ENTRE CICATRIZES E RECOMEÇOS

3 CAPÍTULO 3 — O PRIMEIRO ENCONTRO


Algumas pessoas chegam às nossas vidas sem fazer barulho. Outras aparecem acompanhadas de um menino de cinco anos, um dinossauro de plástico e uma quantidade impressionante de perguntas.

Sábado — Nova York, 17h42

Sarah Swan estava diante do espelho havia quase vinte minutos.

Sobre a cama, três vestidos repousavam cuidadosamente dobrados. Um azul-marinho, um verde-esmeralda e outro preto, de mangas compridas. Ela havia experimentado os três, mas nenhum parecia adequado.

O problema, entretanto, não estava nas roupas.

Estava nas lembranças que cada uma delas despertava.

O vestido azul era muito curto, segundo Alec. O verde chamava atenção demais para seus olhos. O preto, embora discreto, deixava seus ombros à mostra, e Alec sempre dizia que mulheres comprometidas não deveriam sentir necessidade de exibir o corpo.

Sarah fechou os olhos.

Estava sozinha no quarto de hóspedes da irmã, mas ainda conseguia ouvir a voz do ex-noivo.

Você realmente pretende sair vestida assim?

Não acha que está exagerando?

Sarah, pelo amor de Deus, comporte-se como uma mulher comprometida.

Ela deixou o vestido preto sobre a cama.

Depois se sentou, exausta.

Era absurdo.

Havia enfrentado cozinhas profissionais onde homens experientes tentavam desqualificá-la simplesmente por ser jovem. Administrara equipes difíceis, negociara contratos importantes e conquistara respeito num mercado extremamente competitivo.

Mas não conseguia escolher uma roupa para um jantar entre amigos.

Uma batida discreta interrompeu seus pensamentos.

— Sarah? Posso entrar?

— Claro, Bella.

A irmã apareceu usando uma calça jeans e uma blusa clara. Seus cabelos castanhos estavam soltos, e ela carregava duas pequenas caixas.

— Trouxe alguns acessórios. Pensei que talvez você quisesse...

Bella interrompeu a frase ao observar os vestidos espalhados.

— Algum problema?

Sarah soltou uma risada sem humor.

— Estou tentando descobrir qual dessas roupas tem menos possibilidades de provocar uma discussão com um homem que nem sequer estará presente.

Bella deixou as caixas sobre a cômoda.

Aproximou-se da irmã e sentou-se ao seu lado.

— Sarah, posso fazer uma pergunta? E quero que responda com sinceridade, mesmo que ache a resposta ridícula.

— Desde quando você precisa de autorização para fazer perguntas ridículas?

Bella sorriu.

— Qual desses vestidos você escolheria se Alec Volturi nunca tivesse existido?

Sarah olhou para as roupas.

Demorou alguns segundos.

Depois apontou para o verde-esmeralda.

— Aquele. Sempre gostei dessa cor. Acho que combina com meus olhos e com meus cabelos. Mas Alec dizia que eu parecia estar tentando chamar a atenção de todos os homens do ambiente quando o usava.

Bella levantou-se, pegou o vestido e o colocou nas mãos da irmã.

— Então acho que encontramos nossa resposta. Você não precisa se vestir para agradar Alec, nem para contrariá-lo. Vista o que fizer você se sentir bonita. E, se mudar de ideia daqui a dez minutos, escolha outro. O importante é que a decisão seja sua.

Sarah acariciou o tecido.

Era um vestido simples, elegante, com mangas delicadas e comprimento pouco acima dos joelhos.

— Você acha que estou exagerando por ficar tão nervosa com um jantar?

Bella sentou-se novamente.

— Acho que você passou muito tempo sendo obrigada a calcular as consequências de cada escolha. Não espero que isso desapareça em dois dias. Mas quero que saiba que ninguém vai avaliar sua roupa, sua comida ou suas palavras esta noite. Rachel e Paul são pessoas maravilhosas. E, quanto a Emmett, você já conhece o desastre ambulante que ele é.

Sarah sorriu.

— E Jacob Black?

Bella pareceu surpresa.

— O que tem ele?

— Não o conheço. Quer dizer, já vi fotografias e ouvi Edward falar dele, mas nunca conversamos. Não quero chegar à casa de pessoas que não conheço e descobrir que todos estão desconfortáveis com minha presença.

Bella refletiu por um instante.

— Jacob é um homem reservado, mas muito educado. Edward o considera um dos melhores amigos que tem. Ele passou por uma tragédia terrível quando perdeu a esposa, e desde então vive praticamente para Seth e para a empresa. Não costuma participar de muitos eventos sociais, mas é uma pessoa confiável.

— Ele tem vinte e seis anos, não é?

— Isso. E Seth tem cinco. É uma criança adorável, embora Paul e Emmett estejam fazendo um trabalho extraordinário para transformá-lo no maior provocador da família.

Sarah soltou uma gargalhada.

— Pobre criança.

— Pobre Jacob — Bella corrigiu. — Imagine criar um menino que recebe conselhos de Paul Lahote e Emmett Cullen.

Sarah voltou a olhar para o vestido.

Pela primeira vez naquela tarde, sorriu sem esforço.

— Acho que vou usar o verde.

Bella levantou-se.

— Excelente escolha. E, Sarah?

— Sim?

— Você está linda. Mesmo quando não consegue enxergar isso.

Sarah observou a irmã sair do quarto.

Depois voltou a olhar para o espelho.

Ainda havia uma pequena marca próxima ao lábio, facilmente disfarçada com maquiagem. A região da maçã do rosto permanecia sensível, mas os hematomas começavam a perder intensidade.

Ela tocou delicadamente o próprio rosto.

Não queria esconder os machucados por vergonha.

Queria apenas, naquela noite, olhar para si mesma e reconhecer a mulher que existia antes de Alec.

Pegou o vestido verde.

E começou a se arrumar.

18h03 — Residência Black

— Papai, você acha que a tia Rachel vai gostar da minha camisa?

Jacob estava diante do espelho, tentando fechar o último botão da própria camisa, quando Seth apareceu na porta do quarto.

O menino vestia uma calça jeans, tênis e uma camiseta azul com um pequeno dinossauro estampado.

Jacob olhou para ele.

— Acho que sua tia Rachel vai gostar muito. Principalmente porque você está usando uma roupa limpa, o que representa uma conquista importante depois do desastre com o molho de tomate no almoço.

Seth sorriu.

— Eu não derramei de propósito.

— Naturalmente. O prato simplesmente decidiu atacar sua camiseta.

— Foi um acidente.

Jacob se agachou para ajeitar a gola do filho.

— Eu sei, campeão. Estou brincando.

Seth observou o pai por alguns segundos.

— Você está bonito.

Jacob ergueu as sobrancelhas.

— Obrigado. Você também está muito elegante.

O menino pareceu satisfeito.

Então franziu a testa.

— Papai, você vai usar perfume?

Jacob olhou para o frasco sobre a cômoda.

— Estava pensando nisso. Por quê?

— Porque o tio Paul disse que homens precisam usar perfume quando vão conhecer mulheres bonitas.

Jacob ficou imóvel.

Fechou os olhos.

Respirou profundamente.

— Seth, preciso fazer uma pergunta muito importante. Seu tio Paul tem ensinado mais alguma coisa sobre mulheres?

O menino refletiu.

— Ele disse que você precisa sorrir mais, que não pode falar de trabalho o tempo inteiro e que, quando uma mulher disser que não está com fome, você deve pedir batata frita extra.

Jacob começou a rir.

— Essa última parte é surpreendentemente específica.

— Ele disse que a tia Rachel sempre rouba as batatas dele.

— Isso eu acredito.

Seth aproximou-se e segurou a mão do pai.

— Papai, a mamãe gostava quando você usava perfume?

O sorriso de Jacob suavizou-se.

— Gostava. Sua mãe dizia que eu exagerava um pouco, mas sempre roubava minhas camisas porque gostava do cheiro.

Seth pareceu considerar a informação.

— Então você pode usar. Acho que ela gostaria.

Jacob sentiu uma emoção inesperada.

Acariciou os cabelos do menino.

— Obrigado, campeão.

Seth sorriu.

— De nada. Agora podemos ir? Estou com fome.

Jacob soltou uma gargalhada.

— Finalmente encontramos uma coisa em que você e o tio Emmett concordam.

19h04 — Residência Lahote

A casa de Rachel e Paul estava iluminada quando Edward estacionou o carro diante da entrada.

Sarah observou a residência pela janela.

Era uma casa ampla, de dois andares, com grandes janelas e um jardim cuidadosamente mantido. Algumas luzes decorativas iluminavam o caminho até a porta principal.

Bella percebeu que a irmã apertava a alça da bolsa.

— Está tudo bem?

Sarah assentiu, embora sua expressão demonstrasse o contrário.

— Só estou um pouco nervosa.

Edward desligou o motor e virou-se para ela.

— Sarah, quero combinar uma coisa. Se em algum momento você se sentir desconfortável, basta me avisar. Não precisa explicar nada na frente dos outros. Nós podemos ir embora quando quiser.

Ela ofereceu um pequeno sorriso.

— Obrigada, Edward. Mas quero tentar ficar. Passei muito tempo evitando encontros com pessoas que gostam de mim. Não quero continuar fazendo isso.

Bella apertou sua mão.

— Então vamos aproveitar a noite.

Quando chegaram à porta, ouviram uma discussão vindo do interior da casa.

— PAUL LAHOTE, EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FEZ ISSO!

A voz de Rachel atravessou a porta.

Em seguida, ouviram a gargalhada de Emmett.

— Em minha defesa, querida cunhada, preciso esclarecer que a ideia foi inteiramente minha!

Edward fechou os olhos.

— Meu Deus. Eles já começaram.

Sarah olhou para Bella.

— O que aconteceu?

— Não faço ideia — respondeu a irmã. — Mas tenho certeza de que envolve comida, alguma brincadeira idiota ou os dois.

A porta se abriu antes que tocassem a campainha.

Paul Lahote apareceu usando um avental preto com a frase O melhor chef da casa.

Atrás dele, Emmett tentava controlar o riso.

— Edward! Bella! Finalmente chegaram! Precisamos de testemunhas imparciais para resolver uma acusação absolutamente injusta contra minha pessoa.

Rachel surgiu logo atrás.

— Paul, se você não sair da frente dessa porta imediatamente, juro que vou colocar você para dormir na garagem.

Paul abriu passagem.

— Como podem perceber, minha esposa está atravessando um momento emocional delicado.

Bella abraçou Rachel.

— O que ele fez?

— Resolveu experimentar uma receita de molho barbecue que encontrou na internet. O problema é que confundiu páprica com pimenta-caiena e praticamente transformou minha cozinha numa zona de risco químico.

Emmett começou a gargalhar novamente.

— Rachel, você precisa admitir que foi impressionante. Paul conseguiu fazer um molho tão picante que até a colher pareceu pedir socorro!

Sarah não conseguiu conter uma risada.

Paul virou-se para ela.

— E você deve ser Sarah Swan.

A jovem assentiu.

— Sou. Muito prazer.

Ele abriu um sorriso caloroso.

— O prazer é meu. Edward e Emmett falam tanto de você que estou começando a achar que finalmente conheci uma celebridade. E, considerando que é chef de cozinha, talvez possa me ajudar a convencer minha esposa de que experimentações culinárias são fundamentais para o progresso da humanidade.

Sarah sorriu.

— Posso até defender a importância da experimentação, mas preciso conhecer os detalhes antes de assumir a responsabilidade por sua defesa.

Emmett apontou para ela.

— Está vendo? Essa é a Sarah que eu conheço! Inteligente, diplomática e perfeitamente capaz de destruir a autoestima de um homem sem levantar a voz.

Rachel aproximou-se.

— Sarah, seja muito bem-vinda. Bella fala de você há anos, e estou realmente feliz que tenha vindo. Espero que se sinta à vontade. Nossa casa costuma ser um pouco barulhenta, principalmente quando esses dois estão juntos.

Sarah aceitou o abraço da anfitriã.

— Obrigada, Rachel. E não se preocupe. Cresci convivendo com Emmett. Estou acostumada a situações de emergência.

— Isso é calúnia! — protestou o grandalhão.

Edward passou pelo irmão.

— Não, Emmett. É um resumo bastante preciso da sua personalidade.

As gargalhadas preencheram a entrada.

Sarah sentiu parte da tensão desaparecer.

Talvez aquela noite não fosse tão difícil quanto imaginara.

19h22 — A chegada dos Black

Jacob estacionou diante da casa da irmã e desligou o motor.

Seth já tentava soltar o cinto de segurança.

— Calma, campeão. Espere eu abrir a porta.

— Mas eu quero ver o tio Emmett!

— E vai ver. Ele provavelmente está dentro da casa consumindo toda a comida disponível.

Seth gargalhou.

Jacob abriu a porta traseira e ajudou o filho a sair.

O menino segurava um pequeno dinossauro verde.

— O Rex também veio.

— Percebi. Espero que ele esteja recuperado daquela doença misteriosa.

— Está muito melhor. Mas precisa comer bastante.

Jacob balançou a cabeça.

— Naturalmente.

Entraram pela porta principal, que Paul deixara destrancada.

— CHEGAMOS! — Seth anunciou com entusiasmo.

Emmett apareceu quase imediatamente.

— Meu pequeno guerreiro!

O menino correu em sua direção.

Emmett o ergueu nos braços e começou a girá-lo.

— Como está o homem mais importante da família Black?

— Bem! E o Rex também!

— Excelente! Estava preocupado com a recuperação do nosso paciente.

Jacob entrou logo atrás.

— Emmett, por favor, não incentive essa história. Passei quarenta minutos ontem negociando a internação de um dinossauro de plástico.

Paul apareceu ao lado do amigo.

— Jacob, você precisa compreender que crianças possuem uma imaginação extraordinária. Talvez devesse aprender alguma coisa com seu filho.

— Paul, a última vez que você tentou usar sua imaginação, quase incendiou a churrasqueira da minha casa.

— Aquilo foi um acidente técnico.

— Você colocou álcool numa churrasqueira acesa.

— Detalhes.

Rachel aproximou-se para abraçar o irmão.

— Jake, querido! Que bom que chegaram.

Jacob beijou sua testa.

— Você sabe que nunca perderíamos um jantar preparado por você. Principalmente porque existe a possibilidade de Paul assumir a cozinha, e alguém precisa impedir uma tragédia.

Rachel riu.

— Entre. Edward e Bella já chegaram.

Jacob cumprimentou os amigos.

Foi então que percebeu a presença de uma mulher que não conhecia.

Ela estava próxima à janela da sala, conversando com Bella.

Usava um vestido verde-esmeralda que contrastava com os longos cabelos negros, soltos sobre os ombros. Era alta, de postura elegante e traços delicados. Quando virou ligeiramente o rosto, Jacob percebeu os olhos verdes.

Havia alguma coisa diferente em sua expressão.

Não era apenas beleza.

Era a maneira como observava o ambiente, discretamente, como se estivesse tentando compreender cada movimento antes de decidir onde se sentiria confortável.

Edward aproximou-se.

— Jacob, quero apresentar alguém.

Sarah virou-se.

— Esta é Sarah Swan, irmã da Bella. Sarah, este é Jacob Black, meu sócio e um dos meus melhores amigos.

Jacob ofereceu um sorriso educado.

— Finalmente nos conhecemos. Edward e Emmett falam bastante de você.

Sarah apertou sua mão.

— Espero sinceramente que tenham contado apenas histórias que não comprometam minha reputação.

Jacob sorriu.

— Considerando que uma delas envolve você expulsando um chef francês de uma cozinha, acho que sua reputação está perfeitamente preservada.

Sarah soltou uma risada surpresa.

— Emmett contou essa história?

— Com riqueza de detalhes. Embora eu suspeite que tenha acrescentado algumas explosões e perseguições automobilísticas.

— Conhecendo Emmett, provavelmente transformou uma discussão profissional numa operação militar.

Jacob riu.

— Ele tem esse talento.

Sarah percebeu que o sorriso dele era bonito.

Não apenas pela aparência, mas porque parecia surgir de maneira espontânea, transformando completamente seu rosto.

Entretanto, havia algo em seus olhos castanhos que contrastava com aquele sorriso.

Uma tristeza discreta.

Como se parte dele permanecesse em algum lugar distante.

Jacob, por sua vez, percebeu que Sarah tinha uma voz suave, mas segura quando falava sobre algo que conhecia. Havia também um leve cuidado em seus movimentos, que ele atribuiu inicialmente ao desconforto natural de estar entre pessoas pouco conhecidas.

Nenhum dos dois sentiu qualquer revelação extraordinária.

Não houve música imaginária.

Nem a sensação de que o mundo havia parado.

Apenas duas pessoas sendo apresentadas durante um jantar entre amigos.

E, naquele momento, era exatamente assim que deveria ser.

19h37 — Uma amizade inesperada

Sarah estava conversando com Rachel quando sentiu um pequeno puxão na lateral do vestido.

Olhou para baixo.

Um menino de cabelos negros, olhos castanhos e expressão extremamente séria a observava.

Segurava um dinossauro verde.

— Oi.

Sarah sorriu.

— Olá. Você deve ser o Seth.

O menino arregalou os olhos.

— Como você sabe?

— Sua tia Rachel me contou que um menino muito inteligente viria jantar aqui hoje. Como você parece ser o único menino da sala, achei que só poderia ser você.

Seth sorriu, satisfeito.

— Eu tenho cinco anos.

— Cinco? Nossa, então já é praticamente um homem adulto.

Ele assentiu com convicção.

— Meu papai diz que eu sou o homem da casa quando ele precisa sair.

Sarah se agachou para ficar na altura dele.

— Nesse caso, é uma responsabilidade muito importante. Imagino que você precise cuidar de muitas coisas.

Seth ergueu o dinossauro.

— Eu cuido do Rex. Ele ficou doente ontem, mas já melhorou.

Sarah examinou o brinquedo com a seriedade de uma profissional diante de um problema complexo.

— Entendo. E qual foi o diagnóstico?

O menino franziu a testa.

— O quê?

— Quero dizer, o que ele tinha?

— Dor de barriga.

Sarah assentiu gravemente.

— Isso é bastante comum quando os dinossauros comem coisas que não deveriam. Você verificou se ele estava se alimentando corretamente?

Seth abriu um sorriso enorme.

— Ele come carne!

— Ah, claro. Um carnívoro. Nesse caso, precisamos evitar que ele coma vegetais por engano.

O menino começou a rir.

— Você entende de dinossauros!

— Um pouquinho. Mas sou muito melhor entendendo de comida.

Seth inclinou a cabeça.

— Você sabe fazer panquecas?

Sarah sorriu.

— Sei. Aliás, acho que faço panquecas muito boas.

Os olhos do menino brilharam.

— Melhor que as do papai?

Ela fingiu refletir.

— Isso depende. As panquecas do seu pai são boas?

Seth aproximou-se e falou num tom confidencial:

— Não muito. Às vezes ficam pretas.

Sarah levou a mão à boca para conter a risada.

— Pretas?

— É. O papai diz que é porque ele gosta delas bem passadas. Mas o tio Paul disse que é porque ele não sabe cozinhar.

Sarah gargalhou.

Atrás dela, uma voz masculina comentou:

— Estou começando a achar que preciso contratar um advogado para me defender das acusações do meu próprio filho.

Sarah virou-se.

Jacob estava parado a poucos passos, observando a conversa com um sorriso divertido.

Seth correu até ele.

— Papai! A Sarah sabe fazer panquecas!

Jacob ergueu as sobrancelhas.

— Fico feliz em saber. Mas gostaria de esclarecer que minhas panquecas não são tão ruins quanto você está fazendo parecer.

Seth olhou para Sarah.

— São sim.

Ela tentou esconder o sorriso.

Jacob colocou as mãos na cintura.

— Seth Black, estou profundamente decepcionado com sua falta de lealdade familiar. Passei cinco anos alimentando você, e é assim que agradece?

O menino gargalhou.

— Mas eu gosto da sua comida, papai!

— Ah, gosta?

— Gosto. Só não gosto quando fica preta.

Sarah não conseguiu conter uma gargalhada.

Jacob olhou para ela, fingindo indignação.

— Vejo que você decidiu se juntar ao grupo de pessoas que questionam minhas habilidades culinárias.

Sarah ergueu as mãos.

— Não posso emitir uma opinião profissional sem experimentar o produto. Mas, considerando o depoimento da sua principal testemunha, sugiro que evite temperaturas muito elevadas.

Jacob riu.

— Então agora meu filho está fornecendo provas contra mim?

— Parece que sim. E devo dizer que ele é uma testemunha bastante convincente.

Seth segurou a mão de Sarah.

— Você pode fazer panquecas para mim um dia?

A pergunta surgiu com tanta naturalidade que Sarah ficou surpresa.

Olhou brevemente para Jacob.

Ele se agachou ao lado do filho.

— Campeão, Sarah acabou de nos conhecer. Não podemos sair convidando as pessoas para cozinhar para nós. Além disso, ela deve ter coisas muito mais importantes para fazer.

Seth pareceu decepcionado.

Sarah sorriu.

— Na verdade, Seth, eu adoro cozinhar. Talvez algum dia possamos preparar panquecas juntos, se seu pai concordar e se houver oportunidade.

O menino abriu um sorriso radiante.

— Com chocolate?

— Com chocolate.

— E morango?

— Se você gostar.

— E dinossauros?

Sarah piscou.

— Dinossauros?

Seth ergueu o brinquedo.

— O Rex também precisa comer.

Jacob começou a rir.

Sarah inclinou a cabeça, fingindo analisar a situação.

— Acho que podemos preparar uma panqueca especial para o Rex. Mas precisamos descobrir primeiro se ele prefere chocolate ou carne.

Seth gargalhou tão alto que chamou a atenção de Rachel.

Do outro lado da sala, a anfitriã observou a cena com um sorriso.

Havia muito tempo que não via o sobrinho demonstrar tanta empolgação diante de uma pessoa que acabara de conhecer.

E havia ainda mais tempo que não via Jacob rir daquela maneira durante uma conversa com uma mulher.

20h18 — À mesa

O jantar começou com uma discussão sobre a quantidade de comida preparada por Rachel.

Paul insistia que a esposa havia exagerado.

Emmett argumentava que qualquer quantidade inferior àquela seria uma ofensa pessoal.

Edward tentava impedir que os dois transformassem a refeição numa competição.

Sarah estava sentada entre Bella e Emmett.

Jacob ocupava o lugar à sua frente, com Seth ao lado.

Angela Web chegara pouco antes de todos se sentarem.

Era uma mulher de aparência delicada, cabelos escuros e sorriso gentil. Cumprimentara Rachel com um abraço, beijara Seth na testa e se aproximara de Jacob com naturalidade.

— Jake, quanto tempo! Rachel comentou que você está trabalhando demais novamente.

Jacob sorriu.

— Ela costuma exagerar. Estamos finalizando alguns projetos importantes, mas nada fora do normal.

Angela tocou brevemente seu braço.

— Você sempre diz isso. Espero que esteja cuidando de si mesmo. Seth precisa de um pai descansado, não de um executivo que vive à base de café.

— Pode deixar. Minha irmã já faz questão de me lembrar disso diariamente.

Angela riu.

Depois foi apresentada a Sarah.

— Você é a irmã da Bella? Que prazer finalmente conhecê-la. Ouvi falar muito sobre seu trabalho com gastronomia. Rachel comentou que você é uma chef excelente.

Sarah sorriu.

— Obrigada. Espero que tenham contado apenas as partes boas.

— Pelo que ouvi, você é bastante talentosa. Deve ser maravilhoso trabalhar com algo tão criativo.

A conversa foi interrompida por Paul, que anunciou solenemente que todos deveriam provar seu molho barbecue.

Rachel ergueu os olhos para o teto.

— Paul, pelo amor de Deus, nós já conversamos sobre isso.

— Amor, você precisa permitir que as pessoas tirem suas próprias conclusões. Não podemos viver numa sociedade onde a liberdade gastronômica seja constantemente ameaçada.

Emmett pegou o recipiente.

— Eu apoio essa iniciativa. Afinal, o progresso exige coragem.

Edward observou o irmão.

— Emmett, não faça isso.

— Edward, você precisa aprender a confiar nas pessoas.

Colocou uma quantidade generosa de molho sobre a carne.

Levou o garfo à boca.

Mastigou.

Parou.

Seu rosto começou a ficar vermelho.

Paul inclinou-se para a frente.

— E então?

Emmett pegou o copo de água.

Bebeu tudo.

Depois olhou para o amigo.

— Paul... eu gostaria de saber se você está tentando temperar carne ou desenvolver uma arma de destruição em massa.

A mesa explodiu em gargalhadas.

Rachel colocou a mão sobre o rosto.

— Eu avisei!

Seth começou a rir tão alto que quase caiu da cadeira.

Jacob segurou o filho pela cintura.

— Cuidado, campeão. Não quero precisar explicar ao hospital que você sofreu um acidente provocado pelo molho do tio Paul.

Sarah ria tanto que precisou enxugar uma lágrima.

Emmett apontou para ela.

— Não ria, pequena. Você é chef. Tem a obrigação moral de provar essa atrocidade e emitir um parecer técnico.

Sarah ergueu as sobrancelhas.

— Meu parecer técnico é que o responsável pela receita deveria ser afastado preventivamente da cozinha até a conclusão de uma investigação.

Edward começou a gargalhar.

Paul levou a mão ao peito.

— Fui traído! Convidei uma profissional respeitada para minha casa e ela acaba de destruir minha carreira culinária!

Jacob inclinou-se ligeiramente para Sarah.

— Bem-vinda à família. Aqui as refeições costumam envolver discussões, ameaças de processos e pelo menos uma tentativa de intoxicação alimentar.

Sarah sorriu.

— Estou começando a perceber. E devo dizer que é muito mais divertido do que alguns jantares sofisticados dos quais participei.

Jacob observou o sorriso dela.

Era bonito.

Espontâneo.

Mas desapareceu tão rapidamente quanto surgiu quando o celular de Sarah vibrou sobre a mesa.

A jovem olhou para a tela.

Seu rosto perdeu a cor.

Bella percebeu imediatamente.

— Sarah?

Ela bloqueou o aparelho.

— Está tudo bem. Era apenas uma mensagem.

Edward acompanhou a reação com atenção.

Jacob também percebeu a mudança, embora não compreendesse o motivo.

Sarah tentou retomar a conversa.

Mas suas mãos tremiam discretamente.

20h56 — O jardim

Sarah saiu para o jardim alguns minutos depois.

Dissera a Bella que precisava de ar fresco. Na realidade, precisava controlar a respiração. A mensagem de Alec continuava gravada em sua mente, e ela sentia uma dificuldade crescente em distinguir os perigos reais daqueles que seu medo aprendera a antecipar.

Apoiou as mãos sobre o corrimão da varanda e respirou profundamente, tentando se concentrar nos sons que vinham da casa. As gargalhadas de Emmett, a voz indignada de Rachel e alguma discussão envolvendo Paul.

Era uma noite agradável. Estava cercada de pessoas que não desejavam lhe fazer mal. Precisava se lembrar disso.

— Sarah?

A voz masculina a fez sobressaltar-se.

Ela se virou bruscamente.

Jacob estava parado próximo à porta, segurando duas garrafas de água. Ao perceber sua reação, interrompeu imediatamente o movimento.

— Desculpe. Não queria assustá-la. Vim buscar uma coisa que Seth deixou aqui mais cedo e percebi que você estava sozinha. Trouxe água porque imaginei que talvez precisasse, mas posso deixar a garrafa sobre a mesa e voltar para dentro, se preferir.

Sarah levou a mão ao peito, tentando controlar a respiração.

— Não precisa ir embora. Eu apenas não ouvi você chegando. E aceito a água, obrigada. Acho que a combinação entre o molho do Paul e as histórias constrangedoras do Emmett foi mais intensa do que eu esperava.

Jacob sorriu enquanto lhe entregava a garrafa.

— Se serve de consolo, você sobreviveu à parte mais perigosa da noite. Normalmente, quando Paul e Emmett começam a competir para descobrir quem consegue fazer a maior estupidez, alguém termina com dor de cabeça. Rachel costuma dizer que administrar uma casa com Paul é como cuidar de uma criança de quarenta anos que possui cartão de crédito e acesso à internet.

Sarah soltou uma risada.

— Bella diz exatamente a mesma coisa sobre Emmett. Acho que deveríamos apresentar as duas oficialmente como integrantes de um grupo de apoio para familiares de homens incapazes de amadurecer.

— Seria um grupo bastante movimentado — Jacob concordou, apoiando-se no corrimão a uma distância confortável. — Mas preciso admitir que, apesar de todas as loucuras, aqueles dois foram fundamentais em alguns dos momentos mais difíceis da minha vida. Paul consegue transformar qualquer situação numa piada, e Emmett possui uma capacidade impressionante de fazer as pessoas rirem quando estão convencidas de que não existe absolutamente nada de engraçado no mundo.

Sarah observou o rosto dele.

Havia sinceridade naquelas palavras.

— Percebi isso hoje. Emmett sempre foi assim comigo. Mesmo quando eu era adolescente, ele conseguia me fazer rir nos momentos mais improváveis. Acho que havia esquecido como era bom estar perto dele.

Jacob sorriu.

— Pelo que ouvi, ele também sentiu bastante sua falta. Passou boa parte da semana contando histórias sobre você. Inclusive uma envolvendo um restaurante francês e um chef que aparentemente descobriu, da pior maneira possível, que não deveria discutir com Sarah Swan.

Ela começou a rir.

— Meu Deus, ele realmente contou essa história para todo mundo! Preciso conversar seriamente com aquele homem. Daqui a pouco, vai começar a dizer que expulsei o chef usando uma frigideira como arma.

— Curiosamente, essa foi quase a versão que ele apresentou. Só faltou acrescentar uma perseguição pelos corredores do restaurante.

Os dois riram.

Sarah tomou um gole de água.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.

Jacob olhou brevemente para o jardim antes de voltar a falar.

— A propósito, gostaria de agradecer pela paciência que teve com Seth. Meu filho costuma fazer muitas perguntas, e quando encontra alguém disposto a ouvi-lo, pode conversar durante horas. Acho que você conquistou a confiança dele no instante em que levou a sério o problema médico do dinossauro.

Sarah sorriu imediatamente.

— Seth é encantador. E, sinceramente, achei a história do Rex muito mais interessante do que algumas conversas profissionais que sou obrigada a manter. Além disso, fiquei impressionada com a sinceridade dele. Não é toda criança que consegue apresentar um relatório tão detalhado sobre as habilidades culinárias do próprio pai.

Jacob levou a mão ao peito, fingindo indignação.

— Ah, então vamos voltar à questão das panquecas? Eu deveria ter imaginado que aquela denúncia pública não seria esquecida tão facilmente. Gostaria de registrar, em minha defesa, que Seth exagerou consideravelmente. Minhas panquecas não ficam sempre queimadas. Algumas saem perfeitamente comestíveis, especialmente quando consigo lembrar que o fogo precisa permanecer baixo.

Sarah gargalhou.

— Jacob, eu estava presente quando seu filho afirmou categoricamente que elas ficam pretas, e você não apresentou nenhuma contestação convincente. Como profissional da gastronomia, considero esse silêncio bastante comprometedor.

— Eu estava tentando preservar minha dignidade diante de uma mulher que acabara de conhecer. Infelizmente, meu próprio filho decidiu destruir minha reputação antes que eu tivesse oportunidade de demonstrar qualquer qualidade.

— Bem, pelo menos você tem uma qualidade importante: reconhece suas limitações. Muitos homens seriam incapazes de admitir que precisam de ajuda para preparar uma panqueca.

Jacob inclinou a cabeça, divertido.

— Sarah, se você tivesse visto algumas das minhas tentativas de cozinhar depois que comecei a cuidar sozinho de Seth, compreenderia que admitir minhas limitações não foi exatamente uma escolha. Foi uma questão de sobrevivência. Houve uma ocasião em que consegui queimar o jantar, disparar o alarme de fumaça e convencer meu filho de que estávamos realizando um treinamento de emergência. Rachel apareceu quinze minutos depois e encontrou nós dois sentados na calçada, comendo sanduíches enquanto os bombeiros verificavam a cozinha.

Sarah levou a mão à boca.

— Você está brincando!

— Gostaria muito de estar. E o pior é que Seth achou tudo maravilhoso. Passou uma semana contando na escola que o papai tinha preparado um jantar tão especial que até os bombeiros foram convidados.

A gargalhada de Sarah ecoou pelo jardim.

Jacob também começou a rir, contagiado pela reação dela.

— Preciso confessar que estou começando a compreender por que Seth considera suas panquecas um problema de segurança pública — comentou ela, recuperando o fôlego. — Talvez fosse interessante começar com receitas simples, antes de avançar para preparações que envolvam riscos estruturais à residência.

— Está oferecendo consultoria profissional, senhorita Swan?

Sarah sorriu.

— Estou apenas sugerindo que seu filho merece panquecas que não possam ser confundidas com carvão. Mas, considerando que ele já me convidou para cozinhar, talvez possamos resolver essa questão algum dia.

Jacob observou-a por um instante.

— Você foi muito gentil ao aceitar o convite dele. Só não quero que se sinta obrigada. Seth é bastante persistente quando decide que gosta de alguém, mas compreendo perfeitamente que você tenha seus próprios compromissos.

Sarah sentiu uma satisfação inesperada diante da resposta.

Ele não tentava transformar o entusiasmo do filho numa obrigação.

— Eu sei, Jacob. E agradeço sua preocupação. Mas gosto de crianças e adoro cozinhar. Se houver uma oportunidade, será um prazer preparar panquecas com Seth. Principalmente porque ele parece ter herdado seu talento para argumentar.

Jacob soltou uma gargalhada.

— Infelizmente, nesse aspecto ele puxou muito mais à mãe. Leah conseguia me convencer de praticamente qualquer coisa quando colocava alguma ideia na cabeça.

O nome surgiu naturalmente.

Mas o sorriso de Jacob se tornou mais discreto.

Sarah percebeu.

— Bella me contou sobre sua esposa. Sinto muito pela sua perda, Jacob. Imagino que tenha sido extremamente difícil, principalmente com Seth tão pequeno.

Jacob olhou para o jardim.

Demorou alguns segundos antes de responder.

— Foi a coisa mais difícil que já enfrentei. Leah morreu há dois anos, e às vezes ainda me surpreendo pensando que preciso contar alguma coisa a ela quando chegar em casa. Uma conquista de Seth, uma situação engraçada na empresa, qualquer acontecimento que antes eu dividiria com minha esposa. Acho que a ausência de alguém não está apenas nos grandes momentos. Está principalmente nas pequenas coisas que deixam de acontecer.

Sarah permaneceu em silêncio, respeitando o tempo dele.

Jacob continuou:

— Mas tenho aprendido que lembrar dela não precisa significar apenas sofrer. Seth está crescendo, fazendo perguntas, descobrindo o mundo. Quero que ele conheça a mãe através das histórias que contamos, das fotografias e das lembranças felizes. Não quero que a memória de Leah seja associada somente à tristeza.

Sarah observou a expressão dele.

— Acho isso muito bonito. E acredito que Seth tenha muita sorte por ter um pai que consegue falar da mãe com tanto carinho. Ele ainda é pequeno, mas um dia vai compreender o quanto você se esforçou para preservar essas lembranças.

Jacob sorriu discretamente.

— Obrigado, Sarah.

Ela assentiu.

Não fez outras perguntas.

Não tentou descobrir detalhes sobre o acidente.

E Jacob agradeceu silenciosamente por isso.

Durante alguns instantes, ficaram observando as luzes do jardim, enquanto as gargalhadas dos amigos continuavam vindo da sala.

Até que uma voz infantil interrompeu a tranquilidade.

— PAPAI!

Seth apareceu correndo pela porta da varanda.

Jacob se virou imediatamente.

— O que aconteceu, campeão?

— O tio Emmett disse que você está escondido aqui porque tem medo de perder no videogame!

Jacob fechou os olhos.

— Naturalmente. Eu deveria ter imaginado que aquele homem não conseguiria ficar dez minutos sem inventar alguma provocação.

Seth continuou, absolutamente satisfeito:

— E o tio Paul disse que você está conversando com a moça bonita!

Sarah ficou vermelha.

Jacob passou a mão pelo rosto.

— Vou precisar conversar seriamente com seus tios sobre a quantidade de informações que compartilham com uma criança de cinco anos.

Seth olhou para Sarah.

— Mas você é bonita mesmo!

Ela sorriu.

— Muito obrigada, Seth. Você também é um menino muito bonito.

O menino pareceu satisfeito.

Depois segurou a mão do pai.

— Papai, você vai jogar comigo?

Jacob olhou para Sarah.

— Parece que fui convocado para uma missão importante.

Ela sorriu.

— Imagino que seja impossível recusar uma convocação dessas.

— Absolutamente impossível.

Seth, entretanto, não parecia disposto a encerrar a conversa.

— Sarah, você também pode jogar?

Ela hesitou.

— Não sei se sou muito boa em videogame.

O menino abriu um sorriso confiante.

— Eu ensino! E, se você perder, não tem problema. O papai também perde às vezes.

Jacob ergueu as sobrancelhas.

— Seth Black, estou começando a achar que você pretende passar a noite inteira destruindo minha reputação.

Sarah gargalhou.

— Acho que seu filho está apenas sendo sincero, Jacob. Uma qualidade admirável, embora aparentemente perigosa para a sua autoestima.

Jacob começou a rir.

— Você não imagina o quanto.

Seth segurou a mão de Sarah e começou a conduzi-la para dentro da casa.

Jacob acompanhou os dois.

E, pela primeira vez naquela noite, Sarah percebeu que havia passado vários minutos conversando com um homem desconhecido sem sentir necessidade de justificar cada palavra.

Era uma sensação pequena.

Mas profundamente importante.

Três pessoas caminhando juntas para participar de uma brincadeira.

Nada mais.

Mas, dentro da sala, alguém observou a chegada dos três.

Angela Web sorriu ao ver Seth praticamente arrastando Jacob e Sarah.

— Parece que nosso pequeno resolveu organizar uma equipe — comentou gentilmente.

Rachel riu.

— Seth faz isso quando gosta de alguém.

Angela observou a maneira como o menino falava animadamente com Sarah.

— Ela parece muito simpática.

— É mesmo — Rachel respondeu. — Bella sempre falou muito bem da irmã.

Angela assentiu.

Não havia motivo para pensar qualquer coisa além disso.

Jacob estava apenas sendo educado com uma convidada.

E Seth sempre fora uma criança afetuosa.

Ainda assim, Angela percebeu que gostaria de ter sido convidada para aquela brincadeira.

Afastou o pensamento.

Depois se aproximou dos demais.

— Posso participar também? — perguntou, sorrindo para o menino.

Seth ergueu o rosto.

— Pode! Mas você vai ficar no time do tio Paul, porque eu já escolhi o papai e a Sarah.

Paul soltou uma gargalhada.

— Excelente! Finalmente alguém reconheceu meu talento!

Emmett apontou para ele.

— Paul, da última vez você perdeu para uma criança de cinco anos.

— Porque deixei!

Seth cruzou os braços.

— Não deixou, não. Eu ganhei de verdade!

A sala inteira começou a rir.

Angela também.

E a noite continuou.

22h06 — A despedida

Sarah estava mais cansada do que imaginara.

Não fisicamente, embora ainda sentisse algum desconforto nas costelas, mas emocionalmente.

Havia conversado, rido, conhecido pessoas e passado algumas horas sem pensar constantemente em Alec.

Era uma conquista.

Mas também era exaustivo.

Bella percebeu quando a irmã começou a ficar mais silenciosa.

Aproximou-se discretamente.

— Quer ir embora?

Sarah olhou para ela.

— Você se importa?

— Claro que não. Edward já está pegando nossos casacos.

Sarah sorriu.

— Obrigada. Foi uma noite maravilhosa, mas acho que cheguei ao meu limite.

Bella abraçou-a.

— Então vamos para casa.

Enquanto se despediam, Rachel aproximou-se de Sarah.

— Fiquei muito feliz que tenha vindo. Espero que volte outras vezes. E, se algum dia quiser conversar ou simplesmente tomar um café, será muito bem-vinda.

Sarah sorriu sinceramente.

— Obrigada, Rachel. Gostei muito de conhecer você e sua família.

Paul apareceu logo atrás.

— E espero que, na próxima visita, você esteja disposta a me ensinar alguns segredos culinários. Tenho certeza de que existe um grande chef escondido dentro de mim.

Sarah ergueu as sobrancelhas.

— Paul, depois de experimentar seu molho barbecue, acredito que o primeiro passo seja descobrir como impedir que esse chef represente uma ameaça à população.

Emmett gargalhou.

— Eu amo essa mulher!

Jacob aproximou-se com Seth no colo.

O menino estava sonolento, com a cabeça apoiada no ombro do pai.

Quando viu Sarah, ergueu o rosto.

— Você já vai?

Ela sorriu.

— Vou, campeão. Está ficando tarde.

Seth pareceu decepcionado.

— Mas você prometeu fazer panquecas.

Sarah inclinou-se ligeiramente.

— Eu disse que talvez pudéssemos fazer panquecas juntos algum dia. E continuo achando que seria divertido.

O menino olhou para o pai.

— Papai, a gente pode convidar a Sarah para nossa casa?

Jacob sorriu, embora parecesse um pouco constrangido.

— Seth, meu filho, não podemos organizar a agenda das pessoas sem perguntar se elas têm tempo. Sarah trabalha bastante, e talvez prefira descansar nos fins de semana.

Sarah percebeu o cuidado dele.

A maneira como não transformava o pedido do filho numa obrigação.

— Jacob, está tudo bem. Eu realmente gostaria de cozinhar com Seth algum dia. Só precisamos encontrar uma ocasião adequada.

O menino sorriu.

— Com chocolate?

Sarah riu.

— Com muito chocolate.

Jacob balançou a cabeça.

— Estou começando a achar que meu filho encontrou uma maneira bastante eficiente de conseguir sobremesas.

— É uma habilidade importante — Sarah respondeu. — Principalmente aos cinco anos.

Jacob sorriu.

— Foi um prazer conhecê-la, Sarah. Espero que tenha gostado da noite, apesar da falta de organização dos nossos amigos.

Ela olhou para Emmett e Paul, que discutiam sobre o resultado do videogame.

— Na verdade, acho que a falta de organização foi uma das melhores partes.

Jacob riu.

— Então você realmente se encaixou no grupo.

Sarah sorriu.

— Boa noite, Jacob.

— Boa noite, Sarah. Cuide-se.

A expressão foi simples.

Natural.

Mas Sarah percebeu que ele a pronunciara sem qualquer intenção de controlar suas escolhas.

Apenas como um desejo sincero.

E aquilo lhe pareceu estranhamente reconfortante.

23h14 — Residência Black

Seth já dormia quando Jacob entrou no quarto.

Colocou o menino cuidadosamente na cama, ajeitou o cobertor e depositou um beijo em sua testa.

O dinossauro verde estava preso entre seus braços.

Jacob sorriu.

— Boa noite, campeão.

Quando se preparava para sair, ouviu a voz sonolenta do filho.

— Papai?

— Sim?

Seth abriu os olhos apenas o suficiente para enxergá-lo.

— Eu gostei da Sarah.

Jacob acariciou seus cabelos.

— Percebi. Você passou metade da noite tentando convencê-la a preparar panquecas.

O menino sorriu.

— Ela é legal.

— É sim. Parece ser uma pessoa muito gentil.

Seth ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois perguntou:

— Ela vai ser nossa amiga?

Jacob observou o filho.

Havia algo na pergunta que o emocionou.

Seth não estava pedindo uma nova mãe.

Não estava procurando alguém para substituir Leah.

Apenas desejava saber se aquela mulher simpática, que levara suas histórias sobre dinossauros a sério, poderia voltar a fazer parte de suas brincadeiras.

Jacob sorriu.

— Acho que sim, campeão. Se ela quiser, podemos ser amigos.

Seth pareceu satisfeito.

— Então está bom.

Fechou os olhos.

Poucos minutos depois, adormeceu novamente.

Jacob permaneceu ao lado da cama por algum tempo.

Pensou na noite.

Nas brincadeiras de Paul e Emmett.

Na preocupação constante de Rachel.

Na maneira como Seth havia se divertido.

E, por um breve instante, lembrou-se do sorriso de Sarah Swan.

Não havia nada de extraordinário naquela lembrança.

Apenas uma mulher bonita, de olhos verdes, que parecera genuinamente interessada nas histórias de seu filho.

Jacob apagou a luz.

E foi dormir.

23h38 — Apartamento dos Cullen

Sarah estava sentada na cama quando Bella apareceu à porta.

— Posso entrar?

— Claro.

A irmã sentou-se ao seu lado.

— Então? O que achou da noite?

Sarah sorriu.

— Foi melhor do que eu esperava. Rachel é maravilhosa, Paul é completamente maluco e Emmett continua sendo a criatura mais exagerada que já conheci.

Bella riu.

— E Jacob?

Sarah pareceu surpresa com a pergunta.

— Jacob?

— Sim. Você finalmente conheceu o famoso presidente da Black Automotivos.

Sarah refletiu.

— Ele parece ser um homem muito educado. E um pai extraordinário. Gostei da maneira como conversa com Seth. Não trata o menino como alguém incapaz de compreender as coisas. Explica, brinca, escuta... Dá para perceber que existe muito amor entre os dois.

Bella assentiu.

— Jacob passou por momentos muito difíceis depois da morte de Leah. Edward me contou que houve uma época em que ele praticamente não saía de casa, exceto para trabalhar. Seth foi fundamental para que conseguisse continuar.

Sarah ficou pensativa.

— Deve ser terrível perder alguém que amamos daquela maneira.

— Deve.

Houve um breve silêncio.

Então Bella perguntou:

— E você? Como se sentiu?

Sarah olhou para as próprias mãos.

— Estranhamente normal. Durante algumas horas, consegui conversar com pessoas sem ficar pensando se estava dizendo alguma coisa errada. Consegui rir. Até joguei videogame com uma criança de cinco anos que aparentemente é muito melhor do que eu.

Bella sorriu.

— Isso é maravilhoso.

Sarah assentiu.

— É. Mas também me assustou um pouco. Porque percebi quanto tempo passei sem fazer coisas tão simples. Eu tinha esquecido como era agradável estar num lugar onde ninguém precisava medir cada palavra.

Bella segurou sua mão.

— Você vai ter muitas outras noites assim.

Sarah olhou para a irmã.

— Espero que sim.

Depois se levantou e caminhou até a janela.

A cidade estava iluminada.

Pela primeira vez, aquelas luzes não lhe pareceram tão distantes.

Talvez ainda existisse uma vida esperando por ela.

Uma vida que não precisasse ser construída em torno do medo.

Domingo — 00h17

Alec Volturi estava sozinho no escritório quando recebeu uma mensagem de um conhecido.

Era uma fotografia publicada numa rede social.

Uma imagem aparentemente inocente de um jantar entre amigos.

Paul e Emmett apareciam fazendo caretas para a câmera. Rachel sorria ao lado de Bella. Edward estava parcialmente escondido atrás do irmão.

E Sarah...

Sarah aparecia sentada no sofá, sorrindo.

Alec ampliou a fotografia.

Observou o vestido verde.

Os cabelos soltos.

O sorriso.

Ela parecia feliz.

Feliz.

Depois de tudo o que havia acontecido.

Depois de abandonar o apartamento.

Depois de ignorar suas chamadas.

Alec sentiu a mandíbula endurecer.

Continuou examinando a imagem.

Havia um homem sentado próximo ao sofá, segurando um menino pequeno no colo.

Jacob Black.

O empresário da Black Automotivos.

Alec conhecia o nome, embora nunca tivesse tido motivos para prestar atenção especial nele.

Observou a fotografia por alguns segundos.

Depois voltou os olhos para Sarah.

Não havia nada na imagem que sugerisse qualquer envolvimento entre os dois.

Mas isso pouco importava.

Sarah estava sorrindo numa casa cheia de pessoas que Alec não controlava.

E aquilo era suficiente para despertar sua irritação.

Ele bloqueou o celular.

Levantou-se.

Caminhou até a janela.

A cidade continuava iluminada, indiferente à sua fúria.

Alec respirou profundamente.

Não enviou nenhuma mensagem.

Não fez nenhuma ligação.

Apenas tomou uma decisão.

Se Sarah acreditava que poderia simplesmente reconstruir a própria vida sem ele, estava prestes a descobrir que algumas escolhas tinham consequências.

E Alec Volturi sempre fora um homem que gostava de controlar as consequências.

Naquela noite, Sarah Swan adormeceu pensando que talvez estivesse começando a recuperar sua liberdade.

Jacob Black dormiu com a tranquilidade de quem havia proporcionado ao filho uma noite feliz.

Angela Web voltou para casa depois de um jantar agradável entre amigos, satisfeita por ter passado algumas horas na companhia das pessoas de quem gostava.

E Alec Volturi permaneceu acordado, observando uma fotografia que não conseguia esquecer.

Quatro pessoas.

Quatro histórias.

E um futuro que nenhuma delas seria capaz de prever.