Ela em Três Atos.
1 Identificação
Não havia mais motivos para continuar vivendo. Imagine você que chegou em um ponto da vida em que nada mais te completa, nada mais dava vontade de ela sair da cama e querer viver.
Todos a julgavam como louca, desocupada, diziam que ela reclamava mesmo tendo tudo. Ela tinha que ouvir típicas frases como “mas você está reclamando de que? Você tem tudo” “mas depressão é bobagem, só se animar que passa” dentre outras inúmeras pérolas que as pessoas dizem e julgam sem nunca terem passado por depressão e não fazerem ideia sobre o que se trata de fato a doença, mas ela havia tomado uma decisão, ela ia dar fim a sua vida, mas antes ela realizaria
o único sonho que teve durante toda a sua vida: ela iria à Cidade conhecer à Discoteca que durante tantos anos ela viu na televisão. Ela pegou uma mochila, colocou seus documentos, pegou todo o dinheiro que tinha e saiu de casa, ela entrou em um táxi e foi rumo à rodoviária. Em cima da cama, para os pais, ela deixou um bilhete dizendo o quanto os amava, desculpando-se por não ter sido filha que eles mereciam e queriam, mas que ela não via mais motivos para continuar vivendo.
Quando ela chegou na Cidade, ela foi até uma loja que havia perto da rodoviária, era um brechó lindo com coisas maravilhosas, ela queria achar a roupa perfeita, tinha de ser um vestido, mas não um vestido novo, ele precisava ser usado para que tivesse uma história antes dela e uma história que não se acabasse quando ela pulasse da ponte usando ele depois da noite maravilhosa que ela teria, então Ela encontrou. Era um vestido vintage cor de rosa, um rosa clarinho, de saia rodada e volumosa, provavelmente havia sido usado em alguma formatura de ensino médio nos anos 80 e foi amor a primeira vista, ela comprou o vestido por um preço baixo e ficou feliz, ela tinha a roupa perfeita para a noite perfeita. Ela foi até uma praça que havia na Cidade e sentou-se. Eram 21h e a festa na Discoteca começaria apenas dali a duas horas, então ela pegou sua carteira de cigarros e começou a fumar. Entre um cigarro e outro, ela divagava, ela pensava sobre o motivo pelo qual as pessoas cobravam tantas coisas dela naquela vida, naquela vida que ela odiava, naquela vida em que ela nunca havia pedido para estar, mas as pessoas insistiam em cobrá-la educação, horários, comprometimentos, regras e lhe impunham uma jornada que ela detestava, então ela começou a chorar.
As lágrimas escorriam por seu rosto enquanto ela pensava no que estava prestes a fazer. Ela sabia tudo o que sua morte traria de dor para sua família, ela havia se colocado entre a espada e a cruz: ela seria forte para impedir que seus pais sofressem continuando viva carregando o fardo dessa vida vazia?
Um filme começou a passar em sua cabeça, ela se via como uma criança que tinha um castelo, porém esse castelo desmoronou quando seus pais se divorciaram, a vida ali começou a perder o sentido, não porque ela achasse que os pais deveriam ficar juntos para a vida toda, mas pelos fato de que ela descobriu uma verdade brutal da vida: O amor. O amor era algo que ela cresceu vendo as pessoas sofrerem em função dele, todo dia ela vias cenas cotidianas que a lembravam de quanto a mãe chorou por ter perdido seu amor, então ela foi crescendo e a vida toda se esquivou do amor, a vida dela se tornou uma vitrine onde ela só via mentiras, era como a vitrine de uma floricultura onde só haviam flores de plástico.
Chegou a hora, ela secou as lágrimas e pegou um táxi até a boate. Quando chegou lá, ela fumou mais um cigarro antes de entrar e ficou observando as pessoas, todas elas eram tristes, ela conseguia ver a tristeza em seus olhos, ela conhecia reconhecer em todas aquelas pessoas o que afligia ela, então pela primeira vez na vida ela sentiu que estava em um lugar onde não seria julgada, ela poderia ser ela mesma, pois todos ali estavam na mesma situação. Quantos ali eram suicidas em potencial como ela? Então ela entrou.
Ela foi até o centro da pista com seu vestido perfeito e ouviu a música, era maravilhosa, ela começou a dançar e deixar a batida da música alinhar-se com o sangue pulsando em suas veias, ela deixou a batida guiar seu corpo, fechou seus olhos e deixou que a música guiasse ela, ela e a batida eram um só naquele momento.
Por aquelas horas em que a música assumiu o lugar de seu cérebro ela conseguiu ser feliz, ela foi feliz como pouquíssimas vezes na vida havia sido.
Fale com o autor