E que minha sorte não me separe de você
4 Capítulo 4
Notas iniciais

Sabe aquele barulhinho irritante que a máquina que conta os batimentos cardíacos e o resto e tal faz? Aquele beep horrível que nos dá uma agonia e vontade de gritar? Pronto. Era, definitivamente, uma das coisas que eu mais odiava no mundo e a que eu mais detestava em hospitais.
Abri os olhos lentamente, sentindo-me cegado pelas luzes brancas e teto da mesma cor. Estava tonto, desnorteado e confuso. Olhei ao redor, tendo a visão de uma cabeleira loira ameaçando tomar para o lado. Reconheci sendo YoonGi, e os fios azuis e negros espalhados por seu colo denunciavam a presença de By, deitada ali.
“Se sente melhor?” a voz grossa do loiro foi ouvida, tirando minha atenção da garota.
Voltei o olhar para ele, sorrindo fraco e grogue. Acenei positivamente com a cabeça, evitando me mover muito para não aumentar a vontade de bater a cabeça na parede até voltar a apagar. Seu sorriso era aliviado, provavelmente pelo meu despertar, mas a expressão preocupada não saiu de seu rosto.
“Que horas são?” perguntei.
YoonGi olhou para seu relógio de pulso.
“São... Duas e quarenta.”
Engoli em seco.
“Passei metade de um dia desacordado?”
Ele assentiu. Acariciou os cabelos escuros da menina. Explicou-me que a garota não conseguira nem pôde ir às aulas, estava preocupada demais com meu estado. Lembrei o porquê de estar daquele jeito nquele momento, soltando um suspiro pesado e ficando em posição fetal, virado na sua direção.
“Ela é tão nova...” comentei, em voz baixa. “Acho que ela deveria estar se divertindo no colegial ainda. Festas loucas, viagens animadas, aproveitando uma adolescência de verdade. Maravilhoso ela ser um gênio, coisa e tal. Mas ela está pulando uma fase da vida, assim como nós pulamos a nossa fase. Crianças tem que brincar, adolescêntes tem que curtir e adultos tem que se estabilizar. Ela não curtiu. E vai ter que aprender a ser adulta antes mesmo de nós.”
Meu alfa não evitou suspirar, olhando para o cabelo colorido da menina. Não falou uma palavra sequer, apenas continuou daquele jeito por um bom tempo, até que a porta se abriu e outra pessoa entrasse no recinto, quase meia hora depois.
“Vejo que se sente melhor, senhor Kim” disse o doutor, um sorriso gengival gentil estampado na expressão cansada.
“Min” eu e YoonGi falamos, ao mesmo tempo. O loiro voltou-se para mim, mas logo concluiu: “Senhor Min.”
O médico deu de ombros.
“Enfim. Sou o doutor Lee HyukJae e fui o encarregado para tratar de você quando chegou na emergência.” Ele levantou uma prancheta com alguns papéis na minha direção. “Seu marido autorizou que colhêssemos um pouco de sangue, mesmo que a causa do seu desmaio tenha sido uma queda de pressão ou o choque, segundo ele. Os resultados acabaram de chegar, mas, antes, quero saber quando foi seu último período fértil.
Senti o rosto queimar, mas parei um pouco para pensar.
“Uma semana mais um pouco a mais, por quê?”
“Bem...” HyukJae estendeu um dos papéis em minha direção, apontando para uma das linhas ao me entregar.
TESTE GRAVIDEZ: POSITIVO
“Parabéns, vocês serão papais.”
O loiro, de olhos arregalados, virou na direção do médico, parecendo ameaçar engasgar.
“Como é, cara?” formulou ele, baixo. Graças ao nervosismo, seu modo de falar ficou ainda mais acentuado, enfatizando a língua presa. “Tá dizendo que ele está grávido?”
“Isso mesmo” confirmou o outro. “O tempo condiz com o período do cio dele, ainda pouco demais para que pudessem perceber os sintomas e você pudesse sentir o odor diferente nele.”
Engoli em seco, deitando de costas no colchão e passando as mãos pelos cabelos, puxando-os de leve para ter certeza de que não estava mais dormindo. Agora, sentia algo próximo ao que a menina deveria ter sentido quando descobriu sobre ela. Se eu estava feliz? Claro! Eufórico? Pra caralho! Mas estava preocupado.
Era outra vida. Fruto de mim e de YoonGi, o homem que eu amava, por mais que o conhecesse há menos de três meses. Que, durante os próximos 9 meses, habitaria meu ventre. E, por Zeus, eu não conseguia me aguentar de felicidade.
“Tae?” A voz do meu alfa, mais uma vez, me tirou do meio de um transe, devaneios que eu sequer sabia que tinha me metido. “Você está se sentindo bem?”
Tirei as mãos, que antes agarravam meus fios alaranjados, e passei-as pelo rosto, notando-as molhadas.
Eu estava chorando.
“Yoonnie...” chamei, em tom baixo. “E agora? O que acontece?”
O alfa pareceu pensar. Então, colocou a cabeça da menina delicadamente sobre a bolsa dela, antes abandonada no chão ao lado do sofá, e se levantou. Aproximou-se de mim e me surpreendeu com um abraço apertado.
“O que acontece?” murmurou, sentando do meu lado e me abraçando de lado, puxando meu rosto para seu peito. Agarrei-me à sua camisa, sentindo o choro aumentar. “Acontece que vamos precisar desocupar aquele quarto ao lado do nosso, passar bastante tempo em lojas de acessórios para bebês – me lembre de te dar um cartão de créditos, aliás –, trancar sua faculdade, esse tipo de coisa. Você está preocupado com isso, eu sei, mas se culpar e pensar que poderíamos ter evitado não rola. Ontem à noite, você ouviu a pergunta dela e ouviu minha resposta. Só Deus sabe o quanto eu adoraria isso de ser pai. Então, por favor, me diga que não ficou decepcionado como parece, ou realmente vou me sentir mal.”
Voltei o olhar para ele, agora confuso, mas ainda sentindo as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
“Decepcionado?” quase sussurrei, a voz entrecortada por soluços incontidos. “Eu não podia estar mais feliz, Yoonnie... Só... Só estou...”
“Assustado?” completou. Ele tinha esse dom de parecer ler minha mente. “Eu também. Mas tudo vai dar certo no final.”
“Não dá pra saber...”
“Não mesmo. Mas é o que precisamos acreditar.”
Ponderei se deveria levantar. Talvez sim, talvez não. Decidi pela primeira opção ao ouvir a risada alta de tio, sobrinha e estrangeiro ecoando pela casa. Com dificuldade e preguiça, levantei da cama macia que já portava nosso cheiro, demorando um pouco a me arrastar a´te a cozinha. Bocejei diversas vezes e abaixei a camiseta do Queens, arrumando a calça do moletom.
Com dois meses, eu considerava minha barriga enorme demais, mas, com quatro, podia pensar que já tinha seis, já que tinha quase o mesmo tamanho que a da garota, cuja gravidez era quase 3 meses mais avançada que a minha. Quase.
Hoje, lembrei, ao chegar próximo à cozinha, era o dia em que descobriríamos o sexo dos dois novos membros da família Min. YoonGi mal dormira, passou toda a noite a se revirar, nervoso para descobrir se havia acertado com a sua previsão.
Lucas e YoonGi queriam dois meninos correndo pela casa.
Eu e By jurávamos que seriam duas menininhas brincando de bonecas.
Era uma treta meio louca.
“Bom dia” desejei, sonolento, aos três sentados na mesa da cozinha, tomando café da manhã.
O alfa loiro sorriu, levantando e se aproximando para me puxar pela cintura e, mesmo com meus protestos sobre meu bafo matinal, selar meus lábios.
“Oi, tio” a garota murmurou. Estava com o rosto apoiado no ombro do namorado, pálida, sua aparência doentia acentuada.
Existiam as pessoas que ficavam mais bonitas na gravidez.
Existia eu, que ficava a cada dia mais dramático e com auto-estima baixa.
E existiam pessoas como a sobrinha dele, que parecia mais doente a cada dia que passava.
“Tá tudo bem?” perguntei, preocupado.
“Claro” disse, baixo, abanando-se com uma mão. “São só os enjoos.”
Suspirei, com pena. Essa era uma das piores partes. Eu tive a sorte de não ter que sentir isso depois do fim do 3º mês, mas ela não.
YoonGi me levou para sentar ao seu lado. Me servi com algumas panquecas – lê-se muitas – e coloquei suco no copo. A comida estava, como sempre, maravilhosa, dessa vez feita pelo loiro, mas podia ficar ainda melhor. Peguei a calda para sorvete, sabor leite condensado, da geladeira e me esbaldei, jogando quase metade da garrafa sobre as panquecas, sob um olhar estranho do estrangeiro, conformado do meu marido e desejoso, mas contido, da outra gestante.
Todos terminaram de comer em pouco tempo, inclusive eu, mas fui o único a precisar tomar banho e se arrumar, já que todos os outros presentes já estavam prontos há bastante tempo. Tentei não demorar no chuveiro – foi uma tentativa falha, mas válida – e me vesti, correndo. Uma jeans folgada e clara, um suéter largo cinza por cima de uma blusa social branca, com a gola e a barra aparecendo, e sapatênis nos pés foram o suficiente para a consulta.
Logo, nós nos acomodamos no carro de YoonGi. Ele no volante, eu no passageiro e o casal jovem no banco de trás. No rádio, a playlist da omega tocava incessantemente, mas não podia reclamar. Ela tinha um ótimo gosto. Afinal, qualquer pessoa que goste de If You Do, já é meu amigo.
Ao estacionarmos, porém, uma outra música, desconhecida por mim, começou a tocar. Meu inglês estava enferrujado – e muito –, mas pude entender duas frases do refrão, sem conseguir evitar olhar para o loiro e sorrir, vendo-o repetir o gesto.
“And now I'm without your kisses
I'll be needing stitches”
YoonGi selou meus lábios, compreendendo, antes de sair do carro, sendo seguido por mim e logo agarrando minha mão, ao entrarmos no lugar extremamente branco com cheiro de álcool e desinfetante que eu tanto odiava.
Os alfas pararam na recepção, falando sobre a consulta com a recepcionista beta atrevida que era fuzilada, ao mesmo tempo, por mim e By, sentados nos bancos, aguardando eles. Esperamos ainda alguns minutos ali – ignorando ferrenhamente os dois – até que a srta. Atrevida nos chamou para que entrássemos no consultório do doutor DongHae, nosso obstetra.
“Olá, senhores e senhorita Min” cumprimentou, como sempre, com seu sorriso contagiante na face. “Passam bem? Como andam?”
“Com as pernas” murmurou a única garota presente, com um bico irritado que apenas a deixava mais fofa. Certo dia, me segredara que odiava hospitais e tudo o que havia dentro deles.
Compartilhamos o mesmo temor, então.
“Estamos bem” Lu e meu alfa responderam ao mesmo tempo, ignorando, assim como eu, a grosseria da menina.
Eu e ela sentamos nas cadeiras desconfortáveis de metal à frente da sua mesa, com os outros dois parados nas nossas costas, como dois seguranças. DongHae nos fez as perguntas de rotina, as quais todos já estávamos cansados de ter que responder. Alimentação, esse tipo de coisa. Quando lhe indaguei sobre o tamanho da minha barriga, disse que cada bebê tem um desenvolvimento diferente, e, portanto, o meu bebê apenas cresceu um pouco rápido demais.
Quando a hora do ultrassom chegou, ele chamou primeiro a garota, que estava milhões de vezes mais ansiosa que eu, já que preferiu esperar para que eu pudesse ver o sexo do meu a ver apenas o do dela, insistindo para que pudéssemos descobrir o dos dois ao mesmo tempo. By deitou-se na maca, seu namorado apertando sua mão com força, e levantou um pouco a camisa, deixando que o doutor passasse o gel desconfortável por ali, fazendo-a se arrepiar com o contato.
Como queríamos surpresas na hora e ela estudava algo que poderia fazê-la descobrir, o médico deixara o monitor voltado para si de modo que nenhum de nós poderia ver as imagens ali.
“Vocês tinham apostado, não é?” o médico omega voltou a falar, deslizando o aparelho pelo ventre super inchado da menina.
“Isso mesmo” concorei. “Eles acham que são meninos, mas nós temos certeza de são meninas.”
“Bem...” começou o outro, sentindo os olhares de expectativa pairando sobre ele. “Sinto dizer algo para dois de vocês, mas não desanimem que ainda falta o do Tae... Hyung” se corrigiu ao ouvir um rosnado vindo de Suga, que levou uma cotovelada no estômago em seguida. “Parabéns, Lucas e By, serão papai e mamãe de um príncipe.”
DongHae virou o monitor para que nós víssemos o serzinho se movendo, trazendo lágrimas aos olhos da garota na maca, que puxou o namorado para o beijo apaixonado, agarrada ao seu pescoço, e recebeu um afago nos cabelos do meu alfa e um beijo no mesmo local da minha parte, ao findar o beijo com seu próprio namorado.
By soluçava tanto que precisou da ajuda do estrangeiro para levantar da maca, já que não conseguia por si só. Ela se apoiou no corpo dele, que ajudou para que ela chegasse até as cadeiras de espera.
“Sua vez, TaeHyung.”
Senti o sangue gelar. Estava nervoso pra caralho, além de preocupado. Gravidez de omegas masculinos, por mais comum que fosse, ainda era mais complicada que a de uma feminina. Pude sentir como a menina, instantes atrás, ao ver meu sobrinho naquela tela em preto e branco. Com derta dificuldade, levantei, agarrado ao braço de YoonGi, para logo deitar sobre a maca dura. Corado, refiz os gestos da garota, levantando a barra de ambas as camisas.
“Wow” o médico riu fraco. “Está realmente bem grande.”
A mesma operação que fez com a outra, fez comigo. Não evitei um suspiro e um grunhido incomodado ao sentir o gel, nem a expressão de angústia enquanto deslizava o aparelho estranho sobre meu ventre. Quando voltou o olhar para mim, porém, sua face expressava confusão, o que fez o loiro ao meu lado apertar minha mão com mais força.
“Tenho duas notícias para vocês” disse. “A primeira, os rapazes acertaram. São garotos, meus parabéns. A segunda... Bem, foi uma surpesa, mas...”
“Fala logo, cara” o alfa mais velho apressou, contente, mas preocuopado com a falta de reação do doutor. “Tem alguma coisa errada? O que houve?”
“São...” Uma breve pausa. “Gêmeos.”
Meu alfa arregalou os olhos, assim como eu. Nos entreolhamos. Senti meus olhos marejarem e solucei alto.O loiro me abraçou, segurando meu ombros, e não hesitei em agarrar-lhe a camiseta escura, agora prestes a rasgar com a força colocada nos meus dedos.
Depois de descobrir a gravidez, me tornara mais preocupado com tudo, e extremamente dramático – 'cê jura, TaeHyung? –, mesmo que dificilmente resistisse a certos desejos, principalmente de comidas proibidas pelo obstetra. Eu já era acostumado, depois de quatro meses, a estar mais dramático e à sensação de inutilidade que se apossava de mim a cada dia que passava em casa, sem poder fazer nada que envolvesse esforço físico, já que o pai babão e superprotetor conseguiu me convencer a trancar a faculdade por dois semestres – mesmo que eu repetisse centenas de vezes que apenas um era suficiente.
Com dois bebês, tudo seria muito mais complicado. Era óbvio que eu já os amava, não haviam dúvidas, mesmo que fosse segundos após a descoberta da dupla existência, mas, ainda assim, era assustador para mim.
Aos 20 anos, casado com com um cara que eu conhecia exatamente o tempo em que estava casado, grávido de gêmeos e impossibilitado de estudar.
Puta que pariu, eu podia ter tido uma vida melhor. E muito.
Mas não. E por quê?
Porque eu só sei me foder.
E, mesmo que eu diga tudo de ruim que poderia sobre esse caralho chamado minha vida, não poderia trocá-la por nada.
Seis meses. Tudo o que eu mais desejava, era dormir, dormir e paçoca, uma comida meio louca que Lucas havia feito com farinha e charque, que arranjou num mercadinho de produtos importados.
“Tae, se decide, vai querer qual conjunto?” Suga suspirou. “Tem três simples opções, não é tão difícil assim. Azul e branco, verde e azul ou duplo de uma cor só. Não complique tanto!”
“Cala a boca” falei, baixo, sem olhar para ele. “Meus filhos tem que ter um bom e bonito lugar para dormir, não podemos escolher qualquer um e pronto.”
YoonGi apenas revirou os olhos. Faziam mais de duas horas que estávamos na porra daquela loja de acessórios para bebês, mas ainda faltavam os berços das crianças que logo dariam o ar da sua graça em nossa casa.
Nossa sobrinha já havia deixado tudo pronto há tempos para seu pequeno. O quarto dele, ao lado do seu, era muito fofo, com um tapete redondo no meio, o berço branco com detalhes azuis e um ursinho segurando uma estrela, do lado, na mesma cor. As paredes, listradas em azul-bebê, estavam atrás dos armários brancos, que faziam conjunto ao berco, com a estrela ou o ursinho. Algumas pelúcias adornavam as prateleiras, e apenas aguardava a chegada do seu morador, que ela cismara em falar-nos o nome só quando nascesse.
O tio da garota quase bateu nela quando lhe disse isso.
Depois de muito pensar, acabei por escolher dois berços brancos com a forma de carrinhos, as rodas azuis e verdes davam um ar infantil e fofo às mobílias nada a ver com as outras opções. Saímos da loja com tantas sacolas que sequer conseguia contar, mas ainda consegui fazer meu alfa carregar a maior parte delas até o carro. Os berços chegariam em alguns dias, portanto não me preocupava muito.
Abri o porta-luvas e puxei um pote de plástico dali. Sob o olhar de estranhamento do ex-loiro, agora com fios verde-menta, comecei a comer a paçoca contida no pote. Até lhe ofereci, mas, com uma careta de desgosto, recusou, voltando o olhar para a pista.
Chegamos no prédio e levamos as coisas, dessa vez os dois, já que ele concordou em me deixar ajudar a carregar as sacolas com a condição de levar apenas as roupas, deixando as mais pesadas pesadas para ele.
Porém, assim que chegamos ao nosso andar, um grito vindo do nosso apartamento fez com que nos apressássemos mais.
“Calma, cara” a voz da garota invadiu nossos ouvidos ao abrir a porta. “Só temos que ir para o hospital e... Para de gritar! Tenha calma, homem!”
“O que houve?” YoonGi se pronunciou, deixando, assim como eu, as sacolas no chão da entrada.
“A bolsa rompeu, mas ele não se aquieta!”
“Espera” o loiro interrompeu sua próxima fala. “Sua bolsa rompeu?!”
Revirei os olhos, já irritado.
“Eu dirijo” falei, puxando as chaves do bolso do homem e saindo do apartamento com ela em direção ao elevador.
“Espera por mim!” Os dois alfas apareceram, berrando, na porta do apartamento, cada um deles segurando as malas, uma da menina e outra da bebê.
Dei espaço para que ambos entrassem no cubículo metálico. Estavam bem mais agitados que nós, o que era irônico, já que os gestantes ali estavam relaxados e calmos. Os dois fizeram com que corrêssemos – imagine duas bolas rolando, uma delas vazando líquido, e vai imaginar como era – até o carro, praticamente tomando as chaves das minhas mãos.
By soltou um gemido fraco de dor ao entrar, sorrindo, no veículo. Segurou a mão do namorado, sentado ao seu lado, e não conteve as lágrimas de felicidade. O alfa segurou a curva do seu pescoço e a puxou, selando-lhe a testa e encostando-a na própria, um sorriso na face.
O de cabelos verdes deve ter recebido, pelo menos, quatro multas, apenas naquela corrida até o hospital.
Como a menina já tinha mais de 8 meses e meio, o obstetra, preocupado, deixara um doutor de plantão a quem pudesse recorrer, caso isso acontecesse. Falamos muito pouco com o doutor HeeChul, mas a garota, sempre com uma resposta afuada na língua, se dera muito bem com ele. Juro que nunca vi uma paciente trocar tantas mensagens com um médico na minha vida.
O mais velho sequer estacionara e já correu para chamar uma enfermeira. Esperou primeiro que ela ajudasse a sobrinha e a levasse até a sala de cirurgia, acompanhada de Lu, que, nervoso, parecia à beira de uma crise. Em seguida, deu-me o braço para que eu saísse do veículo e me acompanhou até a sala de espera, voltando para estacionar o carro e sentando-se ao meu lado em seguida.
Com certeza, não estava tanto quanto os outros, mas a gravidez fazia tudo parecer pior do que era, além de me deixar ainda mais dramático a cada dia. Então, todo o cansaço recaiu sobre mim. Deitei o rosto contra o ombro de YoonGi e segurei seu braço.
“Se quiser dormir um pouco...” murmurou ele. Pela sua voz, estava tão exausto quanto.
Também, pudera. Depois de um dia inteiro rodando por shoppings e mais shoppings e lojas de acessórios infantis, quem não?
Sentei-me ereto no banco desconfortável, deixando-o confuso por um segundo, antes que eu puxasse dua cabeça para encostar-se em meu ombro. Ele protestou, mas segurei sua mão com força em cima da minha coxa e dei um leve aperto.
“Você também está cansado, não se abnegue desse modo.”
Deve ter pensado em reclamar, mas estava demasiado exaurido para tal. Deitei minha cabeça por cima da sua, recebendo uma leve carícia nos meus, agora loiros depois da retirada da tinta laranja, fios.
Estava prestes a dormir, cochilando, mas minha consciência só se foi no mesmo momento que o choro alto e fino atravessou as portas da sala de cirurgia, onde By se esforçava.
O primeiro grito, que, em outra ocasião, teria me feito berrar para que calasse a maldita boca do maldito bebê, foia causa do meu choro aliviado. Não poupei soluços ao agarrar a mão do mais velho com força, vendo que ele segurava as lágrimas.
“Aqui, seu pequeno alfa de vocês” a enfermeira, com uma expressão gentil, entregou o primeiro dos bebês nos meus braços, ajeitando-o confortavelmente ali.
“Olá, TaeHae...” murmurou o alfa mais velho, acariciando o rostinho ainda sujo e molhado do nosso bebê. “Bem vindo à família.”
“E eis aqui” o outro berro fino cortou o ar “seu omega.” A outra enfermeira riu ao ver o olhar apaixonado de YoonGi pela criança.
Ela entregou o pequeno ser para o esverdeado, que segurou como se fosse alguma peça de arte, cara, rara e delicada de porcelana.
“Oi, meu YoonJae...” falei, quase sem forças. “Finalmente nos conhecemos, não é?”
O de cabelos verdes colocou o garotinho ao lado do irmão, que abriu a boca, como se tentasse sorrir, mostrando suas gengivas rosadas. O pai deles soltou um riso soluçado, limpando as lágrimas no ombro.
“Temos que terminar a cirurgia, senhores Min” a mesma enfermeira que entregara TaeHae avisou. “Os bebês irão tomar banho agora.”
YoonGi suspirou, triste por não poder passar mais tempo com os filhos como desejava. Entregamos os dois, que haviam parado de chorar em nossos braços, para as duas moças, mas ambos voltaram a berrar ao serem separados de nós e um do outro, obrigando as mulheres a se manterem próximas uma da outra.
Os doutores anunciaram que iam começar a suturar, mas não consegui me importar com isso. Estava mais ocupado sorrindo como um besta para YoonGi, que não tirara o sorriso idiota da face. Ele se aproximou e selou meus lábios, encostando a testa na minha e agarrando minha mão.
“Obrigado, Tae...” disse, baixo, como se não quisesse que mais alguém no mundo escutasse suas palavras, mesmo que, obviamente, DongHae e HyukJae ouvissem. “Obrigado por me tornar pai, por ter sido forte assim. Obrigado por estar aqui agora. Obrigado por estar comigo. Conosco.”
Agarrei seu rosto, sob o olhar dos médicos mais shippers do mundo – EunHae vive, cara, isso é um fato inegável – e o beijei, tentando colocar todo o amor que nutria por ele ali.
“Eu que fico agradecido, por tudo o que você me deu” murmurei, sem lhe soltar. “Fica lá na maternidade... Logo eles devem ir até lá...”
Fechou a cara e quis argumentar. Puxei-o para outro beijo antes que conseguisse.
“Não deixa eles sozinhos... Não vão demorar muiro por aqui.”
“Meia hora e ele volta para o quarto” afirmou HyukJae.
DongHae apenas afirmou, concordando.
YoonGi hesitou, mas deixou um selo na minha testa, apertando fraco minha mão antes de se dirigir até a porta que levava ao exterior da sala branca.
Um sorriso bobo se prendeu nos meus lábios novamente, em meio às lágrimas de felicidade que escorriam sem parar pelo meu rosto.
“Você sabe que ele te ama muito, não é?” o doutor omega disse, sorrindo tanto quanto eu.
Não consegui lhe responder, apenas balancei a cabeça freneticamente.
Puta que pariu.
Era bom demais para ser real. Principalmente com a sorte que eu tenho.
Então, antes que os dois prosseguissem com a cirurgia, não consegui evitar o pensamento de que aquilo era um sonho.
Felizmente, pela primeira vez, não era.
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