Embery Hills
1 Prólogo
10 anos antes
Uma vez, quando tinha por volta de 7 anos, deitada em sua cama a noite, Alex pensou em quantas formas uma pessoa poderia morrer. Em quantas formas a vida poderia simplesmente deixar de existir dentro do corpo de alguém, fazendo-as esfriar e se tornar inerte. De quantas formas uma pessoa poderia simplesmente partir, com um último suspiro enquanto sua mão tombava ao lado do corpo e seu olhos se fechassem pela última vez. Quando seu coração parava de bombear sangue e não houvesse mais oxigênio em seu corpo. Naquela noite a garota percebeu uma coisa; todos morreriam um dia. E aquilo era uma realidade cruel.
Ela não poderia lhe dizer por que exatamente tinha aqueles pensamentos em sua cabeça. Talvez fosse o fato de que seus pais e ela tivessem acabado de chegar do velório de seu irmão mais velho e a única coisa na qual conseguia se concentrar era no fato de que ninguém estava salvo da morte. Isso, ao menos, era melhor do que focar sua atenção no barulho de vozes alteradas que vinham do andar de baixo. Seus pais estavam discutindo. De novo.
Eles costumavam discutir todas as noites, desde que se lembrava. Nunca havia entendido o motivo de suas brigas ou porque implicavam tanto um com o outro. E depois de um tempo, já nem mesmo prestava atenção. Embora o pai tivesse um temperamento meio difícil e a mãe não tivesse muita paciência para seus curtos ataques de raiva, eles sempre pediam desculpas um ao outro antes de irem dormir. Seus pais se amavam. Mas isso não lhe fazia perder a vontade de apenas gritar para que eles superassem de uma vez o que quer que tenha causado a discussão dessa vez e apenas irem se deitar.
-Vai ficar tudo bem. — seu irmão apareceu ao lado da cama, sorrindo daquele jeito que sempre fazia com que se acalmasse. Agora, porém, era possível notar certa tristeza em sua expressão. — Estou aqui.
Alex se sentou em sua cama enquanto Allan, com o mesmo casaco com o qual ele havia saído de casa dias atrás, antes de seu corpo ser encontrado em um beco, se ajeitava ao seu lado. Roubo seguido de morte, ela tinha ouvido os homens de uniforme dizerem ao pai quando bateram à sua porta no meio da noite. Seu irmão nunca havia se parecido com nenhum deles. Ele não tinha os cabelos ruivos da mãe, ou os negros do pai. Seu cabelo tinha um tom acobreado e seus olhos eram como lama. Ele havia tentado lhe explicar várias vezes que não tinham o mesmo sangue. Seus pais haviam decidido adotá-lo para que lhe fizesse companhia a minha mãe descobriu que não poderia ter mais filhos, mas embora soubesse que aquilo significava que não tinham nascido dos mesmos pais, sempre soube que não fazia diferença. Allan era seu irmão. Sempre foi e sempre seria.
A garota podia sentir uma espécie de brisa fria vinda dele, e quando ele segurou sua mão, toda a sua pele se arrepiou. Era como estar segurando mármore, e mesmo que nunca se lembrasse de tê-lo sentido tão frio, aquilo não lhe incomodou.
-Eles não param de brigar. Porque eles nunca param de brigar?
-Você é muito nova para entender isso, Alex.
-Não, não sou! Porque todos continuam me dizendo isso? Eu posso me cuidar.
Seu irmão riu, colocando uma mecha de seu cabelo negro azeviche atrás da orelha. Tinha aquela expressão de pesar e quase distraída. Alexia não gostava de vê-lo daquele jeito. Essa era a aparência que eles também tinham.
-Você é, não é? Uma garotinha muito corajosa.
-Para onde você vai agora? Não vai me deixar, não é?
-Não. — ele negou com a cabeça. — Vou ficar com você até o fim. Até o final, A.
Ela ficou ali, encarando seus olhos castanhos enquanto ele lhe fazia deitar novamente, acariciando seu cabelo enquanto sussurrada All Of This perto de seu ouvido. A pequena amava ouvi-lo cantar aquela música. Mesmo deitada em sua cama quente, coberta por um grosso edredom e com o aquecedor ligado, podia sentir o frio. Aquelas fumacinhas de ar saíam de sua boca e eu podia sentir meu corpo tremer às vezes. Era capaz de senti-los lá fora, escondidos nas sombras como sempre. A presença deles fazia parecer com que a temperatura de seu corpo baixasse e ela não podia impedir. Como sempre, tudo o que lhe restava era esperar até que eles resolvessem ir embora.
-Porque eles estão aqui? Porque não vão embora? — perguntou a Allan, que continuava a cantarolar baixinho enquanto acariciava seus cabelos e lhe esperava cair no sono.
-Eles podem te sentir, A. Você é como uma chama para mariposas. — ele sussurrou, como se os outros pudessem os ouvir.
E mais um vez, desde que ele havia saído pela porta de casa, Alex não fazia ideia do que eles estava falando. O irmão, antes comunicativo e alegre, estava virando uma espécie de enigma que nunca tinha respostas completas ou que fizessem sentido. Era estressante até mesmo para uma criança. Ela ficou ali, encarando seu rosto pálido e cansado enquanto sentia a temperatura baixar.
-Durma um pouco. — ele sorriu de lado. — Vou estar aqui quando acordar.
Ela não teimou. Nunca teimava com Allan. Então, fechou os olhos e adormeceu, enrolada em seu cobertor na esperança de se aquecer.
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