Elemental: Livro Um - Reino de Luz
2 O Fogo que vem da Floresta
Notas iniciais
James resolveu passear por aquele lugar que não trazia absolutamente nenhuma lembrança do local onde cresceu e viveu por toda a sua vida. Estava tudo diferente. As únicas coisas que permaneciam iguais eram as torres e os muros que ficavam entre elas, exceto pelo fato de varias pessoas que estavam fazendo uma espécie de competição de escalada. James resolveu ir ver aquilo.
Havia uma multidão ali vendo quatro pessoas escalando o muro de mais de 15 metros. O homem que estava na liderança era musculoso, com pouco menos de 1 metro e meio de altura, provavelmente um elemental de terra. Abaixo dele, vinham dois brutamontes barbudos se empurrando para tentar chegar ao segundo lugar, e logo abaixo desse duelo de brutamontes, vinha subindo um garoto de mais ou menos da idade de James. Foi nesse momento que James percebeu que tipo de coisa a "plateia" estava gritando: "Sai daí seu molengão!" "Desse daí, moleque!" "Para de atrapalhar os profissionais!" e muitos outros chingamentos que James nunca sequer havia ouvido.
“Profissionais?!" Pensou James "A única coisa que esses caras têm que fazer é escalar um muro, e ainda por cima usando CORDAS!"
De repente alguns homens mais selvagens começaram a jogar tomates e outras coisas naquele garoto de roupas vermelhas. James estava pensando que era um elemental de fogo vindo de alguma cidade fora do reino. Mas o que aconteceu segundos depois tirou qualquer duvida dele: o garoto estava quase se soltando da corda que estava usando para escalar, quando der repente James viu algo que talvez mais ninguém tenha visto, considerando que todos deviam estar bêbados, um pedaço de musgo que estava preso no muro se estendeu até as mãos do garoto, impedindo que ele caísse. O musgo continuou crescendo ao redor da corda em que ele estava deixando-a mais pegajosa, o que facilitou sua escalada. Em poucos segundo já estava acima dos dois brutamontes barbudos, e na cola do anãozinho musculoso que estava em primeiro.
“Elemental de natureza." pensou novamente "Com toda certeza. Mas nem imagino como conseguiu passar pelos guardas, só essa roupa de habitante do fogo não convenceria ninguém de que ele é um elemental de fogo.".
Em poucos minutos o garoto já havia ultrapassado seu rival de menos de 1 metro e meio, sendo assim agora estava na liderança, e nada podia para-lo. Nada, além dos homens barulhentos que agora estavam mais barulhentos do que nunca, e agora ao invés de tomates, alguns estavam atirando pedras. O juiz — que James ainda não havia percebido, o que era incrível, pois ele devia ter mais de 2 metros — estava tentando parar os vândalos furiosos, mas mesmo com seu tamanho descomunal, ainda era minoria, e acabou tendo que recuar.
Uma das pedras atingiu a mão direita do garoto, que rapidamente tirou-a da corda com musgo, por causa da dor. Os bárbaros vibraram, mas a alegria deles rapidamente foi substituída por uma raiva maior do que antes: o garoto continuou escalando como se nada tivesse acontecido. James logo percebeu que ele não estava mais escalando, como aqueles bêbados brutos pensavam, mas sim sendo levado pela corda, ou melhor, pela fina camada de musgo que havia feito antes. Dessa forma ele conseguiu chegar até o topo do muro são e salvo.
– E o vencedor é... – gritou o juiz com uma voz imponente. – Pytel Chamaviva!
O público vaiou de uma forma tão alta que James mal conseguia ouvir seus próprios pensamentos, por um momento ele teve vontade de pedir que todos se calassem, mas então ele se lembrou de que ele era um garoto no meio de mais de 20 grandalhões. O garoto Pytel começou a descer sua corda, já havia retirado todo o musgo, permitindo que ele escorregasse até o chão. Quando chegou, alguns homens ainda tentaram lançar mais pedras, mas foram impedidos pelo juiz, que se revelou um elemental de terra, pois antes que as pedras acertassem o garoto ele fez com que voltassem para os rostos de seus arremessadores. Todos ficaram calados. Até que o silêncio deu lugar a algo que James não esperava ouvir: aplausos e elogios a Pytel Chamaviva.
“O que o medo não faz com uma pessoa?" Pensou James. Pytel talvez soubesse que eles estavam apenas fazendo isso por medo do juiz, ou talvez não, pois estava agradecendo aos seus "fãs". Mas James logo viu o porquê de o garoto ter se arriscado tanto.
– Parabéns, meu jovem – continuou o juiz com sua voz inconfundível. – Aqui esta o seu prêmio!
O juiz deu para o garoto um pequeno saco de pano marrom, amarrado com uma corda dourada. James tinha quase certeza de que ali deveria ter uma boa quantidade de dinheiro. Teve certeza apenas meio segundo depois, quando viu um grande cartaz ao lado de todas aquelas cordas. O cartaz continha o símbolo da FEQUAR (que era uma espécie de mistura dos símbolos dos quatro reinos elementais, seguido pela escrita "Festa dos Quatro Reinos") e algumas coisas escritas, as que mais chamaram a atenção de James foram: "XI Competição Anual de Escalada" "10 entram, mas só um sai com o prêmio!" e "Ganhe um prêmio de 1.000 elares". James sabia que o Elar era um dinheiro usado em qualquer reino, enquanto outros, como o firoar, o aqueur, o airolal ou o terreso, eram usados apenas em seus respectivos reinos.
James então se lembrou de que quando chegou, todos os quatro participantes estavam na metade do muro, sendo assim talvez seis outros já houvessem sido derrubados, caíram ou desistiram. James também entendeu o motivo de tanta raiva do publico contra Pytel, pois ele havia derrubado um dos preferidos do público, um elemental de ar chamado Johnny Riaboltt, que já havia ganhado duas vezes seguidas, sendo assim, era invicto por oito anos. Mesmo assim James ainda não entendia muito bem o porquê de tanta violência contra Chamaviva, afinal um jogo é um jogo.
Pytel começou a se afastar daquele lugar, mas para ter certeza de que não iria sofrer nenhum risco de ser espancado por aqueles brutamontes, jogou varias moedas para o alto, quase como um acordo de paz. James achou que a mensagem foi bem recebida, pois no mesmo instante os homens se atiraram no chão, enquanto gritavam alegres o nome de Pytel Chamaviva.
"O que o dinheiro não faz com uma pessoa?" novamente pensou James. James decidiu seguir Pytel, se era esse mesmo seu nome. Quando chegou mais perto dele, começou a andar ao seu lado por uns 2 minutos, até que Pytel se virou e falou:
– Que foi garoto? Quer um pouco de dinheiro?
– Acho que dinheiro não seja um problema para mim – Disse James com uma voz calma.
– Então o que é que você quer?
– Saber de uma coisa, só uma coisinha.
– Pergunta e depois da o fora daqui!
– Como um elemental de natureza consegue entrar em uma festa feita apenas para os Elementais Primários?
Pytel parou e ficou em silêncio por um momento, até que James finalmente disse:
– E ai? – Falou com um sorriso. – Não vai responder?
– Simples – Pytel começou a falar de uma forma incrivelmente calma. –, não entra.
– Então como você entrou?
– Olha, garoto – Começou a perder a paciência. – Eu já respondi a sua pergunta. Agora que tal você vazar daqui?
– Acho difícil eu vazar da minha própria casa.
Os dois pararam de andar novamente, Pytel ficou encarando James com seus olhos verdes, se existia alguma duvida de que ele era um elemental de natureza, agora ja não existia mais, pois apenas eles têm olhos tão verdes quanto os dele.
– Peraí – Pytel disse finalmente. – Vai me dizer que você é James Embergoff, filho de Belenus Embergoff?
– O primeiro, e único.
– Beleza – Pytel começou a ficar desesperado. – Posso confiar em você?
– Depende, você confia em alguém que nunca viu na vida?
– Talvez, mas acho que posso confiar no futuro herdeiro do Reino de Fogo. Conhece algum lugar sem tanta gente?
– Me siga.
James levou Pytel até o porão do castelo, onde são guardadas vários ingredientes e comidas, além de alguns baús contendo alguns papéis importantes. É um local proibido para a entrada de pessoas de fora da família real por conter vários segredos sobre o Reino de Fogo. Ali ninguém além de James saberia como Pytel conseguiu entrar naquela festa.
– Esta pronto? – Perguntou o jovem Pytel para um curioso James.
– Pode ter certeza – Respondeu entusiasmado.
Pytel levantou a mão direita para o alto, a mesma que a cerca de 15 minutos atrás havia sido atingida por uma pedra lançada por um dos homens que estavam assistindo a escalada. James continuou observando sem entender nada, até que viu algo que o deixou perplexo: Pytel estava lançando fogo pela mão, algo que só possível ser feito por um elemental de fogo experiente, pois controlar o fogo é facilmente aprendido por qualquer elemental de fogo, mas cria-lo do nada, é algo difícil de ser aprendido, sendo que James só havia aprendido a fazer isso há menos de dois anos. E mesmo assim Pytel não poderia fazer isso de nenhuma forma, pois era elemental de natureza.
– C-Como isso é p-possivel?! – Exclamou James perplexo com o que havia visto. – V-Você não era um elemental de n-natutureza?!
– E sou... – Respondeu Pytel com um sorriso orgulhoso.
– Então como você...
– Usando isso – Interrompeu-o Pytel mostrando seu pulso direito.
– Eu sei que você usou sua mã...
James observou melhor o pulso de Pytel e percebeu que escondido na manga de seu casaco estava uma espécie de bracelete, um bracelete que tinha uma pequena caixinha com um fio que ia até a palma da mão do garoto, onde existia um botão pequeno, quase que imperceptível se não visto de perto e com atenção. A caixinha também possuía atrás dela um pequeno pote com algum tipo de liquido, o qual parecia algum tipo de água, só que mais espesso.
– O que é isso? – Disse James finalmente após investigar aquele estranho objeto.
– É um lança-chamas! – Disse Pytel orgulhoso.
– Um... lança-chamas? – James continuou sem entender nada. – O que diabos é isso?
– É simplesmente um dispositivo que pode criar fogo utilizando esse liquido chamado álcool – explicou Pytel – que é extremamente inflamável...
– Álcool? – interrompeu-o curioso – Assim como o que tem nos vinhos ou cervejas de cevada?
– Não exatamente. Esse álcool é feito se misturando alguns elementos químicos, enquanto o álcool do vinho ou da cerveja é feito se fermentando as matérias primas de ambos, sendo assim a uva e a cevada.
– Entendi – disse fazendo sinal de que entendeu com a cabeça.
– Continuando, quando pressiono este botão – Pytel apontou para aquele botão na palma de sua mão. – o liquido escorre por um pequeno tubo dentro desta caixinha, onde ao mesmo tempo um pequeno isqueiro se acende o que faz com que aconteça essa chama.
– Incrível – disse James admirado com a inteligência do garoto. –, você deve ter levado anos para pensar em tudo isso, e ainda sendo tão novo.
Pytel deu de ombros.
– Nem fui eu que fiz, foi a minha irmã, e ela ainda ficou umas duas horas me explicando como isso funciona. Pra falar a verdade eu não entendi nada do que acabei de falar.
– Ah, faz sentido – James falou enquanto balançava a cabeça em sinal de desaprovação.
– Peraí? – fez uma cara de bravo. – Cê tá insinuando que eu tenho cara de burro?
– Não, imagina – falou em um tom sarcástico.
– Eu só não te dou uma surra porque cê é o príncipe!
– Príncipe não – falou James já sem paciência. –, herdeiro!
– Tanto faz – disse Pytel dando de ombro. – Eu vou é voltar para a festa que ganho mais, vai que tem outra competição para eu ganhar... – deu um sorriso orgulhoso.
– Não quis dizer "trapacear", senhor intruso?
– Eu tive que fazer isso... – disse de cabeça baixa.
– Ah, é mesmo? – disse James em um tom de desaprovação. – E por quê?
– Você não entenderia...
– Bom, talvez eu possa tentar.
– Tá bom – Pytel cedeu. – Pra começar, eu e minha irmã vivemos desde sempre na cidade de Leoponkey. Vivíamos junto com nossa mãe, uma habilidosa elemental de alquimia, e nosso pai, um dos melhores elementais de natureza que já vi...
– Espera um pouco... – James o interrompeu.
– Argh — disse Pytel sem paciência –, o que foi?
– Você disse "cidade de Leoponkey"? Pelo o que eu saiba, Leoponkey é uma floresta em que os habitantes moram em casas nas arvores, junto com macacos!
– É uma cidade diferenciada – disse Pytel com uma mistura de orgulho e raiva. – Beleza?
– Beleza – disse James tentando esconder o riso.
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