POV Julia

Uma coisa que vocês precisam saber sobre mim, eu odeio resumos, tanto ou mais que eu odeio matemática, se eu passo em matemática é na força do ódio, resumos são o pior inimigo de uma futura escritora.

Eu amo escrever textos longos, pesquisar sobre o assunto, rechear o texto, basicamente entregar uma monografia quando deveria entregar um parágrafo de pelo menos quatro ou cinco linhas.

Para minha frustração, foi exatamente isso que todos os professores de hoje pediram, incluindo de Nihongo e educação física, uma bosta de um resumo de até cinco linhos explicando a introdução escrita na apostila.

Mas uma pontadinha de esperança me acertou em cheio assim que lembrei quem eram as professoras de amanhã, sora Ana de Biologia e sora Carmela de Sociologia, elas me conheciam, sabiam meu problema com resumos e provavelmente pediriam uma resenha que iria deixar a turma toda loca de raiva, mas eu ficaria feliz.

“Foda-se eles... exceto meus alvos.” Disse sorridente.

Puxei a apostila de Nihongo de dentro da mochila, coloquei em frente a mim na escrivaninha, me forcei a lembrar que deveria escrever em português, não Nihongo, porque tecnicamente eu ainda não havia aprendido.

Por alguma razão que eu não tenho a menor ideia, Artemis me deixou ficar com essa. Mas agora pensando pra trás e lembrando das aulas da Kati-sensei... eu conseguia entender por quê.

Kanji viriam logo depois do Hiragana e Katakana, eu tinha uma missão, aprender Kanji tudo de novo me daria um colapso nervoso e eu não poderia focar.

Assim que escrevi a primeira palavra, senti minha mão coçar pensando na enciclopédia Barsa no escritório do pai, visto que a intro era uma explicação da origem da língua Japonesa, “emprestada” da China, e isso poderia muito bem ser recheado com mais informações com bases históricas.

“Resumo Julia, resumo!” A minha consciência ou pior inimiga gritou dentro da minha cabeça.

Eu suspirei frustrada, deixei meus ombros caírem em derrota e foquei naquela merda de cinco linhas

“Amanhã eu me vingo, na próxima aula também.” Disse eu determinada.

A introdução tinha 15 linhas, eu contei. Meu resumo deu vinte e nem precisei pegar a Barsa, ou daria pelo menos cinquenta páginas de fichário frente e verso. Com um sorriso orgulhoso reli o texto na folha pautada, porque eu jamais arrancaria as folhas do meu amado caderno de quadribol do time da Lufa-Lufa.

A autora é uma transfóbica otária, mas eu seria hipócrita se abandonasse aquele universo que eu amava tanto, por isso não vou dar nomes aos bois, apenas chamar a vadia de transfóbica otária que criou um universo incrível.

Depois de colocar o meu resumo cuidadosamente em um saquinho dentro de uma pasta sanfona plástica, lilás obviamente, na divisória de Nihongo escrito em Kanji porque ninguém iria ler minhas divisórias, passei pro próximo.

Matemática, foram duas páginas de fichário que eu comprei no outro dia quando fui numa papelaria perto de casa, meus pais tentaram comprar material escolar pra mim, mas eles não compraram o básico, foi aí que quase metade, 30% eu acho, da minha mesada se foi.

Meu resumo de duas páginas para matemática estava impecável, eu me dedico para as matérias que amo, e me supero para as que eu odeio, assim nunca mais preciso passar por elas.

Educação física, foi na força do empurrão que escrevi o resumo de 15 linhas, eu até curto educação física quando não tem uma bola envolvida, mas não é minha matéria favorita, também não odeio, então dez linhas tava ótimo.

Claro que literatura iria estragar tudo, eu tava me contendo até agora, controlando pra não explodir a coisa toda, mas não na minha matéria favorita, não mesmo. Baixei todos os livros que achei de literatura em cima da minha escrivaninha.

Estava satisfeita quando coloquei a última referência bibliográfica na décima primeira folha, bem na hora que a mãe chamou pra jantar, me espreguicei entrelaçando os dedos braços acima da cabeça, estralando tudo.

Pus as folhas cuidadosamente na pasta e desci as escadas correndo, um sorriso alegre nos lábios. Mal podia esperar pra chegar quarta-feira e entregar meus resumos.

Quando cheguei na cozinha, já atacando a cesta de pães, a manteiga e as chimias, meus pais e minha irmã me encararam com um sorrisinho divertido nos lábios, eles sabiam.

“Primeiro dia de aula foi tão bom assim?” A mana perguntou.

Dei de ombros, “Normal eu acho.” Disse eu enquanto passava manteiga na torrada.

O cheiro de café com leite da xícaras deles era nauseante, servi meu copo de suco de tangerina da Clight que eu amo, cheirei para bloquear o cheiro do café deles, e o cheiro da nostalgia cítrica invadiu minhas narinas, era perfeito.

“todo mundo empolgado pra falar ou continuar as férias de verão, a crentelha da Sofia, reclamando dos temas LGBTQIAPN+ durante o mês do orgulho.”

“Eu jurava que era só LGBTQ+” a Milla comentou engasgando.

Bufei, mais uma gafe, mas como eles sabiam, não era problema. “foi escalando, quase o abecedário todo, eu parei no N, porque sério tava dando dor de cabeça já.” Admiti.

“Então se foi normal... porque esse sorriso como quem acabou de salvar o mundo.” O pai perguntou.

“Ah, eu terminei os resumos que os professores pediram de tema...” Contei. “To orgulhosa.”

Na palavra resumos eles congelaram, olhos arregalados, o pai tinha um sorriso debochado. “Resumo, manda.”

“Vinte linhas para Nihongo, nem precisei da Barsa, 10 linhas para educação física, não tava muito inspirada, 2 páginas para matemática na força do ódio, 10 páginas de literatura, sendo que a 11ª é referência bibliográfica, tentei me reter até o ano de 2011, pra não dar problema.” Eu sabia que tinha um sorriso presunçoso na cara.

“Eu sinto pena dos teus professores.” A mãe comentou.

Meus pais sabiam que não dava pra lutar contra. Eu não conseguia escrever um texto curto, era uma afronta. Quando eu tava na quinta série do fundamental, a professora pediu pra escrever uma redação de 10 linhas sobre as férias de verão... eu escrevi cinco páginas e ainda coloquei uma capa com desenho.

“Pena porquê?” Perguntei, dando uma mordida na torrada. “Eles vão ver que me dedico.”

Milla ofegou, o pai engasgou com a torrada e a mãe cuspiu o café com leite.

“Referências bibliográfica! É um resumo de ensino médio, não uma monografia de faculdade Ju!”

Eu sorri sapeca. “Prova que eu ainda me lembro alguma coisa da faculdade, mesmo que eu não lembre qual era!” Falei animada.

“Deus!” A mãe bufou frustrada. “Mas já terminou ou ainda tem alguma matéria?”

Engoli a torrada que eu tava comendo. “Terminei, deixei literatura por último, então tá tudo certo.” Prometi. “Posso entrar no MSN, agora que to livre do tema de casa?” Perguntei.

O pai fez que sim com a cabeça, eu terminei de comer e subi para o meu quarto, queria notícias da Nay, saber como foi a volta a realidade dela, talvez ela estaria lá no chat, ou mandaria um zap pra ela.

Liguei o notebook, comparado ao meu do ano de 2030 esse era tão lento, que dava vontade de jogar pela janela, tinha que escolher, ou o MSN, ou Skype, ou redes sociais, o lado bom era que a internet “NET Virtua” tinha velocidade superior, e não era mais discada como na época que minha mãe comprou o primeiro computador de tubo.

Entrei no MSN, enviei convite pra Paula e o Pedro me adicionarem e fui verificar no grupo de Glee, depois que a Nay fez o fake dela, “Naomi Andrade”, aquela doida não saía mais do MSN, entrando nos grupos de Glee, levantando a bandeira #TeamBrittana até a morte,

Até fazia “teorias” que entregavam tudo das próximas temporadas, exagerando um pouco pra não ficar obvio demais. No outro dia mesmo ela tinha soltado “Imagina se Rachel, volta pra Lima com a carreira destruída e vira coach do New Directions.”

Todo mundo ria, ninguém acreditava nas teorias baseadas e fatos da Nay. Finalmente achei, quase engasguei a própria saliva quando ela soltou mais uma, tive que reler incrédula

“Tudo acontece em glee, né? Só falta a Kitty começar a namorar o Artie.” Naomi Andrade jogou, chamei ela no privado.

🖤Jubs_Gomes_🈷/MorteAosResumos💜:Hey Nay, como foi lá?

🏳‍🌈Naomi_Andrade👩🏼‍🤝‍🧑🏻#TeamBrittanna🏳‍🌈:O que pode esperar de um estúdio de gravação, gravando drama adolescente... Uma boa dose de drama e divas correndo pra chorar no camarim. Por que morte aos resumos?

Eu me mexi indignada na cadeira e joguei toda a minha frustração e revolta, Naya obviamente respondeu com um emoji de 😂. Naya podia não compreender a minha frustração, mas um dia alguém com alma de escritor iria.

🖤Jubs_Gomes_🈷/MorteAosResumos💜:Desenvolve;

🏳‍🌈Naomi_Andrade👩🏼‍🤝‍🧑🏻#TeamBrittanna🏳‍🌈 Tive uma conversa necessária com a Lee, lembra da treta no Twitter com o #BlackLivesMatter, ela defendeu a tag e todo mundo praticamente chamando ela de racista?

🖤Jubs_Gomes_🈷/MorteAosResumos💜: Fiquei extremamente decepcionada com ela, mas foi isso?”

🏳‍🌈Naomi_Andrade👩🏼‍🤝‍🧑🏻#TeamBrittanna🏳‍🌈: Lembra que te contei que fui no Rooftop com as meninas? Di, Amber e Heather? Então, a Amber teve a brilhante ideia de mandar as fotos no chat do elenco.

🖤Jubs_Gomes_🈷/MorteAosResumos💜: Nem precisa falar, Lea viu e ficou puta...’

🏳‍🌈Naomi_Andrade👩🏼‍🤝‍🧑🏻#TeamBrittanna🏳‍🌈: Baixou o extenso vocabulário floreado na Amber. Daí Amber Puta da vida, joga na cara, Lea correu pro trailer, eu fui atrás dela, Diana foi atrás da Amber no camarim.

🖤Jubs_Gomes_🈷/MorteAosResumos💜:PQP, eu amo fofoca de backstage!

Naya gargalhou, que outra reação minha amiga poderia ter de qualquer forma, eu não pude ficar muito tempo, teria que tomar banho e me preparar para a escola amanhã cedo, mas ela prometeu tentar ficar online amanhã e jogar mais spoiler camuflado de teoria/piada sarcástica no grupo amanhã.

“Quão louco é que tu é melhor amiga da Naya Riviera e ganha spoiler gratuito e fofoca de elenco.” Julinha comentou comigo na minha mente.

“Nem me fala, mas mesmo que seja impossível separar a pessoa da atriz, ela é uma amiga extremamente dedicada e genuína, sabe?” confidenciei.

Fui pro meu banheiro, dentro do quarto, carregando o pijama tipo macacão do pateta que comprei na Disney, afinal eu não comprei tudo de Harry Potter, e este não era quente, a malha era mais fresquinha, provavelmente porque o inverno da Florida não é assim tão frio, e vai gente de todo o mundo nos parques, claro que eles precisam adaptar.

Tomei meu banho relaxante, a água quentinha relaxando toda a tensão dos músculos, eu não tinha nem notado o quão tensa e exausta eu tava, com o retorno, tecnicamente a primeira adulta repetente a cursar o ensino médio sem ser supletivo, me contendo pra não dar spoilers futuros ou errar o nome da presidenta.

“Mas pelo menos, umas mudanças eu já fiz.” Disse eu, enxarcando minha mão com xampu e espalhando na cabeça.

Massageei o couro cabeludo e enxaguei, finalizei meu banho depois de vinte minutos, repus meu óculos e me enfiei dentro do pijama. Saí do quarto, desci até a sala onde podia ouvir o som da tv ligada, meus pais e a mana estavam assistindo o jornal nacional.

Cheguei lá e ouvi o William Bonner ando boa noite. “boa noite, pra ti também, Bonner.” Brinquei, meus pais riram alto.

“Pronta pra dormir?” Obvio que minha mãe tinha que fazer pergunta óbvia que toda mãe faz.

“Uhum, só vim dar boa noite mesmo” Esclareci. “O que rolou?” Apontei pra tv.

“Dilma dizendo que quando atingir a meta, ela vai dobrar a meta, ninguém entendeu.” A mana contou

Eu gargalhei, lacrimejando, segurando a briga. “Não acredito que eu perdi a notícia que deu origem ao maior meme brasileiro depois da Nazaré confusa!” Disse eu desapontada.

Eles ficaram tão confusos quanto a Nazaré com fórmulas matemáticas em volta dela, dei boa noite e fui pra cima, preparar minhas coisas pra amanhã e dormir, amanhã seria um dia animado, com aula de Inglês, no colégio, cursinho de inglês de tarde no Cultura Inglesa e finalmente Judô que minha mãe já tinha garantido o quimono e a faixa.

Fun fact, Quimono em japonês em tradução literal significa “coisa de vestir” foi minha primeira e maior decepção com a língua, nunca superarei.

Peguei o iPod futurístico de dentro da minha gaveta na mesinha de cabeceira, o fone de ouvido bluetooth, os dois funcionando perfeitamente, acessei as músicas de anime mahou-shoujo, coloquei o fone no ouvido, tirei os óculos apaguei a luz e fui dormir, imaginando como seria meu próximo ataque, ou quem seria o próximo alvo.

É claro que em 2012, eu não poderia simplesmente sair pra escola com um smartphone turbinado, ou um airpod, tive que me virar com o MP4 que fingia ser um iPod e o smartphone minúsculo com uma memória tão ruim que cabia praticamente dois jogos tipo candy crush e uma playlist de pelo menos 30 músicas, se o jogo fosse mais pesado, esquece a música.

Então, com minha camiseta preta da Alanis, uma jaqueta jeans de tachinha, all star de cano longo roxo, e mechas coloridas feitas com tinta spray que sai no banho e piercing falso, além dos dois furos na orelha esquerda, eu tava pronta pra ir pra escola.

O único problema foi desenrolar a bosta do fio do fone de ouvido, nostálgico por cinco segundos até perder quase vinte minutos da vida controlando pra não pegar a tesoura e cortar a maçaroca.

O caminho pra escola foi tranquilo, encontrei a Luci e a Lua, pausei a música Ironic da Alanis, tirei o fone, coloquei na mochila do hard rock que comprei em Orlando, finalmente alguma coisa deste ano, e fomos conversando, empolgadas que a primeira aula era com a sora Ana, ela nos daria biologia.

Cruzamos o portão e cumprimentamos o guardinha, Sofia estava lá com cara de poucos amigos julgando cada um que entrava, negou com a cabeça quando me viu.

“Problema?” Perguntei, estreitando os olhos.

“Isso é jeito de vir pra escola?” Ela ordenou. “Não tem respeito?”

O que falar pra uma crentelha que viveu a vida toda dentro de uma igreja e só podia ler a bíblia, livros cristão e escutar música gospel. Como salvar uma pessoa que se recusava a abrir a mente e o coração? Puxei o ar, calei todos os xingamentos que passaram na minha mente adulta ou da Julinha, dei a resposta mais madura que encontrei.

“Não é porque uma pessoa se veste com um estilo diferente que ela não tem respeito.” Disse eu, minhas amigas cada uma de um lado.

“Usar palavrão, não é falta de respeito agora?” Ela perguntou um tom sarcástico e venenoso.

“Não quando não usado de forma ofensiva....” Luciana a mais comportada de nós três afirmou. “Além do mais, a Ju não estava desrespeitando a professora, ela estava ajudando.”

“Ai gurias, não vale a pena perder tempo, vamos pra sala” Pediu a Lua, ela tava certa., “Mal posso esperar pra ver a sora Ana de novo.” Disse ela animada, segurando minha mão e arrastando nós duas com ela.

Sofia ficou pra trás com a cara fechada, mas completamente sem palavras, talvez este era um começo, não do jeito que eu queria, mas definitivamente um começo.

A sora Ana já tava na sala de aula quando chegamos, uma pilha de apostilas encadernadas num canto da mesa, ela abriu um sorriso enorme quando nos viu, os olhos verdes arregalados, puxou nós três para um abraço apertado.

“Minhas três pestinhas voltaram com tudo este ano, né?” Ana brincou, o cheirinho de perfume amadeirado que ela usava sempre me encheu de saudades.

“A Ju principalmente, subiu na mesa, tipo a Xena, com os olhos gelados da Quinn Fabray e o vocabulário da Santana Lopez, pra defender a honra da sora de literatura.”

Ana nos soltou rindo alto, “Se a Carmela escuta isso, ela vai ficar tão orgulhosa quanto eu to agora. “ Assegurou ela com um sorriso da aprovação nos lábios.

Quando os colegas começaram a entrar nós sentamos nos nossos lugares, mal podia esperar pra esta aula começar e anotar tudo o que ela dissesse. Já fui puxando o caderno e o estojo.

A sora Ana distribuiu as apostilas e fez a chamada, cada nome ela pedia que a gente se apresentasse, depois lemos o plano de ensino, começando com células e nervos do corpo, e por fim leitura da introdução da apostila.

Dez minutos faltando, ela lançou o tema, eu tava ansiosa. “Okay pessoal, pra próxima aula, eu quero todas as perguntas da página cinco respondidas, discutiremos em aula.”

O sinal bateu, pude ouvir os protestos de alguns dos colegas, eles odiavam tema de casa que fazia eles pensarem, mas no fim se eles quisessem chegar no ensino superior eles teriam que fazer algum esforço.

Próxima aula era história com o Zé, ele era o professor mais divertido, sempre levava alguma descoberta que fez quando trabalhava como arqueólogo, como uma garra de dinossauro ou mesmo uma imagem de um sítio arqueológico em que trabalhou, era o Indiana Jones quase centenário dos dias de hoje.

Uma vez, mais pro meio do período, ele veio pra escola de Indiana Jones, com chicote e tudo, usando como pointer no quadro negro, era muito engraçado, mas tenho certeza que ele dava chicoteadas no quadro pra manter a turma acordada, mesmo sendo impossível dormir na aula dele.

Eu não podia estar mais empolgada, mesmo que fossemos começar com pré-história, ele pelo menos pediu para fazermos uma redação sobre o que esperávamos da matéria, nada relacionado com a introdução da apostila.