Ensina-me a Viver
21 Para Sempre
Notas iniciais
We keep this love in a photograph
We made these memories for ourselves
Where our eyes are never closing
Hearts were never broken
And time's forever frozen still
***
Estava frio. Era diferente do que antes, uma espécie de frio que não atingia apenas sua pele, mas que também lhe gelava a alma. Caitlin tinha os olhos fechados, os lábios secos.
Podia sentir o odor de álcool invadindo suas narinas, algo crescia em seu peito, uma espécie de dor que ela jamais sentira antes, que crescia dentro de si, aumentando a cada respiração. Colocou a mão sobre o torso, sentindo seu coração batendo em um desespero silencioso.
Ele vai ficar bem. Murmurou, para si mesma. Ela precisava acreditar naquilo, do contrário, sabia que não conseguiria suportar tudo o que estava acontecendo.
Ela sentia-se presa ao medo, à escuridão. Encolheu-se, o frio tornando-se mais intenso, fazendo seu peito inflar, queimando, em brasa viva. Ela sentia aquela dor crescendo, espalhando por seus pulmões, fazendo os mesmos arderem, queimarem, como se um ácido os corroesse por dentro, sem deixar nada, apenas cinzas. Seu coração agora batia com mais dificuldade e ela podia perceber a dificuldade que tinha para respirar.
Ela o amava. Não havia mais como negar, fugir ou mentir para si mesma. Caitlin amava Thomas Merlyn mais do que já amou qualquer outra pessoa em sua vida. Aquele sentimento crescera lentamente, sem que ela se desse conta, e agora, inundava sua alma, invadia seu corpo, como uma enchente. Ele a dava esperanças, a dava coragem.
Aquelas últimas semanas haviam sido muito difíceis, de todas as formas. Estar tão próxima de Tommy era uma tarefa extremamente difícil, principalmente com todos aqueles sentimentos que gritavam em seu peito, em um desespero silencioso.
Estar perto dele era como estar diante da luz mas nunca poder alcançá-la. Thomas Merlyn era como uma borboleta, que passava ao seu redor mas que nunca pousava em suas mãos. Talvez nunca pousaria. Ele estava sempre ao seu redor, enfeitiçando-a, tirando-a do chão, mas a realidade, tão dura quanto a gravidade, a jogava para baixo, e a queda, essa era sempre grande demais. Ela agora caía numa velocidade maior e tinha muito medo do que aconteceria quando chegasse ao chão.
Mas ali, naquela recepção de hospital, não pensar em tudo que acontecera era praticamente impossível. Ele havia de fato sido a melhor coisa que a acontecera, Caitlin não podia negar aquilo. Tommy havia a mudado e só agora ela percebera aquilo. Ele era como uma canção, uma inspiração, que acalentava seu coração mesmo em momentos como aquele.
— Caitlin! — Ela ouviu sua melhor amiga chamar seu nome e levantou-se, sentindo-se reconfortada pelo abraço de Felicity. — Tem notícias dele?
— Ainda não, ele está em cirurgia — Caitlin murmurou. Sentia como se o mundo estivesse prestes a colidir ao seu redor. — E Oliver?
— Foi atrás de um médico — a loira respondeu, sentando-se em uma das cadeiras do local. Caitlin sentou ao lado dela e encarou o relógio. Os minutos arrastavam-se, o tempo, tornando-se o seu pior inimigo. — Como você está? — A mais velha perguntou preocupada.
— Eu só quero que ele fique bem — ela respondeu, o olhar vítreo, mas, ainda assim, demonstrando todo seu medo. A jovem não queria nem podia cogitar a possibilidade de Tommy não resistir, ela não saberia como iria prosseguir depois disso. — Só preciso que ele fique bem.
— Ele vai ficar — Felicity prometeu.
— Eu não disse que o amava — a morena abaixou a cabeça, apoiando- nas mãos, seus cotovelos afundados nas coxas. A realidade agora a atingindo e não havia nada que ela pudesse fazer: — Não disse o quão importante ele é para mim — as lágrimas agora caíam livres por seu rosto, seus medos tingidos em vermelho diante de seus olhos.
Havia tanto que ela queria que ele soubesse. Tanto que ela precisava ter dito mas nunca fizera. Agora ela percebia. Ela nunca poderia prever o dia de amanhã, o mesmo não era prometido para ninguém. Pessoas saíam de casa todos os dias, mas algumas, simplesmente não voltam. Às vezes era necessário que a morte assombrasse algumas pessoas para que as mesmas percebessem o quanto a vida é preciosa. Ela percebia agora, o que já deveria ter visto antes, principalmente depois do incêndio.
Ela sentia-se diferente de antes, talvez por realmente estar. Ser apaixonada por ele havia a mudado de uma forma irreversível.
— Eu devia ter dito — soluçou. Felicity ajoelhou-se na frente da amiga e ergueu o rosto dela, encarando-a. Os olhos azuis encontraram os castanhos, em uma sintonia clara, num sinal de uma amizade real, pura e verdadeira.
— Não se prenda as coisas que você devia ter feito e não fez, minha amiga — pediu. — Pense no que você pode fazer de diferente a partir de agora. Você ama o Tommy? Então o diga — a lançou um sorriso: — Você não pode mudar o passado, então pense no presente, é só dele que temos garantia.
— O que você quer dizer?
— Eu quero dizer que se você o ama, lute por ele — Felicity suspirou, incentivando-a. Ela mais do que ninguém sabia que o amor era o sentimento mais complexo de todos, envolvia muitos aspectos ambíguos e podia confundir aqueles que o sentiam. Mas ela também sabia que o mesmo era primordial, e que valia o esforço, a luta. — Muita gente não tem a sorte de encontrar a pessoa que ama, amiga — avisou: — Não desista desse sentimento.
— Mas ele nunca vai me amar.
— Nunca diga nunca, lembra-se? Você me disse isso — a mais velha sorriu, vitoriosa. — Lute por sua felicidade Caitlin, custe o que custar.
A mais nova pensou. Nunca diga nunca. As palavras ecoando por sua mente, misturadas ao medo de perdê-lo que crescia em seu peito. Ela sabia que seria incapaz de viver sabendo que ele jamais soube o quanto ela o amava, ele precisava saber, por mais que não sentisse o mesmo. Mas uma parte sua, a mais racional, sussurrava algo em seu ouvido. Ele te beijou. Se preocupa com você, quer que você seja feliz. Se isso não é amor, então o que é? Sua consciência questionou, lançando-a um olhar acusatório.
Snow sabia que aquela vozinha irritante em sua mente tinha razão. Ele realmente estava diferente, já não parecia mais tão atormentado, quebrado. Tommy agora parecia mais cheio de vida, ela podia ver uma pequena faísca queimando naqueles olhos azuis que ela tanto amava. Ela sabia que no fundo ele queria recomeçar, queria ser feliz novamente. E ela queria tanto que ele fosse feliz, era o que ela mais queria; contudo, também queria ser o motivo da felicidade dele.
— Hey — ela ouviu a voz de Oliver e olhou para cima. O rapaz usava uma camisa social azul escura e uma calça social preta, seu olhar estava repleto de um medo visível. Ela sentiu-se mal por ele, sabia o quão próximo o rapaz era de Tommy: — Não consegui descobrir nada — ele sentou-se ao lado da namorada, que o deu a mão em um sinal de apoio silencioso.
Oliver ouvia os sons ao redor e tentava ao máximo manter-se positivo, mas tinha medo. Tommy era praticamente como um irmão, os dois cresceram juntos, sua família o acolheu quando Malcolm, seu pai, o abandonou quando o menino tinha apenas sete anos de idade. Tommy era o melhor amigo que alguém poderia pedir, sempre esteve lá por Oliver, quando ninguém mais estivera.
Ele queria que Tommy ficasse bem, precisava daquilo, sua vida sem ele jamais faria o menor sentido. Agradeceu por Felicity estar ali, pois sabia que enlouqueceria sem ela ao seu lado para o apoiar. Novamente, sentiu que ela o arrancava da escuridão, o dava esperança.
— Eu vou até a lanchonete comprar algo para vocês, já volto — Felicity o deu um beijo na bochecha e levantou-se, andando rapidamente em direção à lanchonete.
— Como você está? — Ele perguntou, voltando-se para Caitlin.
— Preocupada — ela foi sincera. Não o conhecia direito, mas sabia que ele era uma pessoa incrível e ela não podia desejar ninguém melhor para sua melhor amiga. — Ele vai ficar bem, certo?
— Vai sim — ele disse, tentando ficar positivo: — Obrigado por cuidar dele — foi sincero.
— Não precisa agradecer — ela o lançou um sorriso fraco. — Me importo bastante com ele.
Ele a observou, a jovem parecia abatida, seus olhos castanhos não brilhavam como antes e ele percebeu que ela estava prestes a desabar.
— Ele também se importa com você, bem mais do que imagina — ele foi sincero. Oliver viu o quão devastado Tommy ficou quando Caitlin foi parar no hospital, sabia que ele realmente estava apaixonado pela jovem. — Você o faz muito bem...
Ela sorriu, sem saber o que dizer e olhou para as unhas mal feitas.
— Uma vez nós tocamos juntos... É incrível, ele ainda sabe onde fica cada tecla — seu peito aqueceu com a memória.
— Ele te deixou tocar o piano dele? — Oliver perguntou, verdadeiramente confuso.
— Sim, por que?
— Não é que... Ele nunca deixou ninguém chegar perto daquele piano, nem mesmo a Laurel — ele deu de ombros: — Era da mãe dele e ele não gostava que tocassem — explicou.
Ela franziu o cenho, não compreendeu muito bem o que ele a dizia. Por que Tommy a deixara tocar quando ninguém mais tinha tal permissão? Ela não entendeu o que aquilo representava.
— Você está apaixonada por ele — comentou. E ele por você. Quis dizer, mas não pôde. Ela arregalou os olhos e perguntou, gaguejando:
— Co-co-mo você sa-be?
— Está nos seus olhos — respondeu, honestamente. Mesmo durante um momento como aquele, ele podia ver os olhos dela brilharem como dois diamantes negros quando falava dele. — Deveria o dizer isso.
— Você é a segunda pessoa que me diz isso — ela murmurou, abaixando o olhar.
— É... Minha namorada é uma mulher muito inteligente — ele falou. — Apenas o diga Caitlin, antes que isso te sufoque.
Antes que ela pudesse responder, um médico de cerca de quarenta anos entrou na recepção e disse:
— Família de Thomas Merlyn — ao mesmo tempo que Felicity voltava com uma sacola nas mãos. Oliver e Caitlin levantaram em um pulo e ele disse:
— Somos nós!
O médico andou até eles com alguns papeis na mão.
— Como ele está? — A morena perguntou, sem paciência para enrolação. Ele a observou e disse:
— A bala passou perto do coração, atingiu algumas veias importantes mas felizmente não cortou nenhuma artéria nem a medula — falou, analisando os papéis. — O quadro dele, entretanto, exige uma série de cuidados, iremos o deixar na UTI por enquanto, mas ele está fora de risco de morte — ela sentiu o ar adentrando em seus pulmões ao ouvir tais palavras, sentiu como se seu mundo agora ganhasse todas as cores novamente. Ela sorriu e percebeu que não podia mais atrasar aquilo, ela precisava o dizer tudo.
...
Oliver adentrou no quarto e disse:
— Ei — Tommy estava deitado na cama de hospital, seus olhos azuis encarando um ponto qualquer.
— Ei — o mais novo sorriu enquanto brincava com o tecido do cobertor.
— Está melhor? — Oliver questionou, preocupado. Sentou-se na cama, tomando cuidado para não machucar o amigo.
— Ainda sinto um pouco de dor, mas estou bem — ele assentiu, seus olhos azuis um pouco diferentes. — E Caitlin? Ela deve ter ficado preocupada — ele falou, franzindo o cenho.
— Ela está lá fora, já vai entrar — ele respondeu, analisando o comportamento de seu amigo. — Tommy... Você está menos confuso com relação à ela?
— Eu não sei Ollie — o moreno parecia frustrado: — Enquanto eu perdia a consciência ela era a única pessoa na qual conseguia pensar — fechou os olhos: — É tudo tão confuso — admitiu.
— Sei que deve ser difícil entender isso, mas eu percebo o quão empenhado você está em ter uma segunda chance — falou: — E eu acho que Caitlin Snow pode ser sua segunda chance.
A conversa foi interrompida pelo som de alguém batendo na porta. A morena adentrou e Tommy soube imediatamente que era ela, reconheceria aquele perfume em qualquer lugar.
— Vou deixar vocês a sós, com licença — o mais velho pediu, saindo da cama e lançando um sorriso fraco para a jovem, que sorriu de volta.
Ela ficou ali parada, pelo que pareceram séculos. Seu coração acelerando descontrolado, numa força absurda, ela já não conseguia mais se controlar. Ela correu até a cama e o deu um abraço apertado, sentindo todos os cacos de seu coração se reencontrarem, unindo-se novamente. Tommy a apertou contra si, o perfume adentrando em suas narinas, ela sentiu-se inteira, como há muito não sentia.
— Fiquei tão preocupada com você — falou, sem o soltar.
— Eu sei, mas estou bem agora meu anjo — ele a deu um beijo na testa, sentiu uma lágrima quente cair sobre seu pescoço e secou o rosto dela. — Você comeu? — Perguntou, alisando os cabelos castanhos:
— Sim — mentiu. Não queria iniciar uma discussão com ele agora. — Não se preocupe comigo — pediu, fazendo um carinho no rosto.
— Não é uma opção — ele revirou os olhos. Ela suspirou e segurou a mão dele. Analisou a luz que invadia o quarto, fazendo com que os cabelos negros brilhassem, os olhos azuis intensos, repletos de um sentimento que ela era incapaz de saber qual era, mas que estava lá.
O silêncio invadiu o quarto mais uma vez. Ela precisava o dizer, não poderia mais fugir daquilo, sabia que Oliver tinha razão, se ela não contasse a verdade, aquilo a sufocaria e não era o que queria. Ela queria se reencontrar, queria ser feliz, talvez se apenas o contasse tudo tivesse toda a paz que precisava para tentar seguir em frente. Caitlin se perguntava se realmente devia lutar por Tommy, por aquele sentimento que florescia em seu peito como uma rosa que nasce na primavera. Ela o amava, mais do que já amou qualquer outra pessoa, e era realista, sabia que seu coração o pertencia, para sempre.
Tudo que acontecera em sua vida a levara até ele, seu caminho criou uma interseção com o caminho dele, seus destinos agora pareciam mais aliados do que nunca. Ela acreditava no amor, acreditava que quando somos destinados a amar alguém, todo o Universo conspirava a favor, ela acreditava que quando duas pessoas nasciam para estarem juntas, seus caminhos se encontrariam e com isso, viria a certeza. Agora mais do que nunca, ela sentia que havia nascido para amar Tommy, para ajudá-lo a crescer, se recuperar. Ela queria aquilo, desejava mais do que tudo uma vida ao lado daquele homem e sabia que precisaria lutar se realmente desejava poder ficar ao seu lado para o resto da vida.
Ela sabia que Tommy valia o risco, valia a briga e a tentativa, sabia que ele a faria mais feliz do que qualquer outra pessoa poderia, e ele sequer teria que esforçar-se para isso. Seu coração pulsava pelo dele, como um faminto almejando por comida, ela queria viver aquilo, precisava. Caitlin não conseguiria ter paz com o "e se", com a dúvida que a assombraria caso ela sequer tentasse, se se desse uma chance.
Fechou os olhos, contou até dez. Não podia mais atrasar aquela verdade, nem dele, nem de si mesma. Ela sabia que apesar de tudo, ele era a razão de sua esperança e era nisso que ela se apegava.
— Lembra de quando nos conhecemos?
— Claro — ele falou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, para ele, de fato era.
— Eu derramei vinho no seu terno super caro — riu ao lembrar da cena: — E ainda assim você foi tão gentil comigo — seus olhos brilharam com a memória tingida em um tom claro de azul em sua mente. — E mesmo depois de tudo que você passou, depois de tudo que lhe tiraram, você continuou sendo esse homem incrível, bom — passou o dedão pela linha do maxilar dele, aproveitando da sensação de poder o tocar, seu coração, agora calmo, mostrando seu contentamento: — Quando eu olho para você, vejo o quão bom você é, o quanto merece ser feliz — desceu a mão pelo pescoço, indo em direção ao mediastino, no qual o coração dele batia em uma velocidade assustadora.
Os olhos azuis encontram os castanhos e embora ele não pudesse mais a ver, sabia exatamente o carinho que aqueles olhos tentavam o passar. Sentia a mão dela em seu peito, seu coração agora batendo como jamais fizera. Ele era alguém danificado, seu coração quebrado ainda batia e ele sabia que havia uma razão.
Tommy nunca acreditou muito em destino. Ele era um homem racional, não via a razão de haver uma força superior dominando a vida de todos, determinando cada passo, até agora. Ele jamais pensara que sua vida mudaria tanto em tão pouco tempo. Agora, ele via a cura, enxergava-a mesmo que não pudesse mais ver, sabia de alguma forma que ela podia ajudá-lo, na verdade, ela já fazia isso, sem sequer esforçar-se. Caitlin o acessava, o tirava todas as fortalezas, via além dos muros, o enxergava de verdade, com suas dores e medos.
Ele queria recomeçar, queria poder ver que apesar de tudo, ainda podia e seria feliz e ali estava ela, a pessoa que o segurou quando seu mundo desmoronava. Ela encostou sua testa na dele e murmurou, fechando os olhos, sua mão ainda sobre o coração dele. Ele havia encontrado o que procurara por tanto tempo, sabia disso:
— Eu amo você, Tommy — ela murmurou. Não havia mais volta agora, ela não poderia desfazer aquilo; contudo, por algum motivo, já não queria mais.
...
Felicity acordou com o som de Oliver fazendo algo no andar de baixo. Abriu os olhos e levantou-se, indo até o banheiro. Quando olhou no calendário, ficou surpresa ao ver que no dia seguinte os dois completariam três meses de namoro.
Uau, o que vou o dar? Pensou, confusa. Ela teria uma grande dificuldade com aquilo. O que dar para uma pessoa que já tem praticamente tudo? Ela encolheu-se com o pensamento e respirou fundo, precisava pensar em alguma coisa, logo.
Desceu as escadas e o viu parado diante do forno, sem camisa, usando apenas uma calça de moletom azul escura. Que visão! Sorriu com o próprio pensamento e pensou:
— Bom dia — o deu um beijo nas costas, fazendo-o aproximar-se do toque, instintivamente.
— Bom dia meine liebe — ele a lançou um sorriso de canto que fez os joelhos dela amolecerem e mexeu o ovo que estava na frigideira: — Dormiu bem?
— Como um anjo — ela sorriu, afastando-se dele e pegando um pouco do suco de laranja.
— Bom dia gente — os dois ouviram Thea dizer, descendo as escadas do lof.
— Bom dia — eles responderam em uníssono.
— Nem acredito que me formo esse ano! — Ela disse, quicando no mesmo lugar, fazendo Felicity rir e Oliver a encarar confuso.
— Você está passando muito tempo com a Felicity — ele acusou, fazendo sua namorada o lançar um olhar mortal: — Mas estou muito orgulhoso de você, Speedy — a deu um beijo na testa: — Quando é a formatura?
— 26 de Novembro — ela tomou um pouco de suco e falou, pegando uma maçã: — Serei a oradora da turma! — Deu um soco no ar e os lançou um beijo: — Tchau gente, se comportem! — Pegou sua bolsa e saiu correndo para fora do loft.
— Uau! — A loira tinha uma sobrancelha arqueada e o copo estava encostando em seus lábios.
— É, às vezes ela fica assim — ele deu de ombros, como se já estivesse acostumado com o comportamento de sua irmã: — O que você irá fazer amanhã?
Ela abriu um sorriso enorme ao ouvir a pergunta e falou:
— Só irei trabalhar e ir ao shopping, por quê? — Perguntou, o abraçando pela cintura.
— É que as frutas estão acabando, queria que você comprasse mais — ele deu de ombros e ela sentiu todo seu ânimo sumir. Ele não lembrava. Seu coração agora tinha mais uma grande rachadura, que sangrava livremente, aquilo a machucou, muito. Ele é um homem atarefado, vai lembrar! Disse a si mesma, tentando diminuir aquela sensação incômoda.
— Okay, comprarei mais frutas — sussurrou, incapaz de o olhar nos olhos. Afastou-se dele e cruzou os braços, respirando fundo:
— Leve Caitlin com você — pediu, sorrindo: — Assim vocês colocam o papo em dia — ela apenas assentiu, observando enquanto ele voltava a fazer o café da manhã.
...
Felicity pegou as sacolas de dentro do porta-malas e o fechou. Ao chegar ao loft, precisou procurar pelas chaves. Respirou fundo antes de entrar. Sentia-se ridícula, queria que o fato de Oliver ter esquecido completamente o aniversário deles não a afetasse, mas com certeza, não era o caso.
Ao entrar, ouviu uma música do Ed Sheeran tocando no rádio e sorriu ao perceber que era sua canção predileta dele. Colocou as sacolas sobre a mesa e gritou:
— Amor, cheguei!
— Estou aqui em cima! — Ouviu-o gritar. Ela respirou fundo e subiu as escadas, indo em direção ao quarto. Ainda podia ouvir a música claramente, a letra a afetando. Estranhou a porta fechada e abriu-a, não pôde enxergar nada pois o quarto estava completamente escuro. Acendeu a luz e o que viu a deixou boquiaberta.
O quarto agora estava repleto de fotografias e desenhos que ela nunca notara antes. Fotografias e desenhos deles. Colados nas paredes, pendurados nos lustres, balançando com o vento que entrava pela varanda do ambiente. Ali havia uma fotografia deles em seu primeiro encontro, um desenho da clareira na qual ficaram, um desenho incrivelmente realista do pingente que ele a dera quando a pediu em namoro, uma foto dos dois dançando no baile que dera início a tudo aquilo. Todas aquelas imagens estavam ao seu redor, e ela simplesmente não conseguia acreditar. Em um quadro distante, ela viu o desenho mais belo que alguém já fizera, era um retrato de si mesma, o lençol branco caindo por seu corpo semi nu, seu seio esquerdo um pouco a mostra, os cabelos loiros caindo pelo rosto. O quadro estava em uma parede e ao lado dele, a foto da casa de campo de Oliver.
— Feliz aniversário de namoro — sentiu os braços dele ao seu redor e não soube o que dizer. Ali, naquelas fotografias, naqueles desenhos, ela pôde ver o amor que os dois viviam, que queimava em suas almas. Aquelas memórias estavam eternizadas da forma mais bela e pura que ela já havia visto. Felicity achava que não podia amá-lo mais; entretanto, agora via o quão enganada estava. O amor deles agora era mantido naquelas fotografias. Ela sentiu lágrimas de alegria escorrendo por seus olhos e o abraçou com uma força praticamente desnecessária:
—Isso é lindo! — Murmurou, o enchendo de beijos, sorrindo entre as lágrimas. — É perfeito! Você é incrível!
— Qualquer coisa por você — ele afagou os cabelos dela, sentindo o perfume que tanto amava invadir suas narinas: — Te amo — sussurrou em seu ouvido, fazendo-a sorrir ainda mais:
— Eu também te amo — respondeu, o apertando mais. — Como é que irei superar esse presente?
— É... Ainda falta uma coisa — ele a lançou um sorriso carinhoso. Pegou uma caixa de veludo preta e a entregou. A loira o encarou, confusa, e abriu. Diante de seus olhos, encontrava-se um bracelete lindíssimo de ouro branco. Ele era circular e na frente, tinha uma inscrição em alemão: Für Immer. Ao redor, vários cristais faziam-se presentes. Ele pegou o bracelete e colocou no pulso da jovem, a dando um beijo na mão.
— O que significa? — Sua voz já estava rouca pela emoção, pela felicidade completamente a absoluta que ela sentia crescer dentro de si. Ao olhá-lo, viu tingido nos olhos dele o amor, a clara admiração. Ele a olhava como ninguém jamais fizera antes. Ele encostou sua testa na dela e as duas palavras que saíram de sua boca fizeram-na perder ainda mais o ar:
— Para sempre.
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