Ensina-me a Viver
8 Anjos de Concreto
Notas iniciais

So tell me when you hear my heart stop
You're the only one that knows
Tell me when you hear my silence
There's a possibility I wouldn't know
***
Felicity encarou seu reflexo no espelho, seu rosto tinha cortes na lateral direita, seus cabelos estavam secos e ela aparentava cansaço. Respirou fundo, e abraçou o próprio corpo, tentando manter a compostura. Ele está em coma. As palavras eram definitivas. Os médicos não sabiam quando ele iria acordar, se ele iria acordar. Ele precisa! Teimou. Não iria aceitar que não acordasse.
Secou uma lágrima tímida que caiu por seu rosto e contou até dez. Abriu a bolsa e pegou o celular de John, naquele momento ele era a única pessoa com a qual ela realmente queria conversar.
— John?
— Bom dia, Felicity — o psicólogo disse do outro lado da linha: — Fiquei sabendo sobre o que aconteceu com Oliver — ele prosseguiu, suspirando.
— É... — as palavras estavam presas em sua garganta, sua pele ardia e seus lábios estavam trêmulos. — Preciso muito falar com você — murmurou, fechando os olhos.
— Tudo bem, pode vir aqui hoje às dezenove horas, não terei nenhum paciente nesse horário — o psicólogo murmurou e ela pôde notar a preocupação em sua voz.
— Obrigada — disse, e sem esperar por uma resposta, desligou a ligação.
Sentou-se na cama e encarou a parede por alguns instantes. Aquela sensação percorreu seu corpo, formigando pelas extremidades, consumindo-a. Era mórbida, gélida. Enveredou por entre suas veias, envenenando seu coração, fazendo-o bater sôfrego. Estremeceu e se encolheu, tentando diminuir aquela dor que era quente e intensa. Pensou em Tommy, no que ele estava passando, e aquele sentimento tornou-se mais intenso. Um soluço escapou por entre seus lábios e ela sentiu as lágrimas quentes caindo por seu rosto. Ouviu o som de alguém abrindo a porta mas sequer importou-se em olhar quem era.
Caitlin sentiu seu coração rachar ao ver sua melhor amiga encolhida na cama de hospital, abraçada a si mesma, com lágrimas escorrendo por seu belo rosto. Sentou ao lado dela, passou o braço por sua cintura e apenas permitiu que ela chorasse.
Felicity sentia a dor irradiar por seu peito, enquanto as lágrimas quentes caiam sem freio por seu rosto, molhando sua roupa. Caitlin afagava seus cabelos com carinho, mas nada parecia adiantar. A loira jamais havia se sentido tão frágil quanto naquele dia, como se todo o mundo tivesse simplesmente desabando sobre seus ombros. Não era apenas a tristeza por todas aquelas pessoas que tiveram suas vidas dilaceradas, era raiva. Uma raiva crescente, que parecia invadir sua mente, seu coração. Quem tem coragem de fazer algo assim? Como uma pessoa pode simplesmente destruir a vida de outras tantas a troco de quê? Vingança?
Ela sabia que nada poderia reparar o que acontecera naquela noite. Sabia que ninguém seria capaz de fazer Tommy voltar a enxergar, que ninguém poderia curar as feridas de Laurel ou fazer Oliver acordar. Era isso o que mais a enraivecia, o que mais a desgastava. Todos eles eram jovens, tinham uma vida inteira pela frente, não mereciam nada do que lhes acontecera.
Lentamente, todos aqueles sentimentos tornaram-se menos intensos, excruciantes. Seu choro repleto de soluços acalmou-se e ela fungou, apoiando a cabeça no ombro da melhor amiga. Agradeceu por Caitlin ter entrado em sua vida, pois ela era a melhor amiga que Felicity poderia ter pedido.
— Está se sentindo melhor? — A morena perguntou preocupada. A técnica assentiu, respirando fundo e secando seu rosto, recompondo-se. — Sua mãe ligou... Ela estava histérica — comentou, os olhos castanhos parecendo cuidadosos.
— O que você a disse?
— Eu disse que você estava bem, só com algumas escoriações — respondeu. — Mas ela disse que viria te visitar assim que pudesse.
Excelente, agora terei que lidar com uma super protetora-histérica-quase tendo um ataque-mãe. Pensou, com ironia, mas estava grata por saber que ela viria. Donna Smoak era atrapalhada, louca, teimosa, mas era uma mulher e uma mãe incrível, que conseguiu a criar sem a presença de uma figura masculina.
Ambas ouviram o som de alguém batendo na porta e Caitlin desprendeu-se de Felicity para ir atender. Um sorriso luminoso preencheu seu belo rosto ao ver Barry Allen bem diante dela. Ele usava uma camisa azul, uma blusa de frio cinza e uma calça jeans.
— Oi, Cai — ele murmurou a lançando um sorriso carinho. A cumprimentou com um beijo na bochecha e passou por ela, voltando-se para Felicity, que agora tinha um sorriso animado no rosto. — E minha loirinha predileta, como está?
— Estou bem — ela respondeu, o abraçando com força. — Senti sua falta — foi sincera. Ele afastou-se dela e disse, suspirando.
— Eu também! Desculpe não ter vindo antes, estava preso em Starling City — pediu, segurando a mão dela.
— Não tem problema, você veio é isso o que importa — disse, sorrindo. — Vai ficar aqui por quanto tempo?
— Agora não volto mais para Starling! Iris veio comigo e é só isso o que importa — o olhar da loira voltou-se para Caitlin por alguns segundos até que e ela o ofereceu um sorriso carinhoso.
— Fico muito feliz por você! — Foi sincera.
— Lissy, eu vou dar uma volta, já volto — Caitlin murmurou encarando a melhor amiga, que apenas assentiu sem contestar a outra. Sabia que ouvi-lo falar de Iris apenas a faria mal e não queria ver a melhor amiga sofrendo.
A morena levantou-se e saiu do quarto sem dizer mais nada, precisava de um pouco de espaço. Encolheu-se e caminhou pelos corredores, tentando colocar seus pensamentos em ordem.
Um homem estava parado do lado de fora de seu quarto, apoiado na parede. Aproximou-se, preocupada, e questionou:
— Você está bem? — Perguntou, indo para frente dele. Puta merda! Era Tommy. Os olhos dele olhavam para outra direção, continuavam azuis mais haviam perdido seu brilho. Ele respirou fundo, tentando reconhecer a voz, mas falhou.
— Estou perdido — ele murmurou, ainda apoiado a parede. Caitlin sentiu o peito comprimir diante daquela sentença e aproximou-se um pouco dele, hesitando. — Eu conheço sua voz de algum lugar... Já nos conhecemos? — Ele questionou quando sentiu o toque da sua mão na dele. Caitlin suspirou e inalou o odor natural dele.
— Sim, sou a Caitlin Snow — sussurrou, o guiando para um sofá. — Queria que tivéssemos nos encontrado sob circunstâncias melhores — sussurrou, ajudando-o a sentar. Ele deu uma risada amarga e disse:
— Somos dois — não precisava vê-la para saber como a jovem se parecia. Ela era uma mulher bonita, parecia ser compassiva e carinhosa também. Ele suspirou, voltando-se para o lado oposto em que ela estava sentada — Sua amiga está bem? — Perguntou, preocupado.
— Sim, ela está — Caitlin respondeu, apertando a mão dele, o que permitiu que o rapaz se voltasse para o lado certo. — Como sua noiva está? — Perguntou ao lembrar do nome de Laurel Lance.
— O estado dela é grave — ele respondeu apenas. Não queria falar sobre aquilo. — Não sei onde é meu quarto — a voz dele saiu trêmula. A morena suspirou e falou:
— Eu irei descobrir em que quarto você está, não se preocupe — apertou o ombro dele, tentando reconfortá-lo. — Já volto.
Tommy apoiou a cabeça na parede e respirou fundo. Sentia-se vazio, machucado além da conta. Sua vida havia tornando-se um Inferno, sentia como se a qualquer instante tudo pudesse piorar. Instantes depois, ouviu o som de saltos e reconheceu o perfume de lírios de Caitlin Snow. O som do salto contra o mármore tornou-se próprio.
— Você está no quarto 203, venha — pegou a mão dele novamente e o ajudou a ir para a direção.
— Será que algum dia conseguirei ter uma vida minimamente normal? — Perguntou-se depois de ambos chegarem ao local certo. Ela o ajudou a sentar e ficou de frente para o rapaz.
— Claro que vai, Tommy! Nosso cérebro é uma máquina incrível, você pode ter perdido sua visão mas seus outros sentidos irão tentar compensar isso, talvez você fique que nem o Matthew Murdock — disse, fazendo-o rir. Pela primeira vez, esqueceu de seus problemas. — Você vai conseguir superar isso — ela disse, agora séria, segurando a mão dele.
— Por que você está aqui? — O rapaz perguntou de repente. Ela não o conhecia direito, não sabia nada sobre ele, mas ainda assim, estava ali, tentando o ajudar, tentando fazê-lo esquecer suas próprias tragédias. — Você não me conhece, mas ainda assim, está aqui, me ajudando — prosseguiu ao perceber que ela ficara em silêncio.
— Por que você é uma boa pessoa — disse, em uma tentativa de amenizar o clima claramente tenso. — Uma pessoa que claramente está passando por uma fase difícil e seria muita frieza se eu lhe negasse ajuda — disse, apertando a mão dele.
— Não é pena? — Perguntou, horrorizado com a possibilidade. A última coisa que queria era que sentissem pena dele.
— Não, Tommy — disse, sinceramente. — É empatia — murmurou.
— Você é curiosa — Tommy comentou, estalando a língua. — É diferente das outras garotas.
Ela riu e falou, o ajeitando na cama para que ele ficasse confortável:
— Obrigado, você é amigo de Oliver? — Perguntou, curiosa. Tommy assentiu e perguntou:
— Como ele está?
— Er... Oliver está... Em coma — despejou as palavras de uma só vez e esperou pela reação dele. Seus belos olhos azuis aparentavam surpresa, preocupação e algo que parecia ser medo. — Ele irá ficar bem — disse, tentando mantê-lo positivo. Não queria que ele se preocupasse com aquelas coisas.
— Um investigar veio até aqui — ela arregalou os olhos e e suspirou de alívio ao lembrar que ele não podia vê-la. — Eu não quis o receber e ele disse que procuraria por Felicity — pausou. — O que significa que você provavelmente sabe o que aconteceu.
— Certo — alongou a palavra, respirando fundo.
— Quero saber o que houve — ele praticamente exigiu.
Merda! Pensou. Ela não podia mentir para o rapaz, sequer o conhecia e não queria quebrar aquela confiança que ele parecia estar ganhando nela. Só me resta o contar.
— Ele disse que o carro foi adulterado e que cortaram a mangueira — disse, coçando o braço, incomodada. — Alguém estava tentando matar Oliver ou arrancar-lhe tudo o que ele mais presa — completou, com a voz sombria.
Tommy processou as palavras, permitindo que as mesmas fizessem efeito em sua mente. Ele sabia muito bem quem podia ser aquele que queria destruir seu amigo. Slade Wilson, o mesmo homem responsável pela morte de Sara. Aquilo tudo era uma loucura. Ele não sabia como se sentir. Desde que ela morreu, a vida de seu amigo tem sido uma provação e agora todos partilhavam do mesmo problema por culpa de Slade. Sentiu aquele desespero frio o dominar e falou, olhando para um ponto qualquer:
— Queria ir até minha noiva — pediu, sabendo que apenas ela poderia o acalmar naquele momento.
Ela assentiu e sorriu, por mais que soubesse que ele não podia enxergá-la.
— Irei descobrir em que quarto ela está — falou. Saiu do quarto e voltou alguns minutos depois, com dois crachás que permitiam o acesso à CTI do hospital.
Ela o guiou pelos corredores até que ambos chegaram ao quarto de Laurel Lance. Ela o ajudou a sentar na cama e então pôde observar a bela jovem adormecida na cama. Uau, ela é linda! Pensou, suspirando.
— Obrigado — ele murmurou, acariciando a bochecha machucada de Laurel.
— Não precisa agradecer — ela garantiu. — Irei deixar você com ela, estou lá fora, quando quiser ir basta me chamar — ele assentiu conforme ela se retirava do quarto.
Tommy abraçou-se da melhor forma que pôde à jovem, mantendo-a perto. Sentiu o perfume dela e então todo seu mundo em ruínas pareceu um pouco menos despedaçado. Respirou, relembrando de cada vez que tocara aquele corpo, de cada que a amara como se não houvesse amanhã, e apesar de não conseguir enxergá-la, lembrava de cada traço do seu corpo. Beijou os cabelos dela e inspirou, deliciando-se com o perfume.
Subitamente, as máquinas começaram a fazer um som estranho. Um único "bipe" constante e infinito. Os sons eram altos e ele sentia-se confuso. Percebeu alguém a tirando de cima dela e logo reconheceu o perfume de Caitlin. Ouviu uma voz masculina dizendo:
— Ela está tendo uma parada cardíaca! Preciso do desfibrilador — a morena que o segurava com força murmurou algo em seu ouvido mas ele não conseguia processar as informações. — Afastem-se! — Ouviu um som alto. — Sem resposta, aumente a voltagem! — As máquinas continuavam a ressoar, sua mente girava, e ele tinha medo de ceder. — Afastem-se! — aquele som agudo repetiu-se. — Afastem-se! — O médico murmurou e tentou uma última vez.
Caitlin olhou esperançosa para o monitor cardíaco, orando silenciosamente, em uma prece sôfrega, mas nada aconteceu. Sentiu as lágrimas caírem por seu rosto e segurou-se mais firmemente a Tommy. O médico olhou desolado para ela e disse:
— Hora da morte, 17h58... Eu sinto muito — disse, parecendo devastado e logo saiu do quarto.
Tommy sentiu o mundo congelar. O ar fora arrancado de suas veias. Ele piscou, atônito. Suas pernas cederam, levando Caitlin junto. Sentiu a dor irradiar por seus joelhos, crescendo em sua alma. Seu coração ardia, queimava em seu peito. Sufocou, conforme aquela sensação angustiante espalhava-se por cada veia, por cada molécula, fazendo a dor irradiar, dilacerando lhe a alma. As lágrimas caíram cegas de seu rosto, enquanto soluços erráticos escapavam de seus lábios trêmulos.
Seu peito estava em brasas, seus pulmões pareciam não receber o ar necessário e ele sentiu como se estivesse sendo comprimido contra uma parede, como se mil adagas lhe arrancassem os órgãos, jogando-os no chão para qualquer animal que os quisesse.
Os gritos de desespero dele ecoaram pelo quarto e Caitlin estremeceu, agarrando-se a ele com força, fazendo-lhe carinho no rosto, tentando, ao máximo, minimizar a dor. Suas próprias lágrimas misturavam-se as dele no chão e ela implorava por alguma intervenção divina. Mas nada poderia trazer Laurel Lance agora. De todas as coisas do mundo, a morte era a única definitiva, mas sua chegada... Nunca era bem vinda.
— Vai ficar tudo bem, você vai ficar bem — murmurou, o balançando, quase como se ele fosse uma criança. Tommy abraçava o próprio corpo, tentando parar a dor, mas simplesmente não conseguia amenizá-la. A mesma estava lhe tirando as forças, o ar. Os soluços ecoavam pelo quarto e a jovem sentia seu coração quebrar ainda mais ao ouvi-los. Ele apoiou a cabeça sobre o ombro dela, como se procurasse por conforto, por acalento. Eles ficaram assim pelo que pareceram horas.
Depois de um tempo, o corpo de Laurel fora levado para o necrotério e pela primeira vez desde que tudo começara, ela agradeceu por ele não precisar ver aquilo. Ele apenas abraçou-se a Caitlin, sentindo o mundo inteiro colidir ao seu redor.
...
A paz que procuramos em nossos corações é a única que não conseguimos alcançar sozinhos. Nossos corações solitários foram feitos para juntarem-se, agraciados pelo amor, estarão unidos para sempre, em um elo que nada é capaz de quebrar... Nem mesmo a morte.
Felicity leu as palavras escritas em uma bela caligrafia na contra capa do livro e suspirou. Sua mãe a dera aquela versão de Romeu e Julieta quando e menina tinha seus quinze anos e escrevera aquilo na capa, até hoje, não compreendera o real sentido das palavras.
A jovem bateu na porta depois de estar ali por dez minutos. Encarar Diggle depois de tanto tempo era algo estranho, mas que ela sabia que precisava fazer se quisesse se sentir melhor.
— Boa tarde, Felicity — ele disse com um sorriso luminoso.
— Oi — ela ajeitou os cabelos. — Posso entrar?
— Claro! — Ele abriu espaço para que a jovem passasse e ela sequer precisou avaliar o ambiente, lembrava muito bem de como ele era. — Sente-se — ele pediu.
A jovem sentou-se no sofá e cruzou as mãos sobre o joelho, respirando fundo. Diggle a avaliou e perguntou:
— O que te traz aqui?
Ela suspirou. Ele não havia mudado nada. Quando o procurou, a alguns anos, para superar os traumas de ter sido abandonada pelo pai, ele era um homem tão sério e profissional quanto agora.
— Você soube do que houve com Oliver — sua voz era baixo. Lidar com tudo aquilo não era fácil.
— Todos estão sabendo — ele a garantiu, ajeitando-se na poltrona. Ela assentiu.
— Ele está em coma... Os médicos não sabem quando ele vai acordar — preferiu usar tais termos, precisava ter fé de que ele acordaria logo e teria uma segunda chance. — Nós havíamos dançado, sabe? Uma noite antes do acidente — comentou, apoiando a cabeça na mão. — Foi a última coisa que fiz com ele antes do acidente.
Ele a observou, analisando cada pequena ação, cada movimento. O lábio dela contorceu-se e um vinco se formou em sua testa.
— Eu só queria que as coisas fossem diferentes — ela sussurrou. — Só queria que Tommy não tivesse ficado cego, que Oliver não tivesse entrado em coma, que Laurel não tivesse... — não conseguiu falar a palavra. A voz chorosa de Caitlin ainda retumbava em sua mente, dizendo, em desespero, que Laurel não havia resistido. Tentou conter as lágrimas, mas falhou.
John suspirou, tentando manter a expressão séria, mas falhando um pouco. Tanta tragédia já havia atingido Oliver, já havia atingido a todos eles, era injusto que o rapaz continuasse a sofrer. Não era justo que todos eles tivessem tido suas vidas tão tragicamente mudadas, às vezes o psicólogo simplesmente não conseguia entender as motivações daquele conceito chamado "vida". Tudo parecia tão cruel, tão duro...
— Não é apenas isso que a aflige — ele falou, depois de recompor sua máscara profissional. — Sei que há mais, Felicity — acusou.
— Eu acho que estou apaixonada por Oliver — admitiu, pela primeira vez, em voz alta. Tinha tanto medo daquelas palavras! — Mas não sei quais são as implicações disso.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que sei que ele precisa de ajuda, mas não sei se eu sou a que pode o ajudar — respirou fundo, sentindo-se mais leve de repente. O psicólogo assentiu e de repente, encontrou-se sem palavras sábias para a dizer, os dois se encararam em silêncio, quase como que num consentimento silencioso.
— Eu não posso lhe afirmar nada e não posso discutir o caso clínico de Oliver mas eu acho que você deveria se dar a chance, Felicity — falou. — Você parece disposta a tentar mas não a se machucar.
— Eu não quero ficar vulnerável, Dig — ela sussurrou, sôfrega.
— Mas é disso que se trata o amor, Felicity — ele inferiu: — Se jogar sem ter medo dos machucados da queda... A paixão requer vulnerabilidade, requer a capacidade de deixar alguém entrar e mudar nossas vidas completamente.
...
A neve caía singela em torno deles, fazia frio, mas para Thomas Merlyn era diferente. Era um frio que o atingia na alma. Caitlin estava parado ao seu lado, o observando em silêncio.
Ele não conseguia enxergar, mas podia sentir o olhar dela sobre si. Seu perfume invadindo-o, acalmando-o. Eles estavam cercados por tumbas variadas, das mais simples às mais caras e ornamentais. Anjos de concreto enfeitavam alguns mausoléus enquanto um coral de seis mulheres cantava a música predileta de Laurel.
Havia uma quantidade razoável de pessoas no funeral, mas apenas em Felicity e Tommy a morena sentiu sofrimento de verdade, todos os outros pareciam apenas compassivos.
O padre que até então estava em silêncio, falou:
— A vida muitas vezes mostra-se dura e cruel, desprovida de carinho por aqueles que provam de sua água. Muitas vezes, nos tira aquilo que consideramos precioso, aquilo nos alegra e nos acalma. Entretanto, durante os períodos mais sombrios, durante as maiores tormentas e piores tempestades, Deus, em Sua misericórdia, nos manda Sua graça. Como prova de Seu amor por nós, nos oferece a cura para as mais profundas feridas. O amor, o mais sublime dos sentimentos, é aquele que pode nos arrancar da escuridão, e acima de tudo, é aquele que pode curar nossos corações.
Caitlin observou em silêncio, enquanto o caixão era levado para baixo da terra. Pegou um punhado de Terra e jogou sobre o mesmo, com os olhos marejados.
Tommy tinha uma rosa vermelha em mãos, a morena segurou a mão dele e ele soltou a rosa, com uma expressão que ela simplesmente não conseguia ler.
Os dois ficaram em silêncio enquanto o caixão era coberto pela Terra...
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