Quando o professor Antônio de Inglês liberou a turma pro recreio eu já fui chamando o Pedro e a Paula pra ir conosco na área de alimentação da escola, com várias banquinhas com tipos diversos de comida para escolhermos, escolhi uma que vendia salgados, comprei meus favoritos coxinha e uma coca-light.

As gurias e o Pedro também escolheram salgados para comer, mas em vez de sentar nas várias mesas fomos para o pátio, sentamos em um banquinho embaixo de uma árvore. A energia do pátio era vibrante.

Puxei meu telefone do bolso da calça, só pra ver se havia mensagem da Naya antes de dar uma mordiscada na coxinha. Nós estávamos em silêncio, exceto por mim e as gêmeas que éramos amigas desde pequenas, nesta escola o grupo era novo.

“Então, tu gosta de música né Julia?” Pedro perguntou interessado.

“Uhum, adoro pop internacional, MPB e rock depende muito da batida.” Contei. “E vocês dois?” Perguntei curiosa.

“Também, mesma coisa, adoro J Quest, Nenhum de Nós, Paralamas.” Pedro confidenciou.

“Eu sou eclética, todos mencionados acima e gosto de Pagode, Forró, Reggae, mas não suporto o dramalhão Sertanejo.” Paula contou, sua voz era animada.

“Ai que bom, vamos nos dar super bem.” Afirmei, meu sorriso se alargou.

“E vocês duas? Pedro perguntou, para a Luci e a Lua.

“Eclética também, mas a gente gosta de sertanejo.” Luci disse pra Paula. “Já escutou “Evidências” do Chitãozinho e Xororó?”

Paula negou com a cabeça. “Nunca, mas posso pesquisar em casa.” Ela disse. ‘Vocês tem WhatsApp e MSN?”

“Uhum.” Disse eu em confirmação, as gêmeas assentiram positivamente.

“Passa o Whats e o MSN de vocês e a gente troca umas músicas maneiras, talvez descubra música nova até.” Pedro pediu.

Aquele primeiro recreio, diferente da linha original foi bem divertido, dessa vez eu estava mais confiante, (maturidade faz total diferença aparentemente), pude conhecer mais sobre o Pedro e a Paulinha já naquela primeira conversa, e soubemos imediatamente que iríamos nos dar bem.

Agora o problema era como chegar perto das outras. Marcela seria fácil, falar de livros com ela seria mesmo divertido, mas Andréia e a Sofia eu teria que ser criativa, não comecei com o pé direito com a Sofia, iria contra tudo o que eu acredito defender ela na sala de aula.

Vi a Jana caminhando com a amiga dela Gabrielle pelo pátio, ela tinha uma máscara de incredulidade quando me viu, ela puxou a amiga para longe, fingindo que não me conhecia.

“Não é como se eu não esperasse isso mesmo.” Murmurei, cerrando os punhos.

“Que foi amiga?” Lua perguntou me encarando, preocupação na voz.

“Minha prima... a Jana acabou de passar e fingiu que não viu.” Comentei, dei de ombros, mas eu sabia que elas não acreditavam que eu estava okay com isso.

O resto da manhã foi tranquilo se eu não contasse com a aula de educação física no fim da manhã e duas aulas excruciantes de matemática logo depois do recreio, mas os professores não nos encheram de matéria ainda, só pediram mesmo pra ler o primeiro capítulo da apostila, que era a introdução da matéria.

Como eu tinha minhas extracurriculares já, eu teria japonês na segunda logo depois do almoço, da minha turma só eu havia escolhido a matéria, mas estava empolgadíssima para esta aula.

Quando entrei sozinha na sala de aula quase não acreditei em quem vi, na primeira vez eu não fiz esta aula, mas agora... eu percebi que mais alguém da minha vida passada estava lá.

“Renata!” Exclamei meus olhos um sorriso se espalhando nos meus lábios.

Ela girou na cadeira, me encarou por alguns segundos, tentando ver se me reconhecia de algum lugar, os olhos que pareciam uma bolinha de ônix, apertados, dava pra ver as ruguinhas se formando na pele negra, bem do ladinho dos olhos, a cima das bochechas, era óbvio que ela não sabia quem eu era.

“Eu te conheço de algum lugar?” Renata perguntou, puxando os cachinhos pretos para trás, ainda tentando me reconhecer.

Senti meu coração bater contra a garganta meus rosto queimar, o suor descendo pela testa, caminhei em direção a ela cocei a nuca um sorriso embaraçado. “Que engraçado, eu jurava que tu era a minha... prima Renata..., mas não parece nada com ela agora que to vendo melhor.” Ajustei meu óculos meus dedos tremiam levemente.

“Meu nome também é Renata, por isso pensei que talvez a gente se conhecesse de algum lugar, mas por alguma razão... eu acho que tu me parece familiar.” Ela comentou. “Qual teu nome?”

Renata é negra, a menos que eu tivesse algum tio/tia primo/prima casados com uma pessoa afro descendente, faria até sentido dizer que ela parecia com a Renata, mas Deuses, maior parte da minha família casou ou com branco, ou com descendentes de indígenas ou latinos, não tem ninguém que tenha casado com uma pessoa negra.

Fiquei surpresa, será que ela também? Me perguntei, Artemis havia mencionados “alguns escolhidos” naquela conversa antes de nos mandar de volta “Julia Almeida-Gomes.” Me apresentei

“Renata-Santiago.” Ela se apresentou, assenti.

“Posso?” Apontei a mesa ao lado dela.

“Claro.” Ela disse com um sorriso animado. “conta tudo sobre a tua prima Renata agora.”

Sentei e congelei... eu teria que criar uma prima! Tentei não parecer muito nervosa, peguei meu livro, caderno de japonês e estojo, ganhando tempo, pra não ser pega na mentira, mas criar personagens era minha especialidade, a final um dia eu seria uma escritora.

“Ah, a Re é uma das pessoas mais doces que eu conheço, mas ela é tipo minha prima, namora com um primo do meu pai, eles se conheceram na faculdade e moram na Inglaterra onde trabalham...” Contei, seria mais fácil mandar uma prima imaginária pra outro país.

Pronto, eu cometi minha gafe, não coloquei a culpa na bebida. “We are even Nay” pensei e sorri, soltei uma risadinha, daí contei uma história engraçada. Fomos interrompidas “Graças aos deuses” por passos dos colegas e professora “Michiko Yamada” professora Japonesa, mas morava muito tempo no brasil, sabia falar o idioma com sotaque.

Minha prima Anita , quatro anos mais nova que eu, agora estava na quinta série do fundamental, eu tinha concordado de pegar ela na escola que é perto da minha depois da aula.

Os pais da Nita são divorciados, não tenho certeza porque, mas o fato que a Jô, minha prima de primeiro grau Joana, mãe dela trabalha em outra cidade, próxima a Porto Alegre, dando aula de Geografia em uma escola municipal e sempre chega tarde em casa.

O pai da Nita é policial, trabalha perto, mas tem horários malucos, então ele quase nunca podia, mesmo sendo um pai bem presente na vida dela, então era meu tio Paulo, avô dela ou eu que pegava a Anita na escola.

Eu estava na frente do portão da escola dela esperando, quando vi minha prima saindo da porta principal, carregando uma mochila pesada, preta simples da Kipling, com o macaco balançando enquanto ela corria acenando entusiasmada.

“Oi Ju!” Ela me cumprimentou com um grande sorriso.

“Oi Nita!” Eu disse sorrido. “Só deixa eu falar com o supervisor pra dizer quem eu sou e a gente vai, tá?”

“Tá, mas tá quente, e eu to morrendo de sede!” Ela reclamou.

Soltei uma gargalhada rolando os olhos. “A gente pode ir na sorveteira da esquina então.” Prometi.

Os olhos negros como besouros da minha prima e a pele bronzeada naturalmente se iluminaram, ainda bem que eu tinha a minha mesada, ou estaria ferrada, sentia falta do meu salário em momentos como esse, minha mesada era de cem reais. Já estava em setenta.

Eu tenho um caso grave de consumismo, quando o assunto é artigo de papelaria. “Eu sou prima da Anita.” Avisei o supervisor que cuida do portão. “Julia Almeida-Gomes, meu nome tá listado.” Disse eu puxando a mochila e buscando a carteira. “Aqui.” Entreguei meu documento de identidade, era melhor que a carteira escolar que me deram na entrada hoje de manhã.

O supervisor me olhou, soltou uma risadinha, ele me conhecia já de outros carnavais. “Bom te ver de novo Ju, gostei do estilo novo.” Ele disse brincalhão, sorriso travesso, ar jovial de todo professor de educação física.

“Bom te ver também professor Jefferson, espero que esteja cuidando bem da minha priminha.” Disse séria, meus olhos se estreitando. “Não to pra brincadeira este ano.”

Anita soltou uma risadinha. “Não te preocupa” Ele prometeu, um sorriso suave e devolveu o meu documento. “Até amanhã Anita.”

“Até sor.” Ela disse sorridente e atravessou o portão. “Amei o estilo novo também!” Anita me assegurou . “Combina contigo, mas eu quero aquele sorvete agora.”

Eu gargalhei e assenti. “Eu também, to morrendo de calor.”

“Também né prima! Toda de preto.” Ela observou.

Dei de ombros, entrelacei nossos braços e seguimos em direção à nossa rua, visto que ela mora cinco quadras da minha casa e a sorveteria ficava na esquina da casa dela.

“E aí, como foi primeiro dia?” Perguntei, animada para saber tudo.

O rosto dela se iluminou e começou a descrever todos os detalhes “sórdidos” do primeiro dia de aula. O que eu não fazia ideia, é que em Los Angelis, nos estúdios da FOX, Naya estava determinada para resolver uma situação que já vinha acontecendo a tempo.

Los Angelis, Califórnia, Estados Unidos

POV Naya.

Aconteceu de novo, óbvio que a Lee ia ver as fotos, maldita ideia da Amber de enviar as fotos no grupo, só de implicância, mesmo que nós usamos todos os argumentos possíveis para ela fazer o contrário.

Lea ficou furiosa, eu não a julgava, mas ela descarregou o vocabulário na nossa colega de elenco que saiu correndo e chorando pro camarim, eu fui atrás da Lee, Diana atrás da Amber.

Como ninguém mais iria tentar acabar com esse comportamento e apesar dos pesares Lea e eu éramos próximas antes das coisas ficarem insustentáveis, fui falar com ela.

Respirei fundo antes de bater à porta do trailer onde ela ficava, Rachel Berry/Lea Michele escrito no letreiro, bati. Pude ouvir um chorinho vindo de dentro, eu conhecia um outro lado da Lea, o mesmo que a Diana conhecia, sabia que não era drama, claro que ela se sentiu rejeitada, mas eu também não tirava a motivação da Amber.

“Quem é?” Lea perguntou, sua voz soava quebrada, mas ainda assim pude encontrar raiva e dor.

“Sou eu...” Eu falei suavemente. Não esperava que ela fosse abrir.

Fui surpreendida. “É verdade? Ela não me convidou por...”

Assenti, meus olhos baixos. “Desculpa, a gente deveria ter falado contigo antes da bosta explodir no ventilador.”

Lea franziu a testa confusa, nunca havia escutado tal expressão, não tinha realmente uma tradução em inglês, mas eu improvisei. “Posso?” Apontei pra dentro.

“É, pode...” Lea concordou, os pelos dela estavam arrepiados, eu podia ver a dor nos olhos dela.

Lea deu um espaço pra eu entrar, sentamos no sofá, o lugar não era um apartamento, era pequeno e um pouco apertado, mas perfeitamente organizado, o cheiro de café e perfume doce enchiam o ar, mas não me importei.

Olhei ao redor, painéis e posters da série, fotos pessoais, fotos do elenco e uma almofada preta com um R escrito em dourado, sorri levemente.

“Sabe, tu é uma inspiração pra muita gente aqui.” Contei. “Graças a tua experiência no palcos e outras séries e filmes, eu por exemplo..., mas tem momentos...”

Puxei o ar, eu queria usar toda a maturidade da Naya de 43 anos, não a impulsividade da Naya de 26.

“Que você parece querer mostrar uma superioridade para nós “reles mortais” quando o respeito e a admiração deveria ser com todos.”

Lea gemeu, sua respiração tremeu. “Você está dizendo que além daquela palavra horrível que a Amber me chamou, você está dizendo que eu sou arrogante também?”

Assenti. “Olha, eu não quero te machucar, longe disso, mas se esse comportamento continuar assim Lee...” Apertei a mão dela gentilmente. “Eu não quero que você acabe sozinha, eu te conheço, a gente divide couve enquanto eu jogos minhas frustrações com a mídia em cima de ti...”

Lea assentiu rindo levemente. “Eu sei, porque ninguém disse antes?”

“Não sei, mas a gente deveria ter dito, a gente deveria ter sido honesta, explicado que esse comportamento é errado e tem consequências.”

“O mais irônico, é que a série que nós gravamos é sobre inclusão, combate ao bullying entre outros assuntos profundos, mas com toque de humor.” A voz dela cheia de ironia. Ela me olhou com um olhar de arrependimento, eu pude ver em todo o rosto dela. “Desculpa, se eu te ofendi de qualquer forma... não foi intencional.”

Assenti eu sabia, anos depois ela veio conversar e se desculpar comigo na primeira linha do tempo, mesmo assunto, quando eu lancei meu livro.

“Eu preciso me desculpar com a Amber né?” Ela perguntou num fio de vós.

“Espera acalmar, ela não vai acreditar se tu chegar lá agora se desculpando.” Anunciei, ela concordou.

Lea mexeu nervosamente na barra da camisa que vestia. “Eu não sei o que realmente aconteceu mês passado contigo, terapia, retiro espiritual.” Ela brincou, eu rolei os olhos e soltei uma gargalhada. “mas você parece diferente, sei lá mais madura, talvez mais confiante, mais equilibrada” Ela apontou.

A Lee não estava errada, mas definitivamente não tinha nada a ver com o mês de férias, foi meu tempo no Brasil, mas isso ela não sabia, nem iria saber. “Eu acho que precisava de um tempo pra mim.” Expliquei. “Tomei umas decisões.”

Ela levantou sobrancelha, curiosa. “Decisões? Que decisões?”

Neguei com a cabeça. “Não aqui, apertado demais, mais tarde.”

Eu estava esperançosa que esta conversa fosse o estopim de uma mudança na Lee, eu tinha esperança que aquela animosidade que começou entre nós na outra linha do tempo durante as gravações da quarta temporada também mudaria e que a amizade não sofresse uma queda descomunal que só teria uma tentativa de reaproximação anos depois do final da série.

Saí do camarim dela me sentindo mais aliviada, talvez uma sensação de dever cumprido, e mal podia esperar pra chegar em casa e contar pra Jules, mas ela tinha aula, talvez ainda estivesse na escola quando eu chegasse, não sei bem como as escolas brasileiras funcionam, nem a dela.

Porto Alegre Rio Grande do Sul-Brasil

POV Rubi

Era final da tarde, já estava um pouco mais fresco na rua. Como não tinha carro ainda, caminhei distraída até a parada do ônibus, pensando no meu primeiro dia. Considerei ligar para a Regina, quando vi uma pessoa conhecida conversando animadamente com uma menina alguns anos mais nova.

“Sério que tu subiu na mesa?” perguntou a menina com traços latinos.

“Claro que sim! A coitada da professora estava lá, toda pra baixo porque ninguém prestava atenção! Eu tinha que fazer alguma coisa, né!” Julia exclamou.

Julia então parou, ofegou e arregalou os olhos. “Que foi, prima?”

“Essa é a professora que eu falei!” Julia exclamou, arrastando a prima com ela para me cumprimentar. “Oi, professora Rubi. Essa é minha prima, Anita.”

“Oi, tudo bem?” Anita perguntou timidamente.

“Tudo bem, muito prazer em te conhecer, Anita,” disse, sentindo o meu coração esquentar. “Vocês moram aqui perto?”

“Duas ruas pra cima cinco quadras de separação. Eu sempre pego ela na escola porque é perto, né, Nita?” Julia explicou.

“Verdade, eu tenho que ficar na escola o dia todo porque é turno integral,” reclamou Anita, rolando os olhos. “A gente vem caminhando de lá e paramos para um sorvete,” Anita soltou uma risadinha.

“Ah, entendi,” afirmei com um sorriso leve. Ouvi o som de um ônibus se aproximando e li o letreiro luminoso. “Meu ônibus chegou. Te vejo na aula, Julia. Foi um prazer te conhecer, Anita,” disse, sorrindo suavemente, fazendo sinal para o ônibus parar.

“Espero que tu tenha uma boa noite de descanso, professora. Nos vemos na aula,” disse Julia, com certo carinho na voz.

Eu estava exausta depois de um dia inteiro dando aulas para o ensino médio de manhã e o fundamental durante a tarde, eu nunca imaginei que odiaria aqueles pestinhas.

“Como foi o primeiro dia” Vi a mensagem da Re, no WhatsApp quando sentei no banco do ônibus, só um lugar vago, como se soubesse que meus pés estavam me matando com aquele salto.

“Eu quero esquecer, só a primeira aula da manhã, uma aluna me salvou.” Respondi a mensagem.

“Quero saber tudo.”

“Me deixa chegar em casa e tomar um banho, daí eu conto.”

“Feito.” Regina respondeu.

Meus olhos estavam pesados, e eu queria um carro, assim não teria tantas paradas e eu não ficaria tensa o tempo todo com medo de dormir e perder a parada, aconteceu na época do estágio mais de uma vez, no início quando não estava acostumada a acordar tão cedo, visto que a universidade em que estudava as minhas aula eram à noite.

Suspirei aliviada ao sair do ônibus, cheiro insuportável de suor, café, cigarros e perfume barato dos passageiros ao redor de mim, eu queria relaxar, tomar um banho, comer algo quente e dormir o sono dos justos.

O silêncio do meu apartamento era ensurdecedor, eu senti meu coração despencar quando acendi as luzes e ninguém para me receber em casa com um sorriso animado.

“Eu preciso de uma namorada, ou um cachorro.” Murmurei. “Melhor o cachorro, mas deixar o pobre do animal sozinho o dia todo.” Chutei os saltos longe dos meus pés na entrada e desabei no sofá.

Larguei a pasta e a bolsa ao meu lado, fechei os olhos, relaxando por alguns minutos antes de ir para o banheiro e me livrar da energia pesada do dia, também teria que ligar para a Re, e contar detalhadamente o meu dia, ela é dois anos mais velha que eu, tem um pouco mais de experiência.

Estiquei os braços acima da cabeça, estralei o pescoço de um lado pro outro, senti as vertebras da minha coluna estalarem, era a melhor sensação do mundo. Pelo menos amanhã não daria aulas pela manhã, só a tarde.

Abri os olhos me sentindo um pouco melhor e menos dolorida, “Bem, vou tomar aquele banho e comer alguma coisa.” Pensei.

Levantei do sofá, peguei a pasta e a bolsa, levei até o escritório e fui para o quarto, separando algumas roupas confortáveis, caminhei pesadamente pelo corredor, entrei no banheiro, pronta para relaxar completamente com a água quente do chuveiro.

POV Julia

Eu me deixei ser impulsiva e apresentei a Anita pra Rubi, meu plano era amizade primeiro a final de contas, não tinha por que não apresentar os parentes pra ela fora da escola

Quando chegamos na frente da casa da minha prima, eu senti meu coração afundar, todas as janelas fechadas, luz da frente apagada, Anita tinha os ombros caídos em derrota.

“Quer que eu fique?” Perguntei suavemente.

Anita tinha um brilho de esperança nos olhos, mas negou com a cabeça. “Não precisa, eu tenho tema pra fazer de qualquer forma, me distraio.”

“Deixa as janelas abertas, e luz acesa, tá? Vão saber que tem gente em casa.” Pedi, puxando ela pra um abraço apertado, senti o corpo magro derreter contra o meu peito.

Beijei o topo da cabeça da minha priminha, ela se afastou. “Valeu prima, amanhã o vô me pega.”

“Pena, eu vou perder a minha companheira de sorvete.” Brinquei, ela soltou uma risadinha, e puxou a chave do bolso lateral da mochila.

“sexta-feira a gente vai de novo, o Vô não vai deixar eu tomar sorvete depois da aula.” Ela me disse, dando um muxoxo.

Eu dei de ombros e sorri sapeca. “Ele é o adulto responsável, eu sou a adolescente rebelde.” Disse eu rindo alto.

Ela soltou uma gargalhada e assentiu abrindo o portão branco de ferro. “Fica bem tá? Eu vou pedir pro seu Geraldo ficar de olho, tá?”

“Prima, tu é muito super protetora...” Ela reclamou frustrada. “Mas valeu.”

“Super protetora, e tu ainda tem onze anos, claro que eu vou ficar preocupada com a tua segurança.” Esclareci.

Esperei ela entrar, abrir as janelas e acender a luz da sala de estar, me dei por satisfeita e fui pra minha casa, a guarita do guardinha ficava no final da rua, do outro lado em frente a uma creche, dava pra ouvir a gritaria da criançada o dia todo, ainda bem que eu tinha aula durante o dia e só chegava final da tarde na maior parte da semana.

“Oi, seu Gê.” Cumprimentei.

“Oi Ju... trocou de estilo? Virou roqueira?”

“Roqueira não, mas eu quero pôr ordem na minha turma, a sora de português, quase não conseguiu dar aula hoje.” Comentei.

Ele sorriu em aprovação. “Tem que respeitar os professores. Se não fossem eles outras profissões não existiam.”

“É exatamente o que eu penso, seu Gê.” Concordei com ele. “Eu já levei a Nita em casa, a Jô não chegou ainda, disse pra ela deixar a luz da sala acesa e janela aberta, vão saber que tem gente em cada.”

“Fez bem, não te preocupa eu fico de olho.” Ele me assegurou.

“Valeu.” Disse eu.

Quando me despedi, vi alguém familiar saindo da creche, ela era mais velha, meu coração deu um solavanco no peito, senti um caroço se formar a garganta, mas dessa vez eu não ia cometer o mesmo erro.

“Lu...” Murmurei virei nos tornozelos e fui pra casa, as lágrimas já se formando.

Eu tinha esquecido completamente que a Lu trabalhava naquela creche, quando a conheci, ela já trabalhava lá, mas eu não fazia a menor ideia quando ela tinha começado e não tinha certeza se ela foi lá pra entrevista ou se ela já tava trabalhando.

Senti meu corpo estremecer. Claro que não seria fácil, mas eu ainda assim não iria voltar atrás estava determinada a cumprir a missão e dar a chance que meus amigos do ensino médio nunca tiveram, não importa quão doloroso fosse