Emelly White
2 Um barulho no sótão.
Notas iniciais
Estranha.
Não havia palavra melhor do que essa para descrever a minha primeira noite na casa nova.
Eu não tinha me acostumado com a cama ainda, alem de fazer um frio grande e eu acordar toda hora com o barulho dos trovoes e clarões dos raios que caiam sem parar, como se o céu estivesse nervoso.
Depois de perceber que com aquela tempestade eu não conseguiria dormir, eu me levantei e fui ate a janela do meu quarto, que estava destampada das cortinas. Olhei para o jardim lá em baixo, as arvores estavam balançando violentamente com o vento forte, a cada raio que caia a floresta ao redor parecia mais assustadora, e foi nesse momento que eu vi pela primeira vez.
Por entre as arvores mais próximas da minha casa, um homem caminhava, mas não era comum, eu só pude o ver quando um raio iluminou perto da onde ele se encontrava, e pelos breves instantes eu tive a certeza absoluta que os seus olhos – orbitas brancas sem pupila – olhavam diretamente para a casa, depois percebi que olhavam diretamente para mim.
Meu coração acelerou e um pânico imediato se formou em mim quando eu o vi me encarando, algo em sua expressão me dizia que não seriamos melhores amigos...
Com mais um trovão de sacudir a casa e outro raio, o homem desapareceu.
Me afastei na janela, minhas pernas pareciam pesar mais, medo, pensei. Precisava ir ate o quarto do meu pai e contar o que eu havia visto – quer ele acreditasse ou não, mas eu precisava contar.
Fui ate a porta do meu quarto e a abri. O corredor estava muito escuro, as únicas luzes que não deixavam tudo completamente no breu eram os raios que caiam quase a todo instante.
Segui pelo corredor ate a porta do quarto do meu pai, mas pouco antes que eu batesse à porta algo me impediu.
Musica clássica.
Vinha do sótão novamente o barulho de musica clássica, só que dessa vez havia também um barulho de chiado, como o de um choro agudo e baixo. Os pelos da minha nuca se eriçaram.
Me afastei da porta do meu pai no instante que eu vi que a porta do sótão – trancada à horas antes – estava entreaberta, e uma fraquíssima luz amarelada, como a de velas, brilhava lá em cima.
Sei que era arriscado, que eu deveria ter chamado o meu pai ou entrado com arma, mas eu não pensei nisso naquela hora, minha curiosidade sobre a origem daquele som me instigava demais, não pensei duas vezes antes de me aventurar sótão a cima.
As escadas de acesso rangiam a medida que eu subia, a cada barulho eu me assustava mais. Quando eu cheguei ate a porta de entrada, o choro parou, tão de repente quanto começara.
Hesitei antes de abrir a porta, meu coração havia acelerado demais.
Abri a porta, o sótão era a maior bagunça que eu já tinha imaginado, os móveis ali também eram cobertos de panos brancos. Goteiras caiam dos buracos no teto, molhando o lugar. Mas o que chamou a minha atenção era que em um canto havia uma vitrola e madeira, com um disco de aparência gasta rodando em seu interior. Cheguei perto e vi que ali era a origem da musica, tirei o disco e o examinei, eram obras de Mozart, era um disco preto simples, coloquei de lado.
Do lado da vitrola, havia uma pequena vela de cera queimando, já estava pequena, mas a chama era incansável, me perguntei quem à havia acendido e colocado ali, era com certeza assustador....
Nessa hora ouvi passos às minhas costas, como alguém se aproximando cautelosamente, me virei.
Quase cai no chão de tanto susto quando vi que tinha uma garota atrás de mim, mas o que me assustou realmente era ela ser transparente.
Transparente.
Tinha os cabelos negros escorridos, olhos azuis como a parte mais profundo do oceano e usava uma camisola branca que ia ate os pés, tinha aparentemente a minha idade, lagrimas prateadas caiam dos seus olhos.
Não sei bem o que senti na hora, mas lembro de ter ficado uns instantes em choque, ela me olhava com um olhar tão... diferente.
— Quem é você? – perguntamos ao mesmo tempo, a voz dela parecia uma voz distante, como gravações antigas.
Ela abriu um meio sorriso.
— Meu nome é Alyssa Hughes – respondeu a menina-fantasma. – E você, quem é?
— Meu nome é Emelly White – respondi, senti o meu corpo todo tremer e as minhas mãos estavam tão geladas que pareciam ter passado horas no congelador. – Desculpe a minha indiscrição Alyssa mas...O que você faz aqui?
— Eu moro aqui – respondeu ela.
— Espera, isso deve ser um grande engan...- disse, mas de repente a compreensão veio à mim como um balde de água fria. – Você é a garota que morreu aqui, não é? A filha de um casal...
Ela sorriu de um modo como se estivesse tendo que aceitar uma verdade amarga.
— Eu nasci aqui, eu morri aqui... – disse ela.
Nesse momento fui tomada por outro susto, um raio altíssimo que sacudiu as estruturas da casa, mas algo alem disso.
Alguma coisa batia forte na janela do sótão, parecia esperar que alguém abrisse, um vulto preto por entre um céu azul de tão intenso.
— Nem todos os fantasmas são bons... – disse Alyssa tristemente, olhando para a figura na janela.
Eu não sabia o que responder, era informação demais pra mim.
Ela passou por mim e ligou o aparelho se som antes que eu a impedisse.
— Gosto de música – respondeu ela. – É uma das únicas coisas que me fazem ter um pouco de paz...
Ela encostou um braço em mim, era assustadoramente gelada, como um cubo de gelo, mas os olhos chorosos eram calorosos como chamas, olhei para a vitrola também, e ficamos um bom tempo assim, mas do que eu pretendia.
— Emelly! O que faz aqui? Te procurei pela casa toda... – disse a voz assustada de Jen, olhei para o lado, já havia amanhecido e a luz do sol entrava pela janela. Eu estava sozinha no meio do sótão encarando uma vitrola que não tocava, Jen me olhava assustada.
— E-eu... – não conseguia encontrar uma explicação plausível para estar ali, por isso disse que eu tinha subido apenas para conhecer o restante da minha nova casa, não queria assustá-la com a história da menina-fantasma, do homem na floresta e muito menos do espírito na janela.
— Bom, venha comer, seu pai e eu vamos à cidade daqui a pouco e queremos que você vá junto – disse Jen, segurando a minha mão e me puxando para fora do sótão. – E também resolver as coisas da sua nova escola.
Olhei para ela com um olhar triste, tínhamos acabado de chegar, e tinha muita coisa acontecendo para eu me preocupar com a escola.
Mas ela estava irredutível.
Depois de tomar café com ela e meu pai, subi para o meu quarto a fim de tomar um banho antes de sair, e foi isso que eu fiz. Ainda fazia um pouco de frio, por isso vesti jeans, um tênis qualquer e um moletom, antes de me reunir na sala com eles e sairmos de casa, em direção à cidade.
Mas na minha cabeça só estavam os pensamentos sobre os fantasmas e o que tinha acontecido na noite anterior, será que eu tinha imaginado tudo aquilo? Não, qual a explicação para eu estar no sótão então? Aquilo não fazia sentido nenhum pra mim, mas descobriria logo, o mais rápido possível de preferência.
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