***

Camila pediu vinho e Maria ameaçou protestar. Antes que ela abrisse a boca, Camila justificou:

_ Eu já sei que você não gosta de beber, mas uma notícia como essa, não dá pra conversar à secas, hoje você vai beber vinho comigo!

Maria não a contestou. Juntou as mãos embaixo do queixo quando costumava fazer quando estava tensa e moveu os olhos para cima. Camila sabia que essa era sua maneira de concordar. A amizade das duas era muito antiga e intensa, às vezes, as palavras não se faziam necessárias, se entendiam nos gestos e olhares, sem necessidade de verbalizar.

_ Calma, me conte tudo. Onde está sua filha e que maneira é essa que você tem para recuperá-la?

_ Camila, você não vai acreditar. Você não vai acreditar em quem adotou a Elena e onde ela esteve todo esse tempo.

_ Quem, Maria, pelo amor de Deus? Chega de suspense, você sabe que eu odeio rodeios.

_ Eu não estou fazendo rodeios, é você que não me deixa falar.

_ Então fale, mulher! Fale que eu estou ouvindo.

_ Você se lembra que eu te falei do Estevão, que era meu namorado quando eu fui presa mais de 20 anos atrás? _ Maria introduziu

_ Claro que sim, foi o único homem que fez você sentir amor, o único por quem você se apaixonou...

_ E por isso mesmo nunca voltei a permitir o amor no meu coração, com ele eu só aprendi sobre decepção e falta de confiança. _ ela disse com bastante peso na voz que chegou a comover Camila.

_ Maria, como você mesma disse, isso foi há mais de 20 anos. Não é certo você falar dele e, principalmente do amor, com tanto ressentimento.

_ Você sabe que não foi só isso, Camila. _ ela se alterou. _ Você, mais do que ninguém, sabe que não foi só isso que me ressentiu com os homens, com a vida e com o amor. Eu recebi um golpe atrás do outro antes de me tornar tão dura e defendida.

_ Eu sei. _ Camila disse segurando sua mão. _ Me desculpe, comigo você não tem que justificar nada porque eu melhor do que ninguém, conheço sua história e tudo pelo que você teve que passar. E estarei do seu lado te apoiando aconteça o que acontecer.

_ Obrigada. _ Maria agradeceu _ Então... Esse homem, Estevão, meu ex-namorado. Ele foi quem adotou Elena, ele e sua mulher, Consuelo que sempre esteve entre nós enquanto estivemos juntos.

_ Ele adotou a menina? Como? Ele a sequestrou? _ Camila não pôde evitar se surpreender. Todos se surpreendiam ao pensar nessa incrível coincidência. Seria mesmo coincidência?

_ Eu não sei. Eu não sei, Luciano não sabe bem como essa criança chegou às mãos deles. Ela foi registrada como Estrela San Roman por ele e sua esposa que pouquíssimos anos depois, se matou. Por isso, tudo é mais complicado.

_ E você tem alguma maneira para descobrir?

_ Luciano vai seguir investigando, agora que ele conhece a relação que eu tive com essas pessoas, ele tem mais um dado para incluir ainda que, uma das suspeitas esteja morta. E eu também vou investigar à minha maneira.

_ Quando você chegou aqui, você me disse que já sabia como fazer para recuperar a pequena Elena, que agora é Estrela, ou seja lá como se chame...

_ Sim, foi o que eu disse.

_ E como você vai fazer isso? Ela vai completar 19 anos, é uma mulher e tem uma família.

_ Exatamente! Eu não posso chegar para minha filha e dizer: “Eu sou sua mãe, sua vida é uma mentira”, eu não vou conseguir ganhar seu carinho me aproximando dela dessa maneira, ela vai me considerar uma invasora de seu mundo. Além do mais, Luciano me disse que ela tem uma ótima relação com Estevão e seu filho Heitor, aos que ela considera sua verdadeira família.

_ Mas, nessa noite ao invés de dormir, você passou tramando uma maneira de se aproximar da garota, se te conheço bem. _ Camila entendeu parte das intenções de Maria.

_ Sim! Eu já sei como me aproximar dela. Você disse: “Ela vai completar 19 anos, é uma mulher e tem uma família”. A maneira que eu tenho para me aproximar dela é entrar na sua família. _ Maria falou como se ditara um veredito.

_ Entrar em sua família? _ Camila se surpreendeu. _ Mas para entrar em sua família você teria que...

_ Eu vou me casar com Estevão San Roman! _ Maria completou. _ Com um pouco de sorte, ele ainda terá algum tipo de sentimentos por mim e se não tiver, eu farei com que volte a ter. Vou entrar em sua casa e me tornar madrasta de seus filhos. Vou fazer isso para conhecer e conquistar minha filha.

_ Maria, mas isso é uma loucura! _ Camila se surpreendeu _ E te digo eu que sou a rainha das loucuras. Isso não vai dar certo, é muito arriscado!

_ É claro que é arriscado, mas por minha filha vale! Eu estou disposta a ir até às últimas consequências, vou ter o amor da minha Elena custe o que custar!

_ Mas você não pensou que esse jogo pode ser arriscado para você mesma? Você foi apaixonada por esse homem, talvez ainda seja...

_ Eu não sou! Não o amo e muito menos agora sabendo que ele tem algo que me pertence, algo que eu ansiei com a alma durante toda a vida! Eu tenho um único sentimento por ele: ódio, muito ódio! O que eu tenho é raiva de mim mesma por um dia tê-lo amado tanto e com tanta entrega. Foi esse maldito amor que me destruiu. _ Ela voltou a falar com muito ressentimento e tomou a metade do vinho que estava em sua taça em goles grandes.

_ Maria, não foi o amor que te destruiu, minha amiga. Foram os sentimentos ruins do mundo, das pessoas, não o amor. Além disso, você não foi destruída. Você está aqui, de pé, linda, deslumbrante, com uma grande empresa, amigos verdadeiros e vários homens que morreriam por estar com você. Você é uma pessoa incrível, tudo que você passou não foi o suficiente para te destruir, você está de pé.

_ Você disse bem. Eu tenho tudo isso aí: amigos, homens que querem estar comigo, minha empresa... _ nesse momento baixou os olhos e foi inevitável que eles se enchessem de lágrimas. _ A única coisa que eu não tenho, é tudo o que eu queria ter! Eu abro mão de tudo, Camila, tudo por minha filha! Nenhum golpe foi tão duro para mim como perdê-la. Nem a cadeia, nem o abandono do Estevão e nem o que o maldito do Evandro me fez. Nada foi tão doloroso como não poder ver minha filha crescer e ser a mãe dela.

_ Mas você não pensou que você pode ser quem se machuque e sofra com isso?

_ Sim, Camila, eu pensei. E não me importa, já te disse: não me importa! Quero a minha filha de volta e vou fazer qualquer coisa para isso. Qualquer coisa!

_ Eu sei que nunca vou te convencer a não fazer algo que você já decidiu fazer. Mas você também não pode me impedir que me preocupem seus sentimentos, amiga. Isso vai te ferir muito, é inevitável.

_ Mas, Camila, é um preço que eu estou disposta a pagar, não se preocupe, eu vou ficar bem, e o melhor: vou ter minha Elena de volta!

***

Mais tarde, no escritório de Maria

_ Senhora Maria, o seu advogado está aqui – avisou Joyce, a secretária.

_ O Luciano? _ ela se animou

_ Sim, ele.

_ Peça para entrar.

Luciano entrou e a cumprimentou com um afetuoso beijo no rosto. Ela sorriu e pediu que ele se sentasse.

_ Eu vim assim que recebi o seu recado, o que você quer? – ele indagou

_ Li todo o dossiê que você me entregou e já sei como vou fazer para me aproximar da minha filha e você vai me ajudar.

_ Eu? – ele se surpreendeu enquanto ela acentiu com a cabeça – Claro! Me diga o que eu tenho que fazer que eu faço.

_ Primeiramente eu quero que você coloque alguém para observar Estrela e Estevão. Quero saber o que eles fazem, onde vão, qual é a rotina dos dois.

_ Claro, eu já tinha pensado nisso, mas só com relação à Estrela.

_ É que eu percebi que pra recuperar minha filha, seu pai tem que estar incluído em minha estratégia. Você o disse muito bem ontem: ele é o pai dela, o pai que ela conhece, não há como mudar isso, são 19 anos. Eu creio que tenho uma maneira de chegar perto dela e conquistar seu carinho, antes de revelar a verdade.

_ E que maneira é essa?

_ Logo eu te digo. Agora eu vou dizer como você vai me ajudar. No dossiê que você me deu diz que Evandro está querendo se retirar da empresa e colocar suas ações à venda. Você vai comprá-las e se tornar sócio do escritório San Roman. Você é advogado, será mais fácil conseguir negociar essas ações do que eu.

_ Mas você sabe que o Estevão tem prioridade na compra dessas ações, por ser sócio dele.

_Sim, mas caso Evandro se recuse, você sabe que eu tenho uma arma para convencê-lo. Eu duvido que ele queira perder toda sua reputação se recusando a vender suas ações para mim. Ou melhor, para você.

_ Mas Maria, se o seu alvo é recuperar a sua filha, o que você ganharia se tornando dona de parte da empresa de seu pai?

_ Eu me aproximaria da família! Seria a justificativa perfeita para eu entrar de vez nas vidas deles, embora Evandro, Estevão e Alba já me conheçam muito bem.

_ Maria, você sabe que eu vou fazer tudo o que você me pedir, porque sou seu amigo e sinto que tenho a obrigação de te ajudar a recuperar sua filha.

_ E você não sabe o quanto já fez, Luciano – ela disse segurando sua mão direita. – Você a devolveu pra mim, a trouxe de volta, eu nunca vou ter palavras suficientes para te agradecer.

_ Não há o que agradecer – ele respondeu apertando fortemente sua mão – Eu sempre vou estar do seu lado. Sempre! Vou agora mesmo tentar o contato com Evandro. Conforme a resposta que obtiver, resolveremos isso o mais breve possível. Vai dar tudo certo!

_ Sim! – ela respondeu sorrindo – vai dar tudo certo.

Na sua cabeça ela já tinha em mente tudo o que ia fazer. Mas precisava fazer uma coisa antes de tudo. Algo que foi seu primeiro impulso quando recebeu a notícia e não pôde fazer por não saber como: conhecer a sua filha. Ligou para o coordenador do curso de Joelheria da faculdade em que Estrela estudava, a quem conhecia há muito tempo, e acertou algo para o dia seguinte. Teria sua oportunidade. Finalmente a conheceria! Como conter a emoção?

***

Evandro entrou na sala de Estevão um pouco tenso. Estevão conversava com Heitor sobre um processo que tinham que responder o mais breve possível e estranharam a interrupção.

_ O que foi Evandro, você parece nervoso! – Estevão observou

_ Não me sinto muito bem, definitivamente, preciso me retirar de trabalhar, já não sou o mesmo de antes.

Era um homem atormentado, sempre sentia-se mal, agia de maneira estranha e nenhum psiquiatra conseguia controlar sua ansieade e até mesmo suas neuroses. O que nem Estevão e nem Heitor sabiam é que seu tormento vinha de seu próprio passado, de sua consciência, de coisas que ele havia feito e não conseguia esquecer, superar. Estar perto de Estevão era ainda mais difícil para ele, ele o fazia recordar Maria e até onde ele chegou para possuí-la, tudo o que foi capaz de fazer com aquela era a única mulher que seu amigo havia amado. Além disso, sempre soube que Maria era inocente e nunca foi capaz de dizer a Estevão. Durante todos aqueles anos, havia calado não um, mas muitos segredos. Segredos esses que agora o faziam sentir-se totalmente incapaz de lidar com suas culpas e remorsos. Definitivamente, queria se afastar de Estevão!

_ Você quer que a gente chame um médico, tio? – Heitor perguntou

_ Não precisa, meu filho, meu problema não é físico, está na minha mente, eu tenho que aprender a lidar. E não foi sobre isso que vim falar com vocês.

_ O que foi? Algum problema? É sobre o caso de Fernando Maldonado? – Estevão se surpreendeu.

_ Não! É sobre a empresa. É sobre a minha parte no escritório, Estevão. Eu não posso mais, quero vender minhas ações o mais rápido possível. – sentenciou, surpreendendo a Heitor e a Estevão.

_ Evandro, você sabe que isso, nesse momento significaria incluir um sócio mais na empresa, porque eu, definitivamente, não tenho capital para comprar a sua parte. – Estevão recordou

_ Eu sei que te disse que te daria um tempo pra você conseguir o capital e que você não gostaria de iniciar um processo com um novo sócio, mas eu não posso mais. E eu não quero sair deixando nada pela metade. Também não posso te vender por menos porque...

_ Nem eu te pediria isso. Te conheço muito bem. Além disso, esse escritório levantamos nós dois, desde que éramos colegas de faculdade e o planejamos. O meu maior apego com ele é por isso, é um objeto da nossa amizade. _ Estevão reiterou.

_ Hoje um advogado entrou em contato comigo. Se chama Luciano Martins, você sabe como esse tipo de boato corre no nosso meio.

_ Sim, eu sei...

_ Ele soube que eu estou pensando em vender e disse que tem interesse em comprar. Isso foi como um estímulo para eu me decidir de vez. Se eu tivesse que anunciar as ações, esperar investidores, seria o mesmo tempo que você me pediu para resgatar seu capital. Mas esse advogado me ofereceu a possibilidade de resolver isso num prazo mínimo e, pela minha saúde, eu sei que eu tenho que me retirar do trabalho.

_ Então é isso, tio. Pela possibilidade de ter o dinheiro mais rápido, você não vai esperar o meu pai?

_ Heitor, deixe, Heitor – Estevão pediu. – Tudo bem, Evandro, se é o que você quer, eu não vou insistir mais. Como você mesmo disse a única coisa que isso iria requerer é uma maior adaptação ao novo sócio, não seriam grandes mudanças. A única coisa que eu te peço, é que não venda os 50% para que o novo sócio tenha uma participação minoritária.

_ Não, isso eu não pensava fazer. _ justificou o avarento. – isso sim eu vou fazer pela nossa amizade. Estou terminando de preparar os documentos e passarei 5% das minhas ações para o nome da Estrelinha.

_ Da Estrela? – Estevão se surpreendeu

_ Sim, da sua filha. E eu não quero que você me pague por elas! – Evandro disse de uma maneira firme.

_ Tio, me desculpe, mas agora sim você disse uma coisa inacreditável. Você está dando parte dessa empresa para minha irmã? DANDO? – Heitor perguntou muito surpreso.

_ Sim, não sei porque se surpreendem. – Evandro se fez de desentendido. – semana que vem é o aniversário dela e eu já tinha pensado em lhe dar esse presente desde o momento em que planejei me aposentar e vender minha parte da empresa. Vocês sabem que eu não tenho família e eu sinto a sua um pouco como minha. Sinto seus filhos um pouco meus filhos, principalmente a Estrelinha.

_ Isso eu sei, mas você tem que entender a surpresa do Heitor. Não só pra ele, como para mim é estranho ver você dando alguma coisa a alguém, mesmo que seja uma pessoa que você ame.

_ Mas não se diga mais! – ele colocou um ponto final. – Você já está de acordo que eu venda minha parte da empresa e amanhã eu vou me encontrar com Luciano Martins e ver qual é sua proposta para os meus 45%. Amanhã mesmo os documentos estarão prontos, e eu levo à sua casa para Estrelinha assinar, ela se tornará dona de parte dessa empresa.

Estevão e Heitor se olharam. Não era o que eles esperavam, mas nada podiam fazer. A empresa também era de Evandro e ele tinha o direito de dispor dela como quisesse. Já era praticamente um fato: a empresa teria um novo sócio.

***

Maria caminhava pela galeria superior de sua loja quando se surpreendeu ao ver uma pessoa na parte de baixo, onde se expunham as peças para vender. Não podia ser ele! Chamou à Márcia, a gerente que acabava de subir para o piso superior onde ficavam os escritórios e ela estava.

_ Márcia, você sabe quem é aquele homem conversando com Marina?

_ É um cliente, pelo que eu me lembre, nunca havia vindo aqui. Escutei parte da conversa, parece que ele quer comprar uma joia para sua filha que vai fazer aniversário.

_ Obrigada, Márcia, pode ir. Continue trabalhando.

Maria, que sempre havia sido descrente da sorte não pôde acreditar na oportunidade que a vida colocava diante de si naquele momento. Uma oportunidade dupla de conseguir chegar um pouco perto de seus objetivos. Queria ir à seu escritório ver-se no espelho, saber se estava bem, mas teve medo de que, se fazia isso, Estevão fosse embora e uma oportunidade como aquela não voltasse a acontecer. Começou a descer as escadas confiante, mas dentro de si o coração parecia que ia sair do peito. “Não Maria, nada de medo nesse momento, você tem que confiar em si mesmo, você sabe o que quer” – disse para si mesma enquanto chegava ao piso inferior e começava a se aproximar de Marina e Estevão.

_ Olá Marina! Boa tarde, senhor, eu posso te ajudar na sua escolha?

No mesmo momento Estevão estremeceu dos pés à cabeça, era sua voz, sua voz! Ele se virou e olhou nos seus olhos surpreso:

_ Maria!?

_ Estevão! Depois de tanto tempo, nós dois frente à frente de novo.