Element - X
3 Capítulo 3
As últimas horas que se seguiram foram torturantes para Cameron. Ele tentava processar as informações que simplesmente foram despejadas sobre ele enquanto subia vários lances de escada atrás de Joe.
Joe explicava tudo sobre como eles viviam ali e como haviam se unido. Ele contou que eles haviam se conhecido quando ele tinha quinze anos de idade e que Cameron morava sozinho em um casebre na fronteira gelada entre o Canadá e os Estados Unidos. Joe, Scarlet e mais algumas crianças se perderam dos demais e tiveram que contar com a própria sorte para se manterem vivos e longe daqueles que queriam capturá-los. Ele também contou que Cameron decidiu fugir com eles, mas que quase sete meses depois ele contraiu o câncer e supostamente deveria ter morrido.
Cameron não entendia como podia ter namorado Scarlet em tão pouco tempo desde que haviam se conhecido, mas algo o intrigava ainda mais. Ele quase podia ter certeza de que Joe e ela não eram tão novos quanto aparentavam ser.
– Quantos anos você tem, Joe? – Ele perguntou enquanto subiam mais e mais degraus.
– Eu tinha dezessete quando conheci você. Eu deveria ter vinte anos agora, mas aparentemente estou congelado nesse corpinho gostoso de adolescente em plena forma. – Joe não olhou para trás, mas Cameron podia ouvir o sorriso em sua voz. – Você deveria ter dezoito, mas tem a mesma cara de retardado que tinha três anos atrás. Chuto que você tem dezesseis anos agora, agradeça ao elemento X por desacelerar você, parceiro.
Tudo bem, o assunto idade estava fora da lista de coisas que eles podiam discutir. Aquilo iria lhe dar uma dor de cabeça sem tamanho se entrassem em muitos detalhes.
Cada andar que subiam correspondia a uma porta que Joe ignorava sem nem ver a identificação. As paredes estavam rachadas e não havia luz além da lua que brilhava toda prateada através dos vidros destruídos das janelas.
Os números nas placas iam aumentando a casa lance de escada, mas parecia que aquele prédio não tinha fim. Quando chegaram ao centésimo segundo andar, Joe se aproximou da porta e a abriu sem cerimônia. Eles andaram por um corredor amplo cheio de portas. Havia quadros quebrados no chão, pedaços do reboco e mais rachaduras espalhadas pelo teto e pelas paredes.
Joe foi até a última porta, com Cameron em seus calcanhares. Ele desferiu três socos ritmados com os punhos fechados na estrutura de madeira. Ele se virou para Cameron e estendeu os cinco dedos da mão. A cada segundo ele abaixava um dedo e quando todos se abaixaram ele se virou para porta e deu mais uma batida.
A porta se abriu e eles foram agraciados com um pouco de luz. Bryan estendeu o braço como se permitisse que eles entrassem naquele pequeno mundinho com cheiro de bacon.
O estômago de Cameron deu piruetas e abriu um espacate completo assim que o odor de gordura e o chiado do bacon dominaram todos os seus sentidos.
O centésimo segundo andar do edifício Empire State era cercado por vidro o que o cérebro sem memória de Cameron arquivou como um andar de visitação. Se havia um lugar seguro para alguém se esconder em uma metrópole fantasma, certamente aquele era o lugar. Eles tinham uma vista ampla e perfeita de toda a cidade e a altura os deixava em extrema vantagem.
– Bem vindo de volta, Cameron Montgomery. Sentimos sua falta, parceiro. – Assim que Joe teatralmente disse o seu nome, todos pararam tudo o que estavam fazendo e olharam para os dois.
Alguns pareciam completamente chocados ou até aterrorizados em vê-lo ali, vivinho da silva. Outros o encaravam como se tentassem entender o que havia de especial nele para causar aquela parada brusca em todos os afazeres.
– Beleza, pessoal? – Ele se sentiu na obrigação de parecer sociável. Pessoas que ele nunca havia visto na vida apontaram para ele e as perguntas explodiram no ar. Onde ele estivera? Era mesmo ele? Como aquilo era possível? Por que ele havia voltado agora? Por que estava vivo? E Cameron jurava ter ouvido uma garota perguntar quando ele tinha ficado tão gostoso, mas com a graça de Deus ninguém pareceu dar bola para ela.
– Pessoal! Pessoal! – Joe ergueu os braços e esperou que eles ficassem quietos. As perguntas continuavam sendo berradas, uma mais alta que a anterior, todos querendo que a sua fosse respondida e não ignorada. – Pessoal!
Alguém assoviou absurdamente alto atrás de Cameron e ele virou a cabeça para ver quem era. Scarlet estava encostada na parede com os dois dedos mínimos na boca. Quando todos se calaram ela deu de ombros e cruzou os braços, como se estivesse ávida para ver a explicação de Cameron.
Ele buscou ajuda de Joe, visivelmente desesperado. Ele não podia falar sobre aquilo, não agora. Ele não havia entendido absolutamente nada do que havia acontecido com ele e não estava pronto para encarar mais pessoas de seu passado esquecido.
– Eu vou contar tudo para vocês enquanto comemos, tudo bem? – Os olhos negros de Joe encontraram os de Cameron como se ele soubesse exatamente o que o garoto estava pensando. Claro que sabia.
Cai fora, Joe!
O garoto prendeu um risinho e todos concordaram em esperar Cameron estar bem alimentado.
O jantar foi preparado por dois garotos e duas garotas que se revezaram entre fritar o bacon e cortar rodelas de pão. Apesar do cheiro inebriante e da organização com que eles se instalaram naquele arranha-céu, Cameron pode perceber que havia uma tensão quase palpável no ar. A comida servida cheirava muito bem, realmente, mas a quantidade contida ali não era para se esbanjar.
Cada um deles recebeu uma quantia escassa de pão e de bacon, o que fez o estômago de Cameron protestar de indignação. Todos comeram sem reclamar e em silêncio absoluto, certamente esperando Joe começar a contar como havia tropeçado com o antigo melhor amigo em uma caixa.
Joe começou depois de a terceira mordida. Contou que ele e o grupo de busca haviam encontrado um caixote imenso no meio de uma câmara que deveria estava em construção para a ampliação do metro. Contou que Cameron não se lembrava de nada e de como ele estava completamente desorientado depois de sair do armário.
– Era uma caixa, Joe. Uma maldita caixa de madeira. – Corrigiu Cameron, acabando com seu mini-sanduíche de bacon.
– Você é muito metódico, Cam. – Então Joe terminou aquela linda história com a teoria dele sobre Cameron ter sido agraciado com o adorável gene X. Ele também contou sobre o que o garoto havia feito com os trovões e o que havia feito ao bloquear Joe. O próprio Cameron não acreditava que aquelas coisas tivessem realmente algo a ver com aquilo de elemento X, mas Joe parecia acreditar que aquilo não era coincidência.
Enquanto ele contava o olhar de Cameron vagou pelo espaço envidraçado em que estavam. Havia sacos de dormir cuidadosamente espalhados no chão, um fogão portátil e um botijão de gás em miniatura. Havia também mochilas aos pés de cada saco de dormir, algumas roupas (nem todas pretas, que avanço) espalhadas e até algumas facas ameaçadoramente enferrujadas e sujas de só Deus sabe o quê.
– Bem, foi legal vocês terem encontrado o Montgomery e tudo mais. – Os olhos de todos se voltaram para uma garota sentada entre Bryan e Scarlet. Ela tinha pele escura e azeitonada, brilhante de tão bonita. Era a mesma garota que estava fritando os bacons minutos antes. – Mas vocês foram atrás de comida e voltaram de mãos vazias. Nosso estoque está por um fio, Joe. Nós não vamos sobreviver mais um dia sequer aqui se vocês não encontrarem comida.
– Podemos ir ao supermercado, pegar os alimentos não perecíveis que estiverem em bom estado. – Joe deu de ombros como se dissesse que o problema estava resolvido.
– Então sugiro que faça isso agora, garotão. Todos nós queremos tomar café amanhã de manhã.
Joe olhou para seu sanduíche de bacon e soltou um palavrão. Ele o engoliu em uma dentada e limpou as mãos nos jeans, apontando para algumas pessoas na roda. Sem que ele pedisse, as pessoas para quem ele apontou se levantaram e começaram a se preparar para sair.
Cameron quase podia ouvir seu sanduíche rir dentro da sua barriga quando Joe apontou para ele.
– Você vem comigo, Cam.
A contragosto, Cameron se levantou e limpou a gordura dos dedos no jeans surrado. Joe só havia convocado três pessoas além de Cameron. Scarlet se levantou sem ser convidada e ninguém pareceu se incomodar com isso. Bryan, a garota da comida e mais um menino franzino pegaram as mochilas e calçaram os tênis de corrida obviamente pretos.
– Muito bem, pessoal não vamos perder tempo. – Joe disse enquanto pegava a mochila que Scarlet estendia para ele.
Ela se aproximou de Cameron e estendeu um enorme facão para ele. Os olhos do garoto se arregalaram ao ver a arma e Scarlet percebeu a hesitação dele.
– Não estamos sozinhos aqui, Cameron. Enquanto você não aprender a controlar esse lance com os raios eu acho melhor você ficar com isso. – Ela empurrou a lâmina na direção dele e ele a segurou como se estivesse envenenada.
Joe revirou os olhos e todos puderam ver que ele estava se segurando para não soltar uma piadinha desnecessária.
– Muito bem, escoteiros! Scarlet, querida, por que você não nos faz pegar um atalho? – Joe colocou a mochila nos ombros e se alinhou ao lado de Cameron.
Quanto os cinco deram as mãos e Joe estendeu a mão livre para ele, Cameron quase podia dizer que aquilo era a coisa mais ridícula que ele já vira em toda a sua vida.
– É melhor você me dar essa mão ou vou te segurar pelos cabelos, Cameron Montgomery. – Joe retorquiu, agarrando a mão de Cameron. – Gosto assim, parceiro. – Ele se virou para o grupo que assistia a cena com uma solidária expressão de pena. – Nós vemos mais tarde, amores.
Cameron desviou o olhar para os tênis sujos, envergonhado com todos o encarando. Exatamente como havia acontecido com a porta quando Scarlet a atravessara, o chão se dissipou como névoa sob os seus pés e eles despencaram violentamente.
Ele gritou com toda a força do seu pulmão e viu aterrorizado os andares passarem pelos seus olhos enquanto desciam desafiando qualquer lei física que já existiu. A única coisa que o mantinha ancorado, impedindo-o de virar uma mancha de sangue e gordura cada vez que atravessavam um andar, era a mão de Joe firmemente segura na sua.
Por um segundo de puro pânico ele percebeu que Scarlet estava alterando a densidade corporal de todos eles, tornando-a quase insignificante para que atravessasse o chão de cento e dois andares sem dificuldade nenhuma.
Depois de vários segundos eles chegaram ao hall e atravessaram o chão novamente. Tudo ficou negro e Cameron temia inalar concreto se respirasse. Lentamente ele sentiu algo empurrá-lo para cima até que sua cabeça saiu pelo chão sujo e cheio de destroços da recepção do Empire State, eles continuaram subindo até estarem completamente fora do piso. Ele olhou para os outros garotos, esperando que algum deles estivesse tão aterrorizado quanto ele.
Bryan o encarava com um sorrisinho debochado, o outro garoto não estava nem um pouco interessado em como havia sido a experiência para Cameron. Scarlet chutou uma pedrinha com o bico de aço da sua bota de salto alto, tão alheia a ele quanto os outros dois. A garota da comida estremeceu, mas Cameron sabia que ela não havia gritado como uma menininha de dez anos.
– Isso é tão emocionante! – Joe socou o ar e se virou para Cameron, apontando o dedo acusadoramente para ele. – Você se borrou, não foi?
– Calado – resmungou Cameron e todos riram.
– Muito bem, parceiros e Scarlet. – Ele lançou uma piscadela para a irmã e apontou para a saída. – Próxima parada: Supermercado!
Todos pareciam apreensivos andando a céu aberto, mas Cameron estava concentrado demais em não tropeçar em nenhum destroço. A cidade estava um caos. Carros destruídos, enferrujados e visivelmente esquecidos pelo tempo estavam espalhados pelas ruas de Nova York. Havia prédios completamente destroçados, reduzidos a escombros. O asfalto estava rachado e em alguns pontos, crateras se abriam para o sistema de esgoto da cidade.
O único som que ecoava em todo o quarteirão era o som das conversas abafadas e dos passos se arrastando pelo asfalto.
– Por que estamos falando baixo? – Cameron perguntou, passando por cima de uma enorme viga que havia caído no meio da rua. Ele segurava o facão dado por Scarlet (misteriosamente ele não havia largado aquela coisa enquanto despencavam cento e dois andares) com um cuidado exagerado.
O garoto, que havia se apresentado como Scott, olhou o cima dos ombros.
– Não estamos sozinhos, Amnésia. Existem pessoas que ainda vivem nos destroços. – Ele olhou ao redor, mantendo a voz tão baixa que Cameron teve que apressar o passo para ouvir. Ele não gostava que o chamassem de Amnésia, mas era a única palavra que Bryan e Scott pareciam conseguir destinar a ele. – A maioria não conseguiu pagar para estar no refúgio no Canadá. Contraíram as doenças que estão infectando tudo por aqui. Eles são perigosos por que não têm nada para perder, vão lutar por migalhas com a mesma voracidade que você lutaria para salvar o seu traseiro.
– Além disso, depois de encontrar você em uma caixa eu acho que é meio óbvio que tem alguém nessa cidade. – Joe disse mais a frente, seguindo pela rua. – Eu amo supermercados!
Cameron olhou para onde ele apontava e viu a estrutura imensa, um bloco de concreto amarelo. A tinta descascava em alguns pontos e os cartazes com ofertas estavam destruídas ou capengas, o que não tornava o lugar muito acolhedor.
Eles se aproximaram mais e Cameron pode ver que as imensas letras de neon que deveriam compor o nome do supermercado estavam no chão, espatifadas e completamente sem utilidade.
As portas de aço estavam fechadas e amassadas, como se alguém tentasse abri-la de todas as formas imagináveis. Os seis pararam à frente da construção, encarando-a por alguns segundos antes de Bryan se adiantar.
Ele apoiou as mãos na superfície enferrujada da porta e forçou o metal para trás, fazendo suas mãos afundarem como se aquela imensa estrutura metálica fosse feita de argila. Bryan moveu os braços em direções opostas e o aço estalou enquanto se partia, rasgando-se como se não passasse de uma folha de papel.
Quando ele terminou, virou-se para os demais e curvou toda a silhueta em uma mesura espalhafatosa.
– Está aberta, amiguinhos.
Scott bufou de indignação e avançou em direção a fenda recém-aberta. Um a um, todos foram entrando para a escuridão sepulcral.
Lá dentro Joe tirou três lanternas de dentro da mochila, entregando uma para Scott, uma para Scarlet e ficando com uma para si. Eles as acenderam permitindo que o feixe de luz iluminasse as latas, sacolas e estantes espalhadas por todo o galpão. Como de praxe, as paredes estavam cheias de rachaduras que iam até o teto. Cameron cogitou a possibilidade de Nova York ter sido atingida por um abalo sísmico.
Havia enlatados caídos no chão e algumas estantes tombadas, espalhando seus produtos por todo o piso lascado.
– Debbie, diga-nos o que você precisa para manter aquele povo saudável e de barriga cheia. – Joe pediu, estendendo o braço em direção ao amontoado de comida. – É o seu dia de sorte, gata! O cupom de desconto está em suas mãos, aproveite.
Debbie revirou os olhos e apontou o feixe de luz na direção mais afastada de onde eles estavam, Cameron conseguia ver que era a parte que havia sobrevivido melhor ao que quer que tenha acontecido ali.
– Acho melhor nos separarmos para conseguirmos tudo o que precisamos em menos tempo. Skye e eu vamos ver se conseguimos algum pedaço de carne que não esteja podre, tudo bem? Scott e Bryan podem ir atrás de qualquer alimento enlatado ou não perecível. Você e o Cameron vão atrás de galões de água e o que mais conseguirem carregar.
Dadas as incumbências, eles se separaram e cada um foi em direção a um ponto especifico do supermercado. Enquanto Joe e Cameron zigue-zagueavam pelos caixas, o garoto pulou em um carrinho de supermercado e se acomodou lá dentro.
– Vamos lá, Cam! – Joe jogou os braços para cima e Cameron revirou os olhos. Ele prendeu o facão de forma desajeitada nos passadores da calça jeans e agarrou o carrinho. Empurrou Joe por entre as estantes, vendo o garoto levitar produtos aleatórios em direção ao carrinho.
As rodinhas do carinho arranhavam o chão e tremiam como se não fossem usadas há muito tempo. Joe ficou sentado enquanto Cameron empurrava e se esticava para pegar produtos que ele julgava necessários para a sobrevivência do time. Enquanto eles se embrenhavam ainda mais por entre as estantes cheias de teias de aranhas e poeira, galões de água rolavam atrás dos dois, como se presos por uma corda invisível.
– Acho que vamos precisar de açúcar... – Comentou Joe, levitando dois sacos de açúcar na direção do carrinho. Ele acomodou os produtos ao redor de si, criando uma fortaleza alimentícia.
– Claro, vamos fazer brigadeiro quando chegarmos. – Debochou Cameron.
Joe bufou.
– Vamos pegar açúcar, tempero e tudo o que há de bom! – Ele olhou para o amigo pro cima do ombro e deu uma piscadela. – Uma dose de elemento X e quem sabe não sai uma Gostosa Super-Poderosa?
Cameron ia retrucar a piada ruim quando ouviu o som de uma lata caindo no chão bem próximo a eles. Joe ficou de pé no carrinho e gingou o quadril para olhar para trás.
– Mas o que diabos foi isso?
Ele apontou o feixe da lanterna para a escuridão atrás de ambos. A visão periférica de Cameron se fixou na latinha rolando pelo chão na direção deles, estalando pelo chão empoeirado até o garoto se abaixar para pegá-la.
O rótulo continha uma foto de um dálmata se lambuzando com uma gosma pastosa dentro de uma tigela de cachorro com o nome Bobby pintado com marcador preto. Por pura curiosidade, Cameron passou os olhos pelos componentes da “Ração Especial para Cães Nobres”, aquela mistura de tipos de carne deveria fazer qualquer ser vivo morrer de intoxicação alimentar.
– O que é isso aí? – Joe se pendurou no carrinho e enfiou a cabeça sobre o ombro de Cameron, tentando ler o rótulo.
– Muito engraçado, Joe. Eu sei que foi você, babacão.
Cameron ouviu um ganido sofrido e estremeceu. Joe mirou a lanterna na mesma direção de outrora, banhando um poodle sujo e raquítico com a luz amarelada. Joe se apressou em sair do carrinho, mas acabou pisando nos produtos e se atrapalhando.
Enquanto o telepata lutava para sair da sua fortaleza, Cameron se aproximou no cachorro com a lata de ração na mão. O cachorrinho ganiu novamente e mandou em sua direção.
– Cameron não chegue nem perto desse cachorro!
Ele ignorou Joe e estendeu a mão para acariciar o poodle. Quando o cão ergueu a cabeça, Cameron engoliu uma dúzia de palavrões. A cara do poodle era achatada e deformada, com bolhas e feridas espalhadas pelo focinho minúsculo. Os caninos enormes afiados como punhais. Os pelos sujos e fofos do animal se eriçaram e as pernas estalaram, como se os ossos ali fossem partidos enquanto ele dobrava de tamanho, estendendo as patas como um caranguejo.
– Cãozinho bonitinho...
Cameron recuou um passo e o poodle demoníaco acompanhou sua movimentação. Eles estavam em uma cidade fantasma, todos ali estavam infectados pela radiação. O poodle era só mais um monstro que tivera a sorte de cruzar com uma presa suculenta que segurava uma lata enorme de ração para cachorro.
– Cameron corre! – Ele ouviu Joe virar o carrinho, tombando no chão ao tentar sair. Suas pernas deviam ter perdido o contato com o cérebro por que ele não conseguiu se mover.
O poodle pequeno e fofo agora dava lugar a um monstro do tamanho de um lobo com o triplo da massa muscular. A boca do animal espumava, fazendo um líquido preto e viscoso escorrer por entre suas mandíbulas até o chão. Os olhos brilhavam como faróis vermelhos, fazendo a visão de Cameron arder quando ele os viu.
Joe não se levantou a tempo. O poodle super desenvolvido tencionou os músculos e saltou em uma confusão de presas, garras e saliva negra em direção à garganta de Cameron.
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