Elo Irrevogável

11 Capítulo 11 - Y no me queda nada más


Notas iniciais
Acompanha o capítulo a canção "El Perdedor" de Enrique Iglesias y Marco Antonio Solis

***

Naquele dia Maria conheceu um lado da filha ao qual ainda não havia sido apresentada. Conheceu seu lado agressivo, hostil e até cruel. Assim era Estrela, quando amava, amava com uma intensidade descontrolada, mas quando era contrariada, agia como uma fera. Talvez por ter sido muito mimada pelo pai ou pela falta que a mãe lhe fizera. Ou talvez isso tivesse, de alguma maneira, herdado da mãe.

Desde que chegou a casa de Maria lhe lançava não só palavras de agressão, mas também um olhar de desprezo que a feria profundamente. Ela havia se preparado para muitas situações desde que resolveu se lançar naquele jogo perigoso, mas não para o desprezo e agressividade da parte de Estrela. Ficou sem saber o que fazer, colocou em dúvidas seus planos e sua forma de agir naquela situação. Naquele momento também repensou a resposta que daria a Estevão no jantar daquela noite.

_ Então a senhora não vai se defender? – Estrela voltou a desafiá-la com o olhar – Não vai me dizer o que pretende rodeando por todos os lados à minha família?

_ Você me deixou numa situação difícil, Estrela. – Maria finalmente reagiu

_ Por quê? Por que eu te descobri? Porque ficou difícil para a senhora prosseguir com seus planos depois de perceber que a mim não vai fazer de idiota?

_ Não, não foi por isso. Você me colocou numa situação difícil porque já chegou à minha casa com uma sentença ditada. Pelo que estou vendo, para você pouco importa o que eu vou dizer para me defender, você já fez o seu juízo.

_ Não queira se fazer de vítima! – Estrela reclamou. – Eu estou te dando sim a oportunidade de se defender. De me dizer o que pretende comigo e com meu pai. A senhora está tentando me envolver nesse jogo de palavras, mas não se engane, eu não sou boba!

_ Não, você é uma jovem extremamente sagaz. Tem uma inteligência viva faz brilhar os seus olhos, foi uma das primeiras coisas que eu notei quando nos conhecemos.

Estrela se sentiu confusa. As palavras de Maria quase sempre lhe provocavam esse efeito. Mas não baixou a guarda.

_ Isso provavelmente faz parte do seu número! Pois que te fique claro que eu não vou cair no seu joguinho. Desde hoje está muito claro para mim quem é a senhora e o que quer.

_ Ah sim? – Maria dessa vez foi quem lhe olhou de maneira desafiadora. – E o que eu quero, Estrela? Me deixe conhecer o que você pensa de mim, eu já te disse o que penso de você.

_ A senhora pretende alguma coisa ruim contra minha família. Por isso quis me envolver se mostrando amável e gentil com relação ao meu interesse por joalharia e por isso está atrás do meu pai. Talvez queira vingança!

_ Eu não vou negar que me faria imensamente feliz que nós duas pudéssemos nos entender, que você me deixasse me aproximar de você, Estrela...

_ Não sonhe!

_ Bom, isso você não pode controlar, filha. Os meus anseios e sonhos. E quanto ao seu pai...

_ Eu quero te deixar claro que faço qualquer coisa para defender o meu pai!

_ Estevão e eu tivemos um relacionamento no passado. Pelo que você me disse quando chegou aqui, já sabe disso.

_ Sim! Está claro para Heitor e para mim que você se meteu entre nossos pais, prejudicando o relacionamento deles.

_ Eu não sei como foi o relacionamento de Estevão e Consuelo depois que eu fui... depois que eu saí de suas vidas. – Maria disse de maneira sentida confundindo novamente a provocadora Estrela – Mas enquanto eu os conheci eles não tinham um relacionamento que precisasse ser ‘prejudicado’. – enfatizou ironicamente – Estevão e eu ficamos vinte e dois anos sem nos ver Estrela. Você acha que se eu tivesse alguma intenção de vingança ou algo parecido, eu não o teria procurado antes?

_ Eu não sei! Mas sei que os seus planos não são bons, tenho certeza!

_ Além disso, – Maria seguiu desconsiderando os ataques da jovem – não sou eu quem está ‘atrás’ de Estevão, Estrela. Eu não vou mentir aqui pra você que ele me é indiferente e que não mexeu comigo voltar a vê-lo, recordar aquele amor... Mas, não sou eu quem está insistindo para reviver nossa história, senão, ele. Se você falar com seu pai, saberá que eu sou muito resistente.

_ Ah, por favor! Alguns dias depois que volta a vê-lo ‘por coincidência’ em sua loja, a senhora compra parte do escritório dele. Está claro que quer mantê-lo por perto! Ainda não sei com que finalidade, mas sei que não é por nada bom!

_ Você tem certeza, Estrela? – Maria indagou se aproximando e olhando a fixamente nos olhos. – Você tem certeza que eu tenho intenção de fazer mal à sua família e a você?

_ Eu tenho uma certeza que quero que a senhora também a tenha! A senhora não é bem-vinda em nossas vidas! Não é bem-vinda! E tenha isso muito claro. – disse virando-se e se dirigindo à porta.

_ Espere, Estrela, eu... – Maria a seguiu como tentando convencê-la a ficar.

_ Eu – disse alterando a voz fazendo com que Maria se detivesse – não tenho nada mais a falar com a senhora! Até logo!

Estrela saiu de sua casa totalmente perplexa. Maria era uma pessoa por quem ela tinha uma profunda admiração. Descobrir que ela era a mesma mulher pela qual ela havia desenvolvido uma antipatia prévia ao saber que ela fizera parte do passado dos pais e que Estevão ainda tinha sentimentos por ela, a deixava muito confusa. Outro fator que lhe provocava muita confusão era a atitude de Maria. “Por que ela não reagiu?”; “Por que não me agrediu como eu fiz com ela?”; “Por que continuou me olhando com ternura depois de eu tê-la tratado tão mal e lhe feito acusações tão pesadas?”.

Essas eram algumas perguntas que giravam em sua cabeça e para as quais ela não tinha resposta. Desde o momento em que viu Maria pela primeira vez, em sua joalheria, momento na qual apenas a observou de longe, Estrela percebeu que ela era uma pessoa admirável. Era bonita, elegante, imponente e tudo isso era visível apenas em sua figura. Ao olhar em seus olhos e falar com ela essa boa impressão se aprofundou e agora... Agora tudo era extremamente confuso em sua mente. A única coisa clara é que não queria essa mulher na vida do seu pai, não queria que ela entrasse em sua família, pois sentia que ela ameaçaria o amor entre eles. Mas, por que seu coração rejeitava tanto a ideia de querer mal à Maria?

***

Estevão terminava de se arrumar como um jovem que vai pedir em casamento à mulher amada. Já havia pedido Maria em casamento, pela manhã, mas sentia que o momento definitivo era aquela noite. Ao contrário de Maria que experimentava muitos obstáculos e dúvidas para responder àquele pedido, Estevão não titubeava em nenhum momento.

De dentro de uma das gavetas de uma antiga cômoda que havia em seu quarto, retirou uma caixa com um anel, o anel que ele daria a Maria vinte e dois anos antes, no dia em que ela foi presa acusado de furtar joias de uma loja. “Se eu tivesse acreditado nela...”, se recriminou. Sabia que a história dos dois poderia ter sido diferente se ele tivesse lhe dado a oportunidade de se defender. Se não tivesse terminado o relacionamento dos dois ainda na delegacia e abandonado Maria à própria sorte, se não tivesse agido como um covarde e a deixado sozinha quando ela precisava tanto dele.

_ Essa noite eu vou começar a corrigir todos os meus grandes erros do passado! – se disse enquanto concluía o nó da gravata.

Descia as escadas quando se encontrou com Estrela bastante nervosa.

_ Oi filha! Por que você está tão nervosa? Pisa duro no chão como se quisesse afundar a escada. – ele brincou.

_ Estou nervosa por sua causa!

_ Por minha causa? O que eu fiz?

_ Está de saída, é? Para onde você vai? – não mudou seu tom agressivo

_ Eu vou sair com a Maria. Tenho uma coisa muito importante para conversar com ela hoje. Mas...

_ Com a Maria? – ela interrompeu chateada. – Então o Heitor estava certo? O que você tem com essa mulher é sério?

_ Sim, minha filha. Não sei se esse é o momento para falarmos sobre isso, mas você deve ter claro que o que acontece entre Maria e eu sim é sério.

_ E seu eu te disser que não me agrada? Que não quero que você tenha algo sério com essa mulher do seu passado?

_ Estrela, eu te amo e amo muito. Tenho certeza que você têm claros os meus sentimentos por você. Mas, ainda assim, você não tem o direito de dizer com quem eu posso ou não me envolver, filha. Eu sou um homem viúvo há 15 anos e tanto você quanto seu irmão são adultos.

_ Pai, essa mulher pretende alguma coisa, será que você não vê? Você sabia que eu já a conhecia?

_ A conhecia? De onde?

_ Ela foi à minha faculdade dar uma palestra. Como eu não sabia o tipo de pessoa que ela era, a admirava muito e até aceitei o seu convite de ir à sua joalheria para conhecer o processo de fabricação de peças exclusivas...

_ E por isso você chegou à conclusão que ela ‘pretende alguma coisa’, que, pelo seu tom, imagino que você fale de algo ruim.

_ É claro que ela tem algum plano, algo obscuro que eu não sei. Que eu não sei ainda, mas vou descobrir. Mas você não vê? Primeiro se aproximou de mim, e agora está atrás de você. Comprou parte da empresa e está te seduzindo, te envolvendo...

_ Estrela, Maria não está atrás de mim. Na verdade, desde que nos reencontramos fui eu que percebi que aquele amor ainda podia estar vivo. Ela tem medo porque eu, EU minha filha, eu a decepcionei e a magoei no passado.

_ Pai, você não pode agir assim como um bobo, cair na armadilha dela...

_ Estrela, respeite a Maria que você pouco conhece e a mim, que você conhece muito bem. Eu não sou um bobo e ela não está tecendo nenhuma armadilha. Se algum dia você quiser me ouvir, eu vou estar pronto para te contar como foi nossa história de amor no passado e quem é, de verdade a Maria.

_ Eu não quero saber nada dessa mulherzinha! Sei muito bem que ela está te enganando e não quero ouvir como ela te faz de bobo. Disso você pode ter certeza! Não quero saber dela nas nossas vidas. – disse subindo as escadas e deixando-o para trás, fugindo como uma menina mimada que era.

_ Sinto muito minha princesa, mas nem tudo você pode controlar. E essa é uma das coisas que não estão nas suas mãos... – Estevão falou em tom de brincadeira enquanto a filha se afastava demonstrando que não dava tanta importância à sua resistência por Maria.

Sabia que não seria fácil lidar com ela e os ciúmes que sempre sentiu por ele. Além do mais, a relação com Maria, de fato não era das mais simples para os filhos aceitarem. Mas, naquele momento, Estevão não se importava com a reação dos filhos ao saber que havia proposto casamento à Maria. Para ele, e naquele momento, o mais importante era que ela aceitasse, do resto, ele trataria depois.

_ Se ela disser sim, eu vou ser o homem mais feliz do mundo! – se disse sorrindo.

***

_ Camila, que bom que é você amiga! O que você faz aqui?

_ Tenho um encontro amoroso com um gato que conheci e marquei de ele me pegar aqui na frente da sua casa porque queria falar com você antes.

_ Comigo? E desde quando você precisa falar comigo antes de encontros amorosos?

_ Não é de mim, é de você! Queria saber como foi na empresa com o Estevão e, pelo modo que você me recebeu, vejo que intuí certo.

_ Como sempre, Camila. Você não vai acreditar!

_ Claro que vou acreditar, é só você me contar! E por que você está vestida tão linda assim? Onde você vai?

_ Você gostou mesmo do vestido? Acha que estou bem?

_ Maria, você sempre está bem. Qualquer roupa que você coloque te deixa linda. Agora, pare de rodeios e me conte para que tudo isso? Por que você está arrumada assim e como foi hoje na empresa?

_ Na empresa foi bem. Estevão não desconfiou que eu tenha comprado a empresa com outras intenções. Acreditou na explicação que eu dei, mas ficou nervoso por outra coisa.

_ Que outra coisa?

_ Ciúmes do Luciano. –

_ Ciúmes, que interessante! – Camila arregalou os olhos interessada.

_ Já tinha me esquecido como esse homem é possessivo. Ele também era ciumento quando namoramos...

_ Maria, pouco me importa o que aconteceu na era dos dinossauros há mais de vinte anos atrás, eu quero saber é de hoje! – reclamou sorrindo.

_ Ele me reclamou, muito alterado e eu falei que não tinha porque termos esse tipo de conversa porque não tínhamos um relacionamento. Não sei bem como, mas acabamos de novo nos beijando e dessa vez sim, foi bem intenso e... quente, se é que você me entende.

_ Adoro os encontros de vocês, sempre terminam em beijos quentes, sempre tem uma novidade interessante para contar, sabia que eu não podia ir para meu encontro sem falar com você.

_ E você leva tudo na brincadeira porque não é você quem está no meio do furacão Camila. Quase, mas por muito pouco mesmo, não fizemos amor. – ela disse apertando os lábios um pouco constrangida por falar daquilo.

_ Jura? E porque não fizeram?

_ Porque eu não permiti, mas foi por muito pouco. Acho que a adrenalina dos ciúmes dele e da discussão que tivemos nos levou a perder um pouco o controle dos sentidos. Me esqueci que eu não podia perder o controle. Nos esquecemos que estávamos dentro do escritório dele, um ambiente de trabalho...

_ Quando vocês estão juntos se esquecem de tudo, Maria, isso é amor.

Maria só levantou os olhos. Não contestou. Naquele dia estava consciente que aquela era a verdade, ela ainda amava Estevão.

_ E depois? – Camila estava curiosa.

_ Depois ele me pediu em casamento.

_ Casamento? Maria, quando você me disse que ia me casar com esse homem eu não acreditei em tamanha autoconfiança. Agora você está aqui, diante de mim, uma semana depois, me dizendo que ele já te pediu em casamento?

_ Para você ver como meu plano era o correto. – disse de maneira descrente ao lembrar da discussão com Estrela – Consegui facilmente o que queria com Estevão. Por isso estou me arrumando. Eu fiquei de dar a resposta a ele em um jantar essa noite.

_ E por que, apesar de suas palavras eu não estou te notando empolgada? Há algo te fazendo hesitar?

_ Ah, amiga, é Estrela. Ela esteve aqui, queria reclamar à mulher que comprou parte da empresa e que está tendo um relacionamento com seu pai. Se surpreendeu muito ao saber que essa mulher era eu. Me disse muitas coisas agressivas e por fim... Por fim disse que eu não era bem-vinda nas vidas deles.

_ Agora entendo porque esse peso na sua voz e essa preocupação nos seus olhos.

_ Ela tem muito ciúme de Estevão, não vai aceitar facilmente uma madrasta. Esse era um agravante que eu não tinha pensado quando tracei esse plano de entrar em sua vida dessa maneira.

_ Então você vai desistir desse plano absurdo? Por que você tem essa opção, Maria. Você pode dizer à verdade a sua filha, a Estevão e não se tornar sua madrasta, pelo menos não com as intenções que antes você tinha.

_ Não! É um fato, Camila. Não vou desistir. Vou entrar naquela casa e, ainda que seja uma batalha a cada dia, vou ganhar o carinho de minha filha.

***

Alguns minutos depois

Quando Maria abriu a porta Estevão ficou deslumbrado. Estava com um lindo vestido preto que deixava seus sedutores ombros à mostra. Sua gola ia até o limite dos braços e o decote, como sempre, não era muito grande o que aumentava a curiosidade sobre seus seios. Também usava uma gargantilha de prata que valorizava seu belo colo. Usava os belos cabelos negros presos e alguns cachos caídos no ombro, estava deslumbrante. Ela sorriu deixando-o ainda mais fascinado:

_ Pontual como eu pedi, muito bem!

_ E você acha que eu deixaria esperando a uma mulher maravilhosa como você? Está pronta? – antes que ela respondesse, ele completou – Claro que está! Não falta nada em você, você está belíssima.

_ Obrigada! Sim, eu estou pronta. Vamos? – ela disse segurando em seu braço dando a ele uma sensação muito boa de que os dois eram um casal.

Ao chegar ao restaurante, Estevão se identificou ao maître e pediu a ele que suas indicações fossem seguidas. Maria ficou curiosa.

_ Que indicações são essas?

_ Você vai ver, meu amor. – disse sorrindo enquanto puxava a cadeira para que ela se sentasse. Assim que eles se sentaram a banda do restaurante começou a tocar a música que Estevão havia indicado. Era a música deles, Maria reconheceu, a canção “El Perdedor” de Enrique Iglesias y Marco Antonio Solís. Ela sorriu emocionada.

_ Você ainda se lembra da nossa canção?

_ Claro que me lembro, Maria. Você acha que eu esqueceria algum de nossos detalhes? Você esqueceu? – ele perguntou olhando-a aflito.

_ Não – ela respondeu com um suspiro – Nenhum deles.

Nesse momento ele tirou a caixinha do bolso a olhou com os olhos marejados antes de falar:

_ Esse anel eu comprei há vinte e dois anos para você e não pude te entregar por ter sido tão imbecil. Eu ia te pedir em casamento naquele dia.

_ Naquele dia? – ela perguntou com a voz embargada.

_ No dia em que você foi presa. Estava com esse anel no bolso. Me perdoe ter demorado tantos anos, meu amor. – ajoelhou-se frente a ela – Você quer se casar comigo?

Maria se emocionou enquanto a banda seguia com a canção:

🎵 No, no vayas presumiendo, no

Que me has robado el corazón

Y no me queda nada más

Sí, prefiero ser el perdedor

Que te lo ha dado todo

Y no me queda nada más 🎵

_ Sim, Estevão. – Maria quase não podia falar tamanha a emoção – Sim, Estevão! Eu aceito me casar com você.

Nesse momento ele a beijou também emocionado. E naquele momento decidiram unir-se em um elo irrevogável.