Em Koma
2 Parte Dois
Notas iniciais
Quando a luz do Sol atravessou a janela do quarto, os olhos de Antom piscaram. Sua cabeça doía e ele, por uns instantes, não conseguiu se lembrar o que fazia ali deitado no chão. Ele virou-se, ficando de bruços, e enquanto se erguia, tentou organizar seus pensamentos. Noite sem dormir, água no rosto... Luz intensa. Um estranho na pousada. Não, um estranho no quarto ao seu lado. Sentou na cama enquanto o coração acelerava mais uma vez, revelando seu temor. Passara a noite em claro, sentado no chão, de costas na porta e com o medo pairando sobre ele. Sem perceber caiu no sono e agora já era dia. O Sol iluminava todo o quarto, o calor crescendo naquele ambiente fechado. Ele abriu as janelas e junto com o vento, a areia vermelha que vagava lá fora entrou no quarto. Antom se sentiu meio perdido. Normalmente ele sabia o que fazer todas as manhãs, mas hoje ele não sabia se vestia sua camisa de malha ou se escovava os dentes primeiro. Decidiu ir ao banheiro e depois se vestir. Calçou os sapatos e, enquanto amarrava os cadarços, reparou em sua cor, um marrom claro. Ele nunca tinha reparado na cor de seus sapatos, mas subitamente lembrou-se que detestava aquela cor. Ele foi para a porta, girou a chave e, com as mãos trêmulas, saiu do quarto.
Quando desceu as escadas viu, sentado no balcão, o estranho que chegara de madrugada. Agora, à luz do dia, podia observar melhor a figura. Era um homem alto, de cabelos e olhos negros, e uma barba espessa. Enquanto conversava com o Gordo, sorria revelando os dentes perfeitos e extremamente brancos. Vestia camisa e calça azuis, bem escuros. O Garçom estava sentado ao seu lado e ria das palavras do recém chegado. Ninguém reparou em Antom, então ele seguiu para a mesa ao lado do Bêbado. Seus olhos estavam vidrados, mas uma expressão séria de preocupação preenchia seu rosto. Ele olhava diretamente para o estranho, ignorando a paisagem que antes era sua vítima. Antom esperou alguns minutos antes de falar, temendo aborrecê-lo.
“Já conheceu o cara novo?” Bêbado permaneceu em silêncio, mas após uns segundos olhou pro companheiro ao lado.
“Você não acha curioso?”
“Curioso? Um estranho aparecer aqui? Eu não acho curioso, eu acho esquisito.” Antom observava as costas do homem, que se mexia enquanto contava algo bem divertido ao Garçom e ao Gordo.
“Você viu ele chegar? Ou estava dormindo?”
“Eu vi. Eu estava no banheiro, e uma luz muito forte iluminou tudo, mas por uns segundos só. Quando eu corri pra janela do quarto ele vinha andando em direção à lanchonete.”
“Uma luz. Isso é muito incomum.” Bêbado falava mais pra si mesmo do que para Antom. Ele segurou o copo de cerveja à sua frente, num movimento levando-o à boca, mas parou no meio do caminho. Colocou o copo de volta à mesa e Antom de repente notou que, apesar de ser chamado de Bêbado e do copo sempre estar ali, nunca viu o homem encostar uma gota da bebida nos lábios. Eles ficaram em silêncio até a Loira trazer torradas e um copo d’água para o rapaz.
“Bom dia Antom. Eu mesma trouxe seu café, já que o tolo do Garçom só quer saber do cara novo.” A Loira parou de pé a sua frente, e apoiou-se na cadeira de maneira a ficar com o rosto na mesma altura do rapaz. Os seios revelavam-se pelo decote exagerado e ela jogou o rabo de cavalo pro lado esquerdo, olhando para o Bêbado. Antom teve certeza de que ela provocava o homem.
“Do que eles estão falando?” o rapaz perguntou, enquanto bebia a água.
“Eu não sei, não consigo ouvir da cozinha. Acho que está contando piadas, pelo jeito que os outros dois riem.” Ela mordeu os lábios, e pelo canto do olho Antom viu o Bêbado cruzar as pernas. Para sua surpresa, a Loira dirigiu-se a ele. “Quer outra cerveja, Bêbado?”
“Sim, por favor.” A voz em resposta saiu rouca, de nervosismo.
“Você pode vir comigo então? As garrafas estão numa prateleira muito alta lá na cozinha e eu não alcanço.”
O homem levantou, seguindo a garota, tendo o cuidado de ser rápido e discreto ao passar pelos três homens no balcão. Antom riu dos dois, que já haviam sumido de vista. Apesar de saber que o homem tinha um certo interesse na garota, ela nunca havia dado chance a ele. Nunca. Ele pegou a primeira torrada e colocou na boca. Era seca e quebrava fácil, motivo pelo qual sempre as recusava quando o Garçom oferecia. Quando mordeu a segunda, um pedaço agarrou em sua garganta, enquanto tentava engolir e começou a tossir, reagindo automaticamente ao engasgo. Pegou o copo à sua frente mas já bebera toda a água. Quando ia levantar-se pra pedir mais ao Garçom, o estranho estendeu um copo cheio de água gelada. Antom não entendeu como não percebera a aproximação do homem, mas pegou o copo e bebeu tudo de uma só vez.
“Obrigado.” Antom disse, pigarreando.
“De nada. Posso me sentar, Antom?” o estranho tinha um ar sereno e amigável no rosto.
“Claro.” O rapaz gesticulou em direção à cadeira, e os dois estavam agora, sentados um de frente para o outro. “Espera, como sabe o meu nome?” O estranho riu.
“Eu estive a manhã toda conversando com seus amigos no balcão, algum deles deve ter escapulido a informação.” O homem sorria. “A propósito Antom, me perdoe se eu te assustei ontem à noite. Eu devia ter acenado a você, quando vi que estava na janela, mas temi assustá-lo mais ainda.” Ele olhava pro rapaz amigavelmente, mas este não conseguiu disfarçar o constrangimento.
“Tudo bem. Eu estava acordado mesmo.”
“Deve ser um pouco difícil pra você.”
“O que quer dizer?”
“Viver em um lugar como esse e ainda sofrer insônia.” Antom ficou confuso.
“Como sabe da minha insônia?”
“Ora, você acabou de me dizer que estava acordado quando eu cheguei. E quando eu cheguei já era bem tarde.” Antom corou mais uma vez. Sentia-se desconfortável, como se houvesse algo diferente com o homem à sua frente.
“É, acho que eu disse.”
Eles ficaram em silencio por uns minutos. Antom suava com o calor do deserto e desviava o olhar do estranho, que olhava diretamente para ele. Perturbado com a situação, perguntou.
“O que traz um estranho à um posto no deserto.”
“Não sou um estranho, Antom.” O homem sorria novamente. “Vamos dizer que eu sou... um visitante. Meu nome é Oren.”
“Oren.” Antom repetiu. No fundo de sua cabeça, esse nome lhe era familiar.
“E também espero que esta seja uma visita rápida. Não acho que vai ser fácil me acostumar com este calor!” apesar das palavras, o rapaz notou que Oren não tinha uma gota de suor na testa ou no pescoço, enquanto ele mesmo sentia o suor brotando em suas costas e marcando a camisa sob as axilas.
“Hum, me perdoe mas... de onde você vem?”
“Ah, minha vida é bastante sem graça Antom. E o lugar de onde venho é tão entediante quanto minha vida. Já a sua, parece ser bem interessante. Me fale um pouco de você.”
“Falar de mim?”
“Sim. Conte-me um pouco sobre como são seus dias aqui.”
“Hum, bem, eu não posso reclamar. O quarto é bem confortável, e a comida da Loira é boa também.”
“O que você faz pra se distrair?”
“Normalmente eu passo o dia ouvindo às musicas que tocam no rádio velho, e às vezes eu leio alguns livros.”
“Ah, um leitor. Tem muitos livros com você?” Oren conversava com naturalidade, mas Antom se sentia estranho com aquilo tudo.
“Tenho alguns no meu quarto.”
“E o pessoal daqui é bem bacana, parece.”
“É sim. Você viu o Bêbado? Ele estava sentado aqui perto da janela. Nós conversamos bastante. Com o Gordo e o Garçom eu falo pouco, e muito menos com o Entregador.”
“Engraçado como as coisas são, Antom. Vocês vivem nesta pequena pousada, no meio do deserto, sozinhos, e ainda assim não conversam muito.”
“É que...”
“Como que o Bêbado veio parar aqui?”
“Quando eu cheguei ele já estava morando aqui. Na verdade quando eu cheguei já tava todo mundo, até o Casal.”
“E como você chegou aqui?” Oren agora estava sério. O sorriso desapareceu por baixo da barba.
“Eu cheguei...”
“Como?”
“Eu cheguei aqui, bem...” Antom sempre esteve ali, naquele deserto, e agora não conseguia se lembrar como foi parar naquele lugar.
“Não se lembra como chegou aqui?” o rapaz ficou em silêncio. “Estranho Antom, você não saber como veio parar aqui, não é?”
Antom estava incrédulo. O rosto se mexia, os músculos formando uma dúvida por baixo da pele branca. Ele tentou desviar do assunto.
“Mas isso não importa não, é? E eu não tenho que dar satisfação a um estranho.”
“Eu já te disse, sou apenas um visitante. Mas não precisa ficar nervoso.”
O silencio caiu mais uma vez entre os dois. Antom um pouco perturbado. Tinha algo fora do comum ali. Aquele estranho, ou visitante, não era normal. Ele olhou pra cozinha e perguntou-se por que o Bêbado demorava tanto pra voltar. Oren, mais uma vez quebrou o silencio.
“Não está com fome, Antom?”
“Não. Mas a Loira deve vir trazer o almoço logo.”
“O almoço?”
“É. Ela que cozinha, às vezes o Garçom a ajuda.”
“Sim, o Garçom me contou isso. Mas você não acha impressionante como perdemos a noção do tempo quando temos uma conversa interessante?”
“Não entendi.”
“Não entendeu? Bem, Antom, se você olhar pela janela vai ver que já anoiteceu e que o sol já está nascendo novamente.”
Antom olhou pra sua direita. Inacreditavelmente o céu escuro morria, com o nascer do sol no longe horizonte. Era impossível! Eles não podiam ter passado o dia e a noite ali conversando. Era impossível! Seus joelhos começaram a tremer e ele olhou descrente para o homem a sua frente. O visitante o encarava com um rosto sem expressão, com um esboço de sorriso. Antom levantou da cadeira, tremendo.
“Quem é você?”
“Eu sou Oren, Antom já te disse isso antes.”
“Mas... Mas é impossível! Como você chegou aqui ontem? Você nem me respondeu de onde você veio!”
Oren levantou-se calmamente e ficou de frente para o rapaz.
“Na verdade, Antom, não importa quem sou eu ou de onde eu vim. O que importa é o que eu vim fazer aqui. E eu vim matar você.”
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