Embery Hills

4 He scares me as fuck


Alex já havia caído no sono quando Amber entrou no quarto. Não sabia quando tempo havia se passado, mas já estava escuro lá fora.

–Ei, você está bem? — A garota perguntou ao abrir um pequeno freezer ao lado da tevê no canto direito do quarto e pegar uma lata de refrigerante. Ofereceu uma, mas Alex negou, se sentando em sua cama. — O jeito como saiu do refeitório... Parecia que tinha visto um fantasma.

Bem-vinda aos últimos dezessete anos de minha vida, pensou com sarcasmo.

–Me lembrei de que deveria ter feito uma ligação. -mentiu, algo que havia aprendido a fazer com uma expressão neutra durante esses anos.

A questão era que ela realmente havia visto um fantasma. Ou seja lá o que diabos aquilo fosse. Quando Amber e seus amigos voltaram a conversar, Alex havia desviado os olhos e os deixar pelo refeitório, analisando o ambiente novo. E lá, do outro lado, viu um garoto moreno olhando-lhe com atenção. Era tudo o que eles faziam. Ficavam parados, lhe encarando como se ela fosse um projeto de ciências complexo demais.

A morena não queria aquilo para seu primeiro dia, então murmurando uma desculpa qualquer, ela havia se levantado e saído dali.

Amber lhe observou com certa atenção antes de dar de ombros, paracendo um pouco desconfiada ao apanhar um casaco em cima de sua cama.

–Tudo bem, então. Eu tenho que ir. Nos vemos depois, tá legal?

Sem esperar por uma resposta, ela saiu. Alex tomou um banho e, sem ter nada para fazer naquele quarto, vestiu um casaco por cima de uma camiseta de alças finas, pegou sua câmera e decidiu que seria uma boa ideia tomar um ar fresco. Os corredores estavam cheios de alunos, conversando aqui e ali no pátio do térreo onde os dormitórios e alguns corredores que levavam ao resto do colégio se encontravam. Em um canto mais afastado, havia uma espécie de mureta alta que chegava a bater em suas costelas. Sorriu ao perceber que dali poderia ter uma visão ampla das árvores e do sol, se pondo e quase sumindo logo atrás. Pendurou a sua Canon pela alça com cuidado ao redor do pescoço e subiu, buscando uma posição confortável para se sentar.

Fotografar era um dos hobbys que havia aprendido com o irmão ainda quando pequena. Allan adorava fotografias e vivia dizendo que era a forma mais simples de se captar a beleza das coisas. A câmera em suas mãos, inclusive, havia pertencido ao próprio antes que ele morresse e tinha um valor sentimental para Alex. Ela ficou ali por alguns minutos, tirando fotos do ambiente ao seu redor e até de alguns alunos, sorrindo e conversando, até que a luz não fosse mais o suficiente para boas fotos. Foi só então que sentiu o cheiro dos cigarros.

Longe, mais à frente no final da mureta onde estava sentada, estava o garoto que havia sentado em sua frente no refeitório. Ele estava quase envolto pelas sombras e a observava com os olhos escuros enquanto tragava seu cigarro. Era o tal Stark.

Alex não podia ver bem seu rosto, mas ainda assim ele a assustou. Havia algo horripilante sobre aquele garoto e ao perceber que a encarava, a garota desviou os olhos. Estava prestes a dar o fora dali quando quando alguém se aproximou.

–Ei, você é a novata, certo? — um garoto lhe perguntou. Ele estava de pé ao seu lado direito, mas devido à altura em que ela estava sentada, ele parecia ser mais baixo, de forma que teve de olhar para baixo para encará-lo.

Ele tinha cabelos loiros e olhos azuis. Usava uma jaqueta vermelha e tinha as mãos enfiadas nos bolsos de sua calça.

–Olá. — o cumprimentou de forma educada com um sorriso.

O garoto colocou as mãos sobre a mureta e puxou seu corpo para cima, de forma que pudesse se sentar ao lado dela. O movimento fez seus braços se tensionarem com a força e Alex se pegou o encarando com certa admiração. Gato, era tudo o que ela conseguia pensar.

–Thomas Hayward. — ele lhe estendeu a mão, a qual aceitou e apertou de leve antes de soltar. — Mas pode me chamar de Tommy.

–Alexia Summers. Me chame de Alex.

–É um belo nome. -ele sorriu de lado, e ela poderia facilmente dizer que qualquer garota babaria por aquilo. Ele tinha um sorriso doce e muito belo. — Então, Alex. O que lhe traz à Embery Hills? Colocou alguém em chamas? Foi cúmplice de assassinato?

Alex ficou em choque. Ninguém havia lhe dito que havia realmente adolescente problemáticos ali.

–Relaxa. -Thomas riu. — Eu estava apenas brincando.

Ela suspirou, aliviada. Mas o que deveria dizer? Que estava cansada de ser a esquisita de sua cidade por ver coisas e ter visões assustadoras de rostos em agonia durante as aulas? Ou que estava louca para fugir da preocupação constante dos pais ou de suas brigas?

–Enjoei da minha vidinha pacata. — respondeu ao invés disso, dando de ombros.

–Então veio procurar por alguma aventura? — ele perguntou com um sorrisinho malicioso que fez Alex rir.

Droga, é tão fácil conversar com ele, pensou enquanto enrolava a alça de sua câmera nas mãos.

–Talvez. Viver uma vida toda na tranquilidade me parece covardia. Às vezes é bom enfrentar algo novo. O mesmo cenário é cansativo. — acredite, ela sabia o quão cansativa havia sido até ali.

–Gostei de você. -ele sorriu. — Bem, como seu mais novo amigo nesse colégio, acho que deveria lhe apresentar algumas das nossas mais amadas regras.

–Deixe-me ver. — Alex tentou, falhamente, imitar a voz de Amber. — Não seja pega depois do toque de recolher, nada de bebidas ou cigarros durante a fogueira e o mais importante: nunca, nunca, nunca mesmo, entre na casa principal a não ser que tenha sido chamada.

–Oh, então alguém já lhe expicou tudo.

–Será que pode me explicar que bobagem é essa? — perguntou enquanto escorava suas costas na parede atrás de si. — Eles por acaso guardam cadáveres naquela casa?

A expressão de Thomas ficou séria. Se fosse louca, Alexia poderia jurar que ele estava cogitando a ideia. Mas, ei, ela era louca, afinal!

–Deixa-me lhe explicar algo. Há três tipos de alunos nesse lugar. — ele foi contando nos dedos. — Alunos normais como nós, no caso a minoria nesse lugar. A maior parte vem para cá porque os pais não tem tempo para ficarem de olho em nós, então nos mandam para esse lugar. Então temos os da elite. São mais na deles, em maioria filhinhos de papai, mas ótimos na aula de educação física. Veja bem, eles até parecem robôs feitos para serem perfeitos. É quase assustador. Nunca fazem nada de errado. -ele chegou um pouco mais perto, sussurrando. — Nosso amigo Stark Henley ali é um deles. Mas que escola não tem suas aberrações, certo?

Quando se afastou, Thomas tinha um sorriso brincalhão. Alex riu baixinho. Era bom saber que não era a única a achar aquele garoto um esquisito.

–E por fim temos os da "realeza" — ele fez aspas com os dedos. — No caso, Amber Hall, sua colega de quarto, e as amiguinhas dela. Alguns alunos pensam que elas são uma espécie de bode expiatório da diretoria. O que é bem estranho na verdade, já que nunca de duraram ninguém. E eu posso lhe dizer que elas tiveram muitas oportunidades. Deus sabe o quanto já aprontaram e viram ser aprontado nesse colégio. Mas por algum motivo, nenhuma delas nunca foi expulsa. Sei lá, é como se fossem as protegidas ou algo assim. Se nós, pobres mortais, formos pegos fazendo algo proibido entre as regras, bye, bye, Embery Hills. Mas elas... É como se a escola as protegesse. E quer ouvir uma coisa estranha?

Alex assentiu.

–A elite e elas são os únicos que já entraram na mansão.

–Achei que os alunos não pudessem entrar lá sem permissão.

–Aí é que está. Essa regra não se aplica a eles. Às vezes, assim que as aulas deles terminam, alguns vão para a mansão e só voltam depois do toque de recolher. Assustador, não é? Quer dizer, quem sabe o que podem estar fazendo lá?

Thomas riu como se tudo não passasse de uma piada e, para não parecer grossa, a garota fez o mesmo. O problema era que nada daquilo parecia piada para Alex. Aquele lugar parecia cada vez mais estranho.

–Mas, ei, não me deixe lhe fazer pensar que todos eles são uns idiotas. Alguns na verdade são bem legais. Você teve sorte em estar no mesmo quarto que a Hall.

–Conhece ela?

–Mais ou menos. É uma longa história. Ela e alguns dos amigos são sempre gentil com os outros.

–O que sabe sobre ela? — Alex se demonstrou interessada. Não sabia nada sobre sua colega de quarto e o garoto em sua frente lhe pareceu uma boa forma de descobrir.

–Bem, quase nada. Ela e os amigos estão sempre por aqui, até mesmo durante as férias. Ela nunca perde uma aula de história, tem pavor de aranhas e é alérgica a pimenta.

Por um momento ficou decepcionada. Não eram bem informações úteis.

Thomas continuou com próprio monólogo, contando-lhe sobre a biblioteca, a sala de música e algumas outras coisas sobre Embery Hills. O problema era que a garota não conseguia prestar atenção. Ela até poderia se seus olhos não estivessem focados no esquisitão lá atrás. Stark jogou seu cigarro fora e começou a lhe encarar com seus olhos escuros horripilantes. O que mais fez Alex temer era o sorrisinho de lado que ele tinha no rosto, como se pudesse ouvir seu coração batendo freneticamente com o medo.

Não era o medo que ela sentia quando eles estavam por perto, embora esse fosse o único tipo que sempre a havia feito tremer dos pés a cabeça. Era como se ela pudesse sentir o ar ao redor do garoto sendo sugado, como se Stark fosse um buraco negro.

–Tenho que ir. — Alex disse, cortando Thomas no meio da alguma frase, enquanto pulava de seu acento improvisado para o chão com a câmera ainda em mãos.

–O toque de recolher é só daqui há três horas. — ele pareceu decepcionado, e se não fosse pelo frio que a fazia tremer, a garoa teria cogitado a ideia de ficar ali.

–Pois é, mas... Me lembrei que preciso fazer uma ligação. — droga, pensou. Ela realmente tinha que arrumar uma desculpa melhor para usar dali a diante. — A gente se vê depois, tá legal?

E sem esperar por alguma resposta, ela caminhou o mais rápido possível para longe de Stark e voltou para seu quarto.