Em Koma

1 Parte Um


Notas iniciais
Primeira parte de uma fic original futurística e sci-fi, espero que vocês gostem!

No meio de um deserto, ao lado de uma estrada sem nome, há um posto de combustível. Três bombas de gasolina e três de álcool, embora a areia já tivesse criado uma cobertura sobre o equipamento, mostrando há quanto tempo ninguém passava por ali. Junto ao posto, uma lanchonete, que também servia de pousada, erguia-se em meio à areia quente e aos cactos verdes. O gerente, o Gordo, era um homem barbudo e com a barriga à mostra debaixo da camisa dois números menor que o ideal. Ele sempre estava atrás do balcão, perto da caixa registradora. Passava o dia sentado ali, ouvindo a música que saía do aparelho de rádio grande e velho, ou às vezes tirando um cochilo. Ao seu lado, o Garçom esfregava um pano úmido no balcão vermelho, tirando um pó inexistente, enxugando o suor da testa e limpando no avental azul. As mesas distribuídas ordenadamente pelo recinto eram quadradas e com quatro cadeiras em cada uma. O Bêbado sentava sempre na mesa ao lado da janela, com um copo de cerveja repousando a sua frente, geralmente intacto. Olhava sempre pro lado de fora, pro deserto ao seu redor e pro céu claro que segurava o Sol, brilhante e quente. Às vezes seu olhar mudava, e ficava vidrado, como se observasse algo além, além daquela paisagem já conhecida e imutável. Quando ele tinha esse olhar, a Loira, outra garçonete do local ria baixinho enquanto limpava as outras mesas. Era uma mulher jovem, com um corpo curvilíneo e excitante. Atrás, em sua nuca, tinha desenhada em tatuagem, uma borboleta azul, que brilhava com o suor que descia por baixo de seu rabo de cavalo. Ela terminou de limpar a última mesa e voltou pra cozinha esbarrando, na escada que dava pros quartos da pousada acima, com o jovem Anton. Anton era um rapaz de uns vinte anos, alto e bem bonito. Os olhos azuis brilhavam com a luz solar que entrava pela janela. O cabelo castanho claro, quase loiro, ondulava em sua cabeça, e os ombros largos definiam-se sob a camisa de malha que vestia, não só naquela manhã, mas também todos os dias. Ele pediu desculpas à Loira, que sorriu, e foi em direção ao balcão. O Garçom lhe deu um copo d’água e ele bebeu em silencio, rejeitando as torradas oferecidas pelo homem à sua frente. Não estava com fome, nunca estava. Virou-se então e sentou na mesa ao lado do Bêbado. O homem tirou os olhos da paisagem e o encarou.

“O Casal deixou você dormir?” ele perguntou, com um sorriso malicioso na cara. Ele se referia ao casal que dormia no quarto em cima ao do rapaz. Sexo era o passatempo preferido deles, principalmente em volume alto.

“Eu tive um sono pesado e não ouvi nada, mas com certeza eles não tiraram folga.” Ele respondeu. Suas noites de sono eram alternadas. Quando passava noites sem dormir direito, por causa do barulho do Casal, significava que as noites seguintes seriam de sono profundo. Mas quando dormia bem, passaria as próximas noites em claro. O Bêbado olhou pra cozinha, vendo a Loira sentada em uma mesa, lixando as unhas.

“Felizes são eles, os dois lá. Eu só queria uma chance com aquela ali, mas ela me faz de bobo.”

Anton riu, olhando a barba por fazer e os primeiros fios brancos que brotavam na cabeça do Bêbado. Ele devia ter uns trinta e oito anos, mas sua aparência não mudava há muito tempo. E não era feio, Anton pensou. A Loira com certeza não perderia se desse uma chance a ele, mas ela gostava de se fazer de difícil.

Quando o rapaz olhou pro relógio no alto da parede, os ponteiros marcavam meio-dia. Ele olhou pra cozinha e viu o Garçom e a Loira começarem a preparar as refeições. Um cheiro gostoso de hambúrguer encheu o ambiente e algo chamou a atenção do Gordo, o gerente, pro lado de fora da lanchonete. O Entregador chegara, com o jornal do dia. Sua bicicleta prateada brilhava no sol quente do deserto e quando ele se aproximou mais do Posto, largou-a no chão e entrou na lanchonete com sua bolsa pendurada no ombro.

“Boa tarde todo mundo.” Ele disse. O sorriso forçado revelando dentes amarelos. Ele puxou de sua bolsa o jornal e entregou ao Gordo, e sentado em frente ao balcão, ficou batendo papo com o gerente. Logo o Garçom e a Loira chegaram da cozinha, trazendo as refeições de todo o mundo, inclusive do Casal, que descera as escadas e sentou numa mesa afastada. Todos comeram, enquanto uma música agitada tocava no rádio. Antom mastigava as batatas devagar, sentindo o sabor agridoce do molho que as acompanhava. O cheiro da carne chegava às suas narinas junto com a fumaça que subia do prato, revelando sua temperatura. O copo de refrigerante que bebia suava e as gotas que brotavam no copo, caíam na calça de Antom. Logo ele terminou de comer, junto com todo mundo, e o Garçom e a Loira vieram retirar os pratos. O Entregador levantou-se pra ir embora e, quando a Loira passou ao seu lado, ele piscou um olho. “Babaca”, Antom ouviu o Bêbado murmurar. O Entregador montou mais uma vez em sua bicicleta prateada e partiu, seguindo o mesmo caminho que o levara até ali. Assim, metade da rotina de todos os dias, mais uma vez se cumpriu.

As tardes passavam mais rápido. Quando o Bêbado tirava um cigarro do bolso e acendia, o tempo fluía junto com cada tragada. O fogo que consumia o fumo também consumia o tempo, e quando o Bêbado terminava o cigarro e o jogava pela janela, a noite já repousava sobre o deserto, sobre o posto e a lanchonete. Para o jantar, Antom só bebia um copo d’água e comia as torradas que recusara na manhã, e quando o Gordo começava a roncar, pegando no sono ali mesmo em sua cadeira e com a cabeça recostada na parede, já era hora de se deitar. Aqueles indivíduos subiam então, um por um, para seus quartos.

Já era madrugada e Antom não havia dormido. O rangido da cama em movimento do quarto de cima o irritava e ele não dormia. Já cansado de rolar na cama, dispensou o colchão fofo e o lençol branco e levantou-se. Ficou alguns segundos parado em pé, e então foi ao banheiro. Lavou o rosto com a água fria e molhou o pescoço. As gotas desceram pelas costas e pelo seu peito descoberto, incomodando um pouco. Olhou seu rosto no espelho. Observou seus olhos, seu nariz reto e o cabelo impecável. Era estranho quando se olhava no espelho de madrugada. Era como se olhasse pra verdade que disfarçava-se durante o dia, e os olhos ficavam um pouco vidrados, como os do Bêbado. Ele piscou os olhos, e abriu a porta pra sair, mas algo extremamente fora do comum o paralisou. Uma luz intensa invadiu as janelas e por um segundo tudo ficou claro como dia. Por um segundo, foi como se o Sol iluminasse a noite. Antom sentiu seu coração bater forte sob o peito, como se tivesse dando socos pelo lado de dentro, e correu do banheiro para a janela do quarto. Ele forçou os olhos para ver através da poeira e da areia que se acumularam ali e então percebeu. Lá fora, perto do posto, uma figura se movia. Antom ficou com medo de abrir a janela pra ver melhor e esperou ela se aproximar. Quando estava perto da entrada da lanchonete ele identificou um homem, alto e bem vestido. Ele parou por uns segundos à porta, e então bateu. Antom, assustado, notou que sua respiração estava alta demais e tentou se controlar. Ouviu o Gordo abrir a porta e o sujeito entrar, e uma conversa abafada cujas palavras não conseguia entender. Uma risada, provavelmente de Gordo, e então passos. O rapaz, sem camisa no quarto, correu para a porta e passou a chave pela fechadura, trancando-se. Eles chegaram mais perto e então ele ouviu.

“Este é nosso único quarto vago, espero que o senhor fique confortável.”

“Por favor, não me chame de senhor. E não se preocupe, vou ficar bem.”

“O café é servido a partir das oito, mas fique a vontade. Bom, boa noite.”

“Boa noite.”

A voz do homem era grave, mas não era ameaçadora. Ele entrou no quarto e fechou a porta. Antom pôde ouvir o Gordo descendo as escadas, de volta pra sua cadeira confortável. Ele pelo contrário, ficou ali parado, nervoso. Ninguém novo aparecia naquele lugar, nunca. O que aquele homem queria ali? Se antes Antom não conseguia dormir, agora o sono não viria nunca pois além das dúvidas que bombardeavam sua mente, o Estranho estava hospedado no quarto ao seu lado.