Empecilhos

2 Capítulo 2


Londres, 5:00 pm, 13/08/14.

— Arthur, seu celular está apitando.

— Ah, já vou! Só vou terminar de estocar essas coleiras! — Respondeu. — S, M, L, três roxas, quatro verdes… Falta uma roxa… Ah, atrás dessa. Pronto.

Foi até o balcão e pegou o celular. Era Alfred lhe chamando no messenger.

Tenho novidades! :D

Arthur?

Artie!!!

Não me ignore, isso destrói meus sentimentos ♥

Meu Deus, esquece que eu trabalho.

Então, o que é?

Ah

Pensando bem

acho melhor te contar quando chegarmos em casa, hehe

Como assim? Conta agora.”

E estragar a surpresa??

Alfred F Jones, não acredito que você fez isso só pra me deixar ansioso! You git!

Haha, that’s me. :))

Eu te odeio.”

Eu te amo, bom serviço! Até às sete!

Eu também, até mais tarde.

Dork… — A sineta da porta tocou, uma garotinha de pele negra e laços vermelhos adornando o cabelo entrou correndo no estabelecimento, falando várias vezes que queria comprar um peixinho dourado. A mãe da criança veio logo atrás, exigindo postura da menina e se desculpando pelas atitudes da pequena. Como era de praxe, o vendedor disse que não havia problema e levou a criança até os aquários, para que ela escolhesse o peixinho que mais lhe agradasse.

Arthur estava tentando focar-se no serviço, mas sua mente martelava em uma frase só: o que seria a novidade de Alfred? Ele parecia animado, talvez alguma revista grande fechara contrato com a empresa em que ele trabalhava, talvez tivesse ganhado uma promoção… Ou apenas achou uma linha nova de band-aids estampados. Alfred era desses.

Ficou para fechar a loja pois o Sr. Shepard teve que ir embora mais cedo, o que o fez sair meia hora mais tarde do que o habitual. Já estava prestes a roer as unhas de tanta ansiedade. Quando, finalmente, chegou em casa, a primeira coisa que fez — após o hábito de aninhar Serafina — foi indagar o mais novo. Mas… Alfred estava sério. Estranho.

— Então… Qual é a novidade?

Sentou ao lado de Alfred no sofá, colocando a mão sobre o ombro dele, com o olhar aflito.

— Vamos, estou bastante curioso.

Silêncio. Arthur já queria matar Alfred empalado com um taco de beisebol.

— Alfred!!

— Okay! Eu falo, haha — riu fracamente — Eu recebi uma proposta ótima de emprego!

— Meu Deus!! — abraçou o namorado, apertando-o fortemente — Isso é ótimo! Mas, por que você parece tão pra baixo?

— Na verdade eu estou super feliz! Vai ser um super avanço para minha carreira! Tenho fortes chances de crescer como publicitário, mas…

— Mas o quê? Vai ter muita carga horária? Se for o salário inicial baixo, eu posso fazer horas extras sem problemas e--

— Estados Unidos.

— Hã?

— A empresa fica nos Estados Unidos.

Arthur quase conseguiu ver a sua ficha caindo.

— Então… Você vai para lá…

— Sim… A empresa vai bancar as passagens e a estadia por uns meses…

Kirkland levantou-se do sofá, pondo a mão à boca, refletindo. Mil e um pensamentos corriam pela sua mente. O que poderia vir a seguir? Conseguiria viver sem o rapaz? Manter o apartamento? Isso seria um fim? Conseguia sentir seus olhos enchendo de lágrimas quando alguém o abraçou pelas costas.

— Arthur… Eu não vou te abandonar. Pensa que estou indo pra juntar dinheiro pra nós!

— S-Sim… Claro… Mas a distância é difícil, você sabe disso...

— Temos internet! Vamos conversar pelo Skype todos os dias! E… E quando der eu venho para cá. É só uns meses… Vai passar rápido! Num piscar de olhos!! Posso mandar cartas todos os dias e--

— Shh. Tudo bem. — Engoliu o choro para das lugar à um sorriso fraco — “Não há nada que não possamos superar, desde que estejamos juntos”, não é?

Tornou-se em direção à Alfred sem o dar chance de replicar e o beijou docemente, apenas movimentando os lábios contra os do namorado. Foi o beijo mais necessário dos dois.

— Então… Quando você parte?

— Daqui duas semanas…

— Haha, temos tempo para fazer um monte de coisas juntos! Vou pedir para o Sr. Shepard adiantar minhas férias, ele está me devendo umas e vamos aproveitar!

Chegou a passar pela mente do britânico o fato de Alfred parecer inflexível quanto sua decisão; ele sequer cogitou a possibilidade de ficar em Londres. Porém, Arthur era adulto, sabia que seria irresponsabilidade da parte de ambos se Jones não fosse, aquele emprego auxiliaria no futuro dos dois e era chance única.

— Desculpa… Eu não posso perder essa oportunidade…

— Tudo bem, eu entendo.

— Você é tão compreensível — riu.

— Na verdade — seu sarcasmo era eminente -, só estou pensando na nossa futura jacuzzi.

— Será pouco! Esse emprego nos fará comprar nossa casinha, sair desse apartamento minúsculo — Serafina interrompeu a fala de Alfred pois a gata era necessitada de afiar as unhas nas pernas dele -, vamos poder comprar até um arranhador de verdade para você, bola de pelos!

— Hum… Acho que ela vai continuar preferindo você. Péssimo gosto, eu diria.

Passaram o resto do dia fazendo planos para como seria a vida dos dois após Alfred ficar bem sucedido na empresa norte-americana que trabalharia; a casa, o terreno, a horta que Arthur teria e as roseiras e margaridas do jardim, além de uma piscina e banheira, e claro, uma casinha enorme só para Serafina, cheia de pontes e ligações, cordas, brinquedos, talvez até um namorado para a mesma, um gatinho malhado que se chamaria Steve Rogers — “Meu Deus, Alfred!”, “Quê?”, “Não tinha como ser pior?”, “Falou quem nomeou uma gata de Serafina”, “Não ouse”.

Arthur conseguiu as duas semanas de férias, já que o Sr. Shepard era bastante compreensivo e sempre tinha aquele sobrinho para lhe auxiliar nos dias que Arthur estivesse fora.

Os dois fizeram uma listinha do que fazer nessas duas semanas, festejariam como se fosse a semana de final de ano — já que não passariam juntos pela primeira vez em quatro anos.

Foram em parques, praças, shoppings, namoraram no cinema (sentaram em um local bem distante para poderem trocar beijos em paz, como um casal nos primeiros meses de namoro), se entupiram de fast-food e filmes em casa, mas sempre reservavam uma energia para gastar à noite.

Tiraram muitas fotos, das mais diversas, fotos trocando beijos, fazendo caretas, apenas sorrindo com aquele olhar apaixonado — a London Eye rendeu várias fotos engraçadas de Alfred apavorado, enjoado, quase desmaiando, atípico de quem se denominava valente e heroico.

O penúltimo dia foi o “dia do romance”. Ambos escreveram várias cartas e espalharam pela casa, pareciam adolescentes novamente, mais desenhos foram postos na geladeira e promessas de amor eterno. E era como realmente seria, para ambos.

O dia anterior à viagem foi o dia da arrumação de malas — Arthur aproveitou a distração de Alfred e escondeu um frasco da máscara capilar de algas marinhas entre as cuecas de super heróis e séries do seu dork preferido. O britânico ficou a dobrar as roupas e as pôr na mala enquanto o viajante ligava para seu futuro chefe, fazia as combinações para quando chegasse nos Estados Unidos e pedia uma pizza para o jantar.

Foi pizza e vinho, algo contrastante. Não trataram o jantar como se fosse o último, mas apenas mais um da eternidade que os aguardaria.

Depois do vinho fazer efeito, entraram no quarto se amassando, tirando a roupa um do outro e beijando-se enquanto batiam nos móveis, estes sons que similavam aos do vizinho batendo com uma vassoura na parede, pedindo para que os garotos moderassem. Pedido não acatado, claro.

Desta vez, não tomaram banho após o ato sexual, apenas dormiram juntos, como sempre.

O embarque foi doloroso. Nem Alfred nem Arthur queriam chorar, mas ambos entendiam a vontade um do outro. Não ligaram para o fato de ter várias pessoas a volta deles e beijaram-se, Kirkland conseguindo remover a touca da cabeça de Jones de tanto amassar os cabelos do rapaz.

— Bem, eu te vejo no Skype amanhã.

— Eu também. “Não há nada que não possamos superar, desde que estejamos juntos.” Eu te amo, punk.

— Eu te amo, dork. Cuide-se lá nos Estados Unidos, por favor… e... volta logo. — o abraçou.

— Eu irei, voltarei com a nossa casa já.

Beijaram-se mais uma vez, se despediram.

Arthur ficou até ver o avião onde estava Alfred partir, e então, foi para casa. Chegando lá, acariciou Serafina e encheu-lhe o potinho de ração, notando o desenho na geladeira e dando um sorrisinho bobo.

A saudade doeria, mas era para um bem maior.

— — -

Londres. 10 pm. 10/01/15

Arthur conseguiu um desconto no aluguel e dedicava-se totalmente ao trabalho. Quando chegava em casa, cuidava de Serafina, banhava-se, assistia a séries até dar as tão esperadas dez horas da noite. Este era o horário que, salvo exceções, ele fazia uma video chamada com o namorado.
Seu notebook começou a dar alerta de uma video chamada, correu em direção à ele e a aceitou. Um Alfred sorridente, encasacado e de cabelos bagunçados apareceu na tela. O coração de Arthur era preenchido de alegria toda vez que o via.

— E aí, nova iorquino.

Oi, bonitão de Londres.

— Adivinha quem está com saudades.

Não é possível.

Neste momento, Serafina já acostumada com o procedimento que o dono fazia todos os dias e reconhecendo a voz, pulou no colo do humano e começou a miar para a tela, ronronando para a mesma, passando a patinha no visor.

Hahahaha, então você só percebeu que me ama depois que mudei de país?

— Eu disse que ela te amava, dork. Mas de uma forma mais violenta.

Ahh, ela deve estar com saudades das minhas pernas.

— Não tenho dúvidas.
Conversaram sobre seus empregos, os dias, novidades, trocaram promessas de amor e as ligações sempre encerravam com infinitos “Eu te amo”.
Arthur desligou o notebook e foi dormir, mais sorridente que o normal. Alfred não imaginava, mas Kirkland mentiu quando disse estar sem novidades. Ele tinha uma: estava juntando dinheiro desde que Alfred partira para o visitar nos Estados Unidos.

Tinha quase que quantidade o suficiente para viajar, e, em poucos meses, ambos estariam juntos novamente.