Embery Hills
5 Touch by shadows
Havia um despertador tocando Alex quando acordou na manhã seguinte. Definitivamente não era o seu já que nem sequer havia lembrado de trazer um. Amber veio correndo do banheiro, enrolada em uma toalha e desligou antes que a garota pudesse jogar o pequeno objeto na parede.
–Desculpe. — a loira sorriu. — Não quis lhe acordar. Ainda tem alguns minutos para dormir. Eu apenas gosto de acordar cedo.
Ela cobriu a cabeça com o cobertor e virou de costas para Amber, praguejando. Ellie sempre havia dito que seu humor de manhã era terrível e que nunca deveriam lhe acordar a não ser que quisessem ter a cabeça decepada.
Sua colega de quarto parecia uma cópia ambulante da mãe. Sempre disposta a acordar cedo com um sorriso contente no rosto. Se achava que se livraria disso ao sair de Prince George estava enganada. Mas se pensou que poderia voltar a dormir depois disso, havia se enganado também. O barulho dos passos de Amber de um lado para o outro e coisas como a porta do closet sendo aberta e fechada várias vezes faziam com que fosse impossível de se retornar a sua tal adorada inconsciência. Então colocou o corbertor de lado e se sentou, bocejando enquanto a colega de quarto terminava de fechar o zíper de seu vestido azul cobalto, de frente para o espelho na porta do closet. Era impressão sua, ou Amber amava essa cor?
Os saltos em seus pés eram nudes, o que já era considerado uma vitória. Não que azul não combinasse com sua pele. Pelo contrário. Mas, caramba, aquela garota precisava conhecer outras cores. Mas quem era Alex para julgar quando a maior parte de seu próprio guarda-roupa era composto por peças pretas?
–Me desculpe. — a loira sorriu, a encarando através do espelho. — Essa coisa de colega de quarto é nova para mim.
–Está tudo bem. -Alex se levantou e fez um esforço para sorrir. — Não me importo. — mentiu.
–Tudo bem. Por que não se arruma e me encontra no refeitório? Bloond deu um jeito para que suas duas primeiras aulas fossem comigo para lhe ajudar, caso precise. Então, não demore muito.
E sem dar tempo para que Alex dissesse algo, a loira saiu do quarto, deixando-a sem escolhas a não ser se dirigir ao banheiro para um bom e velho banho.
Quando a água quente tocou seus ombros, ela soltou um suspiro. Nem mesmo havia percebido o quanto estava tensa. O que era de se esperar com toda essa loucura. Alex nunca havia sido o tipo mimada pelos pais, mas se imaginar longe de casa sempre havia lhe parecido uma ideia totalmente maluca. Havia, sim, uma parte ruim de sua cidade natal. Mas de alguma forma, também tinham as partes boas de se morar lá. Alex gostava do jeito como a luz do sol invadia seu quarto pela manhã, mesmo com o fracos feixes de claridade que passavam pelas nuvens como se fosse algo frágil, tocando tudo ao redor com delicadeza. Ou como Butah, o gato branco e rabugento de sua vizinha, Marie, se aproximava e se enganchava em meio às suas pernas, pedindo comida — ele nunca aceitou qualquer carinho, mas se tratando de comida, Butah ficava mais que feliz em ser mimado -, ou como a brisa balançava as plantas que Ellie insistia em manter na varanda da frente, mesmo que vez ou outra uma delas acabasse morrendo.
A mãe de Alex tinha essa coisa com plantas. Ela nunca conseguia manter uma viva por mais de uma semana. Uma vez enquanto agaixava no chão com luvas de jardinagem e removia do vaso uma planta já morta, a filha lhe perguntou por que ela não simplesmente comprava uma de plástico. Ellie sorriu de forma doce como sempre e disse "não há beleza em uma planta que não respira, querida. As coisas mais belas do mundo são as que continuam lutando dia após dia para permaneceram vivas. E por mais que eu seja uma péssima jardineira, nada pode substituir a beleza delas." A garota não havia entendido na época. Nem mesmo sabia se entendia agora, mas ver a mãe sentada ali no chão, passando a mão no rosto e acabando suja de terra, era uma visão que a acalmava. Havia tanto conforto ali. Ellie sempre havia carregado essa luz dentro de si, como se cada dia de vida lhe fizesse mais forte e radiante.
Alex não soube quanto tempo demorara no banho, mas assim que enrolou seu corpo com a toalha, foi que notou a baixa temperatura. Através do espelho ela viu o reflexo de uma mulher ruiva parada logo atrás de si. A garota não ficou com medo dessa vez. Não pôde. Aquela mulher era diferente. Seu rosto pálido sorriu gentilmente enquanto piscava seus olhos. Ela tinha cabelos ruivos e cílios longos que a faziam parecer ter algo como vinte e poucos anos. Sua expressão doce era totalmente diferente dos rostos horrorizados que costumava ver. Era o rosto mais humano que Alex via em anos, e o fato de se parecer tanto com sua mãe a fez estremecer.
–Eles sabem que está aqui. -sua voz saiu rouca e tão frágil, como se ela estivesse tentando com todas as suas forças pronunciar cada palavra, e sua forma parecia ficar translúcida às vezes, vacilando e então voltando ao normal. -Nenhuma de vocês está segura.
Alex se assustou ao ouvi-la. Nenhum deles nunca havia falado com ela, a não ser por Allan. Eles só ficavam parados lhe observando e então desapareciam depois de um tempo.
–Quem sabe? Quem não está segura?
–Temos pouco tempo, Alexia. Elas têm que saber. Digas a elas. Diga tudo, antes que seja tarde.
A mulher esticou a mão e sua pele fria alcançou o ombro de Alex. De repente, tudo girou. O banheiro sumiu, e com um forte enjôo e se sentindo como se estivesse sento sugada, a garota percebeu que não estava mais em seu quarto.
Alex olhou em volta, tentando encontrar a mulher, mas ela não estava em lugar algum. A garota estava parada ao lado de um riacho cristalino e havia uma ponte de pedras que o atravessava. A neve que caia do céu escuro derretia antes mesmo de chegar ao chão e a lua era a única coisa que iluminava os cascalhos sob seus pés. Parecia o começo do inverno e do outro lado do riacho a silhueta de três pessoas apareceram, saindo do meio das árvores. Ou melhor, quatro. Duas delas estavam de costas para Alex, cobertas por algo parecido com mantas, cujas tocas cobriam suas identidades. Uma delas, a mais baixa, a garota notou mesmo com a pouca luz, carregava consigo um bebê enrolado em um pano escuro. Ele se mexia sem parar, parecendo agitado. Estava escuro e frio ali, mas o reflexo da lua cheia na água iluminava a quarta pessoa o suficiente para que visse seu rosto. Era ela.
A mulher tinha o rosto mais rosado e vestia um vestido vermelho longo por baixo de sua capa com uma cor vinho, mas Alex sabia que era ela. O casal com o bebê entregou a mulher uma espécie de medalhão que brilhou levemente ao tocar sua pele. Disse algo a eles que a garota não conseguiu ouvir, e então eles correram para as árvores com rapidez antes de serem engolidos pela escuridão.
A ruiva ficou ali por algum tempo, observando o caminho por onde eles se foram, então se sentou no chão em meio aos cascalhos de pernas cruzadas. Tinha o medalhão em suas mãos e enquanto murmurava algumas palavras, o objeto começou a flutuar. Alexia não conseguia vê-lo muito bem com a distância, mas então ele começou a ser envolto por uma luz vermelha. O pequeno objeto entrou em combustão em meio à luz e desapareceu em um pequeno buraco negro.
–Chegou tarde. — a mulher elevou sua voz. Dessa vez seu tom parecia poderoso, do tipo que faria pessoas se ajoelharem. No começo, Alex achou que era com ela que a mulher falava. Mas então, logo atrás de si, um graveto se partiu com o que pareceu ser o peso de um corpo se movendo.
Se virou, tentando localizar a pessoa com a qual a mulher falava. Era quase impossível ver qualquer coisa, mas então um vulto se moveu e deu um passo a frente, ao alcance da luz da lua. Não que isso tivesse ajudado muito. Assim como os outros, a figura se escondia sob uma capa escura que se estendia até o chão.
–Vocês nunca encontrarão Violet. — a mulher disse atrás de Alex.
A questão era que a garota não conseguia se virar para ela. A pessoa em sua frente parecia pulsar a escuridão e o frio através de si e ela estava paralisada. As pequenas órbitas em baixo do capuz, onde deveriam estar os olhos, se tornaram um escarlate puro em questão de segundos. Alexia tentou se mover para sair do alcance da criatura, mas não conseguia se mover. Seu medo parecia ter lhe pregado os pés no chão.
–Foi um nobre sacrifício, bruxa. — a coisa disse com a voz grave. — Mas nenhum encanto esconderá a herdeira de nós por muito tempo. Seu povo cairá, e o sangue da criança será nosso.
Foi então que uma espécie de sombra começou a sair de suas mãos. A fumaça preta e densa se esgueirou pelo chão, se arrastando sobre as pedras como uma serpente venenosa e letal enquanto tentava alcançar a mulher do outro lado do riacho. O problema era que Alex estava no meio do caminho, e quando a sombra a alcançou foi como se estivesse sufocando. A garota passou as mãos por seu pescoço, tentando buscar por ar enquanto o oxigênio se extinguia, mas não conseguia respirar por mais que tentasse. A sombra envolveu seu rosto em sombras e completa escuridão. Estava em pânico e não podia nem mesmo gritar.
Mas então, do nada, a visão se foi. Alexia estava mais uma vez no banheiro de seu quarto, gritando e arranhando o pescoço enquanto tentava respirar. O ar invadiu seus pulmões de uma só vez com uma lufada violenta. Foi quando caiu no chão, sem controle de suas próprias pernas, que o espelho em sua frente se partiu em pedaços com um barulho assustador como se alguém estivesse arrastando garras afiadas sobre um quadro negro. Ela se encolheu em um canto, agarrando a toalha com força contra o peito. Não sabia o que tinha acabado de acontecer. Nem mesmo sabia se queria. E em meio aos soluços que saiam de seu peito, a garota ouviu a porta ser aberta de supetão.
–Ai, meu deus! — os olhos da garota parada no batente da porta se arregalaram quando viu o espelho quebrado e Alex, encolhida no chão. Havia uma outra menina ao seu lado, que parecia estar tremendo mais do que a própria Alexia. -Angela, vá chamar Bloond. Agora!
****
Alex não sabe muito bem o que aconteceu depois. Sua visão etava embaçada e tudo o que se lembrava era de ter um cobertor envolto em seu corpo pálido e ser colocada sentada em sua cama, encarando o nada. O resto foi tudo um borrão. Tinha consciência de silhuetas andando de um lado para o outro ao seu redor e a cada sombra que aparecia em sua visão periférica, fechava os olhos e tinha vontade de chorar. Talvez estivesse chorando. Ela só não tinha certeza.
Certo, Alex já havia tido alucinações. Grande coisa. O problema era que nenhuma havia sido tão real como aquela. Se ousasse se concentrar, ainda podia ouvir o barulho da água batendo contra os cascalhos e ainda podia sentir a névoa super bizarra se arrastando por sua pele, como uma camada grudenta, fria e espessa.
A morena pulou quando sentiu algo quente contra sua mão. Só então despertou para a realidade. Sua visão tentava se ajustar ao ambiente ao redor e havia uma mulher em sua frente tentando lhe entregar uma caneca com alguma substância fumegante. Ela tinha longos cabelos castanhos lisos e seus olhos eram gentis. Aquela deveria ser Bloond, de quem Amber havia lhe falado. Era alta e esbelta e se movia de forma graciosa. Alex chutou ser ela pois havia uma plaqueta com seu nome na mesa atrás da mulher.
Espera um pouco aí! Mesa?
Olhou ao redor e percebeu que não estava mais em seu quarto. Sua cama, escrivaninha, TV e o amontoado de revistas de moda de Amber no chão haviam sumido. A sala na qual se encontrava era iluminada e cheia de vida. As estantes ao redor eram abarrotadas de livros e as paredes eram cobertas de quadros com pinturas de cores intensas.
–Beba. — Bloond lhe disse, ainda parada em sua frente apontando para a caneca nas mãos da adolescente.
Alex demorou um pouco para tomar consciência de seus membros e suas mãos tremiam quando levou a porcelana aos lábios. Era chá. Ela amava chá, e aquilo foi como uma onde de calmante. Ellie fazia chá todas as tardes e costumavam se sentar na varanda de casa, conversando sobre bobagens. Percebeu que estava aquecida também. Vestia um conjunto de moletom cinza com o slogan de Embery Hills. Tentou não pensar muito em como havia acabado vestida naquilo, mas acabou corando.
–Você me deu um susto, garota.
Alex não tinha notado outras pessoas na sala, por isso quase derrubou a caneca ao sentir uma mão ser posta sobre seu ombro. Uma das garotas que havia lhe encontrado no banheiro estava ali, assim como Amber andando de um lado para o outro com nervosismo e uma Sidney nada contente sentada na poltrona ao lado esquerdo, com as pernas jogadas sobre o braço da poltrona como se ela estivesse totalmente confortável.
–Vá com calma. — a conselheira sorriu. — Como se sente?
Ela assentiu com a cabeça, como se dissesse que estava bem. Não sabia se poderia confiar em sua voz àquela altura do campeonato. Droga, era só o primeiro dia ali e já havia bancado a maluca. Será que havia alguma espécie de buraco por perto onde pudesse enfiar a cabeça?
Bloond deu uma breve risadinha, que tentou disfarçar com uma tosse. Alex tinha leve impressão de que a mulher estava rindo dela, e como se percebesse o erro, a conselheira assumiu uma expressão séria ao se sentar sobre a mesinha de centro na frente da garota.
–Que me dizer o que aconteceu, Alexia?
–Alex. — disse e logo depois se arrependeu. Estava rouca e além do mais, aquilo não era realmente importante no momento.
–Perdão?
–Só... meu pai me chama de Alexia. É Alex.
–Oh, tudo bem, Alex. Agora... Se importa em me dizer o que aconteceu lá?
A morena encarou os pés. Quer dizer, poderia contar a Bloond. Geralmente seus professores sabiam com que tipo de aberração estavam lidando. Mas a garota ao seu lado lhe encarava com olhos quase esperançosos enquanto ajeitava seus grandes e redondos óculos de grau no rosto fino, como se estivesse louca para ouvir a fofoca da vez.
–Se sentiria mais confortável se elas saírem?
Alex assentiu. Seria um bom começo.
–Sidney, pode levar Angela para a aula, por favor? Diga ao Harry que eu autorizei o atraso.
A ruiva acenou e, sem dizer nada, apenas indicou a porta à garota e saiu sem esperar por ela. Sidney tinha o tipo de andar suave e ao mesmo tempo ameaçador. Alex nem mesmo pôde ouvir seus passos enquanto ela saía da sala. Angela, percebendo que estava sendo dispensada, se apressou em segui-la. Ela esbarrou em uma pequena escultura de querubim perto da porta e pediu desculpas desajeitadas ao sair, fechando a porta atrás de si.
–Espero que não se importe se Amber ficar. Ela é sua colega de quarto e, além disso, confio nela.
Amber havia parado de circular de um lado para o outro e se sentou no lugar onde Angela havia estado, sorrindo de forma doce.
–Espero que se sinta melhor.
Alexia gostava dela. Amber poderia ser um pouco... excêntrica, mas ela era uma garota legal. Não disse aquilo por educação, Alex percebeu. Ela realmente se importava.
–Me desculpe pela bagunça com o espelho. — Alexia remexia as mãos nervosamente em seu colo. Imaginava se talvez comprar outro faria aquela situação menos constrangedora.
–Não se preocupe com isso agora.
–Alex, o que aconteceu lá? — Bloond perguntou, insistente.
–Quebrei o espelho sem querer e me assustei. -mentiu, olhando direto nos olhos da conselheira.
Depois de um tempo mentindo para os pais, havia aprendido a não desviar os olhos quando eles lhe perguntavam se, entre todas as alucinações, ela era capaz de ver Allan. Uma coisa era ter surtos psicóticos, outra era ser capaz de ver o irmão morto andando pela casa. Ela sabia que aquilo seria demais para seus pais digerirem, então sempre mentia.
Mas ao contrário dos pais de Alex, a mulher pareceu não cair nessa. Com um suspiro, Bloond se virou e alcançou uma pasta atrás de si. A garota já havia visto aquela pasta algumas vezes enquanto seus vários psiquiatras lhe analisavam.
–Aqui diz que você toma antipsicóticos há algum tempo.
Alex encarou suas mãos.
–Ei — Bloond colocou a mão sobre sua perna, e de repente foi como se toda a sala se iluminasse. Ela pôde sentir seu peito se aquecendo como se toda a escuridão daquela visão estivesse indo embora. -, ninguém aqui está te julgando, querida. Estamos apenas tentando lhe ajudar.
–Pode nos contar, A.
Alexia não sabe se foi o fato de Amber estar realmente querendo lhe ajudar ou se foi por ter lhe chamado de A, mas a garota sorriu brevemente para a loira. Durante todos aqueles anos, seu irmão tinha sido o único a lhe chamar daquele jeito.
–Eu vejo coisas. -sua voz saiu como um sussurro rouco.
–Que tipo de coisas?
Não havia acusação ou zombaria na voz de Amber, percebeu. Ela só estava curiosa e disse isso de um jeito como se fosse apenas mais uma pergunta comum.
–Coisas ruins.
–Você viu essas... coisas ruins hj?
Alex assentiu.
–O que você viu? — a pergunta foi gentil e ela sabia que Amber não estava querendo lhe forçar a nada, mas assim que a sensação daquela fumaça negra voltou em sua cabeça, Alex começou a chorar. Nunca havia sentido algo tão ruim, tão... real. Ela não queria se lembrar daquilo.
–Ei, ei, tudo bem. -Bloond se ajoelhou ao lado da garota aos prantos e a envolveu em um abraço. -Não precisa nos contar. Vai ficar tudo bem.
A garota Summers nunca havia sido do tipo que abraçava ou ainda mais chorava nos braços de uma estranha. Mas tudo o que conseguia sentir era um buraco se abrindo em seu peito, fundo e escuro. E o abraço de Bloond ajudou, de certa forma.
–Vão chamar meus pais? — perguntou um pouco depois quando se afastou, envergonhada.
–Bem, seria o correto nessas ocasiões. — Bloond sorriu com condescendência. — Mas podemos fazer assim: Amber pode tirar o dia de folga para lhe mostrar a escola, dar uma volta. E se estiver se sentindo melhor até o final do dia, vamos esquecer que isso aconteceu. Tudo bem por você?
Alexia assentiu, agradecida, antes que alguém batesse à porta. Logo depois Sidney entrou novamente na sala.
–Trouxe uma muda de roupa para você. — Amber apontou para um amontoado de tecido e um sapato em uma poltrona no canto direito da sala. — O banheiro é ali, se quiser se trocar.
Logo a morena entendeu que estava sendo dispensada, então pegou suas roupas e entrou no banheiro. Era iluminado e espaçoso demais para apenas um banheiro de escritório. Não que a sala de Bloond parecesse apenas um escritório. Era uma sala com um ar clássico e quase majestoso, assim como todo colégio havia se mostrado até então — pelo menos, até a pequena parte que já havia conhecido.
O espelho em cima da pia de mármore branco cobria quase toda a parede, e não encarar sua figura pálida nele enquanto colocava suas roupas sobre a pia, foi impossível. Sua pele, já branca demais para seu gosto, estava mais pálida que de costume e, junto com suas olheiras, lhe proporcionavam um ar cansado e doentio. Alex pode notar as marcas vermelhas em seu pescoço, onde havia arranhado. Uma de suas unhas fora quebrada até perto da carne no processo e seu cabelo, ainda úmido, parecia embaraçado.
Ela vestiu a calça jeans rasgadas e a regata preta, percebendo que eram realmente suas roupas. Amber devia ter pegado em seu closet. Calçou seu par de AllStar velho e gasto e desembaraçou seu cabelo liso com os dedos.
Acabou percebendo que aquilo seria o mais próximo de uma aparência quase saudável que conseguiria e estava prestes a sair do banheiro depois de jogar um pouco de água no rosto quando parou. Não era sua intenção bisbilhotar, mas Alex soube que estavam falando sobre ela e a curiosidade foi maior. Teve que colar seu ouvido contra a porta para ouvir melhor os sussurros do outro lado.
–...e eu não quero essa garota perto da Amber.
Imediatamente, reconheceu a voz de Sidney. Ela estava irritada, o que não era surpresa. Sidney parecia sempre irritada.
–Essa não é uma decisão sua, Sid. – foi Amber quem disse.
–Entendo sua preocupação, querida. Mesmo. – voz de Bloond era suave a e gentil. Mas carregava algo mais. Um certo nível de autoridade, talvez. – Mas precisamos descobrir quem ela é. Não foi coincidência que ela tenha aparecido aqui depois...
–Então você decide colocá-la no mesmo quarto que Am, sem nenhuma proteção, onde ela pode facilmente matar essa cabeça de alga enquanto dorme?
O quê? , Alex pensou. Ela por acaso acha que eu sou algum tipo de psicopata? Por que diabos eu mataria Amber?
–Ela não é perigosa. – Amber defendeu a colega de quarto – E além do mais, precisamos ficar de olho nela.
–Não é perigosa? Então diga à Bloond. Diga a ela o que me contou.
–O que ela quer dizer?
–Não é nada. – a loira tentou negar com veemência, mas sua voz falhou. – É só que, quando eu toquei nela no outro dia... eu senti algo.
–Viu? Perigosa. – Sidney teimou.
–Não foi assim. – Alexia quase podia imaginar Amber lançando um olhar de desaprovação à amiga. – Não foi exatamente algo ruim, mas... era frio.
Por um momento a morena pensou na sensação que tinha toda vez que um deles aparecia para ela. Será que era daquilo que ela estava falando?
–Eu senti medo. – ela continuou. – Não por mim, por ela. Não sei exatamente o que é, Bloond, mas eu acho... acho que devemos protegê-la.
Sidney bufou, exasperada.
–E quem é que vai tomar conta de você no processo?
–Acredite em mim, Sidney. – Bloond sussurrou. – Eu fiz um juramento, e prometo que não vou deixar que nada aconteça a Am.
–É, eu já ouvi isso antes quando eu era mais nova. – a voz da garota expressava descrença, e suas palavras fora frias e duras. – Na mesma época em que você ferrou todas nós. Aposto que disse o mesmo à Malese antes de encontrarem o corpo dela.
–Sidney... – a voz de Bloond continuou gentil.
–Ah, da um tempo! Você só está aqui porque precisamos de um núcleo, já que nem gerar uma herdeira que não seja uma aberração da natureza você consegue.
–Sidney! – dessa vez foi Amber quem falou, irritada com a reação da amiga. Alex nem mesmo poderia acreditar que a garota estava falando aquilo. Se algum dia pensasse em dizer algo assim ao diretor de seu antigo colégio, estaria numa bela enrascada.
Ela ouviu passos, uma porta batendo com força, e então silêncio. Decidiu que se ficasse mais tempo dentro daquele banheiro, pareceria estranho. Então, procurando fazer ruído o bastante para que as outras ouvissem, saiu. Bloond estava sentada em sua mesa com uma expressão chocada e triste ao mesmo tempo, como se as palavras de Sidney a tivessem acertado como um soco. Mas assim que viu Alex, ela disfarçou e colocou um sorriso no rosto. Ela a observava com mais atenção, percebeu. Talvez tentando ver algo que lhe taxasse de perigosa e ela se sentiu incomodada com isso, e como se pudesse ler a mente da garota, Bloond desviou o olhar.
O sorriso de Amber também parecia falso e sua voz tremeu enquanto ela tentava se recompor.
– Acho que já podemos começar nossa pequena viagem, então.
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