Notas iniciais
Avisos: essa história é de minha criação, possui registro autoral legal e não autorizo que repostem partes dela, texto na íntegra, que adaptem os personagens para outro universo ou qualquer tipo de cópia sem autorização. Os plágios serão denunciados. Crie suas próprias fanfics com seu esforço, para ser elogiado pelo seu próprio trabalho. Recados dados, vamos lá: Olá, amores. Eu voltei, quando achei que não voltaria. Quem me segue no face sabe de todo o trauma envolvendo minha ilustração dessa fanfic e um vídeo muito desagradável no Youtube. Foi uma briga para tirar do ar e fiquei desgastada com o quão preconceituosas as pessoas são. Não achei que valeria à pena continuar postando a fic para ouvir esse tipo de comentário, mas vocês sempre conseguem me motivar e a insistência dos pedidos por capítulo novo acaba me dando vontade de continuar. Sei que cometi muitos erros, que se começasse essa fic hoje ela seria muito diferente, mas entendo que o trabalho de mais de dois anos não pode ser jogado fora! Portanto conforme eu tiver pique, quero continuar a postar. Obrigada por não desistirem num momento em que até eu mesma desisti. Sobre o tamanho do capítulo ele é o maior até agora, e excedeu o número de palavras limite para postagem, então eu dividi em dois e vou postar os dois mesmo! Sim, vocês terão dois capítulos para ler. Então reservem algum tempo e espero que gostem do rumo que as coisas estão tomando. Há muitas pessoas a quem gostaria de agradecer, sobretudo a quem me faz seguir em frente. Gostaria de deixar aqui um agradecimento especial a alguém que tentou recomendar a fic pela segunda vez! Como lidar com uma coisa linda dessas? Muito obrigada, Camomila, por todo o apoio que sempre me deu. Mesmo que o sistema não deixe recomendar duas vezes, estou postando aqui para que saiba que significa muito para mim! "Acredito que um dos motivos para eu ainda não ter recomendado está história, foi o fato de não conseguir expressar em palavras as emoções que eu sinto sempre que leio cada palavra. Uma história tão fascinante que nos envolve de tal maneira quanto essa, não pode ser descrita apenas com "linda, maravilhosa". Apesar de que ajuda muito descrever assim hehe Tão incrivelmente incrível que eu poderia passar horas escrevendo palavras que terminam em "mente" e mesmo assim não terei conseguindo transmitir todo meu amor! Amor, comédia, drama, suspense,superações, romances,aventuras...ah se encontra cada um dos gêneros nessa história e esse é mais um motivo dela ser tão emocionante. Sempre que posso, recomendo esse pedacinho caído do paraíso e ainda não consigo transmitir tudo o que sinto por ela ♥ Obrigado Malki por essa história tão perfeita e envolvente ♥" Recados dados, nos vemos nas notas finais. Boa leitura!


Ofegava de cansaço, já em seu limite. Alguns poucos passos do elevador até a frente da porta do apartamento em que passariam a noite evidenciaram as palavras de seu médico sobre se manter em repouso absoluto até o final da gestação. Naruto estava exausto, com as pernas inchadas, dores infernais na coluna. Parou um pouco para tomar fôlego e olhou irritado o noivo a seu lado.
— Sasuke... Por favor me diga que errei nas contas e que já estou de nove meses!
O Uchiha riu conformado.
— Lamento informar, mas ainda está com sete meses.
— Pois quero sua parte nisso! Exijo que transfiram um dos gêmeos para a SUA barriga! de preferência a Aiko que é quem mais se mexe — retrucou tomando uma grande golfada de ar, conseguindo chegar diante da porta do hotel.
— Eu adoraria, acredite. Deve ser incrível poder sentir uma criança se mexendo dentro de você.
— Oh, claro. Acrescente dores horríveis nas costas, náuseas, vômito, tonturas, tornozelos inchados, pés enormes, cólicas e andar feito um pinguim! — lançou-lhe um olhar mal humorado e o Uchiha soube logo de que se tratava.
Hormônios! A todo vapor!
— Certo, o que quer que eu te faça para se sentir melhor? Pode pedir o que quiser — girava a chave na fechadura e abriu a porta do apartamento, dando passagem para o loiro rechonchudo que se arrastou para o sofá.
— Por que está sendo tão bonzinho assim comigo? — ergueu uma sobrancelha, desconfiado.
— Porque alguma hora precisarei ir à sua casa pedir sua mão aos seus pais. E eles vão me matar. Foi bom ter te conhecido. — riu conformado, pedindo licença para sentar no sofá também, debaixo das pernas grossas do loiro.
— Acho que minha mãe com toda certeza vai te matar, afinal fui viajar destruído por estar brigado com você.
— E não tiro a razão dela. Só o que espero é que entendam que eu não tinha saída, achei que fosse a melhor forma de proteger vocês.
Naruto concordou, ajeitando melhor as pernas no colo do noivo. Olhou para os lados, observando o hotel em que passaria a noite com Sasuke depois de tanto tempo e não pôde deixar de sentir falta do tempo que passaram juntos, quando o clã ainda não tentava separá-los. Imaginava como seria viver com Sasuke sem se preocupar a todo instante com o que fariam, e como fariam.
— Não será fácil para mim também, não com Madara em meu encalço por eu não ser um Uchiha. Ao menos imagino que Itachi e Sasori ficarão felizes por nós.
— Ah, mas com certeza! Você será apertado, amado e mimado por dias inteiros, enquanto que eu serei escorraçado pelos furiosos senhor e senhora Uzumaki.
Naruto riu com isso.
— Está com medo?
— E não deveria estar? Se eles quiserem me matar, acho justo que venha me socorrer.
— Vai sonhando! A culpa é sua por arranjar problemas, então se vire — deu uma piscadela.
— Oh, quanto companheirismo! Onde estão todos aqueles “eu te amo”agora?
— Continuo te amando, só não sou maluco de desafiar a ira da minha mãe! — riu alto e ao fazê-lo sua barriga grande e redonda pareceu subir mais, o que chamou atenção de Sasuke. Este fitou-a em silêncio por um tempo, com uma expressão indecifrável. Em seguida desceu o olhar aos pés do loiro e assim ficou, sem dizer absolutamente nada.
Naruto fez bico, sem entender a reação dele.
— Que foi? — perguntou já irritado e Sasuke piscou algumas vezes.
— Seus pés... — olhava com descaso os pés descalços sobre o sofá.
— O que tem eles?
Soltou um riso abafado pelo nariz.
—... Parecem pés de Fofão! — disparou, com um sorrisinho malicioso.
Naruto abriu bem os olhos e prendeu todo o ar, completamente indignado.
— QUEM É QUE TEM PÉS DE FOFÃO??? — quase voou no pescoço de Sasuke, mas este continuava a provocá-lo.
— Essas coisas são patas, e não pés.
— Cale a boca!!! Não tenho culpa de estar todo inchado!
— Você chama isso de inchaço? — provocou, pegando os grossos tornozelos do loiro — Eu chamo de balões infláveis.
— Me deixa!!! Deveria é me fazer uma massagem ao invés de reclamar dos meus pés!!!
— Ah, mas estão hilários, como patas de elefante — riu mais alto e irritante.
Naruto não gostou nem um pouco do comentário e só de raiva enfiou a planta do pé na cara do Uchiha, tapando seu irritante sorriso.
— Mas são patas cheirosinhas, vê? — esfregou mais o pé no rosto do Uchiha, um sorriso endiabrado estampado no rosto ao fazer isso.
E então Sasuke desvia, sem parecer nem um pouco feliz e segura o tornozelo dele com força, uma carranca de mau humor estampada. O sorriso de Naruto foi morrendo aos poucos.
— Você não ousaria... — meio temeroso, tentando puxar o pé de volta, mas um sorriso cruel se estampava no rosto vermelho e marcado do Uchiha.
— A culpa é de quem por enfiar essa coisa na minha cara?
— Sou um grávido lindo que não pode ser judiado!
— Vamos ver quem é o grávido lindo! — segurou bem o tornozelo de um loiro desesperado e correu os dedos pela planta do pé rapidamente, fazendo um agonizante caminho de cócegas. Naruto ria descontrolado e tentava desesperadamente soltar o pé.
— PÁRA COM ISSO, MUAUHUAHUAHUAHAUA!
— Vai enfiar essa coisa no meu rosto de novo?
— NÃO!!! HUAHUAHUAHUAHUAHUA! ME SOLTA!!!
— Não estou te ouvindo.
— GYAHAHAHAHAHA! QUE DROGA, HAHAHAHAHAHA!
Satisfeito, Sasuke solta o pé de Naruto que tenta se recuperar do ataque histérico de risos.
— Droga, Sasuke! — respirava depressa — Sabe muito bem que odeio cócegas!
Ainda queria se recuperar e xingá-lo até dizer chega ou ao menos lhe dar uns tapas, mas parou ao sentir um estalo, levando imediatamente a mão à barriga. Sasuke ficou sério no mesmo instante e se arrependeu por ter brincado com ele, mas o loiro pega sua mão e a coloca em um ponto específico da barriga, fazendo pressão, cobrindo-a com a sua.
O Uchiha franze a testa, sem entender. Ainda mais ao fitar o rosto do noivo, este olhando para cima, se concentrando como se procurasse alguma coisa, movendo devagar a mão.
— O que foi?
— Espera — tentava achar alguma coisa, muito atento.
Sasuke já ia retrucar quando de repente sente um golpe contra sua mão.
Arregala os olhos em resposta, totalmente admirado. Naruto se divertiu com o modo como ele se debruçou para tatear a barriga, desolado por não sentir mais nenhum movimento.
— Onde está? Não senti mais nada.
— Bem aqui — moveu a mão dele para uma parte mais baixa e Sasuke ficou muito quieto, ambas as mãos espalmadas na barriga do noivo, atento ao menor sinal.
— Onde? Eu não sinto nad... — Um novo chute ergueu a pele da barriga, atingindo sua mão com força.
Ele ficou apenas parado, sentindo o bebê se mover contra sua mão. E então abre um radiante sorriso, movendo as mãos pela barrigona, completamente fascinado.
—... Não sabia que já dava para sentir se mexer... — o som gostoso de sua risada encheu o cômodo e Naruto riu em resposta. Teria feito piada pelo modo como ele parecia bobo, mas deixou passar.
— Não te machuca? É um chute bem forte — indagou com um sorriso lindo, ainda acariciando o lugar que sentiu se mexer.
Naruto foi arrebatado por aquele sorriso, pelo modo como ele parecia mais jovem e despreocupado.
— Dói bastante, mas prefiro que eles se mexam, assim sei que está tudo bem.
— Qual deles é? Você consegue saber?
— É a Aiko. É fácil de saber porque ela responde à você automaticamente.
O Uchiha não pareceu entender.
— Como assim?
Naruto segurou bem firme a mão de Sasuke no lugar em que ela estava.
— Ela responde sempre que escuta sua voz.
— Tá brincando! — pareceu descrente, mas percebeu que, de fato, ela se moveu quando falou. Baixou o rosto próximo da barriga e testou, falando mais, sobre coisas aleatórias. Ficou maravilhado ao perceber que ela reagia a cada palavra dele e sentiu algo diferente, um laço que não sabia como havia se formado, e que o fazia já se sentir pai de uma menina cujo rosto sequer conhecia!
E pensar que Aiko, a princesinha que quis por tanto tempo já o reconhecia e já queria estar com ele. Isso mexeu com o ego do Uchiha de uma forma inexplicável.
Ergueu o olhar a Naruto, o rosto encostado na barrigona.
— E meu menino? Ele não reage quando falo com ele?
— Daisuke se mexe mais devagar. E parece bem mais apegado à mim do que à você.
— Onde ele está?
— Aqui — deslizou novamente a mão, dessa vez colocando-a no outro lado. O que Sasuke sentiu não se comparava ao chute com força, mas era um movimento bem aparente, e isso o deixou muito feliz.
Percebeu que mesmo falando com ele o movimento não era tão intenso. Acariciou devagar, pediu desculpas, disse que estava orgulhoso. No entanto bastou umas poucas palavras de Naruto para que ele se movesse mais intensamente.
— Ele já se mexia assim antes?
— Não, sequer parecia sair do lugar. Passava longos períodos inerte, quase me matou de tanta preocupação! Só começou a se mexer assim depois que acordei da cirurgia — baixou o olhar e deu um grande sorriso, passando a mão sobre o lugar de sua barriga em que Daisuke estava — Foi a primeira sensação que tive ao acordar, a melhor coisa que me aconteceu. Foi quando percebi que ele estava vivo, que estava bem de saúde, e tudo que passei pareceu valer à pena.
Sasuke engoliu forte, olhando para baixo, para escapar das íris azuis.
— Naruto, eu...
— Já resolvemos isso, não é? — cortou o assunto, porque estava cansado de desculpas, cansado do que o clã Uchiha lhes fizera. Era seu momento de aproveitar, de esquecer o que havia passado e se concentrar em um momento que não voltaria.
Em breve os gêmeos viriam ao mundo e toda a magia da gravidez daria lugar ao trabalhoso período de cuidar deles. Então era momento de aproveitarem, de ter discussões tolas como a de momentos atrás.
Sasuke ergueu a cabeça, apoiando-a no joelho do Uzumaki.
— Eu queria ter estado lá com você. Realmente queria, Naruto. Para te dar força e não te deixar só. Deve ter sido assustador.
Naruto alisou os cabelos negros e ele ergueu o olhar.
— Imagino que tenha sido assustador para você também, com todos os problemas que teve com a sua mãe, com Itachi... O que afinal aconteceu esses dias, Sasuke?
— O de sempre. Madara tentando acabar com a vida de todo mundo — passava os dedos nos pelos ralos e aloirados da perna do noivo — Ele me fez acreditar que minha mãe estava morta.
— Mas ela está bem? — desembaraçava devagar os fios negros, percebendo-os mais secos que o normal.
— Está, tenho certeza de que Madara mentiu sobre tudo. Minha mãe é uma mulher forte, ela enfrentou tudo só para ficar comigo, eu não poderia desistir dela. Vou tentar encontrá-la, de qualquer jeito.
— E quanto a Itachi?
— Ele está bem, só está confuso. Quando finalmente nós pensamos que suas memórias haviam voltado ele pareceu ter uma recaída. Os médicos dizem que é normal. Na noite em que se perdeu de nós ele recebeu uma ligação de minha família, falando justamente sobre a minha mãe. O choque o fez perder a memória temporariamente, mas por sorte conseguimos encontrá-lo antes que algo pior acontecesse.
— Soube que ele tentou me ligar quando eu estava no meio da cirurgia.
— O que importa é que ele está bem — encerrou, porque não adiantaria nada deixá-lo preocupado.
Fez que sim, entendendo. Mas não conseguia fazer o mesmo com determinado assunto que não poderia mais ser evitado. Mordia o canto da boca devagar, os dentes cutucando a pele devagar.
—... Já sabe o que vai fazer com relação à Karin?
Sasuke pareceu muito sério, e até endireitou o corpo, sentando com as pernas cruzadas e de frente ao outro.
— Não se preocupe. Vou mesmo me divorciar, esteja certo disso. Madara não pode me controlar mais.
Com isso, Naruto não retrucou, embora não estivesse muito convencido. Afinal conhecia Madara Uchiha muito bem, sabia que ele não desistiria até conseguir o que queria.
E sinceramente, isso o apavorava. Ao contrário de Madara, tinha muito a perder.
Estava pronto para enfrentar a ira do clã inteiro, mas internamente temeu pelas crianças que estavam para nascer, e que logo conheceriam a fúria de um homem impetuoso e cruel, que tentaria a todo custo destruí-las.
Seu próprio avô de sangue. Um dos homens mais cruéis que já teve o azar de conhecer.
—-
Estava a pelo menos vinte minutos tentando encerrar aquela ligação, sem sucesso algum. Menma rolou os olhos pedindo clemência à grande deusa.
— Já lhe disse que estou bem, mãe — resmungou, sem muita paciência — E não estou comendo só porcarias, garanto! — olhou de soslaio a embalagem de comida congelada sobre a pia enquanto equilibrava o celular no ombro.
— Tem certeza de que está tudo bem por aí? Eu posso voltar mais cedo se estiver em apuros.
— Sabe muito bem que sei me virar sozinho.
— É disso que tenho medo.
— Ah, qualé mãe! Sou um adulto muito responsável.
— Sei… Tem dinheiro e camisinhas na gaveta da cômoda, se precisar.
O raposo ficou vermelho.
— Eu nem estou saindo com ninguém!
— Porque é bobo mesmo... Você é bonito, solteiro, e está em casa numa noite linda dessas! Vai sair e se divertir!
— Me deixa, ok? Eu vou ficar bem. Devia agradecer por ter um filho comportado!
— Qual filho comportado? Tive outro enquanto estava bêbada? — riu longamente ao telefone, irritando-o — De qualquer modo se decidir fazer alguma coisa, por favor encape esse troço! Sou jovem e bonita demais para ser avó, Menma!
Ele riu, mentalmente concordando.
Sua mãe era uma mulher jovem, de espírito livre, um corpo de dar inveja. Tinha era de cuidar dela, afastar os caras interesseiros.
— Não vou engravidar ninguém, mãe. Pode ficar sossegada.
— Mas alguém pode é engravidar você!
— Eu não sou compatível, lembra?
— Você é neto de compatível, menino! Vai que um dia se torna fértil igual ao seu primo Naruto? Por sinal vi as fotos dele na rede social, está tão bonito grávido, parece uma bola!
— Era só isso que a senhora queria, certo?
— A "senhora" está no céu. Se cuida, fica com os anjos e com roupa também. Te amo!
— Também te amo — suspirou, completamente vencido, desligando em seguida.
Sua mãe às vezes podia ser um tanto irresponsável e imatura, mas conseguiu aceitar o fato de ter um filho gay, e para Menma isso era suficiente. Ela levou um baita choque a princípio, isso é inegável. Mas com o passar do tempo conseguiu se adaptar.
Isso o fez perceber que o motivo da preocupação dela não era com a sexualidade dele em si, mas com o modo como as outras pessoas o tratariam e se sofreria com isso. Pais querem o melhor para os filhos e qualquer coisa que os torne "diferentes" perante as outras pessoas amedronta muito.
Riu consigo mesmo ao lembrar do aviso da mãe. Foi até a cômoda do quarto e a abriu, tirando um pacote de papel repleto de embalagens fechadas de camisinhas, juntamente com um bilhete.
“Pode usar todas se quiser, só não saia de casa sem! Bjs!”
Riu de novo.
— Nem gosto dessa marca pra princípio de conversa — retrucou sozinho — Podia comprar aquelas mais finas e sensitivas ao menos.
Rolou a embalagem nos dedos, a argola do preservativo deslizando de um lado para outro dentro do plástico.
A única pessoa com quem queria estar agora o havia abandonado, trocado por outra.
E o pior de tudo era que não conseguia odiar Matsuri, pelo contrário. Era uma garota legal, alguém com quem teria amizade facilmente, se as circunstâncias fossem outras.
Largou-se de lado na cama, fitando o teto, sozinho em meio ao silêncio.
Era um total mistério para ele o fato das pessoas buscarem desesperadamente por amor, se isso também as fazia sofrer tanto. Seria muito mais simples não depender desse sentimento, nunca gostar de ninguém.
Mas também seria muito mais solitário.
Achou melhor esquecer, fazer outra coisa qualquer. Tirou o celular do bolso da calça e começou a ver as postagens mais recentes das redes sociais. Ao aceitar um pedido de amizade viu que era justamente de Matsuri, mas não se importou porque gostava dela, e não pretendia deixar o que sentia por Gaara interferir nisso.
No fundo tinha inveja do modo como ela havia cativado Gaara a ponto dele esquecer qualquer coisa, de lutar contra o que fosse só para ficar a seu lado.
Percebeu que, assim que aceitou o pedido, ela postou algo imediatamente em sua timeline.
"Já está de volta? >w<"
Ele sorriu e respondeu:
"Voltei ontem. Está desatualizada! ಠoಠ "
Percebeu ela desandar a conversar, contando as novidades. Não quis ser indelicado então apenas largou o celular sobre a mesa. Decidiu tomar um banho e depois responderia. Talvez seguisse o conselho de sua mãe e saísse um pouco para se divertir, afinal a noite estava mesmo linda.
E precisava muito espairecer para não pensar demais em certa pessoa.
—-
Segurava o celular nas mãos, o nervosismo aumentando ao visualizar a mensagem recém postada. Seus olhos tremeram de leve.
Havia ativado as notificações daquela publicação tão logo a viu, e checava o celular de minuto em minuto. Na realidade esteve vasculhando o perfil de Menma desde a viagem, com medo dele postar alguma foto, alguma mensagem que indicasse que estava saindo com alguém. E para ser sincero não podia culpá-lo, e sim se odiar por ter sido um grande idiota.
A resposta na tela do celular lhe pareceu definitiva.
“Voltei ontem”.
Então já estava em casa! Havia retornado ao país, finalmente.
Aguardou todos os dias por notícias dele, precisava pedir desculpas, ao menos tentar consertar as coisas porque sabia que era sua culpa que tivessem terminado!
Gaara mordeu o lábio inferior porque somente a ideia de poder vê-lo, de poder se desculpar, fez uma felicidade sem tamanho tomar conta dele.
A possibilidade de Menma não voltar mais ao país lhe encheu de medo e insegurança, todos aqueles dias! Precisava falar com ele, pedir desculpas, dizer que estava cometendo um grande erro!
Era sua grande chance! Não a perderia!
Decidido, pega as chaves do carro sobre o móvel e sem pensar duas vezes sai em direção à casa de Menma, torcendo para que ele estivesse mesmo lá. Pediria desculpas depois para Matsuri, mas precisava vê-lo, de qualquer forma!
—-
Saiu do banho e enrolou uma toalha na cintura, secando os cabelos espetados com outra enquanto cantarolava uma canção, a caminho do quarto. Sentou na beirada da cama e terminava de se secar, pensando para onde iria. Estava a fim de beber e conversar um pouco, se distrair e tentar tirar um certo ruivo da cabeça.
O banho fez um efeito maravilhoso, porque ao menos já se sentia muito mais disposto do que antes.
Ouviu a campainha tocar e resmungou. Quem seria num momento tão inoportuno? Não queria falar com ninguém agora.
— Calma aê — gritou, apertando a toalha na cintura e procurando qualquer coisa para vestir, sem se preocupar muito. Colocou a primeira bermuda de pano que encontrou e uma camiseta folgada, endireitou os cabelos com as mãos, mas isso só serviu para deixá-los ainda mais rebeldes.
Mais batidas, o que roubou sua paciência.
— Espera, caramba! Quem está aí afinal? — retrucou enquanto seguia para a porta da frente. Para sua completa surpresa ouviu uma voz baixa lhe responder.
— Sou eu, Menma. Abra essa porta porque precisamos conversar!
Menma engasgou e o susto o fez bater o dedo mindinho do pé na quina da parede. Resmungou de dor, massageando levemente, não sabendo ao certo o que pensar ou fazer. Seu coração disparou no peito e esqueceu a mágoa, o ressentimento, só conseguiu ficar feliz, traído pelo próprio coração.
Todos aqueles dias quis tanto rever Gaara, quis ligar para ele, tentar entender o motivo de ter sido rejeitado quando era óbvio que se gostavam!
Sem pensar direito corre até a porta e a abre de uma única vez, para encarar aqueles olhos verdes, intensos e estúpidos, que tanta falta lhe fizeram.
Gaara manteve o olhar, embora estivesse muito surpreso. Quando encarou as íris de Menma as palavras que havia pensado cuidadosamente em dizer evaporaram da cabeça. Respirar se tornou difícil porque tudo que mais queria fazer era irromper a distância e abraçá-lo o mais apertado que conseguisse, sentir de novo o calor que tanta falta lhe fazia.
Menma por sua vez tencionou dizer que estava realmente bravo, até mesmo abriu a boca para dizer isso, mas seu coração não colaborava! Insistia em gritar para que ele o abraçasse! A razão falou mais alto e ele esboçou uma expressão irritada e impaciente, cruzou os braços e se recostou na porta.
— O que você quer?
Gaara contraiu o maxilar, seus olhos não desviaram um momento sequer. Parecia muito decidido.
—... Eu precisava te ver, Menma.
— Para…?
— Pedir desculpas por tudo que te fiz, pelo modo como brinquei com você e te fiz sofrer. Eu... Tenho agido como idiota.
— Nisso tenho que concordar. Era só isso mesmo que tinha para me dizer? — tencionou fechar a porta, mas Gaara o impediu. No movimento brusco acabou por segurar no braço do Uzumaki, volvendo o olhar às iris muito azuis.
—... Me deixa entrar, por favor. Eu só quero que você me escute.
— Não estou afim de ouvir mais besteiras e me machucar ainda mais – forçou o braço para se livrar da mão que o segurava.
— Por favor, espere – seus olhos imploravam – Eu preciso que me desculpe. Menma, eu não estou conseguindo lidar com isso, com você me odiando desse jeito. Sei que magoei você, que brinquei com você, mas nunca foi minha intenção.
— O que não foi sua intenção? Me fazer crer que estávamos criando algo juntos, quando na realidade você só estava me usando para esquecer a Matsuri?
— O que sinto por ela não é mais como antes, e pude finalmente perceber isso.
Menma o encarou de volta, a mágoa era nítida em seu rosto.
— Oh claro, e agora que já se desiludiu volta correndo pra mim e acha que eu vou simplesmente aceitar você?
Os olhos verdes marejaram. Menma engoliu em seco e respirou muito profundamente para não se deixar levar.
—... Eu sei que não vai – baixou o rosto e soltou um suspiro quando os olhos transbordaram -... Mas vou fazer o que for preciso para que volte a gostar de mim.
Menma engoliu forte e devagar, usando de todo o autocontrole que possuía para não cair naquele golpe de novo.
O rapaz bonito à sua frente era o mesmo que destroçou seus sentimentos sem a menor compaixão. Não podia se deixar levar pela conversa dele de novo, ainda que fosse difícil.
— Não funciona assim. Não é como se eu pudesse simplesmente voltar a gostar de você, Gaara. A confiança que eu tinha ruiu por completo.
— Menma... – aproximou-se um passo, e percebeu quando o moreno retesou o corpo, não sabendo identificar aquela reação – Eu realmente sinto muito, eu não sei mais o que pensar, não há mais nada que deixe minha vida nos eixos. Eu preciso de você, muito mesmo.
— Gostaria de acreditar nisso, mas não consigo, Gaara.
— Apenas me deixe provar que estou falando sério...
Percebendo que ele permitia se aproximar, mesmo que aos poucos, tocou-lhe o rosto com ambas as mãos. Menma sentiu o ar faltar dentro do peito, totalmente imóvel, encantado com o rosto dele tão próximo ao seu. Sentiu-se zonzo e impaciente.
Antes que o beijo acontecesse, Menma o afasta sem olhar em seus olhos.
—... Acho melhor você ir embora.
— Mas, eu… Ainda não tive chance de te explicar nada!
— Boa noite, Gaara…
E sem hesitar mais fecha a porta, deixando o jovem de cabelos vermelhos parado e inconformado do lado de fora.
Gaara expirou fortemente.
Era mesmo o fim. Havia perdido a pessoa mais preciosa que já conseguiu encontrar, aquela que preenchia cada fibra de seu pensamento.
E tudo por conta de seu egoísmo, por não ter sido sincero consigo mesmo. Soube no instante em que reviu Matsuri, parada no meio do shopping, que o sentimento que teve por ela não era mais o mesmo. Entendeu perfeitamente que o que sentia por ela não sobrepujava tudo o que Menma significava em sua vida.
Ainda assim quis beijá-la para confirmar isso, por se negar a encarar a verdade.
Teve medo ao perceber que gostava de alguém como Menma. Não possuía coragem o suficiente para enfrentar a oposição das pessoas, as críticas, a exposição de seu nome e status. Seu medo foi o gatilho para se afastar. E como recompensa havia perdido Menma de vez.
O raposo por sua vez, parado do outro lado da porta, respirava depressa e sem saber o que fazer.
“Resista! Não pode se deixar levar agora!”
Porém, quando ouviu os passos se distanciando da porta, quando percebeu que Gaara estava mesmo saindo de sua vida, talvez para nunca voltar, o pouco autocontrole que tinha sumiu da mente.
Tinha medo de perdê-lo! Não suportaria ver Gaara com outra pessoa!
Abriu a porta de uma vez só, já esperando gritar por ele, mas para sua surpresa, ele havia encostado no muro, porque na realidade não queria ir embora, não conseguia ir.
— Gaara! — chamou atenção do ruivo que vira o olhar por sobre o ombro, sem entender.
Menma então caminha até ele pelo quintal e o abraça com força pelas costas.
—... Só essa noite – sussurrou – Fique comigo só essa noite.
O nervosismo atingiu Gaara imediatamente, mas ele não conseguiu negar. Volveu o olhar para Menma, percebendo que parte do sentimento ainda estava lá, brilhando no profundo dos olhos azuis, mas que agora refletiam de maneira diferente. Não havia mais a entrega cega de outrora, Menma parecia receoso e cauteloso.
Uma noite era tudo de que dispunha no momento, então Gaara não disperdiçaria a oportunidade.
Foi levado de volta para a entrada, puxado pelo braço. O Uzumaki fechou a porta com um baque, e avançou sem reservas para abraçá-lo pela cintura, puxando-o para si e colando sua boca na dele para lhe roubar um beijo profundo. Gaara não resistiu, nem tentou afastá-lo. Ergueu as mãos aos ombros largos, segurando-os com força enquanto o beijava de volta, todo o seu corpo se tornando quente com a proximidade, desejoso de saudade.
Mantiveram o beijo enquanto Menma o puxava pela casa, o fervor aumentando, assim como o ritmo do beijo. Abriu a porta do quarto com um empurrão, puxando Gaara consigo até que caíssem entre os lençóis e as toalhas molhadas que ainda estavam sobre a cama.
Menma subiu no corpo magrelo e ossudo de um Gaara que ofegava, rendido. Beijou seu pescoço e ombros enquanto começava a tirar suas roupas. Entre os beijos precisavam parar e arrancar algum pedaço de roupa restante, a excitação aumentava a um nível crítico e os cegava. Não havia a demonstração de afeto de outrora, era apenas paixão e calor da excitação. Quando seus corpos se encontraram nus, pele contra pele, gemeram, resfolegaram, era magnífico sentir a pele quente um do outro de novo.
Gaara sussurrou o nome de Menma que parou o que fazia, segurando seu rosto com ambas as mãos e o beijou repetidas vezes.
—... Eu não consigo ser gentil hoje, Gaara… Não dá mesmo! — avisou de antemão porque a saudade o consumia. Estava ardendo de desejo, tão excitado que chegava a doer.
Gaara retribuiu o olhar, porque estava em igual situação, e podia sentir o pulsar da ereção de Menma contra a sua.
— Eu não me importo! Apenas faça!
— Mas não tem nada aqui para facilitar… — olhou nas íris verdes e Gaara pareceu irritado.
— Estou lhe dizendo que não precisa!!! — apertou-lhe o pescoço com as duas mãos, para beijar seu queixo, lambeu o pescoço em seguida, lhe deixando claro que não se importava. Roçou o peito nu sentindo o suor brotar na pele.
Menma ofegou e se posicionou melhor entre as pernas do antigo chefe, que por sinal não perdera o hábito de lhe dar ordens, mas que agora estava completamente entregue debaixo de si. Empurrou com um pouco de força o corpo para frente, rompendo aos poucos a resistência, se sentindo entrar devagar, comprimido no espaço apertado. Foi sugado e engolido para dentro ao passo que movia o quadril para frente e sua boca abriu sem que som algum deixasse a garganta, os olhos fechados mas uma expressão deliciada no rosto. Tremeu ao se sentir completamente dentro, o calor intenso abraçou sua ereção.
Gaara agarrou os lençóis, arqueando o corpo todo ao se sentir preenchido. Volveu o rosto suado, os fios vermelhos marcando o rosto, cobrindo parte da tatuagem na testa. Seus lábios rosados e úmidos se abriram em uma súplica.
—... Mova-se…
Era uma ordem irrecusável e Menma não esperou um segundo sequer. Apoiou o peso do corpo nos cotovelos e baixou o rosto para poder beijar Gaara enquanto se movia dentro dele em um ritmo contínuo, fascinado com o modo que ele gemia entre o beijo, abafando sua boca, agarrando suas costas, entrelaçando as pernas e permitindo que Menma entrasse mais fundo.
A voz dele pareceu diferente aquela noite. Muito mais melodiosa, um gemido arrastado e gostoso que fez com que Menma perdesse a cabeça e o estocasse sem a menor piedade. O próprio aroma dele parecia mais doce, mais inebriante. Aquele corpo o atraía mais que de costume. Não soube dizer se era fruto da saudade.
Arremetia dentro dele sem se importar com o quão rápido tudo terminaria, estavam os dois em um limite de excitação que não imaginaram sentir, precisavam de alívio e já! Menma então ajoelha nos lençóis, ainda ligado à Gaara, as pernas deste em torno de sua cintura. Segura-o firme pelas ancas e se põe a penetrá-lo mais depressa, mais profundo, ajudando-o a cavalgar em seu colo, certo de que logo tudo terminaria. Daquela posição podia ver nitidamente a ereção dele bater contra a barriga, em riste e não perdeu tempo.
—... Vem junto comigo — pediu com aquela voz rouca que arrepiava o corpo do Sabaaku. Este assim obedeceu, alcançando sua própria ereção, deslizando a mão molhada de suor em torno dela, enforcando-a cada vez mais rápido, seguindo o ritmo com que era invadido por Menma. A voz escapava de sua garganta sem o menor esforço, estava completamente deliciado, seu corpo todo vibrava e ardia e isso apenas pareceu aumentar quando Menma gemeu mais alto e grave, apertando os dedos em suas ancas e se movendo pouco, bem lá no fundo, se derramando dentro dele. Gaara sentiu o calor do líquido que jorrava dentro de si e com poucos movimentos seu corpo foi sacudido, enquanto a mão encharcava com seu próprio líquido que jorrava para o alto, lambuzando sua barriga e a de Menma.
A cabeça do Uzumaki descansou em seu ombro, e ele tentava a todo custo voltar a respirar normalmente, abraçado ao corpo que ofegava junto ao seu. Desligou o corpo do de Gaara, mas não queria permitir que ele saísse de perto.
O Sabaaku então ergue a cabeça e o fitou, obrigando-o a fazer o mesmo. Encararam-se, a poucos centímetros de distância. Seus olhares traduziam a confusão de sentimentos em que estavam imersos. Desviavam o olhar para a boca um do outro, ambos anisando por um beijo, por um abraço longo que pudesse apagar e consertartudo.
Pareciam muito cansados, os rostos vermelhos. Encararam-se sem saber muito bem o que dizer. Menma foi o primeiro, um pouco sem graça e tentando secar o suor rosto.
Era embaraçoso, não havia o que dizer. Gaara então suspirou, levantando o corpo e se dirigindo ao banheiro para se limpar o mais depressa que conseguiu. Deixaria para tomar banho em casa, no momento só queria sair dali.
Vestia-se quando Menma surge na porta do banheiro, o olhar correndo pelas coxas grossas e nuas do mais velho.
—... Não precisa ter tanta pressa assim para ir embora.
— Uma noite, não é? Foi o que me propôs, e aceitei isso.
— Disse que precisávamos conversar, que tinha algo a me dizer.
— Se ainda não entendeu o que tenho a dizer, é perda de tempo tentar me explicar — concluiu fechando o ziper da calça e passando o cinto, um ruído de tilintar enquanto o fechava.
— Gaara…
— Conversamos amanhã, Menma — fitou-o, muito sério — Hoje não conseguiria explicar metade do que preciso, não quero confundir as coisas.
— Por estar arrependido?
O mais velho suspirou.
— Justamente pelo contrário — respondeu com tanta segurança que surpreendeu o raposo — Estou ciente de que era o que eu queria, era a coisa certa a se fazer. Meu corpo inteiro desejava o seu e agora compreendo bem o que me disse sobre não querer apenas meu corpo, não querer apenas uma noite. É muito mais do que isso, não é? — sorriu de maneira triste. Menma ainda ia tentar argumentar quando ele terminou apressadamente de se trocar, se aproximou e lhe deu um beijo rápido. Em seguida pegou as chaves do carro que caíram no chão.
— Nos falamos depois — disse somente, seguindo o caminho para a porta da frente, sem olhar para trás.
—-
Ao chegar em casa, Gaara se sentia péssimo! A tristeza era tão forte que seguiu à cozinha, disposto a tomar a garrafa de vinho que havia comprado recentemente, e cujo plano era abrir somente quando sua irmã viesse lhe visitar, mas achou por bem tentar esquecer Menma, deletar o que ele fazia com seu corpo e com sua mente. Abriu a garrafa e tomou no gargalo mesmo, largado na cadeira do cozinha, sem conseguir chorar ou se lamentar porque parecia anestesiado.
Nada mais era como antes. Primeiro com Matsuri e agora com Menma. Definitivamente não foi feito para ser feliz no amor, só complicava a vida dos outros. O que ganhava em troca de se apaixonar era sempre um sofrimento terrível.
Soluçou, se obrigando a beber mais, o álcool ardendo na garganta.
Queria esquecer de tudo!
A falta de costume em beber logo o deixou enjoado com a bebida. Sentiu o ardor subir de volta na garganta e vomitou com força pelo chão, cuspindo o que acabara de beber, se achando ainda mais patético por nem ao menos saber beber como um adulto o faria. Desolado, decide ir tentar dormir, embora aquela tenha sido uma péssima noite de sono, bem como as noites que seguiram.
Gaara passou dias difíceis sem se concentrar devidamente no trabalho, sem vontade alguma de sair ou fazer qualquer coisa. Sua única vontade era ficar na cama sem sequer se mexer.
Mandou diversas mensagens para Menma, mas foi ignorado em todas. Ele não parecia disposto a lhe perdoar. E agora que a dor apertava, podia sentir na pele o peso de seu desprezo, desta vez no extremo oposto.
Por conta disso começou a sentir dores abdominais constantes, enjôos frequentes, dores de cabeça, cansaço súbito… Em apenas uma semana era como se tivesse ficado muito doente. O mais estranho de tudo eram as alterações de humor, o calor intenso. E para ser bem franco, aqueles sintomas começaram a preocupá-lo.
Cerca de uma semana passada do ocorrido, quando o despertador tocou pela manhã desejou intensamente ainda dispor de algumas horas para dormir, porque seu corpo estava simplesmente exausto! Talvez por reflexo de tanto pensar em sua complicada situação com o raposo.
Oh não, chega de pensar nele ou ficaria maluco! Balançou a cabeça, mas gemeu de dor em seguida.
Precisava de analgésicos, algo que curasse aquela dor terrível. Ergueu o corpo da cama e praticamente se arrastou até o pequeno armários de remédios disposto na cozinha, pensando no que poderia tomar para aliviar a enxaqueca que o perseguia.
Foi então que uma dúvida pareceu cruzar sua mente.
Eram os analgésicos que provocavam efeito colateral na medicação que havia começado a tomar recentemente? Ou seriam anti inflamatórios?
Não recordava bem, ainda estava confuso porque não entendia bem de remédios, nunca precisou tomar nada antes, sua saúde era boa.
Bem, não que aquele remédio fosse exatamente por um problema de saúde. Como começou a tomá-lo há poucos dias ainda não o compreendia em sua totalidade, mas lembrava de não poder tomar alguns tipos de comprimidos para não cortar o efeito.
A dor de cabeça era tanta que tornava difícil raciocinar direito, concluiu que era melhor ler a bula do remédio para lembrar quais as contraindicações. Foi lendo rapidamente, vasculhando as linhas com os olhos na área de contraindicação. Ah sim, dizia que não poderia tomar anti inflamatórios ou o efeito poderia ser cortado. Ótimo, não havia nada contra analgésicos, assim poderia tomar algo para dor de cabeça que estava lhe matando.
Por mera curiosidade prosseguiu com a leitura, exatamente no trecho que informava sobre possíveis diminuições na eficácia…
Um nó foi se formando na garganta, mas dessa vez não por causa do enjôo que acompanhava a enxaqueca. Seus olhos se arregalaram de susto e sem perceber, começou a tremer de puro pânico ao passo que lia. Em dado momento sua vista chegou a escurecer e ele precisou se apoiar na quina da parede ou acabaria cedendo ao chão.
Estava completamente transtornado, tanto que precisou reler diversas vezes para ter certeza de que não entendeu errado. Quando releu a mesma linha pela quinta vez, percebeu que era exatamente como havia entendido e não pôde evitar levar a mão à boca, o desespero crescendo dentro dele.
—... Como… Como eu pude não ler uma coisa dessas? Como pude esquecer um detalhe tão importante?!
O detalhe ao qual se referia fazia toda a diferença. Álcool anulava o efeito de seu remédio!
A medicação que começara a tomar há poucos dias tratava-se de um anticoncepcional masculino, e o próprio Gaara havia ido ao médico para solicitá-lo. Isso porque há poucos dias descobriu que se tornou fértil.
Não que duvidasse ser compatível, na realidade sempre soube. Porém nunca havia produzido os hormônios necessários para ovular. O período de fertilidade dos compatíveis pode se manifestar até a fase adulta e caso um compatível tenha exames apontando fertilidade negativa, isso não significa que em dado momento de sua vida não possa gerar uma criança.
Foi o que aconteceu com Gaara. Os sintomas desagradáveis como alteração no peso e no humor, cerca de duas semanas atrás, constataram algo que já imaginava: se tornou fértil. E para ser bem sincero nunca quis isso, nunca desejou ser pai.
Como forma de se precaver procurou um médico que lhe indicasse um método eficaz de prevenir uma gestação indesejada. Lhe foi receitado um anticoncepcional masculino, para que mesmo que tivesse relações, estivesse protegido. O uso garante 99% de proteção e segundo o médico, usar preservativo seria indicado somente se não conhecesse seu parceiro.
Bem, ele conhecia Menma, sabia que não pegaria nenhum tipo de doença dele. Mas a real questão era outra!
Havia esquecido algumas informações daquela bula gigantesca que mais parecia uma bíblia! E nela dizia que algumas coisas podem cortar o efeito contraceptivo, uma delas a ingestão de álcool.
A outra era ainda mais preocupante: em caso de vômitos intensos, se o organismo ainda não tiver absorvido o remédio, ele certamente não fará efeito.
Um nó se formou na garganta dele e precisou sentar ou acabaria hiperventilando.
Na mesma noite em que dormiu com Menma havia ingerido álcool, e isso o fez vomitar intensamente. Dois motivos para se sentir muito preocupado.
Será mesmo que o anticoncepcional perdeu o efeito? Se isso tivesse acontecido então certamente estaria…
A lembrança dos sintomas recentes o deixou ainda mais apavorado.
Tudo que andava sentindo não parecia os sintomas exatos de uma gravidez? Para piorar ele havia dormido com Menma no momento exato em que se encontrava no período fértil!
Se caso estivesse mesmo… O que faria?
Precisava ficar calmo! Precisava pensar! A dor de cabeça ficou em segundo plano. Ergueu a camiseta e fitou a própria barriga, achando-se mais inchado que o normal, sem saber se uma semana era o bastante para já notar alguma mudança aparente no corpo. Talvez fossem apenas os hormônios, afinal ganhou peso ultimamente.
Que pesadelo!
Naquele momento Gaara amaldiçoou as vezes em que ele próprio disse que “ninguém engravida por acidente a menos que caia sentado nu no colo de outra pessoa”
Compreendeu pela primeira vez o que significava uma gravidez por acidente. Ele não era como as pessoas por aí que fazem sexo sem prevenção, pouco ligando se isso acaba ou não em gravidez.
Ele se preveniu! Foi atrás de um método contraceptivo, estava seguindo-o! O descuido nem foi por falta de cuidado, sequer imaginava que um detalhe tão trivial pudesse resultar numa gravidez indesejada!
Seus olhos arderam.
Não, não, não! Era só preocupação sem sentido! Não estava grávido, não podia estar grávido!
O alarme do celular apitou indicando o horário de sair de casa e chegou a gritar de susto, tão compenetrado estava. Achou melhor tomar um banho rápido e se arrumar, porque se pensasse demais acabaria enlouquecendo.
—-
Ao vê-lo entrando no setor, Ino fez uma careta de asco.
— O senhor está com uma cara horrível — disparou e Gaara a fuzilou com o olhar.
— Vá cuidar de sua vida, Yamanaka!
— Não devia tratar assim quem se preocupa com o senhor — resmungou com um bico enorme — Teve uma noite ruim?
Ele pensou em simplesmente ignorar, porque odiava fofocas, ainda mais sobre ele, mas algo lhe desviou a atenção. Na mesa de trabalho, Kiba parecia largado, desolado e infeliz.
— O que ele tem?
A jovem deu de ombros, e isso acabou por balançar os seios fartos confinados detrás da camisa branca.
— Imagino que esteja sentindo falta do Menma. Está assim desde que ele se demitiu.
Kiba ergueu a cabeça, totalmente desanimado.
—... Essa empresa é muito chata sem o Naruto Negro, com todo o respeito senhor Sabaaku- completou rapidamente e Gaara girou os olhos.
— Não é como se algum de nós pudesse fazer alguma coisa. Eu estava disposto a recontratá-lo, mas se ele negou.
Ino e Kiba pareceram muito surpresos pela revelação repentina, e ao perceber o que estava dizendo, Gaara corou e desviou o assunto.
— Agora parem de fofocar e voltem ao trabalho! — encerrou rapidamente, irritado, seguindo o caminho do corredor sem se desviar.
Ino ainda ficou olhando na direção em que ele foi, até dar um sorriso que deixou Kiba sem entender. Hinata chegou nesse instante. Perdera a conversa, mas trazia uma xícara de chá quente para Ino.
— Do que está rindo? — perguntou sem entender.
Ino balançou a cabeça e aceitou de bom grado a xícara.
— Nada, e obrigada pelo chá. Só você consegue animar minha manhã, Hinatinha — apertou-a, fazendo-a rir.
— Isso tudo por causa de uma xícara de chá?
— É mais pelo seu sorriso bonito. Alguém já disse que seu rosto parece radiante quando há um sorriso nele? — deu-lhe um grande sorriso e seguiu o caminho para o seu setor, caminhando apressada sobre os saltos agulha.
Hinata subitamente pareceu surpresa, não esperava um comentário como aquele. E para dizer a verdade se sentiu… Envergonhada! Seu rosto ardeu e ela escondeu isso bravamente, virando para o lado. Logo, cada um seguiu ao seu setor e a conversa perdeu o rumo. Hinata voltou à sua mesa e ao se sentar respirou fundo, se afundando na cadeira.
Por que estava tão nervosa?
Seja lá o que fosse provavelmente era bobagem. Agitou a cabeça e decidiu se concentrar no trabalho, ignorando por completo o aperto que se formou dentro do peito.
—-
— Ei, está ouvindo alguma coisa do que eu estou dizendo???
Matsuri indagou alto, mas estava se divertindo ao ver o modo aéreo que Gaara se encontrava. Era fim de tarde, e ele a havia visitado naquele pequeno kitnet alugado para conversar um pouco.
Claro que isso era estranho, ele não costumava tomar a iniciativa, nem expor o que estava sentindo. Recebê-lo foi uma surpresa, mas a julgar pelo modo como seus olhos pareciam fundos e sem vida, imaginou que na realidade ele precisava conversar sobre algo sério.
Isso a fez sorrir ao perceber como Gaara era dependente de companhia, ainda que ele negasse isso. Deixou-o sentar em seu sofá e lhe ofereceu café. Estavam os dois assistindo o último episódio de um seriado bastante popular. Gaara não conseguiu prestar a menor atenção, ainda que quisesse saber o que aconteceria. Matsuri por sua vez franziu a testa, indignada com o decorrer da trama.
— Ainda queria o Yuri tivesse se casado com o Victor. Mas acho que foi justo assim, ele não merecia tirar o primeiro lugar mesmo.
O rapaz piscou algumas vezes, meio aéreo.
—...O quê? — olhou para a tela da tv — Ah sim… Então o Victor desistiu de ser técnico e voltou a patinar?
Matsuri girou os olhos.
— Nem ao menos prestou atenção, certo? Tá tudo bem com você?
Ele piscou algumas vezes, totalmente alienado.
— ... Sim... Está sim.
— Pois não parece. Algo está te preocupando?
— Claro que não. Por que algo me preocuparia?
Ela não disse nada a princípio, mas percebeu que ele estava estranho. Quando o percebeu se afastar um pouco, nitidamente incomodado, respirou fundo. Sabia que aquela não seria uma conversa fácil. Gaara sempre foi muito retraído e introvertido. Arrancar algo dele era um sacrifício!
Endireitou-se no sofá, colocando uma das mãos no joelho dele, ainda fitando a tv, se distraindo com a música dos créditos.
—... É por causa do Menma que você está estranho, não é? – arriscou, e soube ter acertado quando ele se virou imediatamente, assustado e vermelho.
— C... Claro que não!
— Você não me engana, Gaara. Por que não pode ser sincero comigo e consigo mesmo? Você gosta do Menma!
— Nem brinque com uma coisa dessas, eu estou com você agora.
— E isso parece um grande erro — concluiu sob o olhar pasmo dele — Já não sente mais o que um dia sentiu por mim, Gaara! E sabe disso.
— Não sei do que está falando. Eu ainda gosto muito de você – embora dissesse isso, ele não a olhava nos olhos. Tentava a todo custo desviar o olhar.
Matsuri se irritou com isso e segurou seu rosto, forçando-o a encará-la. Percebeu o rubor em sua face, os olhos surpresos e brilhantes. Ele parecia inocente e fofo, mas não havia em sua expressão o fascínio de antigamente. Até mesmo seu olhar havia mudado.
— Quero que seja muito sincero agora. Quando pensa em mim, não é bastante parecido com quando pensa em Temari?
— Hein??? — franziu a testa — O que minha irmã tem a ver conosco?
— O modo como você gosta de mim é exatamente assim. É amor fraterno, você só quer cuidar de mim porque sou importante para você.
Ele se irritou e a afastou.
— Pare de me tratar feito criança!
— É porque está agindo como uma! – esbravejou, surpreendendo-o – Estou tentando te proteger, ando mentindo para você e isso não está certo! Você precisa parar de fingir que o que vivemos no passado ainda existe porque já acabou! Não nos gostamos mais desse jeito, Gaara! E creio que você nunca tenha correspondido meus sentimentos à altura!
— Não diga uma coisa dessas.
— É a verdade! Você não me ama, pare de se apegar a algo que nunca vai acontecer! Temos que continuar nossas vidas, caminhar para frente! É o mais saudável para nós dois.
— Só consigo entender que você está desistindo de nós, mas eu não farei isso.
— Nem mesmo ao se dar conta que é pelo Menma que você está apaixonado agora?
O rosto dele corou mais, alcançando as orelhas e pela primeira vez pareceu realmente zangado
— De onde tirou essa estupidez?
— Está estampado na sua cara.
— Eu não gosto do Menma. Não tem como eu gostar de alguém como ele. Eu só estou confuso, ele me deixou assim.
— Você não quer admitir porque está com medo. E sinceramente não sei de quê.
— Eu estou feliz que tenha voltado para minha vida, Matsuri! Eu senti muito a sua falta!
— É mesmo? — o olhar dela era tão intimidador que chegava a incomodar. Mas Gaara não teve muito tempo para pensar quando ela o empurrou no sofá. Para sua surpresa, sentou em seu colo, apertando-o com suas coxas.
Gaara corou furiosamente.
—...Q....QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?
— Um convite — disse séria, imprensando o quadril para baixo, roçando no corpo dele e fazendo-o corar mais, se é que isso era possível.
— P…Pare com isso!
— O que há de mais em dormir com a pessoa que gosta?
— Mas... Mas nós dois...
— Não consegue? — rebolou um pouco sobre o colo dele fazendo-o virar o rosto e querer se enterrar de tanta vergonha.
— Matsuri, por favor...
— Você não deseja o meu corpo, Gaara? Não acha estranho que mesmo depois de tanto tempo você não sinta vontade alguma de dormir comigo? E bem sei que você não é assexual, você se interessa por sexo!
— Não é como se eu não tivesse vontade... — sentia o rosto ardendo de vergonha — Eu só... Não consigo te ver desse jeito.
Ela não pareceu convencida. Pegou a mão dele e a colocou sobre seu seio, apertando os dedos dele na carne macia. O grito que ele soltou a fez rir descontroladamente.
— Você me diverte, Gaara!
— Não é assim que precisa ser! Deveria ser algo especial, para nós dois!
— Concordo — apoiou as mãos no peito dele, ainda sentada em seu colo — E teria sido. Mas veja só como as coisas são. Você não me deseja, nunca me desejou. Minha presença apenas te fazia bem, te fazia sentir seguro. Ainda pode ter tudo isso, Gaara. Eu sempre vou estar com você quando precisar, vou cuidar de você ou te escutar quando precisar. Para isso não precisamos ser namorados, podemos apenas ser bons amigos.
Ele a segurou pela cintura, parecendo genuinamente aborrecido consigo mesmo.
—... Pode não acreditar, mas eu realmente te amei durante o tempo em que estivemos juntos, Matsuri. Eu idealizei uma vida toda com você.
— Eu também — sorriu — Mas talvez não fosse para ser assim.
— Você ainda gosta da Sari?
— Gosto — afirmou com o máximo de convicção, sem hesitar nem por um instante — Ainda que tivemos algumas brigas... Ela está realmente brava comigo agora.
— Se é assim então por que voltou dizendo que queria ficar comigo?
— Porque... Sua irmã Temari estava preocupada da última vez que falei com ela pelo telefone. E tive medo que você pudesse, sei lá, fazer alguma besteira! Achei que o melhor seria te iludir, para ficar de olho em você, ao menos até ter certeza de que ficaria bem sozinho. Me desculpe, Gaara. Eu só queria te proteger.
Ele virou o rosto, irritado consigo mesmo.
—... Eu não tentaria... Não de novo.
— Ouvir isso é um alívio imenso. Sempre tive medo que você acabasse desistindo de tudo.
— Senti sua falta por tanto tempo, Matsuri... Sofri por você, e agora que finalmente voltamos sinto que, por alguma razão, não deveríamos ficar juntos. Só não quero te magoar...
— Somos amigos, é o que restou para nós. E o mais acertado é aceitar isso, que você gosta do Menma. E para ser bem sincera eu tenho certeza de que ele também gosta de você.
Ao ouvir isso ele ergue o tronco, segurando-a pelas costas e a deixando um tanto surpresa. Com cuidado a faz se levantar de seu colo e a senta no sofá.
— Matsuri, estou em uma situação realmente complicada.
— Porque gosta de outro homem? Um cara legal feito o Menma, que te ama e só quer ficar com você? Aposto que se aparecer na frente dele agora mesmo ele não hesitaria em ficar com você!
—... Eu sei disso porque... Bem, eu o encontrei há alguns dias e… Nós dois estivemos juntos...
Ela demorou alguns segundos para processar a informação e quando finalmente entendeu o desconcerto dele deu um imenso sorriso malicioso.
— Ai caramba, você dormiu com ele!!!
— Não que me orgulhe, acredite. Foi um momento de fraqueza – resmungou.
— Ele é bom de cama?
— QUE TIPO DE PERGUNTA É ESSA???
— Você pode me contar, oras — retrucou, inconformada por ele não dar detalhes — Tão bonitinhos...
— O que tem de bonito nisso? Eu não fui sincero com você, não agi com caráter. Ainda estava namorando com você, mas fiquei com outro homem!
— Tem razão e estou terminando com você por conta disso.
— Deveria fazer bem mais que isso — suspirou e a olhou de lado, incomodado com o modo simples com que ela conduzia aquela conversa — Matsuri, eu estou com medo.
— De quê?
— De tudo — apertava os dedos um no outro, o aperto em seu peito voltando e o impedindo de pensar, apenas por lembrar que poderia estar...
Respirou fundo, ainda sem encará-la.
—... Há alguns dias eu fiz alguns exames... E o teste de fertilidade deu positivo. Isso me torna oficialmente um compatível.
A jovem arregalou os olhos.
— Você...? — volveu o olhar imediatamente à barriga dele — Não me diga que está grávido do Menma?!
— Eu não sei... Espero realmente que não.
— Como não sabe? Compatíveis tem algum sinal? Que eu saiba vocês não menstruam, certo?
— Não. Eu só estou incerto porque, bem... Estava tomando anticoncepcional, mas... Não me atentei à bula e ingeri bebida alcoólica, e vomitei muito naquela noite, então não sei se o remédio teve tempo de ser absorvido então... Ah, Matsuri... O que eu vou fazer se estiver mesmo esperando uma criança? Eu não planejei nada disso, não quero isso para mim!
— Já fez o exame para confirmar? — ela agora estava séria. Não havia traço do sorriso zombeteiro. Era a mesma mulher forte e decidida em quem Gaara confiava e sabia poder contar sempre.
— Não fiz, eu morreria de vergonha.
— Vai morrer é de ansiedade se não conseguir confirmar isso! Eu vou comprar um exame de farmácia para você – levantou num salto, procurando pela bolsa largada em cima da mesa – Me espere aqui que eu já volto.
Nem teve tempo de impedi-la porque ela correu para fora de casa em um instante. Ficou parado, no silêncio da casa vazia, ansioso demais para pensar.
E torcendo para que o resultado desse negativo.
—-
O farmacêutico ainda não conseguia entender bem enquanto olhava o rosto ansioso daquela jovem.
— A senhorita quer um teste de gravidez masculino?
— É! Pro meu namorado. Pode se apressar, por favor?
O homem não tentou entender, achou que nem valia à pena, e pegou uma pequena caixa branca e azul, colocando em um cestinho. Matsuri sequer olhou para trás e foi até o caixa pagar de uma vez, para retornar logo para sua casa porque imaginava o tamanho da frustração que estava assombrando Gaara.
Seria mesmo possível que estivesse grávido? Se tivesse ouvido essa história logo teria enfiado uma pílula do dia seguinte direto em sua goela! Mas já havia se passado vários dias. A única opção era mesmo torcer para nada ter acontecido.
Se o pior acontecesse, imaginava que Menma não fugiria da responsabilidade, ainda que estivesse bravo com Gaara.
Era exatamente esse tipo de atitude que amedrontava Matsuri. Não daria certo se reatassem somente pelo dever da paternidade. As brigas, os desentendimentos, a mágoa permaneceriam lá, e não seria uma criança que resolveria nada disso. Tampouco seria justo com a pobre criança ser usada como motivo de reconciliação.
E o pior, o que era mais preocupante de tudo: Gaara não parecia ter a menor vontade de ser pai. Ele parecia em choque, em pânico, jamais teria condições de gerar e cuidar de uma criança.
Acabou por pensar em quão novo era o termo "compatibilidade", e a importância de alertar os homens sobre a possibilidade de uma gravidez indesejada assim. A mídia mal veiculava nada a respeito dos compatíveis, parecia fingir que não existiam. Nada ensinava sobre exames regulares para avaliação de fertilidade. Homens já não possuem o hábito de fazer exames médicos, então era dever da saúde pública tentar reverter esse quadro.
Pela lógica, um descendente de compatível em quase todos os casos herda a compatibilidade, ou seja, nasce apto a gerar uma criança. Porém, nem todos se tornam férteis. Há casos de homens que nasceram compatíveis e nunca puderam gerar uma criança em toda a vida por serem inférteis. Em outros casos, homens compatíveis que não apresentavam sinais de fertilidade, em dado momento de suas vidas, podem simplesmente começar a ovular.
Provavelmente era o caso de Gaara, e para ser bem sincera jamais imaginou que um homem horrível como Rasa fosse compatível e tivesse repassado isso aos filhos. Provavelmente aquele homem nunca se informou, nunca soube.
Matsuri voltava para casa apressada, a cabeça repleta de pensamentos.
Agora que pensava bem conseguia entender muitas coisas.
O primo de Menma, Naruto, é compatível. E o cunhado de Naruto, o tal Sasori, também é. Isso explica uma informação bastante difundida de que compatíveis inconscientemente sentem a presença de outros compatíveis. Aparentemente é causado por feromônios, algo tão sutil que não se percebe, mas que faz compatíveis se afeiçoar a outros compatíveis e se manterem por perto.
É uma questão natural de proteção. Juntos, eles possuem maior probabilidade de se ajudar e proteger, assim como proteger seus filhos. A natureza simplesmente sabe o que faz, entende que homens grávidos são odiados e que precisam se unir. Neste ponto, é semelhante ao que dizem que mulheres que convivem juntas menstruam em dias próximos. É uma forma natural de se ajudar.
A jovem respirou fundo, apressando o passo. Não queria deixar Gaara ainda mais preocupado do que ele já estava.
—-
Ao chegar em casa, o rosto pálido e desesperado de Gaara lhe dava profunda pena. Ela esboçou um sorriso apertado, o lábio inferior comprimido, como se demonstrasse que entendia todo o terror que ele estava sentindo.
—... Você comprou? — ele indagou em tom urgente e preocupado.
Ela assentiu que sim, fechando a porta detrás de si e mostrando uma sacola de plástico.
— Melhor abrir lá em cima, só tem um banheiro e fica dentro no quarto — fez sinal com a cabeça e pediu para ele subir as curtas escadas, para que tivesse mais privacidade. Gaara assentiu e subiu pelo espaço apertado em direção ao quarto. As paredes finas permitiam ouvir nitidamente a conversa da casa ao lado.
— Esse lugar é uma república de estudantes? — indagou enquanto abria a porta do quarto.
— É, ficou mais barato para mim porque vim aqui a trabalho.
Internamente, Gaara sentiu-se tolo.
Pensava que Matsuri havia voltado apenas por causa dele, que estupidez! Uma pessoa não viaja de uma hora para outra só para um reencontro!
O quarto era tão ou mais apertado que o restante da casa. Gaara se sentou na beirada da cama e só então pareceu se dar conta de que estava no quarto a sós com Matsuri, aquela que povoou sua mente por tantos anos. E que não sentia mais absolutamente nada por ela nesse sentido.
Matsuri sentou a seu lado na cama, sem se importar com a pouca distância. Na verdade apoiou a perna sobre a dele, e Gaara nem se importou. O tempo de convivência os tornou íntimos. Abriu a caixa e tirou os objetos que vinham dentro dela: uma haste fina, um pote transparente e a bula.
— Aqui diz que o efeito é melhor se fizer pela manhã. Quer esperar?
— De jeito nenhum — adiantou-se — Como eu... Faço isso?
Matsuri leu atentamente o conteúdo da bula.
— Diz... Para fazer xixi dentro desse pote e mergulhar a haste por um minuto. Se aparecer duas riscas o resultado é negativo. Se aparecer uma só é positivo.
O rapaz corou de vergonha e desconcerto ao pegar os dois objetos.
— É confiável?
— Não é 100% garantido, ainda mais com poucos dias assim. Esses testes rápidos funcionam melhor se tiver mais tempo. Mas já serve para nos livrarmos da dúvida.
O desespero aumentou significativamente e sem pensar duas vezes ele segue para o banheiro, fechando bem a porta detrás de si.
Estava muito nervoso, suas mãos tremiam e suavam bastante. Fitou o potinho minúsculo imaginando o sacrifício de fazer xixi dentro dele.
O problema maior era que sequer estava com vontade para isso!
Como se adivinhasse seus pensamentos ouviu batidas na porta. Entreabriu só uma fresta e percebeu um copo de água ser estendido em sua direção.
— Tome e espere uns minutos — ela disse somente fechou a porta, deixando-o tranquilo para fazer o que quisesse.
Gaara seguiu o conselho e tomou toda a água do copo, em seguida sentando na tampa fechada do vaso sanitário, uma das mãos na cabeça que doía.
"Isso não pode estar acontecendo, não comigo. Por que diabos eu não decorei aquela bula? Eu não quero ser pai agora! Eu não posso ser pai agora!"
Abrir mão da carreira no momento em que ela estava em ascensão, reconfigurar sua vida, mudar os planos, ter para sempre um vínculo com Menma… Não estava preparado para nada disso!
Do lado de fora Matsuri sentou na cama, os dedos entrelaçando-se nervosamente. Aguardou sentada o que pareceu cerca de vinte minutos, até que enfim o ruivo abriu a porta, parecendo mais pálido que antes, uma expressão de morte estampada no rosto.
— E então? — perguntou de maneira aflita — Me diz o resultado!
Ele ergueu o rosto, mas nada saiu de sua boca. Levantou a haste e Matsuri saltou da cama em direção a ele, pegando a haste já lavada, olhando atentamente a coloração da ponta.
Engoliu em seco.
—.. Gaara, tem certeza de que fez o teste direito?
— Segui as instruções de uso à risca.
Ela volveu o olhar à haste em suas mãos, olhando atentamente para a ponta úmida.
Não havia coloração alguma e as riscas sequer apareceram.
— Acho que você mergulhou demais. Ou talvez tenha dado inconclusivo. O melhor a fazer é agendar um teste laboratorial. Sugiro que faça isso amanhã mesmo.
Ele pareceu concordar, tão ou mais desolado que ela.
— Amanhã de manhã eu vou direto para um laboratório, ainda que precise chegar mais tarde no trabalho. Eu preciso tirar a dúvida antes que isso me faça enlouquecer.
Matsuri sentiu algo desagradável no modo como ele falava, e na expressão que fazia. Algo dentro dela lhe disse para não deixá-lo sozinho naquele estado lastimável ou o resultado poderia ser alguma tragédia.
Tocou seu braço devagar.
— Você precisa se acalmar.
Ele segurou-lhe a mão com um pouco mais de força do que gostaria. Olhava para o nada, completamente perdido.
— Menma e eu não estamos numa boa fase... Na verdade eu sequer deveria ter cedido — volveu o olhar para a jovem e seus olhos embaçaram — Matsuri... Eu não sei o que vou fazer se o resultado for mesmo positivo
Ela engoliu em seco, mas ele prosseguiu.
— Mesmo agora eu não paro de pensar nele. Havia ido até aquela casa somente para uma conversa, para pedir desculpas... Mas, quando estou perto dele eu não tenho controle algum. Sabia que era apenas uma noite e aceitei isso... — nem tentou impedir quando o choro saiu de uma vez -... Tenho agido como um estúpido e agora vejo o resultado de todos os meus erros.
— Você gosta dele tanto assim, Gaara?
O rapaz de cabelos cor de fogo suspirou, fechando os olhos, franzindo a testa.
— Eu acho que o amo, Matsuri — admitiu, destroçado — E por não entender o que sentia, por não ter coragem de aceitar isso, eu o perdi. Sei que ele nunca vai me perdoar por mais que eu queira.
Ela não esperou que terminasse e o envolveu em um abraço apertado.
— Sempre soube da confusão dos seus sentimentos, Gaara. E aprendi a lidar com isso. Eu só quero que você seja feliz porque é uma pessoa importante para mim. Seja lá o que aconteça, saiba que pode contar comigo.
— Lamento ter te causado tanta preocupação. E lamento tê-la feito reatar comigo por medo que eu fosse estúpido o bastante para me matar. Eu já estou velho, mas continuo agindo feito criança. Tudo que você me disse é a pura verdade.
— Isso não importa agora. O que realmente importa é confirmar se você está grávido ou não, Gaara. Ou a dúvida vai te matar!
— Eu farei o teste pela manhã... Exatamente como me disse.
— Quer que eu vá com você?
— Oh, não — sorriu sem muita vontade, colocando uma mecha de cabelo castanho dela detrás da orelha — Eu já lhe dei preocupações o bastante, e já compliquei muito a sua vida.
Tendo dito isso dá alguns passos para trás, ainda olhando seus olhos castanhos.
Matsuri não encontrou brechas para dizer mais nada quando ele se despediu, virou as costas e seguiu rumo à saída.
—-
A ligação inusitada fez com que Menma estranhasse. Normalmente não recebia ligações de número desconhecido, ainda mais àquela hora da manhã.
Estava sentado em uma das cadeiras desconfortáveis de uma agência de empregos. Havia levantado cedo para procurar algum bico para juntar dinheiro enquanto não conseguia um trabalho com carteira assinada. Era seu modo de ir se virando e graças à isso nunca ficou sem dinheiro.
O som do celular fez algumas pessoas, sonolentas e entediadas, olharem diretamente à ele na sala de espera e isso o convenceu a atender a ligação do lado de fora, próximo aos elevadores onde não havia ninguém.
Ao atender, a voz baixa e feminina lhe pareceu bastante familiar. Reconheceu prontamente a dona dela.
— Matsuri? Como conseguiu meu telefone?
— Pedi seu número para um dos seus amigos que encontrei na rede social, um de nome Kiba. Ele disse algo sobre um tal de Naruto Negro, mas eu não entendi muito bem. Enfim, você precisa me escutar, é algo importante e é sobre o Gaara!
— Pode parar — interrompeu-a porque somente ouvir aquele nome fazia sua cabeça doer — Eu não quero saber de absolutamente nada sobre ele. Finalmente percebi que não existe esperança nesse relacionamento e estou tentando seguir adiante.
— Então quero que saiba que pretendo voltar à minha cidade assim que meu projeto terminar. Vou explicar toda a situação para Sari, pedir desculpas pelas burradas que fiz com ela e vou tentar reatar, porque Sari é a pessoa mais importante no mundo para mim. Não estou mais preocupada em fingir nada para o Gaara, e sinto que seria injusto não te contar o motivo disso.
— Não quero ser grosso com você, Matsuri, mas nada que tenha a me dizer sobre ele me interessa mais.
— Ótimo, então posso te contar e você simplesmente ignora isso, já que não faz diferença.
—... O que você quer afinal?
— Gaara terminou comigo ontem — disse diretamente, antes que ele se enfezasse e desligasse.
Pelo silêncio que se instalou na ligação ela soube que o havia fisgado, ele estava prestando atenção.
— Ele mesmo me disse que não me ama mais do modo que amou um dia, que o sentimento agora é diferente.
—... E espera que eu fique feliz com isso? Que vá correndo atrás dele, de um cara que me chutou?
— Menma, entendo como se sente. Mas seria uma pena vocês se separarem por conta do que aconteceu. Foi uma série de mal entendidos. Gaara na realidade ama você.
— Não adianta dizer isso para tentar me convencer.
— Ele me disse isso ontem, e desculpe porque imagino que queria ouvir diretamente dele e não de mim. Se quiser ficar com raiva vá em frente, mas quero ter certeza de que fiz o que era possível para que vocês dois tivessem uma chance.
— O Gaara ama e deixa de amar em um instante. Não dá para acreditar no que ele diz.
— Então deixe te contar uma coisa muito importante, algo que envolve você também: Gaara tem algo de muito similar com seu primo Naruto, e pode ser que esteja passando pelo mesmo que o Naruto está passando agora. Se você mudar de ideia, saiba que vai encontrá-lo no laboratório próximo ao local que ele trabalha. Até mais!
— Ei! Esper...
A ligação foi interrompida.
Menma respirava bem depressa e se assustou com o rumo da conversa. Tentou ligar de novo, mas a ligação caía direto na caixa postal.
Não estava entendo mais nada.
Gaara tinha algo de similar com Naruto? E estava passando pelo mesmo que ele?
O que significava? A única coisa de diferente que acontecia com Naruto no momento é estar grávido! E até onde sabia Gaara nem era compatível!
Talvez ela se referisse a um problema de saúde? Pode ser que ele estivesse fazendo exames porque algo de grave tivesse acontecido?
Uma dor incômoda se formou no estômago do raposo e fitou de relance as portas de vidro da agência de emprego. No painel piscava exatamente o número que tinha em mãos, anunciando a chamada de sua senha.
Menma não titubeou em pressionar o botão de descida do elevador e se apressar rumo ao laboratório mencionado por Matsuri.
Se havia algo de errado com Gaara então definitivamente precisava descobrir o que era.
—-
A movimentação de pessoas estava começando a deixá-lo aflito. Aguardava sentado em uma cadeira gelada da sala de espera, já em completo pânico.
Gaara não havia dormido absolutamente nada. Estava cansado, arrasado, com dor de cabeça e uma incômoda dor de estômago desde a noite anterior, o que apenas servia para acentuar seu desespero de que poderia mesmo estar grávido.
Chegou com mais de uma hora de antecedência do horário de início de coleta de exames, simplesmente porque não conseguia ficar em casa, não dava para esperar! Precisava saber de uma vez se estava grávido ou não.
Não encarava ninguém, apenas ouvia os passos, as crianças que choravam, os enfermeiros chamando nomes de pacientes, o ruído chato do painel eletrônico anunciando uma nova senha... O cheiro forte e característico de hospital estava deixando-o enjoado.
Precisava se acalmar, ou ao menos tentar. O coração batia tão afoito que doía. Seus pensamentos estavam um caos completo. Percebia a movimentação distante, torcendo para que ninguém se aproximasse, não estava com a menor vontade de conversar.
Contrariando seu desejo percebeu quando alguém se pôs à sua frente. Imaginou ser o enfermeiro para avisar que a coleta já havia iniciado.
Porém, ao erguer os olhos perdeu a fala por um instante ao perceber Menma parado, fitando-o com uma mescla de surpresa e preocupação.
Gaara prendeu o ar, sem crer que o raposo estava mesmo ali. A vergonha que sentiu o faria se enterrar no chão se pudesse, sua vista chegou a escurecer por alguns segundos.
Como... Ele ficou sabendo onde estava?
A julgar pela expressão confusa e desorientada teve medo que ele armasse algum escândalo, já estava encrencado o bastante. De maneira que levantou-se, pegando seu braço e o tirando apressadamente da recepção, sob alguns olhares curiosos dos que estavam ali.
Ao se verem no corredor, por onde algumas pessoas transitavam, Gaara recostou-se à parede, muito nervoso a ponto de sua voz tremer.
— O... O que pensa que está fazendo aqui?
Menma parecia assustado, de fato estava branco como um fantasma. Virou o olhar de volta à recepção, observando bem as pessoas que estavam ali, e o painel onde estavam descritas as especialidades médicas atendidas.
— Eu é que pergunto... O que você está fazendo num lugar como este?
Gaara evitou seu olhar a todo custo, odiando as mãos fortes que seguravam seus braços. Quando seus olhos bateram nos de Menma ficou mudo por um momento, redesenhando com os olhos o rosto fino, as marcas de bigodes nas bochechas, os cabelos espetados... Precisou ordenar à sua mente que deixasse de pensar nele e se concentrasse em encontrar uma resposta convincente o bastante.
— Vim fazer um exame de rotina, só isso!
— Em uma área destinada à exames BHCG de mulheres e compatíveis? — perguntou muito sério, a testa suada, os intensos olhos azuis o fitando sem esquivas.
Gaara mordeu o lábio inferior forte o bastante para marcá-lo.
— Seja lá o que estiver pensando não te interessa.
— Não me interessa? Você é compatível, não é? Por isso está aqui!
— Isso não tem nada a ver com você! — fez força para se livrar das mãos que seguravam seus braços.
— Como não??? Se você estiver grávido eu preciso saber!
— Fale baixo, por favor! — repreendeu-o, olhando em volta e percebendo alguns curiosos olhando para eles e sussurrou — Menma, saia daqui. Eu estou nervoso, preciso ficar sozinho.
O outro parecia não saber o que fazer e sua expressão denunciava exatamente isso. Passou as mãos pelo cabelo negro e respirou fundo, soltando o ar pela boca.
O desespero dele não ajudou em nada o estado de espírito em que Gaara se encontrava. Parecia tão ou mais desesperado que ele próprio.
—... Se realmente estiver.... Se você estiver grávido de verdade, Gaara, então...
— Não vou ter essa criança — enfatizou, conseguindo a atenção do raposo.
— Como é? — indagou, confuso.
— Se eu realmente tiver engravidado, se confirmar isso nesse exame, então terei certeza de tomar alguma medicação que interrompa a gravidez. Não estou pronto para isso.
— Medicação? Isso não é proibido?
— É um absurdo que seja, mas darei um jeito de encontrar. Ou simplesmente tentarei alguma clínica clandestina que faça um aborto.
— Isso pode custar sua vida, Gaara. Eu não quero que se machuque, que tome esses remédios que podem te matar com uma hemorragia! Não quero vê-lo numa mesa, sem higiene ou cuidados necessários... Pode não sair com vida de lá e eu não suportaria isso!
— E espera que eu faça o quê? Que eu tenha essa criança? Eu não a quero, Menma! Eu nunca pedi por isso! E bem sei que serei julgado com alguma estupidez do tipo "Ah, se não queria um filho então por que fez sexo? Bastava nunca ter feito nada!" Pessoas que dizem isso deveriam transar somente para procriação porque não entendem que, para algumas pessoas, sexo é demonstração de afeto, é entrega de sentimentos e não me importo com o povo por aí que o faz sem proteção, sem se importar com nada porque eu me importo!!! Eu planejei minha vida, eu tomei cuidado, e não quero acabar com tudo agora só por conta de um descuido momentâneo! Não é justo!
O Uzumaki o ouviu esbravejar e deixou que ele o fizesse, sabia que precisava.
— Você sabia ser compatível?
— Soube há pouco tempo! — respirou fundo para se recuperar da raiva — Fui a um médico quando descobri, pedi que me indicasse um contraceptivo, eu o tomei todos os dias, mas... Depois de estarmos juntos eu quis esquecer o modo como você me tratou e... Acabei tomando bebida alcoólica, não sei se o remédio foi absorvido, e estou com medo! Não quero ser condenado por todos por causa disso!- disse um tanto mais alto, assustado e nervoso — Quem vai ter que cuidar dessa criança serei eu! E quem me condena estará tranquilo vivendo a própria vida!
— Eu não condeno você — disse num tom bastante calmo, porque estava tão preocupado e assustado quanto — Eu imagino perfeitamente o que passa pela sua cabeça, Gaara. Mas não acha que está preocupado sem motivo? Nem ao menos tem certeza de estar grávido.
— Eu estava em período fértil — respondeu e Menma ficou mais pálido do que antes — Tenho os sintomas mais comuns, por isso estou preocupado — esfregou os olhos molhados.
— Podem ser psicológicos, um reflexo de seu nervosismo. Ou ainda hormonais.
Gaara soluçou e rangeu os dentes.
—... O que eu vou fazer, Menma?
— Vamos pensar em alguma coisa. Vou estar com você.
— Não quero que reatemos por conta disso! Se o fizermos é por aquilo que nós dois sentimos! Apressar as coisas não vai resolver nada!
— Eu sei, Gaara. Eu sei.
O raposo passou os braços em redor do corpo dele e o trouxe para junto de si num abraço. Sua mente estava uma loucura.
Eles não estavam em uma relação, uma gravidez não seria usada como pretexto para mantê-los juntos, morar juntos ou algo assim. Menma sentiu uma pressão esmagadora.
Estava desempregado, era jovem e cheio de sonhos. Ser pai agora significaria abrir mão de tudo, ou pelo menos rever suas prioridades. Por um lado imaginava como seria ter um filho, até conseguia pensar na felicidade que via estampada no rosto de Naruto. Mas por outro, sabia que a sua realidade não era nada fácil e teve medo, de verdade.
Naruto contava com Sasuke que o cobria financeiramente. Um arrepio de pesar passou por sua espinha ao lembrar que, caso Sasuke não tivesse custeado o tratamento de Naruto, o dinheiro que foi emprestado pelos pais dele não seria o suficiente para cobrir todas as complicações que teve. Naruto provavelmente estaria morto agora.
Dinheiro é importante, principalmente no que diz respeito a uma criança, a uma gravidez complicada de compatível.
E se Gaara precisasse de ajuda? Como faria para auxiliá-lo se nem ao menos estava empregado?
Quando finalmente se tornasse pai desejava que fosse em um momento planejado, para ter dinheiro, estabilidade, condições de fazer aquela criança feliz, de dar tudo de melhor que ela pudesse precisar. Amor e carinho eram importantes, obviamente, mas uma boa educação e saúde só seriam proporcionados com investimento.
Era assustador só de pensar... Se sentiu impotente e apavorado.
A voz do médico chamando o nome do Sabaaku os despertou e eles viraram em direção ao consultório, na sala de espera onde havia uma porta aberta e um homem parado diante dela, olhando os rostos entre as pessoas que esperavam e aguardando que alguém se pronunciasse.
Tornaram e se encarar e Gaara soltou-se dele, o afastando.
—... Quer que eu vá com você?
— Não. É algo que preciso mesmo fazer sozinho — encarou-o uma última vez e então seguiu o caminho rumo à sala em que seu nome foi chamado. Menma só conseguiu ficar parado no mesmo lugar, o coração batendo como louco dentro do peito.

Continua.

Notas finais
Quem tinha dúvidas sobre o Gaara... Elas estão esclarecidas! Segue pro próximo que os demais casais estão por lá te esperando, assim como o resultado do exame. Não esquece de deixar seu comentário aqui antes. Bjs!