Em busca de Ana
4 Identidade Falsa
Só podia ser engano, não era possível! Depois de tanto tempo, de repente ela me liga. Ana, minha Ana, aquela garota na qual eu tinha uma queda durante o tempo que morei no orfanato. O local no qual eu vivia não era um dos melhores na época mas ela trazia um tom diferente em minha vida, em meus dias e até mesmo nas minhas ações.
Ela era minha melhor amiga, ela fez parte de minha infância, e sempre esteve do meu lado quando precisei, e vice versa. Depois que fui adotado não soube mais dela e sua pessoa não passou de uma lembrança de minha criança. Eu estava totalmente sem chão, como pude deixar essa ligação passar? Onde ela pode estar agora? O que realmente aconteceu? De repente meu celular vibrou, e entrei em pânico:
Lucia:
Por favor, vamos conversar com calma... Aquilo que você viu não passou de uma besteira!
Eu não queria conversar com ninguém, minha cabeça estava cheia e eu não pude parar de pensar em Ana. Novamente chequei meu relógio do celular, o ponteiro marcava 12:50, e nesse exato momento um lembrete apareceu em minha tela:
Notas: O estágio no hospital St. Louis começa hoje!
Eu havia acabado de me lembrar, durante as férias de verão minha mãe conseguiu uma espécie de estágio para eu começar a trabalhar, segundo ela isso acrescentaria pontos para meu currículo e seria mais fácil entrar no mercado de trabalho, e além disso ela não estava muito satisfeita com meu antigo emprego no mercado -no qual eu carregava diversas caixas e ganhava metade de um salário mínimo- ,pois segundo ela aquilo estava me desgastando e eu chegava super cansado (sendo que tive de desistir dele para ficar com o atual) e com isso ter mais ânimo para estudar, e cuidar dos meus compromissos pessoais. Desta vez eu iria ingressar no novo ''trampo'' como jovem aprendiz, e quem sabe até ganhar um pouco mais. Tentei argumentar com ela que eu não pensava em fazer nada relacionado a essa área de biológicas que estava ligado ao hospital, pois não consigo lidar muito bem com doenças, plantas ou animais, eu estava pensando seriamente em fazer algo relacionado com administração, cálculos ou algo do tipo... Mas falar com minha mãe é a mesma coisa que discutir com a porta. Apenas vou para acrescentar pontos para meu currículo, se bem que depois desse telefonema eu não estava mais tão a fim de realmente ir, eu precisava de um porre ou alguma coisa forte para aguentar o dia, ou quem sabe até mesmo a semana, ou no caso o mês. De uma coisa eu tinha certeza: eu iria procurar Ana, e iria encontrá-la, e descobrir o que realmente aconteceu nesse meio tempo em que estive fora.
Meu estomago estava roncando de fome, não consegui me alimentar direito por conta do vexame que eu havia passado no refeitório, tive que dar uma pausa para o almoço. Decidi passar no Café e comer uma coxinha de carne que ficava a cinco quadras do hospital St. Louis, e além do mais qualquer coisa servia para o meu estomago. A coxinha do local era divina, tinha algum ingrediente secreto que eles colocavam dentro que a deixava deliciosa, Dona Joana – a dona do café — sabia como agradar um cliente.
Ao chegar no local sentei na cadeira de couro bege, e logo em seguida Seu Jorge – marido de dona Joana – chegou e logo disse:
— O mesmo de sempre meu jovem?
— Sim, por favor Seu Jorge
— Trago em 5 minutos.
Seu Jorge era um homem de 65 anos, mas aparentava ser mais velho, com ombros largos e poucos cabelos brancos o alemão tinha fama de ser simpático, mas não era muito de papo furado, mas quando falava era um ótimo conselheiro e muito honesto.
— Aqui está Pedro! – Anunciou Seu Jorge
Eu preciso pensar com o que fazer nessa situação, se eu sair em busca de Ana agora minha mãe me mata, as aulas mal começaram. Mas vou ter que dar um jeito, não posso deixar esse telefonema passar em branco.
— Pedro? – Chamou o vendedor novamente
— Sim? Desculpe-me ... – Respondeu Pedro depois de um devaneio
— Está com a cabeça nas nuvens garotão? Mulheres, eu presumo...
— Mais ou menos...
— O que houve?
— Nada de mais, estou apenas confuso
— De tempo ao tempo meu rapaz
— Seu eu der mais tempo Seu Jorge, pode não ser o suficiente.
— Vocês jovens são tão apressados! – Exclamou Seu Jorge
Por fim ele deu meia volta e voltou a atender os outros clientes, então decidi ligar para Guilherme, ele podia me ajudar, e sem pensar duas vezes ele atendeu o telefone no primeiro toque:
— Fala Pedrão, qual é a boa?
— Estou com alguns problemas, preciso de sua ajuda
— Ás 18:00 horas está bom para você, no Bar Bella?
— Perfeito!
O Bar Bella era o mais freqüentado bar da cidade, toda a região conhecia e eles faziam uma porção de batata-frita divina. Depois que comecei a namorar Lucia deixei alguns dos meus antigos prazeres de lado, mas agora as coisas eram diferentes. Meu estágio estava marcado para as 13:30 e o relógio marcava 13:20. Tive que comer correndo, deixei o dinheiro do salgado no balcão e não peguei meu troco.
Ao chegar no hospital o relógio marcava 13:30 em ponto, pensei que não ia chegar a tempo mas pelo menos meus pés estavam colaborando comigo. Tive que tomar um copo d´água, meu coração estava acelerado.
— Pedro, por onde andou? Está atrasado! Você sabe como foi difícil arrumar esse emprego para você! – Avisou minha mãe
— Mas eu não ia começar ás 13:30? — Perguntei
— Eu avisei que iria começar ás 13:10 e você sairia as 17:00 horas! Ande logo, Julian precisa de você na sala de arquivos
— Isso é exploração mãe!
— Não meu filho, isso é trabalho! Local onde pessoas sérias ficam e convivem.
Em minha frente dois enfermeiros estavam rindo da cara um do outro, e pude perceber o quão sério o local aparentava ser.
—...siga a direita, suba o elevador...
— Mãe eu já conheço o local, não precisa me explicar. Obrigada...
O hospital St. Louis era um prédio muito grande, era um hospital público e faltava muita manutenção no local, fora que a falta de aparelhos era um problema sério, no qual diversos políticos faziam propaganda dizendo que iriam repassar verbas de milhões de reais para reformar o estabelecimento, mas isso não passava de ‘’papo para boi dormir’’. Ao chegar na sala Julian me deu as boas vindas, ele aparentava ter 50 anos, com aquela famosa barriga de chope e as pernas roliças, com a maioria dos fios de cabelo branco, mas tinha alguns que possuíam a cor escura:
— Certo garoto, você vai ter que arquivar todos esses protocolos aqui em ordem alfabética até o final da semana, boa sorte! Caso contrário seu emprego vai para o buraco. Você tem noção de quantas pessoas gostariam de estar no seu lugar?
Quando me deparei com os papeis quase tive um infarto, tive vontade de correr e pedir demissão na mesma hora, mas lembrei do que minha mãe havia dito sobre o currículo e não quis desapontá-la. Depois de algumas horas eu já estava na letra F e o relógio marcava 16:59, e logo arrumei minhas coisas e pude sair daquela espelunca. Por meio desta eu confesso: Eu odeio meu emprego!
Peguei uma carona com minha mãe até nossa casa, e me lembrei que diante de uma hora e meia Guilherme nos encontraríamos no local marcado para conversarmos e tomarmos uma decisão. Corri para o chuveiro e ajustei o medidor para a opção inverno. Por mais que o clima estivesse quente um banho quente tiraria o stress do dia. Depois de alguns minutos sai do banheiro, vesti minha calça jeans clara favorita junto com um par de All Star vermelho, mais minha camisa pólo branca.
— Onde meu príncipe vai?
— Vou no Bar Bella com o Guilherme
— Volte antes das 23:00
— 00h00min?
— Não, ainda é segunda-feira.
— 23h30min?
— Não!
— 23:30 mais uma mesa arrumada para o café da manhã
— Tudo bem – Respondeu minha mãe, não muito satisfeita com o acordo
Saí de minha casa sem pressa, o Bar ficava apenas algumas quadras de minha casa. Pluguei meu fone de ouvido no celular, mas antes de colocar a música para tocar senti algo pegar meu braço e quando vi Lucia estava do meu lado, chorando e com cheiro de álcool:
— Por favor meu amor, me escuta! A gente precisa conversar – Choramingou Lucia
— Eu não tenho nada para conversar com você, me solta!
— Não, por favor!
— Lucia para com isso, estamos no meio da rua! Estão todos olhando
— Foda-se! Eu te amo, me perdoa!
Então ela subiu na mesa do restaurante no qual estávamos próximos e gritou na frente e todos:
— POR FAVOR! POR FAVOR! ME PERDOA! EU TE AMO!
Todos as pessoas presentes no local pararam para observar a cena, alguns estavam tirando foto e outros estavam apenas observando as pernas da minha ex-namorada, pois estava usando um vestido super curto preto para chamar a atenção de todos (acredito eu).
De repente Guilherme chegou do meu lado e falou:
— O que é isso – Perguntou Guilherme
— Nem me pergunte, vamos embora logo! — Exclamei
— NÃO!! VOLTA MEU AMOR! – Reclamou Lucia
— Lucia, pare de dar vexame! – Disse sua amiga, que surgiu do além e com isso pude sair do local facilmente
Chegamos no bar e pedimos duas cervejas, com isso pude explicar toda a situação para meu amigo, eu estava bastante cansado mas as sábias palavras de Guilherme não falhavam, tínhamos que encontrá-la. De repente pude ouvir uma sirene de policia, sendo que o carro parou em frente ao nosso local
— Senhor Pedro Henrique Alcântara e Senhor Guilherme de Souza Dutra?
— Sim – Respondemos em uníssono
— Os senhores estão presos por transportar bebidas ilegais para uma festa de jovens menores de idade.
— Espera seu policial, isso só pode ser engano! Nós somos menores de idade e não fazemos coisas ilegais! – Exclamou Guilherme
— Não é o que parece filho – Então apontou para nossas bebidas e nos algemou.
Então eu me toquei, as identidades falsas...
Fale com o autor