Ensine-me a te amar

13 13. Quando nossos demônios espreitam


Notas iniciais
Gente, voltei cedo! 0/ O cap. ficou enorme e cheio de treta. É um dos mais importantes pra trama e tenho certeza que muitos vão querer me esfolar depois de lerem ele *0*. Enfim, prometo que vou responder seus comentários do cap. anterior à tarde (já que já passou de meia noite). Enfim, mesmo sabendo que vai causar revoltas, espero que gostem!

POV. Lucy

–Vocês estão se sentindo melhor? -perguntei, deixando a bolsa de roupas por cima da cama e sentando na cadeira entre os leitos.

Wendy me sorriu.

–Estou bem mais disposta. Quero poder voltar logo para a guilda. -afirmou.

–Apesar de nossa magia ainda não estar 100%, também estou bem melhor. -disse Charle, abrindo a bolsa que eu trouxe e olhando seu conteúdo.

Com a ajuda de Erza, fui a Fairy Hills pegar algumas coisas para as três até que pudessem voltar para casa. A minha sorte foi que elas moravam todas no dormitório, o que me poupava o trabalho de procurar endereços.

Acebei acordando mais tarde do que deveria, estava tão cansada que nem ao menos me preocupara com o horário. Saí apressada de casa para o dormitório feminino da Fairy Tail, dessa vez não encontrando nenhuma dificuldade desagradável na entrada.

E agora acabara de chegar a casa da curandeira, encontrando a mesma trabalhando com alguns remédios. Em compensação, Juvia, Wendy e Charle estavam bem acordadas.

–Por que rival no amor está sendo tão gentil com a Juvia? -indagou a azulada mais velha, confusa ao receber uma bolsa com seus pertences.

–Quantas vezes eu tenho que dizer: não sou sua rival no amor. -suspirei, sorrindo- Somos amigas, lembra?

Ela hesitou, mas devolveu o sorriso.

–Obrigada.

–Disponha. -respondi automaticamente- Que bom que estão se sentindo melhor agora.

–A senhora Poluchka disse que logo poderemos ir pra casa. -comemorou Wendy, animada.

–Eeh, isso é ótimo! O pessoal realmente ficou preocupado quando soube do ataque, é um alívio que esteja tudo bem de novo. Por falar nisso... -olhei para Juvia, curiosa- Queríamos perguntar se sabe quem atacou vocês, afinal Wendy e Charle não chegaram a ver o inimigo.

A maga da água ficou pensativa por um momento.

–Eu... não sei quem foi. -confessou, parecendo frustrada- Tenho certeza que já o vi em algum lugar, mas ele usava um manto negro que cobria o rosto, então não consegui reconhecê-lo.

–Manto negro?

–Sim. Ele era para ser o carroceiro, mas, do nada, começou a nos atacar. Foi tão rápido que mal deu pra ver. Logo nos jogou pra fora da carruagem, declive a baixo. Juvia segurou Wendy-chan e Charlie na queda, mas antes que pudéssemos chegar no riacho ele nos atacou com uma magia de vento.

–Será que pode ser... Erigor?! -exclamei, assustada.

Juvia negou com um aceno.

–Não, não era ele. Juvia tem certeza. -afirmou, confiante.

–Bem, podemos pensar nisso depois, com o resto do pessoal. Agora o mais importante é vocês se cuidarem.

–O mesmo pra você, garota. -repreendeu uma voz atrás de mim.

Poluchka-san me encarava com uma expressão desconfiada, nas mãos segurava três copos com conteúdo esverdeado, provavelmente as ervas que estava moendo mais cedo.

–Poluchka-san, o que quer dizer? -questionou Wendy, preocupada- Tem algo de errado com a Lucy-san?

–Tomem isso e descansem por hoje. -ordenou a mais velha severamente, empurrando os copos às três- O caso da menina é diferente, menos grave, então parem de se preocupar.

–Como eu suspeitava. -murmurei- Sabia que algo estava estranho, esses cansaços e fraquezas estão fortes demais. Minha magia nem parece estar melhorando. O que eu tenho?

A rosada bufou.

–Com certeza deve ser uma deficiência mágica. -afirmou, analisando-me com o olhar.

–O... o que quer dizer? -indaguei, nervosa.

–O que você tem é um tipo de deficiência na administração da magia em seu corpo. -explicou- Aparentemente, pelo que posso ver, o pai do seu filho é um mago que usa a magia a partir do corpo dele, ou seja, reside em si a fonte de seu poder. Mas você, como maga celestial, é uma portadora, ou seja, sua magia se concentra em sua maioria nas chaves dos espíritos, não em seu corpo. Esse filho provavelmente herdará a magia do pai, mas como ainda não está muito bem formado ele exige muito do poder da mãe para se desenvolver no começo da gestação. O problema é que tanto o estresse emocional quanto a própria quantidade diminuta de magia no seu corpo interferem nisso, o que deve lhe deixar exausta. É realmente impressionante que tenha aguentado duas semanas tão bem, no seu caso. Vai precisar de algum suplemento de poder para levar melhor a situação, posso prescrever alguns remédios para ajudar nisso.

Era muito pra assimilar. Era por isso que minha magia estava tão debilitada? Por que o bebê precisava dela? Isso quer dizer que esse filho vai herdar as habilidades do Natsu?

–A RIVAL NO AMOR ESTÁ GRÁVIDA?! -berrou Juvia, indignada.

–Calma, Juvia-san, -começou Wendy, nervosa- tenho certeza que esse bebê não é...

Mas a azulada já estava em prantos.

–Se a rival no amor está grávida do meu Gray-sama Juvia não tem mais chances! -lamentou-se ela, angustiada.

–Juvia, esse filho não é do Gray! -exclamei, autoritária- Eu nunca tive nada com ele, caramba!

Isso pareceu acalmá-la um pouquinho.

–Jura?

–Juro, juro! Estou grávida... de outra pessoa. -contei, quase me entregando ali- O que significa que Gray é só meu amigo.

–De quem rival no amor está grávida então?

Mordi o lábio inferior, pensando se deveria ou não contar a ela.

Mas, para a minha sorte, Pouchka-san interrompeu logo a conversa, começando a citar os medicamentos que eu teria que tomar.

Pelo que me disse, teria que tomar alguns suplementos energéticos por algum tempo, pelo menos até o segundo ou terceiro mês. Senti-me desconfortável ao imaginar o futuro, sendo que nem houvera decidido se ia mesmo ter essa criança, entretanto ouvi atentamente à todas as instruções sem interromper.

Depois disso, fui praticamente expulsa da casa da curandeira, que reclamou da permanência ali enquanto havia feridos tentando descansar. Não pude deixar de bufar, ela era mesmo uma médica bem excêntrica.

Já do lado de fora e após uma breve despedida para com as quatro, finalmente decidi ir a casa de Natsu. Estive pensando nisso desde que acordara, porém por algum motivo senti-me nervosa com a possibilidade de voltar a vê-lo, então acabei enrolando o dia todo até ali. Fiz tudo o que tinha que fazer por hoje, a última coisa seria falar com o rosado.

Desde que acordara, uma dúvida pairava em minha mente. Será que eu deveria contar a ele sobre a paternidade?

Uma parte minha dizia que Natsu tinha o direito de saber que era o pai desse bebê, inclusive para não ficar imaginando coisas como fez na noite anterior. Mas a outra parte temia sua reação. Pensava que ele riria e negaria tudo e, se realmente acreditasse, temia que ficasse com raiva de mim por tudo. Tinha medo que me culpasse e que não pudéssemos mais ser amigos. Não queria ficar longe dele afinal.

Porém talvez e só talvez, isso nos aproximasse. Só Deus sabe como aquele Dragon Slayer reagiria a uma coisa dessas.

Eu... eu vou dizer a ele. Pensei, engolindo em seco De que adianta esconder isso agora? O que eu faria se resolvesse ter esse filho e ele nascesse com a magia de Natsu, ou mesmo de cabelos rosados e olhos esverdeados? Como explicaria isso?

Tomando um longo fôlego, tomei o caminho para a pequena casinha dele, no meio da floresta.

Não sabia onde estava, mas era o lugar mais próximo naquele momento. E eu precisava encontrá-lo logo. Antes que perca a coragem.

Comecei a correr, aquela massa de sentimentos se agitava dentro de mim, prestes a explodir. Não sabia se era alegria ou tristeza, se era medo ou alívio, só sabia que era algo muito forte. Algo que eu precisava descarregar do peito.

Naquele ritmo não demorou nada para que eu chegasse a cabaninha. Estava esbaforida, ofegava de leve e tinha certeza que meu rosto estava vermelho com o esforço, entretanto não deixei isso me parar.

Pisando fundo, caminhei pela pequena estrada que levava à entrada, parando ao batente da porta.

Ergui o punho para bater, porém exatamente naquele minuto ouvi uma voz vinda do interior.

Uma voz feminina.

L-Lissana...?

–... Eu me preocupo, Natsu! –falou em tom de exclamação- Quero estar ao seu lado, te ajudar com isso, mas você nunca me dá uma brecha. Deixe-me ao menos tentar! Porque eu... eu gosto de você.

Prendi a respiração, a cor sumindo do meu rosto de repente.

A passos trêmulos, fui até uma das janelas, olhando temerosamente para a cena que ocorria dentro da casa.

Tive a sensação de que meu coração parou por um segundo infinito. Minha garganta queimou, uma dor indescritível perfurava meu peito. Os olhos arderam e, antes que eu sequer notasse, lágrimas escorriam livremente pelos mesmos.

Eles se beijavam.

Se beijavam.

Natsu, ainda despido da cintura pra cima, tinha o pescoço envolvido pelo braços da Strauss mais nova e a boca colada na sua. Um beijo.

Minhas pernas estavam tremendo, mas forcei-as a me levarem para longe daquele lugar.

O que eu estava pensando?! Sou só um fardo na vida dele e isso tudo é um erro! Como fui tão idiota a ponto de confiar que ele me aceitaria de alguma fora? Eu sou tão burra!

Logo corria novamente, ofegava, as lágrimas sendo levadas pelo vento e desaparecendo na relva do bosque. Nunca tinha me sentido tão estúpida por amar alguém. Nunca quis tanto poder refazer aquela noite do que naquele momento. Que ódio! Que ódio! Por que tudo sempre acontece comigo?!

Quando finalmente cheguei em casa, não estava pensando direito. Só queria acabar com aquilo de uma vez do jeito mais rápido. O arrependimento me corroía por dentro. Queria parar com aquilo antes que fosse mesmo tarde demais.

Meus passos rápidos me levaram à cozinha. Apanhei uma panela qualquer e fervi água, minhas mãos tremiam demais e os soluços não paravam. Na minha cabeça só tinha uma coisa: uma memória antiga de algo que ouvira quando era pequena. Algo que me agarrava desesperadamente agora, sem nem pensar.

"Na medicina caseira, há algumas coisas que não se encontra em ambulatórios. Uma delas que pôde me ajudar agora é um chá abortivo"

Rossane Trevires, dama da alta burguesia e amiga da família Hearthphilia. Alguém que muito frequentou minha casa anos atrás. Ela cometera o meu mesmo erro: dormira com uma pessoa sem pensar nas consequências, e dera um jeito nisso sozinha.

"Minha mãe não gostou nada quando soube e me obrigou a tomar. –contava- A receita é tão simples que não demorou muito pra estar pronto. Causa aborto espontâneo."

Joguei as ervas cujo nome ainda me lembrava no bule, vendo a água ficar esverdeada. Não sabia o motivo de ter guardado aquela lembrança por tanto tempo, mas precisava de algo para me ajudar agora. Limpei as lágrimas do rosto, meus olhos estavam inchados e a visão, fosca.

Eu sou só um fardo. Martirizei-me Se ele descobrir que estou grávida, só vai piorar tudo. Sou só uma pedra no caminho dele, nunca vai ser feliz comigo o separando dela. Se eu ao menos pudesse corrigir esse erro, pudesse voltar a ser como antes.

Despejei o líquido numa xícara, derramando-o sem querer na própria mão de tanto que tremia. Ignorei a queimação e a dor e olhei para a borda do recipiente. Ia levá-lo à boca o tomaria de uma vez só, sem remorsos. Acabaria com aquilo.

E parei.

Levei uma das mãos ao ventre, as lágrimas voltando e se encharcando minhas bochechas.

Soltei o ar, a adrenalina em meu corpo desacelerando aos poucos. Imaginei uma criança pequena, de cabelos rosados e sorriso caloroso, em meus braços. Uma pequena criaturinha que eu ensinaria a andar, ouviria-a balbuciar as primeiras palavrinhas e daria de comer. Alguém que dependia de mim em todos os sentidos. Um ser frágil e meigo, uma mistura de nós dois.

Apertei os olhos, eu sou mesmo capaz de fazer isso? De acabar com uma vida tão preciosa por uma mágoa da qual ela não tem culpa?

Esse bebê que está dentro de mim não sabe de nada. A dor que eu sinto não é culpa dele, nunca foi. Ninguém tem culpa por existir. E o que estou fazendo... é algo tão detestável que me enjoava. Eu estava realmente prestes a matá-lo.

Seria mesmo ele? Ou ela talvez? Um menininho ou uma garotinha? Eu sequer sei disso.

Joguei a xícara no chão, produzindo um baque de porcelana quebrada.

–Eu sou uma pessoa horrível. -solucei, caindo no chão e abraçando a barriga- Eu sou uma pessoa horrível... Me desculpe... Me desculpe...

A culpa me atingia como facadas, doía muito. Percebi, naquele momento, que nunca me perdoaria se fizesse algo a essa criança.

Meus ombros sacudiam pelos soluços. Por que tudo doía tanto? Machucava tanto?

De repente, senti uma mão se pousar em meu braço e olhei para trás sobressaltada, reconhecendo os cabelos rubros de Erza e sua expressão compenetrada.

Não a vi entrar, não sabia há quanto tempo estava ali, e nem me importava.

Sem pensar duas vezes, joguei-me nos braços da ruiva, enterrando a cabeça contra seu peito e chorando ainda mais alto.

Ela não disse nada, não perguntou nada. Apenas me abraçou de volta e esperou que o choro cessasse, ajoelhada ao meu lado no piso frio.

Espero que algum dia você possa me perdoar... meu bebê.

POV. Natsu

Não dormi uma hora inteira sequer naquela noite.

Fiquei um infinito de tempo virando de um lado para o outro da cama, só ouvindo. Sendo atormentado por aquelas malditas vozes na minha cabeça. Quando conseguia adormecer finalmente, despertava minutos depois aos berros. Nunca conseguia lembrar com o que sonhava, mas sabia que era algo horrendo.

Suava frio, tremia, quase febril. O corpo todo parecia arder por dentro, acometido por aquela praga invisível. Uma doença na mente, era o que parecia.

Happy mal conseguiu dormir. Acordara na primeira vez que ouvira-me gritar e desde então apenas ficava ao meu lado no quarto escuro, administrando compressas de gelo.

Eu nunca na vida já fiquei febril antes, isso é fato. Meu corpo é naturalmente mais quente do que a temperatura normal, rondava, pelo que me lembro, uns trinta e nove a quarenta graus, mas aquilo era demais. Estava tão quente que os lençóis estava se desfazendo sobre mim, se piorasse, ia queimar a casa toda.

Não conseguia evitar, tinha de ser alguma doença.

O que quer que fosse, precisava para logo. Não sei quantas vezes Happy já insistiu para que eu procurasse o mestre, Wendy, Poluchka-san ou qualquer um que pudesse me ajudar. Estava preocupado, realmente preocupado comigo. Nunca gostei de fazer as pessoas se preocuparem comigo, por isso queria ficar mais forte. Todavia aparentemente isso não se aplica a áreas como essa.

Dei graças aos céus quando amanheceu. A febre baixou consideravelmente e a disposição voltou-me, como se aquele mal noturno perdesse efeito durante o dia.

Espero que eu não seja um vampiro e esteja com sede de sangue. Brinquei mentalmente, um tanto desanimado.

Saí da cama assim que o sol nasceu, sufocado por aquele ambiente e pelo ar viciado dentro daquela pequena cabana. Deixei Happy dormir (ele merecia algum descanso) e passei a manhã inteira treinando no bosque.

O ar puro e as árvores eram relaxantes. Precisava descarregar aquela energia negativa de algum jeito e, de novo, acabei descontando num treinamento pesado. Em compensação quando voltei ao chalé, estava bem mais relaxado, e cansado também.

Era quase meio dia, e não houvera comido nada, mas, pela primeira vez, não sentia fome. Estranho.

Mesmo não gostando, obriguei-me a tomar banho. Estava realmente fedendo e isso me faria sentir melhor. Acabou que o tempo que passei no banho foi bem longo, o corpo estava melhor, ainda que a mente continuasse exausta pela falta de sono.

Happy saíra na frente para a guilda, com certeza ia pedir um peixe de café à Mira e aproveitar para encontrar Charle. É, espero que seja isso o que esteja fazendo.

–Eu deveria ir logo também. -murmurei para mim mesmo, saindo do banheiro com uma toalha enrolada na cintura.

Apesar de tudo, não tinha pressa hoje.

Depois de me secar escolhi uma calça no pequeno guarda-roupa, vestindo-a enquanto passava a toalha pelo cabelo encharcado.

Minha mente andava bem longe da realidade, relembrando sucessivamente daquelas vozes. Por que me assustavam tanto se eu nem ao menos entendia direito o que diziam? Era como se... como se...

Fosse algo em mim que estivesse errado.

Não queria pensar nisso, mas os pensamentos insistiam a ir embora. Grunhi frustrado, o dia está mesmo uma maravilha.

Foi quando ouvi batidas na porta, franzi o cenho. Quem estaria me visitando a essa hora?

Sem me preocupar nem em vestir uma camisa ou arrumar os cabelos desgrenhados, fui à entrada e abri normalmente a porta, que nunca trancava mesmo.

–Lissana? -perguntei, confuso com a presença da albina ao batente.

Ela me sorriu.

–Posso entrar? -indagou, mantendo o sorriso cordial, ainda que os olhos se desviassem do meu rosto para o peitoral despido frequentemente.

Assenti e deixei que adentrasse na minha sala/quarto/cozinha. Não vou mentir, minha casa era uma bagunça completa. Roupas espalhadas, comida, e quinquilharias que guardava das missões. Tudo disperso em todos os cantos possíveis.

E é por isso que não trago ninguém pra cá Pensei, suspirando.

Meu estado físico com certeza não estava dos melhores, não depois dessa noite. Olheiras leves se mostravam visíveis debaixo dos meus olhos e os cabelos já normalmente espetados estavam um caos molhados daquele jeito. E Lissana não deixou isso passar em branco.

–Você está bem? -uma nota de preocupação sobressaía-se em sua voz.

Forcei um largo sorriso, parecendo despreocupado.

–Ah, eu fiquei treinando até tarde e deu nisso! -ri, envergonhado- Não se preocupe com isso.

Ela arqueou a sobrancelha em desaprovação, porém ainda sorria. Acho que a mentira foi convincente.

–Você raramente vem aqui. -comentei, curioso- Aconteceu alguma coisa?

Ela afastou uma mecha de cabelo do rosto para trás da orelha, o rosto adquirindo uma coloração avermelhada.

–Lembra... do que eu te disse na guilda alguns dias atrás? -indagou, quase como uma pergunta retórica.

É claro que eu lembrava. E não ia esquecer tão cedo. Portanto assenti, perguntando-me onde queria chegar com aquela conversa de novo.

–Então, eu queria... queria saber se você já se decidiu. -falou, olhando para o chão, envergonhada.

Franzi os lábios, incomodado.

–Não há o que decidir, foi o que falei naquele dia. Lissana, minha cabeça está um caos no momento, a última coisa que preciso é mais coisa com o que me preocupar. -olhei nos olhos dela, resoluto- Eu não quero um relacionamento agora.

Isso pareceu abalá-la profundamente. Lissana mordeu o lábios inferior, como se tomasse coragem para algo.

–Você nunca fala quando está com problemas, eu me preocupo, Natsu. -proferiu com a voz um tanto trêmula- Quero estar ao seu lado, te ajudar com isso, mas você nunca me dá uma brecha. Deixe-me ao menos tentar! Porque eu... eu gosto de você.

Argh, por que ela complica tanto as coisas?

Preparei-me para dizer 'Isso não é uma boa ideia', porém fui calado quando a albina apertou os lábios contra os meus.

Ia me afastar, pelo susto, mas Lissana passou os braços envolta do meu pescoço, ansiosa, iniciando um beijo doce e inexperiente ao qual não consegui reagir a princípio.

Não sei o que deu em mim naquele momento. Realmente não sei. Um sentimento ruim, aquele que parecia ter se acumulado em meu peito desde que isso tudo começou, veio a tona. E senti raiva dela.

Não queria aquele contato, deixei isso bem claro no dia em que se confessou. Disse-lhe que não podia aceitar seus sentimentos, que não queria queria me envolver e agora parecia que ela queria impôr isso a mim.

Se quer tanto isso, então prove. Pensei, mudando de postura.

Se Lissana pensava que eu seria passivo com ela, estava redondamente enganada.

Em vez de empurrá-la para longe, puxei seus braços com violência em meio ao beijo, minhas mãos se fechando brutalmente em seus pulsos e a colocando contra a parede do quarto. Não estava com paciência pra aquilo.

Lissana arquejou, surpresa, mas não lhe dei tempo para respirar. Apertei minha boca na dela com força, a ponto de romper seus lábios e fazê-los sangrar. Senti o gosto metálico do líquido vermelho em minha língua, revoltando-me ainda mais.

A garota protestou audivelmente, minhas mãos causando hematomas em seu antebraço. Ela começou a se debater para sair do meu cerco, voltei a abrir os olhos, encontrando os dela assustados a me fitar. Lissana estava apavorada naquele momento. Suas unhas compridas fincaram-se na minha mão, implorando que eu a soltasse, mas não o fiz tão facilmente.

Eu não queria e ela me obrigou. Remoí amargamente Ela estava pedindo por isso, que tenha então.

Meus dentes afiados morderam sua boca, arrancando mais sangue e fazendo lágrimas começarem a se formar em seus olhos azuis. Ela não conseguia formar palavras, os lábios impossibilitados de se mover contra o aperto dos meus, todo seu corpo tremia.

Foi quando um foco de razão voltou a minha mente.

Soltei-a num rompante, dando-lhe as costas e segurando a cabeça entre as mãos.

O que eu estava fazendo?! O diabos eu estava fazendo?!

Eu a estava ferindo, machucando-a sem dó. Queria dar o que merecia, fazê-la pagar por tentar me influenciar. Mas... por que? Lissana é minha amiga, sempre fomos tão próximos, eu me senti tão inútil quando ela supostamente morreu. Então por que? Por que a queria machucar?

É a sua natureza. Sussurrou aquela voz rouca na minha cabeça, rindo sadicamente do pânico que se formara na expressão da albina.

–N-Natsu... -gaguejou ela, a beira das lágrimas ainda encolhida contra a parede.

–VÁ EMBORA! -gritei, explodindo- EU NÃO QUERO TE MACHUCAR, ENTÃO VÁ EMBORA!

A garota sobressaltou-se com o berro, paralisada.

–M-Mas...

–ESTOU TE MANDANDO IR EMBORA! -rugi, voltando-me para ela ameaçadoramente.

Um segundo depois ela engoliu em seco e correu para a saída, esquecendo a porta entreaberta no caminho e, por fim, deixando-me só.

Agarrei meus próprios cabelos, martirizando-me.

Não entendia o que estava acontecendo comigo. Nunca quis machucar nenhum dos meus amigos. Nem Lissana, nem Lucy, nem ninguém. Por que estava sentindo tudo aquilo?

Queria que Lissana sofresse. Minhas mãos se forçavam a não se fecharem contra aquele pescoço fino. Se eu não houvesse me policiado, com certeza era a próxima coisa que ia fazer.

–O que está acontecendo comigo? -gemi baixo, angustiado.

–Natsu! –chamou uma voz conhecida em certo alarde.

Voltei meus olhos para a porta, vendo a pequena figura de Happy aparecer na fresta.

Fui acometido por um efêmero desespero.

E se eu machucasse Happy também?

Ele se aproximou, fazia perguntas que não consegui discernir. A expressão preocupada em seu rosto me lembrava a dela, e recuei instintivamente.

–Fique longe! -exclamei, a voz um oitavo abaixo do normal- Fique longe de mim!

Ele parou de andar.

–Natsu... -balbuciou, os olhos enchendo-se de pena.

Que estado deplorável. Eu nem ao menos controlava meu próprio corpo direito.

Foi quando tomei um decisão. Isso já estava indo longe demais, não podia deixar que continuasse. Inspirei fundo, recompondo-me.

Happy me seguiu com o olhar quando atravessei o quarto. Apanhei uma mala qualquer e comecei a jogar minhas coisas dentro dela, ignorando as inúmeras perguntas que o azulado me fazia. Não estava prestando atenção no que pegava, só queria ter o básico, nada mais era necessário.

Fechei a bolsa e a joguei nas costas, indo até a porta.

–Natsu! Onde você vai?! O que está fazendo? -exigiu saber o Exceed, claramente nervoso.

–Eu sinto muito, Happy. -falei simplesmente, a garganta raspava rouca- Prometo que volto assim que puder. Não me siga.

–Do que está falando, Natsu? Somos parceiros, não somos? -lágrimas se formavam nos olhos dele, aquilo estava doendo em mim.

–É para o seu bem. -assegurei-lhe, negando quaisquer possibilidades que ele tivesse de me acompanhar- Adeus, Happy.

Quando fechei a porta da nossa casa naquele dia, sabia que ele tentaria me seguir. Porém, mesmo se tentasse, eu logo desapareceria de sua vista. Não o estava deixando para trás, não faria isso, porém precisava ficar longe de todos agora. Até que pudesse voltar ao normal.

Iria ao encontro de alguém, procuraria informações e pensaria num jeito de resolver isso.

Não mais vou me permitir machucar nenhum dos meus amigos novamente. É uma promessa.

Notas finais
Uhm, ficou grande mesmo essa bagaça. Bom, não sei quando posto de novo, mas provavelmente é logo. Espero que o cap. tenho ficado bom, trabalhei bastante nele, e que tenham aproveitado. Bjos e até o próx, cap. P.S. Capítulo sem revisão, vou dar um jeito nisso amanhã também.