Embery Hills
3 Welcome to Embery Hills
De alguns problemas, não se pode correr, Barry. — The Flash
Como Alex previra, fora uma viagem longa. Ela foi fazendo algumas paradas ao longo do caminho para dormir ou comer, seguindo os conselhos de sua mãe para que não exagerasse. Ligava para os pais a cada poucas horas, apenas para lhes dizer que estava tudo bem. O trânsito não estava ruim e ela não tinha pressa, o que acabou fazendo a viagem durar dois longos dias. John havia insistido para que viesse de avião, mas ela negou, sabendo que talvez aquele tempo sozinha na estrada fizesse bem e depois de um tempo, a diferença entre as temperaturas ficava cada vez mais evidente.
Havia dado uma volta por Columbus e parado para comer em algum restaurante. A garçonete fora gentil e parecera notar o desespero da garota enquanto ela virava o mapa de um lado para o outro, tentando se localizar. O pai devia ter lhe ouvido quando disse que precisava de um GPS. A mulher havia indicado que Alexia deveria ir na direção de Cleveland e pegar alguma estrada perto de Ashland, dizendo que seu destino ficava há apenas algumas horas dali. Lhe agradecendo e deixando uma pequena gorjeta ao sair, tratou de terminar de mastigar seu cupcake no caminho. Depois disso não foi muito difícil achar Embery Hills.
Quando algumas pessoas pensam na palavra "internato", é comum que imaginem um colégio para adolescentes rebeldes, com muros altos, janelas com grades, um ambiente depressivo e todo o resto. Embery Hills, contatou ao desligar o carro no estacionamento dos alunos — eles tinham um, o que já era um bom começo -, não era nada daquilo. Havia, sim, um enorme portão de ferro na entrada, com as siglas EH enroladas uma na outra em uma grande escala. Mas não era o tipo de portal que lhe repelia. Ela até mesmo se sentiu reconfortada assim que colocou os pés para fora do carro.
O estacionamento ficava em uma pequena área ao lado direito da entrada, logo antes do grande pátio. A escola em si se resumia em um enorme castelo com fachada vitoriana com direitos a torres altas e janelas escuras. O lugar todo tinha uma aparência antiga e quase majestosa, como se tivesse pertencido a membros da realeza. Mas não acabava por ai. Havia a silhueta de uma enorme mansão um pouco acima, na colina. O pai de Alexia não havia especificado muito bem o que era feito na grande casa de janelas escuras enfiada em meio às árvores, quase escondida. Mas uma coisa ele havia deixado bem claro; nunca entre se não for convidada. Curiosa como sempre, ela havia tentado perguntar a ele o motivo daquilo, mas seu pai não era muito de falatório, então ela apenas acabou deixando de lado. Era uma das regras mais importantes naquele lugar. Loucura? Talvez. Mas definitivamente não iria desperdiçar seu fôlego subindo o túnel denso de árvores que levava até lá para descobrir.
Alex não havia trazido muita coisa de casa. O pai já havia cuidado para que as coisas maiores e mais pesadas como a pequena poltrona de couro preto, o computador, e algumas malas fossem entregues em seu quarto. Assim, não teria problema em levar apenas a mochila e as duas pequenas malas que havia sobrado consigo.
Era hora do almoço quando ligou o alarme de seu carro e o abandonou para trás, então não se surpreendeu em encontrar apenas poucos alunos aqui e ali. Seu quarto, como o pai havia explicado, não era muito longe. Assim que passasse pelas enormes portas de madeira, era apenas subir as escadas à direita até o segundo andar. Encarou a porta pintada de vermelho com o número 28 e entrou.
Era maior que seu próprio quarto em casa. Suas coisas haviam sido encaixadas perfeitamente ali e todos os livros jaziam na escrivaninha. Tinha uma colega de quarto, algo que já havia sido avisada a esperar. Enquanto sua cama de baixo do beliche era estéril e sem nenhuma decoração, a cama de cima tinha a parede coberta por pôsteres de garotos, bandas e adesivos por todo lado.
Levou apenas alguns minutos para que espalhasse suas coisas pela parte vazia do closet, ao lado esquerdo da cama. Antes que terminasse de ajeitar o resto das coisas ao lado do abajur na escrivaninha, a porta foi aberta.
–Oh, oi! — uma garota baixa de cabelos loiros e curtos, calças jeans e regata azul parou ao vê-la. Essa, imaginou, deveria ser sua colega de quarto. — Você deve ser Alexia.
A garota a observou de cima a baixo, parecendo lhe medir. Enquanto ela era um exemplo de delicadeza e doçura, Alexia usava roupas surradas e escuras. Não que sua mãe não insistisse para que ela usasse roupas mais femininas. Alex apenas se sentia mais confortável daquele jeito e naquele momento aquilo lhe parecia fazer uma anti social perto da garota.
–Alex.
–O quê?
–Me chame de Alex.
–Oh! Tudo bem.
Um momento de silêncio constrangedor se passou entre as duas. Alex não era muito boa nessa coisa de fazer novos amigos, e a loira em sua frente por sua vez parecia não saber como agir ao seu redor. Ellie dizia que sua filha costumava ser um pouco intimidadora as vezes. Então, fazendo de tudo para parecer menos assustadora, sorriu. Aquilo fez a outra relaxar.
–Amber Hall. — ela estendeu a mão, sorrindo também.
Amber parecia ser daquele tipo de garota que estava sempre sorrindo e Alex ainda podia notar certa curiosidade em seu olhar enquanto ela lhe observava.
Apertou sua mão para cumprimentá-la, mas assim que tocou sua pele, a mão da garota tremeu momentaneamente antes de lhe soltar, dando um passo para trás.
–Está tudo bem? — Ergueu as sombrancelhas. Será que a tinha machucado?
–Sim. Foi ao estática. — Amber balançou a cabeça e sorriu de novo embora tivesse o cenho franzido. — Bloond me pediu para que eu lhe ajudasse a se ajustar. Sabe, toda essa coisa de horário de aulas, regras, armário e coisa e tal. Ela é o que você pode chamar 'conselheira". Não cuida exatamente da parte administrativa; isso é trabalho da Chloe. Mas ela está sempre disponível caso precise de alguma coisa ou tenha alguma dúvida.
Amber balançava as mão enquanto falava o que, Alex notou, era um pouco irritante. Ela olhou em seu relógio de pulso e caminhou até sua escrivaninha, tirando de sua gaveta uma pequena correntinha fina com um delicada amuleto. Ele era cercado de pequenos formatos de ondas e mais alguns detalhes parecidos com alguma língua desconhecida e uma pequena pedra azul no meio. Amber o enfiou dentro de sua blusa depois de colocá-lo em seu pescoço e se virou novamente.
–Bem, você chegou bem no horário do almoço, então é melhor irmos antes que todas as coisas gostosas acabem logo.
Amber abriu a porta e estava saindo quando notou que Alex não a seguia. Sua intenção, para início de conversa, era ficar trancada em seu quarto lendo e esperando até o dia seguinte, quando não teria outra opção a não ser encarar a rotina nova.
–Ora, vamos, Alex! Eu não mordo.
A garota encarou o quarto ao seu redor ainda em dúvida. Poderia ficar no conforto de sua cama e evitar estranhos ou segui-la. Mas sabia que não poderia adiar aquilo para sempre então, com um suspiro, ela cedeu.
–Bem, para começar há algumas coisas que precisa saber. — Amber disse enquanto andavam, o barulho de seus saltos contra o piso de granito acoando quando saíram pela porta dos dormitórios e seguiram por um corredor imenso. Era um lugar lindo, com pilastras grandes e uma vista do campo grande e verde que cercava todo o resto. Alex poderia jurar que nunca havia visto uma grama tão verde. — Não seja pega fora do dormitório depois do toque de recolher. Margo fica uma fera quando isso acontece e acredite, você não vai querer vê-la irritada. Às sextas-feiras, que por sinal é amanhã, fazemos uma espécie de fogueira no campo depois das aulas. É algo como uma tradição terminar a semana deitados na grama para dar uma relaxada. Mas como nem tudo é perfeito, temos que voltar para os dormitórios às 00:00am. E nada de bebidas ou cigarros. Sidney foi pega fumando semana passada, e desde então Bloond não tira os olhos dela. À propósito, se você fuma, faça isso bem longe do quarto. Odeio a fumaça desses cigarros. Tem noção de como é difícil tirar o cheiro disso do meu cabelo?
Depois de um tempo, Amber virou no corredor e a única porta que havia ficava lá no final. Duas grandes portas de madeira com detalhes em relevo esculpidos com algo que pareciam ser elementos. Alex podia muito bem distinguir as chamas, desenhos de rochas, redemoinhos de ventos e ondas de água. Mas o que mais lhe chamou atenção foram os símbolos desenhados logo acima dos outros. Era algo bem parecido com o símbolo de ying-yang, exceto que em uma versão bem mais arcaica, intensa e brutal. Era como se as formas se chocassem e lutassem entre si para se devorarem.
–Alex, estou tentando fazer com que sobreviva ao menos uma semana aqui. — a voz de Amber tirou a atenção da morena das portas. — Ao menos está prestando atenção?
–O quê? Me desculpe, eu...
A loira revirou os olhos, mas tinha um pequeno sorriso em seu rosto.
–Tudo bem, como eu dizia, tem algo que é tem que saber; Nunca, jamais, entre na casa principal a não ser que tenha sido chamada por uma das responsáveis pelo colégio. Ou melhor, nem mesmo se aproxime.
–Eu não entendo...
O sorriso de Amber sumiu, e qualquer humor em seu rosto desapareceu.
–Você não precisa entender. Apenas fique longe. Essas são as regras, entendeu?
Alex nunca fora o tipo de pessoa que apenas aceitava uma ordem, mas não queria ter uma discussão com quem aparentemente era a única pessoa que conhecia ali, então escolheu se calar.
A outra sorriu novamente, como se seu trabalho ali estivesse feito. Alexia ainda podia notar que ela lhe olhava de canto de olho às vezes. Estava prestes a lhe perguntar se havia algo errado quando a garota empurrou as portas de madeira e entrou. Ela a seguiu, ciente do barulho que as portas fizeram ao serem abertas sem qualquer delicadeza. O refeitório pareceu silencioso demais enquanto elas andavam. Amber não demonstrou nenhum incômodo com a atenção de alguns alunos que as encaravam com olhares curiosos, então apenas continuou andando até a parte mais funda do refeitório, onde uma elaborada mesa se estendia com todo tipo de comida.
Havia pensado que, por se tratar de um internato, eles seriam obrigados a comer uma comida balanceada e saudável. Mas não. Era como qualquer refeitório de um colégio normal.
–Por que estão todos olhando para você? — perguntou baixinho.
–Não estão. -Amber respondeu enquanto colocava em sua bandeja uma garrafinha de suco e dos pedaços de pizza. — Então olhando para você. Não é muito comum recebermos alunos novos no meio do ano.
Alex não entendeu muito bem o meio sorriso que a garota tinha no rosto, mas não perguntou. Apenas pegou uma garrafa de suco, sem fome por ter comido mais cedo, e seguiu Amber quando ela começou a andar pelo refeitório até uma mesa quase vazia no fundo. Os alunos já haviam voltado a comer e conversar normalmente. Mas havia o grupo de alunos para o qual se dirigiam, que encaravam a garota de cima a baixo sem nem se importarem em disfarçar.
Haviam cinco pessoas sentadas ali. Três garotas e dois garotos. Amber se sentou e fez com que a colega se sentasse ao seu lado, de frente para um dos garotos.
–Pessoal, essa é a Alexia, minha colega de quarto.
Alex, pensou, mas não disse nada.
Nenhum deles disse nada, então a loira tratou de apresentar cada um deles.
Lisa era uma garota de cabelos castanhos. Ela sorriu gentilmente para Alex e murmurou um "prazer". O garoto ao lado dela com um sorriso discreto era Eliott. Ele tinha olhos castanhos claros, seus cabelos eram apenas alguns tons mais escuros que o de Amber e foi educado como Lisa. Alexia imediatamente sentiu que poderia gostar daqueles dois.
Eliott tinha uma dos braços sobre os ombros de Joanna, uma garota de cabelos loiros e olhos verdes. Ela acenou para a morena e disse para chamá-la apenas de 'Jo'. Então foi a vez de Sidney, que deveria ser as garotas dos cigarros que Amber havia mencionado. Ela tinha cabelos ruivos que lhe fizeram lembrar da mãe. Mas onde os cabelos de Ellie eram ondulados e quase discretos, os de Sidney eram lisos e vermelhos como a mais forte chama. Seus olhos seriam castanhos, se não tivessem uma cor mais parecida com o vermelho alaranjado. Não podem ser naturais, pensou a garota. Quer dizer, ela nunca havia visto olhos daquela cor, e cogitou a possibilidade de Sidney estar usando lentes. Ela estava de braços cruzados e observava tudo em silêncio.
E então, ao seu lado havia Stark. Ele tinha olhos escuros severos, quase pretos, e uma maxilar firme. Parecida tão indiferente quanto Sidney e algo nele fazia Alex ter medo. Talvez fossem aqueles olhos quase sem brilho ou o ar de extrema arrogância que parecia lhe cercar.
Assim que desviou seus olhos dele conseguiu ver Sidney encarando Amber como se dissesse "o que pensa que está fazendo?".
–Bloond me deixou encarregada de acomodá-la. — a loira deu de ombros, como se o olhar raivoso que receberá da amiga não fosse nada demais.
A ruiva bufou, como se não concordasse em ter uma intrusa em sua turminha. Foi então que notei que ela tinha uma corrente ao redor do pescoço quase idêntica à de Amber. A única diferença eram as cores e os pequenos desenhos e símbolos que as cercavam. Sua pequena pedra se destacava em vermelho sangue contra a regata preta e seus contornos se pareciam com desenhos de pequenas chamas e fagulhas.
Ela deve ter notado Alex olhando para seu colar, porque assim que a morena ergueu os olhos, ela a estava encarando de uma forma nada amigável. Enfiou o amuleto dentro de sua camiseta, com um aviso expresso para que mantivesse os olhos longe. A garota entendeu o recado.
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