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2 A loucura vem da família


Para definir tudo, meu sonho foi o mais esquisito do mundo.

Sonhei que estava voando sobre a cidade de São Paulo. Não apenas flutuando, voando de verdade e com total liberdade. Quando eu olhei para baixo, uns cem metros abaixo de mim, havia uma nascente de rio e pouco mais de vinte metros à frente o rio se abria em uma bifurcação. Havia uma placa fincada dentro da água antes da bifurcação e, nela, havia duas setas apontando para esquerda e para direita e estava respectivamente escrito: Dimensão Mágica e a outra eu não conseguia ler, estava molhada, o que fazia sentido já que estava dentro da água. Eu desci até a frente da bifurcação, mas por algum motivo não consegui pousar fora da água. Meus pés tocaram a água, que devia estar fria, mas havia duas correntes de água que não se misturavam: quente e fria passavam pelos meus pés e eu podia senti-las, diferentes, e ao mesmo tempo.

Eu fui puxada para cima e o cenário mudou. Ainda havia o rio embaixo de mim, a mesma bifurcação, a mesma placa, mas já não era São Paulo ou qualquer outra cidade onde eu já tenha estado antes. Havia uma floresta e, mais a frente, minha vista me mandava direto para um castelo maior do que um estádio de futebol tipo o Maracanã. Eu queria ir até lá, mas é como se houvesse uma barreira invisível que não me deixava passar. De repente eu comecei a cair, uma queda infinita, para sempre.

Eu acordei com aquela mesma sensação de que estava caindo, exceto que eu realmente estava caindo. Eu caí para o lado da cama, em cima da minha tia.

O lado bom: eu caí no macio.

O lado ruim: com o impulso da queda, eu mandei pelos ares minha tia, que caiu fazendo um barulhão.

O mais estranho de tudo foi que ela sequer acordou. Eu fui até ela, me desculpando como nunca, mas ela nem se mexeu. Eu peguei o cobertor mais próximo e joguei sobre ela.

Com aquele sonho estranho, o tombo repentino e minha tia jogada no meio do quarto, eu não conseguia dormir. Foi então que eu decidi tomar um pouco de ar...

A minha casa não é grande. É uma casa comum, num bairro comum. Quatro quartos, uma sala pequena, uma cozinha e um espaço que era usado como sala de jantar, além do escritório do meu pai no andar térreo. Atrás da casa há um jardim pequeno, com uma piscina também pequena, mas suficientemente grande para quatro ou cinco pessoas se moverem livremente, e na frente uma garagem para três carros. Eu decidi me sentar perto da piscina, porque sempre me acalmava estar perto da água.

Quando me aproximei, notei que havia mais alguém ali.

– Pai? O que está fazendo aqui? – perguntei preocupada

Meu pai não era o tipo de pessoa que saía da cama de madrugada para andar pela casa, então aquilo certamente era estranho.

Ele não respondeu, apenas permaneceu olhando imóvel para a água, então eu me sentei ao lado dele.

A água refletia a luz da lua cheia, tingindo nosso jardim com uma estranha luz prateada, meio fantasmagórica.

– É linda, não é? – meu pai disse, sonhador – A lua...

Eu olhei para o céu e notei que ele tinha razão. Naquela noite, particularmente, a lua estava linda.

– Sua mãe adoraria ver a lua assim – ele disse

Nesse momento, eu fiquei chocada. Ele nunca falava da minha mãe sem eu entrar no assunto e, sempre que eu perguntava, ele dizia as mesmas coisas. Antes mesmo que eu pudesse expressar meu choque, ele continuou:

– Durante o tempo em que estivemos juntos, só pudemos ver uma lua como essa e foi no dia que sua mãe...

Ele hesitou de repente, mas eu sabia que ele ia falar que havia sido no dia em que ela morreu.

Meu pai sempre hesitava quando o assunto era a morte da minha mãe. Uma vez ele me disse que ela havia morrido num acidente, mas outra vez que perguntei ele disse que ela tinha se afogado. Quando eu afirmei que ele havia dito outra coisa, ele deu o assunto por encerrado. Meu pai não tinha nada da minha mãe, exceto uma foto velha que já havia sido muito amassada, a qual eu roubei antes de ir para o internato.

– Como ela morreu? – perguntei, desejando que ele respondesse e, dessa vez, com a verdade

Ele me olhou nos olhos e eu notei o quão cansado ele parecia. Ele já não era o homem alegre e forte de antes...

Seus cabelos castanhos encaracolados tinham vários fios brancos, seus olhos puxados estavam enrugados e ele estava pálido. O físico forte que ele sempre exibiu estava diminuindo, como se ele não se exercitasse há muito tempo e o colarinho da camiseta branca estava encharcado de suor.

Uma lágrima escorreu pelo canto do olho esquerdo, e, pela primeira vez, eu percebi o quanto esse assunto o machucava.

Eu estava pronta para dizer que podíamos deixar este assunto para lá, mas ele foi mais rápido:

Um dia, minha querida, – ele disse, sua voz estava baixa o suficiente para que apenas eu pudesse ouvir – um dia você saberá e tudo que eu desejo é que você possa compreender que o que eu fiz, tudo o que eu fiz, foi por você.

Eu senti um nó se formando na minha garganta e sendo puxado para cima e para baixo, do meu peito para a minha cabeça, uma ideia terrível se formando na minha cabeça.

– Pai... – tentei dizer, mas fui interrompida pela chegada repentina de Silvia

– Estamos conversados – meu pai disse, retomando a compostura, fazendo uma cara séria, como se tivesse acabado de me dar uma bronca – outra ceninha como a do jantar e...

Ele não terminou, mas à luz do luar eu vi seu olhar me advertindo a manter a conversa

– Entendi, pai – eu disse, tentando manter a voz firme e natural – Não vai acontecer de novo.

Silvia nos olhou por um momento, mas eu não pude definir sua expressão. Eu tive a impressão de que nossa conversa acabava ali.

Meu pai se levantou e estendeu a mão para que eu me levantasse também, mas eu não segurei.

– Acho que vou ficar aqui mais um pouco. – disse – Preciso pensar.

Silvia me olhou com a mesma cara feia de sempre, mas seguiu para dentro da casa.

– Sua tia – ele me disse baixinho – Você pode confiar nela. Sempre.

A forma como ele disse isso me deixou um pouco tensa, mas ele não pareceu se importar. Ele se curvou e beijou minha testa e seguiu para dentro da casa.

Eu fiquei parada, admirando a lua refletida na piscina por quase uma hora, até que comecei a sentir sono novamente, então eu decidi ir dormir.

Eu entrei em casa pela porta da cozinha e notei que em cima da mesa havia um copo de leite com chocolate e três biscoitos com gotas de chocolate. Com um pouco de alegria, notei que meu pai havia deixado ali para mim, como costumava fazer todos os dias quando eu não conseguia dormir. No micro-ondas, o relógio já marcava duas e meia da madrugada e eu já previa meu domingo dormindo. Claro, eu estava enganada.

Eu tomei meu leite e comi meus biscoitos, lavei o copo e o prato para evitar comentários mal-intencionados da minha madrasta menos favorita e fui para o meu quarto. Eu subi as escadas tentando não fazer barulho e notei que a porta do quarto do meu pai estava entreaberta, uma luz branca saia pela greta e a curiosidade tomou conta de mim. Eu andei sorrateiramente até lá e tentei ver o que estava acontecendo, mas acho que eu estava com muito sono, porque o que eu vi não tinha qualquer sentido: minha madrasta estava deitada, um sono tão pesado que eu nem acreditei, e meu pai estava conversando com uma holografia. Não era uma holografia tipo teclado holográfico high-tech, mas uma imagem holográfica de verdade, com voz, flutuando bem na frente dele. Eu decidi que estava com muito sono e aquilo era fruto da minha imaginação, então me virei e fui para o meu quarto.

Agora você deve pensar que eu tive uma noite de sono maravilhosa, não é? Mas não foi bem assim. A primeira coisa que eu notei quando entrei no meu quarto é que minha tia não estava jogada no chão, como eu a tinha deixado antes. Ela estava deitada no colchão inflável como se nada tivesse acontecido, minha cama estava arrumada como se eu sequer tivesse deitado ali e, perto do meu travesseiro, havia um embrulho pequeno, com uma fita lilás que eu conhecia: a caixa onde eu guardava a foto de minha mãe.

– Será que ela viu? – me perguntei

A verdade é que eu estava mais preocupada se ela ia contar para o meu pai.

Eu afastei esse pensamento da minha mente com dificuldade, fechei os olhos e me esforcei para dormir. Antes de pegar no sono, eu tive uma clara visão do rosto da minha mãe, e ela sorria para mim como eu jamais havia me lembrado antes. Eu dormi bem, e não tive nem um único sonho.

Eu esperava dormir até meio dia, talvez até as duas da tarde, mas não foi bem assim.

Um relógio despertou no quarto, tocando uma música que era a mistura de country com MPB e um pouco de rock. Minha tia se levantou, cheia de energia, e começou a cantar e conversar comigo, ainda que eu tentasse fingir que estava dormindo. Quando eu percebi que isso não daria certo, eu simplesmente me levantei, fazendo questão de demonstrar o meu descontentamento.

– Eu estou com sono – disse da forma mais mal educada que consegui, que foi aos gritos

Minha tia simplesmente sorriu e respondeu:

– Não está mais!

Eu queria ficar mais irritada ainda, mas tinha dormido tão bem que nem estava realmente cansada. Eu me levantei e caminhei para a porta, ia ao banheiro, quando ela me chamou:

– Hey! Quer jogar vôlei?

Eu queria me virar e gritar: EU QUERO DORMIR, mas eu não consegui, eu adorava vôlei!

Eu segui para o banheiro que, por sorte, estava desocupado. Ao voltar para o quarto, fiquei impressionada que minha cama estivesse arrumada, o colchão inflável dobrado e tudo mais do que perfeitamente organizado.

Por um lado, eu estava feliz, isso me pouparia alguns minutos preciosos. Por outro lado, eu não queria fazer minha tia de empregada.

– Não precisava arrumar – eu disse, sem graça – Essa é a minha tarefa.

– Não precisa agradecer, foi um prazer. Além do que – minha tia disse – Isso vai nos dar mais tempo para jogar!

Ela tinha razão, mas eu não sei o que diria ao meu pai se ele perguntasse quem limpou o quarto. Nós ficamos alguns minutos no quarto, e eu notei uma mochila enorme perto de onde estivera o colchão de ar, e deduzi pertencer a ela.

– Como vamos jogar vôlei? – perguntei – Eu não tenho uma bola.

Ela pareceu pensar um pouco no assunto, então abriu a mochila e começou a jogar um monte de coisas para fora: Uma raquete de tênis, um pacote com três bolas, o colchão de ar inflável, uma garrafa de um litro com um líquido azul que eu não queria saber o que era e mais algumas coisas... depois de espalhar um monte de tranqueiras, ela tirou de dentro da mochila uma bola de vôlei novinha, o que realmente me impressionou.

– Como...? – eu olhei estupefata para a bola, que não deveria caber ali depois de tantas coisas jogadas para fora da mochila

– Ah, não dê atenção a isso. É uma mochila bastante espaçosa – respondeu, sem muito esforço para me fazer acreditar – Vamos?

– Mas já? – perguntei – Nós ainda nem tomamos café. Eu não sei você, mas eu estou com fome!

Ela parou com a bola na mão. Aparentemente ela ainda estava farta da comilança da noite passada, ou sei lá o que...

– Certo – disse por fim – Você vai comer algo e eu vou arrumando as coisas para o jogo. Devemos chamar seus irmãos?

Eu não entendi oi que ela quis dizer com “irmãos”, mas deduzi que ela se referia aos filhos da Silvia. Não é que eu não os considerasse meus irmãos, mas eles não eram, de fato.

Eu pensei um pouco antes de falar, porque não queria parecer grosseira ou coisa assim. Na escola, Helena fazia questão de dizer a todos que não éramos irmãs, que eu era apenas a filha do marido da mãe dela. João Paulo, por sua vez, não afirmava e nem negava nada, mas também não ia contra a irmã. Eles sempre andavam juntos, faziam tudo juntos, mas quando Helena começava a me provocar, ele se separava e seguia seu próprio caminho. Ele era até legal.

– Acho que eles não vão querer jogar com a gente – disse finalmente – Provavelmente vão sair com a Silvia, como sempre fazem.

Eu não queria, mas deixei transparecer o fato de que eu sempre ficava sozinha aos finais de semana. Ou ela sentiu pena de mim, ou fingiu que sentiu, porque seus olhos se focaram em mim e ela disse, meiga e suavemente:

– Ficaremos juntas hoje, você não vai se sentir sozinha, prometo.

É nesse momento que pessoas normais correm e se abraçam, não é? Eu apenas me virei e desci para tomar meu café da manhã.

Não havia ninguém na cozinha, nem na sala de jantar. Eu abri a porta da cozinha, e no quintal também não havia ninguém. Na garagem, não havia carros: nem o do meu pai, nem o da minha madrasta.

Apenas a minha bicicleta estava encostada, um cadeado prendendo as duas rodas, obra da Silvia, é claro. Ela ainda estava zangada por terem batido com a minha bicicleta no carro dela. E não, não fui eu.

Claro que ela não acreditou em mim. Por que ela acreditaria, afinal?

Meu pai tinha saído sem sequer se despedir de mim, Silvia tinha saído com os filhos e eu tinha ficado, mais uma vez, para trás. Mas dessa vez com uma tia meio doida.

Fora a tia doida, era um dia típico da minha vida pateticamente idiota.

– Tudo vai melhorar – menti para mim mesma – Algum dia, quem sabe?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.