Em busca de Ana

1 Um dia especial


Notas iniciais
‘’Ligação gratuita deixe seu recado após o sinal bippp...'' — Hã ... Oi, aqui é a Ana! Lembra de mim? Nós moramos nos mesmo orfanato durante sete anos. Me lembro como se fosse ontem quando você foi adotado, meu mundo ficou tão triste e escuro , não tive com que me socializar depois, muita coisa mudou logo que você foi embora... Mas vou direto ao ponto, porque você sabe que eu não gosto de enrolar, lembra daquela vez que eu disse que eu ia fugir e caso isso acontecesse realmente era para eu te avisar? Pois bem, eu estou fugindo... Coisas estão acontecendo aqui no orfanato,pois é eu não tive a mesma sorte que você... Eu sei que faz muito tempo que a gente não se vê, mas você é o único em quem posso confiar. Então é isso, espero um dia te encontrar... ''Bip bip bip...''

Hoje, dia 20 de maio é um dia especial, eu estava em frente ao espelho me arrumando para uma pequena comemoração, que eu havia prometido para a minha atual namorada, Lucia.

Com um tênis All Star preto, e aquela camisa verde que ela adorava e uma bermuda, era assim que eu estava vestido. Meu cabelo castanho estava um pouco dessarumado mas era assim que ela gostava, e minha pele estava bem bronzeada por sinal... Não seria nada de mais, mas queria fazer deste dia divertido, estava planejado para ela chegar em casa as 19:00 horas, ainda eram 18:00 e eu tinha muita coisa pra fazer.

Hoje estamos completando três anos de namoro, e é claro eu queria fazer algo especial, deixei tudo planejado. Eu iria fazer pastéis de carne, que eu tinha visto a receita em um site na internet e pelo que li não era muito complicada, anotei tudo do que precisava e corri para a cozinha, mas antes eu havia recebido uma mensagem dela:

Amor:

Qual é a surpresa de hoje? Estou super ansiosa para saber o que é!

Então logo em seguida respondi:

— Vai ter que esperar até as 19:00 horas pra ver!

Quando liguei a panela eu pude sentir o calor dela com óleo a meio metro de distancia, meus dotes culinários nunca foram um dos melhores mas desta vez eu queria impressionar! Me lembro como se fosse ontem da primeira vez que a vi, foi quando derramei café quente no seu vestido no Bistrô, por incrível que pareça aquilo me trouxe um relacionamento duradouro e leve, levou um tempo para nos conhecermos melhor, mas o destino foi bondoso e me trouxe aquela linda mulher.

Trim....

Quando vi era Gilherme me ligando, o que ele queria? Eu disse que hoje estaria ocupado! Aquele cabeça de vento, nunca me ouve e depois se ferra e não sabe o porque, mas tudo bem esse tipo de amigo é igual casamento eterno, tem suas brigas mas tudo volta ao normal depois de um tempo. Então atendi:

—Fala Pedrão!!

— Eu te falei que ia estar ocupado hoje

— Nossa ! ‘’Oi’’ pra você também

—Oi

— E o que faz para Rosa?

— Cara eu namoro ela a quase três anos e você nem se quer lembra o nome dela, ó amigão você viu?

— Tanto faz, aquela menina é uma fresca cara, você merece garota melhor! Vem curtir comigo aqui a festa do Pablo, ta muito massa só tem filé mignon

— Não obrigada, eu amo muito a LÚCIA e não vou tocar ela por mulher nenhuma

— Nossa , credo ! Mas você não respondeu minha pergunta, o que você faz pra Luana?

— Pastéis com recheio de carne, e é Lúcia ! Quer saber não vou nem mais discutir o nome dela com você.

— Pastéis? Cara você é um bosta! A menina é a maior fresca e você vai fazer pastel ?

— E qual o problema ?

— Depois você fala que eu não te escuto, depois não vem me ligar falando de como a ‘’comemoração’’ foi ‘’boa’’.

— É você quem faz isso Guilherme

— Mas hoje é você quem vai fazer, e nem vou atender...

( Campainha tocando)

— Ta legal, faz o que você quiser tenho que atender a porta porque ela acabou de chegar, falou ...

—Falou

O relógio havia marcado 19:00 horas em ponto, eu estava um pouco nervoso pois nunca havia tentado fazer algo tão audacioso quanto isso que estou fazendo, ou seja, fritar pastéis. Nos anos anteriores eu levava a Lucia para jantar em restaurantes exóticos mas hoje tudo esta muito caro, e esse mês minha grana estava curta. Eu trabalhava meio período em um supermercado descarregando cargas e mais cargas de comidas, chego morto em casa mas no final vale a pena curtir a graninha que ganho todo final de mês.

Logo que abri a porta lá estava Lúcia , com um o vestido preto e sapatilhas cinza com um laço chamativo em frente, os cabelos loiros estavam presos em uma trança, e os olhos verdes estavam delineados com preto, os lábios estavam marcados com uma cor vermelho sangue. Pode parecer incrível mas eu reparo em tudo, o Roberto – meu outro amigo — me chama de gay mas eu considero isso uma qualidade.

— Oi amor – disse ela em um tom doce e logo em seguida me deu um beijo profundo

— Oi

— Adoro essa camiseta, te deixa mais forte...

Pude sentir meu rosto queimar de vergonha, sempre fico sem jeito quando alguém me elogia, mas por mais que eu ficasse sem jeito eu adorava receber um elogio.

— E então, o que preparou? Você disse que era uma surpresa, fiquei curiosa pra saber o que era

— Só um minuto, fique a vontade você já é de casa...

Em seguida fui correndo para a cozinha arrumar os pastéis, tudo estava saindo como planejado, eu estava orgulhoso de ter feito os pastéis, estavam todos perfeitos , poderia pensar seriamente em fazer vestibular para administração e abrir uma pastelaria, eu ganharia muito dinheiro. Sim , eu tenho dezessete anos e ainda não sei ao certo o que eu quero fazer da vida, mas esses pasteis apareceram e a partir daí surgiu a oportunidade de cursar algo do meu mais novo ‘’perfil’’; seguidamente minha mãe adotiva entrou na cozinha e disse:

— Só estou aqui pra pegar meu chá, não se preocupe não vou atrapalhar...

—Você não atrapalha nada mãe, se quiser pegar algum pastel fique a vontade

— Então era essa a surpresa? Acredito que ficaram maravilhosos, mas não garanto que a Lúcia vai gostar...

—E por que não?

— Pedro faz três anos que você namora a garota e ainda me pergunta isso?

— Ah mãe, acho que ela pode mudar de idéia, eles estão tão lindos

— Bom, só estou falando o que penso

— Ok, vou levar pra ela ...

— Tudo bem , boa sorte...

— Obrigada

Fui adotado aos sete anos de idade em um orfanato,minha mãe queria adotar um filho porque não conseguia engravidar, ela sofre muito por ter de cuidar da casa sozinha e eu ajudo no que posso, pois ela é uma mãe solteira, mas o que ela apenas exige de mim é que eu estude. Não me lembro muito bem de como era a vida no orfanato mas tinha uma garota, o nome dela era Ana e éramos inseparáveis, me sentia único ao seu lado, mas depois que fui embora não tive mais noticias do local muito menos dela.

— Cheguei amor, e então o que acha?

Ela havia feita aquela cara de quem comeu e não gostou , mas eu ainda tinha minhas esperanças.

— Pastéis?

— O que acha? Estou pensando seriamente em me formar em administração e abrir uma pastelaria!

— Legal, mas você sabe né fofo? Estou de regime!

—Não é aquele seu regime maluco, não é ? Quero que se alimente direito Lucia! Eu me preocupo com você, e além do mais é muito bonita não precisa emagrecer

— Owtt, você é um fofo mas não! Obrigada lindo, vou pedir uma salada mexicana

— Deixa que eu pago — Por mais que a grana estivesse curta, valia a pena pagar qualquer coisa para ela

— Owtt , você é um fofo...

— E então como foi seu dia

— Ah sabe como é, aquele idiota do Alberto fica me perseguido como se eu não tivesse namorado, ele é um tonto

— Não acredito que aquele cara ainda está na sua cola?

— Pode ficar tranqüilo , aquele cão late mas não morde...

— Enquanto isso vamos ligar na Netflix, acabou de sair uma nova temporada de ‘’How To Get With Murder’’ e eu estava louco pra ver com você!

Trinta minutos depois de pedir a salada mexicana ela havia chego, paguei com meu suado dinheiro e deu tudo certo. Enquanto a Lucia comia sua salada eu comia meus pastéis junto da série, então meu celular começou a tocar.

— Você não vai atender? – Perguntou ela

— Não, vejo a caixa postal depois

Depois de falar isso o clima entre ela e eu pareceu ficar mais quente, começamos a nos beijar de uma tal maneira como se o mundo fosse acabar, senti o calor em seus braços e o desespero em seus abios então quando eu notei já estávamos quase semi-nus, derrepende eu parei e falei:

— Desculpa Lu, mas não vai rolar...

— E porque não?

— Eu não quero

— Pedro faz três anos que a gente namora! Hoje é um dia especial esqueceu?

— Não mas... Ainda não me sinto pronto para fazer isso

— Você é frouxo ou o que?

— Não sou frouxo coisa nenhuma! Já que está reclamando porque não vai atrás daquele Alberto? Aquele cara é louco por você!

— Quer saber? Aposto que ele é melhor que você!

— Lucia qual é o seu problema?

— Desculpa, ta legal? É que sei lá, faz três anos que a gente ta junto ...

— Eu sei mas ... Quando tiver que acontecer vai acontecer

— Sim ...

Então aquele silencio constrangedor pairou entre nós, e quando notei o relógio havia dado 00:00 horas, então ela exclamou:

— Tenho que ir, meus pais devem estar preocupados

— Sim , eu te levo até a porta

Estava na hora de Lucia ir para casa e eu ir para minha cama, amanhã o dia seria exaustivo teria de ajudar minha mãe a pintar o quarto dos fundos. Na despedida demos um beijo demorado e um ‘’boa noite’’ então fui checar minha caixa postal:

Desconhecido

Horário enviado: 20:00 horas

Que estranho , quem me ligaria? Amanhã eu vejo, estou caindo de sono.