Ensine-me a te amar
12 12. Desavenças e sentimentos manipulados
Notas iniciais

POV. Natsu
Quando chegamos, a guilda estava em festa.
O centro de tudo era Luce, que parecia um tanto sem graça com a atenção que recebia. Enchiam-na de perguntas e faziam comentários maliciosos e suposições das mais variadas.
E eu estava realmente começando a me sentir mal com isso.
Não estava nos meus melhores humores, isso era certo. Tudo parecia tão... opressor à minha volta. A guilda, pela primeira vez, parecia estar me sufocando.
Não consegui ficar muito tempo, estava de cabeça quente, e a última coisa que queria agora eram comemorações.
Deveria realmente estar feliz? Não sei como. De algum jeito, pareceu muito pior pra mim do que qualquer outra coisa. Uma dor invisível que se instaurava em meu peito, nem isso, está mais para um... rancor. Uma amargura egoísta.
Acima de tudo, sentia-me traído por ela, de muitas maneiras.
Sempre pensei que éramos companheiros, que não havia segredos ou mentiras. Já sentia que mal reconhecia Luce no meio dessa confusão. Não reconhecia-a mais como minha parceira, sentia que estava se distanciando de mim de um jeito estranho. Como se entrasse num mundo diferente do nosso, daquele que eu dividia com ela.
Os dias que passamos nessas missões, as aventuras impossíveis que vivemos lado a lado e o grupo mais forte da Fairy Tail, parecia tudo pertencer a um universo completamente oposto ao normal. A aquele que ela estava vivendo agora. Namorar? Estudar? Trabalhar num serviço de segunda a sexta? Casar? Tudo parecia tão distante da nossa realidade.
Nunca me interessei por nada. Sempre quis ser mais forte e me divertir com meus amigos de guilda. Gosto de ir em missões e arrumar brigas na Fairy Tail, de poder contar com meus amigos e poder superá-los. Um dia, queria poder ser o mago mais forte da melhor guilda de Fiore. Poder derrotar quem quisesse, seja Erza, Laxus ou até mesmo Gildarts e o mestre. Meus objetivos nunca tiveram nada a ver com os sonhos normais de qualquer pessoa. Acho que eu mesmo nunca fui exatamente uma pessoa normal.
O filho do dragão de fogo, Igneel. O mago que possuía uma das magias raras, a de Dragon Slayer.
Sempre vivi num mundo de aventura onde romance não tinha espaço. Era o que eu pensava.
Namoros? Casamento? Filhos?
O que era isso tudo?
E agora Luce estava grávida, esperava um filho. Sei que não sou o ser mais inteligente do mundo, mas até eu sei de onde vêm os bebês. Não entrava na minha cabeça que ela, que Luce, houvera dormido com alguém. Parecia tão... irreal. Ela nunca nem ao menos disse que estava comprometida, não fazia sentido. E eu nem queria que fizesse.
Mas o que eu sentia... parecia pior do que deveria. Não só me sentir traído, eu estava realmente com raiva de Luce.
Como se os sentimentos ruins parecem se expandir. Sussurrou uma voz na minha cabeça.
Passei a mão pelos cabelos, irritado. Estava pensando demais, de novo. Ela sempre fazia isso comigo. Mudava tudo, fazia-me repensar demais aquilo que já conhecia. Confundia minha cabeça mais do que qualquer um. Luce sempre teve esse efeito, até quando não queria.
Parei já dentro do bosque, aqueles nos limites de Magnólia.
Nem houvera pensando no caminho que estava tomando, só queria me afastar da guilda e, inconscientemente, estava no caminho de casa.
Comecei a voltar quando percebi para onde estava indo. Não queria ir pra casa, lá estava cheio de lembranças dela e não queria ter de rever tudo naquele momento. Nem Happy eu estava com vontade de encontrar agora.
Como se estivesse me remoendo. O pensamento sombrio me fez sacudir a cabeça.
Eu não sou assim. Não gosto de guardar esse tipo de coisa em mim. O ressentimento, a raiva, o rancor. Desconto todos eles em algo, daí vem meu humor tipicamente explosivo. Algo que herdei do convívio com Igneel.
E os sintomas se acumulavam.
Não sei o que diabos está acontecendo comigo! Nem estou me reconhecendo mais. Só quero que isso pare. Não é bom. É irritante não conseguir dormir à noite, ficar ouvindo essas vozes malditas o tempo todo e sentir essa dor invisível no peito. Precisava dar um jeito nisso.
E é exatamente o que vou fazer. Pensei, dando meio volta para seguir o caminho da cidade.
Queria tirar tudo a limpo com ela, que me dissesse os motivos, me explicasse as coisas que não faziam sentido. Luce estava mexendo demais comigo, e dessa vez não era de um modo positivo.
Tinha raiva dos segredos que ela me escondia, das mentiras que me contara e das coisas que fazia em segredo. Tinha raiva por ela não me achar confinável o suficiente para ser sincera e tinha raiva de mim mesmo por não ter percebido nada antes. Estava simplesmente frustrado.
Se estivesse pensando direito, não estaria indo até o apartamento dela naquele horário para exigir nada. Estava sendo afetado por essa coisa esquisita de novo, e invadi sem hesitar o apartamento dela, entrando pela janela como sempre.
Quantos será que já fizeram o mesmo? Imaginei, amargurado Quantos mais ela vêm trazendo pra casa dela?
Quanto mais eu pensava, pior me sentia. A cada minuto que a esperava essa raiva ia se acumulando. Uma hora, com certeza, diria coisas ruins para Luce. Porque tudo o que queria naquele momento era extravasar esses sentimentos opressores de alguma maneira.
POV. Lucy
Quando consegui sair da guilda, já era tarde.
Cana ficou um bom tempo tentando me convencer a lhe acompanhar com um drinque para comemorar, entretanto recusei veementemente a oferta. Não apenas por estar grávida, mas também por saber que não deveria beber mesmo, não depois da confusão que isso me arrumou. A Alberona também me fez perguntas bem, hã, inapropriadas. As quais realmente preferi não responder em sua maioria. Para a minha sorte, ela logo estava bêbada e portanto não insistiu muito nisso.
Levy estava num trabalho com Jet e Droy, então não pude falar com ela. Afinal, queria mesmo poder falar com minhas amigas, sem o intromissão do resto do pessoal. Não que eu me incomode com eles ou coisa parecida, porém haviam coisas que queria falar só com elas. Poder finalmente desabafar depois de tudo o que aconteceu.
Pensei que, depois de Wendy e Juvia melhorassem, podíamos nos reunir de alguma forma. Porém sabia que ia levar um bom tempo já que, assim que descobríssemos o que aconteceu a elas, iríamos atrás dos culpados.
Devem ser magos muito fortes. Pensei, temerosa Não se faz isso com três integrantes da Fairy Tail tão imprudentemente, afinal somos a guilda mais forte de Fiore.
Não é como se tivéssemos poucos inimigos (dá pra fazer uma bela lista de todos eles na verdade), porém não consigo pensar em ninguém que quisesse realmente atacar a Fairy Tail no momento. Só espero que não ocorram mais ataques, caso contrário seja realmente outra pancadaria, como foi com a Phantom Lord.
Decidi que visitaria a casa da Poluchka-san amanhã. Sei que ela detesta visitas, mas acho que não faz mal se eu for levar algumas roupas para Wendy, Juvia e Charle. Aposto que estarão se sentindo bem melhor depois de um bom descanso.
Posso aproveitar e perguntar a ela se é normal esse cansaço. Ponderei, suspirando Sei que deve ser algum dos contra tempos da gravidez, mas não deveria aparecer tão cedo.
Era nisso que eu estava pensando quando entrei no apartamento. E foi esse exato pensamento que me escapou quando abri a porta e me deparei com certa presença invasora no meu quarto.
–Invadiu de novo! –exclamei, indignada.
A expressão de Natsu não se alterou de imediato. Estava mais sério do que o normal ao me fitar, e tive a impressão que ainda seria uma longa noite.
Ele não ficou na guilda durante o dia. Desde que as supostas comemorações começaram, vi quando saiu pela porta da frente em meio ao aglomero. Tive outro mau pressentimento. Ele não era assim. Natsu era um daqueles que mais gostava das comemorações exageradas da Fairy Tail, e de suas encrencas também.
Fiquei mais um vez apreensiva por estar sozinha com ele. Não podia evitar, era quase instinto agora.
–O que foi? Já é tarde, achei que já estaria em casa. -falei, trancando a porta atrás de mim e evitando seu olhar.
–Queria falar com você. -admitiu, taciturno.
Voltei-me para a escrivaninha, ajeitando alguns dos papéis soltos por cima da mesma sem querer encará-lo.
–Não tenho ideia do que seria tão importante para vir a essa hora na minha casa. -resmunguei, estava detestando aquele clima tenso entre nós- Por que Happy não veio com você?
–Ele está em casa.
–Isso é raro, vocês são bem grudados. -comentei, sorrindo de leve para tentar deixar o clima mais leve- Não me diga que quer dormir aqui de novo. Aquela desculpa de que é mais perto pra ir para a guilda não cola mais, ouviu?
Queria voltar com minhas antigas repreensões, mas, ao que parece, não deu certo. O semblante do Dragon Slayer continuou fechado.
–Luce, quem é o pai dessa criança? -perguntou, bem direto, fitando-me de braços cruzados.
Continuei arrumando as folhas espalhadas sobre a mesa, como se a pergunta não tivesse importância.
–Luce. -insistiu ele, sua voz endurecendo consideravelmente.
–Eu já disse que não sei. -menti novamente, sem encará-lo.
O nervosismo dentro de mim ameaçava transbordar pelos olhos, um nó formava-se na minha garganta e meus olhos ardiam. Droga, por que Natsu insistia em trazer isso à tona? Já foi bem ruim ter de mentir uma vez, ainda mais para ele. O pior era manter aquela expressão neutra no rosto, como se nada daquilo estivesse me afetando. Não queria vacilar agora, não poderia colocar tudo a perder.
E eu podia sentir a indignação crescendo em Natsu.
–Como assim não sabe?! Você dorme com tantos que nem sequer se lembra? Ou nem pergunta quem são antes de se deitar com eles?!
–E se eu fizer isso? O que te interessa?! -repliquei, sentindo minha irritação transparecer na voz- Você não manda em mim, eu faço o que quiser.
–E agora está grávida de um estranho! -rebateu Natsu, quase gritando- O que você tem na cabeça?! Vai cuidar sozinha dessa criança?
–Eu não sei! Mas isso não importa pra você, Natsu. Essa é a minha vida e eu sei cuidar muito bem dela!
–Cuida tão bem que nem sabe de quem está grávida. -comentou amargurado- Desde quando está levando estranhos para sua cama, Lucy?
Estranhos ele disse. Natsu é o único fora eu mesma que já dormiu na minha cama, é por isso que está tão nervoso? Por que acha que tem alguém que tomou seu lugar dormindo ao meu lado?
–Isso não é da sua conta. -cortei-o, afastando aqueles pensamentos estranhos.
–Como não é da minha conta?! É claro que é da minha conta! Somos amigos, Luce! Não fale como se eu não me preocupasse com você!
Arquejei ao sentir mais uma pontada atingir minha cabeça.
Amigos. É isso mesmo, somos apenas amigos, nada mais.
–Com quem eu durmo ou deixo de dormir... não lhe diz respeito. -sibilei entre dentes- Você não tem o direito de me dizer nada.
Ele pareceu extremamente magoado com isso, pelo menos foi o que pude deduzir por sua expressão.
–Eu só...
–Natsu... por favor...vá embora. -pedi, a súplica sobressaindo-se à raiva, eu só queria ficar sozinha.
–Está me expulsando? -inquiriu, incrédulo.
–Por favor, só por hoje... me deixe ficar sozinha. Eu preciso... pensar.
–É dele, não é? -instigou ele, ignorando meu apelo.
–O... O quê? -balbuciei, fraca.
Natsu apertava os lábios numa linha fina, as mãos estavam cerradas em punhos ao lado do corpo.
–O filho é do Loki, não é? -repetiu ele, irritado- Eu devia saber...
–Mas do quê diabos está falando? -gritei, estupefata.
–Mas não é da minha conta, né?! Você faz o que quiser! Eu não me importo mais. -ele foi até a janela a passos duros e, antes que eu pudesse responder, subiu no batente, saltando para baixo sem se importar com os sete metros que o separavam do chão.
O que drogas ele anda pensando? Perguntei-me, segurando a cabeça entre as mãos. De onde ele tirou que eu tenho alguma coisa com o Loki?
Deslizei para o chão exausta. Fazia-me mal. O estresse, a aflição, a dor, tiravam-me a força que já me faltava. Não estava muito bem, acho. Foi mesmo um longo dia. E sempre havia o amanhã para que eu esclarecesse tudo.
Não queria brigar com Natsu, não com ele. Só o estava afastando de mim, a última coisa que eu precisava agora era tê-lo distante. Queria que não fosse tão impulsivo, que pudesse ter vindo para conversar mais pacificamente como qualquer outra pessoa mais centrada faria, mas o que mais eu podia esperar dele?
Não quero que fique magoado comigo. Pensei, levantando do assoalho e sentando-me na cama É isso, vou me desculpar amanhã, e explicar tudo. Se vou mesmo fazer isso quero que ele ao menos compreenda.
Mas pode ser amanhã. Hoje, estou cansada demais pra pensar nisso. Só quero dormir um pouco, deixar essas preocupações de lado por um momento.
Suspirei e apaguei as luzes, mergulhando por entre as cobertas e me enrolando nelas bem quentinha. Foi tão rápido que nem me lembro de adormecer confortavelmente em sono profundo.
Se soubesse o que aconteceria no dia seguinte, não estaria não despreocupada. Mas nós nunca somos avisados antes das coisas ruins acontecerem, não é?
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