Em busca de Ana

6 ''A sala da verdade''


Notas iniciais
*Capitulos todas as quartas-feiras

Tic-tac-tic-tac-tic-tac...

Os ponteiros do relógio marcavam oito e meia, o tempo parecia durar uma eternidade, eu estava em um corredor em frente a sala do delegado, eu seria o próximo entrevistado. Minha mãe ainda não havia chego, mas quanto mais o tempo passava mais nervoso eu ficava. Minhas mãos estavam molhadas de nervoso, eu não parava de esfregar uma na outra, o clima estava insuportável.

Ao meu lado estava Guilherme, ele não parava de mexer no celular, isso estava me dando aos nervos, desde o instante que ele brigou com o Beto ele estava quieto, quase que os dois foram parar em uma cela mas foi por pouco, depois que saímos daquela sala eles colocaram Beto e Marcelo em outro local para evitar outros transtornos.

Dentro da sala Clara estava sendo entrevistada, até agora eu não havia entendido nada do que estava acontecendo, sendo que daqui alguns minutos vou acordar atrasado para a escola e isso não vai passar de um pesadelo besta, mas infelizmente isso era realidade.

— Guilherme Pode fazer o favor de nos explicar o que esta acontecendo aqui ?– Perguntou a mãe de Guilherme em alto e bom som

Os pais de Guilherme haviam chego, sua mãe Dona Michelle, trabalhava em um escritório de contabilidade até onde eu sabia, ela tinha um caso com seu chefe de acordo com as más línguas, pelo simples fato de seu pai Seu Gabriel, ser um simples caminhoneiro que não parava dentro de casa. Guilherme é um garoto fechado, não fala sobre seus sentimentos muito menos sobre sua família e eu respeito isso, do mesmo jeito que eu não gosto de falar para meus amigos da minha antiga vida no orfanato.

Tic-tac-tic-tac-tic-tac...

Um silencio constrangedor havia pairado pelo ambiente, só era possível escutar o som do relógio. Eu não estava nem um pouco ansioso para a chegada de minha mãe, eu sabia que nossa conversa não seria diferente do que estou vendo agora.

— Vamos Guilherme, responda! – Afirmou Seu Gabriel

Ele estava com sua roupa de costume, um jeans surrado, uma camisa verde xadrez e uma botina marrom que estava gasta de tanto uso, já Michelle vestia uma camisa branca completando o conjunto com uma camisa branca mais um sapato de salto alto preto.

— Eu não sei... – Respondeu Guilherme

Quando se olhava para Guilherme era possível dizer que ele era mais filho de seu pai do que de sua mãe, pois ambos eram altos e possuíam o cabelo castanho (por mais que o cabelo de seu pai estivesse bem ralo — por conta da idade), mas os olhos verdes eram de sua mãe junto de seu sorriso com as famosas ‘’covinhas’’, tinha lábios finos mas era seu tom de pele era branco como de seu pai, diferente de sua mãe que era um pouco mais baixa e tinha o cabelo da cor do ouro.

Em meio a todo esses conflitos da vida pessoal Guilherme é um bom garoto, se dá bem com todo mundo e é muito inteligente, é aquele cara que mal estuda para prova, conversa dentro da sala de aula e tira dez, não é a toa que está na melhor escola da cidade. Ele ainda não tem certeza do que quer fazer de sua vida, mas eu acredito que ele tem um futuro muito prospero com relação á sua bondade e esforço, nada na sua vida foi de mão beijada, ele sempre teve que correr atrás de suas coisas.

— Guilherme, não me diga que você está envolvido de novo com drogas, pensei que você já tivesse superado isso meu filho! – Falou Dona Michelle

— Mãe, por favor... Hoje não... – Falou Guilherme

— Guilherme, nos conte tudo e não nos esconda nada! – Afirmou Seu Gabriel

Ao falar isso a porta da sala á nossa frente se abriu, nela saíram Clara acompanhada de seu pai e sua madrasta. Pelo que pude notar o rosto de Clara estava inchado por conta do choro, que logo imaginei, eu posso dizer que ela é uma menina onde não se conquista fácil a confiança mas quando se tem ela por perto pode se dizer que é uma ótima companheira, além do mais tem uma personalidade forte na qual não é de chorar mas quando acontece é porque o assunto é realmente sério.

— Vou fazer uns telefonemas, posso utilizar o telefone daqui? Estou sem créditos... – Perguntou Seu Lucas, pai de Clara para o policial que estava segurando a porta da sala

— Sem problemas, vire á direita que você irá encontrar um telefone preto –Informou o policial

Seu Lucas era um empresário, no qual possuía uma rede de mercados espalhadas pelo Brasil, era um homem mão fechada, onde só comprava o necessário para sua filha e sua mulher: senhora Carmem Brandão Almeida (sim, era assim que ela se apresentava), uma mulher um pouco esnobe que esbanjava poder sem ao menos poder tocar em um centavo do bolso do marido.

A família de Clara não era tão conturbada quanto á de Guilherme, convivia com sua madrasta de uma forma suportável (como ela mesmo dizia), não tinha o pai presente dentro de casa e sua mãe morreu em um acidente de carro á quatro anos, ainda era difícil falar sobre isso com Clara mas ela já havia aprendido a lidar com essa barreira.

— Clara, vou acompanhar seu pai por um instante, fique ai mocinha! – Afirmou Carmem

Ao virar as costas Clara mostrou a língua e o dedo do meio para sua madrasta, em meio a isso eu não me segurei o comecei a rir

— Quem ela pensa que é pra me dar ordens? – Perguntou Clara de uma forma irônica

— Só você pra me fazer rir numa hora dessa – Afirmei

— Só falei a verdade....

— Você diz com relação a entrevista?

— Também

— O que ta rolando?

— Parece que alguém matou alguém no quintal de casa

— Disso eu estou sabendo, mas como isso foi acontecer? Ainda estou tentando assimilar tudo isso!

— E eu não Pedro? Cara eu to bege com tudo isso!

— Mas e o lance das bebidas?

— Eles não estão tão preocupado com isso, mas disseram que você e o Guilherme vão sofrer as conseqüências

— Você nos denunciou?

— Nem precisei, os caras já estão nos investigando há séculos, pegaram nossas conversas no wattsapp e tudo...

— Você só pode estar de brincadeira

— Bem que eu queria

— Como tudo isso foi acontecer?

— Pergunta errada para a pessoa errada...

— Mudando de assunto, você está bem?

— Sim

— Não. Você estava chorando, não estava?

— Isso não interessa...

— Estou querendo apenas ajudar

— Eu não quero ser ajudada, obrigada

— Clara, você sabe que pode confiar em mim...

— Promete não contar pra ninguém?

— Prometo, não tenho uma boca grande como uns e outros

Em meio a esse comentário apontei para a porta nossa frente, onde Guilherme estava sendo entrevistado. Com isso ela deu um sorriso solidário

— Passei a maior vergonha lá dentro, mal consegui explicar minha versão da festa pois meu pai me fez passar a maior vergonha, e o que meu deu mais raiva foi que a mulherzinha dele estava escutando tudo em alto e bom som enquanto lixava suas belas unhas, que estão mais para unhas de bruxa. Mal sabe ele que ela só pensa no bolso dele...

— Entendi

— Obrigada por me ouvir...

— É pra isso que os amigos servem

Com isso ela me deu um abraço carinhoso e agradeceu mais uma vez. Clara era uma garota com uma estatura comum, não tão alta mas não tão baixa, lembrava uma branca de neve moderna, com os cabelos negros e a pele branca, todavia seus cabelos eram compridos e podia se dizer que era uma pessoa muito dedicada á academia, como ela mesmo dizia ‘’ sem peso, sem glória’’.

Logo depois disso seu pai estava chamando ela, como sempre muito bem apresentável, com terno e uma gravata verde, seus cabelos eram da mesma cor que os de sua filha mas com alguns fios brancos por conta da idade, de acordo com sua fisionomia ele aparentava ter uns quarenta e poucos anos, era muito parecido com a filha, não cheguei a conhecer sua mulher (mãe de Clara) mas pai e filha eram quase a mesma pessoa.

Em seguida ela já estava se despedindo, disse que depois mandaria mensagem para conversarmos melhor pois o clima estava muito tenso dentro da delegacia.

Click

De todos os sons que você possa ter medo, raiva ou até mesmo agonia esse tinha sido o pior de todos de minha vida, a porta da sala do delegado tinha sido aberta, dentro dela os pais de Guilherme haviam saído e por ultimo Guilherme, nesse meio tempo ele fez um sinal com as mãos como se sua garganta tivesse sido cortada e em seguida pude ler o que seus lábios diziam, algo como ‘’Fudeu’’.

— Pedro Henrique Alcântara – Disse o policial que estava segurando a porta

— Vamos Pedro! – Disse minha mãe

— Como você ... ? – Perguntei e ao mesmo tempo ela me cortou

— Vamos logo que não estou para brincadeiras! – Afirmou minha mãe

Logo imaginei que havia saído do plantão do hospital, ainda estava com seu uniforme de enfermeira, já imagino o deve estar pensando e como deve ter implorado para seu chefe liberá-la para ter que cuidar do filho irresponsável.

— Por favor delegado, vamos logo com isso... Tenho que voltar para meu trabalho – Avisou minha mãe após entrarmos na sala do delegado

— Sem problemas... Eu sou o delegado Daniel, muito prazer! – Falou o delegado em seguida estendeu a mão para cumprimentar minha mãe

Lá estava eu, pronto para encarar a ''sala da verdade'' na qual eu tanto temia