Ensina-me a Viver
10 Cabo de Guerra
Notas iniciais
Every bend, every break
All the times I've lost my way
All the stains, all the scars
Oh my torn up paper art
Back and forth, push and pull
It's carved and cursed inside my soul
Yet, I believe this tug-o-war has taught me
How to breathe
How To Breathe — Matthew Mayfield
***
Oliver estava parado diante da mansão de seu melhor amigo pelo que pareciam ser horas. Não tinha coragem de o encarar, de falar com Tommy. O receio, um monstro azul com expressão fria, consumindo-lhe a alma. Oliver se sentia culpado por tudo que acontecera ao seu melhor amigo, se sentia responsável pelo Inferno pelo qual o outro estava passando.
Ele foi amigo de Tommy durante toda a vida, os dois cresceram juntos, eram muito unidos. Quando a mãe de Tommy morreu em um assalto, Malcolm Merlyn, pai dele, o abandonou sozinho com toda a fortuna da família e não havia retornado até então. Mas então Tommy foi morar com ele e os dois passaram a fazer tudo junto. Cursaram a mesma faculdade, viraram sócios na mesma empresa. Ele era como um irmão para Oliver, era uma das pessoas mais importantes em sua vida, não queria perder aquela amizade que construíra com o rapaz.
Sua consciência murmurava, friamente: "Ele não irá te perdoar nunca". A voz era suave, mas repleta de sarcasmo, quase dissimulada: "Ele perdeu tudo, por sua causa". Tentou expulsar aqueles pensamentos de sua mente, mas falhou. Aquele sentimento pesado cresceu em seu peito conforme ele criava coragem para tocar a campainha.
Por mais que o medo o dominasse naquele momento, não podia evitar aquela conversa por muito mais tempo. Precisava saber como Tommy estava, por mais que a resposta já fosse óbvia. Instantes depois, Heide, a governanta da casa apareceu com uma expressão séria.
— Boa tarde, senhor Queen — ela disse, sem se dar ao trabalho de forjar um sorriso educado.
— Boa tarde, Heide — ele disse, colocando as mãos nos bolsos do sobretudo. — Tommy está?
— Ele está trancado no quarto, entre, por favor — ela pediu, dando-o passagem. Ele a obedeceu e passou pelo grande jardim da mansão, ao entrar, percebeu o quão sem vida parecia o lugar e suspirou, subindo as escadas de mármore. Ele conhecia muito bem toda aquela mansão.
Parou diante da porta de madeira de mogno escuro e respirou fundo antes de bater na mesma. Fechou os olhos, respirando fundo o ar fétido e embolorado da mansão.
— Caitlin, eu já disse que não quero sair! — ouviu um berro do outro lado da porta e estremeceu.
— Sou eu, Tommy — cruzou os braços e esperou por alguma resposta. Instantes depois, Thomas Merlyn abriu a porta com uma expressão cansada e sôfrega. Seus olhos encaravam um ponto qualquer e Oliver sentiu-se ainda pior.
Até então, ele sabia de tudo. Sabia sobre a nova limitação de seu amigo, compreendia o que aquilo representava; mas ver... Aquilo tornou-se demais. A culpa ressurgiu, lentamente, em seu peito, tomando-lhe o ar. Isso é minha culpa. O pensamento, venenoso e sem fundamento, percorreu sua mente em uma velocidade avassaladora, antes que ele pudesse o conter. Seu olhar encontrou o melhor amigo e ele se sentiu afligido por aquela sensação angustiante, que não lhe deixava mais em paz.
— Posso entrar? — Pediu, incerto.
Tommy não hesitou em o oferecer passagem. O empresário adentrou no quarto e percebeu que o mesmo estava iluminado, a luz adentrava pelo cômodo, tornando-o pacífico, calmo. Oliver observou seu melhor amigo, que agora usava uma camisa social azul escura e uma calça jeans. Seus olhos estavam sem vida, vazios, não devolviam nada.
— Fico feliz que você tenha acordado — o moreno foi sincero. Oliver Queen era o único que conhecia todo o passado de Tommy, e por muitas vezes, foi o único que realmente o entendeu.
— Desculpe, o que disse? — O outro perguntou, confuso. As palavras não pareceram ter muito sentido. Ele não esperava aquele tipo de relação, ainda mais dele, que havia perdido tudo por sua causa. O loiro aproximou-se um pouco, para garantir que estava ouvindo direito.
— Disse que fico feliz que tenha acordado — Tommy tateou em volta e Oliver o guiou para local certo. Os dois se sentaram lado a lado na cama e ele questionou: — Qual é o problema?
— Eu só... — ficou em silêncio. — Achei que você ficar com raiva de mim — assumiu. Era essa a verdade. Era disso que o rapaz tinha tanto receio. Tommy era literalmente seu único amigo, seu irmão de consideração. Tinha um grande apreço pela amizade do rapaz e saber que ele tinha sido a causa de todo aquele sofrimento era o que mais o desesperava.
— Mas por que eu ficaria com raiva de você? — Tommy inquiriu, arqueando uma sobrancelha. Oliver abaixou o olhar e vasculhou sua mente procurando pela maneira de responder a pergunta. Thomas era a única pessoa com a qual ele realmente conseguia se abrir sem o medo de ser julgado, ou execrado. Infelizmente, ele não havia atingido o mesmo nível de confiança com seu psicólogo.
— Por que esse acidente aconteceu por minha causa, Tommy — murmurou, encolhendo-se. — Alguém estava tentando me atingir e usou vocês para isso — apoiou a cabeça nas mãos, sentindo-se prostrado. Sua respiração era difícil e sua cabeça doía.
— Eu detesto isso — o outro disse, irritado. Oliver o encarou, a confusão estampada em sua face e de alguma forma, Tommy percebeu e prosseguiu: — Essa sua mania de achar que tudo de ruim que acontece é sua responsabilidade — revirou os olhos, apoiando a cabeça na cabeceira da cama. — Foi a mesma coisa quando Sara faleceu — adiciono, cruzando os braços sobre o peito.
— Mas foi minha culpa Tommy... Se eu não tivesse dirigindo bêbado ela estaria viva e nada disso estaria acontecendo — ponderou, desejando que seu melhor amigo pudesse vê-lo agora. Mas no fundo, ele sabia que não faria diferença, pois por mais que Merlyn não o visse, o enxergava melhor do que quase ninguém. Felicity consegue superá-lo. Pensou, sorrindo, inconscientemente, ao lembrar dela.
— Sim, você fez merda! Quero dizer, quem é que bebe e depois vai dirigir? — Perguntou, com a voz um pouco mais alta do que antes. — Você teve responsabilidade sim pela morte da Shado, saiu impune por isso — disse, lembrando da quantidade absurda de advogados que a empresa o pagou para que ele não fosse parar na cadeia — Mas o que Slade fez está na conta dele, Ollie, não na sua! Ele tinha escolha e optou por se vingar de você — suspirou. — Nós escrevemos nossos próprios finais a partir da escolha que fazemos, Ollie. Slade escolheu isso, não você — respirou fundo: — Então não se responsabilize pelas as coisas que ele escolheu.
Pela primeira vez em anos, Oliver Queen ficou sem palavras. Seu melhor amigo havia conseguido lhe tirar as palavras. O quão certo Tommy podia estar, afinal de contas? Ele realmente havia cometido um erro, o qual matara uma pessoa. Na época, não conseguia ver a dimensão do que fizera, mas agora, anos depois, compreendia muito bem o que aquele erro o custara. Arrancara de um pai, uma filha; de um homem, sua noiva. Shado era amada por todos que a cercavam e ele tinha sido aquele que ceifou a vida dela. Se pudesse voltar no tempo, se pudesse reescrever aquilo, o faria... Mas já não podia mais, o passado continuaria ali, inalterado, determinando tudo o que aconteceria depois.
Em contrapartida, as palavras de seu amigo ainda ecoavam em sua cabeça, fazendo efeito em sua alma. De fato, Slade havia tomado as próprias decisões, havia feito as próprias escolhas. Ele podia ter tentado seguir em frente, tentado ser feliz, mas quis a vingança, quis tirar de Oliver tudo o que o mesmo mais prezava. Será mesmo que aquilo não era sua responsabilidade? Aquela situação ainda o confundia, o tirava o sono.
— Eu achei que você não iria me perdoar — admitiu, brincando com um botão de seu sobretudo. — Eu entenderia se o fizesse — foi sincero. Sabia o quão difícil devia estar sendo para ele. Os dois haviam passado pelo mesmo sofrimento, haviam perdido pessoas que lhes eram sagradas, extremamente queridas.
Ele havia perdido tudo. Sara era seu mundo e ele a perdeu, mas de alguma forma, continuava vivo. Ele sabia que podia evoluir com tudo o que acontecera. Sabia que na verdade a vida havia sido muito generosa, com ele e com Tommy; pois no fundo os dois haviam recebido uma segunda chance. Uma chance de fazer as coisas certo, de não cometer o mesmo erro. Por que será? A dúvida percorria sua mente e ele tentava encontrar a resposta para mesma.
Por que estou vivo e ela não? Por que Tommy e sobreviveu e Laurel não? Lembrava que seu pai o dizia que a morte apenas nos leva quando já havíamos aprendido tudo o que precisávamos, vivido tudo o que era necessário vivermos. Pelo visto ainda não aprendi tudo, pai. Revirou os olhos, suspirando. No fundo, ele sabia que havia perdido o propósito da própria vida, mas que não fazia ideia de onde poderia reencontrá-lo.
— Não há o que perdoar, Ollie — Tommy foi sincero. Oliver era seu melhor amigo, sempre seria independente de qualquer coisa. Os dois jamais se separaram, mesmo diante das mais fortes tempestades continuaram juntos, unidos tentando sobreviver. Fora assim quando Sara faleceu. Merlyn realmente chegou a acreditar que havia perdido o melhor amigo para sempre, que o mesmo jamais seria feliz. Manteve-se próximo, tomando conta dele e tentando ao máximo impedir que Oliver se afogasse ainda mais naquele mar de autodestruição. — Você é meu melhor amigo e eu sei que você não tem culpa de nada disso — deu de ombros, não sabendo direito como expressar o resto.
O outro ficou em silêncio por alguns instantes e ajeitou-se na cama. Precisava o perguntar sobre Laurel, sabia que Tommy apenas se abriria com ele naquele momento:
— Você está bem? — Que pergunta estúpida, Queen! Óbvio que ele não está nada bem! Sua consciência praticamente berrou, o olhando com uma cara feia. — Quero dizer...
Tommy o interrompeu, revirando os olhos:
— Não, Ollie — sussurrou, os olhos perdidos e vazios: — Eu não estou bem — foi sincero.
Tommy sentia-se em um loop eterno de desespero e tristeza. A dor continuava a reinar, ardendo em seu peito, queimando-lhe a alma. Já não sabia mais o que fazer, sentia-se fatigado. As feridas ainda estavam abertas, sangrando, seu coração ainda pulsava, apesar de tudo. Riu, sem humor, e disse:
— Nós dois estamos sofrendo do mesmo mal — lamentou, com os marejando. — Já não sei mais o que fazer — comentou, afundando o corpo na cama. — Caitlin acha que eu deveria sair, me enturmar com as pessoas — comentou.
— A amiga da Felicity?
— Ela mesma... Ela está lá quando Laurel — ele fechou os olhos e parou de falar. Oliver assentiu e perguntou:
— Mas o que ela tem a ver com isso?
— Ela veio aqui hoje mais cedo, me ajudou — revirou-se na cama e disse: — É uma excelente garota — pigarreou e molhou os lábios, subitamente secos.
— Imagino que seja — o empresário disse, sentindo-se um pouco desconfiado. — E creio que ela tenha razão, Tommy... Sei que não tenho nenhuma moral para falar mas você não pode se prender aqui dentro para sempre.
— Você definitivamente não tem moral para isso — Merlyn lançou para a parede um olhar enviesado e estalou a língua. — Mas eu não quero sair.
— Faça um esforço... Laurel não iria querer te ver assim — disse, sabendo que usá-la como argumento daria a batalha como vencida. Tommy quase sempre cedia quando se tratava dela.
— Mas ela não está aqui! — ele disse amargurado, a voz claramente mais alta.
— Então faça isso por mim, pela Thea ou até mesmo pela Cailtin — tentou. Ao ouvir o nome de Caitlin, o mais novo relaxou visivelmente. — Vamos visitar Thea, ela está com saudades — pediu, tentando incentivá-lo.
— Tá — Tommy revirou os olhos, dando-se por vencido.
...
John Diggle sorriu ao receber Oliver em seu consultório pela primeira vez desde que o rapaz acordou do coma.
— É bom te ver Oliver — disse, dando passagem para o outro, que andou pelo o consultório, parecendo um tanto quanto ansioso. Ele sentou na poltrona e brincou com o tecido da blusa que usava. Os olhos azuis cruzaram com os castanhos e o mais novo disse, receoso:
— Eu não sei o que fazer — lançou as palavras no ar, sentindo o peso sair de seu corpo. — Eu literalmente não sei mais o que fazer — sentia que iria enlouquecer a qualquer instante.
Parte de si o dizia para afastar todos aqueles que amava. Para os tirar de sua vida antes que fosse tarde demais. A outra parte o dizia para enfrentar seus medos de frente, para não fugir como ele sempre fizera desde que Sara morreu. E naquele cabo de guerra ele não sabia qual dos lados tinha mais força, mais poder.
— O que tanto lhe aflige? — O negro questionou o observando. Notou que Oliver realmente parecia estar em um conflito interno entre suas forças, seus polos.
— O acidente que sofri foi intencional, alguém cortou a mangueira do carro de Laurel e eu sei que há alguém lá fora tentando me destruir — explicou, sem saber o que mais dizer: — Os policiais sequer têm certeza de que foi Slade mesmo o responsável por isso e para ser sincero, nem eu tenho — bufou, irritado.
— Isso não respondeu à pergunta Oliver — John disse, incisivo. Meu Deus, esse cara é insistente! O mais novo pensou, irritado.
— Eu tenho medo do que acontecerá às pessoas se eu me mantiver próximo à elas — murmurou, sem o olhar. — A pessoa que quer me ver morto sabe que eles são minha fraqueza e eu sei que ele pode usar isso contra mim — lamentou.
Era isso. Aquelas pessoas eram sua família, eram seus amigos. Subitamente, a imagem de uma bela loira com óculos de grau e seu característico rabo de cavalo atravessou sua mente e o rapaz estranhou. Felicity Smoak. Sentiu o medo correr-lhe a alma e respirou fundo, tentando ignorar o pensamento.
— Você pensou em alguém — Diggle garantiu, sorrindo. Conhecia muito bem cada um de seus pacientes, suas manias, seus tiques. Oliver tinha muitos deles.
O mais novo o encarou, espantado e assumiu:
— Felicity — deu de ombros, tentando convencer mais a si mesmo do que a Diggle.
— O que tem ela? — Ele questionou, o tom de voz normal, sem possuir nada de acusatório no mesmo.
— Nada — tentou encerrar o assunto. — Estou com receio por Tommy e Thea — mudou de assunto.
— Espere um pouco — o psicólogo pediu, delicadamente: — Você estava falando sobre Felicity, prossiga — incentivou.
Merda!
— Ela estava no carro conosco quando o acidente aconteceu — explicou, tentando ao máximo enrolá-lo, mas sabia que não conseguiria fugir das perguntas por muito mais tempo: — Tenho medo de que a envolvam nessa história também.
— Você se importa com ela — o outro falou, não havia nenhuma dúvida em sua voz.
— Sim, me importo — falou, sem entender muito bem aonde seu psicólogo queria chegar.
— Já parou para se perguntar o porquê disso?
— Porque ela é uma amiga — disse, tentando convencer mais a si mesmo do que ao outro.
— Eu acho que há mais do que isso, como disse você tem falado muito sobre ela — Diggle comentou com um sorriso vitorioso nos lábios: — Mas você precisa estar pronto para admitir isso.
— Admitir o quê, Diggle? — O empresário perguntou levemente irritado.
— Que você tem sentimentos por ela.
— Eu não tenho — Oliver revirou os olhos, mas uma pequena fração de sua consciência o lançou um olhar duvidoso. Ele se encolheu prosseguiu: — Se eu deixar alguém entrar na minha vida, quem quer que seja, essa pessoa estará em risco... Essa pessoa irá me deixar vulnerável
— Eu acho que você está invertendo as coisas, Oliver — seu olhar era sério, intenso: — Você acha que se deixar alguém entrar isso te tornará mais fraco e vulnerável mas isso não é verdade... Eu acho que essas pessoas são as que te dão força, elas te dão algo pelo que viver... Pelo que lutar. Há uma diferença entre lugar por algo e lutar por alguém, um dia você entenderá isso.
...
Caitlin saltou do ônibus com sua bolsa em mão. Encarou a grande mansão e tocou a campainha, instantes depois Heide surgiu com malas nas mãos e um olhar devastado.
— Onde está indo? — Perguntou, arqueando uma sobrancelha. A governanta respondeu:
— Não tenho especialidade em lidar com deficientes senhorita, ele precisa de ajuda especial — disse, parecendo realmente triste. — Precisa de ajuda para descer e subir escadas, para se vestir ou fazer coisas banais e eu tenho uma mansão inteira para cuidar — ela disse e lágrimas caíram de seus olhos castanhos. — Me desculpa — ela disse se ajeitando.
— Não tem problema, eu entendo — a lançou um sorriso compassivo. Devia ser exaustivo lidar com aquela mansão de vinte e nove cômodos e ter que ajudar Tommy com suas tarefas diárias.
— Fique as chaves, ele irá precisar de todo apoio possível agora — a senhora a lançou um sorriso triste e disse: — Verei se conheço alguém para cuidar da casa, com licença — Heide pediu, entregando-a as chaves e retirando-se com suas malas.
Caitlin respirou fundo, entrou e fechou o grande portão de ferro atrás de si, trancando-o. Olhou para o céu e percebeu que logo uma tempestade iria cair sobre a cidade. A mansão era uma bela vista para os olhos. Na frente, havia um grande jardim divido ao meio por um caminho de paralelepípedos, a mansão era cinza e tinha várias janelas na frente. Atravessou o corredor e adentrou na mansão.
Ao entrar, viu Tommy sentado no sofá encolhido em uma bola.
— Tommy?
— Caitlin — ele disse, sabendo imediatamente que era ela. Não pela voz e sim pelo perfume inconfundível. — Por que está aqui? Como veio? — ele questionou, fungando.
— Por que quero ajudar — ela murmurou, sentando-se ao lado dele. — Não adianta tentar me expulsar, eu não irei embora. E eu vim de ônibus — deu de ombros.
— Você percebe o quão estranho isso é, certo? Nem me conhece mas aqui está você, tentando me ajudar...
— Eu não acho que preciso conhecer uma pessoa para ajudá-la — foi sincera. Não se tratava de o conhecer ou não, tratava-se apenas de acreditar que ele, como todos, merecia uma segunda chance de ser feliz.
Os dois ouviram o som dos trovões e Caitlin mordeu o lábio inferior, pensando em como faria para voltar para casa. Subitamente, arrependeu-se de ter vendido seu carro. Ela sentou ao lado dele e perguntou:
— Melhorou alguma coisa?
O rapaz apenas negou e falou:
— Não sei absolutamente nada sobre você — se ajeitou no sofá e olhou para um ponto fixo, torcendo para ser onde ela estava. — Me conte algo — pediu.
— Er, bem... — O que eu posso contar? Perguntou-se. — Tenho vinte e três anos, me formei em Biologia em Yale, trabalho na S.T.A.R Labs em pesquisa com células, sou amiga da Felicity... Minha vida não é muito interessante — deu de ombros.
— Me fale sobre o cara por quem você está apaixonada — pediu. Ela sorriu fraco e apoiou as mãos sobre as pernas.
— O nome dele é Barry Allen — sussurrou. — Ele namora uma moça chamada Iris West — explicou. Pela primeira vez, pensar nele não doeu, não machucou sua alma. — Eu não sei direito quando foi que me apaixonei por ele mas sei que foi rápido, aquela típica sensação da primeira paixão, sabe?
— Sei bem como é — ele sorriu e aquele sorriso não parecia forjado como todos os outros. — Mas então como você sabe que é amor e não paixão?
A pergunta a pegou de surpresa. Nem ela sabia direito a resposta para a mesma. Como ela sabia se tudo o que afirmava ser amor não passava de uma mera paixão? Ela foi apaixonada por ele por apenas dois meses, não era exatamente muito tempo.
— Eu não sei — admitiu, soltando o ar. — Na verdade eu nunca havia pensado nisso.
— Eu entendo você, é muito fácil confundir as coisas — ele deu de ombros e ficou em silêncio.
Caitlin o observou por alguns instantes, decorando os traços do rosto dele de perfil. Os cabelos negros bagunçados e agora um pouco mais compridos, a linha do maxilar, a barba por fazer, os olhos que agora já não podiam mais ver, os lábios fechados. Balançou a cabeça e andou em direção ao piano de cauda que ele tinha próximo da ampla janela. Abriu a tampa cuidadosamente e pensou no que desejava tocar.
A mansão, que até então estava em silêncio, foi tomada pelo som agudo e carinhoso das notas. A melodia delicada formando-se na ponta de seus dedos. Ele prestou atenção, mas não conhecia a canção original. Os dedos dela moviam-se com proeza, tocando cada tecla como se contasse uma história antiga. Tommy apreciou cada nota como se jamais tivesse ouvido alguém tocar antes, cada singelo som unindo-se em uma harmonia doce e calma. Ela fechou os olhos, deliciando-se com os sonos que agora reverberavam por cada cômodo, cada parede, preenchendo aquela mansão com vida, com felicidade.
Tommy suspirou conforma música tomava ainda mais consistência, podia imaginá-la com perfeição tocando e sorriu. Ela era a única pessoa que ele permitiu que entrasse em sua vida naquele instante, e a cada dia que passava, ficava mais grato por isso. Podia não conhecê-la muito bem, mas Caitlin o fazia esquecer a dor, o fazia focar-se naqueles pequenos momentos e tirar Laurel de sua mente nem que fossem por alguns minutos.
O rapaz desejou poder vê-la, poder saber o que ela estava tocando mas de alguma forma louca aquilo o bastava. Os dedos dela se moviam enquanto sua mente trabalhava fervorosamente. Novamente, seus pensamentos não foram povoados por Barry e ela começou a questionar seus próprios sentimentos. Muitos falavam sobre a diferença sobre amar uma pessoa e simplesmente sentir paixão por ela.
Diziam que o amor era mais do que apenas o coração acelerado, ou as borboletas no estômago. Uns diziam que o mesmo uma bênção, outros, que era uma maldição. Ela sabia da ambiguidade daquele sentimento. O amor podia salvar almas e destruí-las com a mesma facilidade. O amor para ela era o que transpunha as leis mortais, era algo que se forjado em sua alma, nada seria capaz de apagar.
Podia parecer uma romântica incurável, mas ainda gostava de acreditar que as pessoas podiam amar uma única pessoa por toda a vida, que alguns amores foram feitos para acontecerem. Sorriu e parou de tocar, pedindo a Tommy:
— Venha aqui — levantou-se o guiou em direção ao piano. Ele sentou-se e ela ficou ao lado dele. Colocou sua mão sobre a dele e posicionou- no lugar certo.
— É um si — ele murmurou, reconhecendo a nota. — E essa é um lá — dedilhou outra tecla, um sorriso formando-se em seus lábios. Inconscientemente, ela sorriu.
Ele lembrava com perfeição onde cada nota encontrava-se, jamais esqueceria. Tocou e o som suave de um mi ressoou pela casa, ele apoiou outro dedo sobre a tecla e moveu ambas as mãos juntas, formando uma melodia que ela não conhecia mas que era belíssima.
Ele errou uma nota mas não quis parar, tateou, tocando como se assim pudesse expressar sua mais profunda dor, sua maior mágoa. Quis recomeçar, como nunca quisera antes. Ele tocou com delicadeza, seus dedos movendo-se com maestria, os dedos longos tocando com simplicidade e calma. Caitlin tocou outra tecla juntamente ao rapaz sorriu, encantada ao notar que o som ficara bonito, melódico e profundo. Ele sorriu ao perceber que ela sabia exatamente como compor a melodia e permitiu que ela tocasse, os dedos dela moviam-se lentamente por sobre as teclas.
A casa, que outrora parecia partilhar da dor de seu dono, foi preenchida dos sons, tomada pela luz dos raios que agora brilhavam, imperando no céu, disputando atenção com a Lua Cheia que reluzia em sua eterna beleza. Os pés dela moviam-se no pedal nos momentos certos e ele tocava, novamente sozinho, aquela que era a canção que jamais conseguira terminar... Até aquele dia.
Caitlin apenas o observava em silêncio, um sorriso sendo forjado em seu lábio conforme seu coração acelerava em seu peito. Era uma sensação diferente das que conhecera antes, uma mistura estranha de calma e agitação. Era como se em seu peito surgisse um mar revolto, mas cujas ondas batiam na enseada com calma, sem violência. Tommy sorriu e fechou os olhos, pela primeira vez, a escuridão lhe era bem vinda.
Ela sentiu seu estômago roncar e corou ao perceber que ele notara. Ele parou de tocar e perguntou, com um vinco formando-se em sua testa:
— Você está com fome?
— Sim — respondeu apenas.
— Você pode comer aqui — ele mais pediu do que afirmou. Não queria que ela fosse embora, não ainda.
— Eu não quero incomodar — ajeitou seus cabelos e suspirou.
— Não é incômodo algum, sinta-se à vontade! — Ele garantiu, insistindo.
— Tudo bem — ela se deu por vencida após ver a expressão dele. — Farei algo para comermos.
— Eu posso tentar ajudar — ofereceu. Não havia usado facas desde que ficara cego, sabia que era arriscado mas não queria que ela fizesse tudo sozinha.
— Não quero que se machuque — ela comentou, abaixando o olhar: — Pode ficar despreocupado — garantiu.
Tommy suspirou e tateou em volta, voltando para o sofá. Ouviu o som da chuva começando a cair e apenas apreciou a mesma.
Caitlin abriu a geladeira e arregalou os olhos ao ver a quantidade de coisas que o rapaz tinha ali. Temperou o frango, o fritou na frigideira e desfiou, colocando em uma tigela de vidro. Bateu no liquidificar o creme de leite, o milho, o requeijão e água.
Refogou o creme do liquidificador com o frango desfiado, colocou de volta na tigela, cobriu com mussarela e jogou batata palha por cima. Deixou no forno por cerca de quinze minutos enquanto preparava um arroz e uma salada. Era uma comida simples, provavelmente não atenderia os gostos do rapaz, mas era o melhor que ela podia fazer.
Depois de pronto, colocou os pratos na grande mesa com vinte lugares e guiou Tommy até a mesma.
— Uau, isso está com um cheiro ótimo — ele elogiou. Ela corou com o comentário e colocou a comida no prato do rapaz. Não soube direito se o dava uma colher ou o garfo e a faca e se surpreendeu ao vê-lo tateando, encontrando o que queria.
— Está difícil me acostumar a isso — ele murmurou, parecendo triste. — Heide foi embora, ela não estava conseguindo mais — seu olhar era devastador e ela sentiu uma súbita vontade de o abraçar.
— Você tem a mim, okay? Vou ajudar você — prometeu, dando-lhe a mão. Ele assentiu para o nada e colocou a primeira colherada de comida na boca.
— Nossa, isso está muito bom! — Ele disse, comendo mais um pouco. — O que é?
— Fricassé de frango — sorriu. Não esperava que ele fosse gostar.
— Você cozinha muito bem — elogiou. — A Laurel era uma tragédia na cozinha, tudo o que ela fizesse não era comestível — ele disse, fazendo uma careta ao lembrar daquilo. Caitlin riu do comentário dele e disse:
— Minha mãe me ensinou a cozinhar.
— Ela fez um excelente trabalho! — Ele continuou a comer sem parecer tem nenhuma dificuldade para fazê-lo e ela sorriu. Ela começou a comer e logo os dois haviam acabado seus pratos.
Ela olhou o relógio e arregalou os olhos ao ver que já eram nove horas da noite, precisava ir embora.
— Tenho que ir embora — sua voz soou triste até para ela mesma. Franziu o cenho e o olhou para o rapaz, que tinha o olhar suave mas estranho. Ouviram o som da chuva que ainda caia, um relâmpago brilhou no céu e instantes depois, um trovão alto tirou o silêncio do ambiente.
— Mas está relampeando — ele disse, quase como se acusasse. — Você não acha mesmo que eu vou te deixar sair com essa tempestade, né?
— Eu estava achando — ela admitiu, mordendo o lábio inferior.
— Então achou errado — ele bufou, parecendo contrariado, e falou: — A casa tem treze quartos, basta escolher um de sua preferência.
— Quer que eu fique aqui?
— Eu já disse que você não vai sair com essa tempestade! — Ele cruzou os braços. Então você é mandão? Ela pensou, desgostosa.
— Só está relampeando um pouco, não é nada demais — deu de ombros, pegando suas coisas.
— Deixe de ser teimosa, Caitlin! — Ele aumentou o tom de voz: — Não quero que nada te aconteça portanto você fica — novamente, não era um pedido. — Por favor — apesar de ele estar olhando para o local errado, ela simplesmente não conseguiu dizer não.
— Tá! Mas você tem que parar de ser mandão e querer decidir por mim— falou, birrenta. Ele deu de ombros, como se não ligasse.
— Não vai acontecer — ele disse e por alguma razão, ela não duvidou nem por um segundo do quão sério ele falava.
Ela pegou a mão dele, algo que estava tornando-se um hábito e o guiou pelas escadas. Quando subiram ela optou por ficar no quarto ao lado do dele, caso ele precisasse de algo.
Ela ainda segurava a mão dele o encarando, não queria sair de perto:
— Boa noite — ela murmurou. Ele molhou o lábio, mordeu-o e ele respondeu:
— Boa noite.
Ela virou-se e soltou sua mão da dele...
...
Felicity havia chegado a conclusão de que a ligação que recebera não havia passado de um trote de mal gosto. Só pode ser isso! Pensou, tentando esquecer o assunto. Ela tinha que admitir, as palavras daquela criança simplesmente não saiam de sua cabeça, e na hora, ela quis se esconder embaixo dos cobertos. Mas depois, conforme sua racionalidade resolveu dar o ar da graça, ela percebeu que era apenas só um trote.
Ela cantarolava "Every Little Thing She Does Is Magic" quando Oliver adentrou em sua sala. Um sorriso instintivamente formou-se em seu lábio conforme ele a analisava e subitamente as palavras de Diggle o vieram à cabeça. "Você tem sentimentos por ela".
Aquela sessão com John havia sido a mais produtiva desde que ele começara. Sua vida não havia sido fácil, definitivamente. Perder seus pais, a mulher que amava... Tudo aquilo havia o mudado.
Havia sido torcido e quebrado pela vida, havia sido machucado de mais formas que poderia prever aos seus quinze anos de idade. Perdera seu caminho mais vezes do que pudera contar mas sempre o reencontrara, entretanto, nunca, jamais, o achara sozinho. "Essas pessoas são as que tão razão para viver". Talvez aquela fosse a resposta afinal de contas, talvez ele ainda vivesse por aquelas pessoas, por todos os que jamais saíram do seu lado.
Como Tommy o dissera, nós somos responsáveis por nossos finais, escrevemos nossa própria história. Qual era o final que ele queria dar a si mesmo?
A pergunta o atingiu de uma maneira inesperada. Ele não sabia direito o que responder. Meu final apenas depende de mim mesmo. Mas qual era o final que ele tanto desejava? Não sabia se desejava mais uma chance, mais uma oportunidade ou se preferia não tentar. Novamente, aquele cabo de guerra começou em sua mente enquanto uma Felicity confusa o encarava, sem saber o que estava havendo com o outro.
Sua batalha interna era intensa, forças igualmente armadas formando-se em sua mente conforme ele a olhava. O azul do Oceano encarando o azul do mar. Um refletindo ao outro, as dores aplacadas apenas por um olhar. Pela primeira vez desde que perdera Sara, soube como respirar. A luz brilhava sobre os cabelos loiros de Felicity, seus olhos azuis brilhando com uma intensidade quase anormal conforme ele a analisava intensamente. O ar adentrou em seus pulmões sem nenhuma dificuldade, enchendo cada parte de seu corpo semi morto de vida, cada partícula, molécula, sendo preenchida por uma sensação que há muito ele desconhecia.
Sentiu seu coração acelerar, regojizando-se com aquela vida, com aquele sentimento que agora pulsava em seu corpo, fazendo-o sentir-se tão vivo quanto jamais sentira-se antes. Seu peito ardia, queimando em vida, parecia quase ter vontade própria. Parecia gritar-lhe, exigindo um contato maior com aquela que era a causa de toda aquela sensação. De repente, o cabo de guerra cessou-se, as armas baixaram-se, e sem que ele pensasse, disse:
— Você gostaria de sair comigo?
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