Ensina-me a Viver
13 Estrelas Cadentes
Notas iniciais
I don't quite know
How to say
How I feel
Those three words
Are said too much
They're not enough
If I lay here
If I just lay here
Would you lie with me and just forget the world?
***
Felicity despertou com o som do seu celular tocando. Espreguiçou-se e sorriu, instintivamente, ao perceber que era Oliver quem ligava.
— Oi — atendeu, sonolenta. Sentou-se na cama e suspirou, ouvindo a voz dele no outro lado da linha:
— Oi, eu te acordei né?
— Aham — alongou a palavra: — Aconteceu alguma coisa?
— Não, na verdade estou ligando para dizer que irei passar na sua casa em uma hora, quero lhe levar a um lugar — ele parecia bastante animado e a loira sorriu diante daquela atitude.
— Okay, mas para onde vamos?
— É surpresa — ele respondeu: — Use roupas confortáveis — indicou. Ela arqueou a sobrancelha e deu de ombros:
— Tudo bem, senhor Queen — riu e disse: — Tchau.
— Tchau — ele não esperou que a loira dissesse mais nada, apenas desligou o celular.
Felicity sorriu e enfiou a cabeça no travesseiro, sentindo-se como uma adolescente apaixonada. Ela se revirou na cama e encarou o teto, ainda com um sorriso estampado no rosto. Levantou-se, abriu o guarda roupa e tentou escolher algo com as especificações que Oliver a dera. Optou por uma calça jeans com lavagem, uma blusa branca com vários bordados azuis na frente e um par de tênis. Entrou no banheiro, tomou um banho rápido e se vestiu.
Foi para a cozinha, tomou um café reforçado, escovou os dentes e sorriu ao perceber que havia terminado de se arrumar sem nenhum atraso. Deixou um bilhete para Caitlin, que ainda dormia, avisando que estava saindo e não sabia que horas voltaria, e pegou sua bolsa.
Oliver estava lindo, como sempre. Usava uma camisa polo azul e uma calça jeans clara. Seu corpo monumental estava apoiado em seu Audi preto e ele estava com as mãos no bolsa da calça. Uau, ele podia ser modelo! Pensou, o olhando de cima a baixo sem nenhuma espécie de pudor. Ele a lançou um sorriso de canto que fez com que seu coração acelerasse suas batidas outrora calmas.
— Oi — ele a puxou pelo braço com delicadeza e a abraçou pela cintura, dando-a um selinho rápido, o que a deixou desgostosa. — Você está linda — elogiou, brincando com uma mecha de cabelo dela. A jovem o lançou um sorriso tímido e disse:
— Oi — sussurrou, subindo as mãos pelas costas definidas dele: — Obrigada, você está muito bonito também — mordeu a língua para se impedir de dizer qualquer coisa que pudesse envergonhá-la. Ele sorriu e abriu a porta do carro para a jovem, que riu e entrou no veículo.
Oliver deu a volta e entrou no banco do motorista, os dois colocaram o cinto de segurança e ele deu partida no carro, ligando o rádio do mesmo. Subitamente, uma doce melodia invadiu o ambiente. O violão tocava no fundo quando uma voz feminina começou a cantar. Quando os primeiros versos formaram-se, Oliver sentiu como se aquelas fossem as coisas que ele sempre quis dizer mas que muito provavelmente teria coragem para fazer.
Aquela letra parecia a que melhor descrevia o que pesava em sua mente e orou para que ela pudesse entender, para que ela soubesse; de alguma maneira, que aquela música dizia tudo aquilo o que ele era incapaz de pronunciar. Tudo o que ele desejava era que ela pudesse ver além daquilo que ele mostrava, que ela fosse capaz de enxergar além dos muros e paredes que ele tão arduamente construíra durante aqueles dois anos.
De algumas coisas ele tinha certeza: Felicity o tirara de órbita desde a primeira vez que ele a vira naquela sala há dois meses. Ela tinha tudo e muito mais, o dera um sentido completamente novo para as coisas. Ela tinha o coração dele bem suas mãos, para dar o uso que quisesse; e era exatamente disso que ele tinha medo. Entregou seu coração de bandeja para outra pessoa e agora ela podia optar por quebrá-lo ou consertá-lo. Ele sabia que ela jamais o machucaria de propósito, mas também tinha a consciência de que aquilo poderia acontecer. A observou de soslaio e redecorou cada traço da loira que parecia presa em seu próprio mundo.
Ele tentara tanto nunca deixar ninguém entrar, nunca permitiu que ninguém visse além daquilo que ele queria que vissem, nem mesmo Sara. Sua falecida esposa lutara muito para conseguir quebrar aquelas barreiras e enxergar o verdadeiro Oliver Queen. Felicity, entretanto, não parecia ter nenhuma dificuldade em enxergar o que ele não permitia que mais ninguém visse. Com ela, todas as paredes simplesmente pareciam colidir, lentamente, e ele sentia-se como se estivesse caindo em um penhasco sem saber a profundidade do mesmo.
A música terminou e então outra, que ambos conheciam muito bem, começou a tocar. "Fix You", do Coldplay, era uma das músicas prediletas dela, e provavelmente, uma das mais bonitas da banda. O piano, com suas notas suaves e melódicas, e a voz do vocalista pareciam uma junção perfeita, que jamais poderia ser copiada. Naquele momento, Felicity Smoak se deu conta de uma coisa a qual não notara antes. Não era apenas ela quem ajudava Oliver, não era apenas ele quem era curado. De alguma forma, que ela desconhecia, o rapaz também estava ajudando a quebrar as próprias barreiras, a superar as próprias limitações.
Quando seu pai foi embora, quando ela tinha sete anos de idade, ela começou a desacreditar de qualquer forma de amor, era incapaz de confiar nas pessoas ou de se apegar às mesmas. Por algum tempo, ela conseguiu fugir dos outros, impedir que os mesmos entrassem; entretanto, quando sua mãe a colocou contra a parede em uma tarde de verão, ela percebeu que a mesma tinha razão e que ela precisava superar. Foi nesse mesmo ano que conheceu Jonh Diggle, um homem que foi seu psicólogo durante quatro anos, aquele que conseguiu fazê-la superar minimamente aqueles traumas do passado e seguir em frente.
Agora, anos depois, as coisas eram um pouco diferentes. Ela já não tinha tanto receio de permitir que alguém entrasse, mas aquele temor ressurgia em alguns momentos e ela se sentia tão mal quanto era criança. Entretanto, com Oliver as coisas simplesmente pareciam diferentes. Era como se ambos estivessem se consertando, mutualmente, como ele aplacasse as feridas no coração dela e vice-versa.
Ela sentia-se grata, extremamente. Sempre vivera pela premissa de que a vida era preciosa; entretanto, por muitas vezes, ela ignorara a mesma. Não agora, não com ele. Felicity precisava acreditar que as coisas seriam diferentes, que com ele ela não cometeria os mesmos erros que cometera em suas relações anteriores. E de alguma forma sentia que lutaria para fazer aquilo dar certo.
O caminho até onde quer que fosse que Oliver estava a levando era incrivelmente longo. Já eram onze da manhã e os dois ainda não haviam chegado ao destino e ela estava começando a ficar seriamente impaciente.
— Oliver, para onde estamos indo? Eu sei que você disse que era uma surpresa mas já estamos no carro há duas horas e minhas pernas estão começando a ficar dormentes, não que haja algo de errado com seu carro, pelo contrário, ele é muito confortável, mas eu estou ficando entediada e quero muito saber para onde estamos indo — ela falou praticamente sem respirar.
O rapaz riu e respondeu:
— Já estamos chegando, Lissy — murmurou, gostando de como o diminutivo ficava, mas ainda pensaria em algo melhor para chamá-la.
— Uou, nós já temos apelidos? — Ela quicou no banco, parecendo uma criança que estava com overdose de açúcar. — Mas eu não tenho nenhum para te dar — ela fez um bico extremamente fofo e parou de quicar: — Quero dizer você é muito grande e musculoso para ter um apelido — cruzou os braços, emburrada: — Não que eu não goste do seu corpo, gosto muito aliás, seria uma loucura te ver malhando — ela mordeu o lábio inferior com o pensamento e continuou a tagarelar: — Mas eu não quero te chamar de Ollie, é estranho e não combina nem um pouco com você — ela fez uma careta de desaprovação: — Ah, me ajuda! — o cutucou, fazendo-o rir.
— Hoje você está ligada no 220 — comentou, acelerando o carro. Os dois estavam na estrada interestadual e ele podia dirigir como preferia. — O que houve?
— Tomei muito café — ela respondeu, se contorcendo no carro. Okay, sem muito café para Felicity. Ele pensou, com um sorriso no rosto. — Eu fico elétrica — ela se moveu novamente, parecendo inquieta.
— Eu sei, assim como quando toma frapuccino — estalou a língua e continuou a dirigir.
— Yep — ela sorriu ao perceber que ele lembrava. O rapaz estacionou o carro diante de uma grande área de floresta, saiu do carro e abriu a porta para jovem, que saiu, olhando encantada para o local. Era uma clareira repleta de árvores e flores dos mais variados tipos: — Uou, isso é lindo demais! — Ela disse, completamente encantada pela beleza do local.
— Hoje à noite terá uma chuva de meteoros — ele murmurou, entrelaçando suas mãos nas dela: — Pensei em fazermos um piquenique e ficarmos para ver — completou, passando a mão pelo ombro dela, que ainda parecia encantada com o local.
Nossa, ele realmente sabe como conquistar corações. Pensou, sorrindo. Como se o seu já não fosse dele há um tempo. Sua consciência apontou com um olhar acusatório. Ela revirou os olhos para si mesma e disse:
— Como conhece esse lugar? — Ele deve ter trazido Sara aqui, pensou, sentindo-se um pouco triste. Ora, Felicity, se controle. Ele está com você, é isso o que importa!
— Eu vinha com Tommy aqui quando era pequeno — um sorriso estava estampado em seu belo rosto: — Meu pai nos trazia para a gente fazer piquenique — comentou: — Você é a primeira pessoa que trago aqui — compartilhou, sem pensar. Até ele estranhou o próprio comentário e tentou lembrar a razão de não ter trazido Sara. Ah é, ela odiava mato. Pensou, sorrindo e pela primeira vez, não sentiu a dor o dominar o peito.
Nossa, nós já temos nossa primeira vez! Pensou, olhando ao redor, sentindo-se subitamente mais satisfeita.
— Isso é perfeito, obrigada — disse, abraçando-se a ele: — Deus, eu adoro esse perfume — afundou sua cabeça no peito dele. Parece um travesseiro, só que mais duro e musculoso. Pensou e riu.
— Eu pareço um travesseiro musculoso? — Ele questionou, arqueando uma sobrancelha:
— Eu disse isso em voz alta? — Ela questionou, separando-se dele com os olhos arregalados de choque, quando ele assentiu, ela corou e desviou seu olhar dele.
— Você fica ainda mais linda quando cora — ele comentou, provocando-a. Ela bufou e o deu um tapa de leve no peito:
— Chato! — cruzou os braços, parecendo uma criança emburrada. Ele riu e ela disse: — Não tem graça, Oliver! Queria tanto conseguir manter minha boca grande fechada — não olhou e ele percebeu que ela falava sério.
— Ei, olhe para mim — pediu, puxando-a para ele e erguendo o queixo dela com o dedo indicador. Os olhares se encontraram e ele sentiu seu próprio coração acelerar, desenfreado: — Eu gosto da sua língua solta, de verdade — foi completamente sincero: — Gosto do seu jeito de ser, dessa sua luz — beijou-lhe o canto do lábio e ela suspirou, fechando os olhos e esquecendo a razão pela qual se sentia mal. Suspeitou que era exatamente essa a intenção do rapaz.
— Só você e Caitlin têm paciência com minha língua solta — ela comentou: — Até o Barry me interrompe! — disse, batendo o pé no chão. Ele riu e falou:
— Não pretendo te interromper — afagou o rosto dela, que aproximou-se, instintivamente, do toque: — Venha, vamos — pediu. Abriu o porta-malas do carro e pegou uma cesta repleta de alimentos e uma toalha. — Eu trouxe repelente, você precisa passar pois há mosquitos transmissores de doenças por aqui — entregou-a o produto e ela o encarou:
— Mas eu vou ficar toda melecada — fez bico. Ele a lançou olhar severo e ela colocou a língua entre os dentes, entendendo a mensagem. — Okay, senhor olhar de eu vou passar a força se você não o fizer de boa vontade — disse, pegando o creme e passando no pescoço e nos braços.
— Tome cuidado com as roupas, tem carrapatos — ele disse, sério. — Suba bem as meias — pediu. Super protetor. Okay, um defeito para lista. Pensou, bufando. Acho que posso lidar com isso.
— Vamos — ele a guiou para dentro da clareira e jogou a grande toalha no chão enquanto a loira olhava o céu, encantada com o quão azul e claro o mesmo era ali. Ela sentou-se sobre a toalha e cruzou as pernas, avaliando o que ele levara para ambos comerem. Croassaints, geleia de morango, manteiga de amendoim, pretzels, um pote pequeno de Nutella, suco de laranja, e um pequeno pote de manteiga. Uau, ele pensou em tudo! Pena que tenho alergia à amendoim.
— Isso está perfeito — ela disse, pegando um croassaint e comendo. Só então percebeu que estava faminta. Ele sorriu e perguntou:
— Quer manteiga de amendoim?
— Sou alérgica — respondeu. Ele a olhou e uma sombra passou pelos olhos dele.
— A que mais é alérgica? — Ele parecia subitamente preocupado, olhando para a cesta e tentando identificar qualquer outra coisa com amendoim. Ela terminou de comer outro croassaint, pegou um dos copos que ele trouxera e respondeu:
— Só a amendoim mesmo — deu de ombros. Oliver relaxou e fez uma nota mental para nunca mais comprar nada com amendoim para a jovem. — Você tem alergia a algo? — Perguntou, bebendo um pouco de suco. Ele negou e disse:
— Não — comeu um pretzel e a observou. Ela ficava linda sob aquela luz. Encarou-a e analisou os traços do rosto dela, sentindo-se o homem mais sortudo da face da terra.
Eles passaram o resto do dia andando por entre a mata, depois de muita persuasão da parte de Felicity, e conforme a noite foi chegando, eles voltaram para a clareira e deitaram no chão, ela se aninhou no peito do rapaz e percebeu que ele era incrivelmente quente, servia como um excelente cobertor humano, provavelmente o preferido dela. Oliver fazia um cafuné delicioso em sua cabeça, e ela sentia-se em casa, o abraço dele tornou-se seu lugar predileto, se pudesse jamais sairia dali.
Subitamente, a chuva de meteoros começou. As estrelas cadentes incendiando o céu em todo seu esplendor. Sentiu-se puxada pela gravidade e pela primeira vez, não teve medo de cair. Conforme as estrelas caíam no céu, iluminando tudo ao seu redor, não havia nada que ela pudesse pensar em pedir. Apenas vislumbrou as mesmas, observando, com fascínio, seu esplendor.
Oliver não queria soltá-la, mas já estava tarde e os dois precisavam voltar para casa; contudo, sentia-se preso àqueles braços como jamais sentira-se antes. Ela estava estranhamente em silêncio em seus braços e naquele momento, observando as estrelas que ainda caíam do céu, ele sentiu-se inteiro... Como há muito tempo não se sentia.
...
Três semanas passaram. Três longas semanas nas quais nada parecia acontecer, independente de que Caitlin fizesse. Seus pensamentos eram povoados por apenas uma pessoa e por mais que ela tentasse com afinco esquecer Tommy, simplesmente não conseguia.
Depois de finalmente aceitar aquela realidade injusta, ela acabou se afastando do rapaz. Nunca mais fora até a mansão, nunca mais o procurara. Apenas arranjou uma governanta e uma empregada para cuidar da mansão e dele, e sumiu. É melhor assim. Repetiu para si mesma pelo que parecia a milésima vez. Seu coração, entretanto, parecia gritar com toda força implorando, em desespero, para que ela fosse vê-lo e por mais irônico que parecesse, até sua mente parecia suplicar por aquilo.
A jovem estava sentada no sofá da sala quando sua melhor amiga surgiu do quarto, cantarolando "In My Veins", de Andre Belle. Valeu, vida! Pensou, rindo, com amargura. As duas ouviram o som da campainha e Caitlin levantou-se, a contragosto, foi, praticamente se arrastando, em direção a porta e quando a abriu, ficou literalmente boquiaberta. Oliver estava lá, entretanto, não era isso o que a surpreendera, e sim a presença de Tommy ao lado dele.
— Boa tarde, Caitlin — o loiro disse e sua voz parecia incrivelmente séria. — Chame a Felicity para mim por favor — ele a lançou um olhar circunspecto e ela engoliu em seco, gritando o nome da melhor amiga que logo surgiu.
— Oi! — Ela se jogou nos braços dele sem nem pensar duas vezes e foi bem recebida pelo rapaz, que a deu um beijo na testa e disse:
— Vamos dar uma volta, Tommy quer conversar com Caitlin — pediu e lançou um olhar para loira que a impediu de questionar. Ela apenas assentiu e os dois saíram do apartamento sem dizerem mais nada.
— Oi — ela murmurou, sem olhar para o rapaz que parecia tão sério quanto o amigo. — O que houve?
— Sou eu quem deveria estar perguntando isso — ele falou e sua voz parecia repleta de um rancor mal escondido. — Você sumiu, nunca mais foi até a mansão, o que está havendo?
— Nada demais — ela deu de ombros, tentando ignorar aquela sensação estranha. — Eu mandei pessoas para lhe ajudar — informou, prendendo os cabelos em um coque alto. Ele ficou imóvel.
O olhar dele tornou-se severo e ela encolheu-se. Pela primeira vez, ele soube exatamente para onde olhar. Ela molhou os lábios sentindo-se intimidada. Ele não pareceu nem um pouco satisfeito com o que ela dissera.
— Você disse que iria voltar — murmurou e ela sentiu seu coração estraçalhar em seu peito. — Mas simplesmente sumiu! Você sumiu quando me prometeu não faria isso! — Ele gritou e ela estremeceu. Definitivamente não estava esperando por aquilo. — Me deixou sozinho, por que fez isso? — A voz dele tornou-se um murmúrio sôfrego.
Ela queria tanto explicar seus motivos mas não tinha como, não podia.
— Tommy — murmurou, aproximando-se dele e tocando no ombro do rapaz, que rejeitou o toque, afastando-se dela. Caitlin sentiu como se tivesse tomado um tapa na cara, colocou a mão sobre o diafragma e inspirou fundo, controlando-se. — Eu...
— Me desculpe se eu era um fardo demais para você carregar — ele cuspiu as palavras e ela arregalou os olhos. Ah não, ele havia entendido tudo errado! Apressou-se em tentar explicar:
— Não é nada disso! — Falou, mas ele já estava virando de costas e saindo rapidamente pelo corredor, tateando em volta. — Tommy, me ouve por favor — implorou. — Você não é um fardo, tá entendendo?! — Berrou e ele parou por alguns segundos, fazendo-a suspirar aliviada: — Eu só estava passando por um momento difícil e não queria lhe atormentar com meus problemas tolos — atropelou as palavras, falando sem respirar. Vê-lo ir embora daquela forma... Aquilo a doeu bem mais do que a morena esperava.
Ele virou-se para ela e a jovem sentiu o que restava de seu coração quebrar. Os olhos dele estavam marejados. Não conseguiu se controlar, quando percebeu, já estava o abraçando.
— Você não é um fardo, nunca vai ser — murmurou, inalando o perfume dele, sentindo como se seu coração, em pedaços, agora voltasse a bater freneticamente em seu peito, como se uma parte de si que ela desconhecia agora ganhasse vida, pulsando dentro de seu peito. — Entenda isso — implorou, sem o soltar. Não queria, não iria conseguir conviver com o vazio.
Tommy estava estático, não se movia; contudo, subitamente, devolveu o abraço, enlaçando-a como se assim pudesse protegê-la de todo mal. Inalou o perfume do shampoo dela e então a dor cessou completamente. Quando Caitlin sumiu, ele não soube direito como agir. Na primeira semana preferiu apenas ignorar aquela sensação ruim, mas conforme os dias e semanas passavam, a mesma torna-se cada vez mais intensa, mais latejante e ele soube que precisava descobrir o que raios estava havendo.
— Só não vai embora — ele apertou-a com mais força, um soluço escapou por entre seus lábios. — Não faz isso — cedeu ao desespero. Não se importava se soava fraco ou vulnerável, apenas precisava dela por perto e sequer entendia a razão. Outra coisa pulsava em seu âmago, mas ele simplesmente não soube identificar o que era.
— Eu não vou, okay? — Ela afagou o cabelo dele e decidiu guardar a própria dor, decidida a cuidar da dele. Precisava fazer aquilo, no fundo ela sabia que ele estava bem mais ferido do que ela, seria muito egoísmo não ajudá-lo. Ela jamais conseguiria se perdoar, ainda mais agora. — Estou falando sério Tommy — ela murmurou ao perceber que ele não acreditou muito no que a jovem dizia: — Eu não irei a lugar nenhum.
...
Oliver chegou em casa e se jogou no sofá, sorrindo ao ver sua irmã lendo um livro qualquer.
— Boa noite, Speedy — ele disse a lançando um sorriso e sentando ao lado dela.
— Oi — ela fechou o livro e sorriu para ele: — Você parece feliz — comentou, parecendo alegre pelo irmão.
Ela jamais pensou que Oliver superaria, mas agora, anos depois, de alguma forma as feridas que ele carregava pareciam estar lentamente cicatrizando e só o que ela desejava era conhecer a causa daquilo. Queria muito saber como Felicity era, gostaria de agradecê-la por tudo o que a outra estava fazendo por seu irmão.
— Eu estou — ele admitiu, brincando com a mão da irmã: — Ela é incrível — disse, em um tom de voz baixo.
— Você gosta mesmo dela — comentou, satisfeita.
— Sim, eu gosto — ele sorriu, numa mistura de paixão e carinho.
— Queria muito conhecê-la — pediu, apoiando o braço na cabeceira do sofá. Ele a lançou um olhar pensativo, parecendo avaliar a possibilidade.
— Eu a trago aqui qualquer dia desses, só quero esperar mais um pouco — queria garantir que Felicity não se incomodaria em ser apresentada para a única família que ele tinha. — Mas acho que ela irá gostar de você — ele comentou, jogando o corpo para trás.
— Lógico que vai, eu sou muito gostável! — Ele revirou os olhos e abraçou a irmã com um braço, beijando a testa da irmã: — Eu fico muito feliz que ela esteja te fazendo feliz, Ollie — ela deu um beijo na bochecha dele e encolhendo-se em seu abraço.
...
Caitlin estava sentada com vários papeis em mão, encarando-os. Tommy apareceu da cozinha e sentou-se ao lado da jovem, agora ele usava uma bengala para deficientes visuais que permitia uma locomoção menos arriscada pela casa.
— Você precisa comer — ele falou, tateando em volta e encontrando o sofá. Tommy mandão voltou das cinzas. Pensou, revirando os olhos:
— Estou sem fome.
— Mas você não almoçou, não pode ficar sem comer por tanto tempo — ele disse, sério. Caitlin disse:
— Só me deixe ver isso e eu como, okay?
— Tudo bem — ele deu de ombros. — O que é? — Ele tateou os papeis e suspirou ao sentir a textura dos mesmos.
— Aulas sobre braile — ela mordeu o lábio inferior. — É mais difícil do que pensei — suspirou. — Estou tentando entender o funcionamento para lhe ajudar mas isso é complicado! — Grunhiu, frustrada.
— Ei, fique calma — ele pediu, aproximando-se um pouco mais dela: — Qualquer coisa eu contrato alguém — disse, em uma tentativa de fazê-la esquecer daquilo. — Agora vá comer — mandou.
— E se fôssemos jantar fora? — Perguntou. Tommy estava enfurnado naquela casa há mais de um mês, apenas precisava tirá-lo um pouco dali, fazê-lo tomar um pouco de ar.
— Caitlin, eu vou te fazer passar vergonha — ele disse, resignado, como se realmente acreditasse naquele absurdo.
— Ah tenha santa paciência, Thomas! — Ela esbravejou, levantando. — Você se vira muito bem obrigada e se comporta como um cavalheiro à mesa — bateu o pé no chão. — Vá tomar um banho, vou esperar uma roupa para você e isso não é um pedido! — Se ele quer ser mandão, também serei. Pensou, satisfeita.
— Eu já disse que você é pequena demais para ser brava, Caitlin — ele disse, levantando e indo em direção à escada sem precisar de ajuda da morena. Mas ela sabia que subi-la seria algo mais trabalhoso, por isso o ajudou. Ela ainda precisaria de alguém que pudesse tomar conta dele, ajudá-lo com coisas com as quais ele ainda não aprendera a lidar. Entretanto, a ideia de deixar o outro com um desconhecido não lhe era nem um pouco agradável.
Ela escolheu uma calça social preta e uma blusa social branca. Ele deve ficar lindo de branco! Pensou, suspirando.
— Aqui está sua roupa — entregou-lhe as peças e ele sorriu, parecendo acanhado. Pegou as vestimentas e adentrou no banheiro. Tateou e entrou na banheira, procurou e encontrou a torneira do chuveiro, abrindo-o na água quente. Esfregou o próprio corpo e tocou os fracos, reconhecendo facilmente o de shampoo, devido ao formato estranho do frasco.
Novamente, memórias de Laurel começaram a dominar sua mente; dessa vez, entretanto, as mesmas pareciam doer menos, machucar menos sua alma. Ele se enxaguou, pegou a toalha, se secou e vestiu-se, sem se dar ao trabalho de abotoar a blusa.
— Abotoa para mim, por favor? — Pediu, ao sair do banheiro, com os cabelos molhados. Ela encarou o peitoral dele, com algumas gotículas de água caindo por seu abdome incrivelmente definido. Ela respirou fundo, contando até dez e aproximou-se. Abotoou lentamente, bem mais do que deveria, apenas tentando se controlar para não tocá-lo. Terminou o serviço e afastou-se dele, voltando para outro lugar. — Você trocou de perfume? — Ele questionou, subitamente.
— Er... Sim, por que? — Seu belo rosto estava transfigurado em uma careta:
— Eu gosto mais do outro, eu já havia associado a você — foi sincero. Caitlin ficou surpresa ao ouvir tais palavras e então soube que de agora em diante só usaria o perfume com odor de lírios.
— Entendi, vou usar só o outro — disse. — Vamos? — Ele assentiu e pegou sua bengala, ela enlaçou seu braço ao dele o ajudou descer as escadas, pegando a chave do Audi.
— Como está a noite? — Ele questionou, desejando poder enxergar novamente.
— A Lua está cheia — Cailtin respondeu: — Há várias estrelas no céu e está ventando — respondeu, olhando-o de soslaio enquanto dirigia.
Não demorou muito para que os dois chegassem ao destino certo. Ela saiu do carro e ajudou o rapaz a sair do mesmo, guiando-o para dentro do restaurante. A hoster o encarou de cima a baixo com o olhar de cobiça e Caitlin não gostou nem um pouco daquela clara insinuação.
— Gostaríamos de uma mesa no canto, por favor — ele requisitou, olhando em uma direção qualquer. A hoster o encarou, parecendo confusa e guiou ambos para um local recluso.
— Se precisar é só chamar — ela disse, com uma voz esganiçada, colocando um papel na mão dele.
— O que há aqui? — Ele questionou, entregando-lhe o papel pequeno com alguns dígitos.
— O número dela — deu de ombros, mas em seu peito aquela sensação estranha queimava-lhe e ela percebeu que havia trincado a mandíbula de raiva. Tommy deu de ombros e amassou o papel, entregando-a e dizendo:
— Pode jogar fora — ela sorriu vitoriosa e guardou o papel amassado na bolsa, para jogar fora depois. — Em qual restaurante estamos?
— The Orfeu's — ela respondeu: — É bom e barato.
Ele assentiu e perguntou, tateando o cardápio:
— O que tem aqui?
— Frango à passarinho, lasanha, arroz com alcatra, sopas — murmurou, ajeitando os cabelos desgrenhados dele.
— Escolha por mim, mas algo fácil, por favor — murmurou, abaixando o olhar. Caitlin sentiu seu coração apertar e assentiu, tirando sua mão do cabelo dele.
Um garçom surgiu e anotou o pedido dela:
— Eu gostaria de um macarrão ao molho branco com queijo de ricota e um contra filé bem passado, e um suco de laranja — deu seu pedido: — E para ele um arroz com alcatra — era o prato menos trabalhoso ali e sabia que ele conseguiria se sair bem.
— Caitlin? — Ouviu uma voz incrivelmente familiar chamar e congelou na cadeira. Era Ronnie, seu ex-namorado. Um sujeito que até hoje ela não soube como havia namorado.
— Ronnie! O que faz aqui? — Perguntando assim que ele surgiu em seu campo de visão.
— Eu vim visitar um amigo, você está ainda mais bonita — ele comentou com um sorriso malicioso. A jovem revirou os olhos e disse:
— Obrigada, Ronnie.
— Quem é esse? — Ele perguntou, voltando-se para Tommy, que encarava o próprio prato de forma séria.
— Um amigo — ela respondeu apenas.
— Ah, okay — deu de ombros, sem sequer se dar ao trabalho de cumprimentar o outro: — O que você acha de nos encontrarmos um dia desses, para matar a saudade?
— Eu estou saindo com outro cara — mentiu. Sabia que nada mais o faria parar e não estava com paciência para discussão. Percebeu Tommy se remexer na cadeira e molhou os lábios.
— Ah, então tá — ele suspirou, parecendo frustrado. — Foi bom te ver — ele a lançou um sorriso amarelo e afastou-se da mesa, deixando os dois sozinhos novamente.
— Quem era? — O moreno questionou, seu olhar direcionado para um ponto próximo dela.
— Um ex namorado, o nome dele é Ronnie.
O rapaz havia sido o primi namorado sério que Caitlin tivera durante sua vida. Havia vivido alguns romances de verão, mas nunca fora apaixonada por nenhum deles como foi por Ronnie na época. Ele era dois anos mais velho e eles se conheceram por intermédio de uma antiga amiga da jovem, na época Caitlin tinha dezenove anos de idade. Inicialmente, ele parecia ser a definição de todos os seus sonhos. Contudo, um único evento serviu para a mostrar que ele jamais seria capaz de entendê-la e aceitá-la.
Foi numa festa da faculdade, quando ela tinha vinte anos, que todo seu mundo começou a desabar. Ela estava voltando para casa de madrugada quando fora agarrada por um homem sem rosto e fora arrastada para o meio do mato por um homem de capuz e olhos incrivelmente cinza. Ele lhe arrancou parte do vestido e só o que ela se lembrava era ter se debatido com todas as forças sob ele, o arranhando a pele.
Ela podia lembrar com perfeição do cheiro de álcool que ele exalava, podia recordar dele desabotoando a calça e a arrancando a calcinha. Foi ai que ela se debateu ainda mais, conseguindo chutá-lo nas genitais. Ela conseguiu se soltar do aperto dele e sair correndo, o chão de asfalto machucando seus pés, enquanto lágrimas quentes caíam de seu rosto, molhando seu vestido rasgado.
Depois daquele evento, as coisas tornaram-se ainda mais difíceis. Por sorte, ela já conhecia Felicity e a mesma foi quem mais a apoiou durante aquela fase praticamente impossível de sua vida. Alguns meses passaram, no começo Ronnie fora carinhoso e delicado; mas então, seu corpo começou a falar mais alto. Ele queria transar com ela e Caitlin definitivamente sentia-se menos pronta e segura do que nunca.
Era ridículo uma mulher de vinte e um anos nunca ter ido para cama com ninguém. Quando conheceu Ronnie quis que fosse com ele; no começo, entretanto, não estava pronta. Quando completou vinte anos, decidiu tentar mas foi ai que todo seu mundo colidiu. O assédio que sofrera, por mais que não tenha sido tão grave ou traumatizante quanto um estupro, deixara marcas nela que a jovem simplesmente não conseguia esquecer.
Ela decidiu tentar dormir com Ronnie, mas conforme ele a tocava flashs daquela noite ainda assombravam sua mente. Foi ai que soube que precisava de ajuda. Muita. Ele, contudo, não foi tão paciente. Acabou terminando com ela alguns meses depois e sumiu de Starling City.
Aquele momento fora, definitivamente, o pior de toda sua vida. Ela foi ao psicólogo por dois anos para finalmente conseguir superar não apenas aquele trauma como o abandono do homem ao qual ela tanto amava. O tempo passou, mas ela não conhecera ninguém, exceto Barry, cujo coração já possuía dona. Mas agora ali estava ela, começando a se apaixonar por Thomas Merlyn. Novamente, uma paixão que jamais lhe seria correspondida.
— Entendo — ele murmurou, pigarreando e arrancando daquela linha deprimente de pensamentos. O garçom serviu os pratos e ele murmurou, depois de dar uma garfada: — Mas ele claramente ainda quer você — ele comentou, revirando os olhos.
— Bem, isso é um problema dele — ela comentou, comendo mais de seu prato conforme ele comia dele, quase como se estivesse espelhando as ações do rapaz. Mas quem eu quero, não me quer. Pensou, e agradeceu por ele não poder vê-la.
Eles jantaram em silêncio e Tommy abriu a carteira, sentindo-se mal por não conseguir identificar as notas. A jovem pediu a conta e se assustou ao ver o preço. 198 dólares, uau, esse lugar já foi mais barato!
— Qual nota é qual? — Ele perguntou, pedindo ajuda da morena, que o observou, pensando em discutir com ele sobre quem pagaria a conta. Mas ao ver o olhar devastado do rapaz, soube que seria melhor deixá-lo pagar. — Eu pego para você, me dê aqui — pediu, ele a entregou a carteira e ela retirou duas notas de 100 dólares. — Pronto — devolveu-o o objeto o qual ele guardou no bolso da calça.
Ela pagou a conta e o ajudou a sair do restaurante. Eles atravessaram a rua e sentaram em um banco diante da baía de Starling City. Ele olhava o horizonte e naquele instante era quase como se o rapaz realmente pudesse ver.
— O vento está tão bom — ele murmurou, sentindo o mesmo batendo contra seu rosto, fechou os olhos deliciando-se com aquela sensação. Ela voltou seu olhar para lua e também fechou os olhos, pela primeira vez, apenas se permitiu sentir... Permitiu-se admitir que estava completamente apaixonada por Thomas Merlyn.
...
A figura moveu-se com elegância pelo recinto, os olhos brilhando, animalescos, enquanto a foto de uma bela loira com óculos de grau estava presa por entre seus dedos. Acendeu o isqueiro e encostou a chama perto da fotografia, observando, com um sorriso, a mesma queimar...
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