Elemental: Livro Um - Reino de Luz
3 Novas Alianças
Notas iniciais
– Meu pai – continuou Pytel –, quando tinha mais ou menos minha idade, era o defensor de Leoponkey, que na época ainda tinha suas casas no chão. Como a aldeia ficava no meio da floresta, havia vários ataques de leopardos, onças e vários outros bichos, e meu pai era o cara que ia lá e dava uma lição nesses animais pra que eles nunca mais voltassem. As pessoas da aldeia gostavam tanto dele que, alguns anos mais tarde, até elegeram ele pra líder da aldeia...
– Líder? Não seria “cacique”? – disse James rindo.
– Ein? – questionou Pytel sem entender nada.
– Santa ignorância... – falou James com um ar de desdém. – Mas pode continuar sua história.
– Beleza, mas se interromper de novo, você vai ver só uma coisa... – avisou Pytel já quase sem paciência. – Certo, onde eu parei mesmo?
– Na parte que seu pai virou caci... Líder! – corrigiu-se James rapidamente.
– Ah é – Lembrou-se Pytel. – Continuando: um dia meu pai teve que ir a uma espécie de reunião entre os lideres das cidades da Área Leste, que é onde Leoponkey fica. Lá tinha gente de cidades como Petrificity, Steeltown e Chemystope, que é da onde minha mãe veio. Foi lá que meu pai e ela se conheceram pela primeira vez, porque ela era filha do líder de Chemystope...
– Peraí – interrompeu-o novamente. – Quer dizer que você é parente de dois líderes de cidades da Área Leste? Caramba, você deve ser o bambambã lá!
– Bem, pelo menos até os meus seis anos eu realmente me achava, além de que eu tinha os melhores pais do mundo! – sorriu por um momento – Mas, daí... – Pytel parou, triste.
Pytel parou de falar. James achou que Pytel havia se lembrado de algo ruim, alguma coisa que havia acontecido no passado daquele jovem elemental de natureza. Uma lagrima escorreu pelo olho do garoto. James teve certeza do que aconteceu.
– Entendeu – James assentiu. – Como aconteceu?
– Eles... – o garoto fungou por um momento. – Nós estávamos vivendo em paz e tranquilidade. Não havia mais nenhum ataque de animais, meu pai já havia traumatizado todos eles. Mas um dia, até hoje ninguém sabe quem foi, mas alguém incendiou Leoponkey. Meu pai até tentou parar o fogo, mas como você sabe fogo é super-efetivo contra grama... Ele desapareceu no meio das chamas, minha mãe foi atrás dele, minha irmã até tentou impedi-la, mas ela disse que se caso acontecesse alguma coisa com ela e meu pai, era pra ela cuidar bem de mim... – Pytel abaixou sua cabeça e ficou em silêncio por um tempo. – Depois que os dois sumiram o fogo se apagou...
Uma outra lágrima ocorreu pelo rosto de Pytel. Os dois ficaram em silêncio por cerca de um minuto.
– Meus pêsames, Pytel – James falou finalmente.
– Obrigado – assentiu. – Depois de um tempo os animais voltaram a atacar, e sem proteção, a melhor opção que o pessoal da vila decidiu tomar foi construir casas na altura da copa das arvores. E assim nossa economia, que era baseada nos famosos frutos de Leopon, que crescem apenas no solo de Leoponkey, foi por água a baixo. Hoje em dia ainda colhemos anualmente, até que dá um pouco de dinheiro, mas não é o suficiente. E é por isso que as pessoas hoje em dia só conhecem Leoponkey como uma floresta onde crescem os frutos de Leopon, ao invés de uma cidade que um dia teve um guerreiro incrível e uma hábil química... Os dois melhores pais do mundo em um lugar só...
– Entendo – disse James. – Me desculpe por qualquer ofensa que possa ter causado a você ou à sua cidade.
– Tá certo, cara. Sem ressentimentos.
Pytel cuspiu em sua mão e depois a estendeu para James. James olhou para a mão do garoto e depois olhou para seu rosto, ficou pensando no que diabos ele estava tentando fazer. Pytel apontou para sua mão usando os olhos. James entendeu o que era para fazer, pensou em recuar, mas pensou novamente e viu que não iria ser educado, e seus pais haviam ensinado ele a nunca recusar um aperto de mãos, pois diziam que isso selava uma nova aliança, ou até uma amizade.
James não possuía muitos amigos, mesmo sendo herdeiro do trono. As pessoas de seu reino o chamavam de antissocial. Alguns até diziam que James mantinha mais amizade com suas criadas, do que com qualquer outro jovem de sua idade. O que era verdade.
“O que custa uma mão suja de cuspe perto de uma nova amizade?” pensou rapidamente James. James assentiu e apertou a mão do elemental de natureza. A aliança estava selada, pelo menos era isso que se passava na mente do jovem elemental de fogo antissocial, e talvez também na mente do jovem elemental de natureza órfão.
Os dois voltaram para a festa, subindo por uma escada diferente da que desceram, esta levava para fora do castelo, Pytel decidiu ir embora. O garoto pediu para que James pegasse de volta o dinheiro que havia ganhado no concurso, mas James insistiu que ficasse com ele, disse que de qualquer forma, ele merecia muito mais do que qualquer outro daqueles brutamontes.
– Então é só isso – disse Pytel. – A gente se vê.
O garoto se despediu e começou a caminhar em direção a saída do reino, quando James chamou-o.
– Espera Pytel! – exclamou. – Eu nem sei qual é seu nome de verdade. Não acho que um elemental de natureza possa ter o sobrenome de Chamaviva?
– Hehe – Pytel deu um riso baixo. – A parte do Pytel é verdade, significa algo como “saco de dormir” em alguma língua que eu não faço a mínima ideia de qual é.
– Ha, Ha, Ha – riu James – Beleza “Saco de Dormir”, mas e a parte do Chamaviva?
– Ah, essa parte é inventada. Tirei de uma história em quadrinhos que li uma vez. Agora eu to indo embora, tchau!
– Peraí – exclamou James. –, e você não vai me dizer qual seu sobrenome de verdade? – questionou.
– Nope – exclamou Pytel enquanto ia embora. – Até a próxima, “Cacique”! – despediu-se o garoto.
James ficou ali, parado, observando Pytel indo embora. Ora ou outra trombava com outra pessoa que estava no caminho, derrubando ambos. Tinha sorte de que os habitantes do Reino de Fogo eram educados por genética. Quando chegou na saída do reino, James começou a se virar para voltar para a festa.
Será que encontraria aquele garoto novamente, ficou pensando James. Foi quando ouviu um barulho, como se algo estivesse brotando do chão. James olhou para baixo e viu um pequeno caule de uma planta saindo do chão de terra. A planta enrolava um pequeno papel. James pegou o papel e leu a mensagem que ali estava escrita.

James sorriu, havia ganhado um novo amigo. “Um elemental de fogo virando amigo de um elemental de natureza, que coisa estranha...” pensou James, e logo deu um pequeno riso.
– Um elemental de fogo virando amigo de um elemental de natureza – disse uma voz de uma garota, vindo de trás de James. –, que coisa mais... estranha...
James instantaneamente virou-se para trás e viu uma garota de cabelos azuis-claros e um vestido azul-marinho. Rapidamente colocou o papel no bolso de seu casaco, junto de seu bloco de notas.
– Ah, oi Cindy – James tentou disfarçar. – O que você tá fazendo aqui?
– Corta essa Embergoff – disse a garota com um tom de voz sarcástico. – Por que diabos a princesa do Reino de Água faltaria em uma FEQUAR?
– Sei lá, gripe? – brincou James.
– Como se nós pegássemos isso – riu Cindy.
– Mas voltando ao assunto – disse James. – O que você tá fazendo aqui?
– Ah, sim – entendeu a garota, que na verdade já havia entendido da primeira vez, mas apenas gostava de irritar James. – Eu estava só observando você conversando com aquele elemental de natureza trapaceiro.
– Elemental de natureza? – tentou disfarçar o garoto. – Que elemental de natureza? Eles são proibidos nessa festa, sabia?
– Você acha que eu sou burra, James? – falou Cindy. – Você sabe muito bem do que eu estou falando.
– Certo, certo – James cedeu. – Mas o que exatamente você sabe?
– Bem... – disse Cindy tentando se lembrar. – Eu sei que você estava assistindo aquela competição de escalar o muro ou algo assim, quando você percebeu que aquele garoto era um elemental de natureza...
– Espera aí – interrompeu James. –, como você sabe que eu percebi isso naquela hora?
– Hum... Porque eu percebi um tempo antes, e todo mundo sabe que eu consigo entender as coisas com uma velocidade maior que você.
– Todo mundo? – questionou James sarcasticamente.
– É modo de falar. Mas continuando: depois eu vi que você o seguiu, até que os dois pararam e continuaram andando umas duas vezes, daí vocês foram para o porão do castelo, e como eu não poderia entrar de jeito nenhum, eu vim até aqui, na saída do castelo, onde eu ouvi certa vez que existia uma saída de emergência secreta que vinha do porão.
– Fico imaginando o porquê de você estar me seguindo por toda a festa...
– Simples: tédio – explicou a garota. – Diferente de sua irmã, eu odeio toda essa gente rindo e falando alto.
– Desde quando você tá me seguindo, exatamente? – questionou James.
– Desde que você e sua irmã chegaram. Ah, e outra coisa – lembrou-se Cindy. –, que história é essa de você ter voado? Eu ouvi você e sua tia falando disso e fiquei pensando se era só uma brincadeira ou se era sério.
– Era só uma brincadeira – mentiu o garoto. – Imagina só: um elemental de fogo voando! Ha, Ha, Há! Que piada!
– Hum... então era verdade. Agora me explica como. – questionou Cindy.
– Afe, não tem como te enganar, não é mesmo? – disse James.
– Bem, você não, Embergoff. Você é muito previsível. Mas e agora, vai me dizer ou não? – questionou Cindy novamente.
– Não – respondeu James com um sorriso.
– Certo. Então que tal voltarmos pra festa? – propôs a garota. – Acho que uma das únicas coisas que não me enjoa nessa festa é a comida mesmo.
– Eu acho que concordo – falou James. – Vamos então.
Os dois seguiram pela entrada e foram até uma parte da festa onde haviam inúmeras cadeiras e mesas, as quais já estavam todas ocupadas. Depois de conseguirem contornar todas aquelas mesas, eles chegaram a uma espécie de barraca a qual possuía uma placa dizendo: “Venha, experimente a melhor comida de todo o Continente Central, feita pelos famosos chefes da cozinha da Área Leste: Jason & Porker Stonitch!”.
Havia uma fila que levava até um balcão para que as pessoas pudessem fazer seus pedidos, mas esta fila estava lotada, demorariam séculos para fazerem seus pedidos. Cindy e James se dirigiram a uma segunda fila destinada especialmente aos membros das Quatro Famílias (Embergoff, a família do fogo, Qualleaque, a família da água, Erdrock, a família da Terra e Aerisky, a família do ar).
– Jovem Embergoff! Que prazer ter você aqui – cumprimentou Jason Stonitch.
– Eu moro aqui, então seria meio difícil eu não vir – brincou James
– Ha, Ha, Ha! Sempre afiado não é? E vejo que está com a adorável Cynthia Qualleaque – disse Jason percebendo Cindy ao lado de James.
“Adorável. Humpf, que piada!” pensou James.
– Olá, senhor Stonitch – falou Cindy com uma voz calma e doce. – Como vão as vendas?
– Melhores do que no ano passado pelo menos – respondeu o homem limpando uma gota de suor que caia de sua testa. – Nossa comida já tá passada lá no Reino de Terra, então quem ia querer comprar ela lá?
– É, tem razão – disse Cindy novamente com sua voz doce, mas agora com um pequeno sorriso. – As pessoas sempre preferem coisas novas, e a sua comida, diferente de todo o resto dessa festa, se renova todo ano. Bom, pelo menos pra nós das outras áreas.
Cindy e Jason continuaram trocando ideias enquanto James observava aquela cena que nunca havia imaginado que iria ver enquanto estivesse vivo. Nunca havia visto Cindy tratar alguém tão bem assim, pelo menos nunca havia tratado ele dessa forma. James ficou pensando no motivo para ela não trata-lo assim. Talvez fosse o fato de que no passado as famílias de ambos tiveram inúmeros problemas territoriais e até confrontos, mas não podia ser isso, afinal Cindy gostava de Campbell. Talvez James fosse um pouco insuportável às vezes. Ou simplesmente Cindy tinha implicância com James simplesmente por ele ser o James.
Assim que Jason terminou de preparar a comida de James e Cindy, deu-lhes um pequeno prato e um copo junto com um garfo e uma faca e também uma bandeja para que pudessem levar tudo aquilo com facilidade até alguma mesa, se encontrassem alguma.
– Acho que sua mãe e sua irmã estão sentados em uma mesa reservada, lá atrás – disse o homem para James enquanto entregava também um par de guardanapos para cada um dos dois. – Mas não sei onde estão seus pais, senhorita Qualleaque.
– Sem problemas, eu já ia ficar junto do Jam... Da Campbell! – Cindy deu um sorriso forçado. – Sim, sim. Campbell, eu adoro a Campbell! Ela é tão... Divertida!
– É, sei – falou Jason desconfiado.
Os dois continuaram seguindo até a parte de trás da barraca, que se revelou uma área de luxo, provavelmente apenas pessoas de classes econômicas mais altas ficavam ali. Rapidamente viram a mesa onde Campbell e Faberly Embergoff, mãe de James e sua irmã. Conseguiram diferenciar rapidamente qual a mesa pela quantidade de comida que havia na mesa, provavelmente para Campbell.
– James! Cindy! – exclamou Campbell com a boca cheia de comida. – Aqui!
– Campbell, se importaria de falar mais baixo? – falou James entre dentes enquanto se aproximava da mesa, junto de Cindy.
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