Encontros

6 Sexto Encontro - SOS Goku


Notas iniciais
Hi o/ Eu voltei bem rápido dessa vez, por isso aproveitem e boa leitura!

03 de Setembro de 2014

Filhote

–- Sakura, você já... SAKURA!

–- Que? -- Levantei a cabeça da mesa ainda desnorteada, olhei ao redor para me situar e descobrir onde diabos eu estava, as paredes brancas e a maca logo me apontaram o hospital, e a loira de braços cruzados e semblante não muito simpático me apontou o perigo e o caos -- Oh Tsunade, porque esta aí parada?

–- Oras sua... -- Bufou e eu me espreguicei -- Lave essa cara, arrume esse cabelo e vá para o Pronto Socorro, um residente passou mal e estão precisando de gente lá.

–- Seu pedido é uma ordem – Bati continência debochadamente e a vi deixar meu consultório. Depois de me espreguiçar mais um pouco, levantei disposta a fugir pelas portas de vidro e encontrar minha liberdade na rua.

Mas claro que eu não poderia fazer isso! No no no

Fui até o banheiro, lavei o rosto, retoquei a maquiagem, desembaracei o cabelo, arrumei o vestido e o jaleco e fiquei incrivelmente apresentável.

Já beirava às 20hrs de plantão, por isso passei na cantina do hospital e comi um assado com chocolate quente, o outono vinha intensificando-se bastante, mostrando que o inverno seria severo.

Comprei uma barra pequena de chocolate e guardei no bolso, seria necessária em algum momento da madrugada, porque o PS era meu pior pesadelo.

Cheguei as portas do PS quase 1h depois do pedido de Tsunade, os residentes encararam-se confusos pela minha presença ali, afinal, tão raro quanto Tsunade de bom humor, era eu no Pronto Socorro.

Os médicos que auxiliavam os residentes sempre me encaravam com desdém, porque no fim, mesmo tão jovem, eu era uma médica e tanto diga-se de passagem, e ninguém queria passar uma vida no PS.

–- Boa noite Miko -- Debrucei sobre o balcão de atendimento

–- Bom noite Sakura sama -- Respondeu simpática -- O que faz aqui?

–- Aparentemente Tsunade queria se vingar -- Suspirei voltando a encarar a correria do PS -- Vou andar por aí, até mais tarde.

–- Boa sorte! -- Curvou-se levemente e eu parti

Eu passava mais tempo sobre um salto 15 do que sobre meus próprios pés no chão da sala, então estava realmente acostumada, mas hoje eu teria que andar e muito, ou seja, chegaria de joelhos a minha casa quando o diabo desse plantão acabasse.

Passei pela primeira sala de emergência, tudo okay!

Pela segunda sala, tudo ótimo!

Pela sexta e eu já estava saltitando por estar tudo bem!


Pela sétima sala e lá estava meu problema, porque uma hora ou outra sobraria algo para mim. Eu não poderia ir para o PS apenas para caminhar.

Eu já havia sido residente nessa vida, sabia o quão desesperador era pegar um caso grave tendo tão pouca experiência, mas dai a ficar com cara de ué, braços cruzados e encarando o paciente desacordado, era demais até pra mim.

–- O que esta acontecendo aqui? -- Haruno Sakura também sabia rosnar e assustar, afinal meus queridos, eu era uma filhote de Senju Tsunade.

–- Ele não reage -- Respondeu a primeira -- Aplicamos o medicamento, e os batimentos continuam acelerados, e ele não sai da inconsciência.

–- Se ele não reagiu, é porque o diagnóstico foi errado – Sorte dele estar inconsciente. 2hrs da manha e eles testando minha paciência -- Saiam da frente -- Atravessei a sala com aquelas mulas me observando.

Peguei a ficha do paciente, ele havia sofrido uma queda e batido com a cabeça, porém os residentes identificaram uma arritmia cardíaca, e invés de medicarem primeiro a queda, medicaram o coração e com isso, não fizeram nada de útil.

–- Vocês pediram a Tomografia? -- Silencio na sala -- Raio-X? Ressonância? -- Os encarei nervosa -- VOCÊS NÃO PEDIRAM NADA DISSO? -- Talvez, mas apenas talvez meus gritos pudessem ser ouvidos da recepção -- Não me encarem desse modo assustado que isso me da mais ódio -- Bati com a prancheta no peito do residente responsável -- Peça agora todos os exames, faça uma lavagem estomacal para retirar os resquícios do remédio para arritmia errado que vocês aplicaram e não me façam voltar aqui antes de qualquer resultado.

Dei meia volta e sai estressada daquela sala, era brincadeira com a minha cara? Dar remédios de arritmia para um homem que já tratava da arritmia e com um remédio totalmente diferente, sendo que o importante era tratar de um possível traumatismo craniano obtido de uma queda? Que merdas de futuros médicos seriam esses?

–- Problemas? -- Miko me encarou com pranchetas em mãos. Ela era uma enfermeira e tanto, e uma guerreira por aguentar aquele bando de idiotas.

–- Esses residentes são sempre lerdos assim? -- Perguntei me debruçando sobre o balcão novamente e a vendo partir

–- Na maior parte do tempo Sakura sama -- Sorriu e saiu deixando pranchetas em suas devidas salas.

A noite passou comigo atendendo crianças com falta de ar, idosos com começos de enfarto, jovens bêbados demais para saberem que estavam em um hospital, e o caso mais grave da noite, um bebê gorducho com Meningite.

Dei alguns gritos encarnando a Tsunade de cabelos rosados e despejando xingamentos para aqueles inúteis.

E não é que isso era uma delícia?

–- Tsunade que sabe viver a vida – Resmunguei quando mais um acompanhante assinou a ficha de alta.

Com o passar das horas minha preocupação apenas aumentava no quesito "isso que me sucederá?" Afinal, mesmo eu sendo jovem, deveria me preocupar com os futuros médicos, não deveria?


Quando o sol apareceu por volta das 6hrs, eu fazia minha ultima ronda na sala do bebê com meningite, decidi que não sairia de lá até vê-lo sendo transferido a UTI para o tratamento completo.

Às 9h eu me libertei do hospital e segui até o estacionamento dando de cara com o vazio, havia esquecido completamente que meu carro estava na revisão e voltaria apenas no dia seguinte.

Alcancei Tsunade no estacionamento, que gentilmente me deu uma carona. Conversei com ela sobre os residentes e tive a promessa de que ela pessoalmente os avaliaria, pois por mim, estariam todos na rua.

–- Eu sabia que eles eram ruins, mas isso... -- Bufou a loira -- Passarei pelo PS no próximo plantão junto com você, vamos colocar esses inúteis na linha ou na rua -- Parou em frente a meu prédio -- Agora suma do meu carro que preciso descansar em casa.

–- Vá com cuidado Tsunade -- Desci pegando minha bolsa e meu jaleco -- E obrigada pela carona -- Ela resmungou algo e logo sumiu ruas a cima. -- Também te amo shisou.

Passei pelo Hall cumprimentando Yoshi que mantinha-se animado como sempre, entrei no elevador com o casal pegajoso do décimo andar, eles eram duas malas com seus "mor" "bebê" e tantas bajulações que me davam enjoos.

Será que se meter em um relacionamento tornava obrigatória essas nojeiras de casal mimizento? Subitamente descobri que eu não pensava em assinar esse contrato tão cedo, meu nome estava por enquanto longe da boca do sapo, eu acho...

Desci no meu andar e segui até meu apartamento, estava com saudades de Goku, alias, o filhote rechonchudo havia tornado minha vida um pouco mais animada, eu havia pego amor e carinho pelo pequeno animalzinho e queria aperta-lo um pouco.

Ou matá-lo quando abri a porta e vi minha almofada destruída.

–- GOKU! -- E lá estava ele, escondido em baixo da minha cama, era tão filha da puta que sabia exatamente quando havia feito coisa errada e eu estava pronta para esgana-lo. -- Cachorro mal, cachorro fofo e mal. -- Sai do quarto onde eu havia deixado minhas coisas e fui catar a bagunça.

Recolhi os pedaços da minha falecida almofada e joguei tudo no lixo, limpei o tapete e ajeitei o sofá que a bunda gorda dele havia tirado do lugar.

Com o sangue quente e o extinto Amélia aflorado, decidi colocar algumas coisas no lugar, a empregada não pode vir no ultimo dia combinado por isso meu apartamento PARECIA um apartamento, mas ele estava escondido sobre os escombros da minha bagunça.

Comi uma lasanha de micro ondas, porque eu era a paciente número 1 da nutricionista, já que meus hábitos saudáveis eram invejáveis, tomei um suco de laranja apenas para quebrar a gordísse da tarde e voltei a labuta.

Por volta das 18h estava terminando de arrumar o armário de comida da cozinha, jogando coisas com validade vencida no lixo, que na verdade era quase tudo. No canto do armário, onde eu não olharia em dias comuns encontrei a caixa de finos bombons que Sasori havia entregue a minha mãe, para que ela me entregasse mais tarde no dia daquele jantar conturbado.

Pelo que parece, Sasuke havia acabado com os planos do ruivo de me bajular.

O chocolate estava esbranquiçado, apontando que era uma vez minha possível sobremesa antes esquecida, joguei no lixo e finalmente fechei todas as portas do armário e tirei Goku do cercadinho para que ele corresse livre.

Meu apartamento agora finalmente parecia ser um apartamento.

–- Goku, vou tomar um banho agora -- Levantei depois de quase 1hr brincando com ele sobre o tapete felpudo -- Espere aqui quietinho que depois vamos sair para comer. -- Tinha planos de Goku, eu, um restaurante a céu aberto e uma boa Yakissoba.

Não tive pressa para tomar banho, pois eu era um amontoado rosado de sujeira e completamente desgrenhado.

E também havia questões de cunho pessoal/emocional que me incomodavam ultimamente e só poderiam ser refletidos em baixo da água morna. E meu problema tinha nome, sobrenome e um sorriso lindo.

Depois de me conscientizar sobre a preservação da água e o mal ao meio ambiente desliguei o chuveiro, me troquei colocando uma meia calça preta, uma saia curta preta e uma camisa branca de seda, arrumei o cabelo, fiz minha maquiagem, peguei o sapato de salto que combinava perfeitamente com a bolsa e sai do quarto.

Era sexta-feira, e eu iria em um daqueles restaurantes interessantes que possuíam mesas rodeadas de baixos muros e cercas vivas, onde eu poderia muito bem colocar Goku amarrado ao pé da mesa, e encontraria pessoas agradáveis com seus cães também.

Sai do quarto depositando os sapatos na porta e buscando a coleira de Goku na área de serviço, fui em busca do filhote que até agora não tinha dado as caras. Não posso dizer que achei comum, porque geralmente eu saia do quarto e logo aquela pulga já estava saltitando atrás dos meus calcanhares.

–- Goku, filhote... -- Chamei e não obtive um barulho sequer -- Goku! -- Chamei novamente preocupada e mais preocupada fiquei quando passei pela cozinha e vi o lixo virado, meu desespero só aumentou quando vi pedaços de chocolate espalhados pela cozinha com a caixa estraçalhada.

Meu coração partiu em dois quando ouvi o murmúrio de pura dor vindo do canto mais ermo da cozinha, que se localizava atrás da mesa.

Me abaixei vendo o filhote respirando com dificuldades, havia vomitado à pouco e seu focinho ainda estava sujo, seu olhar não brilhava e sua língua pencava para fora da boca enquanto o corpo e as patinhas tremiam.

–- GOKU! -- Chamei e vi sua orelhinha mexendo-se sutilmente, ele não tinha forças sequer para ficar com os olhinhos em mim -- Goku – Corri até o quarto pegando um lençol branco, o peguei no colo, não me importando se sujaria minha roupa ou não. O que me importava era Goku estar protegido e a salvo.

Corri pegando minha bolsa sobre o sofá, e calçando os sapatos ainda de forma desajeitada, quando estava no elevador lembrei subitamente que eu estava sem carro. Sem a merda de um carro logo quando eu mais precisava.

Eu não era veterinária, mas sabia o que tinha acontecido, e sabia que Goku poderia morrer a qualquer momento.

Cheguei ao saguão apressada e atravessei sem sequer encarar o porteiro, táxis passavam com freqüência em frente a meu prédio, não seria hoje que um deles demoraria. Não podia ser hoje.

Não passei 5min na porta antes de ver um carro preto e um homem moreno descendo em meu socorro. A essa altura eu não pensei nas consequências que nos encontrávamos, apenas pensei que graças a Kami, ele estava ali, meu herói e de Goku, pela segunda vez.


Sasuke pov


–- Podemos saber porque o delegado Uchiha anda sorridente ultimamente? -- Murmurou o cinzento jogando-se sobre o sofá de couro negro do escritório

–- Primeiro -- O moreno virou-se abandonando suas pastas para encarar o homem -- Não lhe devo satisfações e segundo, saia do meu sofá imediatamente.

–- Desculpe, desculpe -- Suigetsu levantou-se com as mãos jogadas para cima em sinal de rendição -- Não esta mais aqui quem falou.

–- Vá fazer algo útil da sua vida Suigetsu! -- Sasuke resmungou com um leve sorriso nos lábios quando o magrelo atravessou a porta -- Agora você... O que quer? – Encarou o ruivo que entrava.

–- Só vim trazer o envelope -- Juugo murmurou depositando o papel pardo em cima da mesa do chefe. -- Suigetsu já tentou descobrir o que todos querem saber? -- O ruivo riu

–- Vocês já pensaram em cuidar da vida de vocês ou isso nem passou pela cabeça de ninguém? -- Sasuke debruçou-se sobre a mesa.

–- Oras Sasuke, você sabe muito bem que descobriremos quem anda te deixando mais sociável -- Juugo piscou -- E claro, com esses olhinhos negros brilhantes -- O ruivo junto aos mãozinhas, levantou o pé e arregalou os olhinhos de um modo fofo.

–- VAZA JUUGO! -- Sasuke lançou uma bola de papel no homem que saiu porta a fora rindo.

Ninguém precisava saber que alguém ocupava seus últimos pensamentos, do mesmo modo que ela não precisaria saber que estava constantemente nos pensamentos dele.

Ela e aquele cachorro gorducho e engraçadinho.

Espreguiçou-se na cadeira fazendo com que ela dobrasse levemente para trás, colocou as mãos sobre os olhos e sorriu imaginando qual seria o próximo encontro.

Desde que aquilo começará naquela mesma sala, e se estendia por encontros inusitados e engraçados, Sasuke contava os dias para vê-la, e nunca admitiria isso para ninguém, obvio.

Do mesmo modo que não admitiria que a procurava inconscientemente em todos os locais que ia, e sua maior alegria era encontrar os cabelos rosados no meio da multidão.

Levantou da cadeira pegando o celular e a jaqueta de couro, o distintivo sempre no pescoço nunca era esquecido sobre a mesa. Caminhou ainda espreguiçando-se até o estacionamento, onde por mais uma noite deu adeus aquela delegacia barulhenta e caótica.

Atravessar a cidade depois das 18h era muito fácil, pois o fluxo intenso sumia e voltava apenas as 21h, quando uma nova leva de funcionários saiam de seus turnos e iam para suas casas.

Sasuke nunca havia acreditado em destino, mas o que quer que fosse aquilo, não podia ser simplesmente chamada de coincidência.

***



Estava realmente espantado por poder sair da delegacia no mesmo dia que cheguei, e não ter que dormir lá ou coisa parecida, eu me sentia no céu.

Aparentemente, peguei todos os faróis da cidade fechados, o que me causou um atraso, mas nada que me trouxesse uma catástrofe maior do que poucos minutos de sono perdido.

Estava quase em casa quando por puro reflexo olhei para o prédio onde Sakura morava, havia adquirido essa mania no ultimo mês e mesmo me esforçando para perdê-la, sempre o mesmo magnetismo estranho estava lá, para puxar meus olhos para a entrada tão bem iluminada e luxuosa.

Costumava ver apenas luzes acessas, ou um porteiro simpático conversando com todos os condôminos, algumas vezes as faxineiras varrendo a calçada e molhando as plantas, mas naquela noite, foi diferente.

Vi Sakura parada com algo no colo, estava impecavelmente arrumada, mas seu semblante era preocupado e levemente desesperado, procurava algo que eu deduzi ser um táxi, pois não haveria motivo para estar parada ali a essa hora da noite. Sem saber muito o que fazer, fiz o obvio, parei o carro em sua frente, vendo-a dar dois passos para trás pelo susto.

–- Sakura? -- Desci do carro me dirigindo a ela, e vi que o pequeno embrulho em seus braços era Goku, que parecia desmaiado -- O que faz aqui?

–- Goku ele... -- Tentou falar, mas assim como ela viu, eu vi o pequeno animal contorcendo-se em uma convulsão, ela o inclinou mais em seu colo e me encarou com olhos brilhantes -- Por favor Sasuke, me leve até a clínica veterinária -- Nunca pensei que veria aquela mulher alegre e sorridente tão desesperada como agora, e o pior, nunca pensei que eu ficaria desesperado por um cachorro.

–- Entre -- Tomei Goku em meu colo para que ela entrasse no carro sem acidentes, quando estava posicionada, o coloquei de volta em seus braços. Cruzei a frente do carro correndo e voltei pelo mesmo caminho que eu havia vindo, pois a única clínica veterinária 24hrs que Sakura e eu conhecíamos, estava bem próxima a minha amada delegacia.

***



A clínica era luxuosa, com decorações de primeira linha e aparentemente profissionais capacitados. Entregamos Goku a um médico veterinário, que depois de conversar por breves instantes com Sakura, disparou correndo corredores a dentro.

Sentamos e durante 30min que pareciam horas, ficamos em silencio. Ela de pernas e braços cruzados, compenetrada em seus próprios pensamentos, e eu distraído demais na porta, apenas torcendo para que o veterinário viesse dar notícias logo.

–- Você pode ir Sasuke -- Sua voz saiu mansa e baixa, como eu ainda não tinha ouvido -- Obrigada pela ajuda de hoje.

–- Vou ficar aqui! -- Respondi sem hesitar

–- Vá descansar -- Senti seu corpo virando para mim e desapoiei meus cotovelos dos joelhos para encara-la. -- Você deve ter tido um longo dia na delegacia e...

–- Não tente me persuadir, Sakura -- Voltei a encostar na poltrona do consultório -- Vou ficar até me certificar que Goku esteja bem, e que você chegue a salvo em casa -- Ela não assentiu, porém também não negou e o silencio caiu entre nós mais uma vez, até ela tomar a palavra.

–- A culpa é toda minha -- Sua voz era dolorida demais para que eu não olhasse em seus olhos marejados e perdidos em algum ponto do chão -- Nunca deveria ter vacilado desse modo, graças a mim, Goku pode estar morrendo -- Limpou rapidamente algumas lagrimas que teimaram em cair de seus olhos tão verdes -- E eu não pude fazer absolutamente nada para ajudá-lo. -- Será que todos os médicos se culpariam pela impotência? Mesmo perante um animal?

–- Goku ficara bem -- Podia ter segurado minha mão, evitado a vontade de toca-la, mas não o fiz... e antes que meus pensamentos se reorganizassem, meu polegar já limpava algumas lagrimas e ali, novamente pude notar como Sakura era suave.

Mas foi quando ele fechou os olhos e os tapou com a mão permitindo-se chorar, que senti toda a suavidade e fragilidade da mulher aparentemente forte em minha frente.

Estávamos em um sofá de três lugares, então quando minha mão escorregou pela sua nuca, entre os sedosos e perfumados fios de cabelo róseos a puxando para meu ombro percebi que ela não hesitaria o contato.

Por alguns segundo ela chorou com as mãos no rosto, mais logo senti sua respiração na curva do meu pescoço e suas mãos prendendo-se em minha camiseta branca. Sentia com perfeição as lagrimas caírem no meu pescoço e pararem em minha gola, e com clareza os leves soluços tristes.

Quando o veterinário pegou Goku no colo e soube da situação, seu semblante faria qualquer um preocupar-se, mas aparentemente, médicos se comunicavam entre si, e eu sabia que naquele momento, Sakura sabia algo que eu não conseguia entender.

Tomei a liberdade de afagar seus cabelos levemente enquanto a sentia parar de chorar, quando ela tentou se afastar, a impedi porque simplesmente não a queria afastada. A queria ali, presa a mim, mesmo que durasse poucos minutos.

–- Fique aqui! -- Murmurei o mais baixo que pude -- E descanse. -- Sem qualquer resmungo de sua parte entendi como um sim, provavelmente ela havia trabalhado mais do que um humano normal suportaria nesses últimos dias.

***



–- Senhorita Sakura -- Acordei com alguém chamando o nome da mulher em meus braços, a olhei e ela dormia serenamente, mas quando seu nome foi pronunciado pela segunda vez, acordou no mesmo momento e desencostou-se do meu peito.

–- Desculpe -- Levantou arrumando a saia é a camisa e eu levantei junto, vestindo a jaqueta de couro -- Como esta Goku?

–- Já fizemos os procedimentos para o caso, agora ele esta desacordado, mas estável -- Suspirou -- Se vocês tivesse chego 5min mais tarde, não sei se seu filhote aguentaria as dores, são fortíssimas. Hoje ele ficara aqui, medicado, em observação e de repouso. Se tudo correr bem como esperamos, amanha até o 12h te ligaremos para que possa vir buscá-lo.

–- Claro -- Sakura suspirou em um misto de alívio e ansiedade

–- Tentem descansar, o filhote de vocês ficara bem -- E dizendo isso, desapareceu junto com seu auxiliar.

Sakura respirou profundamente fechando os olhos, parecia esgotada de todos os modos possíveis, e aquilo me incomodava profundamente.

Apoiei minha mão em seu ombro e vi seus olhos percorrerem dela até meus olhos, agora eles brilhavam cristalinos, agradecidos e gentis para mim, sorri minimamente e obtive em troca um dos sorrisos mais bonitos que já havia visto.

Sem cerimônias ela me abraçou, como talvez eu nunca tivesse sido abraçado, era bom, era quente, era perigosamente apaixonante.

A apertei em meus braços, sentindo seu corpo pequeno envolvendo-se ao meu de maneira terna, seu perfume me inebriava de uma forma surreal e a maciez da sua pele era algo que eu talvez nunca tivesse sentido e claro, nunca esqueceria.

Quando nos soltamos, ela simplesmente sorriu e curvou-se levemente

–- Obrigada Sasuke -- Murmurou e voltou a fitar meus olhos -- Obrigada por sempre estar no local certo, a hora certa... muito obrigada. -- A gratidão certamente era uma virtude dos nobres, pois foram raras as ocasiões que recebi tantos agradecimentos.

–- Você pode sempre contar comigo -- Respondi sorrindo e peguei em sua mão -- Agora vem, te levo para casa -- E saímos do consultório.

Ela aliviada pela sobrevivência do filhote, e eu, angustiado pelo sentimento que tomava conta de mim.

Afinal, desde quando Uchiha Sasuke sorria pelos cantos?

***

04 de Setembro de 2014

–- Ele deve tomar bastante água e alimentar-se bem – Recomendou o veterinário quando me entregou um Goku totalmente animado – Goku passou a noite muito bem, é um filhote saudável e esta com saudades de casa, apenas tome mais cuidado, nessa idade eles são bem arteiros.

–- Tomarei! Obrigada Dr. Yahiko, muito obrigada mesmo! – Sorri e depois de acertar a conta sai do consultório.

A noite passada foi uma das mais desesperadoras desses últimos anos, pois eu não suportaria ver Goku morrendo por uma falha minha, já não bastava Tibiko, o passarinho que eu não cheguei a tempo de cuidar? Sim, bastava.

Mas com certeza a noite teria sido pior, se Sasuke não estivesse a meu lado, eu nunca imaginei que me sentiria tão contente por ter uma companhia, já que desde sempre eu me julgava autossuficiente o necessário para encarar a vida.

Olhei no relógio que marcava 10h05, encarei a delegacia duas ruas para baixo e porque não dar uma passada lá para agradecer?

Estava com minha tipica roupa branca, pois trabalharia naquele dia no plantão de Shizune, ela precisava fazer seus exames de rotina e eu deveria ajuda-la, claro. Eu poderia descansar na próxima semana.

Era comum caminhar e ser observada por todos, afinal, vestido branco, sapato branco e casaco branco, me remetiam certamente a uma mãe de santo, mas eu era apenas uma médica, tá gente? Se eu tivesse tido tempo e não ficasse tão ansiosa para pegar Goku, eu poderia ter procurado um cinto ou um casaco de cor diferente, mas não era o caso.

No meio do caminho conclui duas coisa:

Primeira: Ou eu estava cagada, ou minha bunda chamava muito a atenção, já que todos os homens que passavam por mim, davam aquela viradinha nada discreta.

Segundo: Eu precisava parar de comprar compulsivamente sapatos de salto alto, e precisava urgentemente ter mais do que duas sapatilhas no armário.

Porque era em momentos como esse que eu me odiava por querer andar chique por ai.

Cheguei a porta da delegacia e como um imã atrai toda a atenção para mim, comecei a desconfiar do meu cabelo rosa, será que isso era muito chamativo? Obvio que não! Talvez fosse Goku a tira colo, afinal, quem a essa hora andava com um cachorro por ai? É, pois é, eu.

Vi o quase ruivo, porque para mim aquilo era laranja perto de uma máquina de café, ele me olhava como todos os outros, mas por já ter batido a minha porta e me enfiado dentro de uma viatura, achei o mais confiável. Realmente, que critérios.

–- Bom dia – Cumprimentei vendo-o servir-se de mais uma xícara de café – O Dr. Uchiha está? – Perguntei acompanhando o copo que ele virou goela a baixo antes de sorrir.

–- Claro que esta – Ele era tão simpático, e viciado em café pelo que eu percebi – SASUKE! – Penso assim, se era para gritar eu teria gritado né grande? Mas eu guardaria minha opinião

–- Olha, você já pensou em parar de beber café? – Sorri o impedindo de virar o terceiro copo – Você sabia que em quantidades elevadas isso faz mal à saúde – Senti algo do meu lado e vi ser Sasuke, eu era uma médica, então agir como tal sem estar em um hospital era mais comum do que parecia – Segura o cachorro – Entreguei o animal para o moreno que rapidamente foi lambido e segurei o pulso de Juugo, ah sim, eu contaria os batimentos sim e ninguém me impediria -- Você pode desenvolver uma arritmia e...

–- Sakura – Sasuke me chamou, mas eu estava entretida demais – Vem – Senti a mão sobre meu pulso e logo fui puxada para sua sala, a porta fechou-se e quando vi a cara amarrada do Uchiha sorri sem graça.

–- Desculpa, eu não consigo controlar – Mexi nos cabelos – Café pode fazer mal pro coração, sabia? – Ele não parecia saber, e também não parecia querer saber.

–- Você faz isso sempre? – Perguntou me encarando pela primeira vez sorrindo

–- Eu tento me controlar, mas é mais forte do que eu. – Suspirei derrotada -- A ultima consulta que dei foi semana passada na loja de vestidos.

–- Sem problemas – Ele afagou as orelhas de Goku – E você garotão, como esta? – O filhote latiu e eu sorri – Acho que esta bem.

–- Totalmente recuperado – Estendi os braços e logo ele estava em meu colo – Tomarei mais cuidado à partir de agora.

–- A culpa não foi apenas sua – Sasuke apoiou-se a mesa – Esse rapaz precisa aprender a ser menos danado.

–- Com o tempo, não é Goku? – Ele latiu e eu novamente sorri, encarei Sasuke que nos analisava calmamente – Bom, eu vim aqui apenas para te agradecer novamente Sasuke, se não fosse por você...

–- Não pense – Ele levantou da mesa – Agora esta tudo bem e foi um prazer ajudar.

–- É inerente a espécie de delegados ajudar qualquer pessoa em momentos de aflição? – Perguntei vendo-o aproximar-se -- Assim como médicos agirem como tal pelas ruas?

–- É bem comum, mas abro mais exceções quando a pessoa é você – Fitei o chão e com certeza eu havia corado, e ai estava um dos malefícios de ser tão branca.

–- Bom, eu preciso ir, vou cobrir Shizune hoje – Respirei profundamente

–- Acho que você precisa trabalhar menos... – Seguiu até a porta – E sair mais, que tal no próximo final de semana?

–- Se eu não pegar plantão – Sorri me encaminhando até ele, e quando a porta foi aberta bruscamente, o departamento todo esgueirava-se para ouvir o que falávamos – Estou indo! Até mais Sasuke – Sorri acenando brevemente e Goku latiu contente, sai a passos rápidos, porque eu já estava com vergonha o suficiente para me enfiar em uma caverna e viver lá dentro.

Mas seja o que fosse, as sensações que Sasuke me proporcionavam eram bem mais fortes que o desejo de sumir.

Acho que quem estava desenvolvendo uma arritmia no fim das contas era eu.

E nem café eu tomava!

Notas finais
E então? A ideia surgiu de um pequeno acidente caseiro envolvendo um roubo de chocolate, mas que terminou bem, porque eu vi a tempo, e foi então que atendendo pedidos da participação do Goku, ele foi o protagonista do capitulo. Espero que vocês estejam gostando da fic, e hoje o agradecimento vai para a South Paradise que deixou uma recomendação lindíssima, eu só tenho a agradecer pelo carinho pela fic e pela autora que vos fala. Você é um amor. Muito obrigada pela companhia, pelos reviews maravilhosos, pela paciência e aguardem, pois muitos encontros ainda viram. Até breve!