou as mãos no bolso.
— Agradeça eu ainda ter a paciência de te escutar — resmungou e seguiu o outro até a área de alimentação
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Ao final da explicação, Sasori girava a xícara de café sobre o pires. Batia o pé nervosamente contra o chão.
Deidara ficou em silêncio enquanto ouvia toda a conversa. Recostou na cadeira, terminando de tomar a coca na lata. Olhou para as mesas, alguns jovens sentados lendo, estudando, conversando.
Volveu então o olhar ao homem nervoso à sua frente, tão acuado como se tivesse sido pego fazendo algo muito errado.
Respirou fundo, pondo a franja loira detrás da orelha.
— Relaxa porque eu não vou brigar com você.
— Deveria. Eu pareço correr atrás de problemas — suspirou dolorosamente e fechou os olhos — Deidara, você entende o que estou fazendo? Rin é uma criança renegada pelo clã Uchiha. Um clã perigoso e sem escrúpulos liderado por um homem maníaco e doente! Eu sei que estou me expondo ao perigo cuidando dela, mas… Eu não consigo deixá-la ir embora.
— Madara nunca vai te deixar ficar com ela. É uma pena, Saso, mas você vai ter que se separar dessa menina.
— Eu sei disso — apertou os dedos na xícara, o café dentro dela começando a ficar morno — Sei disso mas não consigo evitar, nem deixá-la ir. Rin está sozinha no mundo, e não tem culpa. É uma boa menina, está deprimida, sabe que ninguém a quer e nem ao menos entende o motivo. Acha que é culpa dela. Como poderia ser culpa de uma criança tão linda quanto aquela?
Deidara se equilibrou nos pés detrás da cadeira, totalmente absorto.
— Saso, você já pensou que pode ter criado sentimentos pela Rin pelo que aconteceu com a Aiko?
— Já. E sei que deve ser por isso. Talvez se outra criança tivesse aparecido naquele dia eu tivesse me ligado a ela da mesma forma. Seja como for, foi a Rin que apareceu. Ela escolheu cuidar de mim, e de Itachi.
— Isso sim me surpreendeu. Ela é pequena ainda, mas fica carregando o Ita para cima e para baixo.
— É porque Rin entende que Itachi precisa dela. Como eu poderia deixar uma criança dessas ir embora? Como vou dizer que não posso ficar ela?
— Seja como for a família vem buscá-la, certo? E não há dúvidas que aqueles homens lá fora estão te esperando, Sasori. Para tirar satisfações, saber por que está abrigando ela na sua casa. Ou somente para lhe dar um aviso. Você está se colocando em perigo, e pondo a Rin no meio disso tudo. Ainda que seja triste deixá-la ir ao menos ela terá liberdade. Não pode criar uma criança escondida dentro de casa. Ela precisa sair e conhecer o mundo.
Embora odiasse concordar, Deidara estava absolutamente certo.
—... E como faço para dizer isso pra mim mesmo? Eu sei que é a coisa certa a se fazer.
O rapaz de cabelos loiros suspirou. Deu algumas palmadas no ombro do outro.
— Se eu pudesse fazer alguma coisa para as coisas darem certo para você eu realmente faria, cara. Você não fez mal para ninguém, nem fez nada de errado. Só quer ficar com o Ita e vocês são o casal mais fodasticamente perfeito que já vi! Vocês nasceram para estar juntos e me deixa louco que o filho da mãe do Madara queira separar e torturar vocês dois!
— É algo que estava ciente desde o momento em que comecei a namorar Itachi, eu sabia que minha vida seria assim. Eu escolhi isso. O que me preocupa de verdade é o que vai acontecer com a Rin. Eu não posso deixar que me tirem ela. Nem acho que posso suportar isso.
— Por hora o melhor que temos a fazer é esperar eles irem embora. Se continuarem ali plantados você vem para casa comigo. Não vou te deixar sozinho pra essa gente louca te pegar.
— Obrigado, Deidara. Eu não sei o que faria se não estivesse comigo. Sinto que minha cabeça vai explodir.
— No dia que você engravidar me deixa ser padrinho, assim me agradece. Eu vou ficar muito convencido — piscou, fazendo-o rir um pouco — Imagina ter um molequinho ruivo no meu pé me chamando de tio?
— Pode pensar em ter os seus agora.
— Mas nem em sonho! Eu não quero nem saber de filho, melhor mimar o dos outros porque quando chorar é só dar ele pra você.
Sasori riu, mas era um riso triste.
— Eu adoraria. Sabe, estou me esforçando tanto… Mas meu bebê não chega.
— Ei — cortou-o e baixou o rosto para poder encará-lo, mas Sasori fugiu, respirando profundamente para não começar a chorar — Você vai ter o seu filho, entendeu? Um que nasça de dentro de você. Independente do que vai acontecer com a menina, você vai ter o seu filho. Não dá pra desistir agora, certo?
Ele fez que sim, fungando ruidosamente e secando o rosto até que este ficasse vermelho. Se recompôs como pode e já pensava em levantar quando o outro ficou de pé da frente de sua cadeira, e puxou seu rosto contra a barriga num estranho abraço que cobria somente a cabeça.
— Deidara?! — tentou se soltar porque estava envergonhado mas ouviu uma risada alta em resposta.
— Quando você tiver bem pra sair daí me dá uns tapas e levanta. Ninguém vai te ver chorar daqui, relaxa.
Internamente, Sasori tornou a ruir e aceitou de muito bom grado. Há tempos que só o que sabia fazer era guardar a vontade de chorar de frustração.
Mas quando deixava o choro sair a sensação de alívio era libertadora.
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Postou os olhos na mulher patética sentada ali. Pequena, débil e indefesa. Seu primeiro instinto era o de assustá-la para fazê-la chorar, mas planejava algo muito mais interessante.
Sentou-se elegantemente diante da moça de cabelos cor de rosa, sem deixar de notar os hematomas que cobriam a pele e que ela bravamente tentou cobrir com maquiagem.
— Parece estar passando tempos difíceis com Hikaku — debochou, cruzando a perna e apoiando o queixo em uma das mãos. Sakura estreitou o olhar, louca de raiva.
— Quanto tempo pretendia me deixar esperando??? — disparou o que esteve preso na garganta todo aquele tempo — Eu aceitei o casamento porque queria ficar perto da casa sede! Tínhamos um acordo! E nunca foi atendida!
— Eu lhe dei o que tanto queria, não? Está casada com um bom Uchiha e inserida no clã. O que mais a senhorita quer?
— Eu deixei muito claro que quero me vingar de Naruto e de Sasuke por tudo que me fizeram! Mas nunca tive oportunidade alguma para isso!
— É porque a senhorita parecia ser útil, mas confesso que não se mostrou capaz de atender minhas expectativas. Eu jamais confiaria tal vingança às suas mãos.
— Não seja ridículo! Eu posso fazer isso, eu tenho um ódio que me move e ele é muito maior que tudo!
— E seria capaz de matar alguém em nome do seu ódio? — girou as íris, atento ao menor movimento que fosse. Percebeu-a franzir a testa enorme e gaguejar.
— Não sabe que já dei à Naruto um remédio para provocar aborto?
— Comovente. Mas estou falando de justiça com suas próprias mãos. Diz que está disposta a tudo por vingança, mas não está falando sério. E isso representa um empecilho para mim. Não deve se meter no que não lhe diz respeito.
Sakura abriu a boca para retrucar, mas se deteve. Quando falou já parecia bem mais calma.
— Me acha incapaz de matar Naruto e Sasuke?
— Acho, certamente. E estou apenas lhe dando um aviso. Seu marido Hikaku é um adepto convicto de autodefesa e por conta disso mantém armas e munição em casa. Eu odiaria se a senhorita fosse movida por sua vingança tola e decidisse interferir no que já planejei para meu neto e o moleque loiro.
— Dê-me uma oportunidade e mostrarei que pode confiar em mim, mais do que imagina! — enfatizou, muito determinada. Não havia no mundo uma pessoa que quisesse mais a morte de Naruto do que ela!
— Uma oportunidade?
— Diga-me um lugar onde posso encontrar Naruto para emboscá-lo! Eu me encarrego do restante.
— De fato estou surpreso com sua falta de tato. Acaso não sabe que Naruto está no nono mês de gestação? É comum aos compatíveis nessa época visitar a clínica em que fizeram o pré-natal, e essas visitas são frequentes. Se levar em consideração os horários de trabalho da pessoa que o escolta, eu diria que ele deve se consultar às quintas pela manhã na companhia do pai.
Diante do olhar surpreso dela o Uchiha rolou os olhos para cima demonstrando total impaciência.
— Isso é o mínimo de informação necessária sobre alguém que você observa de perto. E para ser bem enfático, senhorita, eu vou pedir encarecidamente que saia de meu caminho e não me atrapalhe.
— Foi para isso que me chamou na casa sede? Para me dizer que estou descartada, mas na realidade me dando a localização de Naruto e uma forma de eliminá-lo?
— Obviamente que não. Eu nunca confiaria tal incubência a uma jovenzinha ordinária como você.
Sakura fitou o patriarca intensamente por um longo tempo, demorando-se nos contornos do maxilar largo.
O que aquele homem tinha de lindo, em contrapartida tinha também de arrogante e desprezível. Ainda assim imaginou como seria dividir a mesma cama, como seria passar a noite com ele. Seria do tipo que a amarraria? Açoitaria? Ele não se enquadrava em nenhum fetiche e de longe não parecia adepto de nenhuma prática. Dava para perceber no fundo daqueles olhos frios e sem vida que Madara simplesmente não nutria empatia por outras pessoas e faria de tudo para feri-las.
— Me pergunto o motivo de você odiar tanto os compatíveis, Madara. Eu não me admiraria se você mesmo fosse um.
O olhar dele se tornou perigosamente rubro e um sorriso macabro se estampou no rosto fazendo-a tremer, sem saber se de medo ou de excitação.
— Talvez eu seja, senhorita. De fato pode ser que eu tenha gerado uma criança e a tenha abortado, contra a minha vontade. Isso justificaria o ódio que sinto por compatíveis e o motivo de impedir que tal desgraça chegue ao meu clã. Imagine o quanto eu posso ter sofrido vendo uma criança que nasceu de dentro de mim ser feita em pedacinhos na minha frente, ainda viva.
Sakura ficou petrificada, sem saber o que fazer ou dizer mas soube que aquele olhar a deixou horrorizada! Ela queria sair dali, fugir de perto dele. Para sua surpresa ele gargalhou alto, a voz grave e melodiosa ecoando pela sala.
— Se assusta com uma mentira tola como essa. Isso só prova que não está pronta. Agora se me der licença eu realmente não disponho de mais tempo ou paciência para falar com a senhorita. Sabe o caminho da saída.
Sakura o encarou profundamente, a raiva fervendo dentro de si. Ergueu-se mas não deixou o cômodo antes de olhá-lo por cima do ombro.
— Não controla minha vida como pensa e nem vou me dobrar às suas vontades, Madara.
— Deveria, para sua própria segurança — advertiu, com aquele sorriso gelado.
Ela não respondeu e deixou o cômodo, afastando-se depressa.
A visita não foi uma perda total. Ao menos sabia onde encontrar Naruto, e onde conseguir uma arma. Se Hikaku de fato mantinha armas em casa certamente estavam no cofre, e já havia visto o local em que ele escondia as chaves.
Um sorriso de triunfo encheu seus lábios. Provaria à Madara que era muito mais corajosa do que ele imaginava.
Mataria Naruto com suas próprias mãos!
O patriarca por sua vez, ao ser deixado sozinho, somente fez um lembrete mental de que precisava ter uma conversa com Hikaku.
Uma conversa muito importante.
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Não esperava encontrá-lo ali, mas a verdade é que quando bateu os olhos nele ficou imensamente feliz. A sorte parecia sorrir para si, finalmente.
Sakura se dirigiu à sala de espera no interior do hospital psiquiátrico em que Karin estava internada. Pretendia apenas tomar água mas seus planos mudaram totalmente ao ver o pai de Karin sentado junto a uma das mesas, sozinho, absorto nos próprios pensamentos. Julgou que aquela era a chance perfeita para ter uma conversa que planejava há tempos.
Seguiu até a mesa e sentou-se diante daquele homem que pareceu confuso por um instante. Observou bem a jovem de cabelos rosados, achando-a encantadora.
Sakura não mudou de expressão porque aquele homem não lhe passava nenhum tipo de sentimento, era uma presença neutra.
— O que deseja, senhorita?
— Creio que não se lembra de mim embora tenhamos muito em comum. Sou Sakura, ex secretária de Sasuke na Uchiha Co e ex noiva de Naruto Uzumaki, o homem com quem Sasuke traiu a sua filha todo esse tempo — disparou sem rodeios.
Ele pareceu imensamente surpreso e gotas de suor se formaram na careca lustrosa.
— Você é quem mostrou ao patriarca aquelas fotos de Sasuke traindo minha filha???
— Sim. Conseguir esse tipo de informação nunca foi difícil.
— Sei quem é, me lembro de ter ouvido a história de seu casamento frustrado.
A jovem respirou fundo para não responder à altura. Ele não percebeu e continuou.
— Então, qual sua relação com o patriarca? Porque para uma mulher de fora, casada com um Uchiha que nem é de terceira geração, e mesmo assim conseguiu falar com o patriarca pessoalmente, a senhorita deve ser alguém muito próxima.
— Na realidade não — suspirou amargamente — Nutro muito ódio pelo neto de Madara. Tanto Sasuke quanto Naruto me traíram e ludibriaram. Consegui ingressar no clã Uchiha em troca de informações que Madara queria.
— Eu sou realmente grato, na época em que decidimos sobre o casamento de Karin e Sasuke os termos pareciam bastante convenientes. Um empréstimo aos Uchiha em troca de um filho com boa linhagem para Karin. E um bom casamento, ainda que por tempo determinado. Sabíamos que o patriarca não permitiria mais do que 2 anos afinal Karin é alguém de fora do clã Uchiha, mas nos pareceu suficiente para forjar a felicidade dela. Até tínhamos esperanças que ela de fato conquistasse Sasuke dado todo o amor que sempre sentiu por ele. Mesmo se o casamento findasse tínhamos a esperança de que o filho lhe fizesse companhia. Sabe, Karin sempre pareceu um tanto… Obstinada.
— O senhor quer dizer “doente” — corrigiu-o sem a menor simpatia, mas nem o homem conseguiu negar.
— De fato minha filha passou a vida toda obcecada por Sasuke, nunca aceitou outra pessoa e achamos que a melhor forma de protegê-la era lhe dando exatamente o que queria. Para nossa surpresa tão desagradável, Sasuke se mostrou o pior tipo de marido que pode existir. Eu creio que ele não sabe o que seja amar uma boa mulher e formar uma família. É apenas um pirralho mimado que faz o que bem entende.
— O senhor não o conhece — desviou o olhar ao enfeite de mesa, passando as unhas nas pétalas de flores que caíram do vasinho — Sasuke é muito pior do que tudo o que me disse. Ele é incapaz de fazer alguém feliz.
— E não bastando tudo que fez, começa a namorar outro homem, compatível para piorar, e estando ainda casado com minha filha! Nesses últimos dias veio com uma conversa estapafúrdia sobre separação!
— É porque Sasuke não se importa com ninguém. Posso afirmar já que era eu quem encobria os encontros que ele teve logo que se casou com sua filha — assistiu de maneira divertida o rosto gordo do homem diante de si ficar vermelho de raiva.
— Que infelicidade para a minha filha se casar com um homem tão vulgar, capaz de trocar uma linda jovem de bem por uma relação escandalosa com um compatível! Sabe, quando o irmão dele estava doente nós o acolhemos em nosso hospital, demos o melhor tratamento possível durante os anos em que esteve em coma.
Sakura conhecia muito bem essa parte da história e se esforçou muito para não gargalhar. O homem era estúpido ou estava se fazendo? Foi Karin e o próprio Madara que mantiveram Itachi em coma, para com isso pressionar Sasuke e manter o casamento dele com Karin, deixá-lo dependente financeiramente. Todavia ela fingiu acreditar, sabendo muito bem que o homem diante de si foi um dos responsáveis pelo coma induzido de Itachi.
— O senhor é um homem muito bondoso — esboçou seu melhor sorriso de compaixão enquanto o via sorrir sem graça.
— Oh, não. Esta é a conduta de qualquer pessoa que lida com as preciosas vidas de outras pessoas.
— Naturalmente…
— Sasuke está quebrando sua parte no contrato e Madara nem parece se importar com isso! Chega até mesmo a debochar de nós. Claro, uma vez que a Uchiha Co está reerguida não seria difícil nos pagar uma indenização, mas pior que isso, os advogados alegam que minha filha está louca e como tal não tem condições de gerar um filho saudável!
Sakura teve vontade ainda maior de rir, mas disfarçou coçando o nariz.
“É claro que aquela vadia está louca, seu porco imprestável!” — debochou em mente e precisou se concentrar para manter a pose séria.
— Madara sempre consegue tudo o que quer, senhor. Não me admira que o tenha enganado. Ele é assim. De fato fui iludida por suas promessas também.
— Não pretendo deixar nada disso dessa forma, não quando estão nos fazendo de bobos! Sasuke precisa pagar pelo que fez! Quero encontrar esse rapaz compatível, esse maldito sem vergonha que roubou o marido de minha filha! E vou fazê-lo pagar.
— Vai matá-lo? — perguntou sem a menor emoção na voz.
O homem empalideceu de pronto.
— Por Deus, não! — secou o suor da careca com um lenço.
— O senhor fala de vingança, mas não parece realmente disposto a tal. Pense bem: não seria difícil com seus contatos subornar um médico que provocasse a morte de Naruto durante o parto. Com um pouco de sorte conseguimos também matar os gêmeos. Ninguém jamais suspeitaria de absolutamente nada, seria uma fatalidade dado o risco do parto de gêmeos de um compatível.
O homem respirou profundamente, muito alterado com o rumo daquela conversa.
— É verdade que tenho contatos médicos, não seria nada difícil encobrir uma morte na própria mesa de cirurgia, mas manchar minhas mãos não vai resolver nada! — encerrou a discussão fitando Sakura nos olhos — Minha filha sofreu muito por culpa de Sasuke, e a culpa é minha por ceder aos seus caprichos. O que mais quero agora é livrá-la desse tormento. O que quero é que Sasuke nos pague uma indenização realmente alta! Um valor à altura de todo o dano que nos causou!
Uma expressão de ódio se estampou definitivamente no rosto de Sakura. Ela compreendeu o que Madara dizia acerca de vingança.
Pessoas são tão patéticas! Falam sobre ódio tão levianamente, mas quando têm a chance de fazer algo se acovardam!
Ela não, Sakura era diferente. Não fazia seu tipo ficar sentada esperando por uma chance caída do céu. Criaria sua própria oportunidade de se vingar. Estava cansada de esperar.
Levantou-se sem delongas.
— Creio que o senhor é livre para tomar a decisão que mais lhe agrada. Vou visitar Karin antes de ir embora. Com sua licença — tendo dito isso deu-lhe as costas, seguindo ao quarto em que Karin estava internada, sem olhar para trás.
Ao chegar no andar em que ela estava pediu por informações, mas tal como imaginava não era possível receber visitas, de modo que apenas ficou parada diante da porta do quarto, fitando o interior através da janela de vidro.
Karin parecia sedada, torpe e confusa, mas olhou para a porta, fixamente. Não era possível ouvir o que ela dizia, mas parecia estar pedindo desesperadamente que Sakura entrasse. Esta sorriu com uma maldade explícita, sem se mover. Assistiu Karin se debater, presa naquela cama, amarrada como a louca que realmente era, enquanto pensava em como faria para se vingar.
“Mal sabe que vou destruir a felicidade daquele que você tanto ama, Karin. E desta vez é minha última cartada. Ou Naruto morre ou eu morro tentando!”.
—-
Aquela deveria ser uma manhã como qualquer outra. Deveria, porque no instante em que Sasori atendeu à campainha na porta de sua casa o mundo inteiro pareceu desabar em sua cabeça.
Ainda não era hora, não era o dia certo, então... Por quê?
Os tios de Rin estavam ali parados, dizendo que haviam antecipado a viagem para buscar a menina.
Sasori quis gritar e correr ao ver aquelas pessoas paradas à porta de sua casa. Quis exigir que fossem embora, que voltassem para o lugar de onde vieram!
Por que tão depressa? Haviam dito somente semana que vem!
Ficou tão confuso que precisou se escorar na parede e respirar fundo, confuso demais, irritado demais, com medo demais…
Eles iam levá-la. Iam tirar Rin dele!
— Você está bem? — a voz com sotaque forte do homem do interior trouxe Sasori de volta à realidade. Pela primeira vez se permitiu observar aquelas pessoas.
Um homem de meia idade, cabelos grisalhos, feições tediosas. Ao seu lado uma mulher igualmente inexpressiva, de aparência um pouco mais jovem, cabelos opacos por conta do sol, face impassível.
Respirou fundo e pediu que entrassem porque estava tão surpreso ao descobrir quem eram que havia perdido a capacidade de pensar devidamente.
Ao longe quando Itachi os avistou prendeu o ar um instante olhando a menina pequena agarrada às suas pernas.
Doeu, mais o que podia classificar. Sobretudo quando Rin ergueu os olhos grandes e castanhos para ele como se perguntasse quem eram aquelas pessoas.
Eles ainda pretendiam contar, achavam que teriam tempo de explicar à ela que não poderia mais viver com os dois…
Itachi passou a mão ternamente pelos cabelos finos.
— Bonequinha, quer terminar de montar aquele castelo pra mim? Aquele que estávamos montando ontem.
Ela logo entendeu e deu um sorriso pequeno, acenando que sim. O castelo de blocos de montar levaria dias para ficar pronto e era uma bagunça completa que não fazia sentido algum, mas era o preferido de Rin. Quando entrava nas “paredes” formadas por blocos grandes de plástico, Rin sentia que aquele era o seu forte, e que nada poderia atingi-la ali dentro.
Correu em direção ao interior da casa e então Itachi volveu o olhar ao casal que se sentava nos bancos do jardim, junto com Sasori. Apressou-se, porque sabia que o esposo não estaria nada bem.
Nem ele próprio estava.
Se aproximou, se apresentou e sentou ao lado de Sasori, segurando-lhe a mão gelada. Fez todas as perguntas, respondeu tudo que lhe foi questionado, porque sabia que Sasori não tinha condição alguma para isso.
O modo preocupado com que Itachi o olhava e segurava sua mão, o barulho dos passos de Rin voltando ao interior do casarão… Nada disso chegava aos ouvidos de Sasori. Estava assustado demais para processar qualquer coisa.
Eles iam levar seu bebê embora e não havia nada que pudesse fazer para impedir.
Itachi fez todas perguntas que achou necessárias. Aparentemente o casal tinha filhos adultos, com seus próprios filhos que pareciam viver todos na mesma casa. A mulher à frente era irmã da mãe de Rin, mas não demonstrava ter apego por ela. Eles falavam de forma prática, simplista, como quem fala de qualquer coisa, menos de uma criança. Era nítido que a mãe de Rin foi uma mulher que causou problemas à família, era tida como rebelde e problemática. Aparentemente nunca sequer haviam visto Rin antes, mas sabiam que a mulher carregava a menina de um lado para outro, de casa em casa de “amigos”. Essas foram as pessoas que cuidaram de Rin, sobretudo porque raras eram as ocasiões em que a mãe estava sóbria.
Itachi engoliu forte, fitando as mãos dadas sobre o joelho.
— Sabem dizer o que realmente aconteceu na noite em que a mãe de Rin morreu?
— Kannazuki era uma mulher distante, mesmo sendo minha irmã — a senhora suspirou — Nunca soubemos quem é na verdade o pai de Rin ou como minha irmã a criou sendo que tinha tantos problemas, vocês devem saber — fez um gesto impaciente antes de prosseguir — O que soube é que ela estava nas ruas quando teve uma overdose, e quando a encontraram Rin não estava mais com ela. Imaginamos que a menina viu que a mãe não se mexia mais e saiu caminhando pelas ruas.
Sasori apertou a mão de Itachi entre a sua.
Era plenamente capaz de entender a tristeza profunda daquela menina porque ele mesmo estava se curando de uma dor igual. Perder os pais é uma dor que nunca se cura, que não se esquece. Quem dirá para uma criança tão jovem que sequer compreende!
A conversa seguia de modo automático. O lugar para onde a levariam era uma cidadezinha pequena, muito distante dali. A preocupação com uma boa escola inexistia neles, assim como um quarto para a menina que dividiria espaço com outros dois primos mais velhos.
Rin era obviamente tratada como um estorvo, um incômodo que apareceu num momento em que ninguém queria.
Quão injusto o mundo pode ser? Sasori a queria! Todas aquelas coisas que eles julgavam como um estorvo eram meras formalidades para ele! Queria matriculá-la na escolinha, fazer um plano de saúde, reformar o quarto e comprar roupas novas. Queria dar-lhe o que pudesse de melhor!
Ao terminarem, Sasori tentou colocar a cabeça no lugar e respirou fundo antes de perguntar.
—... Será que eu posso ao menos me despedir dela?
— Claro — a senhora ficou um tempo observando o rosto pálido e bonito do homem ruivo.
Não parecia uma pessoa ruim, mesmo sendo casado com outro homem… Enfim, ignorando isso, ele parecia sereno e tranquilo, e aparentemente estava sofrendo por se separar da menina.
Sem esperar, Sasori se levanta e caminha para dentro de casa. Queria saber o que faria para contar à Rin, para dizer-lhe que não poderiam mais viver juntos.
Havia um engasgo inexplicável quando pisou na sala de casa, quando postou os olhos em Rin que brincava com blocos grandes de plástico, tentando bravamente encaixá-los no que parecia uma parede disforme e colorida. Ela volveu o rosto para si, aquelas bochechas rosadas fofas, o cabelo curto preso, mas já todo bagunçado.
— Tio Saso, quer montar?
Ele fechou bem os olhos, duramente. Se aproximou e baixou do lado dela, sem saber por onde começar.
— Rin… Lembra do que dissemos sobre você passar um tempo aqui em casa?
Ela imediatamente lhe volveu o olhar, sem dizer nada.
— Então… Acontece que Itachi eu não somos os seus pais de verdade, você sabe… E não podemos te deixar aqui para sempre, mesmo que essa seja a nossa vontade.
Ela sabia de que se tratava, porque desde o princípio Itachi lhe dissera que a família viria buscá-la algum dia.
Baixou os olhos.
— Eu não posso ficar?
A pergunta aparentemente inocente destroçou o rapaz.
— Você vai morar com os seus tios agora, está bem?
— Mas… Saso e Ita são meus tios também.
— Mas nós não somos parentes, meu amor. E por causa disso não podemos deixar você ficar aqui — tentou ser o mais firme que conseguia, para não jogar sua frustração nela — Você vai para uma nova casa agora. Sei que vai se divertir lá também.
Tentou sorrir, mas era um sorriso mórbido e triste.
O que sentia era como se uma parte de si mesmo estivesse sendo arrancada. Sentiu-se novamente despertando no leito do hospital, passando as mãos pelo ventre liso ao descobrir que Aiko havia partido. O mesmo vazio, a mesma solidão o assolaram a ponto de roubarem a nitidez dos olhos. Ele envergou o corpo para frente, mas respirou fundo.
Estava habituado com aquela dor, ela parecia sua melhor amiga, disposta a nunca deixá-lo.
A pior parte talvez tenha sido Rin levantar e se aproximar, sem entender.
— Fiz alguma coisa errada?
— Não — respondeu imediatamente — Você é a menina mais doce e linda do mundo inteiro, Rin. É exatamente tudo que eu sonhei que minha filha Aiko fosse se estivesse viva.
— Aquela que está no céu?
— É, bebê… E eu queria muito que pudesse ficar, que fosse minha filha de verdade. Mas você precisa ir com sua família agora. Eles vão cuidar bem de você e te fazer muito feliz.
Era mentira, e no fundo Sasori sabia. Rin era um incômodo para a família materna, odiada pela família paterna. Ela não possuía um lar, não tinha um lugar só dela. Estava largada no mundo à própria sorte.
Sua mente embaçou por um instante e estranhou a si mesmo, precisando se forçar a pensar com clareza, a refletir sobre algo muito importante.
Em que momento uma pessoa se torna pai ou mãe? É no momento em que se descobre esperando uma criança? No decorrer da gravidez conforme a barriga vai crescendo? Durante a convivência?
Ele não sabia explicar, do mesmo modo que não compreendia como se tornara pai de Rin em tão pouco tempo. Pouco mais de um mês se passou desde que olhou naqueles olhos castanhos pela primeira vez, e desde então seu coração foi roubado incontáveis vezes por ela. A cada sorriso, a cada choro, a cada pedido por colo e amparo... Mais e mais era atraído por ela. Começou a pensar em cada fase de sua vida, na jovem linda que se tornaria.
E quis fazer parte de tudo isso, ver cada etapa de sua vida e ajudá-la a superar cada desafio que aparecesse.
Sasori compreendeu naquele instante que a paternidade que tanto almejava não viria de um teste de gravidez positivo, não significa gerar uma criança no ventre. Ele se descobriu pai de Rin. Ao menos, esse era o seu desejo.
A pequena garota olhava para ele sem se desviar, e toda a tristeza do dia em que a encontrou pareceu voltar para aquele olhar. Ele respirou fundo, ignorando a presença de Itachi detrás de si. Conhecia o som dos passos dele e não fez nada quando o viu baixar ao seu lado. Ajeitou a blusa que Rin vestia, a mente vagando para muito longe.
Alisou os cabelos castanhos, as bochechas macias...
—... Espero que tenha a chance de ter uma boa vida na outra cidade para onde vai — dizia pausadamente, mas percebeu que ela não parecia processar devidamente aquela frase.
— Não vou mais te ver?
Por um momento, o rapaz de cabelos rubros precisou fechar os olhos e morder forte, engolindo devagar porque todo o seu interior foi feito em pedaços.
—... Vou te visitar na sua casa nova sempre que puder, está bem? Me promete que vai ser uma boa menina? Deve se comportar bem, comer direito, dormir cedo...
Que bobagem, o que estava pensando? Era provável que ela não teria refeições balanceadas, que não teria uma cama quente só para ela…
Seus olhos arderam.
—... Vou sentir sua falta, bebê… — sorriu de novo, mas a boca envergou e as muitas lágrimas escorreram dos olhos fechados.
O momento já era difícil o bastante, mas apenas piorou quando Rin passou a mão pelo cabelo ruivo dele, ainda séria, espantando-o.
Quando ela caiu dias atrás, e chorou alto por conta do susto mesmo sem ter se machucado, Sasori havia a pegado no colo e afagou seus cabelos, dizendo que sempre que fizesse isso a vontade de chorar e a dor iam embora.
E agora ela foi quem percebeu que a dor era dele...
Sasori desabou com isso, ergueu o corpo e foi para longe, tão depressa quanto seus pés permitiam, incapaz de olhá-la nos olhos enquanto a abandonava.
Como uma criança se sentia ao ser deixada sozinha? Mesmo depois de pedir tantas vezes para ficar!
Itachi apenas fitou o casal estupefato junto à porta, pedindo para olharem Rin um instante e se apressou até ele, encontrando-o nos fundos do jardim, de costas, a mão cobrindo a boca e abafando o choro contrito.
—... Vá em frente e me diga que já havia me avisado! — extravasou, muito irritado — Jogue na minha cara que eu iria me apegar e que seria difícil deixá-la, Itachi!
O Uchiha não retrucou. Aproximou-se em silêncio e o puxou com força para abraçá-lo apertado. Sasori não se recordava de haver chorado tanto em muitos anos, não depois da fatídica noite do acidente em que perdera tudo, num piscar de olhos. Chorou até esvaziar tudo que estava engasgado em sua garganta e Itachi somente o apertou contra si, sem dizer absolutamente nada.
A dor parecia ter voltado para atormentá-lo de tal maneira que desejou realmente poder fechar seus olhos e não tornar a acordar nunca mais. Era como reviver o passado, como se a tristeza o perseguisse roubando seus sonhos e impedindo-o de ser feliz.
A criança com que sonhou a vida toda estava sendo levada embora bem diante de seus olhos sem que pudesse fazer nada para impedir.
—-
Nos dias que se seguiram uma aura desagradável pairou naquele casarão. Quando voltava para casa, Sasori sentia um vazio incomum, que não estava ali antes. Tudo ia bem com Itachi, mas algo não estava certo.
A amplitude daquela casa o estava sufocando.
Uma semana se passou desde que entregou Rin aos tios maternos. Sua vida desde então se tornou uma bagunça completa. Não conseguia comer ou dormir, não se concentrava.
Ouviu o barulho de algo posto sobre o bistrô e ergueu os olhos vermelhos. Itachi pediu licença e o afastou um pouco do banco, sentado a seu lado no banco do jardim. Ele havia trazido um prato com torradas, ainda quentes. Sasori olhou com descaso a comida.
—... Eu não quero, obrigado… — tornou a afundar a cabeça entre os joelhos.
Itachi respirou fundo, trazendo a cabeça dele para deitar em seu ombro.
Não tinha direito de dizer nada. Da primeira vez que tiraram uma criança de Sasori, sequer estava desperto para ajudá-lo a superar. Então podia imaginar que isso era um trauma na vida dele.
— Precisa comer alguma coisa, meu bem, ou vai ficar doente. Não come nada há dias.
—... Temos a possibilidade de comer o que quisermos, o quanto quisermos… Somos abençoados por isso, sabia? — ergueu os olhos ao esposo -... Quando Rin chegou aqui estava morrendo de fome. E se ela tiver de passar por isso de novo?
— Não vão deixá-la passando fome, Sasori. Sabe disso.
— E se alguém bater nela? Se a deixar sozinha? Sabe que ela busca companhia porque tem medo.
— Você vai enlouquecer se ficar pensando nela o tempo todo. Rin precisa viver longe de nós, longe de Madara. Só assim conseguirá ser feliz.
— Ela confiou em mim — enfatizou — Eu pude ver no olhar dela, ela não queria ir embora! Até o último momento ela esperava que eu a trouxesse de volta. Pode não acreditar em mim, ou até rir se preferir… Mas quando eu a conheci foi diferente. Não é como as outras crianças que olho, ou que tenho contato. Estar perto dela me fazia sentir feliz, me fazia sentir completo — volveu o olhar para baixo, para o ventre liso -... Eu sentia por ela o mesmo que sentia ao ver minha barriga crescer, Itachi. Eu senti que Rin era minha, que ela queria ser minha, mesmo que não tenha nascido de dentro de mim.
— Pode superar isso quando tiver um bebê.
— Ainda quero ter um, mas não tem nada a ver com ela. Rin é meu bebê.
— Sasori... — ainda tentou insistir na conversa, mas o ruivo o encarou muito sério, como dificilmente o via.
— Eu a quero, Itachi — enfatizou, muito seguro do que dizia.
O Uchiha encarou por um longo tempo os olhos vermelhos que tanto o cativaram. Poucas vezes Sasori esboçava uma expressão como aquela, era normalmente calmo e tranquilo.
—... Entendo como se sente, mas gostaria que pensasse bem a respeito. Não é prudente esquecer que o clã Uchiha jamais a deixaria em paz. Vai querer causar esse tipo de desconforto e rejeição numa criança tão pequena?
— Eu posso protegê-la.
— Não estamos prontos para adotar uma criança, Sasori. E mesmo se o fizermos um dia a própria Rin pode querer ir embora, para junto de sua verdadeira família.
— Eu a deixarei livre se ela quiser partir, Itachi. Ainda que isso me mate por dentro. Porque quero acreditar que ela vai nos escolher, que vai ficar conosco e se caso isso não acontecer… Terei a consciência tranquila por ter feito o melhor que podia por essa menina, no momento em que ela mais precisa! Nós dois podemos cuidar dela, Itachi! Realmente podemos.
Itachi apenas fitou a frente perguntando-se em qual momento envolveu Sasori em tamanho sofrimento.
A resposta era óbvia: no instante em que passou a vê-lo com frequência, buscá-lo na saída da universidade, dizer que sentia algo a mais por ele. Desde o princípio Itachi sabia que no fundo estava expondo Sasori a problemas que não lhe pertenciam, a um sofrimento desnecessário. Fez isso somente por egoísmo, por gostar dele, e querer tê-lo por perto.
Mas Sasori não merecia passar por toda aquela dor, ainda mais sendo inocente.
O peso da culpa corroía Itachi, mas sua mente não acompanhava e em determinado momento daquela conversa ele se perguntou por qual motivo seu coração estava tão pesado, porque sinceramente não se lembrava mais.
Talvez se lembrasse mais tarde, como sempre acontecia.
—-
O dia mal amanhecera, a luz entrava fraca pelas frestas da janela. O quarto mergulhava no calor das respirações entrecortadas, o silêncio cortado pelo som do atrito dos lençóis.
Segurou na cabeceira da cama que rangia, o suor escorrendo da testa.
—... Sasuke… — arfou mais forte, sentindo com precisão o modo como o golpeava bem lá no fundo, uma gostosa e profunda penetração. Gemeu alto, largando a cabeça no travesseiro enquanto Sasuke o golpeava por trás, segurando uma de suas pernas no ar, imprensando o corpo rapidamente para frente, no desejo de estocá-lo cada vez mais depressa.
— Naruto… — arfou, se enfiando mais lá no fundo.
Ouvindo seu nome ser chamado o Uzumaki alcançou a própria ereção, uma tarefa bastante difícil dado o tamanho de sua barriga, e a manuseou rápido, enforcando-a porque estava quase lá, cada vez mais perto. O calor da excitação ardia no corpo, deixando-o em frenesi. Sasuke parecia igualmente em seu limite porque o estocava bem depressa, quase sem sair de dentro dele. Poucos minutos depois Naruto contorceu-se, a mão livre agarrando os cabelos negros. Derramou sêmen pelos lençóis novos, vários jatos em meio a um orgasmo delicioso. Ainda ficou alguns minutos na mesma posição, absorvendo a sensação e Sasuke não demorou, vindo em seguida, enchendo seu interior com um líquido quente enquanto gemia e respirava depressa em seu pescoço.
O raposo lhe fez um carinho preguiçoso nos cabelos enquanto o esperava se recompor. Quando beijou seus lábios estavam gelados e secos.
— Bom dia pra você também — riu alto, afastando os cobertores com os pés para se esticar na cama. Mover-se com aquela barriga daquele tamanho era um martírio. Em resposta à provocação, Sasuke sorriu.
— Quem manda ficar rebolando em mim logo que eu acordo, e ainda com essa carinha de pedinte e esse short minúsculo que deixa a bunda toda de fora? Não reclame depois de me provocar.
— Não provoquei nada — se fez de desentendido — São esses hormônios, sabe? Eu só olho pra você e penso “Que homem lindo, preciso que ele me agarre agora! E de novo, e de novo!”
Sasuke sorriu convencido, sentando na cama.
— Foi um prazer. Nas duas vezes.
— Oh, imagino. Mas você não tem mesmo como me resistir já que eu herdei a beleza dos Uzumaki — deu de ombros, convencido.
— Qual beleza dos Uzumaki? Você nem ruivo é!
— Isso são detalhes sem importância, aposto que um dos gêmeos deve vir ruivo — passou a mão pela barrigona — Já pensou se vem os dois bem ruivinhos igual a avó deles?
— Sem chance, é certeza que vão parecer comigo — cruza os braços — Terão carinha de Uchiha, você vai ver.
— Duvido muito. Ou serão ruivos ou loiros!
— Serão bonitos, isso é certo. Visto que o pai deles é tão lindo — acariciou a bochecha dele, devagar — Escuta… Acha que eles vão querer fazer faculdade longe de nós?
— Já está pensando longe assim? Hahahaha, eles nem nasceram ainda!
— E se forem pra longe da gente? Jovens sem raízes largam os pais e vão viver suas próprias vidas. Como vou deixar minha princesinha e meu bebê à mercê dos loucos que estão espalhados por aí?
Naruto gargalhou alto o bastante para ecoar pela casa inteira.
— Pela deusa, Sasuke! Você vai ser um pai ciumento e terrível! Nem quero ver quando saírem de casa para seguir seus sonhos e batalhar pela própria vida.
— Eles não precisam se preocupar com isso até serem bem mais velhos — fez uma carranca horrível, resmungando para si mesmo.
— Vem cá — riu e abraçou aquela cabeleira negra despenteada — Pare de ser teimoso, eles terão boa educação, vão se apegar na gente, terão uma vida ótima! E vamos ficar felizes por eles.
— Não tem medo de fazer algo errado, meu amor? Como de criar traumas neles, de deixar faltar alguma coisa. Eu não tive meus pais comigo, não sei se vou fazer o que é certo.
— O que é certo é fazer por eles o melhor que puder, “papai” — segurou seu rosto para encará-lo — Você é maravilhoso para mim, lembra? Se for o mesmo para o Daisuke e a Aiko eu já estou até vendo que vou ser o pai malvado que diz “não”.
Sasuke riu de volta, bagunçando a cabeleira loira.
— Não acho, é impossível ficar bravo contigo. Você tem o dom de melhorar as pessoas, de extrair o melhor delas. Só de olhar o seu sorriso é como se o dia mais nublado se tornasse ensolarado e límpido. É meu raio de sol, Naruto.
Uma cara de choro se estampou no Uzumaki.
— Isso foi muito lindo! — fungava e respirava fundo para não chorar. Ultimamente chorava vendo animaizinhos, noticiário, comercial de amaciante!
Sasuke riu e então endireitou o corpo, espreguiçando e levantando, expondo o corpo nu de costas.
— Me diz que posso ficar em casa e faltar à reunião, por favor.
— Não pode, senhor presidente.
— Só tem Uchihas velhos e chatos naquele lugar. Quero férias.
— Podemos tirar uns dias no final do ano e ir para algum lugar sossegado, um em que os filhotes possam fazer barulho sem sermos expulsos — levantou da cama devagar, segurando o barrigão e gemeu, desgostoso — Céus, eu tô me abrindo aqui embaixo, não é possível. Um dia desses eu vou levantar e eles vão simplesmente cair sentadinhos no chão!
— É a tal abertura para o parto, não é? Acho que seus ossos já deslocaram e ela está pronta para se abrir. Pode ser a qualquer momento agora.
— Eu sei, e não vejo a hora! Eles estão mais quietinhos agora, isso me dá certa agonia mesmo sabendo que é normal. Devem ter pouco espaço afinal imagino que esteja apertado aqui dentro.
— Vai ao médico amanhã? Tem certeza que vai ficar tudo bem?
— Claro, não se preocupe. Madara não tem mais nos importunado, acho que ele desistiu de vez de nós.
— Adoraria que fosse verdade, mas custo a acreditar nisso. Quando baixarmos a guarda ele pode fazer algo. Não se descuide.
— Por isso mesmo vou à clínica com o meu pai, de carro. Não tem como algo acontecer.
O Uchiha assentiu que sim, aliviado enquanto se dirigia ao banheiro para se preparar para trabalho.
—-
Minato se sentou ao lado do filho na recepção da clínica. A área de compatíveis obviamente estava vazia, não eram tantos assim a ponto de haver uma reunião deles, coisa que desapontava Naruto. Adoraria sentar e conversar com outros compatíveis, saber se passavam pelas mesmas coisas. Tudo que sabia vinha da internet.
Ser compatível em um mundo que finge que eles nem existem é realmente complicado.
Ao ter o nome chamado levantou com um pouco de dificuldade. Ultimamente se sentia pesado demais, a barriga dificultava fazer coisas simples como sentar e levantar.
As consultas eram respetivas, ainda que soubesse da importância delas. Medir a barriga, pressão, batimentos cardíacos, várias perguntas, exames… Mal podia esperar o dia em que nada daquilo fosse mais necessário e os gêmeos chegassem.
Ao sair do consultório, passando pelo corredor, percebeu uma mulher parada junto ao bebedouro e passou por ela sem dar muita atenção. Entretanto esta segurou seu braço. Fazia frio aquele dia então nem estranhou o fato dela estar com a touca do casaco, o que impossibilitava ver seus cabelos.
Naruto volveu um olhar intrigado e quando ela se virou por completo viu um rosto familiar. Quase não acreditou e suspirou de impaciência.
— Sério, quando você vai parar, Sakura?
A jovem ergueu o rosto com apatia, ainda o segurando.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Você vem comigo, Naruto. E não tente gritar ou reagir.
— Nem invente nada, Sakura. Eu posso agredi-la se me forçar a isso. Posso criar um escândalo também. É o pior lugar possível para você me abordar.
— Você vai me seguir e vai ficar quieto.
— Óbvio que não. Arrume algo para fazer de sua vida — já ia lhe dar as costas quando ela apoiou a mão na barra da própria blusa, erguendo de leve.
Naruto respirou fundo, realmente impaciente ao constatar que ela estava armada. Imediatamente lembrou de quando Obito o abordou, de maneira muito parecida. Levou a mão ao canto da barriga por mero impulso, pensando nos gêmeos.
— Sakura, você precisa parar com isso.
— Vai me seguir pelos fundos sem dizer nada ou dar nenhum sinal, ou então eu atiro. E não pense que não tenho coragem de fazer isso.
— Podemos conversar se você quiser. Isso não vale a pena e vai te levar pra cadeia.
— Você ainda não entendeu? — estreitou os olhos — O que acontecer não me importa. Vai calar essa boca e me seguir quieto ou te provo do que sou capaz você aqui mesmo. Acha que não tenho coragem? Pois prove.
Naruto nem pensou em retrucar e assentiu. Ela lhe pediu para desligar o celular e ele assim o fez.
— Vá na frente e não tente fazer nenhuma bobagem. Não erga o rosto e nem demonstre que tem algo errado. Faça uma gracinha e eu disparo.
Internamente, Naruto praguejou. Pensou no que fazer enquanto seguia pela saída dos fundos, ergueu o rosto a uma enfermeira, mas Sakura sussurrou que baixasse novamente.
Se fosse rápido podia dar um jeito de socar Sakura, impedir que ela o tirasse dali. Mas ela estava com a arma nas mãos, um tiro acidental podia ser fatal. Não poria a segurança dos gêmeos em jogo por nada neste mundo.
Estava irritado, muito mesmo! Sakura destruiu parte de sua vida e não se convencia, não parava! Como podia existir uma mulher daquelas? Oposto de sua mãe, da mãe de Sasuke… Sakura era oposto de qualquer mulher que realmente valia à pena.
Um táxi os estava estacionado na saída da clínica e Naruto entendeu que os estava esperando.
— Para onde vamos?
— Para minha casa. Temos muitas coisas para acertar.
— Não posso entrar no bairro Uchiha, sabe disso.
— Deite-se no banco, o insulfilm não vai deixar ninguém te ver.
— Por que está fazendo isso, Sakura? Não tem motivo algum para...
— Entre — disse uma última vez, em tom de ponto final, e Naruto nada pôde fazer, obedecendo.
—-
Ao fim da tarde, Sasuke saía da Uchiha Co após um dia que parecia simplesmente mortífero. Estava cansado, irritado, e tudo que queria era voltar para casa, para perto do seu noivo rechonchudo.
Para sua infeliz surpresa a pessoa que menos desejava ver surgiu naquela empresa. Sasuke chegou a revirar os olhos de puro desgosto ao vê-lo se aproximar, vindo do outro extremo do corredor.
Madara estava trajando terno escuro, o que indicava que teve alguma reunião também. Ao menos era o que Sasuke imaginava. Apressou o passo e nem se virou quando passou por ele, todavia ouviu sua voz ecoando pelo corredor.
— Vim para falar com você, Sasuke.
— Não temos absolutamente nada a conversar — o Uchiha menor retrucou, sem se virar.
— Querendo ou não você ocupa posição de presidente dessa empresa, mesmo que somente por fachada. Vai continuar me vendo aqui ainda que não goste.
Sasuke suspirou, virando de frente ao avô para o enfrentar igualmente.
— Sei que não viria pessoalmente por um assunto de trabalho. Poderia falar com meus empregados. É um assunto pessoal, certo? É por causa de Naruto que está aqui?
O mais velho riu e deu de ombros, um sorriso gelado de quem realmente não se importa.
— De certa forma, sim.
— Não vai conseguir tirar minha paciência hoje. Estou indo para casa — tendo dito isso, gira sobre os calcanhares pronto a sair o quanto antes da presença detestável dele.
—... Eu não sairia em seu lugar — o tom de voz fez Sasuke se deter.
— Não controla as minhas ações, Madara.
— Você não liga para o que pode acontecer ao seu loiro grávido?
A paciência de Sasuke estava realmente se esgotando!
— Eu nunca vou deixar que encoste em Naruto de novo, está ouvindo?
— É bastante irônico dizer isso diante da atual situação dele.
Um nervoso repentino acometeu o corpo de Sasuke, fazendo-o respirar mais depressa.
— Não vai me fazer cair numa provocação barata! Naruto não sai de casa sem companhia justamente para não ser abordado por você.
— E seria uma pena se ele se separasse do pai por alguns instantes e acabasse sendo obrigado a seguir uma pessoa, para um lugar ao qual tenho total acesso. Seria uma pena maior ainda se ele estivesse correndo risco de vida agora — explicou pausadamente, certo que ele ia entender.
Adorou ver o rosto do neto tingindo de raiva. A verdade é que tudo seguia de maneira maravilhosa. A tal Haruno era previsível e insensata e não demorou a desobedecê-lo, raptando Naruto e o levando ao bairro Uchiha.
Como era tola por achar mesmo que podia tramar pelas costas do patriarca! Madara sabia de tudo, via tudo! Nada passava despercebido por seus olhos.
Na realidade a jovem lhe fez um favor. Era uma oportunidade de ouro para controlar Sasuke e conseguir o que queria, afinal o rapaz sempre perdia as estribeiras quando o assunto era aquele moleque escandaloso. Sasuke também não precisava saber que Madara na verdade não teve nada a ver com o sumiço de Naruto. Pelo contrário, era conveniente pensar que tudo foi um plano muito bem arquitetado.
A raiva subiu de uma vez ao rosto de Sasuke deixando-o rubro.
— Qual o golpe dessa vez? Me fazer acreditar que raptou Naruto? Quando vai parar com isso, Madara???
O olhar do patriarca estreitou enquanto dava alguns passos em direção ao neto. Ao ficar de frente baixou o rosto em sua direção e falou com a voz mais baixa.
— Achou mesmo que eu deixaria Naruto livre para dar à luz e macular a pureza de meu clã? Parece que não me conhece.
Irritado e subitamente nervoso Sasuke pega o celular no bolso, ligando imediatamente para Naruto.
Para seu desespero a ligação caiu direto na caixa postal.
Não era típico, ele nunca desligava o celular justamente para não deixá-lo nervoso.
Tenta uma nova ligação, desta vez para Minato. O tom aflito dele logo chamou atenção, embrulhando o estômago do Uchiha.
— Sasuke, Naruto desapareceu do consultório — havia um tom impaciente em sua voz — E disseram que o viram sair com uma mulher, eu vou chamar a polícia.
— Não faça nada — usou a voz mais calma que dispunha, erguendo um olhar de ódio ao avô — Eu sei onde Naruto está, e sei que ele está bem. Estou indo buscá-lo agora.
Isso pareceu acalmar Minato e encerrando a conversa, Sasuke desligou.
— O que vem a seguir? Uma trilha sonora dramática? É tão importante assim chamar toda essa atenção?
— Estou certo que vai me seguir agora.
— Se você se atrever a tocar no Naruto eu mesmo vou te matar! — fechou o punho na camisa trazendo o corpo dele para mais perto, praticamente rosnando ao avô. Este repetiu o gesto e puxou a gola da camisa de Sasuke para junto de seu rosto, um olhar lascivo enquanto admirava a face de seu neto rebelde.
— Se você se comportar pode ver seu namorado detestável de novo. Eu darei a chance dele ter os gêmeos horrorosos. Pode-se dizer que estou sendo benevolente.
— Onde Naruto está??? Me responda!
— Em um local seguro, ao menos por enquanto. O que farão com ele depende unicamente de você. Em seu lugar faria o que me pedem sem reclamar.
Sasuke se soltou num gesto brusco, já sem conseguir pensar direito por estar muito nervoso. Sem muita escolha aceita os termos e segue Madara através do corredor, em direção ao estacionamento.
—-
Sasuke piscou, completamente incrédulo, ao entrar no quarto do patriarca e perceber quem estava ali.
Tão ou mais surpreso que ele estava Itachi, de pé no outro extremo.
— Sasuke… O que isso significa? — o mais velho dos irmãos estava totalmente confuso.
Por último Madara entra no quarto, fechando a porta detrás de si e mantendo somente a luz do abajur acesa. A iluminação fraca criava um nauseante clima de tensão, sombras se erguiam quando faziam o menor movimento, dando a incômoda sensação de não estarem sozinhos naquele quarto, mesmo que estivessem.
O patriarca observa atentamente os dois netos rebeldes, aqueles homens detestáveis que teimavam em contrariar suas ordens e levar o clã à destruição.
Sasuke foi o primeiro a esbravejar, totalmente impaciente como era esperado dele.
— O que pretende fazer agora? Raptou Sasori também? Vai nos pressionar para libertá-los? Está mesmo se rebaixando a tal ponto?
Itachi ouviu os questionamentos do irmão caçula entendendo tudo. Estava em casa quando recebeu uma ligação de Madara dizendo que há dias vinha seguindo Sasori, e que planejava embosca-lo na saída da universidade. Tudo que queria era uma conversa amigável e ninguém se machucaria. Disposto a não causar mais preocupação no esposo já muito debilitado por conta do que aconteceu com Rin, Itachi decide seguir ao que imaginou ser uma reunião de Uchihas, trajava até terno por achar que lidariam com situações de trabalho.
Para ser franco ele imaginava que Madara o queria de volta ocupando o cargo fictício de presidente. Não entendia o rumo daquela conversa, o que Naruto tinha a ver e o motivo de se reunirem no quarto do patriarca, um lugar altamente vetado a quem não fosse convidado.
O patriarca calmamente caminhou pelo quarto, sentando-se na poltrona ao lado da cama. Era delicioso fitar a linda face desnorteada dos dois netos, a luz fraca criava um sombreado maravilhoso sobre a pele de porcelana.
—... É demasiado difícil para mim entender o motivo de tamanha rebeldia vinda de meus próprios netos, meus herdeiros de sangue — iniciou a conversa sem se dar ao luxo de responder os questionamentos — A menos que eu mantenha seus parceiros detestáveis em meu poder não consigo fazer vocês dois virem até minha casa.
Sasuke ia argumentar contra, mas Itachi o corta.
— Imagino que se Sasuke está aqui também ele faça parte do suposto acordo, certo? O que você quer?
O sorriso do patriarca aumentou.
— Uma conversa, simplesmente.
— Não nos traria aqui por uma maldita conversa! — o mais novo não aguentava aquela enrolação — Se machucar Naruto ou os meus filhos eu vou acabar com você e com este maldito clã dos infernos! — esbravejou e partiu para cima daquele homem desprezível, sendo novamente impedido por Itachi.
— O que ele mais quer é te ver nervoso, Sasuke. Controle-se!
— Como pede para eu me controlar quando esse maldito quer machucar meu noivo e meus filhos???
Um leve tremor passou pelo olho do patriarca ao ouvir a palavra “noivo”.
Então eles de fato pensavam em se casar?
— Não tenho intenção alguma de fazer nada contra Naruto, se essa é sua preocupação — adiantou, apoiando o queixo na palma da mão e fitando intensamente o neto mais novo — O motivo de deixá-lo às minhas vistas é para trazer você até mim. Igualmente, não pretendo fazer nada contra os gêmeos bastardos ou com o ruivo com cara de ferrugem. Isso simplesmente não me interessa.
Já preocupado com aquela conversa Itachi solta Sasuke e endireita o corpo, fitando o fundo dos olhos frios de Madara.
— É a nós dois que você quer, certo?
— Obviamente. Uma vez que são rebeldes e indisciplinados. Não parecem ter entendido ainda sua posição no clã Uchiha. Vocês são os sucessores, meus únicos descendentes de sangue. Não bastasse Sasuke engravidar um moleque de fora e criar todo esse escândalo desnecessário, agora Itachi está abrigando a filha bastarda dos Uchiha dentro da sua própria casa.
Sasuke volveu um olhar assustado ao irmão, percebendo-o desviar.
Estavam falando sobre Rin?
Então não estava enganado sobre aquela menina que Karin levou para casa, era mesmo Rin Nozawa, a menina renegada pelo clã! Mas isso não respondia o motivo de terem abrigado uma criança tão problemática em casa! Achou que ela tivesse fugido, não entendia os motivos de Itachi em deixá-la em sua casa.
Internamente a culpa corrói Sasuke ao pensar o que poderia ter acontecido. Foi ele que pediu a Sasori para trancar seu apartamento naquele dia, então era certo que ele encontrou Rin, e que não conseguiu mandá-la embora.
Uma pontada profunda de tristeza se apoderou dele. Claro, Sasori tinha sentimentos por crianças em situação indefesa. Não o admirava que quisesse proteger Rin.
Se arrependimento matasse...
Todavia, Madara prosseguiu em seu discurso.
— É incompreensível para mim que dois homens que tem nas mãos o império Uchiha como vocês não percebam a quantia de dinheiro que está em suas mãos.
— É mais do que dinheiro! É sobre liberdade! Eu não sou seu escravo e não vai me obrigar a fazer o que você quer!
Madara ficou subitamente sério, observando o rosto enfurecido do neto mais jovem.
— Creio que já percebeu que tenho poder nas mãos para matar quem eu quiser, a hora que eu quiser. Você não é livre como pensa, e nem vou permitir que me contrarie a seu bel prazer. Faça mais um escândalo e mando atirarem em Sasori, imediatamente.
Sasuke volveu um olhar aturdido ao irmão, percebendo Itachi respirar profundamente.
— Disse há pouco que não pretendia machucá-los — Itachi tentava ganhar tempo porque estava começando a ficar nervoso, e não achava prudente. Sua mente ficava confusa demais quando o nervosismo o atingia — Se é verdade o que diz então solte os dois e faça o que quiser conosco. Eu sou o herdeiro, visto que sou mais velho. Pode me culpar pelo que quiser.
— Comovente que esteja tentando livrar seu irmãozinho, Itachi. Mas na realidade eu estou totalmente de acordo em soltar os dois imbecis que estão em meu poder agora. Eles não me importam. Naruto pode ter os gêmeos imprestáveis se quiser. A questão aqui é outra.
— Então o que diabos você quer??? — Sasuke não conseguia compreender, por mais que pensasse — Por que está fazendo isso???
Os olhos de Madara faiscaram em um tom rubro, o tom vermelho sangue que atingia os olhos dos Uchiha quando tomados pelo ódio.
—... O que eu quero é colocar vocês dois de volta no caminho de um homem. A presidência da empresa, o nosso poderio financeiro, tudo está em suas mãos, e não vou permitir que continuem fazendo malcriações infantis, coisas que podem custar a ruína do clã.
Ambos ficaram em silêncio por um instante, entendendo o rumo daquela conversa.
Os recentes escândalos acerca do clã estavam de fato prejudicando os negócios. A Uchiha Co estava ganhando a fama de uma companhia liderada por pessoas desequilibradas, cujos problemas familiares colidiam e misturavam com assuntos importantes de trabalho. Com isso, contratos importantes estavam se rompendo, patrocinadores se afastando. E a culpa era absolutamente do que andava acontecendo na escala mais alta do clã, os puro-sangue que lideravam as outras castas.
Sabiam disso porque ao desafiar Madara e se impor contra as regras, em benefício próprio, todos os integrantes de todas as gerações ficaram em balbúrdia, não esperando esse tipo de desequilíbrio vindo direto dos herdeiros.
Itachi foi o primeiro a se manifestar.
— Se o que quer é que eu retome a presidência posso fazê-lo de bom grado, assim que minha licença médica terminar. Entretanto manterei Sasuke como meu vice e as decisões importantes serão delegadas por ele. Não tenho condições suficientes de pensar e tomar decisões importantes ainda por conta das sequelas do tempo em que passei em coma. Acho que todos sabemos quem é o culpado por isso.
Madara não pareceu comovido ou preocupado ante à insinuação.
— Retomarem seus postos é apenas a primeira medida a ser adotada. Manterem uma postura digna no ambiente de trabalho é outro fator importante — volveu o olhar irado ao neto menor — Você está casado com Karin, seu moleque sem escrúpulos! O contrato ainda não findou e você sequer teve a dignidade de se deitar com aquela mulher escandalosa e lhe dar um filho! A coisa mais simples de se fazer!
— Eu nunca teria um filho com Karin!
— A família dela nos concedeu um empréstimo generoso com o acordo do casamento de vocês. Na época isso nos salvou de perder ações importantes. A sorte é aquela vadia ter ficado louca, com isso é possível desfazer o contrato, mas teremos de pagar uma indenização por causa da criança que foi imposta. Uma fortuna em potencial e que será tirada de sua parte na herança, que isso fique muito claro.
— Não me importa! Se com isso eu puder em livrar de Karin é um dinheiro bem investido!
— Veremos se continua a pensar assim quando sua conta ficar zerada, Sasuke. Os assessores vão à público falar com a imprensa acerca do problema mental de Karin e vamos manipular a informação a favor do clã, colocando a culpa no comportamento dela. Com isso espero não arranjar mais um escândalo e manter a boa impressão que as pessoas têm de nós. Acho que não preciso frisar que você está proibido de se casar e passar seu nome ao moleque loiro ou de ficar exibindo seus gêmeos bastardos por aí! Me desobedeça e esses dois fedelhos não vão sequer completar um ano de idade. Fui claro o suficiente?
Sasuke estava tão nervoso que seus punhos tremiam no ar. Se pudesse voaria para cima do patriarca e o socaria até que não tivesse mais consciência, até desfigurar aquele rosto!
Sentiu a mão de Itachi sobre seu ombro e volveu o olhar a ele.
— São bons termos, Sasuke. Você deve aceitar.
— Como pode me dizer que são termos aceitáveis? Se fizer o que ele diz eu não posso me casar com Naruto!
— Nem sabemos onde ele está agora, Sasuke! Naruto está grávido. Mais importante do que um papel dizendo que são casados é a segurança dele e dos bebês. Se não aceitar isso você de fato vai estar agindo como criança!
O sermão surtiu efeito imediato. As palavras de Itachi tinham um peso definitivo para Sasuke. Volveu o olhar fulminante ao patriarca, odiando mais que tudo a expressão soberba de quem tem o controle de tudo e todos em suas mãos.
—... Naruto não terá meu nome se isso é tão importante, tampouco meus filhos. Eles serão Uzumakis. Tanto melhor para não terem ligação com esse clã imundo!
— Esse “clã imundo” é o mesmo que arca suas extravagâncias, Sasuke. De onde acha que veio o dinheiro que custeou sua educação, seu alto padrão de vida? E também o dinheiro que permitiu salvar a vida dos seus bastardinhos?
— Creio que chegamos a um acordo, não? — nem se dignou a retrucar os insultos — Solte Naruto imediatamente!
— Ainda não terminei — volveu então o olhar muito mais severo à Itachi — Que demônios você tem na cabeça para manter Rin em sua casa?
Itachi respirou fundo, tentando a todo custo ficar calmo e pensar coerentemente. Uma tarefa quase impossível dado o nível de estresse em que estava.
— Aquela menina foi levada por Karin ao apartamento de Sasuke em primeiro lugar. Tudo que fiz foi dar abrigo a ela até que a família veio buscá-la.
Madara apoiou o queixo nas costas das mãos de maneira que somente os olhos rubros ficassem visíveis na semi escuridão do quarto.
— Acho que não preciso dizer que se essa menina voltar à sua casa eu mesmo vou ordenar que a matem, não é? Ainda peço para cortarem em pedaços e os mando de presente ao seu ruivo maldito!
— Sasori não precisa ser envolvido em meus problemas, já cometi o erro de abrigar Rin, e tenho ciência disso. Ela já foi levada para longe de toda forma e penso que o melhor para todos seria ela realmente viver com a família materna, longe do contato com qualquer um de nós. É o que sempre soube, o que sempre quis. Entretanto…
— Entretanto..?
Itachi não apenas ergueu o rosto ao patriarca com uma seriedade fora do normal, como se encurvou para ele, baixando a cabeça em submissão àquele homem demoníaco. Sasuke arregalou os olhos, quase sem conseguir acreditar no que estava vendo.
— Peço que me permita cuidar de Rin. Por favor.
Houve segundos de um silêncio perturbador. A atmosfera do quarto se tornou massiva e esmagadora.
O patriarca observou a cabeça curvada do neto, os cabelos sedosos que escorregaram ao lado daquele pescoço fino.
Prendeu o ar, deliciado por encarar seu herdeiro de perto, aquele que julgava a perfeição Uchiha. Itachi provocava nele um desejo que não era possível mensurar. Lembrou da vez anterior em que conseguiu colocar as mãos naquele corpo, que conseguiu beijá-lo quando estava desmemoriado…
Um sorriso lascivo surgiu no rosto.
— Está abaixando a cabeça para mim, Itachi?
Ele endireitou o corpo, fitando-o com seriedade.
— Sasori já sofreu demais por minha causa, eu nunca poderia permitir que continue se sacrificando por mim.
— A escolha foi dele por aceitar ingressar num clã onde nunca foi bem vindo.
— Estou disposto a chegar a um acordo, Madara. Se com isso me permitir ficar com Rin — não havia hesitação na voz dele, parecia realmente sério.
Sasuke ficou emudecido. Admirava muito Itachi e às vezes esquecia do quão calculista e sensato ele podia ser. Itachi tinha o porte de um líder, se movia e falava como tal. Tinha uma frieza e tato invejáveis. Ao contrário, Sasuke só sabia ficar nervoso e esbravejar.
Mas, o que mais o surpreendia era ver o irmão indo tão longe por uma criança desconhecida.
Madara por sua vez estava se divertindo com o rumo daquela conversa.
— Acha que um menino como você tem algo a me oferecer como acordo, Itachi?
— Já sou um homem há muito tempo. Deve ter percebido pelo jeito como olha para mim — devolveu a frase, erguendo bem o queixo, uma arrogância nítida na voz.
— Muito bem, diga-me então o que você quer.
— Um termo escrito de próprio punho, com o selo da família. Uma declaração sua de que posso ficar com Rin.
A risada vazia e sem sentimento do patriarca encheu o quarto e mesmo adaptado à presença nefasta do avô, Sasuke estremeceu ouvindo aquele som. Quando o olhar dele se voltou à Itachi parecia mais rubro que o normal.
— Deve ter perdido de vez a sanidade, Itachi. Está me pedindo que deixe você cuidar de uma Uchiha bastarda?
— Não somente isso, mas que permita que ela seja adotada por mim e Sasori.
— Não há dúvidas que perdeu a noção por completo. É tão estúpido que nem há o que discutir.
— A Uchiha Co precisa de um herdeiro agora, não? É mais do que sabido que tenho um casamento estável, e o que pode soar mais interessante à mídia sensacionalista do que o fato de eu adotar uma pobre criança órfã que estava nas ruas?
Havia uma frieza incomum na voz dele, assim como em seus olhos. Parecia de fato outra pessoa.
— Pretende me convencer com esse discurso simplista?
— Pense bem, Madara. As pessoas adoram esse tipo de hipocrisia, se compadecem por esse tipo de história. Vão se interessar pelo passado trágico de Rin, pelo que vai acontecer com ela. Em pouco tempo o assunto vai render atenção, reatamos com isso a imagem de família bem estruturada. Mais que isso, tem minha palavra de que adotarei uma postura mais plausível com minha posição daqui por diante, e estou disposto a obedecer suas ordens. Isso, se me permitir ficar com ela.
O Uchiha mais novo ficou sem fala. Nunca imaginou que Itachi pudesse ir tão longe por Rin.
O que havia acontecido naquele meio tempo? O que houve de tão importante no mês em que Rin esteve com eles?
Quando o patriarca endireitou-se elegantemente na cadeira, conquistou a atenção dos dois que o fitaram cheios de ansiedade e antecipação.
— Negado — respondeu, sem rodeios.
Itachi soltou o ar de uma vez pelo nariz, decepcionado.
— Não vou desistir de ficar com aquela menina. Estou lhe propondo uma maneira de fazer isso sem me opor aos ideais do clã.
— O fato de querer cuidar de uma mestiça já é uma afronta ao clã, Itachi. Algo imperdoável, ainda mais vindo de meu herdeiro. O que afinal viu nela? Gosta desse tipo de coisa? Crianças te atraem?
Itachi precisou juntar todo o autocontrole que tinha dentro de si para não avançar e socar o patriarca no rosto, porque a vontade de fazer isso ardeu nele! Fechou os olhos e virou o rosto, tentando respirar devidamente.
—... Somente uma mente doente pensaria nesse tipo de coisa. Aquela menina… É importante para mim, para o meu marido. É uma criança boa, que não merece tanto ódio.
— Uma criança mestiça não merece minha atenção e não tem direito sequer de estar próxima do clã.
— Nesse caso é um favor que estamos lhe fazendo. Daremos a ela o sobrenome de Sasori. Ela não será uma Uchiha nem mesmo nos papéis, será uma Akasuna. Vamos mantê-la longe do clã, especificar isso em contrato para que ninguém possa pedir um centavo em nome dela futuramente. Rin vai perder qualquer vínculo com os Uchiha exatamente como você tanto quer.
Madara ficou calado um instante, sem desviar o olhar agressivo do neto mais velho, como se pensasse seriamente, como se ponderasse tudo o que ele disse.
— Seus termos parecem muito bem pensados, Itachi. De fato mesmo estando com a mente avariada ainda é bastante perspicaz.
— Temos um acordo?
— Oh certamente que não. As coisas não são simples assim. Espero que tanto você quanto o pirralho malcriado do seu irmão compreendam o que significa estar sob este sobrenome. Ser um Uchiha e ser meu herdeiro significa passar uma imagem idônea não somente aos Uchihas que são liderados por vocês, mas à sociedade como um todo. Não são mais moleques para agir displicentemente e me causar problemas. São homens adultos que devem fazer o que é certo.
— Agir como uma marionete é considerado certo?
Madara bateu o punho sobre a mesa de centro.
— Experimente largar tudo agora, Sasuke! Eu mesmo o ponho na ruína com uma dívida milionária nas costas! Como pretende pagar a indenização da família de Karin se estiver na miséria? Use a droga dessa cabeça! Estou farto de seu comportamento infantil!
O mais novo prensou bem os dentes para não retrucar o quanto queria. Por hora entendeu que estava de fato preso.
Era pegar ou largar. Aceitar os termos e garantir que Naruto pudesse ter os filhos sossegado, sem o medo de deixá-lo sair nas ruas e ser capturado.
Mas como diria a ele que não poderiam se casar?
—... Era isso o que queria, certo? Já ouvimos o seu sermão, agora solte Naruto e Sasori — pediu resignado, entendendo o que era estar de mãos atadas.
Um silêncio incômodo pairou no interior do quarto, sendo quebrado por uma risada baixa, um tom frio o bastante para arrepiar a espinha.
— Soltá-los ou não é algo que só depende de vocês dois. Não me faça repetir.
Itachi franziu a testa, sem entender.
— Compreendemos seus termos, Madara. E estamos dispostos a cumpri-los. Já pode parar de nos chantagear agora.
— Aceitar os termos é uma obrigação de vocês, não tem nada a ver com a soltura dos dois que estão em meu poder agora.
Tanto Itachi quanto Sasuke ficaram confusos e surpresos, coisa que encheu o peito do patriarca de deleite.
—... Uma afronta tão grande ao patriarca dos Uchiha não pode ser ignorada, e sim punida. Achar que são livres para se opor a mim, para me desafiar e fazer o que bem entendem… Pensaram realmente que eu ficaria em silêncio sem revidar?
— Então puna a nós e não a eles! — a paciência de Sasuke já havia acabado há tempos.
— Se cooperarem, eles estarão livres em breve, e garanto que não vou interceptá-los novamente a menos que cruzem o meu caminho. Na verdade creio que podemos chegar a um acordo nessa conversa, senhores
— O que você quer? — Itachi começava a ficar nervoso — Diga de uma vez!
Um brilho macabro iluminou aqueles olhos, uma expressão perversa que internamente assustou os dois irmãos. Pelo tempo em que o patriarca ficou calado nenhum dos dois teve coragem suficiente de perguntar o que ele queria. Quando por fim a voz grave soou, parecia com a voz de um demônio subido do inferno.
— Vou permitir que Itachi faça como disse e torne aquela menina maldita filha do ruivo imundo com cara de ferrugem. Até porque imagino que a história fique muito divertida quando Sasori descobrir de quem Rin é filha e o que o pai pretende fazer com ela. E também permitirei que os gêmeos detestáveis de Sasuke nasçam. Entretanto, nenhum deles poderá se aproximar do clã, em nenhuma hipótese. E será acordado e assinado que nenhum centavo da herança Uchiha estará em nome deles. Isso, é claro, se vocês dois voltarem a cumprir os termos de herdeiros do legado Uchiha. Sabem o que isso significa, não é?
Ficaram emudecidos, mas bem sabiam.
Ceder sua vida e vontades ao patriarca, obedecer cegamente sem questionar. Era o mesmo que vender-se ao clã. Tais foram os ensinamentos que tiveram ao longo de suas vidas, e das quais se rebelaram tantas vezes.
E pensar que a esta altura teriam que voltar atrás e aceitar… Era muito injusto.
Mas para Sasuke, a ideia de Naruto poder ter seu parto sossegado, poder viver sem se esconder ou esconder os gêmeos pareceu a escolha definitiva. Aceitaria se vender se com isso conquistasse alguma paz ao seu loirinho escandaloso e aos filhos que estavam para nascer.
Itachi por sua vez conseguiu enfim sentir que estava fazendo algo por Sasori, depois de todo o sofrimento a que o expôs, de tudo que o fez passar. Sasori teria a chance de ser feliz, de cuidar de Rin. Era maravilhoso saber disso.
Todavia o alívio repentino dos dois acabou no instante em que a voz do patriarca tornou a soar.
—... Entretanto… Há um preço que vocês dois terão que pagar.
— Diga o que é — Itachi apressou-o porque sabia que nada de bom vinha daquele homem.
— Seja o que for estamos dispostos a fazer, Madara — Sasuke frisou bem.
— Muito bem — endireitou o corpo na poltrona — Se estão dispostos a qualquer coisa imagino que não vão se opor se eu cobrar o preço com esses seus corpos imundos, certo?
O estômago de Sasuke revirou quando começou a entender o rumo daquela conversa.
— Que diabos está sugerindo?
Volveu o olhar de um ao outro.
— Vocês são o que julgo a maestria do meu clã, Uchihas de sangue puro e imaculado. E como tal, devem se envolver com pessoas de igual magnitude. Tocar um Uchiha deste nível é uma honra reservada só a vocês dois e vão prová-la aqui, esta noite — fitou então seu neto menor que parecia realmente desacreditado, quase a ponto de surtar.
Lindo e desesperado como uma presa indefesa. Aquele olhar era o que mais adorava, o desespero o excitava muito.
—... Vai se deitar com seu próprio irmão em meus lençóis, Sasuke. Ao mesmo tempo em que eu me deito com ele — frisou bem, sem nenhum traço de emoção na voz — Vai marcar no seu corpo e na sua alma o preço por me desafiar, por se opor a mim. Vai lembrar disso todos os dias da sua vida.
Itachi foi o primeiro a revidar.
— Esqueça um absurdo desses, Madara! — quase saiu de si com a raiva que sentiu — Eu nunca faria isso com Sasuke!
— Não estou dando margens para recusa. Deviam me agradecer por lhes dar tantas regalias. Recusem o que estou propondo e mando Sasori ser tirado à força daquela universidade agora mesmo. Exijo aos meus homens que o torturem e o matem, e faço o mesmo com aquela menina que só me causa problemas. Em seguida exijo que prendam Naruto. Imagino que seja divertido violá-lo uma vez que está grávido. Quanto tempo ele suportaria? Eu soube que compatíveis possuem uma abertura extra… Por que não tentar abri-la antes do tempo? — arqueou os lábios em um sorriso extremamente desprezível.
O pouco tempo que Itachi teve para segurar Sasuke antes dele voar para cima de Madara foi crucial. Porque havia um ódio tão grande nele que era certo que faria alguma besteira.
— Sasuke!!! — chamou-lhe atenção — Pare com isso!
— Eu vou matar esse imundo desgraçado!!! Antes dele por as mãos no meu Naruto!
Como podia propor uma coisa tão… Suja?! Tão perversa!
— Achei que estivesse disposto a qualquer coisa, Sasuke. É aceitar ou a morte vai chegar às pessoas que vocês tanto querem proteger. Eu estou lhes dando uma escolha.
O ar pareceu sumir do interior do quarto, engasgado na garganta dos dois Uchiha.
Como poderiam…? Era algo fora da lógica!
Itachi foi o primeiro.
— Faça comigo o que quiser, Madara. Eu não me oponho. Mas não coloque Sasuke nisso.
— Ele vai pagar também. É adulto, plenamente responsável por suas ações.
— Madara, por favor… Eu nunca poderia…
Interrompendo suas palavras o patriarca ergue o corpo da poltrona e por um instante os dois estremeceram.
Estar diante de uma pessoa sem escrúpulos era perturbador. Não sabiam o que esperar dele.
Para surpresa dos irmãos, Madara segurou com força o rosto de Itachi, trazendo-o para perto. Passou a língua no canto da boca devagar, fazendo ele fechar duramente os olhos.
— Este é quem você é. Meu herdeiro, meu subordinado, meu escravo para obedecer minhas ordens. Caso tenha se esquecido eu vou fazê-lo lembrar, Itachi. Pela última vez eu ordeno: tome Sasuke. Agora. Minha paciência não é longa.
Volveu então o olhar frio para o mais novo.
— Quer salvar Naruto, Sasuke? Então vou marcar na sua alma que você me pertence, que não pode me desobedecer — segurou Itachi pelos ombros, virando-o de frente — Beije-o.
Tanto Sasuke quanto Itachi volveram um olhar pasmo ao patriarca. O sorriso dele apenas aumentou.
— Eu gaguejei? Beije Itachi, Sasuke. É só o princípio do que vai fazer com ele se quiserem que seus preciosos companheiros vivam
Sasuke volveu o olhar aturdido ao irmão, quase pedindo socorro.
Nunca poderia… Nunca!
Itachi conhecendo bem quem era o patriarca, olha para o chão, resignado.
— Faça, Sasuke.
— Nunca!
— Naruto está no final de uma gestação de risco, um susto agora não é uma opção.
— Eu não posso fazer isso com você!
— Você pode — volveu o mesmo olhar que usava somente para ele, somente para Sasuke — Porque eu te dou permissão.
— Itachi, por favor…
— O que estamos prestes a fazer é uma fatalidade que nenhum dos dois escolheu. Você é meu irmão, eu o amo, e nunca teria nojo de você. Faça.
Aturdido e sem saber o que fazer Sasuke ficou parado encarando o irmão mais velho, sem a coragem necessária para prosseguir.
— Sasuke, certa vez eu lhe disse que ser um Uchiha implica tomar decisões difíceis, não é? Ser um Uchiha significa engolir seus sentimentos, sufocar seus sentidos, provar da dor mais profunda que o ser humano conhece. Ordens não podem ser ignoradas. Eu queria de verdade que você não tivesse que passar por isso.
— Itachi…
— Seu tempo está esgotando — o patriarca interrompeu o discurso, achando-o longo e cansativo — Devia escutar seu irmão, ele obviamente vê as coisas com a frieza de um líder. Ser calculista e não se deixar levar por sentimentos é o que faz dos Uchiha pessoas tão fortes. Já é hora de perceber isso.
O mais novo mordeu tão forte que seu maxilar doeu.
Era um acordo diplomático? Aquilo era um acordo? Ser obrigado a dormir com o próprio irmão para satisfazer o desejo nefasto de Madara?
Tornou o olhar à Itachi e ele parecia mais determinado do que nunca, sem fazer força para se soltar dos braços de Madara. Sasuke baixou o rosto perto do dele, odiando-se.
Respirou fundo juntando toda a coragem que havia dentro de si.
— Eu igualmente lhe dou permissão, Itachi. Por favor me perdoe — tendo dito isso diminui a distância e cola os lábios nos dele, fazendo o possível para ficar calmo, para pensar em outra coisa, para não enlouquecer… Um pensamento a mais e sua alma quebraria em tantos pedaços que não seria capaz de reparar.
Pela primeira vez na vida entendeu realmente o que significava ser um Uchiha e a forma como foi poupado pelo irmão todos aqueles anos, os sacrifícios que Itachi já havia feito por ser mais velho. Entendeu inclusive que nunca teve poder sobre nada. Somente achava ter poder e liberdade para fazer o que bem entendesse. Isso nunca lhe pertenceu, nunca pertenceria enquanto Madara fosse patriarca.Tudo estava nas mãos dele exatamente como dizia, desde o princípio. Se Naruto e seus filhos ainda estavam vivos foi realmente porque o patriarca não quis matá-los.
A dor de compreender que era escravo foi o que fez as lágrimas rolarem pelo rosto, enquanto sentia o gosto de Itachi em sua boca em meio ao beijo.
Realmente aquela noite o marcaria, mas não como Madara prometeu. Não se sentiria sujo por ter dormido com Itachi, pelo contrário! Ele era o tipo de herói que entrega o próprio corpo por amor de outras pessoas, e ainda cede permissão para que a culpa não assombrasse o irmão menor, para que não julgasse como uma violação.
Quem os estava violando era Madara em toda a sua crueldade!
***
Compreendendo isso, Sasuke concentra sua mente no que precisava fazer, apoiado nos ombros de Itachi, percebendo-o ser solto. Os braços dele se puseram em sua cintura e o contato do beijo foi quebrado.
Ao abrir os olhos percebeu que ele parecia confuso e sentiu-se péssimo por isso.
Um estresse tão grande logicamente mexeria com sua memória. Ele franziu a testa como se tentasse entender o que estava acontecendo. Sasuke não lhe deu tempo e o puxou em direção à cama, deitando seu corpo sobre os lençóis. Internamente murmurou desculpas milhares de vezes enquanto beijava o pescoço e abria os botões da camisa social. Desfez o nó da gravata e tocou a pele que surgia, rosada e quente.
Faria ele se sentir muito bem, era tudo que podia fazer.
Ignorou o som que Madara fez ao se sentar para assistir o que julgava um espetáculo. Viu Itachi encará-lo parecendo tornar a entender, um limiar entre lucidez e total confusão.
— Sasuke...
Calou-o com um beijo, porque não era capaz de dizer nada. Segurou-lhe as mãos e as pôs em sua cintura, querendo envolvê-lo ao passo que o desnudava. Retirou cuidadosamente cada peça de roupa que ele vestia. Foi ajudado a tirar as próprias roupas.
E então se encararam, nus.
Ficaram algum tempo sem dizer absolutamente nada. Era um olhar que descrevia sacrifício. Quando Sasuke baixou o rosto, determinado, Itachi o recebeu entre os braços e colaram o peito um no outro, beijando-se mais profundamente.
Nenhum deles sabia dizer o que exatamente pensava naquela hora, para não se envolver e conseguir o grau de excitação necessária para consumar aquele ato tão insano. De forma praticamente mecânica tocaram o corpo um do outro, gerando o máximo de prazer que podiam, incitando, provocando o instinto, criando o clima necessário para atingir algum grau de excitação. Foi longo, demorado, trocas de beijos e carícias que pareciam não findar nunca, mas por fim ofegaram dentro do beijo. Podiam sentir a ereção um do outro e esfregaram os corpos, buscando maior contato.
A esta altura só o que importava era alcançar o clímax, dar prazer ao corpo e esvaziar a mente, só isso.
Sasuke gemeu quando foi deitado com as costas nos lençóis e nem quis saber mais. Não queria pensar, não queria culpar ninguém. Faria seu corpo alcançar o clímax de qualquer jeito. Abraçou as costas de Itachi enquanto ele beijava seu pescoço e rebolou o corpo no dele, para que suas ereções atritassem com maior força. Sasuke teve os mamilos acariciados enquanto chupava a pele entre o pescoço e o ombro.
Olhou-o de lado, totalmente envergonhado e mesmo sem dizer claramente, Itachi compreendeu. Desceu o rosto em direção à virilha de Sasuke, apressando as coisas.
O Uchiha mais novo quando se sentiu engolido tapou a boca para que a voz não saísse alta. Controlou a respiração, a vergonha o atingindo como nunca.
Foco, não podia pensar!
A língua escorregou pela ponta rosada, pelo caminho do nervo da ereção, até os testículos e não se deteve, escorregando para baixo, rumo à entrada. Lambeu molhando-a o máximo que conseguiu, com o maior empenho possível para excitá-lo, deixando-o quente.
Sasuke abriu a boca para pedir que ele se apressasse e um gemido longo e incontrolável escapou da garganta, enchendo o quarto com sua voz melodiosa. O som arrepiou Itachi que pareceu mais empenhado no que fazia, porém teve os cabelos segurados e se viu forçado a encará-lo.
— Faça… Já…
Itachi obedeceu, respirando fundo antes de segurar a base do próprio membro e levá-lo à entrada de Sasuke. Precisou fechar os olhos e anestesiar a si mesmo quando forçou os quadris para frente e tentou romper a resistência, sabendo que o machucaria. Era óbvio visto que não teve tempo de prepará-lo devidamente, que não dispunha de nada para facilitar a lubrificação.
Não se encararam até estarem completamente unidos, até que o baixo ventre de Itachi batesse no de Sasuke, indicando que havia entrado por completo. Sasuke fechou os olhos bem forte e prendeu o fôlego ao se sentir invadido. Segurou os lençóis com força, concentrado somente na sensação. Precisava relaxar ou jamais se acostumaria.
Era Itachi, estava tudo bem! Tinha que ficar tudo bem! Tapou os olhos com um dos braços e pediu:
— Mova-se...
Foi obedecido prontamente e Itachi começou a sair e entrar bem devagar, tentando alargá-lo para não machucar tanto. Entrava de novo gingando o quadril, segurando a cintura fina do irmão mais novo. Estocadas que começaram devagar, mas que provocavam uma sensação intensa.
Neste ponto Sasuke não aguentava ficar calado e já gemia, baixinho.
Foi ficando cada vez mais largo, a fricção aumentou assim como a profundidade das estocadas. Logo Itachi conseguia deslizar inteiro para dentro e para fora, indo e voltando pelo canal. Batia o quadril nele conforme o penetrava. Um som molhado encheu aos poucos o quarto quando as estocadas começaram a ganhar força e vigor. Itachi apertou os dedos nos quadris de Sasuke e se pôs a golpeá-lo com mais força, bem mais fundo, já tomado pela sensação, concentrado unicamente nela.
Sasuke rolava a cabeça de um lado a outro, as mãos procurando onde se apoiar. Nada contido na mente vazia exceto o prazer das estocadas. Em dado momento abriu os olhos e os postou no rosto do irmão, sem querer.
Se assustaram, mutuamente.
Estavam corados, suados, com faces nítidas imersas em total desejo e prazer. E quase não se reconheceram.
Não desviaram o olhar dessa vez e Sasuke fez questão de abrir a boca e soltar a voz, preso nas íris negras. Do mesmo modo Itachi segurou suas pernas, sem diminuir o ritmo, batendo bem lá no fundo, o calor da excitação o enchendo e gemeu com a voz rouca, arrepiando Sasuke em resposta.
Faltava pouco, para ambos, estavam a um passo de chegar lá. Finalmente!
Sabendo disso, Itachi de bom grado empinou o quadril e olhou para trás, em direção à Madara, como um convite.
Era isso que queria? Achava que o faria sofrer violando seu corpo?
Jamais! Poderia subjugá-lo mil vezes e naquelas mil ainda seria de Sasori e faria por ele tudo que estivesse a seu alcance!
Madara sorriu e ergueu o corpo da poltrona, admirando a vista diante de si. Passou do rosto corado do mais novo ao rosto atrevido do mais velho, imaginando se sonhava com aquela bela visão dos dois imerso em uma ardente cena de sexo, bem diante de seus olhos. Recostou no traseiro de Itachi deixando-o sentir pulsar ao passo que abriu o botão da calça e descia o zíper..
E então, o corpo de Itachi é empurrado para frente, fazendo-o cair sobre Sasuke mas ainda ligado a ele. Só teve tempo de erguer o rosto e tudo que Sasuke conseguiu ver foi a face dele se contraindo de dor. Entendeu imediatamente o que estava acontecendo. Toda a sensação prazerosa desapareceu de seu corpo ao perceber Madara se mover e bater o copo no de Itachi.
Entendeu o que significava se sacrificar quando viu Itachi endireitar o corpo, mesmo recebendo as estocadas, e recomeçar a penetrar Sasuke. Com o mesmo torpor de antes. Ele não perdeu o controle mesmo quando Madara puxou seus cabelos, fazendo-o volver a cabeça para trás e o beijou, mordendo o lábio. Uma expressão de ódio misturada ao prazer.
Madara se deliciou com aquilo, com o sangue que escorria do canto de seu lábio ferido e o beijou de novo enquanto entrava nele, as mãos se espalmando no peito largo, nas coxas grossas.
Internamente, Sasuke matou seus sentimentos e gravou para si mesmo que faria Madara pagar. Já havia experimentado muitas vezes a crueldade dele, mas de todas as vezes, aquela foi a pior de todas.
Enterrou os dedos nos cabelos de Itachi e o puxou de volta, para um beijo intenso e abafado, gingando os quadris enquanto se deixava ser tomado, o peso dos dois corpos se movendo sobre o seu o apertando.
Itachi apoiou os cotovelos em de cada lado de sua cabeça, ficando de quatro, e o beijou seguidas vezes, sem parar o que fazia, quente pela excitação, sufocando com o modo afoito que ele respirava. Sasuke lambeu seu queixo, chupou o pescoço. Rolou os olhos para trás quando o sentiu entrar mais fundo, no limite.
Era uma noite para nunca mais se falar sobre, algo completamente livre de qualquer sentimento e cuja ordem era sentir e proporcionar prazer. Um coito mergulhado em ódio e rancor.
Itachi gemia, já entorpecido de prazer, o suor pingando no rosto do mais novo. Penetrava-o no mesmo ritmo em que era penetrado. Sasuke sentiu como ele ficou ainda mais duro dentro de si e ergueu o tronco, alcançando e chupando seu mamilo.
Madara percebeu Itachi gemer mais forte e entregue e percebeu o que Sasuke fazia. Segurou o rosto do menor quase cravando as unhas na pele e o trouxe para si para um beijo, para que Sasuke sentisse o gosto do sangue do irmão em sua boca.
Em resposta, Sasuke o beijou de olhos abertos, em tom de afronta, sem se negar a enroscar a língua na dele, desafiando-o com seu melhor olhar sedutor porque sabia bem a beleza que possuía. Esfregou mais o corpo em Itachi e sua ereção foi esmagada entre a barriga dele. Soltou-se de Madara e beijou Itachi porque estava realmente perto, quase lá! E não daria à Madara o gosto de senti-lo gozar.
Agradeceu imensamente Itachi ter percebido seu estado e passar a mão em redor de sua ereção, ajudando a manipulá-la ao passo que o sentia se contorcer e respirar mais forte.Mais fundo, mais forte, naquele ponto exato que o fazia perder o juízo e se contorcer!
Com uma expressão sofrida e um longo gemido sufocado dentro do beijo, Sasuke alcança o orgasmo, melando a sua e a barriga do irmão com seu sêmen, os músculos se retraindo ao redor da ereção de Itachi que se moveu algumas vezes mais, enforcado pelas contrações do interior de Sasuke, alcançando o que tanto precisava, grato por tudo estar terminando. Retirou rapidamente o membro de dentro do outro e o manuseou rapidamente até gemer com o orgasmo que o preencheu, sujando as coxas diante de si com grossos jatos esbranquiçados.
A cena de ver seu herdeiro de contorcendo ao chegar no ápice de prazer enquanto era tomado, enquanto violava o próprio irmão, fez Madara se afundar nele, segurando suas ancas e as marcando com as unhas longas, jorrando tudo bem lá dentro, bem no fundo para que nada se perdesse. Queria que ele sentisse o calor febril do líquido. Seu gemido de prazer vinha acompanhado de uma risada espasmada.
E pensar que perdeu tanto tempo sem fazer aquele acordo. Que desperdício!
***
Levou muito tempo para conseguirem respirar devidamente e o primeiro a se levantar foi Madara, erguendo o corpo de forma majestosa para fitar os netos, estirados na cama, os rostos virados para o lençol, como se não tivessem forças para se levantar.
— … Caso não tenham entendido o recado eu o darei novamente quantas vezes forem necessárias — vestiu um robe de seda negro que estava ao lado da cama, o barulho irritante do tecido passando pela pele não acabava nunca.
Por fim quando ele terminou de amarrar a fita da cintura sequer lhes dirigiu o olhar, com um sorriso de triunfo.
— O termo estará assinado sobre a mesa da presidência amanhã de manhã, na Uchiha Co. Carimbado com o meu selo irrevogável, vocês tem minha palavra. Estejam à vontade para se limpar pelo tempo que precisarem, não pretendo voltar a este quarto hoje.
E assim deixou o quarto, sem sequer olhar para trás ao fechar a porta.
Itachi e Sasuke demoraram alguns minutos para se levantar, porque não sabiam como o fazer, se conseguiriam se encarar... Foi o ruído de Sasuke se levantando que deu forças a Itachi para fazer o mesmo. Eles se limparam como puderam, vestindo apressadamente as roupas, sem dizer uma só palavra. Ao terminarem deixaram o quarto, sem olhar para os lados, sem falar com os empregados, caminhando a passadas duras em direção à saída da mansão Uchiha.
Ao chegar diante da porta principal o motorista havia trazido o carro de Sasuke, visto que Itachi havia ido de táxi. Ambos entraram, colocaram o cinto e o mais jovem conduziu o veículo para fora daquele lugar desprezível, em total silêncio.
Quando finalmente se viu livre do bairro Uchiha, as ruas pareciam desertas por conta do frio da tarde que avançava. As mãos de Sasuke tremeram junto ao volante e ele não suportou. Parou o carro no acostamento, apoiou o rosto nas mãos e todo o choro contido escapou de uma vez da garganta.
Imediatamente em resposta a isso Itachi o abraçou, cerrando os dentes, mas sem se impedir de chorar igualmente. Abraçaram-se, choraram e se esvaziaram de toda a dor que sentiam, murmurando repetidas vezes perdão um ao outro.
E jurando que o contra ataque ao clã começaria imediatamente!
Mal sabia Sasuke que o patriarca não estava em poder de Naruto como havia dito. Ao invés, o Uzumaki estava em poder de Sakura, sozinho, sem saber ao certo o que deveria fazer para escapar de uma mulher inescrupulosa como ela.
E isso antes que ela fizesse algo a ele, ou aos gêmeos.
Continua.
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