E que minha sorte não me separe de você
5 Capítulo 5
Notas iniciais

A porta de casa bateu contra o batente, indicando a chegada de alguém no recinto. Me recusei a levantar. Estava bom demais deitado ali, na minha cama, ao lado do meu pequeno e manhoso alfa, para sequer cogitar levantar.
“Omma...” a criança disse, sem se mover, assim como eu. “A gente não tem que levantar?”
“Tem não, Hae” murmurei, apertando-o contra meu peito. “O appa vai ver quem é...”
“Mas ele não tinha saído?”
“Sei lá, saiu?”
Dei de ombros. O garoto soltou um gemido manhoso, se agarrando à minha camiseta. Ele, desde pequeno, demonstrara o quanto havia puxado de YoonGi em relação ao seu sono, e a mim com a manha. E isso não podia ser mais fofo, ou deveria ser considerado um terrorismo.
Quatro anos se passaram como um segundo desde o nascimento de TaeHae e YoonJae. Meu alfa, atualmente, voltara ao ruivo, mas, de tão desbotado – a desgraça não me deixa hidratar nem retocar, que se foda assim –, está em algo próximo ao rosa, e era o pai mais babão, fofo e carinhoso que eu um dia já pude imaginar para ser o pai dos meus filhos.
Dos seis quartos do enorme apartamento onde ainda habitávamos, três se ocuparam com a chegada deles, sendo um para os gêmeos, outro para GaIl, filho da nossa sobrinha, e um para a infinidade de brinquedos infantis que os pais das crianças compraram.
Por Zeus, como um bebê de menos de um ano brinca com um carrinho elétrico?
Com mais ou menos um ano, porém, a família de By se mudou. Meu marido ficou super puto de raiva, pensando que Lucas havia influenciado nas escolhas da garota e ameaçou bater no coitado, mas ela lhe deu um tapão na orelha que ecoou até na minha cabeça e fez com que YoonJae, nos meus braços naquele momento, começasse a berrar, desesperado por ver alguém bater no seu amado appa.
By explicou seu ponto de vista, convencendo a mim, falando sobre ter que começar a se virar, agora que era mãe e seu namorado havia se formado. Eles se casaram nas férias dela, se mudando para os Estados Unidos logo após a lua-de-mel em Jeju. Agora, terminava Medicina em Harvard, no começo do penúltimo semestre.
Eu e YoonGi tivemos vários problemas no início da convivência com os garotos, logo após o nascimento dos gêmeos. Minha faculdade só pode ser terminada depois que eles completaram seis meses, já que tanto eu quanto o alfa nos recusávamos, graças a minha negação para deixar outras pessoas encostarem nos meus filhos e na falta de confiança do ruivo por conta da sua ligação com a máfia, a deixar os pequenos com uma babá. SeokJin se ofereceu para cuidar dos dois, mas só aceitei depois de decidir, finalmente, terminar o curso.
No meu último dia de aulas – ontem –, à noite, nós extrapolámos um pouquinho no séxo. Nenhuma novidade, coisa e tal. No meio da noite, como sempre, o homem acordara, trocara os lençóis e nos vestira com roupas leves à tempo da chegada de TaeHae, que, muitas vezes, acordava para deitar-se ao nosso lado na nossa cama.
Graças ao bom – nem tanto – Zeus.
Vai que a coitada da criança sente o cheiro de lubrificante e esperma.
Sinto arrepios de pensar no que ele perguntaria pela manhã se tivesse sentido.
Naquela manhã, às 8, YoonJae acordara YoonGi, sem sequer tentar me despertar, sabendo que era inútil, apressando-o para irem buscar a família Tave-Min no aeroporto, recém-chegados de Cambridge. Eu, porém, estava exausto demais. A noite anterior fora cansativa o suficiente para que nem da cama eu me atrevesse a levantar, isso somando à manhã e tarde na faculdade, fazendo as provas finais. Meu paraíso a.k.a cama não merecia que eu levantasse agora. Nem minha bunda.
Principalmente porque TaeHae parecia uma pelúcia fofa e apertável demais para deixá-lo ali ou acordá-lo.
“Meus dois bebês ainda não acordaram?” a voz risonha do meu alfa surgiu, acompanhada da gargalhada alta de YoonJae.
Nós sequer nos movemos.
“Omma” o grito do pequeno veio junto do riso de GaIl. “Omma, omma, eomma~~” chamou várias vezes, me balançando, parecendo prestes a me derrubar da cama. “Acorda, Hae-ah, omma! A tia e o tio Ga-yah chegaram! Eomma~~... Levanta daí!”
A criatura subiu no meu corpo, me sacudindo o quanto conseguia. As gargalhadas altas da família Min eram o único barulho por ali, mas não demorou para que a voz murmurada do meu filho mais velho nos entregasse, começando a chamar a atenção do irmão, que logo saltou sobre o corpo do outro da mesma forma que fez comigo.
“Hae, Hae, Hae, Hae, Hae~~! Veeeeem! O Ga-yah chegou! 'Cê disse que ia bincar também! Haeeee~~!”
“Deixa eles aí, Yoon-ah” o alfa mais velho falou, entre o riso alto que, provavelmente, ruborizara sua face clara. “Vamos comer os pastéis e a pizza sozinhos.”
“Pastel!”
“Pizza!”
“Traidor!”
“Você também!”
“Arg!”
A família voltou a gargalhar com nossa situação. Não posso reclamar. Devia ser realmente muito ridículo ver um pai numa discussão com o filho, cujos cabelos de ambos apontavam para todos os lados como se tivessem acabado de sair de uma cama elástica. Ambos cruzamos os braços e ficamos nos encarando por alguns segundos.
“Ótimo, ótimo” YoonGi interrompeu nossa discussão de olhares. “Bom saber que já acordaram e tudo o mais, mas, se não vierem logo, o YoonJae e GaIl vão comer tudo.”
“Yah!” TaeHae correu para a cozinha antes que eu pudesse segurá-lo, o pijama xadrez quase fazendo-o tropeçar e caindo pelos ombros. “Jae, seu babaca, espera por mim, cacete!”
O quase ruivo voltou-se para mim com as feições assustadas.
“O que anda falando na frente dele, criatura?” meu marido perguntou, tentando parecer sério após o susto.
Só tentando, porque aqueles risos que ocasionalmente escapavam era o que lhe entregava.
“Juro que não fui eu.”
Levantei os braços na frente do corpo, como que me rendendo. Me sentei na cama e caminhei até o homem, mancando.
“Bom dia, amor...” murmurou, segurando-me pela cintura e encostando nossos lábios de leve.
“Bom dia, Yoonnie...” respondi.
Durante a noite, me vestira com uma camiseta sua do Assassin's Creed UNITY e uma calça de moletom cinza. Ainda bem, pois o casal mestiço estava ali, nos observando.
“Vejo que teve uma ótima noite, TaeTae” disse a jovem, com um sorriso malicioso brincando nos lábios, ao que seu esposo tentava disfarçar ou esconder a feição envergonhada pela cara de pau da menina.
Senti o rosto esquentar. O quase ruivo fechou a expressão. Nunca gostou de quando faziam algo, principalmente comentários, desnecessário ou que me encabulava. Mesmo que fosse a própria a fazê-lo.
Com uma face irritada, agarrou minha mão e nos dirigiu para a cozinha, passando na frente do quarto onde os gêmeos guardavam seus brinquedos, ao lado do quarto que dividiam. Os gritos e risadas deles logo se misturavam às da garota, que, provavelmente, se dirigira ao seu antigo quarto.
“Omma!” Meu filho mais velho estava em pé na cadeira, sorrindo abertamente em nossa direção. Na sua frente, uma caixa de pizza ainda fechada.
A diferença de personalidade entre os irmãos era gritante. O alfa era tal qual o omega quanto à aparência. Ambos tinham os cabelos escuros, quase negros, mas que por vezes puxavam para o castanho, e os olhos castanho-escuros, que de vez em quando ficavam levemente avermelhados ou azulados – respectivamente aos gêneros. Porém, eram tão diferentes na personalidade de cada um que era até questionável que houvesse algum parentesco um com o outro.
O mais novo era parecido com uma versão minha antigamente. Inconsequênte, azarado, despreocupado com tudo, brincalhão e faz o que quer, quando quer, já sabendo que vai se foder – embora sequer sonhe com essa palavra – no sentido da falta de sorte e de que, se nós conseguimos pegá-lo, fodeu.
Era teimoso, assim como eu e meu marido, e odiava ficar em casa, assim como ele. Era muito parecido e oposto aos pais em certos quesitos, assim como nesse, já que meu alfa odiava estar acordado e em casa, pois, segundo ele, era um crime estar acordado para não fazer nada.
Felizmente, estar comigo era bom o bastante para não ser “um crime”.
O irmão era mais sensato e preguiçoso. Um pequeno gênio, assim como a prima. Sabia ler e escrever em coreano, inglês, chinês e um pouco de japonês. Obediente, não fazia nada sem nossa permissão, e era o único que sabia controlar o próprio irmão. Acima de tudo, era manhoso e sonolento. Já chegou a dormir por 28 horas initerrúptas, realmente pensei que havia entrado em coma quando isso aconteceu. Mas era carinhoso e educado. Gostava de quando o tratavam bem, sempre com a terceira lei de Milton na cabeça, nunca tratando ninguém como não gostariam que o tratasse, e odiava dormir só. Como YoonJae quisera que a cama dos dois fosse separada, às vezes, no meio da noite, deitava-se ao lado do irmão, ou do nosso.
Eram irmãos, mas a diferença era tanta que não parecia.
“Appa, tem pizza de que?” disse, com sua voz infantil e fina.
“Deixa eu ver...” o mais velho fez uma expressão pensativa, colocando a mão no queixo.
O jovem alfa estendeu os braços em minha direção, até que eu percebesse que ele queria que eu o pegasse no colo. Não demorei a fazê-lo, sentando-me na cadeira que antes ele ocupava, consigo sentado em meu colo.
“Por que você comprou isso tudo antes do almoço?” perguntei, estranhando sua atitude. O quase ruivo era o famoso pai saudável, enquanto eu era o que não resistia um Whooper triplo com batata suprema.
“Por que você acha que eu comprei o pastel de chocolate?”
Fiz um bico, vendo-o colocar dois pratos na nossa frente. Um com um pastel enorme – aqueles gigantescos de meio metro, sabe – com um corte na ponta para que o ar quente saísse e o chocolate escorresse. Um outro tinha uma pizza de calabresa, o que me fez pensar se ele pretendia nos subornar para que levantássemos.
“É o primeiro dia de férias deles, seu primeira dia de liberdade e o primeiro dia dos tios deles aqui, vamos deixar que eles se divirtam um pouquinho.”
O mais velho deu de ombros no final da frase, sentando na cadeira alta ao lado da minha. Revirei os olhos, sorrindo e mordendo o pastel, ajudando meu filho a se alimentar de vez em quando, já que ele não era tão acostumado a usar garfos, mas logo desistimos e pedimos para que YoonGi pegasse uma colher.
“Omma, a gente vai sair?” perguntou a criança, após certo tempo em silêncio, cujo único som que ecoava no apartamento era o dos gritos e risadas do seu irmão e primo.
“Não sei, você quer?”
Ele balançou a cabeça freneticamente, negando, trazendo risadas nossas à tona.
“É que o Jae-ah e o Ga-yah 'tão dizendo que a gente vai comer shushi e eu quero dormir, porque eles me acordaram. Appa, a omma 'tá bem?”
Eu não me aguentava de rir, chegando até a engasgar. Como uma criança conseguia ser tão fofa ao mesmo tempo que falava tão seriamente?
“Appa~~” o berro de YoonJae invadiu a cozinha, fazendo o mais velho quase tropeçar ao correr em direção ao quarto de brinquedos dos pequenos.
“O Jae-ah 'tá falante demais hoje” comentou o irmão, mastigando um pedaço de calabresa.
“Eu já te disse para você falar como alguém da sua idade, Hae.”
“Mas é chato! E o senhor Darcy fala assim!”
“Pela centésima vez, ele é um lorde, claro que fala assim. E você só tem quatro anos, não 14.”
“Omma~” ralhou. “Por que eu só podo ter quatro?”
“Está vendo? Se fala posso, não podo. E não pode porque você tem que ter sua idade, não a mais nem a menos. Aqui a omma, olha. Tenho 25 e penso como se tivesse essa idade.”
“Tem certeza?”
“Cale a boca você também, Min YoonGi.”
O outro apenas gargalhou, sentando no mesmo lugar que antes, agora com cada um dos pequenos em cada ombro.
“Uncle Tae” a voz de GaIl chamou, risonha, ao escalar até alcançar e sentar no colo do tio. “A gente vai visitar o uncle Jinnie e a SeonYoo hoje?”
“Talvez” respondi, limpando o canto da boca do menino sentado no meu colo, que choramingou com a resposta. “Não sei se vocês podem entrar no quarto do hospital. Querem tentar?”
Em coro, os dois afirmaram, contentes, mas a voz de TaeHae, no mesmo tom, negava, atraindo uma risada minha e do meu marido.
Terminamos de comer com uma conversa amena e confortável pairando no local, sobre a creche os meninos frequentavam e a escola de GaIl, em Cambridge. Com preguiça, me arrumei enquanto YoonGi vestia TaeHae, já que os outros dois já estavam vestidos. Perguntei se o outro casal queria nos acompanhar, mas afirmaram que estavam cansados, ao contrário do seu filho, que pulava alegremente com o primo omega, enquanto o outro alfa dormia no canto do mesmo sofá.
O mais velho dos três usava uma calça jeans escura, camisa de flanela com botões, na cor cinza, um cachecol xadrez vermelho e preto no pescoço e tênis vermelhos, o cabelo bagunçado lhe dando um ar de Ullzang. Meu caçula vestia uma camiseta de mangas compridas num tom rosa meio vermelho, calças jeans e uma jaqueta de esquiador com a gola do capuz cheia de pelos, um Converse em miniatura para deixá-lo ainda mais adorável. O último, sonolento, usava uma jeans clara, camiseta branca com gola azul-escura, jaqueta de couro marrom com zíper dourado e tênis da cor da gola.
Caralho, que família fofa da porra. Se fosse realmente um crime, estariam todos com pena perpétua, porque socorro.
“Voltamos à tarde!” falou o quase ruivo alto, antes de fechar a porta.
Ele trajava jeans escuras, uma suéter de gola alta azul-marinho e um paletó negro, sapatos sociais nos pés. Nunca tirara o ar social de si depois do nascimento das crianças, alegando que precisava ser alguém mais responsável. Claro, ainda saía, por vezes, com algo mais simples e menos sério, mas ainda, vivia desse jeito. O cabelo rosado estava voando com qualquer ventinho, mas não parara para se preocupar com isso, já que precisava segurar as panturrilhas de YoonJae, sentado na sua nuca, sem parar de rir divertido.
Eu segurava as mãos pequenas de TaeHae e GaIl, ao seu lado. Vestia uma camisa preta, cuja gola aparecia na do suéter vermelho. Calças de brim escuro apertadas – demais, segundo YoonGi – com um rasgo num dos joelhos e um par de John & John's pretos nos pés.
Os três mais novos se acomodaram no banco traseiro, conosco na frente, o rádio ligado, o que me fez quase engasgar prendendo o riso, quando, ao tocar Bitch I'm Madonna, primos e irmãos cantaram as frases iniciais. Principalmente ao ouvir YoonJae cantando “'cause I'm a bad bitch”. Claro, seu pai me deu um belo cagaço por isso, mas não vem ao caso.
O caminho teve a trilha sonora de You're My, do TaeYang; Classic, do MKTO; All of Me, John Newman; e, no estacionamento JungKook, o amigo cujo namorado me tatuou anos atrás – tatuagem essa amada pelos meus pequenos, principalmente pelo caçula, que possui uma grande afeição por gatos e clássicos –, apresentou-se, com sua música de estréia, que me fizera voltar o olhar para meu marido antes que o carro parasse de se mover.
“There's nothing like us
There's nothing like you and me
Together through the storm”
Assim, após quatro longos anos, descíamos do carro em direção ao hospital, selando os lábios um do outro. Só que, dessa vez, ao invés de outra gestante, tinhamos a deliciosa companhia das nossas três crianças, onde uma delas era de coração, como diria Jin.
Talvez, só talvez, tenha sido outro maldito golpe da filha da puta/minha sorte. Talvez eu poderia, nesse momento, estar casado com algum outro alfa filho da puta, estar na rua, estar empregado pela SamSung e rico pra esfregar na cara das inimigas.
Qualquer coisa poderia ter acontecido se não fosse aquela noite. Eu poderia muito bem ter fugido do país ou me matado, até. Sabe-se lá como pensa um recém-marcado arrependido.
Mas, cara, às vezes, quando você tem a sorte de ser azarado – ? – a vida toda, você se acostuma a se foder, no bom e no mau sentido – se é que me entende – e isso foi muito bom.
Porque me acostumei à tatuagem. À marca. Ao cabelo colorido.
A ele.
E tudo o que eu espero é que a minha sorte não me separe de você. Pois convênhamos.
Ela é uma filha da puta.
Mas não podia ser melhor.
Fale com o autor