Ensine-me a te amar
14 14. Dois meses em branco
Notas iniciais

POV. Lucy
–Está melhor? -perguntou a ruiva num tom ameno, pacificador.
Levei a xícara de chocolate quente aos lábios, tomando mais um gole. Meu corpo ainda tremia bastante e a bebida acolhedora era com certeza uma das melhores formas de acalmar os nervos de alguém. Erza a fez justamente para esse propósito afinal.
–Por que... veio aqui? -indaguei finalmente, coçando os olhos que ainda estavam inchados de choro.
–Depois que saiu da Fairy Hills pensei em fazer algo. Você parecia bem cansada e abatida depois da missão, vim aqui para convidá-la pra ir num onsen*... não esperava que fosse chegar aqui nesse momento. -contou ela, sentando ao meu lado na mesa de jantar- Você está bem, Lucy?
–Não. -falei, não queria mentir, as lembranças do que acontecera ainda eram vívidas em minha mente- Eu... estou em conflito, Erza, e quase cometi um erro terrível.
–Deixe que eu te ajude. -pediu, confiante- Somos amigas, não é? Confie em mim.
Tomei um longo fôlego antes de falar, aqueles olhos escuros me enervavam um pouco.
–O filho que estou esperando é... do Natsu. -confessei finalmente, falando pela primeira vez a verdade em voz alta.
Ela me encarou por um segundo, atônita, antes de se recompor.
Erza baixou um pouco a cabeça, mirando a xícara fumegante em suas mãos.
–Pra ser sincera... eu meio que suspeitava disso. -admitiu, um tanto envergonhada.
–Eeeh?!
Ela riu da minha expressão chocada, como se fosse engraçado.
–Sejamos honestas Lucy, Natsu é seu parceiro, aquele com quem mais tem contato desde sempre. Ele nunca vai em missões sem você, falando sério: há rumores sobre vocês dois desde o dia em que entrou na Fairy Tail.
Senti um rubor tomando conta das minhas bochechas, meu rosto queimava.
–Afinal, você foi a primeira garota que ele já trouxe pra guilda, pra família dele. –destacou, sorrindo para mim.
–Eu... nunca pensei assim.
–Pra ser sincera, achei que estava errada depois do jeito que ele reagiu quando soube. Natsu não gostou muito da notícia, se fosse normal, ele estaria eufórico com certeza.
Não pude evitar um sorriso melancólico, ela tinha razão. As coisas não saíram como eu esperava, na verdade foi completamente o oposto do que eu queria.
–O que está havendo entre vocês dois? -questionou, os olhos curiosos encarando-me diretamente agora.
Hesitei, as palavras me fugindo por um instante. Minhas mãos cerraram-se contra o tecido do short azul em minhas pernas.
–Ele... ele não lembra. -murmurei, respirando fundo ao sentir a garganta queimar de novo- Estávamos tão bêbados... quando dei por mim estava acordando na cama dele. Entrei em pânico e corri pra casa.
–Lucy...
–Eu não sabia o que fazer. -relembrei, o gosto amargo voltando a minha boca- Se contava ou não, acabei ficando quieta. Lissana havia se declarado pra ele e pensei... que só seria um fardo de contasse a verdade. Natsu... não lembra de absolutamente nada então deixei assim. Não queria perder a amizade dele.
–E...?
–E foi quando descobri que estava grávida. -desabafei, o nervosismo daqueles momentos ainda me abalava muito- Senti-me tão... mal. Não queria isso agora, não queria que fosse assim, eu... eu... -eu estava chorando de novo, droga!- Fiquei desesperada. Quanto mais o tempo passava, mais medo tinha de contar.
–Por que não falou nada pra mim antes? Ou pras meninas? Teríamos ficado do seu lado. -repreendeu Erza, compadecida.
–Não queria que me julgassem. -funguei, limpando as lágrimas insistentes que atrapalhavam minha visão- Não sabia o que fazer, pensei que se descobrissem iriam me achar uma vagabunda ou coisa parecida.
A ruiva pôs a mão em meu ombro, conciliadora.
–Nunca faríamos isso, Lucy! -afirmou, indignada.
–Eu sou um pessoa detestável, Erza... -gemi baixinho, os ombros trêmulos de novo- Ele nunca vai querer esse filho...
–É claro que vai! Natsu não faria nada com você nem com essa criança. Lucy, ele...
–Eu vi! Eu vi, Erza! -interrompi-a- Ia contar naquele momento, mas quando cheguei na casa dele eu... eu vi Lissana. Eles estavam... estavam aos beijos...
Ela prendeu a respiração, surpresa. Logo senti enquanto esfregava minhas costas, deixando que eu chorasse de novo. Droga, não queria mais ficar chorando por ele, ainda mais agora. Só não conseguia evitar. Estava mais frágil do que nunca, queria que isso tudo acabasse logo.
–Perdi a cabeça... quase cometi um erro horrível! -balbuciei, a dor crescendo mais e mais, como se nunca fosse ter fim- Eu quase... quase matei nosso filho!
–Está tudo bem agora, tudo bem. -Erza me abraçou forte, passando aquela sensação de segurança que eu realmente estava precisando.
Como um abraço de mãe. Pensei, desejando mais uma vez que minha mãe pudesse estar aqui comigo.
Soltei o fôlego, abrigando-me naquele sentimento acolhedor o quanto podia. O ressentimento era forte, mas agora não tão insuportável, não tão intenso.
Sentia que não estava sozinha. Que tudo poderia ficar bem de verdade.
Suspirei, soltando-me do abraço de leve, e sorri para ela.
–Obrigada... se você não estivesse aqui, não sei o que podia fazer. -falei, sincera.
A ruiva devolveu o sorriso.
–Não se preocupe com isso. Tenho certeza que as coisas vão dar certo daqui pra frente. É só uma questão de tempo, logo vai ver isso como uma dádiva. Fora que o Natsu...
–LUCYYY! -gritou uma voz extremamente familiar, interrompendo a fala.
Saímos rápido da mesa ao ver um certo Exceed azul disparando pela janela do meu quarto. A primeira coisa que pensei foi:
Se ele não está aqui, só pode ser alguma coisa com o Natsu.
E não estava errada. Happy tinha algumas lágrimas nos olhos quando proferiu a frase seguinte, algo que mudaria completamente o meu futuro naquele momento.
–É o Natsu! Ele... ele foi embora! –exclamou o Exceed, trêmulo e choroso.
(…)
2 Meses Depois
Ninguém mais teve notícias de Natsu desde aquele dia.
A guilda estava no escuro, completamente. Nenhum rastro, nenhum sinal, nenhum aviso, nada. Inúmeros rumores pareceram vir a superfície, mas a verdade era que ninguém sabia o que acontecera com ele.
Happy se recusava a dizer qualquer coisa que pudesse estar ligada ao paradeiro do amigo, ele mesmo aparentava não saber de nada. Parecia abalado pela ida do Salamander e, acima de tudo, preocupado.
O neko passara a viver só na antiga casa.
Ele disse que ia voltar, então vou esperá-lo. Falou, quando convidei-o para ir para a minha casa, recusando veementemente sair da pequena cabana.
Aquilo parecia tão errado. Happy sem Natsu. Parecia muito... solitário, ainda que o Exceed não houvesse mudado muito de humores, eu sabia que sentia falta do companheiro. De um jeito estranho, Natsu foi como um pai, amigo e companhia para ele, assim como Wendy para Charlie, Rogue para Frosh e Sting para Lector. Foi quem o criou, quem cuidou dele quando era apenas um ovo e estava lá quando nasceu, até mesmo foi quem escolheu seu nome. O laço entre eles é muito forte, por isso tenho certeza que confia em Natsu no que quer que esteja fazendo, mesmo que tenha sido deixado para trás.
A reação da guilda também foi de choque. Ninguém esperava isso assim, de repente. Gray surtou quando soube, estava pronto pra ir atrás do rosado e, nas palavras dele, quebrá-lo em pedacinhos, mas logo o convencemos a não ir. Pelo que Happy disse, não foi sequestro ou coisa parecida, ele simplesmente foi embora por vontade própria, dizendo que voltaria quando pudesse.
Agora o que exatamente ele foi fazer o neko azul não sabia.
Mas isso não foi a única coisa que mudou nesses dois meses.
As coisas mudaram muito pra mim também. Depois daquele dia, minha vida virou um turbilhão de informações e preocupações. Decidira finalmente: Ia ter esse bebê. Nunca mais faria nada como aquilo, era detestável, e desde então tenho arrepios só de lembrar do que estava pensando em fazer.
As mudanças na rotina foram radicais. Dormia muito, estava só comendo coisas saudáveis e tentando me manter de missões mais fáceis, algo que não exigisse muito da minha magia. Ainda assim já estava pensando muito à frente, tantas, tantas coisas que ia precisar no futuro. Precisaria de dinheiro para me manter, muito mais do que o que o preço do aluguel, afinal estaria vivendo por dois nos próximos seis meses.
Quando Levy voltara da missão, quase teve um treco. Natsu sumiu, eu estava grávida e a guilda estava toda confusa. Foi um longo dia aquele... Foi divertido.
Quanto à Erza... Bom, depois de muito pedir, ela concordou em não falar nada sobre a paternidade do bebê para o resto da guilda, temporariamente, deixou isso claro. Além de não aprovar mentiras, ela sabia que uma hora ou outra todos descobririam a verdade. É meio inevitável já que, de acordo com Poluchka-san, esse filho herdará, muito provavelmente, a magia de Natsu.
Como será que vai ser? Ter um bebê em casa tacando fogo nas coisas? Estremeci com o pensamento, isso ainda ia me dar um bela dor de cabeça no futuro.
A barriga ainda não é muito visível. Passei a ir num médico especializado no assunto e ele disse que era assim mesmo, que os primeiros meses são mais tranquilos nesse apecto, porém, infelizmente, isso não incluia o resto dos sintomas. Céus, nunca fiquei tão enjoada assim! Essa coisa de 'enjoo matinal' é uma mentira descarada! Ficava dias inteiros querendo morrer. O cheiro de comida fazia meu estômago revirar inteiro, seja o que for. Qualquer coisa com muito tempero me fazia vomitar, e acreditem, não é tão engraçadinho quanto as pessoas fazem parecer.
Já Levy, Erza, Juvia e Wendy pareciam minhas enfermeiras de plantão. Não me deixavam muito tempo sem comer e estavam sempre de olho... Ah, céus, isso dá tanto trabalho! Por conta disso, fiquei bem mais irritadiça que o normal. Coisas bobas eram o suficiente para me dar nos nervos e estava pior que a Erza em repreender o barulho infernal que faziam naquela guilda.
Isso tudo gastava minha energia tanto que estava dormindo bem mais que o normal. Isso contando o meu normal, pois o médico disse que sonolência também é extremamente comum no primeiro trimestre. Isso e a algumas dores também, como a dor de cabeça. Meus seios mesmo estavam me matando!
Devia estar insuportável, mas não podia evitar. Deve ser isso o que chamam de 'hormônios a flor da pele'.
E, como meu médico é um maldito bem sincero, confessou que tudo poderia piorar com o começo do terceiro mês.
Tinha vontade de estrangulá-lo, entretanto sabia que não era culpa dele e deixava quieto. Estava apenas irritada, por muitas coisas.
Queria mesmo é guardar energias para estrangular outra pessoa na verdade, aquele idiota de cabelo rosa que só estava me dando preocupação!
Ficava imaginando onde estava, e me arrependendo de não falar nada antes. Agora só deus sabe o que está fazendo (e eu juro que se for alguma coisa estúpida vou lhe dar uns safanões!). Queria que estivesse aqui... Natsu não é disso, bom, sei que fazer coisas impulsivas e idiotas é sim sua especialidade, entretanto sumir assim não é de seu feitio. Ele ama a Fairy Tail tanto quanto qualquer um de nós, ou até mais.
Mas não podia me preocupar com ele agora. Tinha muita coisa pra pensar!
Era só o segundo mês, todavia as meninas já estavam todas animadas. Falando sobre roupinhas, berços e fraldas, estavam até mais animada do que eu! Quero só ver como vou escolher a madrinha desse bebê quando ele nascer, isso vai dar confusão por certo...
Quem mais me dava apoio era Erza. Ela ficava maravilhada com a ideia de ter um bebê como novo membro da guilda (meio cedo, né?). Levy também sabia algo sobre o assunto, o que era tranquilizador no meu caso, e me emprestou muitos livros sobre gravidez e sobre como cuidar de bebês.
De vez em quando, ainda saíamos em missões maiores, porém íamos como grupo. Gray, Erza, Juvia, Happy, Wendy e Charlie iam comigo. Era meio frustrante não poder ajudar nas lutas, mas sabia que era temporário, ainda que fosse demorar para que pudesse fazer grandes missões de novo, até mesmo depois que o bebê nascer vai ser corrido demais pra ficar pensando nisso. Vão ser longos meses.
Era nessas missões que eu mais sentia falta de Natsu. As coisas não eram as mesmas sem um rosado esquentado destruindo as coisas e tacando fogo nas cidades. Tudo parecia tão... menos divertido sem ele por perto. Era por ele que eu entrara na Fairy Tail, e aqui não parecia a mesma coisa sem aquele cabeça-oca aqui.
Por mais que quisesse fugir disso, sentia falta dele de um jeito excruciante. Nem ao menos sabia que sua presença me era tão importante até que desaparecesse de vista.
Se voltasse, poderia esclarecer tudo. Explicar-me e lhe dar um sermão pela ida. Poderia ver aquele sorriso que tanto gostava e rir de sua personalidade infantil tão encantadora. Se voltasse, eu... ia ser honesta. Ia dizer e verdade de uma vez por todas.
Será que ele algum dia sequer irá voltar? Era a pergunta que assombrava-me os pensamentos Espero que chegue logo em casa, não é, Natsu?
(...)
Naquele dia, estava voltando da Fairy Hills depois que Erza, Wendy e Juvia me convidaram a passar uma noite lá ao final de uma missão de três dias aqui mesmo, nos arredores de Magnólia. Era tão ir pra casa afinal! Sempre me sentia bem melhor ao chegar no meu apartamento, estar finalmente num lugar aconchegante como meu lar.
Era fim de tarde. Em minhas mãos segurava as compras que fizera no caminho de casa num mercadinho. Os supostos 'desejos de grávida' ainda não apareceram, mas admito que estou comendo bastante, e sem remorso, afinal preciso de mais nutrientes mesmo!
No caminho, cantarolava baixinho, pensando se deveria ir a guilda ou não. Acabei desistindo no fim, só queria tomar um bom banho e escrever um pouco do meu romance antes de dormir. Estava com tantas ideias que sentia que ia dar um rumo bem interessante à história!
Subi as escadas com lentidão, apanhando as chaves da porta no molho em minha bolsa e procurando a certa.
Parei no batente de repente. Um cheiro familiar rodeava o ambiente, um leve farfalhar arrastado ecoando por detrás da porta.
Meu coração congelou por um segundo no peito, uma sensação de frio por dentro que um segundo depois foi substituída por um calor latente. Rapidamente, enfiei a chave na fechadura e a girei com tudo, minha respiração falhando e meu coração agora palpitando loucamente, fogo líquido parecendo preencher minhas veias.
A porta bateu contra a parede, escancarada, e eu olhava para dentro paralisada ali mesmo, meus membros tremendo de leve.
Uma brisa suave sacudia as cortinas brancas da janela. O espaço de céu visível já envolto numa penumbra de crepúsculo, avermelhado e dourado. A luz iluminava precariamente as feições sérias do rosto dele, abrasando os cabelos espetados e lhes dando aparência incendiária. Os olhos castanhos me encontraram facilmente, seu corpo pendendo sentado no batente da janela despreocupadamente. Um largo sorriso tarjou seu semblante antes pensativo, a luz em seus olhos cintilando com o mesmo brilho que eu lembrava.
Não pude evitar, sorri. Sorri de verdade. Um alívio imensurável tomando conta de meu peito numa explosão de sensações.
Ele estava ali novamente, o estranho rapaz de cabelos rosados que gostava de invadir meu quarto voltara afinal.
Fale com o autor