Emelly White

3 Meu primeiro passeio ao vilarejo de Daunter.


Notas iniciais
Boa leitura ♥

A viagem de carro ate a cidade foi algo diferente de tudo que eu já tinha visto desde então, a cidade era simplesmente o lugar mais fascinante que eu já tinha estado.

As casas mantinham características colônias e vitorianas, algumas ruas conservavam o asfalto de pedras rústicas, os postes conservavam características antigas movidas à energia elétrica. Passamos de carro por construções impressionantes, como o hospital de rua
Blue Diamond, uma construção de dois andares, cinza-pálido, com portas de carvalho pelas quais entravam e saiam pessoas a quase todo instante, algumas ambulâncias postadas do lado de fora, com as suas luzes vermelhas e azuis piscando, conseguia ver algumas pessoas pelas janelas que davam para a rua, algumas delas riam em seus leitos, outras choravam...

Na avenida Swallow, passamos em frente a um teatro, ele era típico da Idade Média, parecia um dos teatros da Grécia antiga, com pátio circular que dava para uma arena grande. A construção era inteiramente de pedra branca e tinha um palco para espetáculos em um dos cantos, onde algumas pessoas ensaiavam para algum tipo de apresentação de ballet.

Paramos em um sinaleiro, em frente a uma grande igreja que foi a construção que com certeza mais me impressionou. Parecia um cenário saído de algum filme te terror, tinham torres e masmorras como os castelo medievais, o que suspeitei que teria sido as antigas instalações do local. O carro parou bem em frente à entrada da igreja, olhei para dentro do local, não havia ninguém a não ser um homem baixo e calvo, de rosto hostil, era quase careca a não ser por alguns fios de cabelo negro como piche, usava uma túnica branca que ia ate os pés e uma cruz tosca de madeira pendurada no pescoço, ele conversava com outro homem. Este outro era alto e robusto, usava uma roupa inteiramente preta, tinha os cabelos castanhos e bagunçados, tinha também um olhar cruel e um tanto psicopata, usava a mesma cruz tosca eno peito.

Ambos pararam o assunto assim que repararam que eu os estava encarando e me olharam com igual curiosidade, não desviei o olhar, apenas quando o sinaleiro abriu e já tínhamos passado da igreja que virei o olhar.

Paramos o carro em frente a um café que parecia a construção mais moderna dali, descemos para o dia ensolarado e entramos no café, nos sentamos em uma das mesas perto do balcão e uma moça jovens de cabelo curto castanho e olhos verdes, usando uma saia vermelha e uma blusa branca com a logo do café estampada veio nos atender.

— Bom, o que desejam? – perguntou ela, enquanto olhávamos os cardápios.

— Um mil shake de chocolate para a minha filha, uma fatia de torta de morango para a minha esposa e café preto forte pra mim. – respondeu o meu pai, a moça se afastou e voltou pouco depois com os nossos pedidos, colocou-os na mesa e se afastou, me lançando um sorriso, que correspondi.

Comemos o nosso lanche em silencio, o meu milk shake estava uma delicia, e pela cara de satisfação do meu pai e Jen, os deles também estava.

Depois de comermos pagamos a conta e saímos do estabelecimento, entramos no carro e seguimos viagem.

A escola de Daunter era enorme, ficava em uma das maiores avenidas da cidade, o estacionamento tinha inúmeras vagas cheias de carros, uma entrada com um chafariz e canteiros de flores e gramado, onde alguns alunos estavam sentados em cima de toalhas lendo, conversando ou namorando. O uniforme era padronizado, o feminino era uma xadrez preta com vermelho e branco que ia ate o meio das coxas, uma blusa branca de manga e gravata vermelha com preta, com um casaco preto por cima com o símbolo do colégio – uma águia. O uniforme masculino era uma calça preta, uma blusa branca com gravata vermelha e casaco do colégio.

Fomos ate a secretaria, que era em um prédio pequeno em comparação aos outros, com dois andares, parecia um escritório, esperamos sentados em sofás de couro enquanto o meu pai ia me matricular com uma mulher sentada atrás do balcão, ela tinha cabelos brancos presos em um coque elegante e usava um tailleur cinza e óculos.

Me ocupei em olhar para a secretaria, eram cômodos pintados de branco, com quadros de alunos nas paredes, vasos de plantas nos cantos, cheirava a álcool gel e papel novo, algumas pessoas estavam atrás das escrivaninhas de mogno, mexendo em computadores modernos, todos vestidos com roupas formais, o clima ali era agradável, nem frio demais, nem calor demais, uma porta imponente no final de um corredor à esquerda estava fechada, mas de alguma forma eu sabia que ali era a diretoria.

Meu pai terminou de me matricular em algum tempo e a mulher falou para um microfone ao seu lado.

— Atenção, senhor Nicholas Johnson, por favor, compareça à secretaria imediatamente.

Ela me estudou com curiosidade nos momentos que se seguiram ate a chegada do tal Nicholas, que entrou na sala com a cabeça baixa, como se estivesse com medo de tomar uma bronca.

— Bom dia senhor Johnson. – disse a mulher de cabelos brancos, depois ela sorriu e apontou para mim. – Essa é a senhorita White, a nossa nova aluna, eu gostaria muito que você mostrasse a nossa escola a ela...

Ele olhou para mim, era um garoto muito bonito, tinha os cabelos castanhos cacheados e curtos, olhos verdes-claro, um sorriso de dantes brancos e um corpo atlético, ele sorrio pra mim e eu sorri em resposta, me levantando.

— Eh... você não acha mais prudente uma menina acompanhar a minha filha? – perguntou o meu pai, enciumado, as orelhas muito vermelhas.

— Acho melhor ele. – respondeu a mulher, indicando a porta para que fossemos logo, sai da sala e esperei o menino do lado de fora.

Nicholas me guiou pelo colégio, falando sobre a historia do local e mostrando as antigas e novas instalações, os corredores tinham armário cinza pelas paredes, bebedores em quase toda virada, muitos alunos nos olhavam e cumprimentavam o meu guia, ele parecia ser bem popular.

— É um colégio lindo. – digo, quando estávamos passando por um corredor particularmente deserto, tínhamos acabado de sair do teatro da escola.

—Sim. – respondeu Nicholas, virando em um dos corredores, e abrindo uma das portas, era a maior biblioteca que eu já tinha visto, parecia ter uns 3 ou 4 andares apenas de livros, mesas centrais onde alunos liam livros ou faziam os seus deveres de pesquisa, o barulho ali era mínimo.

Ele me mostrou cada canto da escola, como as piscinas olímpicas, a quadra de esportes, o campo de atletismo, a academia, as salas de artes, algumas salas de aula, onde ficavam os banheiros, onde ficava a cantina e o refeitório, os laboratórios de ciências e informática, varias coisas que eu levaria séculos ate descobrir onde estavam se não fosse por ele.

Quando o tour terminou já era hora do almoço e meu estomago roncava, por isso pedi a ele que me acompanhasse até a secretaria, ele concordou e seguimos pelo mesmo caminho que tínhamos pegado.

— Bem, esse silencio esta horrível. – disse ele a mim, sorrindo, quando passávamos por um dos jardins. – De onde você veio White?

— Eu vim do Brasil, de um estado chamado Santa Catarina. – respondo, com as boas lembranças da minha casa antiga fazendo aparecer um sorriso no meu rosto. – Eu era realmente feliz lá, mas nos mudamos pra cá... – tentei não parecer triste. – Mas não me entenda mal, eu estou amando essa cidade, é linda e tudo mais, mas....- fiz uma pausa. – Sinto falta de casa...

Ele olhou para mi e sorriu, entendi que naquela hora eu o tinha deixado sem jeito.

— Meu nome é Emelly, Emelly White, mas pode me chamar de Milly... – Digo.

— Ok Milly, pode me chamar de Nico, se você quiser... – respondeu ele, com um sorriso meigo no rosto e olhando para alguns alunos que passavam por nos.

Ele me deixou na porta da secretaria e saiu,dando-me um beijo na bochecha, disse que teria treino de futebol e nos veríamos em breve, entrei na sala extremamente corada no momento em que ela virou um corredor e desapareceu.

Pra quem pensava que toda a cidade de Daunter era toda antiga e clássica, estava completamente enganado. Do outro lado do lago a cidade era completamente diferente, com prédios moderníssimos, muitos deles espalhados ate aonde os olhos podiam ver, as ruas eram cheias de carros mais não era nada caótico como a hora do Rush de cidades-grandes, era perfeitamente organizado, seguimos de carro ate um Shopping enorme, com quatro andares e lotado de lojas.

O que eu mais tinha gostado naquela cidade com certeza eram aquelas lojas. Era tudo de marcas ótimas, e bem mais barato do que no Brasil, o que me permitiu entrar na Forever 21 e fazer uma vasta compra – quatro vestidos, muitas blusas e shorts e também umas calças jeans. Passamos em muitas lojas, no final do dia eu carregava tantas sacolas que o meu braço doía, comemos no Burger King e fomos embora, já havia escurecido.

Durante o caminho de volta, meu pai acabou se perdendo em um cruzamento das avenidas Parrow e Blue Esmerald, e pegando a rua errada. Entramos em um bairro extremamente simples, parecia uma favela brasileira melhorada, com casas pequenas construídas muito juntas, o chão era esburacado e irregular, pessoas nos olharam quando passávamos de carro na rua – pessoas com roupas muito simples, ali deveria ser a periferia, ou algo do tipo.

Quando passávamos por uma loja o pneu dianteiro esquerdo do carro atolou em um buraco e acabou furando, meu pai xingou um palavrão baixo antes de sair para avaliar o estrago.

Jen contorcia a mãos, com medo, e não era pra menos, todas as pessoas naquele lugar pareciam nos olhar e alguns curiosos de aproximavam para ver melhor, comecei a ficar com medo.

Um homem baixo e gordo se aproximou do meu pai do lado de fora e os dois começaram a conversar, no começo eu via medo no meu pais mas depois ele relaxou, indicando que o homem não era tão perigoso assim.

Desci do carro e fechei a porta antes de me dirigir ao lado deles, a noite estava muito fria e as nuvens carregadas no céu anunciavam uma tempestade que não tardaria a cair.

— A oficina mais próxima daqui fica à dois quilômetros. – dizia o homem baixo ao meu pai. – Tenho um conhecido que pode levar o seu carro até lá, a essa hora a oficina ainda esta aberta.

Meu pai pareceu tenso, foi até Jen e disse-a para descer do carro, o que ela fez, relutante.

O guincho chegou em pouco tempo e levou o carro até a oficina, meu pai e Jen ficaram nervosos, como voltaríamos para casa?

Como se a desgraça não fosse suficiente a tempestade começou a cair de um jeito intenso e impiedoso, nos corremos por abrigo na varanda de uma loja de conveniência que era, de longe, estranha.

Tinha os vidros escuros e dentro haviam os objetos mais estranhos eu já havia visto à venda – caldeirões, plantas que eu não conhecia, coisas gosmentas em potes de vidro nas prateleiras distantes, amuletos – uma loja de suvenirs assombrados, e escrito no vidro, em letras douradas, via-se as palavras: “Loja de itens mágicos da Madame Solange”.

De dentro da loja saiu uma mulher da cabelos enormes e ruivos muito vivos com cachos perfeitos nas pontas, olhos castanhos-chocolate e vestido de gala que ia ate os seus pés descalços. A mulher tinha cheiro de bala de limão e hortelã, ela sorriu para nos quando nos viu ali.

— Desculpe queridos, mas a loja não esta mais em horário de funcionamento, voltem amanha se quiserem ervas mágicas, boa noite. – Ela estava entrando quando eu a chamei, e ela me olhou com curiosidade. – Pois não, querida?

Contei a ela o que havia acontecido, o pneu furado, a tempestade.

Ela sorriu.

— Eu posso dar uma carona para vocês, vou só pegar as chaves do carro do meu filho. – disse a mulher, e se afastou, voltando pouco depois segurando um molho de chaves com chaveiro de couro. – venham.

Entramos na loja, era ainda mais estranha por dentro do que parecia, tinha um cheiro fortíssimo na naftalina.

Ela nos guiou ate uma garagem atrás de sua casa, onde tinha um carro clássico preto com detalhes em vermelho como chamas, um conversível.

Entramos no carro e ela ligou o carro, saímos para as ruas frias de Daunter.

Solange nos deixou em casa e sorriu em especial para mim, como se falasse: “ainda nos veremos outra vez”, rezei a Deus para que isso demorasse acontecer.

Entramos e casa e vimos que as nossas compras estavam sobre a mesa de centro, como havia ido parar lá? Só descobrimos mais tarde quando o meu pai achou o cartão da oficina com uma nota que o carro estaria pronto no outro dia de manha.

Subi as escadas e fui até o meu quarto, encharcada e tremendo de frio, entrei na banheira de água quente, tomei um banho demorado e só saiu quando senti o meu corpo mole.

Vesti um moletom de frio, fui no banheiro, escovei os dentes, voltei para a minha cama e apaguei.

Tinha sido um dia e tanto, e a noite prometia ser ainda maior.

Notas finais
espero que tenham gostado ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.