Em meio as trevas...
2 Inimigo em comum
Notas iniciais
Acordei em uma sala escura e de forte odor, eu estava com o meu corpo todo dolorido, levantei com dificuldade e caminhei um pouco até a porta, até onde foi possível, tinha correntes em meus pés.
ꟷ Ei... – Gritei ao ver dois caras sentados em uma mesa jogando baralho e os dois me olharam com repugnância – Onde eu estou?
ꟷ Fica caladinha e vê se come isso, vai ser a única refeição que vai ter até o voo. – Um careca barbudo disse me entregando um prato que continha uma sopa fria e nojenta.
Fiz cara de nojo e ele sorriu da minha reação, mantive o prato entre minhas mãos e o perguntei novamente:
ꟷ Voo? Não, não... O que vocês querem comigo?
ꟷ Te foder, bonitinha, se você não ficar calada. – Ele disse grosso.
Um ódio me subiu pela cabeça, peguei o prato entre minhas mãos e o revirei em seu rosto, só me arrependi do ato depois de vê-lo se aproximar de mim furioso.
ꟷ Sua vadia. – Ele disse limpando o rosto e me escorei na parede com medo. – Eu vou te quebrar toda.
ꟷ Steven, comporte-se. – O homem da noite passada, o que apareceu por último e estava armado, apareceu na porta da sala. Ele era misterioso e seus olhos refletiam maldade.
ꟷChefe, essa vadia ... – Steven reclamava.
ꟷSilêncio! – O homem falou em tom calmo erguendo apenas a mão e o careca barbudo apenas assentiu se sentando com o seu colega novamente.
ꟷVejo que é bem arisca. – Ele falou arrastado com um pouco de sotaque, mas nada muito forte, apenas perceptível para saber que ele não era brasileiro, ele falava muito bem português. Ele me encarou enquanto se aproximava e sorriu debochado.
Eu odiava quando debochavam de mim e logo veio a coragem absurda em mim de novo.
ꟷ Quem é você? O que quer comigo? – Disse me aproximando e o encarando.
ꟷLogo vai descobrir, isso se você se comportar e não me obrigar a matá-la. – Ele disse frio.
ꟷVocê é um louco estúpido, me solta agora. – Falei apontando o dedo em seu rosto.
Ele pegou minha mão e me jogou no chão com tanta força e bati a cabeça no chão e minha vista foi escurecendo.
ꟷ Não aponte o dedo outra vez para mim. Não esqueça disso. – Ele disse olhando para mim e depois desviou o olhar para seus comparsas – Ela não vai mais incomodar. -e por fim eu não enxerguei mais nada...
***
Acordei em uma poltrona e logo notei que estava em um avião, minha mão estava algemada junto com a poltrona e eu estava com uma dor de cabeça terrível. Me mexi procurando uma posição confortável na poltrona, não achei. Logo depois ouvi um barulho vindo do meu estomago constrangedor, eu estava com tanta fome agora que até comeria aquela sopa nojenta agora.
ꟷ Com fome, eu suponho. — Ele estava sentado em minha frente com um copo de uísque nas mãos.
ꟷ Eu mandei preparar algo para ela, Machiello. — Um cara diferente dos bandidos que me atacaram na rua disse ao lado do homem de olhos azuis que se chamava Machiello, pelo visto, mas parecia mais um sobrenome, enfim.
ꟷNão seja tolo, Alex. Ela provavelmente vai brincar com a comida novamente que nem fez com Steven.
ꟷJá faz dois dias que ela não come, Henrique. – Bom, pelo visto eu tinha acertado, Henrique era o nome dele e Machiello era o sobrenome, mas isso não importava aquele cara provavelmente estava me levado a morte e eu nem sabia o porquê de estar ali. Mas sei bem se eu morreria, era bom saber o nome do responsável da minha morte.
Dois dias? Eu estava dois dias sequestrada, eu devia ter passado a maior parte do tempo apagada, não havia notado. Será que Valentina tinha sentido minha falta? Só ela poderia sentir essa falta, ela era única família que tinha no Brasil e talvez no mundo.
Respirei fundo e tentei não chorar na frente dos dois, eu não daria esse prazer a eles. Olhei ao redor e percebi que estava em um jatinho bem luxuoso, ou seja, a confusão que eu estava devia ser bem grande. Olhei pela janela e vi o céu azul tão vivo pelo menos o voo estava tranquilo, eu tinha pavor de avião.
Respirei fundo novamente e desviei o olhar da janela tentando não imaginar a quantos metros de altura eu estava da terra firme e no estrago que aconteceria se o avião caísse, o quão boba eu era, de qualquer jeito eu estava indo em direção a morte, se aquele avião caísse pelo menos todos aqueles desgraçados morreriam comigo.
ꟷ Medo de avião? – Machiello perguntou e eu o ignorei.
ꟷ Sabe, eu também tinha. Mas depois de tantas viagens eu acabei meio que me curando desse medo. – Alex falou puxando uma conversa rotineira, o olhei confusa, será que ele percebia que ele estava participando de meu sequestro e uma conversa rotineira com um deles é a última coisa que eu queria.
Machiello olhou reprovando Alex também e depois sorriu. Ele era diferente sorrindo, nem parecia ser o carrasco que era.
ꟷ Idiota. – ele sussurrou.
ꟷ Preciso ir ao banheiro. – Falei e ele me olhou desconfiado.
ꟷ Tudo bem, sem gracinhas em? — Machiello Disse tirando as algemas e eu vi que meus pulsos estavam vermelhos e feridos.
Eu levantei e fui andando para o fim do avião. Ele veio me seguindo, eu me sentia tonta e minhas pernas estavam fracas demais, mas me mantive forte em minha caminhada. Observei ao longo de meu trajeto vários capangas conversando, bebendo e rindo, mas colocaram uma postura mais séria quando Machiello se aproximava.
ꟷ É aqui, não demore muito. – Ele disse abrindo uma porta e eu entrei.
No banheiro, eu só lavei o meu rosto e me permiti a chorar, tentei pensar ao máximo no que eu poderia fazer, mais nada me vinha a cabeça, estava tão nervosa. Eu iria morrer, comecei a pensar em tudo que poderia ter feito até hoje, eu poderia ter aproveitado mais, eu poderia ter comido mais chocolates e sorvetes sem medo de engordar, ter me divertido mais nas festas que Valentina me levava, poderia ter pegado o meu ex vizinho médico que vivia dando em cima de mim até eu me mudar, devia ter ficado bêbada mais vezes, não adiantava mais, eu iria morrer e não precisa ser muito prodígio para saber disso.
Ouvi duas batidas na porta e já sabia que era ele me apressando abri a porta e me desequilibrei, minhas pernas já não tinham mais forças.
Henrique me segurou pela cintura e me manteve em pé, com a proximidade pude sentir o cheiro de seu perfume, ele cheirava bem, não tinha um cheiro de um sequestrador e um possível assassino em série, mas eu sabia que ele era.
ꟷ Precisamos mesmo te alimentar. – Ele falou como se eu fosse um bichinho de estimação, me recusei então me apoiar nele e me afastei caminhando com dificuldade de volta a minha poltrona.
Depois de alguns minutos Alex colocou em minha frente uma bandeja de comida, tinha suco, frutas e um belo sanduíche. Meu estomago saltitou dentro de mim alegre, mas me recusei a demonstrar isso.
ꟷ Não faça cerimônias e coma logo isso, sabe que está morrendo de fome. — Ele falou impaciente e então obedeci comendo o que estava na minha frente com muita vontade.
***
Acordei em um carro em movimento, me acomodei no banco e vi que Henrique estava do meu lado, respirei fundo tinha sensação que estava perto do objetivo final quer seja o que eles queriam comigo.
Vi o carro parar em frente uma mansão, no portão tinha um brasão enorme, eu já tinha visto aquele símbolo em algum lugar, não lembrava onde.
O carro parou ele desceu e logo me puxou pelo braço com "sua delicadeza”. O lugar era enorme e incrível, de acordo do que nos aproximávamos para entrada da mansão em minha frente, via várias arvores e alguns funcionários mais longes cuidando de algo que ele supôs ser o jardim.
Entramos na mansão e tinha uma sala enorme, sentado no sofá tinha um senhor de cabelos brancos, vestido de forma muito elegante, ele se esquentava na lareira. O que me fez notar que estava frio, estávamos em outro país, e eu só queria voltar para casa.
ꟷ Bom trabalho, filho. – O senhor disse sem sequer nos olhar, mantendo seus olhos em um livro.
ꟷ Obrigado, Nono. – Henrique disse beijando as costas das mãos do senhor e agora deixando escapar o sotaque que eu nem sequer havia percebido até então.
Dois homens me seguravam com tanta força que machucavam meu braço, eu estava tão assustada.
ꟷSoltem a garota. – O senhor, supostamente vô de Henrique, disse me observando. – Que falta de hospitalidade.
Puxei meus braços das mãos dos dois brutamontes e os olhei com repulsa soltando um irônico "obrigada" aos dois.
ꟷ Pode se aproximar, senhorita Lancaster. – Ele disse e o olhei ainda na defensiva, mas o obedeci.
ꟷ Sente-se, por favor. – Ele falou apontando para o sofá a minha frente e eu me sentei devagar. — Você é muito mais bonita pessoalmente. — Henrique estava no pé de uma escada nos observando.
ꟷ Vejo que meu neto não a tratou com muito cuidado. – Ele disse observando meus hematomas – Creio que não colaborou com ele também.
ꟷ Ah claro, eu devia ter ajudado ele a me sequestrar, que falta de educação a minha. – Disse sarcástica e ouvi a risada de Henrique na escada.
ꟷ Caíque, contou o motivo da qual a moça está aqui? – Ele disse olhando para o Henrique.. ou Caíque ? Não sei...
ꟷ Preferi me divertir com a curiosidade dela. — Ele respondeu ao avô que sorriu.
ꟷ Então vamos acomodá-la, ela pode esperar mais alguns dias. – Ele disse rindo.
ꟷ O quê? – Falei em um só fio de voz – Não. Eu quero ir para casa, vocês sabem que isso que tão fazendo comigo é crime? A embaixada brasileira vai vim atrás de vocês, eu sou uma importante empresária no país já devem ter sentido minha falta.
Falei e os dois riram, ou melhor, gargalharam.
ꟷ Darling, você acha mesmo que temos medo da polícia brasileira? – Henrique disse rindo
ꟷNós sabemos que isso é crime, sobrevivemos do crime. – O velho de cabelos brancos repugnante disse.
ꟷ Vocês são um tipo de máfia? – Adivinhei e os dois tinham sorrisos no canto do rosto.
ꟷ Meu nome é Aleksander Machiello, o líder da máfia italiana.
“Sim, eu estava encrencada, bastante encrencada” Pensei engolindo um seco na minha garganta.
...
Henrique me conduziu um quarto da mansão, era incrível, tudo que tinha naquele quarto eu não poderia pagar nem se eu trabalhasse um ano todinho com horas extras, eu estava confusa, por que agora eles me hospedariam em sua mansão depois de me tratarem menos que um lixo?
ꟷ Tome um banho, logo mandarei Susana trazer roupas limpas para você. — Henrique disse entrando no quarto e ligando as luzes e o aquecedor.
Caminhei até o centro do quarto, tinha meus braços entrelaçados e olhava ao redor do gigante cômodo.
ꟷQuem é Susana? – Perguntei.
— A governanta da casa. – Ele disse indo em direção da porta e depois a fechou, ouvi ele trancá-la a chave.
...
ꟷ Olá little child. – Uma mulher entrou no quarto com várias cruzetas com roupas e com um sorriso largo. Eu saía do banheiro enrolada em um roupão e com as roupas sujas nas mãos.
ꟷ Você é a Susana? – Perguntei limpando o rosto e disfarçando o choro.
ꟷ Yeh, mas pode me chamar de Susi. – Ela disse simpática e a gostei só pelo sorriso confortador que ela tinha no rosto.
ꟷ Escolha uma roupa e espere, menino Caíque logo virá buscá-la.
ꟷ Caíque? – Perguntei confusa.
ꟷ Ah... o senhor Henrique, na verdade, o nome dele é Carlos Henrique Machiello, seu pai o chamava de Caíque quando criança, o apelido pegou por todos da casa.
ꟷ Pode me contar mais sobre eles? – Disse olhando as roupas.
ꟷJá conheceu o Mr. Aleksander, ele é o chefão por aqui, mas está passando aos poucos o trono para o menino Henrique.
ꟷ Chefão de tudo? Da máfia você quis dizer...– repeti o que ela havia dizendo e suspirei assustada – O que eles querem comigo?
ꟷ Isso eu já não sei, beautiful girl. O que precisa realmente saber, é que não tem como fugir. Então, pela sua vida, obedeça-os para não se machucar. Ok? -Ela disse amável.
ꟷ Como? Como quer que eu seja submissa a esses monstros? – Perguntei com os olhos marejados.
ꟷ Se eles ainda não a mataram e a hospedaram aqui com conforto na mansão, é porque tem bons planos para você.
ꟷ Bons planos vindo de uma organização secreta de bandidos ? – Perguntei sarcástica.
ꟷ Existe coisa pior, minha querida. – Ela disse acariciando os meus cabelos e sabia que ela falava da morte – Se precisar de algo, só me chamar.
“Eu preciso fugir” Pensei, mas ela não teria como me ajudar nisso.
Fiquei sozinha no quarto, e devo ressaltar novamente, que quarto magnífico era aquele, esqueçam tudo que já ouviram de filmes policiais e desenhos de heróis, o crime compensa sim e muito. No entanto, eu trocaria todo aquele luxo, pelo meu querido e apertado apartamento.
ꟷ Tem coisas piores que a morte. – Falei pensando alto.
Logo escolhi entre as roupas um lindo vestido azul, o vesti e joguei minhas roupas sujas em um canto do quarto, mas antes lembrei do colar dentro do bolso esquerdo da calça jeans que havia guardado a quase três dias, o ultimo dia em que estive em casa, era bom ter ele comigo agora.
Fui até o espelho e coloquei no pescoço, uma sensação saudosa me invadiu, lembrei de Ethan Donavan e seu sorriso incrível, já fazia muito tempo em que não tinha notícias dele, desde sua prisão e minha mudança para o Brasil, provavelmente ainda estava preso e a culpa era minha.
ꟷ Você está linda. – Uma voz ecoou no quarto me fazendo soluçar de susto.
ꟷ Obrigada, eu acho. – Disse o encarando.
ꟷ Venha, vai jantar comigo hoje. – Ele disse abrindo a porta do quarto, esperando eu passar.
ꟷSó com você? – Perguntei.
ꟷ Meu avô teve imprevisto, teve que viajar à Itália, me pediu para acompanhá-la em um bom jantar.
ꟷNão estamos na Itália? -Ressaltei confusa.
— Não, Londres. Temos negócios por quase todo mundo, não estranhe. – Ele respondeu
ꟷ Não posso comer aqui no quarto sozinha? – Perguntei e ele esboçou um sorriso desafiador.
ꟷEu já falei que eu odeio ser contrariado? – Ele disse ameaçador.
ꟷ Eu já falei que eu odeio sua companhia? – Disse desafiadora também, não abaixando meu olhar em nenhum momento.
ꟷ Escadas- Sala- jantar- Agora. – Ele disse soletrando a frase e passei pela porta bufando e revirando os olhos.
...
O som dos talheres encostando nos pratos era o único som que se ouvia naquela sala com uma mesa enorme, mas com apenas duas pessoas nela. A comida servida pela Susi era deliciosa, na verdade, se aquele jantar virasse uma pessoa, eu me casaria com ele.
ꟷ Tenho uma curiosidade a seu respeito. – Ele disse quebrando o silencio enquanto tomava o vinho servido em sua taça.
ꟷ Sério? Eu também tenho algumas, tipo: O porquê de me sequestrar até aqui. – Falei sarcástica e ele arrastou seu lábio para o lado esquerdo como um quase sorriso.
ꟷ Por que escolheu Harvard em vez de Yale? — Ele perguntou e eu me engasguei com a comida, me recuperando aos poucos.
ꟷ O quê? Como sabe disso? – Perguntei assustada.
ꟷ Eu sei quase tudo sobre sua vida, mas essa parte eu não entendi, tipo as duas faculdades eram boas, mas Yale era a melhor opção ficava na mesma cidade em que morava, Connecticut. Mas preferiu se mudar...
ꟷ Isso não te interessa. – Falei voltando para o jantar e ele sorriu com minha resposta. É claro que tudo aquilo era uma provocação dele para me deixar mais confusa e curiosa, e estava funcionando, eu não sabia o porquê de estar aqui e ser sequestrada por eles e muito menos como eles sabiam tanto ao meu respeito.
Continuamos em silencio por um bom tempo, até Alex entrar desesperado na sala de jantar:
ꟷ Henrique, a máfia Russa invadiu a mansão na Alemanha.
ꟷ O quê? – Henrique levantou da cadeira imediatamente e estava furioso.
ꟷ Perdemos um grande número de integrantes e o pior a mercadoria foi roubada. – Alex falou receoso.
Em questão de segundos vi a mesa do jantar ser desmontado no chão, Henrique furioso puxou a toalha da mesa e tudo foi ao chão. Fitei assustada para a cena e Alex preocupado.
ꟷ Que pena, o frango estava ótimo. – Falei fazendo biquinho e o Machiello me olhou furioso.
ꟷ Está achando graça disso? – Ele disse me puxando pelo braço me levantando da cadeira.
— Problemas no mundo do crime? É realmente uma pena. – Disse sarcástica encarando seus olhos azuis.
Ele me segurou com mais força e mais furioso, me encostou à parede, colou nossos corpos e agarrou o meu pescoço.
ꟷ Não brinque comigo, garota...o sarà amaramente rimpiangere... ( Ou vai se arrepender amargamente...)
ꟷ Estúpido. – Falei cuspindo em seu rosto e ele me dirigiu um tapa forte no rosto e caí sobre o chão.
ꟷ Não temos tempo para isso, Caíque. Vamos. – Alex disse me olhando reprovando a minha insensatez.
Machiello e Alex saíram me deixando ali sozinha na sala caída, eu estava com o meu rosto vermelho e tinha gotículas de sangue saindo da minha boca, eu estava furiosa, mas enxerguei naquele momento sozinha na sala uma chance de escapar.
Fui para o meu quarto e da sacada observei o jardim escuro tinham apenas alguns seguranças ao redor da casa, outros estavam concentrados no portão de entrada agitados em um grupo, onde Henrique dava ordens. Com um pouco de dificuldade fui escalando a janela, perdi o equilíbrio em alguns momentos, mas consegui descer até o chão.
Olhei ao redor e comecei a correr pelo jardim até me esbarrar com um muro muito alto.
ꟷ Droga! – Murmurei.
Olhei ao redor e vi uma escada de serviço, coloquei a escadas encostada ao muro e subi, mesmo com a escada tive que me esforçar mais para subir em cima do muro, e como eu odiava altura.
Respirei fundo e consegui arrastar a escada para o outro lado, descendo, mas caindo na metade do muro, ralando o joelho, mas eu conseguiria sobreviver ao ferimento no joelho, mas não conseguiria sobreviver a Henrique Machiello que estava bem em minha frente.
ꟷ Sabe, eu fiquei observando sua fuga desde a janela do seu quarto e foi divertido ver você pensar que seria realmente capaz de fugir. – Ele disse sarcástico e me levantou com brutalidade me puxando só pelo o braço.
ꟷ Vai para o inferno. – Disse ríspida e ele se aproximou do meu rosto, tão próximo que podia sentir sua respiração quente enquanto ele sussurrava:
ꟷ Só se eu for com você. — Ele me largou e me deu espaço para que eu andasse de volta a casa.
Observei o bairro, não tinha casas, nem lojas, nem bares, nem nada... Era deserto, só havia muros, que certamente protegiam mais propriedades dos Machiellos.
ꟷ Vamos, não estou com paciência para suas fugas. – Ele disse me empurrando e me neguei a sair do lugar.
ꟷ O que pensa que está fazendo ? – Ele perguntou irritado.
ꟷ Eu não vou. – Falei alto.
ꟷ Garota, eu estou tendo um dia difícil, então não fode com minha paciência. – Ele disse irritado e me puxou pela cintura, me jogou por cima de seus ombros e me carregou como se eu fosse um saco de batatas.
***
Henrique me colocou em cima do balcão da cozinha e Susi me olhava com compaixão. Ele abria alguns armários, até tirar uma caixa de primeiros socorros de dentro e colocar em cima da mesa. Henrique puxou as mangas cumpridas de sua camisa até os cotovelos, depois puxou algum tipo de remédio de dentro e passou em um algodão. Ele tentou pousar o algodão em meus joelhos, mas me afastei.
ꟷ Maria Eduarda estou tentando te ajudar. – Ele disse irritado.
ꟷ Menina, deixa ele passar curativos. Você já tem hematomas suficientes. – Susi disse se aproximando de Henrique e revirando a caixa de primeiros socorros também.
Bufei e consenti, Henrique segurou meu joelho com delicadeza... Sim, DELICADEZA, sem ironia dessa vez. E eu pensava que ele nem sabia essa palavra, passou o algodão molhado e fiz careta ao sentir a ardência em minha pele. Susi passou algumas gases para Henrique que logo enfaixou meu joelho.
ꟷ Suba para o seu quarto agora. – Ele disse enfim quando terminou e estremeci com sua voz de timbre forte e seu olhar sério.
...
Ouvi a alguém bater na porta e soube que era ele quando seu perfume invadiu o quarto, respirei fundo e virei para encará-lo.
ꟷ Você pensa que somos os vilões da história ... E sim somos. – Ele disse rindo – Mas tem vilões com objetivos piores por aí, menina. – Ele falou mais sério, e por que diabos ele me chamava de menina? Ele era mais velho do que eu provavelmente uns três anos.
ꟷ E esses vilões também podem vir atrás de você se descobrirem onde você se encontra, aqui está protegida, então não tente fugir. – Ele disse sério e se aproximou, sentou ao meu lado na cama.
ꟷ Por quê? O que eu tenho demais para um coletivo de mafiosos virem atrás de mim? E por que preciso da sua proteção e o quanto você vai cobrar por ela? – perguntei.
ꟷ Quantas perguntas...você devia avaliar seu histórico e descobriria fácil. – Ele disse rindo, por fim levantou e caminhou até a porta.
ꟷ Pensei que sacaria de primeira, afinal você não é uma menina prodígio? – Ele disse piscando e fechando a porta.
Até o momento o meu nervosismos e medo me inibiram de pensar o porquê de estar ali, e definitivamente não sabia de fato. Mas Henrique me chamou de prodígio e a última vez que ouvi alguém me chamar assim foi em minha temporada em Harvard, será que aquela confusão tinha algo a ver ainda com o meu último feito nos Estados Unidos?
“Você precisa voltar para o Brasil e tentar se manter afastada disso, seu conhecimento é esplendido, mas aqui é perigoso, muitas pessoas podem tentar tirar proveito disso.”
Lembrei-me das palavras do senhor Balser há sete anos. A máfia queria usar minhas habilidades, o meu raciocínio e talento com tecnologias para arrecadar mais dinheiros, afinal eu já tinha criado algo uma vez que tinha poder de bagunçar a economia mundial, minhas habilidades eram atraentes para eles.
***
Acordei com Susi invadindo o quarto e abrindo as cortinas, bufei e me escondi entre as almofadas, de todas as manhãs em que passei nessa semana presa nessa mansão enquanto Henrique e seu avô viajavam, nem uma sequer Susi me deixava acordar tarde, que saco! Ela sempre entrava com várias roupas novas, que dizendo ela, Henrique dava ordem de comprá-las, abria as cortinas e cantarolava algo em outra língua...
ꟷ Está na hora de acordar menina Maria. – Ela dizia animada e colocou um lindo vestido florido sobre a cama.
ꟷ Ele quer me comprar com roupas? É isso? – Perguntei sarcástica e entrei no banheiro porque se ficasse mais na cama, mais Susi cantaria aquela música irritante.
Tomei um banho tranquilo e relaxante, entrei no closet e peguei uma das roupas que colecionava das que Susi me dava pela manhã, nem morta eu usaria aquele vestido florido. Vestida apenas de minhas peças intimas, caminhei até a cama e joguei por cima do vestido uma calça jeans clara, uma blusa preta regata e um casaco preto de couro.
— Bom dia, senhorita Lancaster. – A voz de timbre forte de Henrique ecoou pelo quarto me fazendo soluçar de susto, o encarei e ele tinha um sorriso de lado provocante no rosto.
Puxei a coxa de cama imediatamente para me cobrir e o olhei assustada e vermelha de vergonha.
ꟷ Não demore muito, hoje temos planos para você. – Ele disse abrindo a porta do quarto, mas antes de sair continuou a falar – E, a propósito, bonita lingerie – Ele disse rindo ao fechar a porta enquanto eu ficava boquiaberta.
...
Já vestida desci as escadas e encontrei Henrique impaciente, sim eu tinha demorado a me arrumar de propósito.
— vamos, Maria Eduarda. Quanta demora, meu avô já foi e temos que ir. – Ele disse me segurando pelo pulso e me arrastando para fora da casa até um carro preto.
—Philip, hoje eu dirijo, está dispensado. – Ele disse para um homem encostado no veículo que assentiu e saiu.
O trajeto em que seguíamos foi silencioso, até chegarmos a um prédio que ficava em um bairro não tão movimentado. Ao entrarmos logo percebi que era uma boate, não estava em horário de funcionamento ainda, mas tinha algumas pessoas bebendo no bar.
ꟷ Henrique, estava com saudade. – Uma loira disse grudando no pescoço do mafioso e o dando um beijo bem extravagante, que nojo.
A loira vestia um micro vestido com um decote, ela me parecia uma prostituta e devia ser já que aquele lugar me parecia um ambiente perfeito para elas.
ꟷ Opa, vai com calma, Melissa. – Henrique disse dando uma risada – To aqui a negócios, não para diversão;
Ele disse dispensando a moça e segurou de volta ao meu pulso, o que fez loira me olhar com repulsa, me arrastou até o bar e fez que eu sentasse em um balcão ali perto.
ꟷ Não mova um músculo daqui. – Ele disse autoritário e eu sorri, ele franziu a testa e fez um sinal chamando dois seguranças.
ꟷ Fiquem de olho nela. – Ele disse autoritário e eu bufei.
Virei para o balcão e encostei meus cotovelos em cima e minhas mãos seguravam minhas bochechas, todos naquele lugar me encaravam, pareciam me ver como um problema ou como algo que parecia ser altamente toxico. Bufei de novo e revirei os olhos, Machiello demorava muito.
ꟷ Uma bebida pode ajudar com o tédio. – Uma mulher que podia ter já uns trinta e poucos anos disse me servindo algo transparente que parecia água, mas o cheiro era forte demais para ser água.
ꟷ Ah, não, obrigada. – Disse olhando para a dose meio que contraída.
ꟷ Querida, você deve ter passado uns infernos esses últimos dias, tem certeza que não quer beber? – Ela disse se servindo uma dose e virando em um só gole para dentro da garganta, a observei a fazendo isso com tanta facilidade e resolvi tentar.
Peguei o pequeno copo de vidro e coloquei o líquido a goela dentro, passou ardendo em minha garganta, fiz uma careta até engolir o liquido por completo e a mulher sorriu simpática. Observando melhor, ela era bonita, tinha traços de maus cuidados como estresse, mas era realmente bonita, cabelos pretos brilhante e peitos bem avantajados.
ꟷ Você tem razão, eu estava precisando disso. – Disse rindo.
ꟷ Então, deu muito trabalho para os Machiellos? – Ela disse rindo e olhando meus hematomas e suspirei triste.
ꟷ Um pouco, mas vou dar muito mais. – Eu disse e ela riu, balançado a cabeça negativamente, eu compreendia o que ela devia estar pensando,” o que eu poderia fazer?” Mas eu já fui um prodígio um dia, talvez eu voltasse a ser e pensasse em um modo de fugir deles.
ꟷ Não tem como fugir da máfia, eu não sei o que eles pretendem com você, mas se está viva e está aqui nesse prédio vigiada pelos seguranças que quase nunca desgrudam de Henrique, é porque é importante. Descubra e mantenha-se viva, ou melhor, participe disso.
ꟷ Participar do que? Da máfia? Você está maluca?- Disse rindo.
ꟷ Quando se cruza com a máfia uma vez e desse jeito em que está envolvida, não tem como se livrar deles por completo. – Ela disse me servindo mais uma dose.
Tomei a dose novamente, dessa vez foi mais fácil, meu paladar já estava acostumando-se com o gosto.
ꟷ Keith, 2 uísques na mesa 6. – Uma garota de cabelos negros e curtos disse se sentando ao meu lado e a morena com a qual conversava pegou 2 uísques na prateleira e colocou perto de dela.
ꟷ Sabe, os homens daqui estão todos desejando você. – Ela disse eufórica para mim e eu a olhei assustada
ꟷ Ela é uma garota linda, mas não vai trabalhar aqui na boate, Agnes. – Keith disse a repreendendo.
ꟷ Ah que pena você ganharia uma grana preta. – Ela disse agarrando os uísques. – Mas se não é uma nova garota noturna, é o que então? – Ela perguntou.
ꟷ Agnes, não se intrometa nos negócios da chefia. – Ela disse e Agnes observou os dois seguranças atrás de mim e arregalou os olhos.
ꟷ Você deve ter se metido em uma encrenca e tanto, não é? – Ela disse levantando – Nos vemos por aí, garota problema. – Ela disse indo em direção à mesa 6.
Eu perguntaria algo sobre Agnes para Keith, mas quando voltei a encarar a mulher de trás do balcão ela apontou para as escadas e Henrique me chamava.
***
Entramos em uma sala, Henrique tinha colocado um tipo de senha antes de entrarmos em um cômodo que ficava no subsolo da boate. Os seguranças ficaram na porta, Henrique e eu ficamos sozinhos em uma sala fria, logo ele ligou as luzes e pude ver melhor o local, uma sala cheia de computadores com tecnologia de ponta, aquilo era um paraíso geek.
Henrique se sentou em uma poltrona e começou a teclar nos computadores, ele abria um tipo de arquivo que logo se expandiu em um telão, uma foto minha de sete anos atrás com alguns dados na legenda.
ꟷ Maria Eduarda Lancaster, nacionalidade brasileira. — Henrique rodopiou a poltrona e virou-se para mim me encarado, enquanto eu estava de pé no centro da sala — Criada no Brasil até os 10 anos, depois de ficar órfã se mudou para os estados Unidos com a família da mãe, Elisabeth Lancaster. Aos 15 anos entrou na faculdade de Harvard, onde era conhecida com um prodígio. – Ele disse se levantando e cruzando os braços.
ꟷ 14 anos na verdade. — O corrigi e ele sorriu — ótima palestra, vejo que está bem informado. – Disse sarcástica puxando uma poltrona para mim e me sentando de pernas cruzadas.
ꟷ Aos 18 anos voltou para o Brasil, tudo porque ela usou um dos seus preciosos talentos, talentos estes dos quais estamos interessados. – Ele disse me olhando e me engasguei com o seco que engolia.
Era isso? Eles queriam que eu trabalhasse para eles como uma cracker e invadisse sistemas de países e pessoas poderosas por aí?
ꟷ Então era isso? Querem que eu seja um tipo de hacker para vocês? Roubos, identidades falsas, fraudes? Fala sério, a fortuna que vocês têm já não é suficiente? Ou melhor, existem milhões de hackers melhores que eu e que possuem o caráter psicótico que nem o de vocês, porque não pedem ajuda a eles? – Disse bufando.
ꟷ Mais que isso, precisamos de você para uma guerra. – Ele disse se aproximando- E não seja modesta, Eduarda, você sabe que é uma das melhores, e por mais que tente fugir desse seu talento dirigindo uma empresa de publicidade no Brasil, sabe que é isso o que faz de melhor. – Ele disse me fitando com os seus olhos azuis;
ꟷ Eu não sou a única... Qual é ? – Disse levantando impaciente — Eu fui considerada uma menina prodígio por aprender a ler aos 2 anos e meio, por passar nas melhores faculdades com 14 anos, mas já passou... Eu não sou mais isso. Tem que atualizar seu arquivo. – Disse fugindo de seus olhos e me apoiando em uma mesa fugindo de olhar para aquele telão;
ꟷ Você é muito inteligente, Maria Eduarda. Porque não aceita isso? Você fugiu porque sabia que isso ia acontecer, a CIA estava interessada em você o mesmo quanto estamos agora, você ficou com medo, foi embora e desistiu de tudo.
ꟷ Por que vocês estão fazendo isso comigo? – Disse com os olhos marejados e ele me olhou confuso – Eu estava bem no Brasil, eu estava afastada disso tudo. Agora por causa dos seus problemas idiotas querem que eu me envolva nisso.
ꟷ Por que tem tanta repulsa com o seu talento? – Ele perguntou confuso.
Lembrei de Ethan, lembrei dos policiais o algemando, lembrei de sua prisão, isso foi suficiente para as lagrimas involuntariamente caírem sobre o meu rosto e eu apertar o pingente pendurado no meu pescoço com tanta força que meus dedos já ficavam dormentes
ꟷ Isso não é um talento, não para usar da forma como vocês querem. Costumava ser algo divertido na faculdade, tudo isso, computadores, tecnologia, invadir contas...
ꟷ Por que não é mais? – Ele perguntou.
ꟷ Por que eu estou presa nesse inferno agora e olha só o motivo. – Disse sarcástica.
ꟷ Sei que quando se fala em máfia só pensa em coisas ruins, mas pode ganhar muita coisa em troca se for nossa aliada nessa guerra contra a máfia Russa.
ꟷ E eu tenho escolha? – Perguntei sarcástica.
ꟷ Não, nenhuma. – Aleksander disse entrando na sala;
Ele entrou na sala com um charuto entre os dedos e parou em minha frente.
ꟷ A máfia Russa vem sendo um problema há alguns anos, vem destruindo e roubando algumas coisas nossas, destruindo alianças que a cosa mostra demorou anos para conseguir, se aliando com outras organizações poderosas, isso porque eles estão cada vez mais estrategistas.
O velho se sentou com dificuldade e Henrique o ajudou, mantive meus olhos concentrados nele enquanto discursava:
ꟷ Nossa família sempre foi muito boa em negócios ilícitos, a máfia italiana é rica afinal. Eu sempre comandei bem isso aqui, subornos aos oficiais do país para nos manter protegido da lei, armas para nos manter protegidos dos inimigos. Atuamos em diversos países, somos a maior organização criminosa. Mas de uns nos para cá o inimigo sempre esteve um passo adiante com suas armas mais poderosos, sua invasão de sistemas, estratégias melhores...
ꟷ Isso não é preocupação minha, é sua. – Disse me acomodando na poltrona.
ꟷ Não seja petulante, menina. – Aleksander me repreendeu.
ꟷ Eu não vou ajudá-los, e sim, eu tenho talento pra destruir seus inimigos com o mesmo jogo deles, ou até mesmo com um jogo melhor, mas eu não irei. – Disse o afrontando, era tão bom vê-los precisados de mim agora, saber que depois de eles terem me batido, me sequestrado e me humilhado, eu tinha o que eles precisavam.
ꟷ Não seja tola, vamos matá-la se não nos ajudar. – Henrique.
ꟷ Que me matem, nos encontraremos no inferno depois da máfia Russa matarem vocês, faremos uma festinha de reencontro. – Disse rindo da cara dos dois, e não, eu sempre soube que meu destino não era o paraíso, nunca fui uma menina boazinha para estar lá.
ꟷ E se eu disser que tem mais motivos que nós para mandar a máfia Russa para o inferno primeiro? – Aleksander falou me olhando sugestivo, arqueei as sobrancelhas e o olhei apreensiva.
ꟷ Desculpa, mas eu acho muito difícil você ter um. – Disse rindo.
ꟷ Senhorita Eduarda, você nunca se perguntou quem matou seu pai? – Ele me olhou intrigante.
ꟷ A policia disse que foi um latrocínio, eu era pequena, depois fui morar com meus tios nos Estados Unidos.... Não sei, o que está insinuando? – Perguntei com os olhos marejados.
ꟷ Que eu sei quem foi responsável pela morte de seu pai, o nome dele é Ían Matarazzo , chefe da máfia Russa.
***

Eu não conseguia respirar direito, nem raciocinar direito era tanta dor presa no peito, eu queria poder gritar, mas tinha um bolo de angustia na minha garganta que me impedia disso.
Eu tinha apenas 10 anos, eu e meu pai estávamos em uma nova cidade no Brasil, mais uma das mudanças inexplicáveis de meu pai, mas eu gostava de conhecer lugares novos, mas tinha certa dificuldade de fazer amigos na escola. Mas aquela cidade era diferente, eu tinha conhecido uma menina chamada Valentina minha vizinha, meu pai estava paquerando sua mãe, pelo menos eu queria muito, meu pai era muito sozinho.
Tudo estava indo bem, a nova casa, minha nova amiga e uma possível nova família. Me parecia um lugar ideal para eu e meu pai ficarmos morando de vez, sem mudanças.
“ _ Pai, cheguei da escola. – Gritei entrando na casa, a mãe de Valentina tinha me dado carona de volta, meu pai estava ocupado pintando a casa.
Estranhei meu pai não aparecer de primeira com o seu sorriso largo e seu abraço de urso para me receber, vi várias tintas de chão caídas no chão. Estranho...
Adentrei mais o local e cheguei no quarto de papai, ele estava caído junto com a tinta branca escorrendo chão. Eu dei um grito imediatamente e meu pai me olhou atordoado.
ꟷ PAPAI!!
ꟷCorre Eduarda! — Foram as últimas palavras dele e eu vi o tiro acertando sua cabeça, eu o vi sendo morto em minha frente, eu vi o seu sangue sendo misturado com a tinta branca no chão, eu vi meu mundo desmoronar. “
Lágrimas saiam do meu rosto ao lembrar do meu inferno particular, do pior dia da minha vida. Podia chorar abertamente queria colocar aquela dor para fora, e podia já que Aleksander e Henrique me deixaram sozinha na sala.
ꟷ Como eu posso acreditar se é verdade, pai? – Falei sozinha, eu não acreditava que meu pai podia me ouvir em forma de espíritos e qualquer coisa, eu não acreditava em nada disso, eu era muito racional para aquilo. Mas aquilo era o meu desespero por consolo.
ꟷ Como posso saber, porque eu to aqui sozinha, pai, sem ninguém, perdida nesse inferno entre máfias. –Disse enxugando as lágrimas.
Olhei para as mesas em volta de mim, nos computadores magníficos em cima delas, era irônico eles terem tanto dinheiro para comprar toda aquela estrutura, mas eles precisavam de alguém qualificado, como eu.
Sentei em uma poltrona e fiquei em frente aquela tela enorme, enxuguei minhas lágrimas e encarei meu reflexo na tela do computador desligada e o liguei.
ꟷ Vejo que está disposta a ser nossa aliada. – Ouvi a voz de Henrique atrás de mim.
ꟷ Se prefere chamar assim, mas eu só vejo que temos um inimigo comum, eu não acho que aliado seja um termo de definição para isso.
ꟷ Inimiga do meu inimigo, é minha melhor amiga. – Ele sussurrou em meu ouvido e pude sentir meu corpo se arrepiar com aquilo, mas me concentrei.
Eu tinha que desvendar mais sobre o ocorrido com o meu pai, eles escondiam muitas coisas de mim ainda, estava na hora de eu dançar conforme a dança.
***
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