Em Vermelho
1 Segunda Mão
Notas iniciais
Era uma daquelas manhãs gélidas e calmas, a neve iluminada chegava a parecer nuvens em terra através da janela entreaberta levemente esbranquiçada que podia-se ser comparada a uma fina ceda. Acompanhada de uma respiração profunda de uma jovem, as cortinas balançavam e o frio preenchia o quarto escuro, seus cabelos bagunçados sobre o travesseiro e seu jeito desengonçado de dormir era uma marca constrangedora de sua pessoa em seu sono profundo.
— Lucy? — Chamou a voz feminina abafada através da porta de madeira branca. — Vou entrar... — Girou a maçaneta abrindo-a deixando a luz entrar primeiro. — Ainda? — Resmungou observando a figura debaixo de cobertas. Rapidamente atravessando o quarto abriu a cortina ouvindo um murmurio da cama ao lado.
— Como uma boa mãe, irei ser gentil e avisar que esta atrasada. — Sorriu a mulher.
— Só mais dez minutos e estou descendo... — Pediu, sonolenta.
— Dez minutos é o que precisa para se arrumar, tomar seu café e chegar pegando o trem que chega daqui a quinze minutos, claro, que contando com os que te restam. — Cruzou os braços ainda com o sorriso amostra.
— O que?! — Pegou o relógio em cima do criado mudo. — Eu botei pra despertar as seis! Ah! eu não acredito. — Rapidamente se levantou da cama, esquecendo-se de colocar suas pantufas e sentindo o chão frigido e se arrepiando, sua mãe ria baixo enquanto encarava a filha saindo do quarto com pressa e desengonçada.
A garota ligeiramente adentrou o banheiro pegando sua escova e escovando os dentes o mais rápido possível, seus cabelos castanhos podiam esperar para ser arrumado no caminho de acordo com seus pensamentos, olhou para o espelho e reparou nas grandes olheiras debaixo de seus olhos marrons, resultado de dormir sempre tarde da noite. A rapidez com que se vestia após voltar para o quarto era mais alta se comparado a suas atividades de corrida na aula de educação física da qual era uma negação para o professor. Apanhou sua mochila lilás antiquada mas clássica e desceu as escadas rangentes onde ao fim da descida se deparou com as pessoas de sua casa, em uma cena sempre repetida com o passar dos anos, seu pai com seu jornal e o irresistível café da mamãe que colocava mais ovos mexidos na mesa enquanto seu irmão ignorava as frutas que lhe eram dadas. Podia-se ouvir o antigo rádio da família que tocava uma musica country antiga com interferência de sinal.
— Bom dia! — Saudou, estava mais animada do que o que parecia ser seu normal e isso logo foi notado por todos que a responderam quase em uníssono.
— Parece que esta bem mais alegre para a primeira semana no segundo ano, antigamente ficava com medo e se recusava a sair de casa. — O homem assentado recebeu um beijo em seu rosto da menina que puxava a cadeira sentando-se.
— Sinto que vai ser um dia animado, por isso estou feliz. — Disse sorrindo pegando uma maçã na cesta trançada no centro da mesa de madeira envelhecida.
— Está atrasada de novo, parece que isso te persegue. — Debochou o menor do qual recebeu um aperto na bochecha de sua irmã.
— Isso doí, sua chata! — Falou zangado acariciando o lado do rosto.
— Hehe — Riu vendo seu irmão acirrado. — Estou indo então, vou acabar perdendo o trem. — Se levantou e em passos rápidos chegando a entrada. — Ah, quase me esqueci! — Com a porta entreaberta avisou levantando seu tom de voz. — Vou a casa de uma amiga hoje, não esperem por mim no jantar!
— Ok, se divirta filha! Ah, e não e esqueça o casaco, esta muito frio lá fora e claro, as luvas também, um lenço, uma touca...
— Entendi mãe, não precisa ficar preocupada com isso, eu já estou com tudo aqui. — Quando na verdade havia esquecido. — Até mais tarde, amo vocês! — Se despedia alegre pegando seu casaco marrom no cabide ao lado e colocando suas botas forradas. Fechando a porta, colocou suas luvas e penteou seus cabelos com os dedos e colocou a touca de lã escura enquanto descia as escadas com cuidado, seus olhos se direcionaram para o céu tomado em cinza manchado com nuvens mais escuras observando os milhares de flocos que caíam lentos, pousando um em seu nariz, que pareceu a despertar de sua admiração.
Assustada com o horário, corria com dificuldade causada pela neve que irritava os olhos em medidas minimas por sua claridade. Ao chegar a estação perto de casa, o trem havia chegado e entrou no primeiro vagão em um quase desespero, ofegante, sentou no banco em frente a uma senhora e deitou sua cabeça no vidro observando a monotonia da paisagem e a espetacular solidão que parecia representar.
Ao sair da segunda parada, a sessão de corridas ainda não havia chegado ao fim, como estabelecia uma amizade com o porteiro da escola, amigo de seu pai, vendo a garota suplicar, decidiu ceder aos pedidos da menina em meio aquela neve e abriu o portão recebendo um agradecimento em meio a pressa da menina que virou para acenar logo após continuando seu caminho.
Chegando em sala arquejante, ajustou suas roupas e entrou quieta enquanto observava o professor escrevendo em um quadro negro mal apagado.
— Sente-se Lucy. — Sua decepção ao falhar em passar despercebida não foi tão envergonhante quanto os olhares dos alunos da sala que a acompanhava com os olhos enquanto se dirigia ao seu assento.
— Sim, senhor... — Sentou-se direcionando sua cabeça a janela do segundo andar onde estava, apoiou seu cotovelo na mesa aconchegando seu rosto em sua mão. — Parece que é o inverno mais frio que os anteriores...
A casa da família estava calma, a mãe acabava de aprontar os ingredientes para o almoço mais tarde quando surpreendida por seu filho que puxava sua saia em gestos leves, seu rosto pálido e cabeça para baixo era motivo de preocupação máxima para a mãe.
— Carl, o que aconteceu filho? Esta sentindo dor? — A mulher havia abaixado a altura do menor colocando uma de suas mãos em seu rosto. — Está tão quente... Eu vou cuidar de você.
— Mãe... me sinto cansado... e fraco... — Respondeu forçado enquanto fitava os olhos escuros da mãe.
— Mas um homem dever estar sempre disposto, tem que parecer sempre saudável para as mulheres! — Brincou o pai se aproximando do filho, achegando as costas da mão em sua testa.
— Mark, acho que ele esta gripado, vou ficar com ele hoje, você tem entregas importantes a fazer, certo?
— Eu volto assim que possível, Marie. — O maior havia chegado perto da mesa, quando o receio por ter escutado algo no segundo andar da residencia o deixou com um mal pressentimento. — Ouviu isso?
— O que? — Perguntou a mulher confusa, o som pela segunda vez foi ouvido, alto e assustadoramente estrondoso. — Querido, o que esta acontecendo?
— Ma-mamãe? O que foi isso?
— Vocês dois, fiquem longe da escada, eu vou lá em cima. — Pegou uma faca na gaveta da cozinha e subiu vagarosamente, quando os pés do homem desapareceu de vista, o silencio ocupava a casa momentaneamente.
— Esta tudo tão calm--- — Foi interrompida quando seus olhos castanhos observavam o corpo parcialmente mutilado de seu marido atirado das escadas do segundo andar, os olhos momentaneamente brilhantes do homem que olhava para sua esposa que guardava seu filho em seus braços eram de uma forma aterrorizante observada pelos mesmos, quando o final dele fora o impacto de seu cranio brutalmente destruído pela parede que representava a pintura feita de seu sangue.
A figura sombria descia as escadas em tranquilidade e o único som que ecoava pela casa era das escadas que rangiam das quais cada degrau pisado era causado os sentimentos de horror da mãe, da qual vedava os olhos do menino com seu corpo, que antes de poder-se virar para olhar a criança, uma de suas pernas é arrastada por garras que afundaram-se em sua pele que a medida que se afastava de seu filho que havia deixado para trás, era ferida pelo piso de madeira estraçalhado que rasgava e transpassava seu corpo, quando em um comodo a frente, cessava sua passagem pela cozinha.
O tremer dos lábios feridos de sua mãe que sem suas forças e o sorriso que sempre apresentava alegremente, tentava agora com esforços falhos, falar, ao menos dizer algo para o filho que olhava com terror e o trauma nítidos a pessoa de sua mãe. A porta se fechava enquanto o braço que receava em se levantar em sua direção, sua mão aberta como se tentasse em meio as tentativas de contato com o menino era como se tentasse alcança-lo de alguma maneira, se existisse alguma maneira de protege-lo. Antes daquela luz que adentrava o quarto pudesse ser perdida de vista, o sangue era iluminado, os pés daquela figura sinistra com suas vestes escuras agora apoiado na cabeça de sua mãe fora a ultima coisa que os olhos de uma jovem vida perturbada obteve como imagem.
Sem forças para correr, o garoto decaiu-se sobre seus joelhos olhando para algo que estava além de tentativas de compreensão ou historias que explicassem. A luz de seus olhos foram tomadas pelo vulto que se aproximava do menino que esperava a única coisa que talvez o livrasse dessa conjuntura, a morte.
Naquele fim de manhã, o colégio de aparência acinzentada e desértica apenas com a companhia da neve que crescia lentamente mas sem previsão de estabelecer-se um fim, a menina da qual permanecia em sala observava atentamente o relógio que no silêncio da classe era um dos únicos sons ouvido além dos ruídos que o giz forjava no quadro. Não havia demorado até que o sinal fosse escutado para a alegria de muitos estudantes e principalmente de Lucy que suspirava.
— Finalmente acabou a aula. — Inspirou esticando seus braços e soltando o ar relaxando o corpo.
— Lucy!!! — Gritou uma menina enquanto abraçava surpreendendo a amiga.
— Yve, que susto que você me deu! — Disse enquanto segurava o peso de sua colega que se escorava, logo a mesma a puxava pelo braço, enquanto pegava a mochila ao lado de sua mesa.
— Vamos! Minha mãe falou que queria te ver, você não apareceu nas férias. — Andava pelos corredores desviando de alguns alunos, era sempre bem animado quando a presença da garota de tranças ruivas estava por perto, o que aliviava a tensão das aulas e alegrava até o mais cansativo dia.
— Me desculpe... Eu estava ajudando minha mãe nos afazeres da padaria, a situação está meio difícil.
— Ah... Mas não se preocupe! — Tentava afastar a atmosfera pesada. — Se precisar de ajuda, eu e minha mãe estamos sempre dispostas! — Falava enquanto segurava minhas mãos depois de sua parada repentina.
— Muito obrigada, Yve, prometo que irei recompensa-la por todo o seu esforço. — Sorria, enquanto andava.
O caminho depois de sair pelos portões da escola após se despedir do amigo de seu pai não fora tão longo até chegar na casa de sua amiga, as conversas e risadas de historias passadas que despertava o desejo de que o tempo passasse um pouco mais prolongado para sentir mais da nostalgia em meio aquela alegria contagiante.
Após se despedir de Yve e sua mãe que estavam paradas a porta, ao cair da noite, Lucy voltava para casa com uma trocha envolta de um objeto quadrado carregando o famoso bolo feito pela Sra.D'alembert e sua filha. Os postes de luz começavam-se a se acender o que era uma visão única em todo seu caminho para a estação. Ficou de pé observando a direita de onde seu trem, afinal de contas, sempre vinha. Distraída com o céu em sua cor única que escurecia com o passar do tempo, observava como a neve ficava mais bonita quando se surpreendeu com o forte vento que balançava suas roupas e o som das rodas de ferro riscando os trilhos, entrou no trem e sentou naquele mesmo banco observando a paisagem que desta vez era sombria mas calma pelos flocos brancos que passavam ligeiros. Após mais uma de suas caminhadas, chegou em casa e seu semblante mostrava-se, além do alivio de ter finalmente chegado ao lar.
Lucy adentrou a casa mas antes limpando os sapatos no tapete da entrada, pendeu seu casaco coberto por uma camada de neve assim como a touca que usava e sentiu a temperatura morna da casa.
— Pai, mãe, cheguei! Carl não comeu tudo, não é? — Falou tirando seus sapatos, esperou alguns rápidos segundos mas não havia resposta de ninguém. — Eles saíram?... — Seus passos abafados no corredor em direção a cozinha eram coisas normais, monótonas, mas de certo modo alegre quando via todos assentados, mesmo sempre falando para não esperarem, o jantar tinha de ser em família, mas não era isso que representava o momento que suas mãos tocavam o canto daquela parede.
Seus pés descalços sentiram o mesmo frio daquela manhã, mas também o liquido que se espalhava a colorir o piso em tabuas para um tapete de vinho com odor de ferrugem que deslisava pelas pequenas falhas. A menina do qual herdara os olhos da mãe observava o preenchimento daquele chão e seus pés que de solo puro havia pisado anteriormente adentravam uma pequena poça, a garota direcionava seus olhos agora para cima lentamente, quando avistava não tão longe de si, o corpo de seu pai, a ausência de seus olhos em seu rosto e o sangue pela parede era uma pintura grosseira. O pânico agora em sua mente a cegava de temor quando observava o cranio estraçalhado do homem que ali estava.
Sem acreditar, tentava acordar de um pesadelo real com suas mãos em seu cabelo, enquanto virava seu corpo em direção a porta do quarto que ficava em frente aquela cozinha, a porta entreaberta e os pés que se mostravam naquela pequena fresta, pudesse talvez ser uma chance, pois reconhecendo o azul daquelas sandálias das quais a figura usava, era de sua mãe. Foi então que abria vagarosamente aquela porta, onde o corpo de sua mãe estava, quando vista por sua filha que gritava incessantemente pela repentina imagem do horror que seus olhos agora viam, a pele macia que sentia de sua mãe quando a abraçava e sua presença acolhedora pareciam memórias rasgadas a força, os olhos abertos da mãe que pareciam a olhar sem seu brilho era destruidor, a vontade que as lágrimas obrigavam-se a descer fora ouvida, como uma criança caiu-se sobre o chão, com um choro alto e gritos de dor que não pareciam doer em seu corpo, mas sua alma.
Mas a responsabilidade de achar seu irmão gritava mais alto, se levantar em meio aquela bagunça em sua mente era preciso, ainda tentava juntar toda a historia para talvez ter uma ideia do que havia acontecido, mas não conseguia achar uma resposta precisa e lógica. Abria as portas brutalmente para fecha-las logo após que não avistava ninguém, sua prioridade agora era sua pequena pessoa mas uma grande esperança.
Sem ter nada indícios de nada, caminhou até aquela cozinha novamente pegando uma faca média e a posicionou em vertical sobre sua garganta e em frente a pia, olhou para a janela que mostrava o mesmo mundo sombrio da janela do trem, mas agora mais solitário e obscuro se mostrava para uma mente despreparada. Quando olhou fixamente para a janela, o rosto sombrio e sanguinário aparecia no vidro, ela se afastava e mais aquele ser sorria, quebrando aquela janela e jogando seu corpo monstruosamente para a parede, o espelho que lá havia se quebrara com o impacto e o peso do corpo que sobre a estante abaixo também se desferiu.
A silhueta sombria que via se aproximava lentamente, como se quisesse se divertir com todo o sofrimento, mas Lucy estava mais que todos decidida a morrer naquela casa, mas desistir antes de lutar era a pior coisa que podia fazer agora, seu lema iria de encontro ao chão se o fracasso de estar ao menos viva fosse levado com tanta desenvoltura. Então vendo-o se aproximar, desceu daquela pequena estante com dificuldades multiplicadas pelos cacos de vidro que haviam perfurado suas costas, aquela figura a seguia, em passos lentos e calmos, abriu a porta de entrada e desceu as escadas, a noite mesmo com tudo que passava, era sentida calma e naturalmente bonita, as ruas em seu caminho branco era iluminada por poucos postes que proporcionavam a luz que formavam a neve que caia ainda mais magnifica, a menina sorriu cansada, apenas a espera do destino óbvio deixava seu corpo cair sobre a neve.
Com seus olhos fechados, sentia as mãos gélidas de alguém que a segurava, o som de algo se rasgando era alto e o liquido jorrado era fácil de ser notado apenas pelos sons proporcionados, pensara que fora uma morte sem dor para si, mas não sentia nela o final de sua vida. Mas se recusando a abrir novamente sua visão, tremia ininterruptamente enquanto sentia os braços de alguém a segurando, então tomando um pouco de bravura, seus olhos abriam lentamente rebelando seu olhar sem luz, observou atentamente a feição daquela pessoa, estava escuro mas seus olhos avermelhados brilhavam naquela média escuridão junto a sua pele esbranquiçada pouco manchada por sangue e seus cabelos negros eram vislumbrados a serem tomados por pequenos flocos de neve.
— Feche seus olhos. — A voz grossa daquela pessoa era calmante, mas de um jeito especial e rude, parecia frio. — Pode dormir, está tudo bem agora. — Ele a olhava enquanto a mesma ouvia os passos afundarem a neve, o sentimento acolhedor que apenas naquela voz o sentia.
— "Está tudo bem"... — Sorriu com essa repetição de suas palavras sua visão tornou-se escura enquanto observava o vapor de sua respiração agora em calmaria e quietude plena. — Para a pessoa que me segura agora... Que não sinta o peso que eu tenho a carregar comigo também.
"- Vamos brincar de esconde-esconde?"
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