Elo Irrevogável
2 Capítulo 2 - Revirando o Passado
***
Maria tentava recuperar o ritmo de sua respiração depois da agitação que aquela notícia provocou, ao mesmo tempo que buscava conter o choro inutilmente. Nesse momento Luciano foi até o bar, que ficava de frente à sala de estar, e serviu água para os dois. Maria era uma pessoa muito controlada, mas obviamente aquela era uma situação atípica e, perder o controle, ainda que momentaneamente, era algo que a deixava incomodada. Certamente por tudo que lhe aconteceu, mas esse também era um traço de sua personalidade. Luciano se aproximou e lhe entregou o copo.
_ Acho que você não vai querer beber nada alcoólico nesse momento. É água.
_ Obrigada, Luciano. Você sabe que eu não gosto de beber... _ disse em um tom nervoso e aflito.
_ Sim, como não gosta de nada que te tire a lucidez e te ameace de perder o controle. _ ele observou como o amigo que a conhecia há 18 anos e considerava essa aventura de conhecê-la, fascinante. _ Maria, você precisa se acalmar. Eu, melhor do que ninguém, sei que você esperou por isso a metade da sua vida, mas se você ficar tão nervosa, pode passar mal, é muita emoção.
_ Eu não vou passar mal, não se preocupe. Você acha que eu vou permitir que os nervos me impeçam de saber tudo o que eu sempre quis? Você disse que eu esperei por isso durante a metade da minha vida, mas minha filha é toda a minha vida _ ela disse enfatizando o último trecho. _ Por mais que eu tenha vivido outras experiências, essa foi a única realmente bonita e me deu um motivo para viver, para logo ser retirada de mim.
As lágrimas voltaram a rolar em seu rosto ao recordar um dos episódios mais amargos de sua vida, ela não podia evitar, nem com todo o seu autocontrole. Todo seu autocontrole escapava quando se tratava de encontrar a sua filha. Era essa esperança que dava sentido à sua existência há quase 19 anos, desde o dia em que a criança que acabava de completar um mês, desapareceu de dentro da casa simples na qual ela vivia sozinha com a filha. Ao sair do banho, a criança não estava em seu berço. Ninguém na vizinhança viu nada, a polícia não conseguiu encontrar nenhuma pista, nada. O desespero de ver aquele berço vazio sempre a acompanhou, essa busca a moveu para com suas próprias mãos, levantar uma Joalheria, com ênfase em produtos de prata, reconhecida em todo país baseada em seu talento para criar peças exclusivas que encantava os clientes e valorizava seus produtos. Mas o berço sempre permaneceu vazio em sua lembrança e, para ela, a única coisa que importou foi encontrar a criança.
_ Você sabe que eu sei a importância que encontrar essa menina tem para você, Maria – Luciano disse segurando sua mão – por isso você não sabe como eu me sinto feliz de estar aqui hoje para te contar tudo o que você sempre quis saber. Te dizer que sua filha está viva, está bem e vive nessa mesma cidade.
_ Ah, Luciano – ela esboçou um sorriso enquanto suspirou. – me diga onde ela está, qual o seu nome, tudo que aconteceu com minha pequena Elena. – disse suplicante.
_ Quando nos conhecemos tinha apenas alguns meses que ela havia desaparecido sem nenhuma pista e você sabe que eu fiz tudo que pude para encontra-la.
_ Eu sei, é claro que eu sei. Você conseguiu ganhar minha confiança por seu empenho e dedicação em me devolver meu anjinho _ ela disse agradecida.
_ Busquei pistas por todos os lados e não foi uma busca nada fácil por causa da falta de qualquer coisa que pudesse te levar a ela. _ ele disse desanimado por todo o tempo que a busca levou a despeito de seus esforços _ Investiguei por muito tempo o pai da menina...
_ Ele não é o pai dela! _ ela interrompeu furiosa _ Aquele desgraçado não é pai da minha filha, porque nada bom pode sair dele.
Levantou-se e deu dois passos em direção à porta tentando acertar o ritmo de sua respiração. Luciano foi atrás dela e colocou a mão em seu ombro de maneira terna.
_ Eu sinto muito. _ ele a consolou. _ Sei que nossa conversa vai te fazer reviver seus momentos mais dolorosos, e eu te juro que daria qualquer coisa para poder impedir que você sentisse essa dor.
Ela, mais uma vez perdeu o controle da emoção, se virou devagar e o abraçou chorando muito. Ele não se conteve com a emoção dela e chorou também. Ela tentou, mas não conseguiu falar nada. Se soltou do abraço e voltou para o sofá. De repente ela percebia novamente toda sua vulnerabilidade no momento em que sofreu aquele ataque. Aquele homem, que ela conhecia há alguns meses, e em quem ela havia confiado a possuiu com brutalidade e violência. Quase 20 anos depois a dor ainda a envolvia ao recordar esse episódio, mas, como Luciano disse, era inevitável, era necessário revivê-lo.
_ Continue, Luciano. Você falava sobre aquele canalha, encontrou algo sobre ele? Ele está envolvido no desaparecimento da minha filha? _ disse enquanto secava as lágrimas.
_ Não sei. Mas descobri que a mulher do sócio dele teve uma menina quatro dias antes do desaparecimento de sua filha e essa criança morreu. Não foi fácil chegar a esse dado, mas alguma coisa me dizia que esse sequestro tão inexplicável, tinha que ter sido feito por alguém que te conhecia e alguém que tinha interesse em te fazer mal.
_ Então você sabe quem foi? Elena foi adotada por essa mulher, é isso? A esposa do sócio do desgraçado do Evandro?
_ Eu não sei quem foi que a sequestrou, mas sim, a sua filha foi adotada por essa mulher. Descobri que a filha dela não nasceu aqui, mas numa cidade vizinha, ela sofreu um acidente e a criança nasceu morta em um pequeno hospital. No dia seguinte foi enterrada nessa cidade mesmo e, dois dias depois, a pequena Elena desapareceu. A criança foi registrada com o nome de Estrela San Roman no mesmo dia, por Consuelo e Estevão San Roman, pais da menina morta.
Maria levantou os olhos atônita! Não podia acreditar nos dois nomes que acabava de escutar.
_ O que você está dizendo? Você está dizendo que Estevão e Consuelo San Roman criaram minha filha como se fosse deles, é isso? _ era difícil organizar os pensamentos, tudo na sua mente dava voltas. Não podia ser verdade!
_ Por quê? Você os conhece, Maria? – Luciano se surpreendeu
_ Sim, os conheço, claro que os conheço! Estevão era meu namorado quando eu fui pra cadeia. Consuelo e ele haviam tido um relacionamento e os dois tinham um filho. Ela esteve o tempo todo infernizando nossa relação. Isso que você está me dizendo não pode ser, Luciano! Eu não posso acreditar que esses dois tenham criado minha Elena. Que os dois podem ser responsáveis pelo seu desaparecimento, que podem ter continuado a me fazer mal depois de supostamente terem saído da minha vida e eu não ter me dado conta. – Maria procurava pensar em tudo o que aquela informação significava.
_ Eu estou surpreso, Maria. Você nunca me disse nada. – Luciano também procurava organizar aquelas informações. _ Você me disse que Evandro era amigo do seu namorado, mas não o relacionou quando falamos sobre as pessoas de seus conhecidos que relacionamos para investiga-los.
_ Porque eu não o via há mais de 2 anos! Nem a ele e nem a essa mulher. No dia que eu fui presa, ele foi me ver. Terminou nosso relacionamento, disse que se sentia decepcionado, não acreditou em minha inocência e disse que nunca mais queria saber de mim. Eu simplesmente tomei a mesma atitude apesar de que me doeu mundo seu abandono e falta de confiança. Consuelo foi me ver alguns dias depois dizendo que eles iam se casar. Disse em tom de deboche, de triunfo. “Finalmente eu te venci!, ela disse, você está completamente fora das nossas vidas, Maria”. Nunca mais voltei a vê-los. Como eu poderia imaginar que minha filha que desapareceu mais de 2 anos depois, poderia ter sido adotada por eles? Eu não consigo acreditar!
_ Então o que eu posso dizer é que esse trabalho de investigação não termina aqui. Vamos descobrir tudo, Maria, tudo! Porque ainda há muitas questões sem respostas nesse caso. E existe um agravante.
_ Agravante? – ela interrogou atordoada
_ Consuelo San Roman está morta.
_ Morta!? – ela se surpreendeu
_ Sim, sua filha vive com os que ela acredita serem sua família: Heitor, filho mais velho de Estevão, Alba, tia dele, e Estevão que ela acredita ser seu pai.
_ Quando ela morreu? – Maria quis saber
_ Há 15 anos. Suicidou-se ao tomar uma super dose de calmantes.
_ Meu Deus – Maria continuava surpresa – Tudo isso é muito para mim. Minha filha vive com uma família que acredita ser a dela. Como eu vou poder recuperá-la? Ela tem quase 19 anos e acredita que sua história é completamente diferente da verdadeira. Como ela é? O que você sabe sobre ela?
_ Sei que ela tem uma relação muito boa com o... com seu pai, o que ela acredita.
Maria levantou os olhos ao ouvi-lo dizer isso como para reclamar-lhe, mas não o fez. Se deu conta que por mais cruel que fosse, era verdade, aquele homem, que um dia fez parte de sua história, era o pai que sua filha conhecia, ela não podia lutar contra isso, pelo menos não em um primeiro momento.
_ E sua vida familiar é tranquila. – Luciano continuou. – Estevão, pelo que estive investigando, é um homem muito dedicado aos filhos. Tem um escritório de advocacia junto com Evandro e Estrela é uma jovem comum. Alegre, divertida, bastante impetuosa pelo que pude investigar.
_ Ela está estudando? – Maria se interessou
_ Sim, ela acabou de começar o curso de joalharia na universidade.
Os olhos de Maria brilharam e ela sorriu pela primeira vez desde que a conversa se profundizou. Justo ela que não acreditava em coincidências, recebeu um impacto tão positivo no meio daquela conversa.
_ Você está me dizendo que a minha filha, que me roubaram há 18 anos, escolheu a minha profissão? – ela perguntou sorrindo.
_ Para que você veja que sim, você tem chances de recuperá-la, Maria, ela possui coisas suas, ainda que vocês não tenham convivido.
_ Ah, Luciano. No meio de tantas coisas surpreendentes e dolorosas que você me disse, você me deu duas notícias incríveis...
_ Sim, Maria, claro que sim! E no momento você não tem que pensar em tudo de adverso que essa situação apresenta, mas sim nas coisas positivas: nós a encontramos, Maria, a encontramos! – ele comemorou estendendo suas mãos para ela e sorrindo com os olhos brilhantes.
_ Tem razão! – disse segurando suas mãos – Você a encontrou, Luciano, você! Obrigada, você me deu a maior alegria de toda a minha vida. Em alguns momentos eu não esperava mais receber essa notícia. Só de saber que ela está bem, está viva, é feliz, escolheu a minha profissão, a minha! – disse abraçando-o.
Ele correspondeu o abraço comovido com sua felcidade. A afastou, acariciou seus cabelos, a olhou nos olhos:
_ Tudo que eu fiz por você, Maria, eu fiz porque você merece e... – deu uma pausa fitando-a mais profundamente fazendo com que ela compreendesse suas intenções – porque eu te amo.
_ Luciano... – ela se soltou dele, sem graça e se afastou.
Ele a seguiu e pegou sua mão direita, insistente.
_ E faria muito mais! Faria qualquer coisa, eu sempre vou estar a seu lado, ainda que você não possa me corresponder.
_ Mas isso me faz sentir muito mal. Não me parece justo que você se dedique a mim, a meu amor, um amor que eu nunca vou poder sentir, nunca! Meu coração está morto, sou apenas uma mãe. E não quero que você espere de mim, algo que eu não posso te dar, porque você não merece isso.
_ Não quero que você tenha pena de mim _ ele reclamou
_ Não é pena, é amizade! Quero você do meu lado porque você é uma pessoa incrível e isso que você fez por mim durante tantos anos se dedicando à minha busca, é uma coisa inestimável. Por isso mesmo não acho justo que você continue sendo meu amigo esperando por algo que nunca vai acontecer.
Ele baixou os olhos.
_ Não me importa! Não me importa! O que eu mais queria no mundo era o seu amor, mas se não posso tê-lo, de nenhuma maneira vou me afastar de você por isso. Eu vou estar ao seu lado, sempre, sempre! Em qualquer circunstância.
_ Obrigada! _ ela agradeceu sincera.
_ Acho melhor eu ir embora. Com certeza ainda há muitas coisas que temos que conversar, dúvidas que você tenha, mas no momento, você deve estar precisando digerir essa notícia, pensar em tudo. Aqui está o dossiê que preparei para você _ ele lhe entregou uma pasta cheia de papéis _ Aí há documentos, informações, fotos. Tudo que você precisa saber sobre os San Roman, sobre Evandro e sobre sua filha, que agora se chama Estrela.
Ela acompanhou Luciano até a porta e se despediu dele sentindo muita gratidão. Quando fechou a porta forçou suas costas contra ela, segurou o dossiê e o apertou contra o peito chorando. “Finalmente!” Ela disse para si: “Finalmente!”, repetiu.
***
Já era tarde quando Heitor finalmente entrou em casa e econtrou seu pai tomando vinho em frente à lareira.
_ Ainda acordado, senhor San Roman? Não está com sono?
_ Não filho... – disse muito pensativo – quer me acompanhar em uma taça de vinho?
_ Claro! _ Heitor respondeu sentando-se ao seu lado no sofá _ O que foi, pai? Está sem sono, me parece muito pensativo, algum problema?
_ Nada importante, filho. O que o Evandro disse hoje no escritório sobre se aposentar, você sabe, isso traria muitas mudanças pra nós.
_ Sim, isso é verdade. Mas não é são trazer problemas do trabalho pra casa, quem foi que me ensinou isso? _ ele disse sorrindo
_ Sim, como eu te ensinei, não é sadio trazer problemas do escritório pra casa, foi a primeira lição que eu te dei quando você começou a trabalhar comigo, não? _ ele sorriu
_ E eu nunca esqueci, como todas as outras que você me deu. É só isso mesmo, pai? Só o trabalho? _ Heitor se preocupou
_ É que tive uma conversa sobre sua mãe com Estrela...
_ E por isso ficou assim, tão pensativo?
_ Apesar de tudo, eu sei que Consuelo fez muita falta à vocês, independente de seus desequilíbrios.
_ É verdade, minha mãe nos fez muita falta. Foi muito difícil para mim perdê-la e sua falta, por toda a vida, é algo que não sinto que vou superar. Mas, tem tanto tempo, temos que seguir a vida, não?
_ Sim – Estevão concordou – mas eu sinto que nenhum de nós três nunca pudemos ser completos sem ela. E eu digo isso, ainda que esse casamento não tenha sido nada bom, você melhor do que ninguém sabe disso.
_ Pai, você se sente culpado?
_ Claro que sim! – Estevão baixou os olhos – eu não pude ser um bom marido para ela, nunca pude amá-la porque na minha mente e no meu coração...
_ Tinha outra mulher! – nesse momento foi Heitor quem se entristeceu
_ Sim! Outra mulher que eu nunca pude esquecer. E sua mãe sabia, filho. Como eu não vou se sentir culpado? Eu digo para Estrela, para você, para mim mesmo que se ela se matou por sua doença, mas uma parte de mim me diz que, se tudo fosse diferente... se tudo fosse diferente... você e sua irmã poderiam ter sua mãe hoje!
Heitor se levantou e caminhou em direção à lareira. Era um homem, naquele momento se deu conta. Respirou firme, olhou seu pai e disse:
_ Pai, todos nós, à nossa maneira temos nossas recriminações e nossas culpas. Desistir foi uma decisão da mamãe, só dela! Você pode não ser um homem perfeito, mas é o melhor pai que uma pessoa poderia ter, não se culpe tanto, não fique triste por isso. _ disse abraçando-o _ A falta de minha mãe é nossa realidade, não podemos mudá-la, não adianta que nos lamentemos.
_ Meu filho! _ ele respondeu correspondendo ao abraço
Quando Heitor foi dormir, Estevão se colocou novamente dentro de seus pensamentos. Se voltou à Maria: “Por que ela estava tanto em sua mente ultimamente?”, “Por que esse amor que nunca se concluiu não o deixava seguir a vida?”, “O que teria acontecido com ela”. Se convenceu que nunca teria essa respostas e que precisava se resignar a isso.
_ De toda maneira, ela nunca foi a mulher que eu imaginei! – disse em voz alta para si mesmo
***
Maria chegou ao restaurante que havia marcado com Camila um pouco atrasada e a cumprimentou com um beijo no rosto.
_ Amiga, e essa novidade, você se atrasando, o que aconteceu? – perguntou Camila surpresa.
_ É que eu não fui à joalheria hoje de manhã. Então, passei lá para assinar uns papéis antes de chegar aqui e acabaram me prendendo mais do que eu espertava. _ ela explicou se sentando.
_ Mas me conta, que novidade é essa que o Luciano te disse? Você não atendeu minha ligação ontem à noite, imaginei que porque estava processando a notícia que recebeu dele.
_ Sim, Camila, foi isso.
_ E qual era a notícia? O que ele te contou?
_ Ele encontrou minha filha, Camila, a encontrou! – ela disse emocionada
_ Meu Deus, Maria, a resposta que você sempre quis receber! Que alegria! _ ela disse segurando as mãs da amiga – Mas e então, quem é ela? Onde ela está?
_ O importante que você saiba Camila é que eu vou recuperá-la! Vou recuperar minha filha e já sei como vou fazer isso!
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