ENTRE CICATRIZES E RECOMEÇOS
4 CAPÍTULO 4 — PEQUENAS APROXIMAÇÕES
Recomeçar não significa esquecer o passado. Significa descobrir que ele já não precisa decidir todos os nossos passos.
Domingo — Nova York, 8h23
Sarah Swan despertou com uma sensação estranha.
Não havia sido um pesadelo. Nenhum barulho a assustara, nenhuma lembrança desagradável interrompera seu sono. Pela primeira vez desde que chegara à casa da irmã, simplesmente acordara porque a luz da manhã atravessava as cortinas.
Permaneceu deitada durante alguns minutos, observando o teto.
O silêncio era agradável.
Não precisava levantar antes de Alec. Não precisava verificar o humor dele antes de escolher a roupa, preparar o café ou decidir como passaria o domingo. Ninguém entraria no quarto exigindo explicações por ela ainda estar na cama.
A liberdade, descobria Sarah, podia se manifestar nas coisas mais simples.
Virou-se de lado e encontrou o celular sobre a mesa de cabeceira.
A tela estava apagada.
Havia deixado as notificações de Alec silenciadas, seguindo a orientação de Edward para preservar as mensagens sem precisar ser constantemente interrompida por elas.
Ainda assim, sentiu um aperto no estômago ao pensar no aparelho.
Não o pegou.
Em vez disso, levantou-se, abriu as cortinas e deixou a claridade invadir o quarto.
Depois caminhou até o espelho.
Os hematomas começavam a desaparecer, embora a região próxima ao lábio ainda estivesse sensível. Tocou delicadamente a própria face e observou os olhos verdes refletidos diante dela.
Durante meses, evitara olhar demoradamente para o próprio rosto.
Não gostava da mulher que encontrava no espelho.
Não por causa da aparência.
Mas porque aquela mulher parecia sempre cansada, assustada e profundamente infeliz.
Naquela manhã, entretanto, percebeu alguma coisa diferente.
Ainda estava com medo.
Ainda não sabia o que faria com sua vida.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, sentia vontade de descobrir.
Vestiu uma calça confortável, prendeu os longos cabelos negros e saiu do quarto.
O cheiro de café vinha da cozinha.
Quando chegou, encontrou Edward diante do fogão, segurando uma frigideira com uma expressão que lembrava a de um homem tentando desarmar um explosivo.
Sarah parou na porta.
— Edward Cullen, posso saber exatamente o que você está fazendo?
O cunhado virou-se.
— Bom dia para você também. Estou preparando o café da manhã.
Sarah observou a frigideira.
Depois olhou para o prato sobre a bancada.
Havia algo que provavelmente deveria ser um ovo mexido.
Provavelmente.
— Você está tentando preparar ovos ou realizando um experimento científico?
Edward olhou para a frigideira.
— Gostaria de registrar que esta receita parecia muito mais simples quando assisti ao vídeo.
Sarah começou a rir.
— Você seguiu as instruções?
— Quase todas.
— O que significa quase todas?
Edward hesitou.
— Aparentemente, existe uma diferença importante entre fogo médio e fogo alto.
Sarah levou a mão à testa.
— Meu Deus. Você e Jacob Black deveriam fundar uma associação.
Edward ergueu as sobrancelhas.
— Jacob? O que ele tem a ver com isso?
— Seth me contou ontem que o pai queima panquecas. Jacob confirmou que suas experiências culinárias já provocaram até uma visita dos bombeiros.
Edward começou a gargalhar.
— Ele contou essa história?
— Contou. E preciso dizer que fiquei impressionada. Nunca imaginei que dois homens responsáveis por uma empresa milionária fossem incapazes de preparar um café da manhã sem colocar a própria residência em risco.
Edward desligou o fogão.
— Em nossa defesa, somos excelentes em outras atividades.
Sarah pegou a frigideira.
— Espero sinceramente que sejam. Porque, se a sobrevivência da Black Automotivos dependesse das habilidades culinárias de seus diretores, eu recomendaria uma intervenção urgente.
Edward sorriu enquanto a observava assumir o controle da cozinha.
Era a primeira vez, desde sua chegada, que Sarah parecia inteiramente à vontade fazendo alguma coisa.
— Sabe, Sarah, ontem foi bom ver você sorrindo novamente.
Ela diminuiu o movimento da colher.
— Eu me diverti. Mais do que esperava.
— Bella ficou feliz. Ela estava preocupada que o jantar fosse cansativo demais para você.
Sarah assentiu.
— Foi um pouco. Mas também foi importante. Acho que precisava lembrar como é conversar com pessoas sem sentir que estou sendo avaliada o tempo inteiro.
Edward permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois se aproximou da bancada.
— Sarah, preciso conversar com você sobre uma coisa. Mas podemos esperar até depois do café, se preferir.
Ela reconheceu imediatamente a seriedade em sua voz.
— É sobre Alec?
Edward assentiu.
— Sobre alguns documentos que você me enviou ontem.
Sarah desligou o fogão.
O pouco de tranquilidade que sentira naquela manhã começou a desaparecer.
— Encontrou alguma coisa?
— Encontrei algumas cláusulas que merecem atenção. Ainda não tenho todas as informações, e não quero assustá-la com conclusões precipitadas. Mas acho importante examinarmos esses contratos juntos.
Sarah apoiou as mãos sobre a bancada.
— Edward, por favor, não tente me proteger escondendo informações. Passei muito tempo ouvindo que determinados assuntos eram complicados demais para mim. Se existe alguma coisa errada, prefiro saber.
Ele a observou com respeito.
— Está bem. Então vamos conversar depois do café. E prometo explicar tudo o que consegui identificar, inclusive aquilo sobre o que ainda tenho dúvidas.
Sarah assentiu.
Mas a tranquilidade daquela manhã já não era a mesma.
9h17 — Residência Black
— Papai, você sabe fazer panquecas de dinossauro?
Jacob Black estava sentado à mesa da cozinha, examinando alguns documentos no tablet, quando Seth surgiu carregando uma folha de papel.
O empresário ergueu os olhos.
— Panquecas de dinossauro?
— É. Em formato de dinossauro.
Jacob observou o desenho.
Havia uma criatura verde com uma cabeça enorme, quatro pernas e algo que provavelmente deveria ser uma cauda.
— Campeão, considerando minhas dificuldades para preparar panquecas redondas, acredito que tentar fazer uma no formato de um tiranossauro seria uma decisão bastante arriscada.
Seth franziu a testa.
— Mas a Sarah sabe.
Jacob sorriu.
— Imagino que saiba. Sarah é uma chef profissional.
— Então a gente precisa chamar ela.
Jacob deixou o tablet sobre a mesa.
— Seth, meu filho, nós conversamos sobre isso ontem. Sarah foi muito gentil quando disse que gostaria de cozinhar com você algum dia, mas isso não significa que podemos convidá-la imediatamente. Ela tem trabalho, compromissos e uma vida própria.
O menino pareceu refletir.
— Mas hoje é domingo.
— Eu sei.
— E domingo é dia de fazer panquecas.
— Nem sempre.
— Mas pode ser.
Jacob soltou uma gargalhada.
— Você está ficando muito bom em argumentar. Acho que passar tanto tempo perto de Edward está começando a produzir efeitos perigosos.
Seth subiu na cadeira.
— Papai, você gostou da Sarah?
A pergunta surpreendeu Jacob.
— Gostei. Ela parece ser uma pessoa muito simpática.
— Ela sabe muito de dinossauros.
— Percebi.
— E ela riu das suas histórias.
Jacob ergueu as sobrancelhas.
— Ah, então você estava prestando atenção?
Seth assentiu.
— Você ficou feliz.
Jacob permaneceu imóvel por um instante.
— Eu estava me divertindo, campeão. Foi uma noite agradável.
O menino sorriu.
— Eu gosto quando você fica feliz.
Jacob sentiu uma emoção inesperada.
Aproximou-se e acariciou os cabelos do filho.
— Eu também gosto quando você fica feliz. E ontem você parecia estar se divertindo bastante.
Seth abraçou o dinossauro.
— Então podemos fazer outro jantar.
Jacob riu.
— Podemos, sim. Mas primeiro precisamos sobreviver a esta manhã. E, falando nisso, você ainda não terminou seu café.
O menino olhou para a tigela de cereal.
Depois para o pai.
— Papai?
— O quê?
— Se você casar com uma cozinheira, nunca mais vai queimar panquecas.
Jacob quase engasgou com o café.
— SETH!
O menino começou a gargalhar.
— Foi o tio Paul que disse!
Jacob fechou os olhos.
Precisava urgentemente conversar com Paul Lahote.
10h42 — Apartamento dos Cullen
Edward espalhou alguns documentos sobre a mesa da sala.
Bella estava sentada ao lado de Sarah, enquanto Emmett, que aparecera sem avisar trazendo café e uma caixa de doces, ocupava a poltrona em frente.
O advogado ajustou os óculos e começou:
— Sarah, examinei os arquivos que você enviou. A maioria corresponde a contratos comerciais normais, relacionados à prestação de serviços gastronômicos, consultorias e desenvolvimento de cardápios. Entretanto, encontrei um documento que merece atenção especial.
Sarah observou a folha que Edward colocou diante dela.
Reconheceu imediatamente o logotipo.
Swan Gastronomy Consulting.
Era o nome de uma empresa criada meses antes, quando Alec sugerira que ela formalizasse parte de suas atividades profissionais.
— Eu me lembro desse contrato — respondeu. — Alec disse que seria uma maneira de organizar meus projetos e facilitar a entrada de investidores.
Edward assentiu.
— A constituição da empresa, isoladamente, não é o problema. O que me chamou a atenção foi um instrumento posterior, pelo qual você aparentemente autorizou determinadas operações financeiras e assumiu obrigações relacionadas a investimentos realizados por outra sociedade.
Sarah franziu a testa.
— Não entendi.
Edward aproximou o documento.
— Aqui existe uma cláusula que prevê responsabilidade por determinadas obrigações financeiras vinculadas ao projeto. Preciso verificar a extensão jurídica dessa responsabilidade e se houve efetiva contratação das operações mencionadas. O documento também faz referência a um anexo que não estava entre os arquivos enviados.
Sarah examinou a assinatura.
Era sua.
Ou, pelo menos, parecia ser.
— Eu não me lembro de ter discutido isso com Alec.
Emmett inclinou-se para a frente.
— Você está dizendo que aquele sujeito pode ter colocado dívidas no nome dela?
Edward ergueu a mão.
— Estou dizendo que existe um documento que precisa ser esclarecido. Ainda não sabemos se houve operações financeiras, quais valores estariam envolvidos ou se as cláusulas são juridicamente exigíveis. Não podemos tirar conclusões antes de reunir as informações.
Sarah continuava olhando para a folha.
— Alec me entregava muitos documentos para assinar. Às vezes dizia que eram apenas formalidades. Quando eu pedia para ler com calma, ele ficava irritado e dizia que eu estava demonstrando falta de confiança.
Bella apertou os lábios.
— Sarah...
— Houve uma vez em que ele colocou uma pilha de papéis sobre a mesa durante o jantar. Eu estava exausta, tinha trabalhado quase quatorze horas. Ele disse que precisava da minha assinatura antes da manhã seguinte, porque um investidor estava esperando. Eu tentei perguntar do que se tratava, mas ele começou a dizer que eu não valorizava o esforço que fazia para me ajudar.
Edward observou a cunhada.
— Você se lembra de quando isso aconteceu?
Sarah pensou por alguns instantes.
— Talvez quatro ou cinco meses atrás. Eu tinha acabado de voltar de um evento gastronômico em Chicago.
Edward fez uma anotação.
— Certo. Vou precisar verificar os documentos originais, a sequência das assinaturas e a existência dos anexos. Também precisamos identificar quais operações efetivamente ocorreram. Você tem acesso às contas bancárias da empresa?
Sarah hesitou.
— Tenho acesso a uma conta, mas Alec costumava cuidar da parte financeira. Ele dizia que eu deveria me concentrar na cozinha.
Emmett soltou um palavrão.
Edward lançou-lhe um olhar.
— Emmett, por favor.
— Desculpe, mas está ficando difícil manter a educação quando descubro mais uma maneira pela qual aquele desgraçado tentou controlar a vida dela.
Sarah baixou os olhos.
— Eu me sinto tão estúpida.
Bella segurou imediatamente sua mão.
— Não diga isso.
Sarah respirou fundo.
— Mas é verdade. Eu sou capaz de analisar um contrato de fornecimento, negociar com investidores, administrar equipes inteiras. E, mesmo assim, assinei documentos sem compreender completamente o que estava fazendo.
Edward inclinou-se na direção dela.
— Sarah, a situação que você descreve envolve uma relação de confiança pessoal e possíveis pressões psicológicas. Isso é relevante para compreender as circunstâncias em que os documentos foram assinados. Não significa que você seja incapaz ou irresponsável. Significa que precisamos investigar os fatos e avaliar as consequências jurídicas.
Sarah olhou para ele.
— Você acha que Alec fez isso de propósito?
Edward demorou a responder.
— Ainda não posso afirmar qual era a intenção dele. Mas quero descobrir exatamente o que aconteceu. E, para isso, precisaremos reunir documentos, extratos, comunicações e informações sobre os projetos.
Emmett cruzou os braços.
— E eu quero estar presente quando descobrirmos.
Edward suspirou.
— Você pode ajudar sem ameaçar ninguém.
— Não prometo gostar dessa condição.
Bella revirou os olhos.
Sarah, apesar da preocupação, soltou uma pequena risada.
Mas a sensação que a acompanhava era inquietante.
Havia fugido de Alec acreditando que deixara para trás um relacionamento abusivo.
Agora começava a compreender que talvez existissem consequências que ainda desconhecia.
12h16 — Um restaurante em Manhattan
Alec Volturi estava sentado diante de um homem de aproximadamente cinquenta anos, cabelos grisalhos e expressão cautelosa.
Martin Hayes era advogado empresarial.
Trabalhava havia anos com contratos comerciais e conhecia Alec por intermédio de alguns investidores.
Sobre a mesa havia uma pasta.
— Alec, preciso compreender exatamente o que você pretende — disse Martin, depois de examinar os documentos. — Você me pediu uma análise sobre a situação contratual de Sarah Swan, mas parte dos instrumentos envolve obrigações empresariais que não podem ser tratadas como consequência automática do término de um relacionamento.
Alec apoiou os braços sobre a mesa.
— Não estou tentando misturar assuntos pessoais e profissionais. Quero apenas saber quais direitos possuo em relação aos investimentos que realizei.
Martin observou-o por alguns segundos.
— Então precisamos separar as coisas. Se existem aportes financeiros legítimos, contratos válidos e obrigações exigíveis, isso pode ser analisado. Mas não vou recomendar qualquer medida destinada a pressionar sua ex-noiva a retomar uma relação pessoal.
Alec sorriu discretamente.
— Você está interpretando mal minhas intenções.
— Espero que sim.
O advogado fechou a pasta.
— Também preciso examinar os documentos completos. Há referências a anexos que você não me entregou. E quero saber se Sarah recebeu cópias de todos os instrumentos.
Alec permaneceu em silêncio por um instante.
— Posso providenciar o restante.
— Faça isso. E, Alec, considerando o que me contou sobre o afastamento de vocês, recomendo que qualquer comunicação necessária seja feita por vias apropriadas, sem insistência pessoal ou ameaças. Não quero meu nome associado a uma tentativa de intimidação.
O sorriso de Alec desapareceu por uma fração de segundo.
Depois retornou.
— Naturalmente. Não tenho interesse em criar problemas.
Martin assentiu.
Mas, quando o encontro terminou, permaneceu observando o homem que se afastava.
Havia alguma coisa naquela conversa que o deixara desconfortável.
Não pelos documentos em si.
Mas pela maneira como Alec falava de Sarah.
Como se ela fosse um investimento que se recusava a reconhecer seu proprietário.
14h35 — Residência Black
Jacob estava sentado no chão da sala, cercado por peças de montar, quando Paul entrou sem bater.
— Boa tarde, família! Vim trazer alegria, entusiasmo e minha presença absolutamente indispensável.
Jacob ergueu os olhos.
— Paul, algum dia você vai descobrir a utilidade de uma campainha?
— Espero sinceramente que não. Seria o fim da espontaneidade entre nós.
Seth correu até ele.
— Tio Paul!
Paul o ergueu nos braços.
— Meu pequeno campeão! Como está o homem mais inteligente desta casa?
— Bem! Eu fiz um desenho para a Sarah!
Jacob fechou os olhos.
Paul abriu um sorriso enorme.
— Para a Sarah?
Seth assentiu.
— É um dinossauro comendo panquecas!
Paul olhou imediatamente para Jacob.
— Ah, meu amigo...
— Não comece.
— Eu nem disse nada!
— Conheço essa expressão.
Paul colocou Seth no chão e aproximou-se do amigo.
— Então quer dizer que meu afilhado passou a manhã inteira pensando numa bela mulher de olhos verdes que conheceu ontem?
Jacob ergueu uma sobrancelha.
— Meu filho passou a manhã inteira pensando em panquecas. A mulher de olhos verdes é apenas a pessoa que ele acredita ser capaz de prepará-las.
Paul colocou a mão no peito.
— Jacob, você consegue transformar até uma situação romântica numa análise operacional.
— Não existe situação romântica alguma. Sarah é irmã da Bella, amiga do Emmett e uma pessoa que conheci ontem. Seth gostou dela porque ela foi gentil e demonstrou interesse pelas histórias dele. Só isso.
Paul observou o amigo por alguns segundos.
Depois sua expressão ficou um pouco mais séria.
— Jake, não estou tentando empurrar você para um relacionamento. Sei o que Leah significou para você. Sei o que ainda significa. Mas às vezes fico preocupado quando vejo que você parece acreditar que qualquer possibilidade de gostar de alguém seria uma espécie de deslealdade à memória dela.
Jacob ficou em silêncio.
Paul sentou-se ao seu lado.
— Você sabe que eu amava Leah como uma irmã. Todos nós amávamos. E sinto falta dela. Mas também sinto falta de algumas partes de você que desapareceram depois do acidente. Não estou dizendo que Sarah seja a resposta para nada. Nem sequer a conheço direito. Só gostaria que você não precisasse se defender toda vez que alguém menciona a possibilidade de ser feliz novamente.
Jacob olhou para as peças espalhadas no chão.
— Não é tão simples, Paul.
— Eu sei.
— Leah não era apenas minha esposa. Era minha melhor amiga. Nós crescemos juntos, construímos planos, tivemos Seth. E, de repente, tudo acabou. Passei dois anos tentando compreender como continuar vivendo sem ela. Às vezes, quando as pessoas falam sobre conhecer outra mulher, parece que esperam que eu simplesmente encerre um capítulo e comece outro. Mas não funciona assim.
Paul assentiu.
— Eu não espero isso. E Rachel também não. Só queremos que você saiba que, se um dia sentir alguma coisa por alguém, não precisa se punir por isso.
Jacob respirou profundamente.
— Talvez um dia. Mas não agora.
Paul colocou a mão em seu ombro.
— Tudo bem, irmão.
O silêncio durou alguns segundos.
Então Seth apareceu carregando o desenho.
— Tio Paul, você pode me ajudar a escrever o nome da Sarah?
Paul olhou para Jacob.
Depois para o menino.
Um sorriso travesso surgiu em seu rosto.
— Claro, campeão. Vamos fazer um desenho tão bonito que ela vai querer colocar na geladeira.
Jacob suspirou.
— Paul...
— O quê? Estou apenas incentivando as habilidades artísticas do meu sobrinho.
— Você é impossível.
Paul gargalhou.
— E você me ama mesmo assim.
16h08 — Apartamento dos Cullen
Sarah estava sentada diante do notebook quando recebeu uma chamada de vídeo de Rosalie Hale Cullen.
A esposa de Emmett apareceu na tela com os cabelos loiros presos num coque elegante e uma expressão divertida.
— Sarah Swan! Finalmente consigo falar com você sem precisar ameaçar meu marido para que ele me empreste o telefone.
Sarah sorriu.
— Rose! Como você está?
— Muito melhor agora que sei que você está perto de nós novamente. Emmett passou os últimos dois dias falando de você. Acho que já ouvi pelo menos seis vezes a história da massa que preparou na sexta-feira. Estou começando a suspeitar que ele se casou comigo por engano e que seu verdadeiro amor sempre foi a sua comida.
Sarah gargalhou.
— Você sabe que Emmett se apaixona por qualquer coisa que envolva queijo e carboidratos.
— Infelizmente, sei. Mas falando sério, querida, gostaria de encontrar você esta semana. Sem pressão, sem compromissos. Podemos tomar um café ou simplesmente conversar.
Sarah sorriu.
— Eu gostaria muito.
Rosalie observou-a por um instante.
— Bella me contou um pouco do que aconteceu. Não vou fazer perguntas que você não queira responder. Só quero que saiba que estou aqui. E que não precisa fingir estar bem para me encontrar.
Sarah sentiu os olhos marejarem.
— Obrigada, Rose. Acho que ainda estou tentando descobrir como conversar sobre tudo isso sem sentir vergonha.
Rosalie suavizou a expressão.
— Então não precisa conversar sobre isso agora. Podemos falar de roupas, restaurantes, trabalho, das idiotices do Emmett ou de qualquer outra coisa. Sua vida não se resume ao que aconteceu com Alec.
Sarah respirou profundamente.
— Acho que precisava ouvir isso.
— Ótimo. Então considere nossa conversa uma intervenção feminina absolutamente necessária. E, Sarah?
— Sim?
— Você continua sendo uma mulher extraordinária. Não permita que um homem que não soube respeitá-la seja responsável por definir a maneira como você se enxerga.
Sarah sorriu.
— Vou tentar.
Depois de desligar, permaneceu alguns minutos olhando para a tela.
Talvez reconstruir a própria vida não fosse apenas encontrar um novo apartamento ou reorganizar os contratos profissionais.
Talvez também significasse recuperar as pessoas que havia perdido pelo caminho.
18h27 — Residência de Rachel e Paul
Angela Web estava sentada no sofá, folheando uma revista, enquanto Rachel organizava algumas fotografias no computador.
As duas haviam combinado de escolher imagens para um álbum de aniversário de Seth.
O menino completaria seis anos dentro de alguns meses, e Rachel queria preparar uma surpresa especial.
— Olhe esta — comentou Rachel, mostrando uma fotografia do sobrinho coberto de tinta durante uma atividade escolar. — Jacob quase enlouqueceu quando Seth chegou em casa daquele jeito.
Angela começou a rir.
— Lembro dessa história. Ele me mandou uma mensagem perguntando se tinta guache saía de estofado de couro.
Rachel gargalhou.
— Meu irmão consegue administrar uma empresa inteira, mas entra em pânico quando precisa lidar com alguma coisa que não pode resolver usando uma planilha.
Angela sorriu.
— Ele sempre foi muito responsável.
Rachel assentiu.
— Desde pequeno. Às vezes acho que assumiu responsabilidades demais cedo demais.
Angela observou a fotografia de Jacob e Seth na tela.
— Você acha que ele está melhor?
Rachel entendeu imediatamente a pergunta.
— Acho que sim. Ainda sente muita falta de Leah, naturalmente. Mas está mais presente, mais disposto a sair, a conversar. Ontem, por exemplo, parecia estar se divertindo.
Angela sorriu.
— Foi uma noite agradável. Gostei de conhecer Sarah. Ela parece muito simpática.
— É mesmo. Bella ficou emocionada por conseguir levá-la ao jantar. Pelo que entendi, Sarah passou por um período bastante difícil.
Angela franziu a testa.
— Espero que esteja tudo bem com ela.
— Também espero. Bella não entrou em detalhes, e prefiro respeitar a privacidade da irmã.
Angela assentiu.
Depois voltou a olhar para as fotografias.
— Seth parece ter gostado bastante dela.
Rachel riu.
— Seth gosta de qualquer pessoa que saiba conversar sobre dinossauros. E Sarah ainda prometeu fazer panquecas. Acho que conquistou nosso pequeno pela gastronomia.
Angela sorriu.
— Ele é um menino adorável.
Rachel observou a amiga.
— Angie, você nunca pensou em ter filhos?
Angela pareceu surpresa.
— Já pensei. Mas acho que algumas coisas precisam acontecer no momento certo.
— Você seria uma ótima mãe.
Angela sorriu com delicadeza.
— Obrigada.
A conversa continuou naturalmente.
Rachel não percebeu nada de estranho.
Para ela, Angela era apenas uma amiga antiga, carinhosa e presente, que sempre demonstrara afeto por sua família.
E Angela parecia perfeitamente satisfeita em continuar fazendo parte daquele círculo de amizade.
21h13 — Apartamento dos Cullen
Sarah estava terminando de organizar alguns arquivos quando seu celular tocou.
Era um número desconhecido.
Ela observou a tela.
Não atendeu.
A ligação terminou.
Segundos depois, chegou uma mensagem.
Boa noite, Sarah. Meu nome é Martin Hayes. Sou advogado e fui procurado para analisar algumas questões contratuais relacionadas à Swan Gastronomy Consulting. Gostaria de saber se você possui representação jurídica para que possamos estabelecer contato pelos canais apropriados.
Sarah leu a mensagem duas vezes.
Depois levantou-se e foi até o escritório de Edward.
Ele estava diante do computador, analisando alguns documentos.
— Edward?
O cunhado ergueu os olhos.
— O que aconteceu?
Sarah entregou o celular.
Edward leu a mensagem.
Sua expressão ficou séria.
— Você conhece esse advogado?
— Nunca ouvi falar dele.
Edward observou o nome.
— Martin Hayes. Conheço a reputação profissional dele. Atua principalmente com direito empresarial e contratos comerciais.
Sarah sentiu o estômago apertar.
— Alec contratou um advogado?
— É possível. Mas ainda não sabemos exatamente o que ele pretende.
Ela respirou profundamente.
— Você acha que está tentando me processar?
Edward devolveu o aparelho.
— Não temos elementos para afirmar isso. A mensagem menciona questões contratuais e pergunta se você tem representação jurídica. O melhor é responder formalmente, informando que qualquer comunicação deverá ser encaminhada ao advogado que você constituir. Podemos preparar essa resposta juntos.
Sarah sentou-se diante dele.
— Edward, estou começando a achar que nunca vou conseguir me livrar de Alec. Primeiro as mensagens, depois os documentos, agora um advogado. Parece que, cada vez que tento dar um passo para longe dele, alguma coisa me puxa de volta.
Edward observou-a com atenção.
— Sarah, quero que compreenda uma diferença importante. Alec pode tentar criar conflitos, apresentar reivindicações ou buscar contato por meios jurídicos. Isso não significa que tenha razão, nem que possa obrigá-la a retomar o relacionamento. Vamos analisar cada situação pelos fatos e pelas regras aplicáveis. E, se houver tentativas de intimidação, também poderemos tomar providências.
Sarah baixou os olhos.
— Eu só queria recuperar minha vida.
Edward suavizou a expressão.
— E vai trabalhar para isso. Mas reconstruir uma vida depois de um relacionamento como esse pode exigir tempo. Não quero prometer que todos os problemas desaparecerão rapidamente. Quero prometer que você terá informações, apoio e a oportunidade de tomar suas próprias decisões.
Sarah permaneceu em silêncio.
Depois ergueu o rosto.
— Então vamos responder ao advogado.
Edward assentiu.
— Vamos.
Sarah respirou profundamente.
E, pela primeira vez, percebeu que enfrentar Alec não precisava significar gritar, discutir ou implorar para que ele a deixasse em paz.
Às vezes, significava apenas sentar-se diante de um computador, compreender seus direitos e deixar claro que não aceitaria mais ser controlada.
Segunda-feira — 7h46
Jacob estava terminando o café quando Seth apareceu carregando uma folha de papel cuidadosamente dobrada.
— Papai, não esquece.
Jacob ergueu os olhos.
— Não esqueço o quê?
Seth colocou o desenho sobre a mesa.
Era um dinossauro verde diante de uma pilha de panquecas.
Na parte superior, com letras grandes e um pouco tortas, estava escrito:
PARA SARAH.
Jacob sorriu.
— Ficou muito bonito, campeão.
Seth pareceu satisfeito.
— Você pode entregar para ela?
Jacob hesitou.
— Posso pedir ao tio Edward para entregar. Ele vai encontrar Sarah hoje.
O menino pensou por alguns segundos.
— Mas eu queria entregar pessoalmente.
Jacob observou o filho.
— Então vamos guardar o desenho até encontrarmos Sarah novamente. Tenho certeza de que ela vai gostar.
Seth assentiu.
Depois abraçou o pai.
— Obrigado, papai.
Jacob beijou seus cabelos.
— De nada, campeão.
Quando o menino saiu para buscar a mochila, Jacob permaneceu olhando para o desenho.
Sorriu discretamente.
Aquela pequena folha de papel não significava nada além do carinho espontâneo de uma criança por alguém que acabara de conhecer.
Mas, sem perceber, Jacob começou a se perguntar quando voltaria a encontrar Sarah Swan.
9h18 — Black Automotivos
Edward entrou na sala de Jacob carregando uma pasta.
O empresário ergueu os olhos.
— Bom dia. Tudo bem?
Edward fechou a porta.
— Preciso conversar com você sobre uma questão profissional. Mas antes quero esclarecer que não estou pedindo nenhum favor pessoal.
Jacob franziu a testa.
— Está bem. Pode falar.
Edward sentou-se.
— Você se lembra daquela possibilidade que comentou sobre contratar uma profissional de gastronomia para os eventos corporativos da empresa?
Jacob assentiu.
— Claro. Estamos estudando a expansão do setor de eventos e hospitalidade. Por quê?
Edward colocou a pasta sobre a mesa.
— Sarah está tentando reorganizar a vida profissional. Ainda não conversei com ela sobre essa possibilidade, porque quero primeiro entender se existe alguma oportunidade real e quais seriam os critérios de contratação.
Jacob observou o amigo.
— Edward, você sabe que não tenho problema algum em analisar uma proposta profissional. Mas precisamos fazer isso corretamente. Se houver um projeto, quero que Sarah seja avaliada pelas qualificações dela, como qualquer outro profissional.
Edward sorriu.
— Era exatamente o que eu esperava ouvir.
Jacob abriu a pasta.
— Pelo que Emmett contou, ela tem uma carreira bastante respeitada.
— Tem. E trabalhou muito para construí-la.
Jacob examinou os documentos.
— Então vamos fazer o seguinte: peça ao setor responsável que prepare uma descrição das necessidades do projeto. Se Sarah tiver interesse, poderá apresentar uma proposta. Não quero oferecer algo apenas porque ela é irmã da Bella. Seria injusto com ela e com os demais profissionais.
Edward assentiu.
— Concordo plenamente.
Jacob fechou a pasta.
— E, Edward?
— Sim?
— Como ela está?
O advogado observou o amigo por um instante.
— Melhorando aos poucos. Ainda existem questões difíceis para resolver, mas Bella disse que Sarah conseguiu aproveitar bastante o jantar de sábado.
Jacob sorriu discretamente.
— Seth também gostou muito da noite. Passou o domingo inteiro falando das panquecas que ela prometeu ensinar a fazer.
Edward começou a rir.
— Bella comentou. Parece que sua reputação culinária sofreu danos irreparáveis.
Jacob suspirou.
— Meu próprio filho está conduzindo uma campanha de difamação contra mim.
Os dois riram.
Depois Edward se levantou.
— Vou conversar com Sarah quando houver informações concretas sobre o projeto.
Jacob assentiu.
— Perfeito.
Quando o amigo saiu, Jacob voltou ao trabalho.
Mas, por alguns instantes, lembrou-se da conversa no jardim.
Da maneira como Sarah havia rido de suas histórias.
E do cuidado com que escutara quando ele mencionara Leah.
Não era uma lembrança romântica.
Não ainda.
Era apenas a recordação agradável de alguém que parecera compreender a importância das pequenas coisas.
11h02 — Apartamento dos Cullen
Sarah estava sentada à mesa da cozinha quando Bella apareceu segurando o telefone.
— Sarah, Edward acabou de me ligar. Disse que talvez exista uma oportunidade profissional interessante, mas quer conversar com você pessoalmente quando tiver mais informações.
Sarah ergueu os olhos.
— Uma oportunidade?
— Algo relacionado a eventos corporativos. Pelo que entendi, a Black Automotivos está estudando novos projetos.
Sarah ficou pensativa.
— Edward quer me oferecer um emprego?
Bella negou com a cabeça.
— Não exatamente. Ele disse que, se houver um projeto compatível com sua experiência, você poderá apresentar uma proposta profissional. Mas ainda não existe nada definido.
Sarah permaneceu em silêncio.
Depois sorriu discretamente.
— Sabe, Bella, acho que gostaria de ouvir mais sobre isso. Não porque precise que alguém me arrume trabalho, mas porque talvez seja interessante desenvolver alguma coisa diferente dos projetos que Alec conhecia.
Bella assentiu.
— Então converse com Edward. Veja se faz sentido para você.
Sarah olhou para o notebook.
Havia passado a manhã revisando seus contratos e tentando organizar os compromissos profissionais.
Pela primeira vez, não pensava apenas no que precisava abandonar.
Começava a pensar no que poderia construir.
E aquela mudança, embora pequena, parecia importante.
Naquela segunda-feira, enquanto Sarah Swan começava a recuperar a própria autonomia, Jacob Black seguia sua rotina entre reuniões empresariais e as necessidades de um menino de cinco anos.
Os dois ainda não imaginavam quanto suas vidas poderiam mudar.
A aproximação que começara com uma conversa sobre panquecas permanecia discreta, quase imperceptível.
Mas havia uma diferença fundamental entre aquela possibilidade e tudo o que Sarah vivera nos últimos meses.
Ninguém estava exigindo que ela fosse alguma coisa.
Ninguém estava decidindo seu futuro.
Pela primeira vez, o caminho diante dela parecia pertencer exclusivamente às suas escolhas.
E, em algum lugar daquela mesma cidade, Alec Volturi começava a compreender que recuperar o controle sobre Sarah talvez fosse muito mais difícil do que imaginara.
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