Empecilhos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Londres, 7:00 pm, 21/03/14.
– Volte sempre! — sorria Arthur, ao se despedir de seu último cliente.
– Arthur, você já pode ir para casa, eu fecho a loja.
– Hoje foi um dia cheio… Tudo certo para minha folga amanhã.
– Sem problemas, meu sobrinho irá me ajudar com as vendas.
– Certo. Até segunda, Sr. Shepard. — Disse Arthur enquanto guardava seus pertences pessoais em sua bolsa carteiro. Despediu-se outra vez de seu chefe e foi embora.
Era uma dádiva morar a apenas cinco quarteirões de seu local de trabalho, a Paw’s Promise Pet Shop — ou Paw’s Pet para íntimos.
Arthur trabalhava como vendedor, e, devido a isso, aprendeu a conviver com os mais diversos tipos de clientes, dos tagarelas italianos aos polidos japoneses.
Não ganhava muito, senão o suficiente para pagar as contas de seu apartamento de 36m² que dividia com seu namorado, Alfred F. Jones. Um lugar pequeno, porém era o que dava para pagar com os salários baixos dos rapazes.
Sobre os dois, eles tinham um relacionamento maravilhoso; abraços antes de sair e ao voltar, dividiam as tarefas e faziam planos juntos. Brigas? Aconteciam, porém raras — e normalmente sobre assuntos financeiros. Contudo, a vontade de ficar perto um do outro sempre vencia. Arthur amava mais a Alfred do que a si mesmo, e parecia ser recíproco.
Ao dobrar a terceira quadra, ouviu um bipe que desviou sua atenção. Seu celular. Era Alfred. Um snapchat de Alfred, mais precisamente. Abriu o aplicativo e a sequência de imagens veio: um Alfred com uma gata branca de patinhas fofas apertando-lhe a bochecha. Alfred com cara de paspalho. A gata querendo mata-lô, legenda: “She said yes”. Próxima cena: um rosto arranhado, com band-aids, legenda: “Love hurts.” Arthur riu. “Dork.”
A volta pra casa foi mais feliz.
– — -
Barulho de chaves. Clique da porta. Arthur chegou em seu apartamento.
– Cheguei.
Serafina, como sempre, era a primeira a recepcioná-lo, esfregando o corpo macio nas pernas do britânico, intercalando ronronados e miados. O ritual era o mesmo: Serafina chegava, Arthur a chamava de “Fininha” em uma voz infantil e pegava a gata no colo, amassando-a. Depois a soltava e ia em direção a Alfred — que provavelmente estaria sentado no sofá -, dariam um beijo e o resto do dia seguiria seu curso normal. Porém, não hoje. A criança de 23 anos estava no banheiro, limpando o rosto dos arranhados. Sorte que ela tinha um adulto de 26 por perto para lhe ajudar. Rumou para lá.
– Essa gata me odeia. — Alfred chegou a esta conclusão enquanto checava o rosto contra o espelho acima da pia, o virando de lado e usando as extremidades da pia redonda como apoio.
– Ela te ama de uma maneira violenta. — Respondeu Arthur, enquanto procurava lenços no armário do banheiro. — Vira o rosto pra cá. — Segurou o queixo de Alfred com uma mão e limpou os arranhões com a outra, delicadamente para não machucar mais ainda o rapaz.
– Ai! — Resmungou Alfred. — Cuidado aí.
– Ninguém mandou você ser um dork e apertar a Serafina. Sabe que ela é temperamental; aproxime-se, vou colocar novos band-aids em você. — Procurou na gaveta algum curativo “comum”, mas só tinha caixas de band-aids estampados em motivos infantis; parecia que o mais novo tinha certa paixão por colecionar esse tipo de coisa. “Sinceramente, Alfred.” Suspirou. Escolheu o mais decente deles, que seria do Super Homem e colocou nas feridas do rapaz.
– O quê?
– Deixa pra lá. Depois me diz o que seus colegas acharam dos seus curativos de super heróis.
– Eles vão ficar com inveja, isso sim. — Deslizou a mão para a nuca do mais baixo e beijou-lhe os lábios, o puxando para um abraço com toques de “Senti a sua falta”, “Mas eu fiquei só dez horas fora”, “Mesmo assim”.
Voltaram para a sala, que era o point do apartamento.
Conversaram sobre o dia, seus empregos, suas angústias. A de Arthur era sempre a mesma: sua frustração profissional.
Arthur Kirkland, formado em Letras, almeja ser escritor, mas escreve péssimas obras. Nunca uma editora aceitou um livro seu, sempre alegavam as mesmas coisas: estória comum, ou quando era boa, era mal escrita e não teria apelo no mercado. Isso sempre o deixava cabisbaixo.
Antes, Alfred sustentava o apartamento sozinho, trabalhando em uma pequena empresa de publicidade — já que esta era sua área de graduação. Ele sempre preferiu que Arthur ficasse em casa produzindo textos e obras, focando em seu sonho, mas as contas chegavam e sempre estavam apertados financeiramente, até a ração de Serafina estava sendo fracionada. Mas Arthur não podia mais deixar as coisas dessa maneira, brigas aconteciam pela falta de dinheiro, era melhor deixar o desejo de lado e voltar para a realidade.
Após uma briga com Alfred, Arthur ficara muito abalado, pegou algumas libras e foi comprar ração para a gata, mas ambos sabiam que isso era apenas um pretexto para se recuperarem da discussão. As falas do namorado estavam doendo demais, ele havia dito coisas como “Pagar as contas sozinho está me esgotando”, “você precisa escrever algo logo”, “Pare de vadiar”. E como sempre, o britânico não ficou calado e rebateu com os mesmos tons de ofensas, “Fala isso mas não consegue uma promoção”, “Já está há décadas naquela empresa e nunca cresce”. Frases que sempre vinham com arrependimento depois, e eles sabiam disso.
Contas acabam com um relacionamento — e Arthur tinha medo que tal coisa acontecesse com eles.
Chegou na Paw’s Pet e solicitou meio quilo da ração favorita de Fininha. Sua voz estava embargada, machucada, porém conteve-se. Após as formalidades e compras, o dono da loja, Sr. Shepard, perguntou sobre a saúde de Serafina e se Arthur havia conseguido publicar seu livro (o vendedor tinha ciência dos planos do loiro, pois este era seu cliente fazia anos), mas a resposta foi negativa.
– Ainda não… Parecia mais fácil quando eu ainda estava na faculdade — proferiu uma risada tímida -, acho que vou procurar um emprego “convencional” até me estabilizar financeiramente.
– Entendo… Estes anos tem sido difíceis.
Shepard refletiu um pouco, olhou para toda a arquitetura de seu estabelecimento, seus gastos e lucros, tudo em lapsos de segundos, então fez a proposta para Kirkland.
– Sério? Ah, eu aceito sim! Não, claro, claro! Tudo bem, eu moro perto daqui… Segunda? Sim, sim! Eu virei! Às 9h? Certo, até lá. E obrigada, Sr. Shepard!
O velho homem ficou feliz. E Arthur mais ainda.
Voltou às pressas para casa e dar a boa notícia à Alfred, mas foi surpreendido pelo mesmo.
– O que é isso? — Arthur pegou o envelope e o abriu: um desenho infantil, de um rapaz de olhos verdes com sobrancelhas grossas, “Idiota”, pensou, e outro de olhos azuis, rosto redondo e corpos de traços. Uma coisa com orelhas e um lacinho (julgou ser Serafina) e uma casinha de dois andares, com setas apontando para as janelinhas, com os dizeres: “nosso quarto”, “escritório”, “coleções de livros publicados pelo Arthur”, “Coleção de premiações de Alfred”, e com uma grande frase adornando todo o desenho, como um arco-íris, “Nosso Futuro”. Um sorriso desenhou o rosto alvo.
“Dork.” Andou em direção a Alfred e o abraçou, afundando as faces em seu ombro, apertando-o contra si.
Ficaram ali, sem trocar palavras, apenas a se aninhar um contra o outro, entre suspiros. Não precisaram de desculpas, eles sabiam que momentos bons e ruins acontecem com todos os casais e as ofensas nunca foram realmente intencionais.
Aquela foi a reconciliação. Os dois ali, parados, abraçados, demonstrando amor sem trocar uma palavra sequer.
Na sequência do momento que ambos precisavam, o mais baixo contou empolgado sobre seu novo emprego, e, mesmo à contragosto, o namorado aceitou a imposição; eles precisavam de dinheiro.
Ao fim, o desenho foi posto na geladeira com uma mensagem: “Não há nada que não possamos superar, desde que estejamos juntos.”
Por causa de Alfred, Arthur já tinha se esquecido o significado de “Eu”, porque só existia “Nós”.
– — -
Trocaram beijos e carinhos enquanto assistiam à uma série de tv, jantaram algo queimado feito pelo mais velho e foram deitar. Alfred chamou Serafina para o quarto — ela dormia junto a ambos — e fecharam a porta, desligando a luz. Deitou-se ao lado do namorado e virou-se em direção à ele, deslizando os dedos pelos cabelos arenosos. Depositou beijos pela face pálida, já desejoso.
– Sério isso? — indagou Arthur.
– Amanhã é sábado — replicou -, não vamos acordar cedo. — Continuou a beijar e fazer carícias no britânico, deslizando, agora, a mão pelo peitoral e quase chegando ao ventre.
– I'm teasing you, dork.
Arthur empurrou o mais novo para o lado e já se encontrava sobre ele, o beijando de forma mais lasciva. Suas costas estavam sendo dedilhadas por mãos alheias e seu pescoço sugado por Alfred. Suspirava. Moveu os quadris no colo do rapaz. Outro suspiro. E não era de Arthur. Trocaram mais carícias e quanto perceberam, já estavam nus, suados, e ignorando a presença de Serafina dormindo na caminha dela, ao canto do guarda-roupa. A cama rangia de forma maliciosa, batendo contra a parede, e talvez o vizinho viesse reclamar outra vez, já que os rapazes não eram dos mais silenciosos. Porém, isso não importava. Estavam juntos. Arthur e Alfred. Amando-se.
Quando terminaram, cada um caiu para um lado da cama, esbaforidos e suados, apenas de mãos dadas. Depois de recuperarem o ar dos pulmões, Alfred quebrou o silêncio:
– Não dá para dormir assim — brincou -, até punks tomariam banho depois dessa.
– Meu Deus, esqueça isso! — bufou — Eu deveria ter rasgado aquelas fotos.
– Quem diria que o adolescente punk se tornaria um adulto responsável que tem emprego fixo.
– Todos cometemos erros na adolescência. Pelo menos eu não tinha um body pillow de uma personagem 2D--Ouch! — Alfred socou o braço de Arthur como movimento involuntário.
– Caramba, porque eu fui te contar, idiota!
Após risadas de Arthur e piadas com a palavra “waifu”, eles decidiram, finalmente, tomar banho — juntos.
Conversaram sobre marcas de pizza, a grandeza de uma colônia de formigas e o quão cruéis elas poderiam ser, enquanto um lavava as costas dos outros e passavam xampu. Como sempre, o britânico forçou o namorado a passar uma máscara de algas marinhas nos cabelos “porque isso vai deixar os fios macios e brilhantes”, enluvando mecha por mecha do cabelo de seu amado. Trocaram beijos infantis embaixo da água corrente até entrar espuma nos olhos do míope, fazendo o outro emitir barulhos estranhos de tanto rir da cara inchada do namorado, mesmo recebendo tapas de opressão.
Secaram os corpos e cabelos, então foram dormir, sibilando um “Eu te amo” mútuo.
O final de semana foi maravilhoso.
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