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1 Minha tia vem morar comigo


Oi!

Meu nome é Isabela, eu tenho dezesseis anos e sou aluna (ou pelo menos costumava ser) de uma escola interna no centro da cidade de São Paulo, no Brasil.

Eu sei o que você deve estar pensando: “Brasil, uau, o lugar mais lindo do mundo”, e eu não nego. É realmente lindo. As praias são deslumbrantes, a alegria contagiante e tudo mais. O que dizer? Brasil, apenas.

Eu sempre levei uma vida sossegada. Minha mãe morreu quando eu tinha apenas três anos de idade, então meu pai ficou com toda a responsabilidade de cuidar de mim e da casa, além do trabalho dele, que não era nada fácil. Quando eu tinha treze anos ele se casou de novo.

Eu não sou, exatamente, ciumenta, mas meu pai era tudo que eu tinha e eu admito que a ideia de ele se casar não me agradava totalmente, mas vendo como isso o fazia feliz, eu tinha de ceder. Quer dizer, ele provavelmente se casaria de um jeito ou de outro, mas ele sempre levava em conta a minha opinião, meus sentimentos, e eu sabia que não podia atrapalha-lo. A namorada dele, Silvia, era sempre muito legal, gentil e agradável comigo. E ele se manteve assim... até o dia seguinte ao casamento.

Meu pai não teve uma lua de mel de verdade. Ele tirou uma licença de quinze dias do trabalho e dedicou à família, o que me incluía. É claro que ela não gostou nada disso.

Ela tinha um casal de gêmeos mais velhos que eu: Helena Cristina e João Paulo. Os dois não eram exatamente agradáveis, mas João Paulo se esforçava para não ser um completo idiota, tarefa na qual Helena não obtinha nenhum sucesso. Ela era terrível!

Com o casamento dos nossos pais, fomos os três para o mesmo colégio. De alguma forma, Silvia convenceu meu pai a nos internar lá, de modo que só saíamos aos finais de semana. Meu pai prometeu manter contato comigo todos os dias por telefone e ele conseguiu fazer isso nos primeiros meses, depois começamos a nos afastar, ele ligava uma vez a cada dois dias, depois apenas uma vez na semana e, por fim, nem isso. Aos finais de semana, quando íamos para casa, meu pai tinha trabalho em excesso, Silvia saía com os filhos e não fazia questão de me convidar, e eu acabava sozinha.

Um dia no meio da noite, durante o jantar, a campainha tocou. Obviamente ficamos surpresos, porque nunca recebíamos visitas, muito menos a noite.

Uma coisa sem importância, porém importante: Não conhecíamos a família de Silvia. Ela nunca falava dos pais, nem irmãos ou um tio distante e nem mesmo do ex-marido. O mais estranho é que quando eu perguntei do pai de João Paulo e Helena, ela se irritou. Eu aprendi do jeito difícil a não fazer perguntas.

Meu pai foi atender à porta. Ele demorou um pouco para voltar, então decidi ver se estava tudo bem, mas quando me levantei ele já estava voltando e ao lado dele havia uma mulher. Era, de longe, a mulher mais estranha que eu já tinha visto. Ela vestia um vestido largo rosa cuja barra estava toda molhada, sapatos encardidos, igualmente molhados, os cabelos cacheados estavam soltos e emaranhados, como se ela não penteasse há dias. Na cintura, ela usava algo que lembrava um espartilho branco. No pescoço, caíam vários colares, todos pareciam de ouro e alguns deles tinham pedras coloridas, outros tinham argolas que pareciam anéis. Para resumir, ela parecia uma cigana.

A cara de Silvia se contraiu como se ela estivesse chupando o limão mais azedo do mundo, e eu desejei ter uma câmera naquele momento, mas meu pai não se importou, ele apenas se virou para nós e a apresentou:

– Esta é minha irmã Marcela.

A cara de Silvia se contraiu ainda mais, se é que isso era possível, e, por um momento, eu pensei se ela preferiria que ela fosse uma mulher aleatória, dando em cima do meu pai.

– Eu não sabia que você tinha uma irmã.

Eu admito, eu também não sabia. Foi uma surpresa saber que meu pai tinha uma irmã, e eu uma tia. Ela não se parecia em quase nada com meu pai, exceto talvez pelos olhos puxados, os quais eu também tinha, e os cabelos cacheados. Eu tinha os cabelos da minha mãe, pretos e lisos... foi o que meu pai disse.

Meu pai se mexeu desconfortável, puxou uma cadeira para a irmã e ela se sentou ao meu lado. Ela olhava pelo canto do olho e eu percebi, desconfortável, que ela me observava. Nós jantamos juntos, e ela não disse uma palavra sequer. Nem meu pai disse. Seria bom se o silêncio fosse de todos, mas logo Silvia se mexeu na cadeira, e eu sabia que lá vinha bomba.

– Então... – Silvia pigarreou, como se precisasse de mais atenção – Você nem mesmo veio ao nosso casamento, Márcia.

– É Marcela. – minha tia corrigiu – Infelizmente eu não estava na cidade.

– Ah, claro. Onde mesmo você mora, querida?

Meu pai se mexeu desconfortável na cadeira e, antes que minha tia pudesse responder, ele respondeu:

– Europa. Ela viaja pela Europa...

– Sim, isso mesmo. – minha tia confirmou – Eu viajo... do Canadá para o Japão, e para o Rio de Janeiro.

Nesse momento eu deixei minha coxa de frango cair na mesa.

– Nenhum desses países fica na Europa – Helena disse, sufocando a risada

– Um deles nem é um país – João Paulo concluiu

– Provavelmente o que ela quis dizer – me meti – É que ela viaja por todo o mundo, além da Europa.

Meu pai respirou fundo, parecia aliviado. Ele sorriu para mim e piscou devagar, do jeito que costumava fazer quando mentia no trabalho para ficar comigo quando eu era mais nova. Claro que isso não me deixou menos desconfiada, era normal alguém errar um país ou cidade da Europa, mas três e daquele jeito? Eu descobriria algo mais tarde.

Durante o resto do jantar meu pai se manteve calado, minha tia também não disse nada e, por isso, eu fiquei quieta. Por duas ou três vezes Silvia tentou puxar um assunto, mas ninguém respondeu, então ela se contentou em dizer para quem estivesse ouvindo, quão maravilhosos seus filhos eram.

– Helena Cristina e João Paulo são os melhores alunos de sua turma – disse, desafiando qualquer um à mesa a dizer o contrário.

Eu até concordava que João Paulo era bastante inteligente, mas Helena? Eu mordi a língua para não rir. Como era de se esperar, não funcionou.

Eu comecei a rir histericamente, e todos me olharam como se eu fosse louca, exceto Silvia, que me olhava ameaçadoramente, como se apenas esperasse meu pai sair para me ensinar um pouco de autodefesa.

Eu fiz força para me conter e, por mais difícil que fosse, consegui.

– Desculpem-me – disse, embora não quisesse realmente me desculpar

Eu terminei de jantar e minha tia já estava no terceiro prato. Para alguém que come tanto, ela não era nada gorda. Meu pai terminou em seguida, então Silvia, João Paulo e Helena. Só minha tia continuava comendo e ela não parecia nada constrangida com isso. Eu não tinha certeza do quanto mais ela poderia comer, então decidi que devia me retirar.

– Eu preciso arrumar meu quarto para dormir. – disse – Vocês me dão licença?

Eu olhei para meu pai e ele fez que sim com a cabeça.

– Boa noite, filha – disse-me

Enquanto eu me levantava para tirar meu prato, Silvia se adiantou em uma nova pergunta:

– Você também já vai, querida? ­– se dirigiu à minha tia, que não lhe deu atenção, pois estava com a boca cheia de purê de batatas.

– Na verdade – meu pai interveio – Marcela ficará conosco por...

Ele hesitou, como se nem mesmo ele soubesse quanto tempo ela iria ficar. Todos olharam para ela, inclusive meu pai, então ela limpou o excesso de gordura do frango na boca e respondeu:

– Eu não sei, talvez alguns meses! – respondeu, tornando a encher a boca de arroz.

Silvia arregalou os olhos para meu pai, esperando que ele dissesse que não, que ela não podia ficar, mas ao invés disso, ele apenas olhou para mim e me disse:

– Você se importa se sua tia dormir com você?

Eu queria dizer que não, mas eu só passava o final de semana em casa, então acabei cedendo.

Por mim tudo bem – respondi

Eu tentei não demonstrar o quanto isso me desagradava, é claro. Por outro lado, ela era irmã do meu pai, o mais próximo de família que eu tinha já que minha mãe tinha morrido e eu não conhecia ninguém da família dela. Eu nem mesmo tinha uma foto dela... Tudo que eu sabia, era o que meu pai me contava.

Sua mãe era a pessoa mais linda e gentil do mundo, igual a você”, ele costumava me falar quando eu perguntava dela.

Se eu for te incomodar – minha tia começou a dizer, mas eu a cortei de repente:

– Não, não mesmo. Quer dizer, vai ser legal... – tentei soar mais otimista do que me sentia

Minha tia me olhou e depois olhou para meu pai. Por fim, ela sorriu para mim e piscou.

Eu recolhi meu prato e copo, e caminhei para a cozinha. Depois fui para o meu quarto, minha própria zona. Se era possível estar mais bagunçado do que quando eu havia estado ali pela última vez, estava. Minhas coisas estavam jogadas de um lado do quarto, minha cama havia sido arrastada até o meio e meus livros estavam todos no chão. Um furacão? Eu desconfiava de outra pessoa.

A porta se fechou atrás de mim e eu senti uma mão quente no meu ombro.

Com um pulo eu fui para frente, e lá estava minha tia com um sorriso tão branco que era difícil acreditar que ela tinha acabado de comer mais de três pratos cheios de comida. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela se adiantou:

­– Mas que zona é essa? – ela perguntou, como se ela mesma não tivesse se comportado como um animal à mesa de jantar

– Bom, é que... – tentei explicar

– Bom, não importa. – minha tia disse, e eu percebi que ela não realmente se importava – Se você quiser eu ajeito um pouco para você enquanto você toma banho.

Eu nem disse que ia tomar banho, ela deduziu isso por conta própria.

– Se meu pai sonhar que você está limpando meu quarto – eu disse – ele me mata.

Ela olhou para o quarto e acenou positivamente para mim:

– Pode ir. Vou fazer meu melhor até você voltar e, claro, esse será o nosso segredo.

Eu estava grata pelo que ela estava fazendo, é verdade, mas a verdade é que eu não gostava de ninguém mexendo na minha bagunça. Eu sabia onde tudo devia ficar, sabia como gostava da minha cama arrumada e, principalmente, não queria que ela encontrasse uma certa coisa que eu tinha escondida...

Por fim eu deduzi que ela não conseguiria chegar tão fundo na limpeza, então peguei a toalha mais próxima e fui tomar meu banho.

Pouco mais de dez minutos depois eu já tinha tomado meu banho. Talvez vocês não saibam, mas um banho quente tira a tensão de qualquer um.

Eu estava voltando para meu quarto quando dei de cara com Silvia no corredor.

Ela me olhou ameaçadoramente e olhou para os lados, se certificando de que não havia testemunhas.

– Você se acha muito esperta, não é? – ela me disse, segurando meu braço com força – Da próxima vez que você...

Ela foi calada pela presença da minha tia, que apareceu na nossa frente vinda de lugar nenhum.

Eu fiquei assustada, admito, mas ao mesmo tempo aliviada.

– Da próxima vez...? – minha tia perguntou desafiadora

Elas se olharam nos olhos, Silvia soltou meu braço com força e seguiu em direção às escadas com passos pesados.

Minha tia respirou fundo e me olhou com um olhar tão sério quanto eu jamais havia visto.

– Você está bem? – perguntou preocupada

– É, sim... estou bem – menti

A verdade é que eu não estava bem. Estava bem menos pior do que se minha tia não tivesse chegado, mas não estava bem.

Ela me olhou desconfiada, então fez sinal para que eu fosse para o quarto. Quando eu abri a porta, não acreditei. Eu saí, para ver se tinha entrado no quarto errado, mas não...

– Como?! – perguntei impressionada

Ela não respondeu, apenas sorriu para mim.

Meu quarto estava mais do que arrumado, estava limpo.

Minha cama estava arrumada do jeito que eu gostava e, ao lado dela, um colchão inflável estava também arrumado, e eu nem sabia que tinha um desses. Minha estante de livros estava arrumada na ordem que eu gostava, em ordem alfabética e as coleções muito bem organizadas na prateleira mais alta. Meu material escolar estava ao lado da minha cama, meus bichos de pelúcia estavam organizados do maior para o menor no canto do quarto e minhas roupas estavam todas dentro do cesto de roupa suja.

Ela se deitou no colchão e eu percebi que estava errado.

– Hey – disse – Por favor, você pode dormir na minha cama.

– Nada disso – ela respondeu – Eu não vou liberar esse colchão maravilhoso para você!

Ela riu depois de dizer isso, mas eu não achei a mínima graça. Mesmo assim, eu me deitei na minha cama, que estava surpreendentemente macia.

– Tia – chamei – Por que meu pai e você mentiram sobre de onde você vinha?

A pergunta saiu mais rude do que eu esperava, mas ela não pareceu se importar. Ela simplesmente roncou, e então, mesmo sem acreditar, eu notei que ela já estava dormindo.

Eu bati a cabeça no travesseiro, disposta a não dormir enquanto eu não tivesse uma resposta para todas as coisas estranhas que haviam acontecido:

A chegada misteriosa da minha tia, a forma como ela apareceu do nada na minha frente e da Silvia e, para variar, como o quarto havia sido tão bem arrumado em tão pouco tempo.

Depois de quase cinco minutos pensando, eu peguei no sono

E assim foi como a minha tia chegou aqui em casa. Talvez isso pareça comum, afinal é só uma tia, mas isso certamente mudaria a minha vida e eu ainda não sabia como...