Cameron se esquivou no último segundo. Ele sentiu uma força invisível colidir com o seu corpo, arrastando-o para trás bruscamente enquanto as presas monstruosas do poodle abocanharam o ar onde ele estivera segundo antes.

– Cameron eu mandei você correr! – Joe agora estava ao seu lado, agarrando-o pelo pulso e o puxando às pressas por entre as estantes.

Eles ouviram um grito à esquerda e um ganido bestial enquanto as garotas lutavam com outro cão radioativo.

Joe mantinha a lanterna apontada para o caminho que eles deveriam seguir enquanto as garras do poodle arranhavam o piso de linóleo atrás deles. Na última guinada para a esquerda, outro cão monstruoso cortou seu caminho ao se chocar violentamente com uma das estantes. Latas de espinafre rolaram para todas as direções enquanto Bryan surgia na escuridão com os punhos cerrados e um enorme corte sangrando no antebraço.

Ele se lançou sobre a fera e começou a socá-la violentamente na cabeça, fazendo cada golpe ecoar de forma perturbadora.

Cameron ouviu o rugido do poodle atrás de si e virou-se a tempo de vê-lo saltar sobre ele e Joe. Em uma sincronia quase perfeita, ambos jogaram o corpo para o lado e, novamente, o animal atravessou o vácuo entre os dois, deslizando pelo piso até se chocar com a estante da frente.

A criatura se recuperou sem hesitar e tencionou os músculos traseiros, saltando sobre Joe com uma velocidade impressionante.

– Joe! – Cameron tentou puxar o facão que estava preso nos passadores do seu jeans, mas antes que pudesse se mover o ar se partiu em frente ao corpo de Joe, rasgando-se com um silvo agudo. O poodle passou pela fenda, sendo engolido por ela enquanto um novo vórtex negro surgia alguns metros de distância, cuspindo o animal em direção à parede.

Scott bateu continência e uma esfera negra surgiu em sua mão esquerda. Joe ergueu os punhos e uma dúzia de produtos enlatados voou na direção de Scott. O garoto lançou a esfera negra na direção das latas, fazendo um novo rasgo surgir no ar e engoli-las.

Quando o portal de saída se abriu em frente ao cão outrora transportado, doze latas foram expelidas contra o rosto da besta, desnorteando-a completamente.

Bryan devia ter ficado cansado de socar o outro cachorro porque a fera ergueu o corpo abruptamente e sua calda ganhou vida, se enrolando nas pernas do garoto e o puxando bruscamente para o chão. A cabeça de Bryan atingiu o linóleo sonoramente e seus olhos viraram nas órbitas enquanto ele gemia.

Cameron não pensou. Ele ergueu o facão e correu na direção do garoto, esquivando-se de vários produtos espalhados pelo piso. Ele gritou e a fera virou-se para ele, queimando sua vista com aqueles olhos vermelhos. As presas desse cão também eram afiadas e tinha o tamanho de punhais se projetando para fora da boca. Sua mandíbula inferior era maior que a superior, o que fazia suas presas ficarem completamente expostas.

– Cameron!

Ele não esperou para ver de onde vinha a voz de Scarlet, mas lançou-se contra o corpo da criatura que já preparava um ataque em sua direção. Um trovão sacudiu a estrutura do supermercado, fazendo seus ouvidos estalarem. A calda do cão se agitou novamente, chicoteando o ar na direção de Cameron. O garoto girou o facão no ar e ouviu o som gosmento e repulsivo da lâmina decepando parte do rabo do animal.

Sangue negro jorrou como se a calda tivesse se transformado em uma mangueira. Seus braços foram alvejados pelo líquido escuro e quente, ardendo na mesma hora. O facão ficou pesado demais para os seus braços o segurarem e ele simplesmente caiu no chão, tilintando ao atingir o linóleo.

Cameron sentiu os braços caírem ao lado do corpo, inertes e sem vida. Manchas negras se espalharam pela sua pele, ardendo como se tivessem sido banhados em ácido.

O cachorro mutante estalou as mandíbulas no ar e investiu contra Cam. O garoto sentiu braços o envolverem, braços invisíveis e quentes. Os braços o impediram de se mover e o cão fechou as mandíbulas envolta do seu corpo, abocanhando sua cintura e o dividindo ao meio.

Onde os dentes afiados do cão deveriam ter rasgado seu corpo, névoa surgiu o animal mordeu o nada, atravessando o corpo dele como se o garoto não estivesse ali. Scarlet, antes invisível, puxou Cameron para o lado e ela o arrastou em direção à Bryan.

– Eu não sinto os meus braços! – Ele tentou erguê-los, mas eles se recusavam a obedecer qualquer comando simples que Cam os desse. Scarlet desceu o olhar para eles e fez uma careta, voltando à atenção para Bryan logo em seguida. O garoto estava recobrando os sentidos, mas ainda estava completamente desorientado.

– Bryan, não deixe as Quimeras matarem o Cameron. – Ela girou nos calcanhares e os três viram o cão ser jogado para a esquerda por uma força invisível. Quando ele ia atingir a estante a força mágica o sacudiu e o jogou para o lado oposto, fazendo a imensa massa peluda voar em direção à parede e esmagar o focinho achatado.

Joe estendeu a mão no ar e grunhiu com o esforço de içar o monstro. Ele suava e ofegava, mas manteve o animal suspenso por alguns segundos antes de manear a mão e fazer o bicho ser propelido como um projétil, colidindo novamente contra a parede.

Debbie estendeu a mão para a criatura e cerrou o punho, emanando uma luz vermelha por entre os dedos. A luz fez o estômago de Cameron se revirar e a ânsia o atingiu em cheio.

O cachorro mutante ganiu e se estatelou no chão, contorcendo-se como se estivesse sendo consumido por chamas invisíveis. Apesar de não haver labareda alguma, a pele do monstro chiou como se estivesse sendo tostada e bolhas imensas surgiram por toda sua extensão. Suas presas rasgaram o ar, mas Joe o mantinha preso ao chão enquanto Debbie terminava de aumentar a temperatura corporal da besta. Os olhos vermelhos da criatura fumegaram e saltaram das órbitas, caindo no chão seguidas de lágrimas de sangue negro.

Cameron ouviu o rosnado demoníaco do poodle que parecia ter voltado à ativa e estava muito zangado. Scarlet muniu-se com o facão e desapareceu no ar, ficando invisível bem diante dos olhos de Cam. Ele viu o poodle farejar o ar e grunhir, saltando em direção ao nada. Scarlet gritou e o facão se tornou visível novamente, voando no ar enquanto o corpo de Scarlet aparecia sob as garras do bicho.

Bryan tentou se levantar, mas ainda não estava 100% porque caiu logo em seguida. Os nervos de Cameron se inflamaram e um trovão estourou violentamente nos céus de Nova York.

O raio deve ter atingido o telhado já que uma das rachaduras se ampliou perigosamente, fazendo todo o teto emitir um ruído abafado enquanto poeira caia de lá de cima. O poodle dirigiu os olhos vermelhos para o teto enquanto Scarlet afundava no chão, livrando-se das garras afiadas e ensanguentadas do monstro.

Uma fenda negra surgiu no ar e o facão levitou, passando pelo portal que sumiu assim que engoliu a arma. O poodle se lançou na direção de Cameron que não conseguiu se esquivar com os braços inertes. Bryan se lançou para o lado cambaleado e outro vórtex rompeu o vácuo, cuspindo o facão. O garoto agarrou a arma ainda no ar e as presas do poodle venceram no quesito velocidade. O braço de Bryan foi abocanhado e ele urrou de dor, soltando a espada logo em seguida.

Scott, vindo de só Deus sabe onde, se lançou sobre a criatura e envolveu seu pescoço com os braços, asfixiando-a com toda a sua força. A fera soltou Bryan, que caiu novamente desorientado no chão. Scarlet viçou visível novamente e se ajoelhou para examinar os ferimentos dele.

Debbie e Joe se aproximaram de Cameron enquanto o poodle se sacudiu como um touro mecânico, lançando Scott na direção de uma das prateleiras. O garoto a atingiu com as costas e todo o conteúdo da estante caiu em sua cabeça, soterrando-o sob latas de molho de tomate. Grunhidos raivosos e bestiais encheram os ouvidos de Cam e ele ouviu Joe soltar um palavrão.

– Acho que temos companhia!

O poodle se virou já direção deles e Joe se preparou para atacar, mas as latas que soterravam Scott foram derrubadas e o garoto ergueu a cabeça ensaguentada. Sem aviso prévio o poodle se lançou na direção deles, com as garras e as presas prontas para abocanhar o pescoço de Joe. Pela sua visão periférica, Cameron viu Scott lançar uma esfera negra no ar no exato segundo em que os outros cães demoníacos chegaram. Um deles pulou sobre Scott que gritou, desesperado.

Como se sua visão passasse em câmera lenta, Cameron viu a esfera fazer uma curva no ar, desviando-se da besta, e se abrir em uma fenda negra que triplicou de tamanho e avançou na direção deles. Joe gritou e Debbie tentou correr na direção de Scott, mas o frio e a escuridão do portal criado por Scott já havia os engolfado.