Ensina-me a Viver
12 Pedaços
Notas iniciais
When I see your face
I know I'm finally yours
I find everything
I thought I lost before
You call my name
I come to you in pieces
So you can make me whole
***
Oliver adentrou na mansão de Tommy e notou o rapaz deitado no sofá, parecendo perdido em pensamentos.
— Oliver? — O mais novo perguntou, remexendo-se. Reconheceu as pisadas duras do outro e o perfume masculino.
— Sim, como sabia que era eu? — O empresário perguntou, surpreso. Tommy riu, sem humor, e falou:
— Seus passos e o perfume — deu de ombros e voltou-se para o local no qual achava que seu melhor amigo estava. Havia errado por pouco. — Está tudo bem? — Questionou, preocupado.
— Sim, estou bem — ele sentou-se no sofá, ao lado do amigo e comentou, sabendo que aquilo provavelmente deixaria o outro mais animado: — Eu saí com Felicity ontem à noite.
Ao ouvir as palavras Tommy arregalou os olhos. Não estava esperando por aquilo, decididamente. Uau, isso é uma grande evolução! Pensou, satisfeito.
— Você saiu com alguém? Uau, não estava esperando por essa! — Foi sincero. Sabia o quanto Oliver havia sofrido, o quanto aquilo mudara as suas ações, aumentara seus medos. — E como foi?
— Foi ótimo, ela é uma excelente companhia — foi sincero. — Mas eu tive minhas dúvidas — assumiu, abaixando o olhar. Na noite passada, antigos fantasmas o assombraram, esperando o momento certo para dar o bote. Enquanto voltava para casa, depois do encontro, pensamentos sombrios o dominaram, e ele teve medo. Sua vida estava uma verdadeira bagunça, havia algum lunático lá fora tentando o matar e ele sabia que Felicity Smoak estava se tornando sua maior fraqueza.
— Que tipo de dúvida? — Tommy perguntou, confuso. Mas, no fundo de sua consciência, algo parecia dar-lhe a resposta. Lembrou, com amargura, do acidente que tirara a vida de Laurel e pôs a mão sobre o peito, tentando ignorar a dor que começara a surgir em seu âmago.
— Sobre tudo — o mais velho encostou a cabeça na cabeceira do sofá de couro: — Eu não sei se fiz a coisa certa a chamando para sair — explicou. Seu maior medo fora resumido em uma simples sentença; contudo, em sua mente, as coisas pareciam assumir um peso ainda maior.
Quando a chamara para um encontro, sua mente estava focada única e exclusivamente nela; mas agora, um dia depois, todos aqueles fantasmas sombrios pareciam ter ganhado força. Ele sentia-se prensado contra uma parede, tomado por essas sombras que pareciam tomar sua alma. Ele já tinha muito peso sobre as próprias costas, o peso da culpa. Sentia-se culpado pela morte da mulher que amava, mas ao mesmo tempo, lembrava das palavras de Tommy dizendo que aquilo não era de fato culpa dele.
— Você tem medo que a usem para te atingir — o moreno sequer precisava que o outro se explicasse mais. Conhecia Oliver como a palma da sua mão, mais do que conhecia a si mesmo. O mais velho falou:
— É — uma resposta curta mas que representava tudo aquilo que ele era incapaz de dizer em voz alta. — Me pergunto se não era melhor eu simplesmente ter deixado isso para lá... Se eu não deveria ter me afastado dela — sussurrou, sincero. A ideia lhe desagradava, muito, mas o medo estava lá, sussurrando em seu ouvido as hipóteses mais absurdas.
Por anos ele tentara fazer tudo sozinho. Por dois anos ele acreditou que poderia guiar a sua vida sem deixar ninguém entrar, sem ficar novamente vulnerável. Mas, a cada dia que passava, percebia que aquela vulnerabilidade a qual ele tanto temia ainda estava lá, o assombrando. A temia, como uma criança teme ao escuro, e queria mais do que tudo fugir dela. Oliver não queria passar por aquilo de novo, não queria ter de sofrer novamente, a ideia fez seu coração comprimir e ele molhou os lábios.
Ele ainda estava em pedaços, mas de alguma maneira louca sabia que ela era aquela que podia o consertar e era isso o que mais o assustava, pois, no fundo, ele sabia que isso era a maior prova do quão vulnerável ele podia ser quando se tratava de Felicity Smoak. Se ela pode me curar, pode me destruir com a mesma facilidade. Pensou, com amargura.
— Okay, então você desistiria mas e ai? — Tommy questionou, levantando uma hipótese, na tentativa de permitir que o melhor amigo visse as coisas por outra perspectiva. Oliver arqueou uma sobrancelha e praguejou ao lembrar que o amigo não podia vê-lo.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que você iria desistir mas que bem isso lhe faria?
— Evitaria mais dor e sofrimento, Tommy — respirou fundo: — Eu não estaria vulnerável.
— Isso é mentira — o outro revirou os olhos: — Se algo a acontecesse agora, certamente você sofreria muito — Oliver o encarou, embasbacado. — Esse sentimento está ai e nada que você faça mudará isso — estalou a língua, parecendo satisfeito com a própria argumentação:
— Mas se eu ficar com ela... Felicity estaria em risco — murmurou, as palavras fazendo um gosto amargo subir por sua boca. Ele pigarreou, tentando se livrar daquela sensação ruim.
— Mas se você ficar sozinho jamais será feliz, Ollie — ele sussurrou: — Você deveria almejar a felicidade e não fugir dela como um garotinho assustado — disse, como se fosse a coisa mais óbvia: — Você seria capaz de conviver com a dúvida? Com os "e se"? Por que é isso o que lhe restará se você optar por fugir ou se afastar dela — Tommy tinha um olhar sério, provocador. Só o que ele queria era ver o melhor amigo feliz, não queria-o sofrendo por algo daquele tipo.
Oliver ponderou. As palavras de Tommy o atingindo com uma força surreal. Ele realmente não havia pensado naquilo. Dúvida. Aquela pequena palavra, de seis letras, fazendo efeito em sua mente. Ele seria capaz de viver sem saber como as coisas poderiam ter sido?
— Nós não temos muito tempo, Ollie — o outro murmurou: — A vida é preciosa, não perca seu tempo com hipóteses ou suposições.
A vida é preciosa. Conhecia muito bem aquelas palavras, Felicity as dissera para ele há dois meses, no elevador. Ele sabia, no fundo, que seu melhor amigo tinha razão. Ele lembrou de como quase perdeu a vida naquele acidente, mas que sobrevivera, por alguma razão. Nossas vidas são muitos mais do que as tragédias do que as tomam, Oliver. Nossas vidas são aquilo que nós nos tornamos depois das mesmas, são as escolhas que fazemos, os caminhos que decidimos trilhar. Podemos optar por fugir ou por ficar. E eu espero, meu filho, que você sempre opte por ficar. Mas como ele poderia optar por ficar se não sabia o que aconteceria? Mas nós nunca sabemos o que acontecerá, ninguém nasce com o roteiro da própria vida! Sua consciência sussurrou, com ironia. Ele revirou os olhos para si mesmo e suspirou, frustrado.
Ele precisava pensar. Precisava entender o que realmente era importante para si mesmo naquele instante.
— Mas e quanto a você, como está? — Questionou, querendo tirar o foco de si mesmo por alguns instantes.
— Indo — ele respondeu, dando de ombros: — Caitlin tem vindo bastante aqui — um sorriso formou-se nos lábios dele e Oliver observou aquela reação sem saber direito o que interpretar da mesma.
— Ela está te ajudando, né?
— Bastante — ele murmurou, ajeitando-se no sofá: — Bem mais do que eu esperava — foi sincero. Sabia que não havia razão para ocultar aquilo de seu melhor amigo. Oliver o conhecia bem demais, notaria se ele estivesse ocultando algo.
— E como exatamente ela está fazendo isso? — Perguntou. Uou, Diggle está me influenciando demais. Pensou, com ironia.
— Ela não se esforça muito — o outro deu de ombros: — É uma boa amiga — sorriu novamente.
Oliver agradeceu a uma criatura superior na qual não sabia se acreditava ao ouvir aquilo. Saber que seu amigo tinha alguém assim aliviou grande parte do peso em seu coração. Ele tinha consciência do que aquilo podia significar, sabia que seu amigo precisava de todo apoio possível durante aquele momento da sua vida.
— Tommy, você sabe que pode contar comigo, certo? — Questionou. Era disso que queria ter certeza, de que seu amigo sabia que não precisava ser uma rocha sólida por ele; que agora era hora dos papeis se inverterem, que agora era o momento em que Oliver deveria ser forte pelo amigo, e não o contrário. Tommy havia passado por muitas coisas em um espaço muito curto de tempo e ele sabia que o mais novo precisaria de ajuda.
— Eu sei, Ollie — garantiu, forjando um sorriso. Não queria preocupar seu melhor amigo, precisava apenas de um tempo. Mas ele gostou de saber que o outro estaria ali, independente de qualquer outra coisa. — Será que algum dia eu irei melhorar? Será que essa dor alguma hora irá passar? — A pergunta fora mais para si mesmo do que para seu amigo que o encarava parecendo genuinamente preocupado.
— Eu melhorei, Tommy... Você também irá — pareceu uma promessa, mas ele sabia que muito daquilo também dependia de seu melhor amigo.
— Tomara que você esteja certo — respondeu, parecendo incomodado. No fundo de sua alma ele temia que não fosse conseguir. Ele não sabia se seria capaz de passar por tudo aquilo sozinho e ao mesmo tempo não acreditava que houvesse alguém disposto a ajudá-lo. Tommy sentia-se inútil, em todos os sentidos da palavra. Ninguém irá querer um cego, ninguém irá ter paciência. Sua consciência murmurou, sádica.
— Eu estarei — Oliver murmurou, e no fundo de sua alma, ele sabia que realmente estava.
...
Caitlin passou a mão pelos cabelos e apoiou a cabeça na mão, respirando fundo. Seus pensamentos presos a um nome, uma pessoa. Thomas Merlyn, herdeiro da família Merlyn, um homem que a vida fizera questão de quebrar em pequenos pedaços.
Suspirou e tentou focar em outro assunto, mas falhou miseravelmente. A cada dia que passava, seus pensamentos eram mais e mais dominados pelo belo homem de traços suaves e olhos incrivelmente azuis. Mordeu o lábio inferior e pegou suas coisas, percebendo que já estava na hora de sair da empresa.
Entrou no ônibus e apoiou a cabeça no vidro da janela, seus pensamentos fluindo vertiginosamente, conforme sinapses formavam-se por entre seus seus axônios, cada uma delas parecendo sempre resumir-se a ele. Encolheu-se o melhor que pôde e fechou os olhos, tentando simplesmente esquecer tudo aquilo, esquecer o rapaz cujos olhos pareciam povoar cada um de seus pensamentos.
...
Felicity ligou para Cailtin pelo que parecia ser a milésima vez em menos de meia hora. Merda, cadê você?! Pensou, preocupada. Estava tentando falar com a jovem há uma hora mas ela simplesmente não atendia suas ligações. Já eram oito horas da noite e a morena ainda não havia chegado em casa, aquilo não era do feitio de Caitlin.
— Ah, Oliver! Que bom que você atendeu! — Disse aliviada ao ouvir a voz dele do outro lado do telefone: — A Caitlin ainda não chegou em casa e eu não consigo falar com ela — despejou as palavras no ar, sentindo aquele veneno amargo tomando cada parte de seu coração.
Apenas queria uma garantia de que sua melhor amiga não havia sumido. Precisa apenas saber que a mesma estava bem.
— Como assim sumiu?! — Ouviu uma outra voz no telefone e supôs que a mesma pertencesse a Tommy.
— Eu não sei, eu estou ligando mas só cai na caixa postal, não sei mais o que fazer — murmurou, jogando o corpo no sofá. O peso da preocupação agora tornando-se pesado demais, ela respirou fundo, tentando se controlar e esperou que ele dissesse algo:
— Ei, fique calma, okay? — Oliver implorou do outro lado da linha. — Eu estou saindo da casa do Tommy agora, como ainda não fazem vinte e quatro horas a polícia não pode fazer nada mas eu posso cobrar alguns favores — a voz dele parecia retida, calculada, quase como se ele pensasse no que dizer para que ela não tivesse um ataque nervoso: — Nós vamos achá-la, eu prometo — por nenhum segundo ela duvidou de que ele moveria céus e terra para achá-la.
— Eu estou indo para a casa do Tommy — disse, levantando e pegando a bolsa.
— Felicity, já está tarde — ouviu a voz dele do outro lado da linha, ele não parecia ter gostado muito da ideia. — Não é seguro sair a essa hora da noite e é melhor você estar ai caso ela volte — disse, tentando convencê-la. Ah, não Oliver Queen, não irei cair no seu jogo quando se trata da minha melhor amiga! Pensou, bufando.
— Eu vou junto Oliver — usou seu tom de voz alto e sorriu ao perceber que ele ficara em silêncio. — Deixarei um bilhete sobre a mesa caso ela volte, só para garantir — escreveu rapidamente em um papel qualquer e colocou o bilhete sobre a mesa, pegando as chaves do carro e pedindo: — Me passa o endereço do Tommy — pediu.
Oliver a deu o endereço e ela desligou sem esperar que o rapaz dissesse qualquer outra coisa.
Quando entrou no carro, Felicity sentiu todo aquele peso começar a consumi-la e só então percebeu pelo que sua amiga passara quando ela sofreu aquele acidente, há um mês. Caitlin Smoak era sua melhor amiga, as duas eram como irmãs, não queria perdê-la. Estremeceu com o pensamento e dirigiu em direção à casa de Tommy o mais rápido que pôde, quando chegou lá, Oliver estava diante do portão com o melhor amigo do lado.
— Entrem — ela mandou, abaixando a janela do carro. Oliver ajudou seu amigo a entrar no banco de trás e colocou o cinto nele, depois sentou no banco do passageiro.
— Alguma notícia dela? — O loiro questionou, parecendo genuinamente preocupado. Ela apenas negou com a cabeça e suspirou, virando a esquina.
— Eu liguei quatorze vezes mas caia da caixa postal, ela sai do trabalho às seis horas, já era para estar em casa — explicou, os olhos vidrados na estrada.
No banco do passageiro, Tommy encontrava-se preso a seu próprio mundo. Sentia-se estranhamente paralisado, entorpecido. Era como se seu cérebro tivesse sido desligado de seu corpo, como se as informações não estivessem sendo processadas da forma devida. Piscou, sentindo frio, mas era de um tipo diferente, parecia lhe congelar a alma, enrijecendo-a e ele se perguntou se aquilo não era melhor do que a dor.
A conhecia por pouquíssimo tempo, mas ela havia se tornado alguém incrivelmente importante, uma pessoa que Tommy sempre iria querer manter por perto, talvez por egoísmo, talvez por medo, mas ele a queria ao redor. Ela era a única que o fazia esquecer, por algum tempo, da dor. Se importava com Cailtin, muito.
Sentia as sombras, fantasmas, assombrando lhe a alma e subitamente, a paralisia tornou-se mais intensa, não conseguia se mover, era como se cada respiração estivesse dificultada por algo sobre seu peito. Ele não sentia nada e sabia que era apenas uma maneira de fugir, de escapar daquela preocupação iminente.
Naquele momento agarrou-se à uma fé que ele sequer sabia possuir e implorou para que ela estivesse bem. Caitlin era a única pessoa que conseguia acalmar a tempestade constante que nascia dentro dele e que a cada dia tornava-se pior. Ele não queria perdê-la e sentia-se péssimo por saber que grande parte daquilo era pelo simples fato de que ela fazia com que ele se sentisse melhor.
Suspirou ao lembrar de Laurel e aquela escuridão pareceu intensificar-se, percorrendo sua consciência, tirando-lhe a paz, arrancando daquele pequeno filete de luz que ele jurava ver. Não queria perder aquilo, não sabia como as coisas seriam depois e aquilo era o que mais o assustava. Já havia se apegado a ela, mais do que ele esperava quando ela adentrou em sua vida, e agora só o que ele precisava era a garantia de que ela estava bem.
Eles passaram por várias regiões da cidade, mostrando uma foto de Caitlin que a loira tinha em seu celular e perguntando aos transeuntes se eles haviam a visto, mas a resposta sempre era a mesma. Não. Depois de terem rodado grande parte da cidade, aquele torpor que Tommy sentia começou, lentamente, a tornar-se uma preocupação latente, que simplesmente não o deixava mais em paz, independente do que o rapaz fizesse.
— Para o carro! — Oliver pediu, ao ver um pequeno corpo encolhido em um banco. Os cabelos castanhos brilhavam e assim que Felicity o obedeceu, reconheceu imediatamente a melhor amiga. Ela estacionou o veículo e disse:
— Fiquem aqui, estou indo até lá — saiu do carro e atravessou a rua, indo em direção à melhor amiga.
— Ei — murmurou, sentando ao lado da morena, que encarava os carros que passavam com um olhar perdido. — Está tudo bem?
Ela apenas assentiu e respirou fundo, brincando com os próprios dedos. Okay, não está tudo bem. A loira pensou, arqueando uma sobrancelha; entretanto, ela conhecia a melhor amiga e sabia que seria melhor apenas dá-la um tempo.
Caitlin simplesmente não conseguia mais pensar, seu coração a gritava em plenos pulmões enquanto sua mente tentava, a todo custo, negar a verdade que agora parecia ser grande demais para que ela pudesse suportar sozinha. Mas não quis dizer nada, não daquela vez. Apenas ficou em silêncio, sentindo o vento bater contra seus cabelos castanhos:
— Vim pensar um pouco — explicou.
Ela entrou no carro e percebeu Tommy encolhido em um canto.
— Caitlin? — Ele reconheceu o perfume na hora.
— Sou eu — respondeu apenas, voltando-se para o outro lado. Suspirou e o olhou de soslaio. Tommy ergueu a mão, buscando pelo toque da mão dela, como para se assegurar de que a jovem estava bem e ela apertou a mão dele, tentando o reassegurar de que estava bem. — Desculpe pelo sumiço — ela murmurou, fazendo um carinho na mão dele com o polegar.
Ele quis gritar com ela. Gritar de verdade, a plenos pulmões. Mas simplesmente não pôde, apenas aproveitou o toque da mão dela na sua e suspirou, sem soltar sua mão da dela.
Ele fica lindo sob a luz da lua. Pensou, o analisando. O rapaz olhava para um ponto qualquer e ela quis tanto poder afagar os cabelos dele, sentiu sua mão pinicar e suspirou, ajeitando-se no banco e tentando controlar aquela vontade louca, não poderia fazer aquilo. Mordeu o lábio inferior e voltou seu olhar para a janela.
...
Felicity estava sentada no sofá, comendo um pedaço de pizza e observando sua amiga com olhos de águia, genuinamente preocupada com a outra. Caitlin estava muito estranha, e aquilo a incomodava, muito.
— Caitlin, ontem à noite eu ignorei minha intuição pois sabia que você não estava muito bem — largou a pizza na caixa e cruzou as pernas sobre o sofá, encarando a melhor amiga de forma acusatória: — Mas não dá mais para eu fazer isso quando sei que há algo acontecendo — sua voz parecia uma súplica, como se implorasse para que sua amiga dissesse algo:
— Eu to bem, Lissy — aquilo era parcialmente verdade. Na verdade, ela ainda estava tentando entender o que estava acontecendo. — Só confusa — admitiu, brincando com o tecido de sua camisola.
— Confusa sobre o que?
— Sobre meus sentimentos — sussurrou, e então a realidade a atingiu como um balde de água fria. Sentiu-se murchar e ajeitou o próprio cabelo, tentando esconder aquela decepção em sua voz: — Sabe, eu sempre achei que iria amar Barry pelo resto da vida, que ele era o cara — riu da ironia: — Mas nos últimos dias não tenho mais pensado nele, é como se ele não existisse — desviou seu olhar do da amiga, encarando as almofadas do sofá.
— Ué, isso é bom, né? Quero dizer, ninguém quer gostar de quem não gosta da gente, amor não correspondido é uma droga, né? Então qual é o problema, pois claramente há um já que você parece uma criança que foi esquecida no shopping pela família — tagarelou, o que fez sua melhor amiga rir. Era por isso que ela amava Felicity, sua amiga a fazia esquecer de seus problemas, nem que fosse por pouco tempo.
— É bom sim — respondeu. — Mas há um "porém".
— Sempre há um, não é mesmo? — A outra comentou, estalando a língua e movendo-se um pouco no sofá.
— Eu não consigo tirar Tommy da minha cabeça! — Praguejou. — Simplesmente não consigo! Isso está acontecendo desde que eu tive que o acudir quando Laurel morreu bem na frente dele e na época eu ignorei, deixei para lá — explicou, os olhos marejando: — Mas agora está pior, e por mais que eu tente ignorar não consigo! Mas é tão diferente com ele — massageou a têmpora: — É tão diferente do que foi com o Barry — explicou-se: — Eu não sei como descrever mas...
— Mas é como se com ele fosse tudo certo, como se não restasse nada além da certeza — a loira sabia exatamente como era a sensação, provara da mesma há pouquíssimo tempo. — Eu sei como é.
— Só que ele ama a Laurel, sempre irá amar — Caitlin disse, jogando o corpo para trás e resmungando de dor conforme sua cabeça batia na cabeceira dura do mesmo: — O quão azarada eu consigo ser? — Perguntou, rindo, com amargura. — Mas eu irei esquecê-lo, foi o que aconteceu com Barry, certo? — Felicity a olhou um olhar duvidoso e pensou: Boa sorte tentando se convencer disso e mais boa sorte ainda tentando esquecê-lo. E no fundo, nem Caitlin se convenceu de que aquilo era verdade.
...
Oliver encarava Diggle enquanto o psicólogo processava todas aquelas informações. Ele definitivamente estava surpreso, para dizer o mínimo. Nunca pensou que seu paciente faria tamanha evolução e tamanho regresso em tão pouco tempo. Vai entender! Ele dá dois passos para frente e quatro para trás!
— Eu não sei o que fazer John — foi sincero. Aquela dúvida ainda que queimava a alma. — Se eu ficar com ela, estarei a colocando em risco.
— E por quê você acha isso?
— Porque há alguém tentando me matar — ele disse, revirando os olhos.
— Vamos um pouco mais fundo nisso, Oliver — ele apoiou as mãos sobre as braçadeiras da poltrona: — Não acho que esse seja seu real temor, vamos lá, do que você tem tanto medo?
Oliver emudeceu. Os olhos castanhos o encaravam, numa provocação clara.
— De que algo aconteça com ela.
— E se algo acontecer com ela agora, como você ficaria?
Ele não quis cogitar a possibilidade.
— Mal — respondeu, apenas, por mais que soubesse que aquela palavra não chegava nem perto de descrever a verdade. — Ela me deixa vulnerável.
— E ai está — ele estalou os dedos: — Você não tem medo das coisas darem errado, tem medo do que será de você se isso acontecer — Diggle disse com um sorriso fraco:
— É lógico que tenho, Diggle! — Ele disse, em um tom de voz mais alto: — Foram dois anos em que nada de bom aconteceu! Nada! — Seus olhos ficaram frios, não refletiam nada e a mudança de humor súbita pegou o psicólogo de surpresa: — E de repente ela aparece, eu deveria fazer o quê, simplesmente acreditar que nada irá a tirar de mim? A vida nunca te entrega nada tão bom assim de graça, nunca! — Sua voz tornou-se um sussurro sôfrego, repleto de angústia.
— Você deveria entender que nossa vida não é um jogo de carta marcada, Oliver — ele murmurou: — Que não sabemos o final, jamais saberemos... Que há coisas que não podemos mudar, por mais que queiramos... Quando amamos alguém, estamos suscetíveis ao sofrimento. A dor precisa ser sentida, Oliver — dessa vez sua voz parecia ser uma súplica: — Assim como a felicidade — ponderou: — Se você fugir disso, jamais saberá como as coisas poderiam ter sido.
— Eu ainda estou em pedaços, John — ele sussurrou. Sabia que se as coisas dessem errado, nada seria capaz de o curar.
— Então deixe que ela te refaça, deixe que ela te cure — o psicólogo disse, a voz soturna, mas ainda assim, repleta de esperança.
...
Oliver estava parado em frente ao prédio de Felicity por exatos vinte minutos, aqueles que pareciam ter sido os mais longos de sua existência. Em sua mente, as palavras de seu John ainda ecoavam, fazendo um efeito que ele não esperava.
Ele interfonou e instantes depois a loira desceu. Ela usava seu típico rabo de cavalo e um belo vestido branco com estampa de flores na barra.
— Oi — ele murmurou, e a olhá-la ali, sob a luz do Sol, soube que seu coração agora era dela.
— Oi — ela o lançou um sorriso tímido. — Queria falar comigo?
Ele a encarou e abriu a boca, mas então, lembrou do que Tommy e John o disseram e falou:
— Vamos dar uma volta? — A ofereceu o braço, o qual ela pegou de bom grado. Ele havia perdido muitas coisas, não iria a perder por medos tolos... No fundo, ele sabia que ela podia o torná-lo inteiro.
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