Notas iniciais
Olá meus queridos! Quero pedir desculpas novamente pela demora em postar. Dessa vez a explicação é bastante simples, não tenho estado motivada para escrever. Estou numa fase em que estou de cabeça para baixo na montanha russa esperando ela voltar a funcionar para me colocar nos eixos de novo. Estou cansada, triste, doente e sinceramente pensei em não escrever mais. E isso não é chantagem emocional porque não preciso disso, nem motivo para ganhar mais leitores porque vejo os números, sei que vocês lêem embora a maioria não comente. Se quiserme mandar um alô de que é leitor vai me ajudar bastante. Bem, não sei se sou boa escritora, ou se essa história é interessante para você mas se for, comente. Preciso saber, porque não tenho todo o pique necessário para continuar, é provavelmente reflexo de um momento muito complicado que quando penso que se resolveu, volta para me atormentar. Acho que todos temos esses momentos, certo? Mas ainda sinto que será um ano bom, apenas sinto. Vamos falar sobre a fic. Acabei esquecendo de explicar e só depois vi que o parágrafo destinado a isso saiu pela metade quase no finzinho do capítulo. Eu o tinha feito justamente para explicar que o colar foi feito sob medida, e por isso foi tão caro. O que Naruto viu na vitrine era um modelo e precisou personalizar e mandar entalhar. Então desculpem-me se não deu para entender. Vou procurar um tempinho e corrijo isso. Sei que faltaram personagens nesse capítulo, mas a fic já estava grande e estou com sono. Deixarei para o próximo, até porque não farão tanta falta assim. Já tem muita coisa acontecendo. Ah sim e antes que eu me esqueça: Muito obrigada Binha por recomendar essa fic! É sempre uma satisfação sem igual para mim quando recebo recomendações. Não faz ideia da alegria que isso gera em mim! Em um momento desses é mais que em vindo! A boa notícia é que minha preocupação com o trabalho me fez perder sete quilos kkk Ando perdendo o apetite e o sono, mas vou ficar bem. Não copie essa fanfic. Seja autêntico, não receba elogios pelo trabalho dos outros. Sem mais explicações vamos ao capítulo. Boa leitura!

Corria mais do que os pés suportavam, o peito quase sem ar, respirando ruidosamente. Teve que parar por não suportar, encurvando a cabeça, soluçando alto.

As lágrimas caíam sem parar e mesmo tentando manter a voz presa ela escapava da garganta. Tapou a boca, sem conseguir parar de soluçar.

Desgraçado! Maldito bastardo!

Chorou tão alto que teve vergonha. Ficou aliviado que estivesse sozinho no meio da noite, na rua deserta, porque não seria capaz de parar de chorar mesmo se alguém o visse.

Lhe dera tudo... Todo o amor que possuía no fundo de seu coração. Havia pensado em cada pequeno detalhe, em maneiras de fazer aquele ruivo feliz!

Mexeu em sua rotina, adaptou toda a sua vida. E tudo para quê?

Esfregou os olhos, irritado consigo mesmo, e com a dor latente que o paralisava, o impedia de pensar e fazer qualquer coisa. As pernas tremeram então apoiou uma das mãos no joelho.

Precisou respirar fundo, negar mentalmente milhares de vezes, até que houvesse se dado conta de que era impossível acordar do pesadelo terrível em que estava.

Menma endireitou o corpo, recostando o ombro de uma vez no muro, sobre o ferimento já cicatrizado.

E pensar que quando se machucou para salvar Naruto durante a fuga do hospital, depois de todo o pavor que passou, a única coisa que latejava em sua mente era a vontade enlouquecedora de ver Gaara mais uma vez.

Aquele ruivo estúpido foi o que lhe deu forças para não se entregar à morte, para lutar e resistir.

Porque queria vê-lo uma vez mais.

E no fim das contas ele havia escolhido Matsuri, mesmo depois de tudo que haviam partilhado juntos!

Que raiva...

Ficou parado algum tempo, sem se mover, os olhos quase fechados fitando os pedregulhos e sujeira largada no chão da calçada. Quando conseguiu recuperar ao menos um pouco das forças resolveu caminhar. A brisa fresca da noite ajudava a relaxar, era uma boa caminhada até sua casa.

Exatamente o que precisava. Sorte ter ido de carona porque provavelmente largaria o veículo no estacionamento do shopping. Não seria capaz de voltar àquele lugar.

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Gaara vasculhava entre a multidão, um desespero inclassificável crescendo no peito.

Precisava encontrá-lo! Precisava se explicar.

Muito embora nem soubesse o que explicaria. Não sabia nem ao menos explicar a si próprio o que estava acontecendo.

Só o que entendia é que quando viu Matsuri precisou se aproximar, o sentimento foi mais forte que ele mesmo. Precisava ter certeza de tudo que sentia.

Mas quando viu o olhar desapontado de Menma... Seu mundo desabou.

Vasculhava com os olhos mas não havia nada, em lugar algum. Ele não estava mais no shopping, se estivesse já o teria encontrado antes.

Teve vontade de esbravejar, furioso consigo. Os olhos verdes arderam.

Mas que droga! O que estava acontecendo? Se amava Matsuri, se ficou tão feliz ao revê-la então porque doía tanto perder Menma?

A quem ele realmente amava? O que estava acontecendo?

Passou a mão pelos cabelos, fechando bem os olhos ou desabaria num choro constrangedor no interior do shopping.

Não era conveniente que alguém o visse em tal estado. Sobretudo Matsuri.

Um estalo passou por sua mente e ele pareceu despertar.

Matsuri! Onde ela estava? Havia largado-a sozinha!

Deu meia volta, sabendo ser um completo idiota! Magoara as duas pessoas mais importantes de sua vida de uma única vez, sem que nenhum dois tivesse culpa da confusão de sentimentos que estava em sua mente.

Porque o amor era tão complicado assim? Sempre soube que não era capaz de amar, que não nasceu pronto para tal tipo de sentimento, e estava mesmo certo. Só o que conseguia era sofrer terrivelmente.

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Encontrou-a já na saída do shopping, aguardando um taxi.

A jovem de cabelos castanhos virou-se calmamente ao ouvir seu nome e se manteve imóvel enquanto o aguardava se aproximar dela.

— Matsuri... — respirava depressa e estava vermelho pela corrida. Ao fitar seus olhos ela teve a certeza de que ele andara chorando.

O ruivo buscou as palavras certas, mas elas faziam questão de desaparecer de dentro dele.

Céus o que deveria dizer numa situação como aquela?

Balbuciou algo, virando o rosto, completamente confuso.

— Ahn, eu só... É que eu...

— Quem era aquele rapaz, Gaara? — ela perguntou muito calmamente.

— Ele é... Menma, meu subordinado.

— Vocês estão saindo? — continuava séria, mas adivinhara tudo pelo modo como o moreno com bigodes de raposa olhou para Gaara. Parecia ferido e frustrado.

Gaara corou até a cor do rosto se fundir aos cabelos rubros.

— Não... Nós apenas.

Matsuri volveu um olhar ressentido ao ruivo.

— Você está envolvido com aquele rapaz. É nítido no seu rosto, não adianta negar.

Gaara corou com isso.

— Não, eu só...

— Por que não me disse nada antes?

Ele não sabia responder, porque estava horrivelmente confuso.

—... Sonhei em te ver outra vez cada um desses dias, Matsuri. E quando achei que nunca acontecesse novamente, você surgiu diante de mim. Eu não soube o que pensar, principalmente porque não sei dizer se ainda te amo.

— Mas aposto que não queria magoar aquele rapaz, não é?

Ele assentiu que sim.

— Eu não vou desistir de nós, e quero que saiba disso. Mas também não vou aceitar essa situação, Gaara — mesmo baixa ela falava com uma incrível firmeza — Não foi para isso que quis reencontrar você. Se já gosta de outra pessoa então nosso tempo definitivamente já passou.

— Eu nunca quis que você terminasse comigo Matsuri. Até hoje não entendo porque me deixou.

— E não acha que esta fazendo o mesmo agora? Você não sabe o que sente Gaara. Diz que me ama, mas está abalado porque magoou aquele rapaz.

— Isso não é verdade, eu sempre amei você.

— Você não entende suficientemente a si mesmo para saber o que é amar de verdade — os olhos castanhos pareceram incrivelmente calmos. Era nítido que ela o compreendia como ele mesmo não era capaz de fazer — Foi por não saber o que você sentia por mim que decidi te deixar. Sei que estava errada, deveria ter falado com você desde o princípio, mas quero consertar esses erros, se ainda estiver disposto a tentar ficar comigo. E para isso terá de escolher.

Os olhos verdes tremeram.

— E então, Gaara? Pode escolher entre ficar comigo ou com aquele rapaz? Porque não posso aceitar essa situação. Ou fica com ele ou fica comigo.

Gaara por sua vez fechou os olhos, respirando profundamente. Quando reabriu havia uma determinação cega neles.

—... Eu escolho ficar com você, Matsuri.

—-

— ELE FEZ O QUÊ??? — esbravejou com tanta força que Minato pensava se as paredes estariam tremendo. Fez sinal para ela baixar o tom de voz.

— Mais baixo Kushina, por favor.

— Você quer que eu me acalme quando o Sasuke veio até aqui dizer esse monte de absurdos ao meu filho grávido de gêmeos??? Em uma gravidez de risco???

— Sei exatamente como se sente, mas o importante agora é cuidarmos do Naruto. Ele está passando por um momento terrível.

— E de quem exatamente é a culpa? — frisou bem.

— E é justamente por causa do que o Sasuke fez que temos que apoiar o Naruto até tudo ficar bem. Ele não está se sentindo bem desde ontem.

Kushina nem quis ouvir mais, irritada por só saber de todo ocorrido no dia seguinte. Bateu à porta do quarto do filho três vezes, como fazia desde sempre.

— Naruto, sou eu. Vou entrar, está bem?

Não obteve resposta e entreabriu a porta de uma vez, sem a menor cerimônia. Sabia que o silêncio de Naruto dizia muito sobre ele, e que muitas vezes era um pedido a uma longa conversa.

Para sua surpresa encontrou o rapaz sentado sobre a cama feita, vestido para sair. Segurava um dos lados da saliente barriga de gravidez parecendo tenso e atento.

— Naruto, nós precisamos conversar querido — caminhou em direção a ele, porém teve a mão segurada e levada ao lado esquerdo da grande e redonda barriga do filho que pôs a própria mão em cima, fazendo um pouco de pressão. Kushina franziu bem a testa, atenta ao rosto sério do filho. Bateu os olhos naqueles olhos azuis e entendeu tudo imediatamente.

Minato que adentrou o quarto e não era tão sensitivo ao filho como uma mãe o faria ficou confuso. Aproximou-se curioso.

— O que vocês dois estão fazendo?

—... Está se mexendo — Kushina adiantou, mas estava séria. Minato arregalou os imensos olhos azuis.

— Os bebês? — surpreendeu-se e acabou indagando o óbvio.

Era uma notícia feliz saber que eles estavam se mexendo, era um momento muito aguardado numa gravidez!

Mas então porque estavam ambos tão sérios?

— E isso não seria motivo de alegria? Qual deles será que está se mexendo?

— Pegue as chaves do carro, Minato — havia urgência na voz da esposa, coisa que o surpreendeu.

— Mas por quê? O que está acontecendo?

— Apenas um deles está se mexendo — Kushina adiantou, atenta ao rosto extremamente pálido do filho — E isso não é normal.

Naruto soltou o ar devagar, porque a tensão era suficiente para sufocá-lo. Levantou-se e disfarçou a expressão de dor, mas mordeu o lábio e expirou bem forte, segurando o lado dolorido de sua barriga, que estava com um inchaço e rigidez incomum. Não conseguiu manter o fingimento por muito tempo porque a dor estampava-se em seu rosto.

Havia alguma coisa errada com um dos bebês, e talvez o senso paterno o fizesse sentir exatamente qual deles. Isso o enchia de temor somente por imaginar que algo pudesse acontecer.

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Havia se esquecido como era viver naquele lugar, em companhia daquela mulher.
Sasuke estava assentado junto à grande janela, observando através do vidro as ruas movimentadas lá embaixo. Mantinha-se imóvel, os olhos foscos e perdidos. Não pensava em algo específico, até porque sua mente negava-se a trabalhar devidamente.

Há muito que não voltava ao apartamento que dividia com Karin. De certa forma até havia esquecido como era o interior dele. Os dias tristes e melancólicos que passou naquele lugar desapareceram por completo depois que se mudou. Depois de conhecer quem mudou sua forma de agir e pensar.

Depois que encontrou aquele loiro idiota, cabeçudo e barulhento.

A culpa, raiva e frustração remoíam seu peito, fazendo-o recordar da noite anterior. Do modo como aqueles lindos olhos azuis o miravam cheios de rancor e frieza, como jamais imaginou que os veria.

Passou a noite toda em claro revendo a cena em sua mente, repetidas vezes.

Ele estaria bem? Acabou recebendo uma notícia tão bombástica, de um modo tão brusco! Temia que ele acabasse passando mal de tanto nervoso. Ou que algo pudesse acontecer às crianças.

Não teve outra escolha, Naruto jamais entenderia, e ele precisava ficar seguro. Sasuke teve de fazer isso, teve de se despedir daquela forma brusca... Era o único jeito.

Fitava o celular sobre o móvel. Recebeu diversas ligações e em todas elas sem exceção achou tratar-se do loiro. Seu coração disparava sempre que atendia.

Mas eram somente informes de trabalho, cobrando prazos, uma vez que Sasuke não havia ido trabalhar e desorganizara a rotina da presidência.

Um ruído quase minúsculo surgiu quando os chinelos macios batiam contra o piso, passos calculados e comedidos. A jovem ruiva caminhava até ele devagar, um sorriso tímido no rosto.

— Meu amor você não comeu nada desde ontem — sorriu timidamente, colocando sobre a mesa de centro um prato com uma sopa cremosa de tomates, ainda fumegante.

Ele fitou distraidamente o prato, sem interesse, para então erguer o olhar à mulher diante de si.

Karin estava tão magra que parecia esquelética, os olhos fundos e cansados, mas ela sorria como se Sasuke fosse seu maior motivo de alegria. Como se as forças houvessem retornado e todo o tormento que passou houvesse desaparecido.

Normalmente Sasuke responderia rispidamente, a mandaria embora, que o deixasse sozinho. Mas apenas negou com a cabeça.

O que ela já havia feito era irrelevante agora, porque tinha problemas maiores. E porque estava sentindo tanta dor que se perguntava até onde seria capaz de seguir, o que seria capaz de fazer por Naruto, para ficar com ele.

—... Não estou com fome- retrucou, volvendo o olhar para a janela.

Karin agitou as mãos no colo, parecendo aflita.

— Posso fazer outra coisa pra você se quiser. Talvez um suco, sei que você gosta.

— Por que você faz isso?

Ela piscou sem entender.

— Como é?

— Por que se sujeita a qualquer coisa? Por que faz tudo isso por mim mesmo sabendo que eu não vou retribuir seus esforços, que serei rude com você?

Ela riu, como se a resposta fosse muito óbvia.

— Porque eu amo tudo em você, Sasuke! – seus olhos brilharam sonhadores – Sempre amei, e sempre vou amar. Não importa o que me diga ou faça.

Ele continuou muito sério enquanto a fitava.

—... Quando esteve distante de mim no tempo em que nos separamos, o que sentiu?

— Achei que fosse morrer. Eu não existo sem você Sasuke!

Ele piscou devagar.

— ... Então deve ser capaz de entender como me sinto agora.

Karin se calou, o sorriso morreu no rosto. Sasuke endireitou o corpo, ficando de frente, encarando-a diretamente.

Aquela conversa já havia se postergado demais, era imprescindível que a tivessem para acertar as coisas de uma vez.

— Nós dois estamos casados, essa é a realidade. Mas, mesmo que você insista, que use de força para ficarmos juntos, eu não sou capaz de retribuir. Continuarei amando outra pessoa.

— Mas Sasuke, eu... — tentou iniciar mas ele ergueu a mão ao ar, pedindo tempo e silêncio.

Precisava terminar.

— O que você diz sentir por mim é de certa forma parecido com o que sinto por Naruto. E essa mesma sensação terrível que você teve ao se afastar de mim é o que estou sentindo agora. Uma dor maior do que posso suportar — admitiu, sem hesitar, os olhos cansados piscando devagar.

A sinceridade dele era perturbadora para uma pessoa tão cega de amores quanto Karin. O modo como via a verdade estampada nos olhos dele a fazia sentir que nada do que fizesse ou dissesse teria sentido. Ele jamais seria dela.

—... Meu querido, você só precisa entender que somos destinados a ficar juntos! Eu vou amá-lo o suficiente por nós dois! Vou fazê-lo esquecer suas dores e tristezas!

— Mesmo que continuemos casados nada mudará nada entre nós, Karin. Não vou me apaixonar por você. Nosso contrato logo terminará e querendo ou não, vamos nos separar.

— Ainda podemos renovar o contrato!

— Eu seria terrivelmente infeliz, Karin – continuou, com seu timbre grave, mas pacífico.

Porque estava exausto e precisava que ela escutasse o que nunca foi capaz de lhe dizer diretamente em uma conversa. As palavras normalmente eram cuspidas em meio ao fervor da discussão.

— Não posso viver com alguém que não amo, pensando constantemente em outra pessoa. Você seria a responsável por fazer de mim um homem frustrado e infeliz. É isso o que quer para a pessoa que ama?

Ela ficou quieta um instante, e então fez que não com a cabeça.

— Claro que não! Eu só quero que você seja feliz!

— Se quer mesmo me ver feliz Karin... Deixe-me ficar com a pessoa que amo. Por favor... Deixe-me criar meus filhos, ficar com eles.

—Não! — sua voz subiu repentinamente — Você só pode ser feliz estando comigo! Ninguém mais te entende como eu!

Ele suspirou pesadamente.

Não adiantava, ela não era capaz de compreender.

— Se é o que tanto quer então eu farei isso, para manter Naruto, Aiko e Daisuke à salvo do clã Uchiha. Vamos ter um filho Karin.

O sorriso dela se ampliou tanto que o rosto parecia pequeno para contê-lo, mas ele prosseguiu.

— Contudo será por inseminação artificial. Não vou me deitar com você.

Ela pareceu visivelmente abalada com isso, sem tempo para retrucar.

— E também não serei um pai presente, nem serei seu marido. Ao fim do tempo de contrato vamos mesmo nos divorciar. Arcarei com toda a responsabilidade de sua gravidez, darei meu nome e tudo que essa criança precisar em questões materiais, mas será somente isso.

— É o mesmo que não estarmos casados!

— É minha condição, Karin. Você escolhe se aceita ou não. Para o clã basta que eu tenha um herdeiro e o reconheça como tal, não há necessidade de envolvimento algum. Principalmente porque essa criança será doutrinada para a sucessão. Logo, não será livre para fazer o que quiser, para brincar como qualquer criança normal de sua idade. Nós dois, como pais, nem a veremos crescer. Ela viverá longe de tudo, rodeada de adultos rígidos, exatamente como foi com Itachi e comigo.

Ainda que não sentisse algo especial pela criança que pretendia gerar com Karin, teve pena dela. Nenhuma criança deveria crescer no seio Uchiha. Era uma forma eficaz de matar sonhos, esperanças, saúde e alegria. Um molde para um adulto detestável.

Karin por sua vez ponderou por um instante.

Era melhor aceitar. Estava certa de que quando Sasuke visse sua barriga crescer mudaria de ideia, que olharia sua barriga como olhava a de Naruto. Amaria aquela criança! E isso o faria ficar com ela. Era só questão de tempo.

Sorriu.

—Eu aceito suas condições. Sei que seremos muito felizes, Sasuke.

Ele não respondeu, volvendo o olhar à cidade movimentada lá embaixo.

—... Como quer chamar nosso filho?

— Tanto faz para mim. Pode escolher.

Ela se enfezou com isso.

— Mesmo? Então se for uma menina talvez eu a chame de Aiko!

O Uchiha se virou no mesmo instante, furioso.

— Não teste minha paciência Karin! — ergueu a voz no ar e ela se encolheu, um tanto ressentida.

Queria conversar sobre o filho que teriam juntos, escolher nomes, se divertir escolhendo roupas!

Por que Sasuke não compreendia sua alegria ao saber que seria mãe? Que teria nos braços a criança que sonhou por tanto tempo, o filho de seu amado!

Bem, isso tudo mudaria quando engravidasse. Estava certa disso.
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Uma exaustiva bateria de exames, de intervenções invasivas, aparentemente às pressas. Tudo isso preocupava o loiro. Era óbvio que nada do que estavam tentando nutria efeito, e isso fazia sua angústia aumentar.

Definitivamente havia algo errado com um dos gêmeos, mas mesmo que indagasse diversas vezes ninguém lhe dizia nada, como se temessem lhe contar a verdade. No instante em que o médico entrou na sala não pode esperar mais e exigiu respostas.

— O que está acontecendo, doutor? — queria respostas imediatamente, porque estava muito nervoso com toda aquela situação.

O homem o encarou seriamente.

—Creio que em algum momento lhe avisaram de que a gravidez de um compatível é muito complicada não é?

— Como os gêmeos estão? O que aconteceu com eles?

— Assim como em qualquer gestação de risco você teve complicações, e isso afetou um deles.

— Qual? — o nervosismo aumentou de uma vez, impedindo-o de pensar direito — Qual dos dois está doente, doutor?

— O menino.

Naruto fechou as pálpebras tão forte que era difícil reabri-las.

Em partes já sabia, conseguiu pressentir que Daisuke precisava muito dele.

—... O que ele tem? Que tipo de complicação é essa, doutor?

O homem ajeitou os óculos no nariz.

— Gestação de compatível, ainda mais de gêmeos, é bastante complicada. Temos poucos relatos bem sucedidos — iniciou pausadamente — No seu caso, o menino apresentou uma complicação grave no coração, que influencia diretamente seu desenvolvimento, isso sem falar nos problemas aliados a este.

— E existe algum jeito de cuidar dele? O que eu preciso fazer para salvá-lo, doutor? Eu faço o que for preciso! — havia um desespero nítido nos olhos azuis.

Faria o que fosse preciso para cuidar de seu bebê, para deixá-lo bem. A simples ideia de que estivesse sofrendo o martirizava.

— A verdade senhor Uzumaki é que neste momento a funcionalidade do coração dele está seriamente comprometida. O ritmo está lento demais, o que acarreta diversos problemas, e enfraquece o corpo. Podemos tentar alguns tipos de medicação, uma vez que ele não responde bem a nenhuma intervenção que tentamos. Vou lhe passar algumas medicações que deve tomar com muita atenção, todavia é bom que saiba que é um quadro bastante grave. E não há garantias de que ele possa se salvar. Creio que seja melhor se preparar para o pior.

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Ao deixar o hospital Naruto ainda se sentia zonzo e confuso, sem conseguir digerir aquela informação.

Até poucos dias atrás estava tudo bem e de repente sua vida se transformou num completo inferno!

Não podia mais envolver ninguém em seus problemas. Era um homem adulto e ainda que estivesse em estado delicado devido à gestação não se deixaria abater. Não ficaria em casa esperando por respostas, as queria imediatamente.

E acima de tudo: jamais usaria o atual estado de saúde de Daisuke como desculpa para trazer Sasuke de volta. Se por acaso reatassem seria devido ao amor que sentiam e não por culpa ou remorso. Seu filho já estava passando por um momento muito difícil, não queria somar essa dor à ele.

Selecionou o número de Sasuke na tela do celular, respirando fundo enquanto ouvia o sinal de chamada discando. Tocava, mas ele não atendia. Ao fim do décimo toque sem sucesso suspirou e desligou. Pressionou na tela o botão de gravar áudio, sem se importar se mais alguém ouviria ou não.

Estava cansado de fugir dos Uchiha como se fizesse algo errado.

—... Sasuke, sou eu. Não posso aceitar as coisas como estão agora. Se realmente quer terminar tudo então o que quero é apenas uma conversa. Quero que explique os motivos que o levaram a decidir isso. Preciso que olhe em meus olhos e diga que não sente mais nada por mim, porque do modo como tudo está acontecendo agora não sou capaz de desistir. Vou esperar por você hoje no restaurante em frente ao local em que nos conhecemos para almoçarmos e resolvermos essa situação de uma vez.

Soltou o botão e a mensagem carregou, até ter sido enviada. Continuou olhando a tela por um instante, para ver se o sinal de mensagem ouvida aparecia.

Mas nada aconteceu por um longo tempo. Aguardou, fitando a tela do celular, até que deixasse isso para lá e se concentrasse em outra coisa, voltando para casa.

Horas mais tarde procurou o aparelho para falar com sua mãe.

E seu coração disparou ao perceber que havia um sinal de que sua mensagem havia sido ouvida enfim. Mas não havia resposta alguma.

Não importava, o esperaria como o prometido. Era sua maneira de tentar resolver as coisas.

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O clima não poderia ser mais tenso.

Não haviam se falado mais desde o ocorrido. Menma ignorou todas as muitas (muitas mesmo) ligações de Gaara. Quando via a foto do ruivo acender em seu celular, indicando ligação dele, ignorava, a já conhecida música especial que selecionara como toque invadia o ambiente, apenas para lembrar de tudo que andava martirizando-o.

Mas a manhã de mais um dia de trabalho não tardou, e não poderia fugir de seus problemas, precisava encará-los de frente. Foi o que levou Menma a trabalhar naquele dia, os olhos inchados, vermelhos e imensas olheiras contornando-os. Odiou mais que tudo admitir que estava parecendo o próprio Gaara com os olhos contornados de preto daquele modo.

Ao passar pelos colegas de trabalho não houve quem não percebesse que havia algo errado. Menma era sempre cheio de energia logo pela manhã, brincava e sorria, chegava a encher a paciência do setor inteiro. Ao invés, ele apenas acenou e desejou bom dia, seguindo em silêncio até sua mesa e colocando os fones de ouvido.

Agora entendia as pessoas que diziam não ter coragem de iniciar um relacionamento no ambiente de trabalho, porque se não desse certo ainda teria de conviver com a pessoa em questão. Precisava alinhar milhares de questões com chefe ou não concluiria seu projeto, e não estava com a menor vontade de fazer isso.

Hinata e Ino se encararam, curiosas.

—... Ino, o Menma não parece triste hoje?

— Achei que não viveria para ver essa criatura quieta — a loira suspirou, os imensos seios quase estourando os botões da camisa — Dá uma melancolia desagradável vê-lo assim não é?

— Acha que brigou com o senhor Sabaaku?

— Não vejo outro motivo para tanta tristeza. Teremos certeza quando o chefão chegar.

A Hyuuga assentiu que sim.

Por serem amigas de Menma e partilharem a maior parte do dia juntos, aprenderam a interpretá-lo. Sobretudo o modo como os olhos do moreno brilhavam quando estava perto do chefe. Era óbvio que estava apaixonado.

Um tantinho mais tarde Gaara chegou ao setor, parecendo tão ou mais acabado que Menma. O Uzumaki ouviu seus passos e sua voz baixa desejando bom dia, mas não ergueu o rosto ou retirou os fones de ouvido. Seu corpo ficou tenso. A raiva era imensa, mas a tristeza parecia ainda maior.

"Passe direto, por favor. Vá para sua sala e me deixe em paz!" — implorava mentalmente. Não estava pronto para conversar com ele ainda.

Ignorando seu desejo, Gaara se detém diante de sua mesa. Menma expira bem fundo e então ergue os olhos aos dele, retirando os fones de ouvido.

Um silêncio esmagador se instalou, sem que conseguissem dizer coisa alguma.

—... Bom dia senhor Uzumaki... — desviou o olhar, muito desconcertado.

—... Bom dia senhor Sabaaku — acenou educadamente — Preciso de mais algum tempo antes de lhe entregar o projeto em que estou trabalhando.

— Sei disso, mas solicito que venha até minha sala agora. Temos algo importante a tratar.

O olhar de Menma pareceu feroz.

— Que eu saiba não temos nada a tratar exceto este trabalho. E já lhe disse que preciso de mais algum tempo.

Gaara pareceu tão irritado quanto.

— Se estou dizendo que temos de conversar é porque tenho um assunto pendente e importante, do contrário não pediria!

— Não seria coisa de sua cabeça, senhor? — Menma prosseguiu, atrevido como era. O clima de tensão era sentido pelo andar inteiro que os assistia.

Menma seria aclamado como o único com coragem suficiente para desafiar o chefe daquela maneira.

— Está me questionando?

— Não, apenas sei que o que tem para me dizer é uma completa besteira!

O sangue do Sabaaku ferveu nas veias e quem estava perto correu para se abrigar. O Uzumaki ao contrário continuava a encará-lo ferozmente, sem se intimidar.

— Está me desacatando senhor Uzumaki? Ficou louco por acaso?

— Se tiver algum assunto de trabalho a tratar comigo então terei prazer em discuti-lo o dia inteiro se preciso. Do contrário peço que me deixe em paz! Estou muito ocupado!

— Posso demiti-lo por este comportamento Menma! — a raiva cresceu a ponto de não perceber que o chamara pelo primeiro nome, a voz explodindo estrondosa. Menma explodiu em resposta.

— Então faça isso Gaara! Se estava procurando um motivo para não me ver mais acabou de encontrar! — o azul vívido de seus olhos se tornou revolto como um tornado.

Ninguém nem respirava perto dos dois. Gaara avançou, segurando-lhe o braço.

— Na minha sala, agora! — puxou-o e Menma rosnou de raiva, livrando-se com um safanão.

— Sei andar! Não precisa me puxar!

Levantou-se ante ao olhar irado do ruivo e seguiu à frente deste, em direção à sala da diretoria. Gaara praguejou e apressou-se a encontrá-lo.

Quando entraram na sala e fecharam a porta os demais funcionários do setor se encararam sem dizer uma única palavra. Ao longe Ino e Hinata se entreolharam.

—... Ui, parece que o negócio foi feio.

— Se eu ouvir algo te mando por mensagem mais tarde, Ino.

Ela riu e apertou as bochechas da pequena Hyuuga que resmungou, pedindo que a soltasse.

— Você é tão bonitinha. Me admira que ainda esteja solteira.

— P... Pare com isso! — retrucou, vermelha.

—-

Respirava tão forte que era difícil até pensar. Poderia socar a pessoa diante de si.

— Posso saber que droga de reação foi essa Menma?

— E você ainda pergunta? Quer discutir a relação? Pois não use o ambiente de trabalho para isso!

— Não é isso, droga! Você... Saiu sem me deixar explicar nada!

— E tem o que explicar? Você se aproveitou do fato de eu não estar por perto para ficar com aquela mulher!

— Eu sempre lhe disse que ainda sentia algo por ela! Nunca menti pra você Menma!

— Não me importo com o que pensa, ou com o que quer fazer de agora em diante. Tentei o meu melhor, fiz tudo para entender você e aceitar sua situação. O que eu queria era somente consideração de sua parte. Você me traiu, e isso eu não posso perdoar.

— Como posso tê-lo traído se não estamos namorando?

— Estávamos saindo, e foi você mesmo quem aceitou! Isso por si só não lhe dava direito de fazer o que fez comigo. Se queria ficar com ela então bastava falar isso diretamente a mim, e não brincar comigo. Foi uma atitude completamente sem caráter!

Gaara engoliu em seco.

— Eu...

— Desculpe, tenho que voltar ao trabalho.

— Espere, Menma!

— Por favor não use meu primeiro nome no ambiente de trabalho senhor Sabaaku. Foi o senhor mesmo quem disse que abomina essa prática.

Retirou-se deixando um ruivo confuso e desolado para trás.

Odiava mais que tudo admitir, mas magoar Menma acabava consigo. O modo como ele o olhava, como parecia desapontado, fazia seu coração despedaçar.

Sem controle corre para fora de sua sala, chamando atenção ao avançar pelo corredor seguindo as costas largas do Uzumaki.

— Menma! – ergueu a voz e todos se espantaram o ouvi-lo chamar o Uzumaki pelo primeiro nome.

Este se virou devagar, indiferente.

— Ainda precisa de algo, senhor Sabaaku?

— Eu... Nós ainda não terminamos nossa conversa!!! – retrucou vermelho.

— Pode ficar para depois porque há várias questões pendentes que ainda preciso finalizar. Com sua licença.

— Eu estou te dando uma ordem!!! – vociferou em completa cólera.

Menma se irritou com isso.

— Não posso acatar uma ordem que não condiz com meu trabalho, senhor. Resolva o que tiver de problemas pessoais fora da empresa por favor – tendo dito isso deu-lhe as costas e seguiu seu caminho.

Não havia o menor ruído, ninguém acreditava que Menma houvesse respondido Sabaaku no Gaara daquela forma.

E mais ainda que ele houvesse se calado!

O ruivo não pareceu se importar com os olhares. Estava muito aflito.

Queria conversar com Menma, resolver as coisas. Queria tê-lo de volta!

havia escolhido Matsuri, mas agora que sabia ter perdido Menma estava arrasado! Sentia falta do sorriso dele, do olhar apaixonado, das palavras de amor exagerado.

Uma expressão angustiada cruzou seu rosto, estava à beira de enlouquecer.

Precisava dele. Queria-o por perto, em cada pequeno momento de sua vida. Não entendia tamanha tristeza, ainda mais agora que finalmente reatou tudo com Matsuri...

Olhou irritado as cabeças que o fitavam por cima das divisórias.

— DE VOLTA AO TRABALHO!!!!

—-

Naruto assentou-se calmamente junto à mesa do charmoso restaurante, cruzando as mãos e apoiando o queixo sobre elas. Do local em que estava podia visualizar com perfeição o palacete em que foi realizada sua festa de noivado com Sakura. Era possível ver a sacada, a varanda ao qual se dirigiu para tomar um pouco de ar.

O local em que conhecera Sasuke. Onde quase o beijou pela primeira vez.

Um sentimento de pesar o invadiu. De certa forma Sasuke o salvou de um relacionamento destrutivo, mas acabou por jogá-lo em outro.

Estava nervoso, há muito que não se sentia assim antes de encontrar-se com ele. Seu coração batia como louco dentro do peito, olhava o relógio de minuto em minuto.

Queria muito vê-lo de novo, tanto que a angústia parecia insuportável.

Pediu apenas um suco enquanto aguardava sentado junto à mesa. O nervosismo era tanto que não viu o tempo passar, avançando conforme outras pessoas chegavam e saíam das mesas em redor. Fitava a porta de entrada, ansiando ver a silhueta esguia do moreno passar por ela.

Mas ele não apareceu. E Naruto concluiu desgostoso ao fitar o relógio que havia se passado quase duas horas do horário marcado.

Ele não viria, definitivamente.

Largou uma nota de dinheiro sobre a mesa e se levantou sem dizer nada, sem olhar para os lados. Seu peito parecia feito em mil estilhaços, pequeno para suportar tanta dor.

Era mesmo o fim para eles, havia perdido Sasuke.

No outro extremo da avenida o Uchiha acompanhou os passos de Naruto e precisou de muita força de vontade para não descer do taxi e correr até ele.

Esteve em uma luta contra si mesmo por todo aquele tempo, desejando mais do que tudo descer para encontrá-lo e dizer toda a verdade, o que estava acontecendo, o modo como sua vida tornara-se infernal e vazia sem o loiro escandaloso a seu lado.

E que precisava dele mais do que tudo!

Mas, quando pensava em tudo que Naruto e os gêmeos poderiam sofrer nas mãos de Madara, no perigo a que exporia sua mãe... Perdia a coragem.

Ainda que fosse doloroso para ambos era o melhor a se fazer. Assim ao menos os protegeria.

—-

Os dias pareceram se arrastar, assim como a preocupação de Naruto.

Esteve em consulta diversas vezes, e a perspectiva sempre piorava.

Estava na sala de espera do consultório médico porque novamente passou mal. Era um fator tão comum que sentia-se péssimo por preocupar seus pais. Eles pensavam até mesmo em se desligar do trabalho para cuidar dele.

Por isso fingia estar bem, para que saíssem sem remorso e prosseguissem sua vida. Naruto já andava se sentindo mal o suficiente por depender tanto dos outros. Estava farto.

Desde a briga com Sasuke percebeu que não era mais seguido pelo tal Kakashi ao qual zelava por sua segurança. Isso apenas provava que Sasuke falara sério em desistir de tudo.

E sinceramente, achava melhor não ser seguido. Queria cuidar de seus próprios problemas sem depender de ninguém. Uma força que não pensou existir nele havia despertado para proteger Daisuke. Queria muito que seu pequeno sobrevivesse.

O olhar do médico ao chamá-lo de volta ao consultório o fez juntar toda a determinação que possuía dentro de si.

— Temo não ter boas notícias — iniciou, pouco depois de fechar a porta do consultório.

— O que vai acontecer ao Daisuke?

— Ele não parece reagir à medicação. Você a tem tomado corretamente?

— Óbvio, doutor. Não está surtindo efeito?

— Receio que não.

— E a Aiko? Como ela está?

— O outro gêmeo não apresenta problemas, mas não podemos aplicar uma medicação mais forte para não prejudicá-la. Não saberíamos se com isso o menino se salvaria, é muito provável que não. E acabaria afetando a menina também.

— Por favor doutor, tem que haver algo que possa fazer por ele!

— Meu conselho pode parecer um tanto difícil, mas sugiro que pense com cuidado. O menino não tem expectativa longa de vida. É provável que venha a sucumbir nos próximos meses e não chegue a nascer. Como seu médico, aconselho a parar de tomar a medicação. Devemos nos concentrar na menina agora, e se ela continuar exposta a um volume tão nocivo de medicamentos pode apresentar sérios problemas.

A dor o impedia de respirar.

— Mas... Não tem outro jeito? não existe nenhuma intervenção para salvar meu bebê, doutor? Mesmo se for algo muito caro!

— Nós tentamos tudo que está em nosso alcance, mas ele não reage. Não tem condições de sobreviver, eu sinto muito.

— Não vou parar de tomar a medicação que pode salvar a vida dele!

— Com isso pode comprometer a vida da menina. Perderia os dois ao mesmo tempo.

Passou a mão pelo rosto, muito nervoso.

Negava-se a acreditar que Daisuke estava morrendo. E era inconcebível que ficasse parado enquanto assistia isso acontecer!

— E quando Daisuke nascer? Ele pode fazer uma cirurgia para reparar o problema cardíaco, não é?

— A questão é que do modo como ele está agora não existem possibilidades dele chegar a nascer. Sinto muito, entendo perfeitamente sua tristeza. O que podemos fazer agora é cuidar da menina, para que ela nasça saudável. Não substituirá seu bebê perdido mas pode ajudá-lo a superar o luto.

Os olhos azuis encheram de lágrimas que rolaram pelo rosto quando ele piscou, ainda muito sério. Passou a mão pelo lado inchado, sabendo que era Daisuke que estava ali.

—... A culpa é toda minha. Se eu tivesse me acalmado, se não ficasse tão nervoso com o que está acontecendo, nada disso teria acontecido!

— Não deve se culpar, esse tipo de imprevisto não é incomum em gravidez de compatíveis. Independe de seu estado de espírito.

— Então vou ter que esperar até que ele não se mexa mais? Vou ter que assistir meu bebê morrer dentro de mim?

— Sei que é uma decisão difícil. Alguns pais acham a ideia de o bebê que faleceu continuar dentro da barriga até o momento do nascimento do outro gêmeo muito perturbadora. Se houver riscos de aborto espontâneo ou complicações à menina podemos adiantar um parto prematuro.

Naruto não suportou mais e segurou a têmpora, a mente girando, passando mal. O médico percebeu, e em partes já esperava uma reação assim, não era uma notícia fácil de modo algum. Acudiu-o.

— Vou pedir a uma enfermeira que o mantenha em observação, senhor Uzumaki. Não pode deixar o hospital neste estado.

Ele sequer respondeu, apático, destruído.

O ocorrido com Sasori passou imediatamente por sua mente, e compreendeu com precisão o que ele deve ter sentido.

Era uma dor que com toda certeza carregaria pelo resto da vida.

—-

Caminhava aos tropeços em direção ao ponto de taxi, ainda sem conseguir acreditar.

Estava tão feliz com a chegada dos gêmeos... Como superaria a dor de perder Daisuke? Como contaria aos seus pais, à Sasori e Itachi que pareciam tão radiantes...

E à Sasuke? Sendo o pai ele precisava saber.

Não soube o que fazer ao sair do hospital, estava desnorteado e perdido. A tristeza era bastante para esmagá-lo. Sentou-se em um dos bancos do ponto de taxi, ao lado de outro homem que esperava assentado também. A preocupação era tanta que sequer ergueu o olhar, ou prestou atenção a quem estava ali até que o estranho se virasse, intrigado.

—... Naruto?

Surpreso, ele ergue o rosto apático para fitar o homem a seu lado. Incrível como a vida gostava de lhe pregar peças. Reconheceu-o de pronto, alguém que não via há alguns anos.

—... Sai?

O jovem outrora inexpressivo sorriu abertamente.

— Isso sim é uma surpresa. Não o vejo desde a universidade.

— O que faz aqui? Achei que tivesse se mudado.

— Me divorciei há alguns meses e preferi voltar para minha cidade, refazer a vida por aqui e ver como as coisas estão. Vejo que tudo vai bem para você — apontou a barriga enorme — Nunca soube que é compatível.

Naruto pareceu terrivelmente angustiado e desviou o olhar.

—... Desculpe, parece que você não planejava a gravidez, não é?

—... Não... Eu não sabia ser compatível até pouco tempo atrás.

— Você já devia ter imaginado, sendo tão feminino.

— E você continua indelicado como sempre — retrucou, mas o moreno não se importou.

— Deve ser difícil. Soube que gravidez de compatível tem muitas complicações.

Piscou devagar, sem a menor vontade de falar sobre isso, mas também sem conseguir evitar.

— De fato... E por causa dessas complicações... Um deles está doente — alisou tristemente a barriga.

Sai pareceu intrigado.

— Um deles?

— Estou grávido de gêmeos — nunca imaginou que algum dia sentiria pesar ao admitir seu estado — A menina está bem, mas o menino... Não sei se vai seguir adiante.

Sai observou o rosto pálido e cansado, sentindo pena dele. Naruto sempre foi energético, cheio de vida e alegria. Conquistava quem estivesse no caminho com seu lindo sorriso. Quase não o reconheceu com uma expressão tão melancólica no rosto.

Mas podia compreender perfeitamente sua dor.

—... Sinto muito, Naruto.

—... É tudo porque não consigo ficar indiferente com o que está acontecendo. Minha vida tornou-se uma bagunça — desabafou sem pensar. Conhecia Sai, sabia que poderia confiar nele — Eu preciso me concentrar em cuidar bem dos dois, esse é meu papel como pai, não é?

— Ninguém consegue ficar indiferente o tempo todo, Naruto. Não é sua culpa.

— Eu não quero perder meu bebê — lamentou tristemente — Já consigo até mesmo senti-lo se mover devagarzinho. Ele está tentando tanto! Não posso desistir dele!

Sai não era muito bom em consolar, sequer imaginava qual a melhor coisa a se dizer num caso desses. Tudo que conseguiu fazer foi pousar a mão sobre a do loiro. Leu há algum tempo atrás em um livro sobre relacionamentos que certa dose de contato físico ajudava a superar momentos difíceis.

Naruto fitou com cansaço a mão larga sobre a sua.

—... Somos amigos há tanto tempo, queria te encontrar em um momento melhor ,Sai — sorriu sem muita vontade.

— Não faz mal, estou feliz por termos nos visto de novo. Por hora vou te acompanhar em casa, não pode andar sozinho por aí desse jeito — adiantou.

— Não precisa, de verdade. Eu já estou bem.

O moreno não acreditou e ao avistar o taxi se aproximar fez sinal para que parasse, colocando o loiro sentado e sentando-se ao seu lado.

—... Obrigado, Sai. E me desculpe.

— Não se preocupe. Para mim qualquer momento que passar com você sempre será bom — sorriu — E se estiver angustiado e quiser conversar saiba que estarei sempre aqui para te ouvir.

— Como nos velhos tempos — riu sem muita vontade — Te fiz ficar acordado várias noites me ouvindo falar de Sakura.

— Pode me falar sobre ele agora. De quem exatamente estamos falando?

Naruto se recostou no banco, sabendo que aquela não seria uma conversa fácil.

—... Sasuke Uchiha — relatou, sob o olhar espantado do outro.

—-

Caminhavam de mãos dadas pelos corredores do supermercado, empurrando um carrinho parcialmente cheio de compras. Os passos eram lentos, mas estava feliz com o progresso imenso em tão pouco tempo.

Itachi caminhava perfeitamente, embora não tão depressa. Era a primeira vez que conseguia sair de casa e caminhar uma longa distância desde o dia do acidente. Sasori a seu lado insistia em vigiar cada pequeno passo seu.

— Se sentir dor em algum lugar me avise.

— Sasori, pela última vez: eu estou ótimo.

— Não posso evitar me preocupar.

— Pois vai ficar cheio de rugas — riu e o ruivo o fuzilou com o olhar.

— Está insinuando que estou velho?

— Vai ficar se não parar de se preocupar tanto. Eu já consigo caminhar normalmente agora, e lembrei de muita coisa que havia esquecido. Já pode parar de tentar me proteger de tudo e todos — girou os olhos — O clã Uchiha está preocupado demais com outras coisas para pensar em vir atrás de nós.

— Toda proteção é válida em um momento desses! E não pode brigar comigo por ser super protetor. Você faz o mesmo com Sasuke — girou os olhos também, mirando distraidamente a prateleira cheia de artigos de limpeza em promoção.

— Sasuke é um caso especial. Eu o criei desde bebê, ele não tinha mais ninguém além de mim.

— Mas ele tem o Naruto agora.

— E tem você. Não pode negar que Sasuke trata você como trata a mim. Tenho certeza de que te considera como um irmão mais velho também. As pessoas costumam se atrair pelo seu senso paternal, Sasori. É por causa disso que acredito que será um excelente pai.

O ruivo se deteve e o encarou sério, aproveitando o mencionar daquele assunto.

— Amor, não acha que está demorando um pouco demais? — indagou meio receoso, descendo o olhar ao ventre chapado. Itachi apoiou a mão na cintura porque lá vinha!

— Você está tomando hormônios há poucos dias, Sasori. Não tem como engravidar tão depressa. Os médicos pediram muita paciência pois não será um processo simples.

— Sim, mas... Não sinto nada de incomum. Quer dizer, eu não deveria sentir aquelas coisas de quando sei que fico em período fértil? Como calorão, tristeza ou raiva súbita, vontade de comer doces...?

— Você com crise hormonal é insuportável, não sinto falta disso.

— Estou falando sério! — enfezou-se — Nós já fizemos tantas e tantas vezes, em tantas posições diferentes, e não está dando certo... Acha que devo mudar a alimentação?

— Acho que se ficar preocupado demais não vai engravidar nunca. O primeiro passo é parar de fazer testes de farmácia a cada vez que tentamos. Deixe as coisas acontecerem naturalmente e quando menos esperar vai acontecer.

— Tenho medo de não conseguir nunca.

— Então deixe isso comigo — riu malicioso e passou o braço ao redor da cintura muito esguia, trazendo-o para colar o peito ao seu, sem se preocupar por estarem em um lugar público.

Sasori ainda sentia o corpo quente a cada vez que aquele sorriso safado se estampava no rosto do Uchiha. O modo firme com que o segurava sempre eriçava seu corpo.

— Não me importo de tentar quantas vezes você quiser. Eu adoro ouvir seu gemido.

Sasori corou e displicentemente olhou em redor para ter certeza que ninguém podia ouvir, ainda que Itachi falasse naquele maldito tom sussurrante e insuportavelmente excitante.

Sorriu de volta, os olhos vermelhos faiscando de malícia.

—...Posso ter vontade de voltar para casa mais depressa hoje.

— Acho uma ideia perfeita — beijou o ruivo algumas vezes, em meio ao riso. Sasori nunca resistia àquele Uchiha teimoso e convencido (embora maravilhoso), mas ouviu uma vozinha aguda a chamá-lo.

— Professor?

Sasori por costume se virou. Estava acostumado a atender sempre que alguém o chamava assim, era automático, como se aquele fosse seu segundo nome.

Reconheceu três garotas de uma de suas classes, sorrindo e acenando como podiam porque as mãos estavam ocupadas carregando pacotes de salgadinhos, latas de refrigerante e um pote imenso de creme de avelã. Ao perceberem que era mesmo seu professor que estava ali, fazendo compras casualmente no supermercado ao lado de um homem lindo daqueles vieram eufóricas e sem pedir licença largaram as compras numa prateleira, abraçaram e beijaram-lhe o rosto. Tudo sob o olhar atento de Itachi que, por um momento, foi esquecido.

— Está passeando, professor? — uma delas questionou. Era extremamente baixa, rechonchuda e fofa.

— Compras do mês. E vocês não deveriam estar em casa trabalhando em suas teses? — arqueou uma sobrancelha e elas exclamaram desgostosas.

— Ah prô, acabamos de voltar das férias! O ano mal começou ainda!

— É ano de TCC de vocês. Não reclamem se pegarem DP depois.

— Eu sempre tiro as notas mais altas — a mais velha, de cabelos rebeldes e cacheados estufou o peito, orgulhosa.

— Tenho de concordar.

— E quem é ele? — meio fascinada, a terceira que era alta e bronzeada pergunta olhando para Itachi. Este piscou surpreso ao ter a atenção sobre si.

— É meu marido — o ruivo respondeu calmamente. Elas riram em resposta e sem pedir licença avançaram para Itachi, abraçando e beijando-o também.

— Ooooooi marido!!!

Itachi riu de volta, era como ser atacado!

— Olá meninas.

— Que bom que você melhorou e saiu do hospital porque o professor estava muito triste sem você! — apontou Sasori que enrubesceu de leve. Itachi riu com isso.

— Não pretendo deixá-lo de novo. Nunca mais.

Elas soltaram gritinhos e riram entre si. Sasori corou.

— Já pode parar de me fazer passar vergonha?

Ele apenas piscou travesso dando àquelas garotas um belo momento para lembrar. Sasori precisou desconversar e dizer-lhes que tinham um importante compromisso ou as jovens não os deixariam em paz! Pareciam fascinadas ao ver o casal e cada pequeno gesto deles era seguido por olhares cheio de entusiasmo.

Suspirou de alívio ao vê-las se afastar, tornando a prestar atenção na lista de compras e no carrinho ainda com poucos itens. Itachi seguia-o com o olhar.

— Sasori? — reivindicou atenção e no mesmo instante o baixinho ergueu o olhar.

— Sim?

— Fico feliz que tenha atribuído carga completa de aulas este ano, sei que ama lecionar. E seus alunos parecem gostar de você.

— Eu não teria ficado com tantas aulas se você não insistisse tanto. O mais importante agora é cuidar de você, Itachi.

O Uchiha até quis retrucar, mas sabia ser inútil e apenas esqueceu o assunto. Sabia que Sasori podia ser muito teimoso quando queria.

Algum tempo depois voltaram para casa, embora quietos e relaxados não descuidavam de atenção. Era estranho sair às ruas depois de tudo que aconteceu.

Era como não ter mais liberdade, como viver preso em uma gaiola. Mas se era o único modo de estarem juntos de novo seria o suficiente.

Ao chegarem em casa, fecharem os portões de casa e descerem do veículo, Itachi postou os olhos em um envelope incomum na caixa do correio. Por costume Sasori já ia pegá-lo, mas o Uchiha impediu segurando-o pelos ombros.

— O que foi?

— Esse envelope é padronizado, não existem cópias dele. É uma correspondência do clã Uchiha.

Ao ouvir o nome o ruivo arregala os olhos.

— Melhor abrir fora de casa então. Em se tratando de seu avô eu não me surpreenderia se fosse uma bomba ou gás venenoso que saísse daí.

Itachi partilhava do mesmo sentimento, mas tateou o envelope negro de tamanho médio, percebendo que não havia nada exceto papel. Abriu o envelope cuidadosamente, espiando seu interior.

Deparou-se com um papel timbrado de excelente qualidade, as letras impressas em tinta dourada, quase como um convite de casamento. Nele, dentre outras informações, era possível ler:

" (...) A família Uchiha convoca formalmente o herdeiro Itachi Uchiha para a cerimônia de renovação de contrato nupcial e posse de direitos de Sasuke Uchiha com Karin Uchiha, a se realizar na data em epígrafe, no interior da mansão Uchiha. O traje cerimonial Uchiha é obrigatório e não será admitida a entrada de pessoas não autorizadas"

Itachi empalideceu no mesmo instante. Sasori se esticou todo para conseguir ler. Piscou diversas vezes porque nem conseguia acreditar.

— Renovação de contrato nupcial? Posse de direitos??? Mas o que tudo isso quer dizer?

— Significa que Sasuke planeja voltar a fazer parte da casa sede — respondeu em tom calmo, relendo o conteúdo da carta tão enigmática e sem compreender coisa alguma.

— Pode ser algum tipo de provocação. Não seria a primeira nem última vez — o ruivo adiantou — Vê? Eles fizeram de questão de frisar que não fui convidado, provavelmente para nos importunar.

— Não... — interveio no pensamento do esposo — Dessa vez parece diferente, Sasori. Esse é um documento importante dentro da família Uchiha, tem até mesmo um número de identificação — mostrou o número na base do documento.

— Então todo o clã foi avisado sobre isso?

— Exato. Alguma coisa está mesmo acontecendo.

— Mas não faz o menor sentido. O que está acontecendo?

— É o que eu gostaria de saber. Não há razão para Sasuke vai voltar à casa sede. Naruto está grávido, eles parecem namorar firmemente.

— Ainda acredito que Madara esteja tramando algo para tirar nossa paz. Ele é esse tipo de pessoa.

— Dessa vez é diferente. Madara não ficaria em silêncio aguardando o nascimento dos gêmeos de Naruto, imaginei que tentaria algo contra Sasuke. E retornar à casa sede significa reivindicar os direitos do sobrenome Uchiha, ou seja, Sasuke terá de obedecer Madara cegamente para receber os direitos de herdeiro que abriu mão ao se rebelar. É óbvio que meu avô o está manipulando. Preciso descobrir o que está acontecendo, e só há uma maneira de saber.

Sasori arregalou os olhos aos poucos ao entender a frase.

— Por favor não me diga... Que vai até aquele lugar?

— Preciso saber o que Madara está tramando, meu bem. Não posso abandonar Sasuke agora.

— Não pode ir à mansão Uchiha! — esbravejou — Não vou suportar aquela angústia toda de novo! Não vou deixar que ninguém mais faça nada com você!

— Sei que se preocupa comigo, mas sinto o mesmo pelo Sasuke, e ele precisa de mim agora.

— Você mal consegue andar!

— Já lhe disse que estou bem, Sasori. E se trata apenas uma conversa.

— Era apenas uma conversa na noite do seu acidente! E você não voltou para mim como havia prometido! Achei que nunca voltaria!- seus olhos arderam e ele estremeceu, baixando o rosto — Eu que deveria ter ido até Madara naquela noite, e acabei envolvendo você, não quero que se machuque de novo. Não vou suportar te perder outra vez Itachi!

O rosto muito vermelho se contraiu e Itachi se sentiu terrível por fazê-lo chorar. Trouxe -o para junto de si e o abraçou.

— Desculpe. Não quis te aborrecer, nem te fazer lembrar do passado.

— Não posso permitir que vá até a mansão Uchiha, Itachi! Não faça isso comigo, por favor.

O Uchiha suspirou, fechando os olhos e apertando o corpo pequeno entre os braços, o nariz escondido entre os fios rubros.

— Está bem. Me desculpe.

— Me promete que não irá à casa sede?

— Prometo, agora se acalme.

Sasori respirou fundo, esfregando os olhos vermelhos. Era insuportável à Itachi vê-lo sofrer, ainda mais depois de tudo que haviam passado.

Dor e sofrimento eram as únicas coisas que Itachi percebia em Sasori quando fitou os olhos vermelhos ao despertar do coma. Era como se a alma dele tivesse sido devorada. Prometeu que não acrescentaria mais nenhuma dor desnecessária, porque ele havia carregado um fardo pesado demais sozinho, por muito tempo.

E porque entendia que todas as pessoas possuem um limite que se for rompido torna-se irreparável. Sasori parecia no limiar há muito tempo.

Observou as belas íris rubras seriamente, um silêncio de conforto. Sasori se sentiu aliviado, sabia que era o modo dele dizer para não se preocupar. Esqueceram as compras no porta malas e entraram em casa. O assunto não foi mais posto em pauta, e o dia transcorreu sem anormalidades. A mesma rotina costumeira.

Porém já na hora de se deitar, Sasori espiou distraidamente o interior do quarto. Itachi estava recostado na cama, o corpo esguio e nu recostado ao travesseiro, os cabelos soltos encobrindo um pouco do rosto apático. Ele fitava o céu pela janela, parecendo extremamente preocupado e angustiado.

Sasori sabia que tudo que estava relacionado a Sasuke mexia demais com ele. E em partes sentiu-se egoísta pelo pedido que fez, ainda que não suportasse a ideia de Itachi visitar a casa sede para saber o que estava acontecendo.

Mas aquele olhar perdido, o suspiro de pesar... Era por amá-lo que não suportava acrescentar nenhum tipo de sofrimento a ele. Ainda se lembrava nitidamente das noites que passou em claro no hospital, ao lado do leito onde o esposo gemia de dor, a pele apática, mais parecendo um cadáver. E contrariando a vontade do clã Itachi voltou, estava bem, eram um casal de novo.

Recostou a cabeça na parede do corredor e fechou os olhos, enchendo o peito de ar. Tornou a abrir os olhos e entrou no quarto, percebendo Itachi disfarçar a melancolia e virar-se com uma expressão serena no rosto.

— Estava esperando você para dormir — abriu os braços para recepcioná-lo mas o ruivo sentou-se diante dele, o corpo nu muito magro amassando os lençóis.

— Amor, lembra do que me pediu nos conhecemos?

O Uchiha arqueou uma sobrancelha.

— Por que está me perguntando isso agora?

— Porque me disse que até que eu fosse capaz de viver por mim mesmo deveria viver por você. E tem sido meu objetivo desde então, mas a verdade... É que não consigo viver apenas por mim. Não sou o tipo de pessoa que se compraz sozinho, eu até mesmo admiro isso. Mas não sou capaz de viver sem você, Itachi. Porque é parte de mim, e amar você me torna uma pessoa melhor.

Itachi o fitava muito sério, compreendendo enfim o rumo daquela conversa.

— Neste caso vou reformular meu pedido, meu bem. Quero que viva por nós dois, porque estamos juntos de novo, contrariando tudo que já tentou nos separar. Isso só prova que nada é mais forte do que sentimos um pelo outro, e não será agora que conseguirão nos separar.

Sasori fitou os lençóis embolados, deslizando um dos pés sobre eles, expondo ainda mais sua nudez sem se importar minimamente.

—... Sei que Sasuke é muito importante para você. E peço desculpas por não entender.

— Não precisa pedir desculpas por nada.

— Se vou fazer a loucura de te deixar visitar Madara então quero que saiba que vou com você — determinou, em tom que não se assemelhava em nada o de um pedido. Imediatamente o semblante do Uchiha se fechou.

— Não.

— É uma afirmação, não estou pedindo sua permissão, Itachi.

— Madara tentou te matar. Nada vai me fazer expor você, não tem que passar por isso. Os Uchiha testarão sua paciência, vão ofendê-lo e quem não dirá machucá-lo. Eu não posso permitir isso.

— Sei que podem fazer o mesmo a você. E é por me preocupar que digo que quero estar ao seu lado, até mesmo para saber que nada de ruim vai te acontecer. Vamos enfrentar isso juntos. É a forma de provar que nada do que o clã fizer pode nos separar.

— Sasori, você já sofreu demais nas mãos de meu avô, nas de meu pai...

— Pode até ser. Mas eles me deram uma das coisas mais valiosas que tenho na vida, Itachi. Graças a eles você veio a este mundo e pude te conhecer, me apaixonar por você. Talvez eu não fosse tão feliz se não pudesse dividir minha vida com você. Para mim isso significa enfrentar e solucionar os problemas juntos. Não vou suportar te deixar sozinho. Se algo acontecer, então que seja a nós dois — sorriu confiante — Se realmente me ama, deixe-me ajudá-lo.

Itachi engoliu forte, ainda encarando os olhos rubros por alguns segundos. Sem dizer nada moveu o corpo para mais perto, sentando de frente, as pernas enroscadas. Passou as mãos pelo pescoço magro, trazendo-o para frente. Sasori fechou os olhos devagar e se permitiu ser beijado por ele, apoiando as mãos nas coxas grossas, enroscando a língua à do marido. Um beijo nada demorado, mas com tom de ponto final.

— Está bem, então. Faremos isso juntos.

—-

Estava animado com a volta do ano letivo. Os alunos barulhentos eram um de seus maiores motivos de alegria e sentiu falta deles nas férias. Sentiu até mesmo falta de Sasori com o habitual jeito certinho e as broncas diárias. Até achava difícil viver sem elas. O estúpido ruivo fazia sua vida mais divertida.

Ainda tinha um espaço vago até as aulas da noite, o que lhe conferia algum tempo livre para voltar para casa, tomar um banho e trocar de roupa. Os alunos eram tão cheirosos e arrumados que se perguntava quantos deles realmente trabalhavam o dia todo (provavelmente os que dormiam até babar sobre a carteira).

Passou diante de um mercadinho e achou por bem comprar alguma coisa rápida de comer, um congelado ou algo assim. Tinha preguiça mortal de cozinhar, e uma total falta de talento também. Do tipo que derrama leite no fogão, queima miojo e faz bolo solado.

Entrou, apanhou um cesto e pegou o que viu de preparo mais rápido, dirigindo-se à fila mais vazia que encontrou. Ergueu os olhos bicolores casualmente à pessoa parada diante dele.

Resmungou em alto som em seguida, ao perceber de quem se tratava.

Droga de destino que adorava lhe pregar peças! Por que de todas as pessoas do universo tinha que ser o maldito Nagato parado bem ali???

Não dava mais tempo de desviar ou de pegar outra fila porque seria óbvio que desviou o caminho apenas para não encará-lo.

E isso seria um insulto! Deidara jamais daria esse gostinho àquele cretino!

Respirou profundamente, pedindo paciência para não despejar a leva de xingamentos que queria sobre aquele homem odioso e caminha em direção à fila. Nagato imediatamente o encara e Deidara vira o rosto. Não gostava de ser encarado, ainda mais por ele!

—... E aí? – cumprimentou-o com um total mau humor e tentando parecer normal, coisa quase impossível. Sua expressão de raiva e desagrado era óbvia e por nada queria erguer o rosto.

Para ele reafirmar o quanto seus olhos eram bizarros? Nunquinha!

— Olá Deidara – a voz grave ressoou em seus ouvidos e o loiro engoliu forte.

O maldito ainda tinha uma voz bem bonita.

Aproveitou que Nagato parecia pegar algo na prateleira e percebeu com satisfação que havia ficado bem mais alto que ele. Inflou o peito e riu satisfeito com isso, em tempo do ruivo se virar e surpreender seu belo sorriso.

Corou furiosamente e tornou a virar o rosto.

Que droga estava fazendo?

A fila andou depois do que pareceu uma eternidade. O loiro só conseguia implorar mentalmente que ele acabasse de uma vez de empacotar a droga das compras e fosse embora! Tudo nele o irritava demais.

Para seu horror Nagato pagou as compras, embalou-as e sem dizer nada ficou parado, olhando para Deidara que recuou um passo.

—... Que foi???

— Deixo você em casa.

“NÃO!!!!!!” gritou mentalmente e sua expressão provavelmente denunciava isso. Pensou numa desculpa qualquer, a mente se recusando a pensar tão depressa.

“inferno! Não quero voltar com ele!”

— Ah não vai dar. É que eu tenho que... Fazer algumas coisas no caminho.

— Diga aonde quer ir e deixo você lá.

— Ah... Então, é que tem alguém me esperando e... Não precisa se preocupar comigo, ok? Eu gosto de andar.

Um desapontamento nítido estampou-se no rosto do ruivo que desviou o olhar.

—... É mesmo?

Deidara engoliu em seco. Era óbvio que ele havia percebido tratar- se de uma mentira.

E por que se importava? Nagato não era digno de pena, não depois do que lhe fizera no passado!

Percebe quando ele acena com a cabeça e sem dizer nada segue seu caminho.

E um sentimento de culpa apertou o peito do loiro por conta disso.

—-

Ao chegar em casa largou as compras de qualquer modo no sofá, irritado consigo mesmo.

Tanto tempo depois e Nagato precisa reaparecer bem quando conseguiu superar o que sentia por ele? Não queria vê-lo, nem mesmo falar com ele!

Arrancou o cinto de qualquer jeito, largando as calças de qualquer jeito no meio do caminho ao banheiro, pegando somente o celular, que usava com uma das mão enquanto a outra apontava o vaso enquanto fazia xixi, o barulho alto de líquido batendo na água do vaso sanitário.

Uma carranca gigantesca encheu seu rosto quando percebeu que na lista de contatos do bate papo o maldito ruivo passou a aparecer.

Ok, agora tinha certeza. Ele era um desses maníacos dispostos a seguir cada pequeno passo seu! Onde havia conseguido seu telefone?

Provavelmente através da rede social profissional. Tinha muitas desvantagens deixar tanta informação à solta na internet. Qualquer um vinha e pegava os dados que quisesse...

Disposto a encerrar de vez aquele assunto ajeita a cueca com uma das mãos e com a livre pressiona o botão de gravar áudio, disposto a enviar uma mensagem para aquele homem perceber que não queria nada com ele! E que parasse de segui-lo de uma vez!

Só que as coisas não saíram exatamente como esperava e perdeu o equilíbrio um pouquinho, tropeçando no tapete do banheiro e ocasionalmente pressionando o botão da descarga. O barulho alto soou, sendo captado imediatamente pelo celular.

— Ah, mas que merda! — exclamou bem no momento em que soltou o dedo, finalizando a gravação do áudio.

Odiou-se no instante seguinte, a ponto de bater o celular contra a própria testa. Poderia descer junto da descarga de tanta vergonha!

Como se explica a alguém que sem querer enviou um áudio com barulho de descarga???

E para piorar a mensagem tornou-se azul, sinal de que Nagato havia acabado de escutar o áudio.

Deidara acabou rindo de si mesmo e de sua inacreditável habilidade em fazer besteira. Largou o que restava das roupas num canto e soltou os cabelos, disposto a tomar um banho.

Mal a água quente escorreu pelas costas e ouviu o sinal de mensagem apitar. Agitou a mão para tirar o excesso de água, os pés molhando os tapetes ao pisar fora do box. Pegou o aparelho nas mãos e visualizou.

Era uma mensagem de voz em resposta.

Tomou ar e decidiu ouvir de uma vez.

Um riso baixo e debochado vindo dele em resposta.

Cara, definitivamente odiava aquele homem mais que qualquer outro na face da Terra!

—-

Quando o viu seguindo o mesmo caminho que o seu naquela noite nem quis contestar, talvez assim seu encontro fosse mais simples, sem nenhum tipo de vergonha, afinal já estava farto!

— Olá Deidara — Nagato cumprimentou-o com aquela irritante voz impassível, uma completa falta de expressão no rosto.

—... E aê? — responde por educação, sem a menor vontade.

Era uma noite um tanto nublada. Deidara pretendia pegar o último trem para casa e para isso deveria seguir direto à estação, sem distrações.

Nagato caminhava a seu lado, parecendo seguir a algum local na mesma direção. O vento frio balançava os cabelos cor de vinho e expunha as incomuns (e belas) íris purpúreas e espiraladas. Era um dos olhos mais incomuns que Deidara já havia visto, e não podia evitar achá-los bonitos.

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Sem prévio aviso ele se vira, capturando o olhar de Deidara no momento exato em que este o fitava. O loiro se assustou quando o vento agitou sua franja, deixando os olhos bicolores à mostra.

Virou-se imediatamente, mas para sua surpresa Nagato se detém no meio do caminho, segurando com firmeza seu queixo fino e erguendo-o. Afastou com a mão o cabelo dourado que caía sobre o rosto, expondo ambos os olhos.

Deidara sentiu o ar faltar como se tivesse asma, sem conseguir respirar, o suor brotando na testa enquanto o coração batia como louco dentro do peito.

Ser colocado diante de um trauma tão latente o desestabilizava.

Mas não demonstraria isso a ele! De modo que rangeu os dentes e estapeou rudemente a mão que segurava seu rosto.

— Qual o seu problema? O que você quer de mim? — esbravejou um pouco alto, chamando a atenção de quem seguia rumo à estação de trem.

— Hoje você tem algum compromisso também? Algum que me impeça de lhe dar carona?

— Ah mas com certeza! Eu adoro caminhar ao ar livre, sabia?

Nem bem terminou de dizer a frase e alguns relâmpagos cortaram o céu, clareando tudo, seguidos de um estrondoso de trovão que invade o ar. Ele não pode evitar soltar um palavrão em alto e bom som.

Nunca foi religioso, mas naquele momento teve certeza de que seja lá quem estivesse no céu devia estar curtindo muito com a sua cara!

“ O que foi que eu te fiz, hein????? “ indagou mentalmente aos céus, inconformado. Pingos grossos começaram a bater sobre o asfalto, aumentando de grau e intensidade, tornando o clima ainda mais gelado e os fazendo correr a um ponto de ônibus próximo e coberto.

Uma chuva forte desabou, o vento molhando-os por inteiro mesmo debaixo da cobertura.

— Mais essa agora — resmungou tirando o casaco e passando as mãos nos braços finos. Nagato seguiu com os olhos, admirando os pelos aloirados ralos pelo braço todo.

Deidara era todo bastante másculo, de feições fortes, perfume marcante. Os ossos salientes por ser muito magrelo, o pescoço longo, o queixo fino. Era impossível não admirá-lo.

Este volveu um olhar endiabrado e torceu o nariz ao ruivo, em uma expressão de puro desgosto por estar sendo observado.

— Que foi?

— Você ficou mais alto que eu.

— Demorou pra perceber hein?

— Você já havia reparado? Eu só notei agora — deu um passo para o lado e encostou o ombro ao do loiro que se eriçou como um gato atingido por água fria, saindo de fininho.

Perto demais!

— Não parece que a chuva vai passar tão cedo. Vou buscar o carro.

— E acha que vou ficar aqui esperando você vir trazê-lo pra mim? Ta me achando com cara de quê?

— Não quero que se molhe.

— Já estou todo molhado se ainda não percebeu — apontou com os indicadores o próprio peito.

Nagato acompanhou, varrendo com o olhar.

A regata preta estava colada na pele, a água escorrendo devagar. Os braços estavam eriçados de frio e os cabelos molhados e compridos grudavam neles de leve. Claro que Deidara era egocêntrico o suficiente para saber que estava irresistível daquele jeito, mas não fazia questão alguma de estar logo para Nagato!

— Muito bem então. Melhor correr.

— Nem precisa dizer duas vezes.

Dispararam a correr pela rua, debaixo da chuva forte, as poças encharcando seus sapatos, esfriando os pés. Correram sem se deter, Nagato à frente mostrando o caminho, o casaco sobre a cabeça.

O carro estava um tantinho distante, no estacionamento de um prédio comercial. A curiosidade do loiro atiçou por saber no que aquele homem trabalhava. Não conseguia identificar só de olhar o prédio.

Respiravam depressa, a pele fria contrastando com o ar quente que saía da boca. Deidara se recostou no carro, torcendo os longos cabelos para secá-los.

Eram seu xodó e demoravam horrores para secar.

A luz que iluminava o estacionamento era fraca e a chuva ainda caía impiedosa nos arredores, um barulho quase ensurdecedor enquanto os pingos fortes batiam nos toldos.

— Valeu por isso, mas vou molhar seu carro inteiro se entrar assim — riu sacana.

Nagato não respondeu. Olhava fixamente o rosto travesso do loiro, que por instinto virou-o. Pressentiu que ele ia forçá-lo a encará-lo e ergueu o olhar, desafiando-o, ainda que isso o fizesse perder o ar.

Disfarçou, mas seu peito subia e descia muito depressa, aflito. A franja molhada não era capaz de esconder os tons disformes de azul e verde em cada íris.

— Que foi? — desdenhou, mas seus braços tremiam e não era devido ao frio — Vai falar alguma merda sobre meus olhos, como daquela vez?

— Você realmente não usa lentes. Esses olhos são seus de verdade — concluiu, com um estranho fascínio.

— Óbvio que são, seu idiota! Eu não teria porque usar lentes de cores diferentes e criar um motivo de rejeição em mim mesmo!

Nagato pareceu esboçar uma expressão elaborada pela primeira vez . Ele simplesmente não conseguia entender.

— E por que alguém o rejeitaria por ter olhos de cores diferentes, Deidara?

O loiro estava tão perplexo com tamanha audácia que nem conseguiu responder de pronto. Ficou de boca aberta, cheio de raiva.

— Foi você mesmo quem disse que era bizarro!!!!

— Eu disse isso?

— Disse, seu maldito! E não só isso! Você conseguiu me remoer de verdade. Eu era só um moleque na época que você ferrou com a coisa toda!

— Foi por isso que parou de falar comigo? Por isso sumiu e não pude encontrá-lo mais?

— E o que você esperava??? Eu amava você! — admitiu sem pensar, mas em seguida cora violentamente, incendiando de ira e vergonha por ter admitido — E você não só ignorou isso, como destruiu os sentimentos de um pivete! A ponto de criar um imenso trauma nele!

Nagato pareceu finalmente compreender com perfeição o que levou anos se martirizando. Sempre se perguntou o que havia acontecido ao garoto loiro que se declarou a ele, e na manhã seguinte mudou de ideia.

— Creio que tenha sido tudo um grande mau entendido. Não devo ter sabido me explicar direito, afinal eu também era só um moleque.

— Essa é boa!

— Estou falando sério – aproximou-se e Deidara recuou automaticamente, até que estivesse debruçado no capô do veículo prateado. Nagato apoiou uma das mãos ao lado do rosto dele, aproximando-se um pouco.

— Na realidade eu fiquei muito feliz ao descobrir que era você quem havia mandado aquela carta, Deidara.

— Com aquela cara de nada você estava feliz???

— Às vezes não consigo me expressar direito.

— Você me deixou lá falando sozinho quando seus amigos chegaram.

Nagato piscou, postando em seguida os olhos purpúreos sobre os de cores diferentes, sem se mover.

— Os amigos que tive na época não seriam capazes de entender. Eles zombariam de você se descobrissem que estava apaixonado por mim, te importunariam. Naquela época você não era tão decidido ou tão seguro quanto se tornou aos poucos, eu sabia que eles ofenderiam e machucariam você. Foi por isso que não prolonguei o assunto e fui embora, para que não percebessem nada.

Deidara sentia um calor imenso atingir o corpo todo, levando embora o frio, engasgando sua garganta. A raiva toda que sentia se transformava em completa incógnita, ainda mais por não conseguir se mover, por não conseguir tirar os olhos dele.

Nunca havia fitado ninguém por tanto tempo assim.

Engoliu forte, o ressentimento formando amargor na garganta.

—... Você disse que ter heterocromia era uma coisa bizarra, lembra? Que eu devia esconder isso.

— Deveria, mas só de mim — concluiu, muito sério — E por eu saber disso acabei sendo rude com você. Não achei que fosse levar tão a sério.

— Não tem como não levar a sério quando alguém te ridiculariza por uma condição genética, algo que não escolheu.

— Não se tratava de ridicularização. Quisera fosse porque você simplesmente me odiaria. É algo muito mais forte — aproximou mais o corpo, até que seu corpo gelado e molhado deitasse sobre o do loiro.

Deidara não conseguia decidir se o afastava ou não, estava confuso.

— Já ouviu falar em Oculolinctus?

Ele franziu a testa e fez que não.

— Trata-se de uma espécie de... Fetiche — admitiu envergonhado — As pessoas que sofrem desse mal sentem prazer em lamber o globo ocular de outra pessoa. No meu caso não acho que chegue a tanto, mas... A pálpebra cerrada, a maneira como ela se abre e revela as íris... Isso pode realmente me enlouquecer.

A boca que admitia estava muito próxima da sua, mas ainda mantinham os olhos um no outro.

Deidara não conseguia desviar porque a maneira como ele o encarava... Parecia simplesmente fascinado.

Ninguém nunca havia olhado assim antes. Provavelmente porque jamais permitiu que vissem seus olhos.

— Quando você se declarou para mim... Eu já não sabia como reagir e então vi seus olhos de perto... Eram a coisa mais... Bela e única que já havia visto, e não soube como lidar, porque entendi que estava muito atraído. Tive medo do que pensariam se nos vissem juntos, eu não me sentia pronto para assumir um relacionamento com outro garoto. Temi o que iam dizer, a reação dos meus pais, perder meus "amigos", ser apontado e ficar isolado...

Era como um golpe no loiro. Toda a dor provocada por aquele incidente, o trauma que se seguiu foi tudo por que ele não pode ser sincero? Será que Nagato tinha ideia do tamanho do sofrimento ao qual o expusera por tanto tempo?

— A única maneira foi ser rude com você. Como lhe disse eu era muito novo, não sabia como lidar com o que estava sentindo. Tive medo de descobrir que não sentia repulsa por você, pelo contrário. Eu estava convicto de que não queria outra pessoa além de você.

Terminando de ouvir isso o loiro o afastou de si.

— Então você me chutou sendo que estava atraído por mim também? Sem dúvidas é um completo idiota.

— Tenho de concordar. Porque tenho me odiado desde então pelo que fiz.

— Olha, vai me desculpar mas não é simples assim — afastou-se definitivamente — Eu mudei muito por culpa do que me disse. Claro que para melhor, mas não muda a situação toda. Você me fez sofrer muito e não serei capaz de esquecer.

— Isso não é problema. Porque farei você se apaixonar novamente por mim — estava bastante sério — Nunca serei capaz de desistir de você, Deidara. Ainda mais sabendo que me odeia, que eu destruí o que poderia ter sido um amor intenso, que fiz você odiar o que tem de mais bonito em si mesmo...

O loiro ignorou o bater depressa de seu coração.

O que andaram fazendo? Por causa de uma bobagem de crianças!

Fitou cada pequeno trecho do rosto dele. Era tão bonito, sua voz tão macia e vagarosa.

— Pois não ache que é tão simples. Vai ter que fazer muito se quiser me conquistar.

Nagato riu em resposta. Aproximou o rosto e beijou a pálpebra cerrada do loiro, afastando os fios de franja loira. Deidara sentiu o corpo dele esquentar com isso, as mãos se aproximarem.

—... Muito bem então- desceu a boca, bem próxima á do loiro que involuntariamente desceu o olhar aos lábios úmidos diante de si — Não me importa o tempo que levar, desde que eu possa ocupar espaço na sua mente de novo...

O loiro respirava depressa, o calor do corpo dele aquecendo seu peito molhado. Meio receoso ergue os olhos, sem saber de mais nada, e Nagato realmente parecia fascinado ao fitá-los.

—... Você é mesmo único, Deidara. Como pôde achar que esses olhos maravilhosos são estranhos? Devia exibi-los!

—... Foi você mesmo que disse para escondê-los de você.

—.. Porque se eu os encarar por muito tempo posso não resisti-los...

— Cale essa droga de boca... — não o afastou quando ele se aproximou.

Não beijou os lábios do loiro, desviou para o pescoço molhado e Deidara mordeu bem forte para não soltar a voz, o gemido baixo e rouco ficou preso na garganta. A expressão suavizou quando o prazer o acometeu ao sentir os lábios dele beijarem a pele salgada devagar. Um arrepio intenso eriçou seu corpo, fazendo-o ficar imediatamente excitado.

Mal sinal! Tinha que afastá-lo!

Mas as mãos grandes passaram por seu rosto, pelos cabelos. Deidara abriu os olhos e se viu preso nas íris roxas, desviando por instinto.

—... Não me importo com o tempo que vai levar, porque tenho amado você desde aquele dia que se confessou pra mim, Deidara. E não vou desistir de você nunca.

O loiro nem sabia o que responder. Sentia um bater descontrolado, as pernas bambas, o calor da excitação crescer em seu corpo, sem nenhum controle. Sua mente começou a anuviar de prazer quando ele beijou seu queixo, quando apertou o corpo contra si, a ereção pulsando contra a sua, os braços fortes envolvendo seu corpo.

E então sem esperar mais o empurra para longe de si, apanhando o casaco caído no chão e dando-lhe as costas.

— Vá se ferrar. Nada nunca vai acontecer entre nós — avisou sem olhar para trás, apressando-se entre a chuva que perdeu intensidade, mas ainda o encharcava. O frio ajudava sua cabeça a pensar melhor, a acalmar a mente que rodava a mil.

Precisava fazer o sentimento quente e confuso dentro dele se dissipar.

Caminhou sem parar, ignorando o frio, os sapatos espirrando água, até que houvesse chegado em casa. Quando o fez entrou depressa, sentando no chão da sala, apoiando a cabeça entre as mãos, cobrindo os olhos.

Não isso de novo. Não sofrer por Nagato de novo!

Mal conseguia respirar, num misto inexplicável. Estava feliz, receoso, aflito, deliciado, excitado, com raiva... Tudo junto dentro dele explodindo numa bagunça!

As palavras de Nagato ecoavam nele sem cessar. O olhar não desaparecia de sua cabeça.

Escorregou uma das mãos que estava no rosto em direção ao coração desesperado.

Sonhou por muito tempo viver um amor avassalador, que bagunçasse suas estruturas. Exatamente o que sentia naquele momento.

O quão infantil soava tornar a se apaixonar por seu primeiro amor?

Bateu a cabeça na parede, negando-se a aceitar que mesmo após tantos anos ainda se sentia atraído por ele, ainda o desejava.

Foi então que parou, percebendo algo crucial. Mordeu o lábio, muito preocupado.

Nagato era irmão mais velho de Pain, que não apenas traiu seu melhor amigo como tentou violentá-lo!

Como explicaria a Sasori que estava atraído por Nagato? Como tentar algo com o irmão de alguém que machucou tanto uma das pessoas mais importantes de sua vida?

E caso chegasse a ter alguma coisa com Nagato... Seria inevitável que Sasori e Pain voltassem a se encontrar. Seria terrível!

Respirou fundo, erguendo o corpo do chão e caminhando até a geladeira, para pegar uma garrafa de vodka.

Tinha de dar um ponto final naquilo tudo, antes mesmo de começar.

—-

O tempo que passava ao lado de Sai conforme os dias passavam, a maneira solícita como ele adivinhava tudo que precisava, somente o fazia pensar por que ele cuidava tanto de si, ou por que tamanho interesse no que acontecia com os gêmeos.

De fato eram grandes amigos que perderam contato quando Sai casou-se e mudou de cidade, mas isso por si só não explicava o motivo de parecer tão solícito, tão preocupado e atencioso.

Foi o que o fez virar o rosto ao rapaz que aguardava consigo na sala de espera da ala médica.

— Por que está cuidando tanto assim de mim, Sai? O que ganha com isso?

— O que espero receber em troca é reciprocidade.

— Como é?

Ele volveu o rosto, muito sério.

— Na época em que nos conhecemos você estava cego de amores por Sakura e ela pareceu retribuir de alguma maneira. Eu não tive chance alguma. Mas agora sinto que as coisas podem ser diferentes.

—... Do que exatamente está falando, Sai?

— Estou apaixonado por você, Naruto — frisou — E não é recente, é algo que me persegue desde muito tempo. Quando você anunciou que iria se casar com Sakura achei ter perdido minha chance. Mas agora que está sozinho novamente vejo a oportunidade perfeita de tentarmos algo novo.

O loiro ainda estava desnorteado demais, atordoado pela revelação súbita.

— Sai, você sequer entende minha situação? Eu estou grávido de gêmeos!

Ele pareceu muito sério quando segurou levemente suas mãos, os orbes negros brilhando.

— Eu não sou o tipo de homem que brinca com algo tão sério, Naruto — era um olhar tão intenso, tão vívido, que chegava a desconcertar — Quero você em minha vida, bem como essas crianças que estão no seu ventre agora. Vamos fazer de tudo para que Daisuke nasça bem, assim como Aiko. Vou assumir você e os gêmeos, fazer de vocês minha família.

— Sai, você não sabe o que está dizendo...

— Sei exatamente o que digo. Não posso ter filhos ainda que deseje muito isso, e não vejo modo melhor de construir uma família. Você surgir grávido diante de mim reacendeu tudo que já senti por você antes, Naruto — passou a mão de leve pela bochecha rosada, sobre as marquinhas de raposo — Você é tão lindo, tão doce e ao mesmo tempo tão corajoso... Quero muito que fique comigo, porque eu nunca vou te fazer chorar como Sasuke fez. Nunca farei mal à essas crianças, nem vou te decepcionar. Apenas quero que fique comigo, que me dê uma chance de te provar que estou sério quanto à tudo isso.

Os olhos azuis tremeram.

—... Eu agradeço tudo que está fazendo por mim, Sai. Mas... Mesmo que eu tente mudar as coisas, eu ainda amo o Sasuke — admitiu amargamente — Ainda que ele não mereça esse amor.

— O que te peço é um pouco de tempo. Deixe-me cuidar de você e te fazer esquecer essa dor. Sei que com o passar do tempo vai superar o que sente por ele, e vai conseguir olhar somente para mim.

Sem que pudesse argumentar Naruto é puxado para um abraço acolhedor, o rosto imprensado no peito do outro. A sensação era agradável, mas não parecia o bastante para o fazer esquecer a dor que latejava em seu peito.

Esquecer-se de Sasuke? De tudo que já haviam partilhado juntos?

Impossível, ele era o amor de sua vida, pai de seus filhos. O sentimento ainda latejava forte e incontrolável no Uzumaki. Mesmo que Sasuke não merecesse, ainda amava-o com todas as forças.

Mas, talvez pudesse se dar uma chance de superar aos poucos. Era óbvio que Sasuke enlouquecera ao voltar com Karin, de modo que Naruto já não nutria esperanças de reatarem algum dia.

Encarou o rosto do homem diante de si.

— É um momento muito difícil para mim, Sai.

— Então vamos passar por ele juntos — pousou a mão sobre o ventre do loiro para então sentir algo se mover. Pareceu maravilhado com a sensação.

Era Aiko, visto que Daisuke estava fraco demais para se mover. Sentiu um tipo estranho de empatia por ela, acariciando a barriga grande e saltada. Um sorriso abobado escapou dos lábios.

Naruto sentiu algo estranho ao ver o modo como ele reagia. De certa forma saber que Sai nutria empatia por seus filhos mudava a perspectiva que tinha dele.

—-

Apertou a linha do nariz, entre os olhos.

— Eu te conheço há anos e quando penso que não pode ser mais estúpido você me surpreende, Sasukito.

Sasuke o fuzilou com o olhar.

— Não vim pedir sua opinião sobre minha vida ou decisões. Quero salvara vida de minha mãe.

Suigetsu recostou-se à cadeira, passando um lenço pela testa para secar o suor.

— Você não pode ceder e fazer as vontades de seu avô para sempre. E o primeiro passo é contar toda a verdade ao seu gravidinho.

— Pela milésima vez Suigetsu: estou de mãos atadas. Não há o que eu possa fazer.

— Pode parar de dramatizar tudo e entender que Naruto precisa de você. Precisa dizer a verdade a ele.

— Naruto apenas sofreria com isso.

— Ele já está sofrendo caso ainda não tenha percebido. Precisa cuidar dele enquanto penso num modo de salvar sua mãe.

— E como fará isso?

— Não apresse meu gênio criativo! Por hora você precisa se entender com o Narutinho, ele está passando maus momentos e tudo é sua única e exclusiva culpa. Você é mesmo um homem desalmado e cruel.

— Vá pro inferno, Suigetsu.

— Eu também adoro você. Agora, é importante que Madara pense que vocês não estão juntos. Pode ser um pouco doloroso passar por tudo isso, mas garantirá que se mantenham à salvo.

— Se eu ainda estiver com Naruto Madara com certeza dará um jeito de descobrir.

— Não estarão juntos, de fato. Mas vai contar toda a verdade a ele, dizer o por que de ter se separado. Naruto não merece sofrer dessa maneira. Depois disso ele mesmo escolherá se quer continuar com você ou não, será uma decisão dele, mas precisam fingir que não mantém mais contato.

— Não é tão simples, não basta que eu me desculpe. Eu deixei Naruto a par de minha decisão de dar um filho a Karin.

— Isso é uma estupidez. Não pode fazer isso.

— Minha mãe não pode morrer, Suigetsu. Não depois de tudo que fez por mim — apertou as mãos no colo, angustiado e ferido.

— Sasuke? — indagou com tom sério e o moreno ergueu o rosto para encará-lo.

Ver aquele idiota tão sério, o mesmo que sempre tinha um sorriso debochado no rosto, era bastante estranho.

— Eu te garanto que vamos salvar a vida de sua mãe. Daremos um jeito nisso. Você não pode destruir sua vida por causa de Madara. Diga a verdade ao Naruto, peça a ele que te espere. Se ele te amar de verdade vai entender. Enquanto isso pensamos num modo de descobrir onde Mikoto está, mas você não pode ceder e dar um filho pra ruiva agora! Você não a ama!

Sasuke não quis admitir mas seu coração bateu esperançoso no peito, as forças pareceram tornar ao corpo.

Apenas a ideia de desculpar-se, de dizer como verdadeiramente amava aquele idiota o deixava ansioso.

Odiava mais que tudo dar razão ao amigo estúpido, ou admitir que esteve perdido, confuso e com medo.

— Não é como se eu mesmo pudesse contar tudo ao Naruto. Madara parece seguir cada passo meu.

— Então deixe isso comigo — piscou — Seu gravidinho precisa descobrir toda a verdade o quanto antes.

—-

Naruto estava sentado num banco de praça, em frente a um parque próximo de sua casa. A tarde estava muito fria e cinzenta, mas não se importava com isso.

A decisão mais difícil de sua vida estava para ser tomada. Aproximava-se do horário de tomar a medicação que poderia, talvez, prolongar um pouco mais a vida de Daisuke.

Mas que por outro lado poderia comprometer a saúde de Aiko.

Ele não sabia o que fazer. Segurava o vidro de medicação sobre o ventre, o coração feito em mil pedaços, a angústia a ponto de matá-lo.

Pensou tanto em um modo de salvar os dois, que daria sua própria vida se com isso pudesse salvar Daisuke.

Senti-lo parar de se mover ou... Morrer dentro dele... Nunca suportaria algo assim, e nem conseguiria concluir a gravidez com ele dentro do ventre, era pedir demais...

Acariciou o lado mais inchado, os olhos azuis marejados, pingando sobre o tecido da camisa laranja.

Ser pai significava tomar decisões extremamente difíceis. Mas esta em questão, era algo que fugia de toda lógica.

decidir sobre quem deveria viver ou morrer não podia ficar em suas mãos. Ele não era capaz de decidir isso.

Sua mão captava um movimento mínimo. Em apenas um dia Daisuke ficara praticamente imóvel em seu ventre. Era mesmo óbvio que o estava perdendo.

Respirou muito profundamente, a cabeça doendo por pensar durante tanto tempo.

Era definitivamente uma despedida, sua mão tremia.

—... Daisuke... — sussurrou — Escute o papai, meu bem — fungou devagar, tentando sorrir quando se sentia em ruínas — Eu preciso cuidar da sua irmã também, ela pode ficar seriamente doente se eu continuar tomando isso, então... Vou procurar um modo de cuidar de você também, para que fiquemos todos juntos. Preciso que seja forte, e que lute um pouco mais, está bem?

Quase não o sentia se mover.

Ainda era difícil de acreditar como sua vida mudou em poucas semanas. Saber de Daisuke foi a coisa mais terrível que já teve de enfrentar.

Ao ouvir os passos detrás de si nem precisou se virar, porque sabia a quem pertenciam.

—... Sai?

—... Você está bem? — aproximou-se um pouco mais.

Fez que sim, fracamente, cedendo espaço no banco para ele se sentar.

— Eu acredito que Daisuke ainda pode se salvar, mesmo tendo sido desenganado pelos médicos. É algo que tenho no fundo da alma, algo que não consigo explicar. Mesmo que os médicos tenham desistido dele eu jamais farei isso. Vou lutar com ele até o último momento.

Sai assentiu, compreendendo. Desceu o olhar à mão pálida que segurava o potinho de vidro.

— Então não vai mesmo tomar a medicação?

— Aiko adoeceria, não posso fazer isso com ela. Tenho de cuidar dos dois não é? — passou as mãos pelo rosto, secando-o completamente.

Sai engoliu devagar, escondendo habilmente as emoções. Não era prudente preocupar Naruto ainda mais.

O estado de saúde de Daisuke era tão grave que duvidava sinceramente que o pequeno chegasse a nascer. Esperava que Aiko ajudasse a superar a dor da perda, e desse forças ao Uzumaki num momento tão difícil.

Claro que nunca diria nada disso à Naruto. Ele precisava acreditar, se manter firme, para que seu estado não piorasse. E para que ao menos a menina tivesse a oportunidade de nascer.

Passou o braço em redor do corpo quase inerte, trazendo Naruto para deitar a cabeça em seu ombro. Era um abraço acolhedor, que não se aproveitava ou desejava tirar vantagem.

Naruto sentiu que parte da angústia que vinha enfrentando se dissipou e agradeceu que o amigo estivesse ali. Mas não achou justo brincar com ele por estar passando por um momento tão difícil, ou por se sentir carente. Sai era uma pessoa maravilhosa e não merecia ser iludido de tal maneira

—... Sai, me Desculpe, mas eu...

— É um abraço sem segundas intenções. Já sei que sua posição não mudou, não estou me aproveitando de você. Independente de sentir ou não algo por mim, quero que sabia que pode contar comigo sempre.

Ouvindo isso, Naruto fechou os olhos. Parte sua irritava-se com o fato de não conseguir se apaixonar por alguém de coração tão bom quanto Sai.

Cada fibra de si ainda amava Sasuke.

—... Vamos acreditar que Daisuke ficará bem, Naruto. Ele vai conseguir – sussurrou e o loiro não se moveu dentro do abraço, a cabeça recostada no ombro, o pensamento distante.

E contrariando a longitude de seus pensamentos, próximo dali um Sasuke atônito engolia em seco, a frustração aumentando no peito ao ver Naruto ser abraçado por aquele estranho.

E o modo como ele parecia sereno, sem a menor menção de desfazer o abraço.

Pensara em somente passar na proximidade da casa do loiro para vê-lo, talvez conseguir uma chance de se explicar. E o surpreendia assim?

Engoliu cada uma das palavras que planejava dizer, não sabendo lidar com a própria frustração. Isso o fez avançar sem pensar em mais nada, o lado racional de sua mente desaparecendo, até que houvesse segurado Sai e o afastado bruscamente do loiro.

Naruto ficou muito surpreso e confuso, mas quando postou os olhos no Uchiha o tempo pareceu parar. Não soube o que dizer ou fazer, uma sensação estranha tomando conta dele, revirando seus sentimentos.

Não podia, não agora!

— Naruto, o que está acontecendo? — fez menção de se aproximar mas o loiro fez um sinal com uma das mãos para ele se deter, afastando-se.

Não agora! Não podia se alarmar num momento desses, tinha de ficar calmo!

Pelo Daisuke.

— Naruto!

—... Por favor, Sasuke. Eu não posso falar com você agora — franziu o rosto, o lado inchado da barriga doendo horrivelmente.

— Eu preciso te explicar o que está acontecendo. Preciso te dizer toda a verdade, Naruto!

O loiro gemeu, segurando a barriga. Sai imediatamente veio até ele e o amparou.

— Fique calmo, por favor. Você não pode se alarmar logo agora.

— Tudo dói por dentro, Sai — cerrou os olhos bem forte — Por favor tire o Sasuke daqui. Eu não posso ficar em paz com ele perto de mim.

O coração do Uchiha se destruiu ao ouvir isso.

—... De que droga está falando? — aumentou a voz mas recebeu em troca um olhar furioso de Sai.

— Não acha que já fez o Naruto sofrer o bastante, Sasuke? — vociferou, em cólera — Se você realmente se importa com ele deixe-o em paz!

O olhar do Uchiha se tornou tão feroz quanto.

— Não sei quem você é, mas não se meta no que não te diz respeito!

— Tudo que tem relação com Naruto me diz respeito!

— Sou o pai das crianças que ele espera!

— E quer fazê-las sofrer ainda mais? Já não basta o que fez ao Daisuke?

O Uchiha se deteve, muito confuso com as palavras e com o modo que aquele estranho apontava o ventre do loiro. Este encarou-o, exasperado.

— Sai, não diga nada, por favor — tentou impedi-lo, mas parecia irredutível.

— Ele precisa saber, Naruto.

— Saber de quê? — engasgou, uma preocupação súbita surgindo no peito — O que tem de errado com o Daisuke, Naruto?

— Daisuke sofreu o impacto de sua estupidez, Sasuke — Sai prosseguiu naquele tom frio — Você achou mesmo que dar uma notícia como essa a um rapaz em gravidez de risco não surtiria efeito algum? Quem está pagando por seus erros é essa criança que não tem culpa de nada.

— Já chega, Sai! — Naruto o cortou.

Sasuke não pensava direito quando fitou o loiro, o semblante de criança abandonada que conhecia tão bem, sinal que estava confuso e preocupado.

Sua face tornou-se a mesma que viu tantas vezes, cheia de preocupação, o brilho costumeiro nos olhos.

— Naruto... — tencionou se aproximar devagar — Por favor, me diga o que está acontecendo.

O olhar do loiro tremeu, e não conseguiu desviar dos olhos negros enquanto ele se aproximava, até estar de frente. Tencionou tocá-lo, mas Naruto desviou do toque.

—... Não tem por que se preocupar comigo. Você já tem Karin, não é?

— Aquela mulher nunca vai representar sequer um terço de tudo que você significa para mim, Naruto — disse muito sério, transparecendo tudo que sentia — Nunca serei capaz de fazer você me perdoar por tudo que disse, mas existe uma razão muito forte. E preciso realmente contá-la a você.

— Eu não posso ouvir nada agora, Sasuke. Tudo que me disser pode afetar minha calma e não posso perdê-la agora!

— É por causa dos gêmeos? — olhou preocupado a barriga do loiro — Você precisa ir ao médico, não pode ficar assim.

— Médico algum pode me ajudar agora, não quando já desistiram!

O Uchiha volveu novamente o olhar a ele, sem entender suas palavras.

Mas então ficou mudo quando percebeu a agonia que se instalava no rosto de Naruto. Não era uma expressão de dor física, era algo muito mais profundo.

—... Não tenho mais a quem pedir ajuda, Sasuke — tentou respirar fundo para não chorar, para não ceder, para não se desesperar. Sentiu quando a mão do Uchiha tocou seu rosto, ele o fitava cheio de pesar.

— Do que está falando? Por que os médicos desistiram, o que quer dizer com tudo isso?

O loiro suspirou e tentou não ceder, o rosto contraído.

—... É o Daisuke... — soltou o ar pela boca, todo de uma vez.

Não era momento de fraquejar, tinha de ser forte.

-... Eu tentei de tudo, e por ele estou lutando para me manter calmo, por que ele precisa de mim agora. Mas a verdade é que não há mais o que eu possa fazer.

Volveu os olhos marejados ao Uchiha que parecia destroçado de culpa, remorso e dor, ambos mergulhados numa angústia indescritível.

—... Naruto... — engoliu em seco, o desespero crescendo na garganta, ardendo seus olhos ao entender do que aquela conversa se tratava.

Ele fez que sim, apertando a mão em seu rosto para tentar dar força a si mesmo.

— O Daisuke... Está morrendo, Sasuke.

Continua.

Notas finais
Outra bomba rs O que o Sasuke fará sabendo que Daisuke está desenganado e achando que é tudo sua culpa? Respondi os comentários, mas ainda preciso responder todas as mensagens então se ainda não recebeu resposta me desculpe, fiquei dias em casa de atestado médico e estou grogue de medicação rs Muito sono, por isso vou responder o mais depressa possível, podem esperar certos que farei isso porque adoro quando vocês conversam comigo. A quem ainda não leu minha outra fic: Oblívio , fica aqui o link para dar uma olhadinha. https://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-naruto-oblivio-5188795 Vou me organizar para postar o novo capítulo dela também. O tempo de postagem não é alterado por eu ter outra fic, o que me faz demorar é mudar o texto trocentas vezes até eu achar que está aceitável. Então leiam e me digam o que acharam. Acho que é só isso. Beijo da Malki!